terça-feira, 22 de setembro de 2026

Da Lagoinha para o mundo

Excelente. Quando o jornalismo encontra o humor. A revolução brasileira contará com os humoristas e terá muito humor.

domingo, 20 de setembro de 2026

Música do dia seguinte: Something (George Harrison, The Beatles)

Alguma coisa no jeito como ela se move me atrai como nenhuma outra mulher, alguma coisa no jeito como ela me seduz... 

É um belo clipe. Como quase todas as canções dos Beatles, tem histórias. Todos os quatro foram filmados com suas mulheres, cada um num lugar: eles já tinham se separado então. E as mulheres são muito diferentes, embora a grande diferença seja entre Yoko e as outras. E é ela a mulher mais importante, embora Linda tenha seu lugar de destaque ao entrar na nova banda do Paul, o que Yoko fez também, mas Yoko teve uma influência criativa decisiva sobre John, o que não sei se Linda teve. Maureen foi a mulher de Ringo durante todo o período dos Beatles, mas a personagem principal da música é Pattie Boyd, a mulher do George e musa inspiradora da canção. Dizem que John considerava Something a música mais bonita do álbum que é a obra-prima da banda. E o Paul também fez grandes elogios. É uma gravação primorosa, uma música que não se cansa de ouvir e os primeiros versos e outros são daqueles que lembram imediatamente a mulher amada. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Música do dia: Gente, Caetano Veloso

Ontem vivi uma experiência e tanto. Deveria ser normal e aqui é normal, mas eu não sabia, descobrir isso melhorou minha opinião sobre a espécie humana e minha esperança no futuro. Perdi meu cartão de banco (não é de aproximação) em Milho Verde, ele foi encontrado e entregue em um restaurante, a funcionária divulgou em rede social, um morador de MV que eu conheci ontem contatou o motorista do ônibus para São Gonçalo para que esperasse, a funcionária levou o cartão para ele e ele o trouxe para mim, deixou-o na padaria, onde o peguei no começo da noite. Pelo menos cinco pessoas boas e sem nenhum interesse colaboraram para fazer o bem a um desconhecido e muitas outras procuraram ajudar também. Se aqui é assim, por que o mundo não pode ser? Pode, eu sempre acreditei nisso, a vida inteira ouvi o sistema dizendo para não acreditar, e hoje mais do que nunca, e esse fato que aconteceu comigo, não me contaram, confirma que tenho razão. É o que eu faria, é o que outros fazem, muitos, a maioria certamente, quase todos talvez, aqui é normal, já foi assim em outras partes, era assim no bairro em que cresci na cidade grande. É o capitalismo que corrompe as relações humanas quando transforma tudo em mercadoria e o lucro no objetivo da vida. Gente não é mercadoria, afetos não são mercadorias e a vida não é para enriquecer, é para viver. A gente vive bem quando faz o bem aos outros e recebe em troca. "And in the end the love you take is equal to the love you make." 

Sou o oposto zodiacal exato do Caetano e tenho ideias diferentes. Me interessa a gente anônima, a que brilha na intimidade, nas relações com outras gentes anônimas. Morrer de fome como oposição a brilhar não é uma ideia que me agrada, mas gosto das outras imagens, especialmente de gente lavado roupa e amassando pão. Sobre isso "Um índio" é melhor, mas Gente é um retrato amoroso da espécie. 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Música do dia: Golden slumbers, Carry that weight, The End (Paul McCartney, The Beatles)

Escolha a sua versão ou ouça as três, todas são excelentes, o que é uma coisa muito difícil em música, uma versão que se iguala à original em qualidade artística. Sobre essa canção, na verdade sequência de canções, é preciso dizer que têm um significado profundo na história dos Beatles, que expressam o gênio musical do Paul, a excelência do quarteto tocando e cantando junto e, acima de tudo talvez a obra-prima do George Martin, "o quinto Beatle", que costurou e arranjou as músicas. Algumas palavras especiais: o Ringo arrasa no solo de bateria. O solo de guitarra três em um, dos três sucessivamente, é fantástico. E o piano? Nesses dias em que estou escutando muito essa sequência, ando pensando que ela é a obra-prima dos Beatles, num disco que é uma obra-prima. E tenho de reconhecer que John, o maior do Beatles, tem participação pequena nela, não mais que George e menos do que Ringo, embora todas sejam importantes, porque, nos Beatles, como em geral nas artes coletivas, o que fez diferença foi exatamente a combinação dos talentos. Golden slumbers etc. é sobretudo mérito do Paul e do George Martin, que a transformaram numa obra sinfônica, rica em detalhes, enriquecida com instrumentos de orquestra e arranjos belíssimos.   

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Um telejornal matutino imprescindível

Jornalismo é uma atividade muito interessante e quando é bem feito é quase uma obra de arte, mas talvez a ideia mais ampla de arte seja justamente essa, qualquer coisa que é feita com esmero, buscando a perfeição. No caso, não é uma reportagem, é um programa diário, um telejornal. Esse ICL Notícias primeira edição, acho que é esse o nome, é um desses casos. Por que é excelente? Primeiro, porque tem o objetivo claro, e a liberdade, de fazer jornalismo. Essa é a primeira condição. Evidentemente não basta, mas é preciso que o dono, o patrão, queira, para que aconteça. Em seguida vem a equipe e ela precisa ter profissionais com várias qualidades diferentes e essas qualidades precisam combinar. Foi o que o ICL fez e o resultado é um telejornal excelente todas as manhãs. A veterana Heloísa Vilela brilha como nunca brilhou antes e diz o que nunca pôde dizer antes (no caso do ministro Dias Tofoli, diz ela: o STF praticou crime de prevaricação coletiva). O repórter Paulo Motoryn também é excelente, o apresentador idem e inúmeros participantes, como a Juliana Dal Piva. E assim a gente pode, em vez de ler um jornal de manhã cedo, como fazíamos antigamente, ouvir e ver um excelente telejornal, que se torna imprescindível.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Música do dia: O dia em que o morro descer e não for carnaval

Há alguns anos escrevi uns versinhos que têm ideia semelhante: 

no dia que o morro descer  

não vai ter

casa-grande nem casamata 

pra canalha se esconder. 

A letra do Paulo César Pinheiro, porém é muito mais elaborada e acrescenta uma ideia genial: "e não for carnaval". Estou desenvolvendo um ideia sobre o soviete brasileiro: o samba. O sambista é o brasileiro, o malandro é o brasileiro, o trabalhador obviamente é o colonizado com mentalidade europeia. A chamada esquerda, que na verdade é direita hoje, a chamada "direita democrática", porque só não vê que Lula e o PT são de direita quem é cego, cegueira que tomou conta dos brasileiros gradativamente nas últimas cinco décadas, no Brasil a disputa é entre extrema direita e direita, nem centro existe mais. A chamada esquerda, que na verdade é direita, é colonizada, tem a mentalidade dos colonizadores europeus, acredita no trabalho e serve ao capital. Brasileiro é o indígena, brasileiro é descendente do africano, o malandro, sambista, favelado, brasileiro é Macunaíma. Tem mais de cem anos que a gente sabe disso, mas a mentalidade colonial é dominante. E vai fazer cem anos que o Brasil começou a ser inventado como nação, mas há cinquenta começou a ser desinventado. Por quem? Pela "esquerda democrática", que não é esquerda nem democrática, é a direita burguesa que capitulou ao neoliberalismo e transformou o Brasil na terra dos irmãos Batistas. Quem quiser conhecer, ouça O berro do boi, uma série de programas excelente da jornalista Consuelo Dieguez, da revista piauí do banco Itaú e da Trovão Mídia, que não sei de quem é. Voltando à música do dia, a questão é que a esquerda não entendeu que o samba é o soviete brasileiro e agora o povo brasileiro está trocando o samba pela música gospel, a igreja católica pelas evangélicas e a esquerda que é direita pela extrema direita. Nosso futuro é cada vez mais tenebroso, o melhor Brasil ficou para trás e foi entre os anos 1930 e 1968. Só uma revolução dos malandros, indígenas e macunaímas pode mudar isso, mas é mais fácil imaginar uma revolução (ou será contrarrevolução?) dos evangélicos.  

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Compositor do dia: Wilson Batista, com Cristina Buarque e convidados

Quando eu penso que já conheço tudo, meu amigo Guimba, experto no assunto, me chama atenção para Wilson Batista e descubro isso. Eu o conhecia, principalmente da famosa polêmica com Noel Rosa e mais alguma coisa, mas ignorava sua obra genial. Me impressionam, como sempre, as melodias, mas ele é muito mais, é um cronista da época mais grandiosa da história do Brasil. WB está no topo do samba, não só suas melodias são lindas, mas também as letras são primorosas. Ele tem parceiros, por isso não sei e gostaria de saber como compunha, se foi um poeta inspirado ou só autor de melodias, como na parceria com o Noel. Não me canso de repetir que a maior riqueza do Brasil é a música popular. Estudando os sambas do WB, por exemplo, um acadêmico pode analisar a história do Brasil. Sem ter o talento criativo do irmão talvez, Cristina Buarque se dedicou a um trabalho tão importante quanto: gravar e eternizar grandes sambistas. Nesse disco ela faz mais uma vez o que eu sempre lamentei que as grandes cantoras brasileiras não tenham feito: gravar songs books dos maiores compositores brasileiros, coisa que Ella Fitzgerald fez com Cole Porter, por exemplo, nos dando álbuns magníficos.