quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Música do dia: Charles Anjo 45, com Caetano Veloso e Jorge Ben

A verdade é a arte, os artistas têm salvo-conduto do sistema para dizer o que tudo mundo vê e não diz, porque pensa que não vê, porque não entende o que vê, porque vê uma coisa e pensa que vê outra, vê o que a ideologia enfiou na sua mente desde criança. Há muitas coisas a dizer sobre essa canção: sobre sua qualidade musical, sobre a Tropicália e sobre o Brasil, mas a primeira delas é que já está tudo aí, ela antecipa o Brasil de hoje. A gravação do Caetano, com participação do autor, é de 1969. São quase 60 anos, o Brasil entrava na segunda fase da ditadura militar, os anos de chumbo, e os versos já falavam da dominação dos "morros" pelo crime organizado, que hoje domina grande parte da economia e da política nacionais. É uma visão romântica e ingênua do crime, porque é assim que o morro o via, em parte vê ainda, porque é essa a sua origem. O Estado burguês capitalista não cuida dos trabalhadores e não está presente na vida do povo pobre. "Homens de verdade" ou "malandros otários", mas gente do povo, veem a oportunidade de ganhar dinheiro com atividades ilegais, policiais corruptos se ligam a eles, outros funcionários públicos idem, políticos, religiosos e principalmente grandes empresários dedicados a atividades ilegais. E assim surgiram e prosperaram organizações que matam milhares de jovens pobres sem oportunidades e iludidos. E surgiram e prosperaram milícias e tropas de elite, todos juntos e misturados no crime. Hoje, como mostram operações da Polícia Federal, esse Estado paralelo já está instalado no coração do sistema financeiro, a chamada "Faria Lima", e também nos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo. Aliás, quando falam em crime organizado, imprensa, cientistas políticos e comentaristas se referem equivocadamente às "facções criminosas". Na verdade, estas são a parte menos organizada do crime. A parte organizada de fato são os grandes empresários e políticos que os representam, os chamados liberais e a chamada extrema direita. É por isso que eles querem o "Estado mínimo", a liberalização de tudo, corte de impostos, privatizações etc., porque quanto menos Estado mais espaço para o crime crescer, mais Estado paralelo. Por sinal, tem uma expressão midiática desse Estado paralelo que usa nome praticamente idêntico. Ato falho. O principal candidato da oposição representa esse projeto político e econômico, essa ordem social corrompida. E tudo está à nossa vista desde os anos 1960, como mostra a canção, tão antiga que é do tempo em o autor ainda se chamava Jorge Ben. Era só ver, pensar e agir para transformar a realidade para melhor. Essa é a tragédia do "homem capitalista": acreditamos na ideologia do sistema, não na verdade que a arte nos mostra, e deixamos que o capital nos leve cada vez mais depressa para a autodestruição.  

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Música do dia: Um gosto de sol, com Milton Nascimento (MN e Ronaldo Bastos)

Imagina o que é ouvir Clube da Esquina pela primeira vez, em 1972, e depois de 15 músicas maravilhosas ouvir essa, esse piano, essa voz límpida mais uma vez, esses versos estranhos e belos, essas cordas no final. Inesquecíveis para sempre.

Declaração de voto

Vou votar no Lula, é claro, como sempre votei no segundo turno – e nunca no primeiro. Dessa vez, porém talvez vote no primeiro turno, porque não tenho outra opção, como tive em 98, 2002, 2018 e 2022, o Ciro, que é, de longe, o melhor político que o Brasil teve nas últimas três décadas, mas foi inviabilizado pela mediocridade e pela corrupção do lulupetismo. Votei nulo uma vez, em 1974, no auge da ditadura militar, e mesmo assim, se fosse hoje, provavelmente não votaria de novo. Há uma grande diferença entre votar e fazer, votar e defender ideias. O voto é individual, solitário e unitário, é uma armadilha da política burguesa -- e a ciência política sabe bem disso: uma armadilha inventada para burlar o poder popular que irrompeu da Revolução Francesa. Eu não sou estúpido e não vou negar meu voto ao Lula, não vou deixar de fazer a minha parte para impedir que um candidato fascista seja eleito. Isso é elementar. Não significa que eu vou deixar de criticar essa coisa corrompida que é o lulupetismo. Eleger Lula mais uma vez é muito pouco diante do que os trabalhadores brasileiros precisam. Corrupção não é roubar, embora roubar dinheiro público seja corrupção e o lulopetismo faça isso. Corrupção é muito mais e pior: é perder princípios, objetivos, compromissos, é deixar de ser o que deveria ser, deixar de fazer o que deveria fazer, transformar-se em coisa pior do que era, trair os interesses coletivos aos quais deveria servir, para os quais foi eleito e que são a razão da sua existência, e no seu lugar colocar interesses particulares, sejam os próprios, sejam os dos ricos e poderosos, em troca de vantagens e benefícios pessoais. Não foi só o Lula e os dirigentes do luopetismo que se corromperam, foram também os militantes, os mais aguerridos militantes de esquerda que escolheram acreditar na mentirada ideológica do Lula e se abster de criticá-lo, que preferem se curvar e seguir o "grande líder" a obrigá-lo a se curvar e defender os interesses populares, os seus interesses originais, os quais o tornaram o que é. Denunciar a corrupção lulopetista é obrigação de qualquer um do povo, assim como é dever dos políticos e ideólogos de esquerda apresentar um projeto de nação alternativo ao projeto neoliberal fascista. Votar no Lula para impedir a vitória de um candidato fascista, notoriamente corrupto e instrumento do crime organizado é um ato de sobrevivência. O que eu quero, porém não é um nem outro, é um governo popular, igualitário, democrático, que distribua poder e riquezas, que empodere os trabalhadores e possibilite que o que eles produzem fique com eles, não com os proprietários capitalistas. 

sábado, 1 de agosto de 2026

Eleição em Minas em 2026 é prévia da eleição nacional em 2030

A eleição em Minas é tradicionalmente retrato fiel do Brasil, porque o estado é uma espécie de média nacional. Este ano, ganhará uma característica adicional, por conta do cenário inesperado que se formou. Ela será muito diferente de eleições anteriores, porque o governador não pode ser reeleito e o vice, agora governador, que ele apoia, é fraco. Assim, perde-se a principal força, isto é, o poder eleitoral decisivo do Palácio da Liberdade. Para completar, o candidato preferido nas pesquisas, inexplicavelmente, não se lançou ainda e perdeu seu próprio partido, que decidiu apoiar outro candidato. 

Com tudo isso, a eleição ficou muito aberta, com vários candidatos aparentemente em pé de igualdade na preferência do eleitorado, isso antes de pesquisas que apresentem seus nomes. As dúvidas ficam em relação ao próprio candidato preferido, se vai se lançar ou não, e a outro candidato que tem apoio de muitos partidos e terá o maior tempo de propaganda. Afora isso, a eleição terá dois ex-prefeitos da capital, Kalil, que já foi candidato na última eleição, e Patrus, do PT, cuja candidatura significa uma retomada história do partido em Minas. E o bozoísmo não tem até agora um candidato, embora, é claro, algum, exceto os dois últimos, vá se oferecer a ele. 

Ou seja, a eleição em Minas toma a configuração, de certa forma, do que será a eleição de 2030, sem bozo e sem Lula, com novas candidaturas, novas articulações e candidatos que, embora recebendo apoio dos dois polos, terão de se afirmar por conta própria. Vai ser interessante observar como se comportarão os candidatos e como vai reagir o eleitorado. Será muito bom se os eleitores mineiros forem capazes de votar desprezando precocemente o que em 2030 será passado e escolherem considerando exclusivamente os candidatos em disputa e suas propostas. 

O PT tem um candidato digno e a oportunidade de realizar uma campanha comprometida com os interesses dos mineiros (o principal dos quais é enfrentar a mineração destruidora e corrupta) e com o futuro de Minas e do Brasil. Mesmo porque o futuro do Brasil sempre passou, no caminho, desde Pedro I, por Minas. Oxalá o faça! 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Corrupção, governo Zema, imprensa e mineração em Minas Gerais

Apesar das catástrofes de Mariana e Brumadinho, de repercussão internacional e prejuízos gigantescos e permanentes para Minas Gerais e para o Brasil, principalmente para a coletividade e para o ambiente, a destruição produzida pela mineração no estado aumentou exponencialmente nos últimos anos, com a corrupção das autoridades que deveriam coibi-la e o silêncio da chamada "grande imprensa", comprada pela publicidade farta e outros agrados. O caso mais escandaloso é o da Serra do Curral, em Belo Horizonte. Tá tudo dominado, exceto, aparentemente, a Polícia Federal. 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Música do dia: Emanuelle, com Marie Espinosa e Quentin Bachelet

Gosto muito da música, mas confesso que a razão de publicar este vídeo é a beleza de Marie Espionsa.

 

Elias Jabbour para presidente

O título é uma provocação, é claro, mas certamente o Brasil estaria melhor se ele governasse e não Lula. Vladimir Safatle, Jones Manoel e Elias Jabbour são os políticos mais lúcidos do Brasil hoje. Muito diferentes, eles convergem no amplidão do seu conhecimento e na capacidade de pensar com a própria cabeça, para além de repetirem cartilhas e reverenciarem o Lula, que é o que a esquerda brasileira fez no último meio século. Dessa forma, eles conseguem ver a realidade nacional e mundial, porque, em 2026, é impossível olhar o Brasil sem olhar ao mesmo tempo o mundo. Elias Jabbour, em especial, é um sujeito admirável, pela sua origem, condição individual e trajetória, as quais conta nessas entrevistas. Isso já o torna digno de respeito, mas o mais importante é sua posição sobre o desenvolvimento econômico contemporâneo, baseado no seu conhecimento da experiência chinesa. Gostaria muito de vê-lo com poder no governo nacional, não esse poder miúdo de ministros e até presidente e governadores, num eterno toma-lá-dá-cá, que não enxerga um palmo além do nariz, mesquinho e imediatista, que não pensa no futuro nem no povo, mas num governo nacional verdadeiro, com planejamento, racionalidade e busca do bem-estar geral. Me impressiona que ele não tenha até hoje (essa série de entrevistas é uma tentativa medíocre de fazer isso) uma assessoria competente que o ensine a dar entrevistas, ordene seu pensamento (muito rico e por isso confuso), o interrompa sempre que necessário e reoriente suas respostas, ajude-o a falar com mais calma e outras qualidades necessárias aos políticos. Afinal, ele tem 50 anos e é candidato a deputado federal. Jabbour é o avesso do Lula, que fala esplendidamente, mas não tem conteúdo. Ele tem a honestidade que falta aos políticos desse eterno centrão brasileiro, do qual fazem parte, inacreditavelmente, a extrema direita e a pretensa esquerda.