segunda-feira, 6 de julho de 2026

Como escapar do capitalismo

A economista italiana Clara Mattei diz praticamente o que eu penso sobre o mundo contemporâneo. Ela não apenas retoma Marx, mas também cita (não nominalmente) o brasileiro Rui Mauro Marini e sua teoria da dependência (que inclui outros pensadores, tais como Vânia Bambirra e Teotônio dos Santos). Não é difícil chegar ao que eu penso, os cientistas políticos, econômicos e sociais nos ajudam, mas basta olhar em volta, olhar para nós mesmos. O grande mérito do Marx foi ter enxergado o capitalismo sem ideologia, daí fez o retrato magnífico de O Capital, mas quem leu? Os marxistas russos leram e outros também, fizeram até revoluções, adaptando-o para a ação política; alguns foram vitoriosos, outros derrotados. No século XX, o capitalismo reformado, que sobreviveu a duas guerras mundiais, à crise de 1929, ao fascinazismo e às revoluções comunistas, domesticou o marxismo, tornando-o acadêmico, mas o neoliberalismo e o neofascismo do século XXI estão fazendo com que o pensamento revolucionário renasça. É assim no Brasil, é assim no mundo. Como explica brilhantemente Safatle, liberalismo e fascismo são duas faces da mesma moeda: a ordem capitalista. As nações periféricas sempre viveram sob o fascismo, os trabalhadores sempre viveram sob o fascismo, que só ganha esse nome quando é implantado nas nações centrais e atinge as classes ricas do capitalismo. Completa Mattei: a democracia liberal é a democracia em que os ricos mandam. É interessante ouvir Clara Mattei falando em orçamento participativo e citando explicitamente as experiências brasileiras. Foi o que me fez acreditar no PT dos governos municipais do Patrus e do Célio, depois gradativamente desmobilizado pelo Pimentel e enterrado pelo Lacerda, o prefeito de merda (a gente não imaginava que ia feder cada vez mais nas administrações seguintes). O orçamento participativo era revolucionário, porque tocava na questão central do capitalismo: quem decide para que vai o dinheiro do Estado. Era muito para o PT, um partido que em seguida abandonou o empoderamento popular, quando Lula assumiu a presidência, e passou a governar para o capital, legitimando o poder  burguês do Congresso Nacional, controlado pelas classes proprietárias dominantes e endinheiradas. É interessante também ouvir Clara Mattei colocando a estatística no seu lugar: os analistas sempre falam no "1% mais rico da população", eu discordava e escrevia 0,01%; Clara Mattei vai além, fala em 0,0001%. A concentração de renda e poder no capitalismo é muito maior do que da ordem de 1%. A questão principal, porém, da qual eu falo há décadas e que ela sustenta, é que a dominação do capital não se dá só pela força nem só pelo governo nem só pelos proprietários, ela começa em nós mesmos, que aderimos ao capitalismo e fazemos a nossa parte para mantê-lo vivo. É uma dominação ideológica. Enquanto gostarmos dele, acreditarmos nele e estivermos conformados com ele, o capitalismo continuará vivo. Todo o esforço da ideologia capitalista é esse, para nos manter presos no sistema, pensando que não é possível mudá-lo e que seus valores são bons, que os problemas que enfrentamos são defeitos e que os culpados somos nós mesmos, que não nos esforçamos bastante, não fizemos as coisas certas etc. Enquanto mantemos o foco no indivíduo e vivermos buscando o sucesso individual, o capitalismo seguirá em frente, porque ele se baseia nisso, na nossa motivação para o consumo, que é a expressão material do sucesso. Afinal, o que é o capitalismo? Não é preciso ser doutor em economia para saber, basta olhar para nós mesmos e para o mundo ao redor para compreender. O capitalismo é o sistema econômico baseado no lucro, na produção em busca do lucro. E o que significa isso? Produzir cada vez mais, pois só assim existe lucro, e destruir cada vez mais e concentrar cada vez mais as riquezas nas mãos de poucos e aumentar a pobreza, a miséria, a fome. E a violência para manter as desigualdades e os trabalhadores no submissão. A essa altura da civilização, do desenvolvimento científico e tecnológico e da destruição da Terra, a nossa mãe, o único planeta com biodiversidade e condições ambientais para a vida, o Homo sapiens precisa compreender que a vida só pode continuar abolindo esse sistema insano e criando uma nova forma de viver em sociedade e em harmonia com as outras espécies e a Natureza.   

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Ipês do campus

Julho, mês dos ipês. BH tem muitos, esses são do campus da UFMG.

 

Música do dia: Ternura, com Roberto Carlos

Sempre gostei dessa música, mas nos últimos anos ela ganhou um significado especial. Eu expresso ideias e sentimentos simples pela música, às vezes compondo melodias rudimentares para acompanhar versos, mas principalmente cantarolando alguma canção que contém uma frase afim. A MPB é definitivamente a melhor coisa que os brasileiros produziram, apesar do deprimente horror dominante atual. Até em versões o talento musical brasileiro se revela, como nas pérolas do Haroldo Barbosa; Rossini Pinto, o autor dessa, também foi craque. A gravação original é da Wanderléa, mas é Roberto Carlos quem a canta lindamente. Compositor medíocre, uma vez ou outra bom, ele mostra que é, acima de tudo, cantor, formado sob a influência do João Gilberto. Não exagera e não inventa, como gostam de fazer em geral os cantores e as cantoras que possuem belas vozes, derrapa só uma vez, levemente; quase declama, de forma que a gente até pensa que ele está sentindo o que canta. 

sábado, 27 de junho de 2026

Salvar o SUS e torná-lo excelente

A esquerda brasileira realizou essa grande obra que é o SUS, mas isso já tem quatro décadas. A Constituição de 1988 foi o ápice da democratização do Brasil. Desde então, aqueles que deveriam conduzir o país para o desenvolvimento econômico e a justiça social, isto é, o PSDB e o PT, aderiram ao neoliberalismo e os avanços democráticos foram só retrocedendo. Não basta salvar o SUS, que está sendo engolido pela iniciativa privada, é preciso torná-lo tão bom quanto o melhor plano de saúde privado. Da mesma forma a educação pública, o transporte coletivo, a moradia etc. Quando os neoliberais começaram a privatizar tudo, disseram que ia sobrar dinheiro para o Estado investir nos serviços essenciais. Estavam mentindo deliberadamente, para enganar o povo. Só sobrou dinheiro para pagar os juros dos banqueiros, dar subsídios para o agrotoxiconegócio, incentivar mineradoras, enfim, dinheiro público para o capital. Os canalhas dizem que o Estado é ineficiente e que o capital é eficiente, mas o capital só consegue ser eficiente recebendo dinheiro público. A mais recente roubalheira do capital é o teto de gastos, o arcabouço fiscal, a limitação, enfim, dos gastos sociais, inclusive aumento do salário mínimo, das aposentadorias e tudo mais. Sucatear o SUS e entregar a saúde, isto é, os gastos com doenças, para a iniciativa privada, é o que eles querem. O PT faz isso, gosta disso, defende isso. Até a eleição de 2022, o único candidato a denunciar esse modelo e propor outro foi o Ciro Gomes. Este ano apareceu o Jones Manoel, que deveria ser candidato a presidente, infelizmente não é, é candidato a deputado federal por Pernambuco, mas faz uma campanha de características nacionais, porque sabe que os problemas que ataca e as propostas que defende têm âmbito nacional. O Brasil precisa de um projeto político de esquerda, que tire os recursos públicos dos ricos e privilegia o SUS, a educação pública universal em tempo integral e de qualidade, transporte coletivo de qualidade e gratuito, moradia popular na região central, salário mínimo reajustado muito acima da inflação e da mesma forma aposentadorias e benefícios, além da ação mais importante de todas, uma política ambiental que impeça a autodestruição humana. Uma única realização dessas, o SUS excelente, por exemplo, já seria uma revolução na vida dos brasileiros.   

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Roger Waters e Mona Miari cantam a dor palestina e a insensibilidade mundial

O que um cantor pode fazer diante da dor dos palestinos? Pegar em armas contra Israel? Disparar bombas contra Telavive? Realizar atos terroristas contra instituições sionistas e estadunidenses? Convocar uma manifestação? Emitir um comunicado de protesto? Dar uma entrevista coletiva? Todas essas reações indignadas e minoritárias que vejo acontecerem desde que me entendo por gente são atos de militantes, políticos, governantes, militares, que precisam ter autoridade e devem estar preparados para as consequências. O que um cantor ou uma cantora pode fazer é cantar, da forma mais bonita que for capaz, para despertar um mundo confortavelmente entorpecido. Feito Roger Waters e Mona Miari. Aplausos. E dor.

É sempre bom ouvir de novo o que disseram os políticos

No título original desta publicação, em 2018, escrevi: "Todo mundo deve ver essa entrevista do Guilherme Boulos". E ainda mais hoje. Para comparar com o que ele diz e faz, oito anos depois, e conferir sua coerência. Afinal, é o que precisamos exigir dos políticos: coerência. Foi o que fiz com Ciro Gomes, antes de decidir votar nele em 1998, 2002, 2018 e 2022, e ele sempre passou no teste. Lula me fez mudar de opinião sucessivamente. FHC também. Quanto a Brizola, mudei para melhor, várias vezes. Na essência, porém minha impressão inicial prevaleceu, sobre os os quatro.

Música do dia: Oh! Darling, The Beatles

Uma das minhas prediletas, uma das canções geniais do Paul, bem menos numerosas do que as do John, para meu gosto. Posso cantar essa canção agora que passou. "É preciso ter morrido para ser um completo criador", escreveu Thomas Mann. 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Estado policial brasileiro: PM entra em escola para intimidar educadoras

O bozo já não é presidente e está preso por tentativa de golpe, mas seus seguidores e seu projeto policial de governo permanece em ação, com a contribuição de igrejas evangélicas e de governos municipais e estaduais, inclusive do PT, que, na Bahia, entrega escolas para serem administradas pela PM. O Brasil é um país em que a polícia é mais importante que a escola, e que futuro pode ter um país assim? Essa história é estarrecedora, mas quem ainda se estarrece com a corrupção e os desmandos dos poderosos no Brasil? Mais estarrecedor ainda é que a primeira comentarista do programa dá razão à polícia! Não tem a menor noção do que seja educação, não tem capacidade para comentar o assunto, e no entanto está na televisão fazendo isso. Felizmente, outros comentaristas sensatos põem os pingos nos is.  

domingo, 21 de junho de 2026

Músicas do dia: I'll get you e Don't let me down, The Beatles

Quase todas as músicas dos Beatles deveriam figuar na minha lita de canções preferidas, porque sempre as repito. Vão aqui duas queridas, como diz a moçada de hoje, opostas tem tudo, no tempo e no estilo, exceto na genialidade do John Lennon: Don't let me down e I'll get you.

domingo, 14 de junho de 2026

Música do dia: Paralelas, do Belchior. E a fraude da IA

A melhor gravação de Paralelas que eu já escutei, melhor que a original, da Vanusa, melhor do que a do autor, Belchior. Infelizmente, como é comum nesses canais não oficiais (e por isso resisto a publicar vídeos deles, exceto quando, como neste caso, não encontro o oficial) não consta o crédito de voz e instrumentos. Me fez pensar no João Gilberto. Quando ouvi JG pela primeira vez foi como se estivesse aprendendo o que é cantar: não é preciso gritar. Gal Costa grita em Fa-tal e é lindo. Os tropicalistas gritavam e era muito bom. Quando João Gilberto canta, porém a gente sente a letra junto com a melodia, uma coisa só, e aprende o que é música. Me faz pensar que toda canção tem seu arranjo, vocal inclusive e em primeiro lugar, adequado, que é função dos intérpretes encontrá-lo. Os compositores eruditos se dedicavam (dedicam) a isso, não é?, mas os populares cada vez menos. Até os anos 1950, meados dos 60, fazia parte da gravação de uma canção passar pelo arranjo de um maestro. Tom Jobim fez muito isso para outros. Canções do Noel Rosa e outros sambistas da era de ouro eram muito diferentes na versão orquestrada. A revolução pop dos anos 1960 de certa forma dissolveu isso (embora as gravações dos Beatles tenham se tornado cada vez mais sofisticadas), as interpretações passaram a ser mais informais e hoje os arranjos acompanham a mediocridade dos "sertanejos", "pagodes" etc. Por isso também eu gosto daquela série acústica da MTV, que tem discos memoráveis, como o da Cássia Eller. Eu lembrei de Paralelas esta manhã, não sei por que, talvez pelo "oitavo andar", e comecei a assobiar lentamente, em seguida procurei uma gravação, ouvi a da Vanusa, depois ouvir a do Belchior e por fim essa, no ritmo do meu assobio e que é, de fato, pela voz e pelo arranjo de cordas, pelo cello, a melhor que eu já ouvi e que, enfim, achou a interpretação certa, como João Gilberto fazia. Infelizmente, com boxes de informações dispensáveis e sem créditos necessários, informa só que é "cover intimista".  Será a própria Vanusa? A voz lembra a dela, digamos, "mais educada", mas nesse caso, por que negligenciar o crédito? Se não é, por que esconder voz tão bela? 

PS: Eu também não tinha percebido até hoje que Vanusa e Paula Toller eram a mesma pessoa. 

PS2: Ao rolar a lista de comentários do canal do YT, encontrei a resposta copiada abaixo. 

"Olá, Renato, tudo bem? Como descrito no vídeo, é uma versão cover, que recriamos com auxílio de IA. Eu fiz uma versão intimista ao violão, cantei como achei que ficaria mais legal, num tom um pouco mais grave, e usei a IA para, a partir dessa matriz inicial, adicionar arranjos e substituir a minha voz por uma vez feminina com timbre que lembra o timbre da Vanusa." 

Ou seja: a cantora não existe, a voz não existe, nem as cordas vocais nem o ar que as movimenta nem os pulmões nem a boca, nada. Tampouco os músicos. É tudo falso, artificial. Nos comentários, fãs da falecida Vanusa a exaltam sem se darem conta de que é uma imitação educada da voz da cantora, uma fraude. Depois de escrever os elogios acima e ouvir repetidamente a gravação, me sinto ludibriado. Gostaria de ouvir a cantora cantando um disco inteiro, mas ela não existe. Essa linda voz é um Frankenstein.