terça-feira, 1 de setembro de 2026

Música do dia: O dia em que o morro descer e não for carnaval

Há alguns anos escrevi uns versinhos que têm ideia semelhante: 

no dia que o morro descer  

não vai ter

casa-grande nem casamata 

pra canalha se esconder. 

A letra do Paulo César Pinheiro, porém é muito mais elaborada e acrescenta uma ideia genial: "e não for carnaval". Estou desenvolvendo um ideia sobre o soviete brasileiro: o samba. O sambista é o brasileiro, o malandro é o brasileiro, o trabalhador obviamente é o colonizado com mentalidade europeia. A chamada esquerda, que na verdade é direita hoje, a chamada "direita democrática", porque só não vê que Lula e o PT são de direita quem é cego, cegueira que tomou conta dos brasileiros gradativamente nas últimas cinco décadas, no Brasil a disputa é entre extrema direita e direita, nem centro existe mais. A chamada esquerda, que na verdade é direita, é colonizada, tem a mentalidade dos colonizadores europeus, acredita no trabalho e serve ao capital. Brasileiro é o indígena, brasileiro é descendente do africano, o malandro, sambista, favelado, brasileiro é Macunaíma. Tem mais de cem anos que a gente sabe disso, mas a mentalidade colonial é dominante. E vai fazer cem anos que o Brasil começou a ser inventado como nação, mas há cinquenta começou a ser desinventado. Por quem? Pela "esquerda democrática", que não é esquerda nem democrática, é a direita burguesa que capitulou ao neoliberalismo e transformou o Brasil na terra dos irmãos Batistas. Quem quiser conhecer, ouça O berro do boi, uma série de programas excelente da jornalista Consuelo Dieguez, da revista piauí do banco Itaú e da Trovão Mídia, que não sei de quem é. Voltando à música do dia, a questão é que a esquerda não entendeu que o samba é o soviete brasileiro e agora o povo brasileiro está trocando o samba pela música gospel, a igreja católica pelas evangélicas e a esquerda que é direita pela extrema direita. Nosso futuro é cada vez mais tenebroso, o melhor Brasil ficou para trás e foi entre os anos 1930 e 1968. Só uma revolução dos malandros, indígenas e macunaímas pode mudar isso, mas é mais fácil imaginar uma revolução (ou será contrarrevolução?) dos evangélicos.  

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Compositor do dia: Wilson Batista, com Cristina Buarque e convidados

Quando eu penso que já conheço tudo, meu amigo Guimba, experto no assunto, me chama atenção para Wilson Batista e descubro isso. Eu o conhecia, principalmente da famosa polêmica com Noel Rosa e mais alguma coisa, mas ignorava sua obra genial. Me impressionam, como sempre, as melodias, mas ele é muito mais, é um cronista da época mais grandiosa da história do Brasil. WB está no topo do samba, não só suas melodias são lindas, mas também as letras são primorosas. Ele tem parceiros, por isso não sei e gostaria de saber como compunha, se foi um poeta inspirado ou só autor de melodias, como na parceria com o Noel. Não me canso de repetir que a maior riqueza do Brasil é a música popular. Estudando os sambas do WB, por exemplo, um acadêmico pode analisar a história do Brasil. Sem ter o talento criativo do irmão talvez, Cristina Buarque se dedicou a um trabalho tão importante quanto: gravar e eternizar grandes sambistas. Nesse disco ela faz mais uma vez o que eu sempre lamentei que as grandes cantoras brasileiras não tenham feito: gravar songs books dos maiores compositores brasileiros, coisa que Ella Fitzgerald fez com Cole Porter, por exemplo, nos dando álbuns magníficos. 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Uma aula de história do Brasil do século XXI

Jornalismo bem feito é uma mistura de arte e ciência. O capitalismo é uma maravilha para o desenvolvimento material humano, não de todos os humanos, porém. Nem para os animais. Nem para os vegetais. Nem para a terra. Nem para a água. Nem para o ar. Nem para a Terra, enfim. O capitalismo é uma maravilha do individualismo. Veja, na história dos irmãos Batista, o que o esforço, a inteligência e o trabalho de indivíduos são capazes de realizar. Esforço individual e familiar. Veja também a participação do Estado no esforço individual dos capitalistas. A JBS cuida esplendidamente dos seus bois para tirar o máximo deles, com tecnologia de ponta, métodos modernos, aproveitamento de 100% do animal (exceto o berro, que fica por conta da música sertaneja); o abate é indolor para que a carne fique macia (boi estressado tem carne mais dura e é menos valiosa). Em resumo, o agro é um negócio de ponta, o Brasil não está andando para trás inteiro, parte dele progride como nunca. É claro, no fim de uma vida bem cuidada, o boi morre. Os funcionários da JBS também morrem no fim de uma vida de trabalho e nem por isso são bem tratados: não recebem os mesmos cuidados que a empresa dá ao gado. A JBS entrou na lista suja do trabalho escravo, o que prejudicaria seus negócios, especialmente a exportação, mas apelou ao governo e o ministro do Trabalho a tirou dela. O Estado brasileiro, como acontece em todas as nações capitalistas, ajuda suas grandes empresas. Afinal, são elas que mandam no Estado, de uma forma ou de outra. O Brasil de 2026 é o Brasil do agro e o agro é de extrema direita, isso explica não só o crescimento econômico nacional, que acontece no interior, e os erros dos economistas que estão em São Paulo, como diz um dos irmãos Batista em entrevista, mas também a força da candidatura de um sujeito inexpressivo. A última dos diversificados negócios dos irmãos Batista, que agora estão nos EUA, é que entraram na indústria de armamentos, compraram a Avibrás, também com ajuda do Estado, é claro. Não é uma boa notícia, o êxito dos irmãos indica a expansão dos conflitos armados. A ajuda do Estado não os desmerece, é assim que funciona o capitalismo, para uma empresa ou para outra, para a que demonstrar mais apetite e tiver mais amigos no poder, e eles são simpáticos. Enfim, é uma história exemplar do capitalismo em geral e, em particular, do Brasil nas últimas décadas. E do que são os governos do PT e do Lula. O ex-operário e o partido dos trabalhadores dirigem o Estado capitalista, o que significa que, entre o trabalhador e o patrão, estão com este. Como mostra o episódio da lista suja. Por que os trabalhadores da JBS votariam no Lula e no PT, pelo menos aqueles cujos direitos trabalhistas não são respeitados? A reportagem da Piauí é uma aula de história contemporânea, um retrato do Brasil. O bom jornalismo faz isso sem gritar, sem denunciar, sem sensacionalismo, apenas narra a história, nos dá informações. O capitalismo cria maravilhas e os capitalistas realizam grandes coisas e se tornam os seres humanos mais importantes da história, ao mesmo tempo em que promovem a destruição da Terra e a escravização dos trabalhadores. Não há nenhum julgamento moral nisso, apenas é assim. Trata-se de escolher se é o que queremos, enquanto a ideologia alega que a destruição e a escravização (que obviamente negam, usando eufemismos) são os custos do progresso, e quem não quer progresso? Sim, trata-se de escolher uma alternativa ao progresso, porque progresso é isso, a produção de riquezas para gozo dos capitalistas com sobras para os privilegiados, à custa da Natureza e do trabalho escravo de 99, 99% dos humanos, ou mais. Vale a pena ouvir a série inteira, há episódios ainda melhores.   

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Música do dia: Feitiço da Vila, Noel Rosa

A gravação é excelente, antiga, não sei se com o próprio Noel. A MPB, que é a melhor coisa que os brasileiros produziram, tem dois gênios acima de todos os outros: Tom Jobim e Noel Rosa. 

domingo, 23 de agosto de 2026

Cuba, Gaza, Irã, Venezuela...

O império decadente faz vítimas os povos que não se submetem a ele. O mundo assistiu impassível ao genocídio dos palestinos, agora assiste ao genocídio dos cubanos. O poder bélico estadunidense é muito grande, o uso da força aumenta com a decadência econômica e ideológica. Era mais suave a dominação quando roliúde nos seduzia com suas fantasias românticas. 

Tributo a Ciro Gomes

É lamentável que Ciro Gomes não esteja na disputa presidencial deste ano. É lamentável e um retrato da mediocridade que tomou conta da política brasileira. Escolher entre mais do mesmo que não nos deu nada em um quarto de século e um representante do crime organizado que quer transformar o Brasil em colônia dos EUA é o fim da linha. Os analistas temem afirmar isso, por enquanto, mas eu vou dizer qual é o meu pressentimento: se houver segundo turno, como as pesquisas indicam, o bozo jr. vai ser eleito. Tivemos quatro anos para reverter o golpe de 16 e o governo do bozo pai, mas nada foi feito. No seu terceiro mandato, Lula mostrou toda sua pequenez e afundou ainda mais o Brasil. Os brasileiros vão votar para continuar isso? Acho que não. A disputa acirrada diz muito sobre o governo que está terminando. Perder a eleição para um candidato tão desqualificado será um triste fim de um político que começou recebendo todas as esperanças dos trabalhadores brasileiros. Têm sorte os cearenses, que terão como governador o melhor político que o Brasil produziu na minha geração, o único talvez que há três décadas apresenta um projeto para desenvolver o país. Os governos do Lula e do PT prepararam o Brasil para o bozoísmo e para a neocolonização. O que estou dizendo é uma antecipação do que dirão os historiadores. O que os impede de dizer desde já é a política, é a vontade geral de que o pior não aconteça. Oxalá.

O gol mais bonito, o melhor futebol do mundo

O mais incrível é que os artistas são desconhecidos, sumiram na história do futebol. O que eu disse para a música popular brasileira vale para o futebol popular brasileiro: basta fazer um gol, uma obra-prima, para que sua vida seja justificada. Esses, apesar da má qualidade das imagens, estão gravados. Imagina quantos gols maravilhosos só foram vistos ao vivo e não têm qualquer registro. Reinaldo, por exemplo, é o maior jogador que eu vi jogar e quase não tem registros da sua arte. E Garrincha? E os craques do futebol antes de televisão? E os craques do futebol amador?  

Música do dia: Artigo 26, Ednardo

Sempre penso que  basta ao compositor compor uma grande música e sua vida já está justificada -- esta, por exemplo. No entanto, o Brasil tem tantos compositores com várias obras-primas -- Ednardo, por exemplo. Que época criativa foi aquela terrível dos anos de chumbo. No ambiente da mais intensa repressão, Ednardo e o Pessoal do Ceará fizeram maravilhas. E o Clube da Esquina. E os Novos Baianos. E Secos & Molhados. Até Erasmo Carlos compôs suas melhores músicas. E pérolas do brega, Odair José, por exemplo, que hoje, comparado aos "sertanejos" e "pagodes", parece sofisticado. Sem falar do Som Imaginário, Terço, Sá, Rodrix e Guarabira, Moto Perpétuo, 14 Bis. Sem falar dos excepcionais: Chico, Paulinho, Mutantes, Gil, Caetano, Toquinho, Raul. E o samba do morro: Cartola, Nélson, Ismael... E a Bossa Nova: Carlos Lira, Vinicius etc. Sem falar em Lupicínio. Sem falar nos gênios: Pixinguinha, Jacob, Jackson, Moacir Santos, Ari Barroso, Caymmi... Sem falar no maior de todos: Tom. Sem falar nos que já tinham morrido quando eu nasci: Noel, Assis... E sem falar nos que eu esqueci. Para todo lugar do Brasil que se olhe, desde o século XIX até o começo dos anos 1980, a gente encontra música genial. E ainda hoje, temporões, como essa maravilhosa Maria Clara Valle. Esse foi o melhor Brasil, o da música popular. Foi, porque acabou, assim como a Natureza e o futebol. Natureza, incluindo os indígenas, futebol e música popular são o que houve de melhor por aqui. Essa vai para o Geraldo, padeiro de São Gonçalo do Rio das Pedras, que às sete da manhã de qualquer dia, domingo a domingo, monta na sua moto e sai "de casa em casa, entregando o pão". 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Meu partido é...

Marque a opção certa: 

-os Estados Unidos 

-Israel 

-o meu bolso 

-a rachadinha 

-a minha família 

-o crime organizado 

-o orçamento secreto 

-a imunidade parlamentar 

-o paralelo 

A campanha presidencial de 2026 começou patética. Um candidato à reeleição que evoca o passado, quando ele era uma promessa política que se frustrou, e outro candidato que promete transformar o Brasil em colônia dos Estados Unidos. Um candidato é um criminoso notório e, a exemplo do pai, não tem nenhum pudor em defender os interesses do crime organizado. O outro, ex-operário, é um líder que veio do povo e se tornou o mais eficiente político do capital. Sem saber, ambos expressam a única verdade da política brasileira: os trabalhadores nunca tiveram voz nem poder neste país. Mais uma vez os brasileiros irão às urnas para escolher entre continuar na merda ou afundar nela de vez.