segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Vencemos! Celebração, orgulho de ser mineiro e brasileiro, elogio da juventude

Mais uma vez Minas escolheu o lado certo. Mais uma vez Minas decidiu a eleição presidencial. Foi o único estado a virar do primeiro para o segundo turno. Todos sabíamos que quem ganha em Minas ganha no Brasil. Minas é o retrato do Brasil. E Minas virou. Os mineiros que não votaram no primeiro turno se mobilizaram, eu inclusive. Nunca tive tanto orgulho de ser mineiro como ontem. Minas, estado vermelho. Ao chegar a Belo Horizonte sábado, levei um choque de realidade ao ser jogado no meio de uma multidão barulhenta e agressiva vestida com as traumáticas camisas da CBF. Ela não foi suficiente, porém. Minas é muitas e é predominantemente vermelha, quando seu povo se mobiliza. Muitas emoções para dois dias. E eu, que nem lulista sou, gritei, ri, me emocionei, chorei até. Porque Minas virou e eu participei desse esforço popular, fiz parte dos mais de um milhão de mineiros que se mobilizaram para votar no Lula e impedir que os fascistas tomassem o governo federal. 

Essa vitória pode ser mais importante do que a de 2002. Vai fazer diferença nos próximos quatro anos, nas próximas décadas. Vai fazer diferença no continente e no mundo. O Brasil resiste à ascensão mundial do fascismo e aponta outro caminho. Lula foi reeleito e afirmou seu impressionante carisma, além de vitalidade, mas não foi ele quem venceu. Quem venceu ontem foi o povo brasileiro, especialmente a juventude, a quem caberá o futuro. O segundo turno da eleição presidencial de 2026 marcou o momento em que a juventude brasileira tomou as rédeas do seu destino e começou a construir o Brasil do século XXI. Os jovens entusiasmaram os velhos e levaram Lula à vitória. 

O símbolo da fantástica vitória popular brasileira de ontem é uma jovem paranaense. Enquanto Lula discursava, eu só tinha olhos para ela, para seus olhos brilhantes e seu sorriso cativante, para o entusiasmo, a energia, a esperança e a alegria traduzidas em beleza juvenil. Dez anos depois de emocionar os brasileiros e conquistar nossos corações e mentes como líder estudantil secundarista, Ana Júlia Ribeiro, eleita deputada federal pelo PT-PR, é um dos símbolos do Brasil que está por vir. Não à toa, foi a primeira a quem Lula abraçou depois do discurso. O Brasil que está por vir terá o amor e a força das mulheres. 

Cabe a essa geração de jovens renovar o PT e, libertado da armadilha lulista, ainda que inspirada no admirável líder, dar ao único partido brasileiro nascido de baixo para cima um programa de esquerda, enfim, mas não só um programa, e sim governos de esquerda com participação popular, capazes de inventar o futuro. Foi isso que prometeu o velho Lula ontem, no discurso da vitória: governar com participação popular. E foi a juventude que empurrou Lula para essa posição, porque foi sobretudo ela que se mobilizou, puxou os velhos e virou a eleição, salvou o Brasil de um governo fascista do crime organizado. Cabe à juventude continuar puxando a sociedade para a esquerda, como sempre fez na história do Brasil, desde a a campanha épica de libertação dos escravos, ainda no Império. 

A nova geração tem a árdua missão de aprender com as gerações anteriores, em especial com a geração que começou a derrubar a ditadura militar (1964-1985), a minha geração, e escolher um caminho melhor, um caminho de esquerda, baseado no poder popular, em vez de se agarrar a um líder carismático e ficar dependente dele. O Brasil não vai superar seus problemas históricos acumulados em séculos, dos quais os mais graves deles hoje são a destruição da Natureza e a destruição do Estado e seu controle crescente pelo crime organizado, sem uma revolução. Se a geração de jovens que venceu a eleição presidencial de 2026 e reelegeu o Lula não assumir o controle da política com seus ideais justos, sem se curvar, como fez a minha geração, à corrupção capitalista, o Brasil, aquele do qual todas as gerações de brasileiros ouviram falar desde seu nascimento, o "país do futuro", vai virar país do passado. 

O Brasil do futuro será feminino, popular e revolucionário. Ou não será jamais o Brasil.  

Declaração política

Escrevo às seis da manhã, antes de começar a eleição decisiva deste domingo, aquela que vai decidir se o Brasil continua trilhando (!) o caminho à beira do abismo da Nova República ou se despenca rumo à autodestruição. Escrevo às 6h, mas só vou publicar depois que a votação for encerrada. Minha avaliação da tragédia brasileira, parte da tragédia mundial, independe do resultado das urnas. Todos os meus esforços e desejos são para reeleger Lula, tenho consciência de todas as críticas que lhe fazem, compartilho há décadas de várias e compreendo outras que são produtos da ideologia da extrema direita. 

Quem está na minha posição, como talvez, espero, a maioria ainda dos eleitores brasileiros que se mobilizam para votar, é refém do Lula: ou ele ou pior. Foi sempre assim. O lulismo, fenômeno político que substituiu outro mais amplo, auspicioso e renovador na política brasileira, o petismo, nunca nos oferece nada, a não ser ilusões e benefícios imediatos, todos eles dependentes de um compromisso: Lula precisa continuar presidente (ainda que pelas mãos dos seus afilhados ungidos). 

Esse é o primeiro problema da trágica condição brasileira. Nos tornamos dependentes de um líder político excepcional que nunca teve um projeto de poder coletivo e que se moveu com competência maquiavélica (no sentido filosófico ou científico do termo) para a direita, para se manter no poder. Para governar sem apoio e contrariando os interesses dos capitalistas brasileiros, grande parte dos quais tem índole fascista, entreguista, egoísta, parasitária, corrupta e canalha, Lula teria de mobilizar permanentemente o povo, os trabalhadores, para quem e em nome de quem fundou um partido. No entanto, o PT, ao longo de décadas deixou de ser um partido de organização dos trabalhadores e se transformou no partido cabo eleitoral do Lula. Um poderoso exército de cabos eleitorais, como nunca antes do Brasil tinha visto. Ao nomear o "Exército do Lula" no segundo turno da campanha deste ano, o deputado Janones, enfim, sintetizou quem somos, quem fomos sempre, crescentemente, desde 1989. Naquela época, não pegava bem nos nomear assim, pois a memória da ditadura militar era recente e traumática, mas hoje até isso aceitamos de boa vontade, ser um exército (corpo militar), de salvação (da democracia), comandados (pelo "marechal" Lula). É isso ou nada. 

Nenhum lulista fanático que não viu isso até hoje verá ainda, eu suponho, e há outros, os que veem, mas ainda assim se submetem, porque não conseguem formular outra alternativa pensando por conta própria. É a força da ideologia, nesse caso a ideologia democratista, que nasceu no combate à ditadura, tomou forma na Nova República e na Constituição de 1988 e foi sustentada pela esquerda, primeiro nos governos Itamar e FHC, depois nos governos lulistas. Por essa ideologia, a ideologia da minha geração, o grande ideal é defender a democracia, não importa que qualidade de vida ela dá ao povo, os pobres, aos trabalhadores. 

A esquerda abdicou de formular um projeto de nação para os trabalhadores e se agarrou à defesa da ordem burguesa, mascarada pelo fato de ter na presidência um ex-operário. A direita, sem conseguir vencer nas urnas um líder carismático de origem popular, caminhou para a extrema direita e, vendo os trabalhadores abandonados pelo governo burguês comandado por um ex-operário aparentemente de esquerda, tratou de conquistá-los formulando uma proposta de transformação social. A proposta de transformação social da extrema direita sempre é baseada na denúncia da corrupção, prática na qual ela própria é especialista, mas a atribui à esquerda. Também é baseada em mentiras e violência. Corrupção, mentira e violência: somem-se estas três características e veremos os políticos que capturaram metade dos eleitores brasileiros, talvez metade menos um, talvez metade mais um, hoje. 

Seja qual for o resultados das urnas, ele expressa o fim da Nova República, personificada no Lula. É muito curioso que seja assim, pois Lula e o partido cuja fundação liderou nasceram justamente como oposição à esquerda à Nova República, mas se tornaram a sustentação dela. A história é contraditória, assim como a vida. A partir de hoje, o Brasil caminha ou para o fascismo declarado ou será obrigado a caminhar de volta para o que nunca conseguiu ser ou nunca foi com sucesso: uma nação governada por um projeto político de esquerda. Que começou a ser inventado na mobilização do segundo turno, sob novos líderes, críticos e lúcidos, entre os quais destaco Jones Manoel, Elias Jabbour e Vladimir Safatle. 

Formular e apresentar aos brasileiros um projeto de nação efetivamente de esquerda é a primeira tarefa dos novos líderes, os líderes pós-lulistas, mas há outra igualmente importante: a união de todos os grupelhos de esquerda acima das suas divergências desprezíveis, em nome de um Brasil popular e soberano.  

domingo, 25 de outubro de 2026

O crime organizado quer tomar o poder pelas urnas

É esse o resumo da eleição deste domingo 25 de outubro de 2026. Tudo é óbvio para quem não é cego pela ideologia. E como se vê nesse vídeo, nem os próprios políticos representantes do crime organizado escondem seu objetivo. Por exemplo: o candidato a presidente quer eliminar a identificação da munição, que é o meio pelo qual se chega ao autor do disparo em um crime. A impunidade dos bandidos é ampla no Brasil, mas os criminosos querem que ela seja total. Simples assim. É o que a maioria dos brasileiros vai decidir se quer hoje.

Música do dia: Queixa (Caetano Veloso)

Nenhuma música diz exatamente o que eu sinto, por isso escrevo, em vez de passar a vida cantando, mas muitas se aproximam, por isso publico as músicas do dia. 
 
Dessa coisa que mete medoPela sua grandezaNão sou o único culpadoDisso eu tenho a certeza
(...) 
Um amor assim delicadoNenhum homem dariaTalvez tenha sido o pecadoApostar na alegria
(...)
Princesa, surpresa, você me arrasouSerpente, nem sente que me envenenouSenhora, e agora me diga aonde eu vouAmiga, me diga
 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A história de um bandido que quer ser presidente

Mais um episódio da excelente série Revelando. Não será por falta de informação disponível que o bozo jr. será eleito presidente da República, se o for, e espero que não, e faço a minha parte, e espero que a maioria dos eleitores brasileiros também. Seja como for, a possibilidade de que seja eleito, a pequena margem que pode derrotá-lo e a votação que teve no primeiro turno dizem coisas sobre os brasileiros que o esforço jornalístico extraordinário e admirável das últimas semanas não discute. Compreensivelmente, porque agora o que interessa é impedir sua eleição. No entanto, temos que enfrentar estas questões, se quisermos andar para frente. Porque, vamos combinar, este é o momento mais angustiante das nossas vidas, mas chegamos a ele por meio de uma sucessão de momentos cada vez mais angustiantes, nos quais não encaramos os nossos problemas. 

Que problemas são esses? O primeiro deles é a péssima qualidade da "nossa democracia" ou "democracia brasileira", como costumamos chamar a ordem política (e social e econômica, talvez não nessa ordem de influência) que vigora no Brasil desde o fim da ditadura militar (1964-1985). Não podemos ignorar, como temos feito há uma década, isto é, desde o impeachement da presidenta Dilma, de triste memória, que a ascensão da extrema direita se dá na democracia, que os autoritários já chegaram ao poder pelo voto popular e estão perto de repetir esse feito, apesar da eleição do Lula em 2022. Como é que aqueles que são contra o povo e contra a democracia podem conquistar a maioria do povo e o poder na democracia? É isso que todos os que se dizem democratas deveriam se perguntar, para começo de conversa. Quem faz essa pergunta costuma concluir que o "defeito" está no povo, não na "nossa democracia". Errado. O defeito não está no povo, o defeito está na democracia. Não sou o único a ver isso, o filósofo Vladimir Safatle e o ativista agora eleito deputado federal por Pernambuco Jones Manoel também veem. 

A "democracia brasileira" é uma construção defeituosa, que nasceu para se opor à ditadura e arregimentou as massas populares na memorável campanha Diretas já!, se institucionalizou na Constituição de 1988 e foi efetivamente construída pela esquerda, isto é, por dois partidos e presidentes tidos como de esquerda, PSDB e PT, FHC e Lula. Essa construção defeituosa deu muito pouco ao povo brasileiro, ao contrário do que dizem expoentes brilhantes do nosso tempo, porém equivocados e cegos politicamente, que mais uma vez se levantam para defender a reeleição do Lula. É por isso, porque a "nossa democracia" é uma merda e porque o povo a identifica com a esquerda, que a maioria caminhou para a extrema direita. A esquerda brasileira passou décadas praticando políticas de direita que foram identificadas como políticas de esquerda e agora metade do povo faz opção pela extrema direita, que é a única força oposicionista organizada e tem apoio do capital, das empresas de tecnologia e do governo estadunidense. Há oposições de esquerda, mas elas não são organizadas e influentes como a extrema direita. 

A opção de metade do povo brasileiro pela extrema direita só é incompreensível para os democratistas, isto é, os defensores da democracia burguesa capitalista institucionalizada pela Constituição de 1988, classes sociais beneficiadas pela ordem em vigor há quase quarenta anos, que derrubaram a ditadura com apoio do povo, mas depois se distanciaram dele, e cujo maior expoente político é o Lula. Simples assim. Comparado com o que o povo brasileiro precisa, o que foi que Lula e os democratistas fizeram? Muito pouco. Ou o povo não estaria tão descontente. O que os democratistas fizeram para combater a violência da qual o povo é vítima? É nessa área que o fracasso da "democracia brasileira" é mais evidente, porque é justamente do crime organizado que vem a extrema direita. Se os democratistas tivessem sido eficientes em combater o crime organizado, pelo menos isso, teriam impedido a ascensão da extrema direita. Os democratistas das classes privilegiadas nunca compartilharam o poder com o povo, limitaram este ao direito ao voto de quatro em quatro anos, quando esse poder se manifesta assim, na forma de plebiscito: reeleger ou derrotar o presidente (e o governador ou prefeito). Minto: houve, décadas atrás, iniciativas do PT, quando ainda era um partido de esquerda, de implantar o orçamento participativo, no qual o povo era chamado a escolher em que a prefeitura deveria aplicar o dinheiro dos impostos, mas elas foram abandonadas em favor de esquemas de corrupção e de acordos criminosos no Congresso, nas assembleias e câmaras municipais.   

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Música do dia (2): Assum preto (Gal Costa)

"Assum preto, o meu cantar é tão triste quanto o teu, também roubaram o meu amor, que era a luz dos olhos meus." Procure uma referência à ditadura militar (1964-1985) e não encontrará. No entanto, o disco (gravado ao vivo no show) Fa-tal, Gal a todo vapor é o melhor documento do que foram os anos de chumbo, aquele período sombrio que se seguiu à decretação do AI-5, que coincidiu com o "milagre brasileiro" e com o governo Médici (1969-1974). A opressão está no ar do começo ao fim deste disco e Assum preto talvez seja "a mais completa tradução", uma poesia que fala do mais cruel e insensível sofrimento que o sapiens e só ele é capaz de afligir, "por ingnorança ou mardade das pior". Gal canta respirando profundamente, soltando angústia junto com sua voz poderosa. 

Música do dia: Dê um rolê (Gal Costa)

Pra capoeirista. Daquele show maravilhoso. Essa música pode ser cantada hoje com a mesma atualidade. Arte não é isso, a perenidade da essência humana? "Não se assuste, pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa. Enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvir apenas quem já dizia: eu não tenho nada, antes de você ser, eu sou amor da cabeça aos pés. E só tô beijando rosto de quem dá valor, pra quem vale mais um gosto do que cem mil réis." 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Revelando: República dos laranjas

Mais um episódio da excelente série Revelando. Nela ficamos sabendo de tudo sobre os bandidos que querem voltar ao poder. Dessa vez, não será por falta de informação disponível nem de aviso.

Música do dia (2): Se você jurar (Ismael Silva)

O que escrevi sobre Os argonautas se aplica também aqui, com um acréscimo: nenhuma canção diz exatamente o que eu penso. O que me motiva a escrever também. Se dissesse, eu não precisa escrever, podia só cantar.