Fiquei estupefato com essa reportagem absurda da BBC News Brasil, que tanto elogio. Depois de listar supostos problemas da economia do Japão e afirmar que ela está "estagnada", a repórter diz que, "apesar de tudo isso, não tem nenhum protesto nas ruas". "Parece que vai tudo bem": a criminalidade é muito baixa, a expectativa de vida é muito alta, a inflação é mínima, o desemprego também, a educação é excelente, a saúde também. Ou seja, qualidades viraram defeitos, que impedem a população de reagir. Uma inversão completa.
Um "defeito" dos japoneses que torna ineficazes medidas econômica governamentais é que eles preferem poupar e se prepararem para o futuro a consumir freneticamente e se endividar, como os americanos e povos que seguem seu modelo. No Brasil mesmo isso aconteceu nas duas décadas do Plano Real e do governo Lula. A ideologia justifica tudo e na época considerava uma maravilha que os pobres tivessem entrado no "mercado de consumo". Como se viu, não durou e hoje o endividamento dos trabalhadores é tão grande que o governo liberou o FGTS para pagamento de empréstimos consignados. Se isso fosse feito por um governo de direita, seria denunciado como um crime contra os trabalhadores, assim como foi a reforma trabalhista de temer e do bozo, mas como foi cometido por um governo "de esquerda" e tolerado pelas centrais e sindicatos dos trabalhadores. Afinal, é para isso mesmo que servem os governos do PT, para tomar medidas a favor do capital e contra os trabalhadores sem que estes reajam.
Outro suposto problema do Japão é que sua população está diminuindo; foi a primeira nação desenvolvida em que isso aconteceu, o que poderia ser um indicador de que o Japão está na vanguarda. Num mundo em que o consumo crescente e estimulado destrói a Natureza e a população humana cresce aumentando o consumo e a destruição, o decréscimo populacional me parece ser uma boa notícia. Para a matéria, porém é mais um aspecto da situação "complexa" do Japão "estagnado". A produtividade dos trabalhadores japoneses é baixa porque "tem muita gente empregada", se houvesse desemprego, se as empresas trocassem gente por robôs, a produtividade aumentaria, sugere a matéria. Uma espantosa analista britânica diz que no Japão a gente encontra "seis pessoas orientando o trânsito", ou seja, trabalhando, mas isso é desnecessário. Elas poderiam ser demitidas e substituídas por robôs, deduzimos.
A mesma analista afirma que o governo japonês tenta fazer a economia "pegar no tranco", estimulando o consumo e baixando juros, mas não consegue. A impressão que dá é que a vida no Japão está miserável, para que seja necessário o crescimento que a BBC News Brasil e suas fontes querem, mas não está, o povo está satisfeito, como a própria matéria mostra. O "problema", portanto, não existe para as pessoas, para os trabalhadores, para os japoneses, o problema existe para o capital, porque, para o capital, a economia só vai bem se há crescimento, porque crescimento significa lucro, capital só existe crescendo permanentemente, e quanto mais melhor, para o capital, e para seus escravos de luxo, os capitalistas.
Esta é a questão e é uma questão ideológica, é assim que o capitalismo funciona. Mesmo os ideólogos marxistas, supostos inimigos do capital, concordam que a economia precisa crescer. O que significa que, na prática, são capitalistas, porque o que promove o crescimento é o capital, sua expansão permanente: dinheiro que não aumenta no fim da sua aplicação não é capital, é só dinheiro, equivalente geral, meio de troca. O crescimento é bom, o desenvolvimento é bom, o progresso é bom, o capital é bom -- essa é a nossa ideologia, a ideologia do sistema capitalista, e todos nós acreditamos nisso, inclusive os marxistas. A diferença é que os marxistas querem que o capital esteja sob controle do Estado. Pois bem, a China está fazendo isso. A China "comunista" é uma nação comunista ou capitalista?
Eu fico imaginando por quantos cursos passou e quantas línguas fala essa repórter evidentemente muito qualificada para dizer uma estupidez assim. Não é ironia, nenhum jornalista trabalha na BBC se não for muito qualificado, e ela efetivamente se qualificou para falar isso, que é uma expressão da ideologia capitalista. Ter uma vida boa (emprego, renda, educação, saúde, segurança, ou seja, os famosos "indicadores") é o que as populações de todas as nações querem, mas se a economia não cresce como crescia, se as fábricas não substituíram gente por robôs, se as empresas não promoveram desemprego em massa, se os computadores ainda usam disquetes e os faxes ainda estão em operação, então o país está atrasado. Até as tampas de bueiros japonesas são questionadas na matéria.
A reportagem poderia mostrar o contrário, como os japoneses estão satisfeitos com sua vida, apesar de o Japão não acompanhar a loucura de "modernização" de outras nações; poderia apontar os "sinais de atraso" e por que eles não prejudicam a qualidade de vida, ao contrário, contribuem para ela. Entretanto, faz o discurso ideológico da modernização como um objetivo em si. A repórter sequer percebe o ridículo que é falar em "parar no tempo" referindo-se a um período de duas décadas para uma civilização milenar. Quem sabe, abordando isso, não poderia fazer matéria muito mais relevante sobre como a cultura japonesa se impõe sobre a ocidentalização e cria até uma alternativa sábia à destruição frenética da vida pelo capitalismo?
A matéria também não pode afirmar, embora nos deixe depreender isso, que o Japão é um títere americano, que foram os EUA que despejaram capitais para reerguer a nação asiática depois de despejarem bombas atômicas sobre sua população, que significaram o fim da Segunda Guerra Mundial. E que, mais tarde, quando sua economia se tornou a segunda maior do mundo, superada apenas pela americana, a obrigaram a reduzir a competitividade dos seus produtos. A matéria, enfim, não mostra muitos aspectos desse contextos que ajudariam a compreender melhor o Japão. Prefere o apelo sensacionalista, como toda "boa" matéria, para capturar o público, porque a BBC News Brasil faz parte de um "mercado" que disputa telespectadores e busca "sucesso".
Eu seria ingênuo se pensasse que isso é feito simplesmente porque um jornalista pensou essa pauta e sua chefia aprovou. E seria maniqueísta se dissesse que a matéria foi pautada com um objetivo preciso de atender a determinado interesse. Uma matéria é sempre uma escolha. Minha experiência jornalística me ensinou que no topo das empresas jornalísticas está uma elite intelectual ideológica que orienta o conteúdo produzido. Não é uma ditadura, não tem censura, talvez não tenham sequer um "manual", como fizeram jornais brasileiros há algumas décadas (imagino que ainda existam). É um modelo de produção que vai moldando os profissionais para seguirem determinada linha, porque tal pauta é "boa", outra é "ruim", e todo jornalista quer fazer uma boa matéria com repercussão.
O fato é que a matéria afirma que o Japão parou no tempo porque não seguiu a modernização tecnológica com desemprego em massa e baixos salários que o capitalismo impõe no mundo inteiro, e esta é a mensagem. É assim que a ideologia funciona e é assim que a imprensa, até a melhor
dela, contribui para formar a mentalidade que leva a espécie humana para
a catástrofe.