terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

No JB, há quarenta anos

Há quarenta anos exatamente comecei a trabalhar na sucursal belo-horizontina do Jornal do Brasil, que ocupava um confortável espaço no sétimo andar do prédio imponente da Avenida Afonso Pena 1500, bem em frente ao Palácio das Artes. Lembro da data porque era uma segunda-feira e na sexta-feira seguinte, último dia do mês, o presidente Sarney decretou o Plano Cruzado, a primeira de uma série de tentativas dos governos civis neoliberais de conter a inflação galopante que tinha ajudado a derrubar a ditadura militar (1964-1985). Foi meu batismo de fogo profissional. O congelamento de preços virou o país de pernas pro ar, mexeu com a vida de todo mundo, acionou órgãos fiscalizadores dos quais hoje a gente nem ouve falar ou não existem mais, tipo Sunab, Delegacia de Ordem Econômica e outros, mudou comportamentos, mobilizou a população, criou a figura informal do "fiscal do Sarney" e provocou uma tempestade de notícias, da qual sairiam as manchetes dos dias, semanas e meses seguintes. Repórter de geral, incluindo polícia, eu estava na linha de frente daquela cobertura bastante animada. Formado em jornalismo pela UFMG havia três anos, o JB foi minha primeira experiência num jornal diário, e comecei logo pelo topo, no melhor jornal do país na época, na melhor sucursal da cidade. Era o que todos diziam e o que eu mesmo achava, pois o JB era o jornal que eu lia. Meus colegas de redação eram Jadir Barroso, Nairo Alméri, Lúcia Helena Gazzola, José Guilherme Araújo e Fernando Lacerda, além do repórter fotográfico Waldemar Sabino, o Mazico. No telex, Sílvio Lourenço, e no comando, editor regional, o célebre José de Souza Castro, o Zé de Castro. O diretor da sucursal era o Acílio Lara Resende. Era uma equipe grande, contando as outras áreas: Valdir, nosso motorista e companheiro de coberturas e viagens, Patrícia, recepcionista, dona Alice, faxineira, Zé Milton, Zé Luís e sua mulher, dona Ilza, na administração, Fátima, uma portuguesa, secretária, Noronha e Valtencir, no comercial, e o Burana, cobrador. Isso, quando entrei; enquanto trabalhei lá, saíram alguns e entraram outros. Em pouco tempo aprendi o que se faz num jornal diário, conhecia e era conhecido por colegas e autoridades cujo trabalho acompanhava. Foram quatro anos intensos, marcados, no começo, pela cobertura do Plano Cruzado e, no fim, pela cobertura da eleição presidencial de 1989, a primeira eleição direta depois da ditadura, na qual o JB se sobressaiu. E então o Collor venceu e o jornal entrou em decadência. Trabalhei em outros lugares, fiz outros tipos de jornalismo, alguns muito bons, tive experiências interessantes e épocas até mais felizes, especialmente na Lead Comunicação, mas a minha experiência de jornalismo pra valer foram esses quatro anos no JB. (Na matéria reproduzida na foto acima tem um depoimento colhido na rua por mim e uma foto do Mazico. O João do título é o ex-presidente Figueiredo, o último general que, ao deixar o cargo sem passar a faixa, declarou que queria ser esquecido; o JB não esqueceu e um ano depois tripudiou: conferiu nas ruas que o povo tinha atendido seu desejo. A minha entrevistada mesmo não soube dizer quem era o tal do João Batista Figueiredo.) 

Quem quiser conhecer o que foi o jornalismo mineiro e brasileiro das décadas de 1970 a 1990, antes da revolução provocada pela internet, recomendo ler o primoroso livro Sucursal das Incertezas, do Zé de Castro, sobre o qual escrevi em outra postagem, que pode ser acessada clicando aqui

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

As ligações entre o Banco Master e o governo bozo

Até que enfim um parlamentar fazendo perguntas cujas respostas os brasileiros querem ouvir.

Somos em relações de afetos, de linguagem e de trabalho

Essa palestra do filósofo Vladimir Safatle poderia ser um editorial deste blog. Igualdade e soberania popular. Acrescento: e em relações de respeito com as outras espécies e com a Terra. Um comentário: é incrível que um sujeito de esquerda e tão bem informado quanto o Safatle só tenha conhecido a Flaskô na sua campanha eleitoral de 2022. Isso diz muito sobre o descolamento da chamada esquerda brasileira do mundo real dos trabalhadores durante a Era Lula. 

A realidade supera a ficção a todo momento

Sobre que deve escrever um(a) ficcionista? Fico pensando que sobre coisas banais, porque as histórias extraordinárias estão hoje por conta do jornalismo, que fala do que acontece no mundo real e não na imaginação dos escritores. Frankenstein, por exemplo, parece cada vez mais banal. Tudo bem, a encantadora Sofia Nestrovski faz sua interpretação do livro da Mary Shelley, da qual gosto muito, mas isso não mudou minha decepção com a história. O fato é que neste segundo quarto do século XXI, os acontecimentos e suas personagens superam qualquer imaginação ficcionista. O que dizer do que aconteceu no governo do bozo? Se fosse um xou de horrores, do qual não gosto e não veria, não seria "melhor". E do que vemos agora no governo trump2? O capitalismo perdeu qualquer compostura. E não se trata só do capital e seus donos, propriamente, mas também de toda a sociedade que ainda acredita nele. O surrealismo, que foi um movimento artístico de reação aos horrores capitalistas do começo do século passado, tornou-se banal hoje, porque a repetição dos horrores é a banalização, que o anestesiamento da comunicação, iniciada por roliúdi, universalizada pela televisão e incorporada a todos os momentos das nossas vidas pelas redes sociais, naturalizou. Hoje a gente anda nas ruas desviando de mendigos e sem-casa e mal os nota, enquanto as cópias dos ricos passeiam com seus pets. Mais surreal ainda é ver o proletariado contemporâneo, os entregadores de moto, se considerarem empreendedores e agradecerem a Deus por terem trabalho 16 horas por dia, sete dias por semana, enquanto não se acidentam, porque acidente com moto é a maior causa de acidente no trabalho hoje. O surrealismo está escancarado nas ruas, como é que pode ser arte? Sabemos de todos os horrores, temos consciência de tudo, e no entanto não mudamos o mundo, este é o fato mais notável da nossa época. O vídeo abaixo está na versão original, mas há outros em português, só não é possível reproduzir aqui.

O que aconteceu na Venezuela no dia 3 de janeiro e depois

Breno Altman fez o que a imprensa empresarial brasileira, ex-grande imprensa, deveria fazer e não faz: foi à Venezuela apurar. Entre outras coisas nos conta como foi a negociação com o governo americano nos primeiros minutos do sequestro do presidente Nicolás Maduro. Foi uma negociação que se tem com sequestradores, com terroristas. Delcy Rodríguez recebeu a informação de que Maduro estava morto. Respondeu que nesses termos não havia negociação. Ouviu então que ele estava vivo. Pediu prova de vida e recebeu aquela primeira foto que circulou mundo afora. É uma negociação que se faz com sequestradores e terroristas. Terrorismo é o que os EUA dizem combater, mas é o método de ação do governo americano. O comportamento da presidente e do governo venezuelano é admirável, a revolução bolivariana é o que qualquer nação latino-americana que afirmasse sua independência real em relação aos EUA teria de fazer. E como acontece com a Venezuela enfrentaria o terrorismo estadunidense e a desinformação da imprensa capitalista mundial. Não há por que se espantar com isso. É assim que funciona, a imprensa é capitalista, defende o capitalismo, as empresas, o imperialismo americano e seus aliados. A desonestidade está em não dizer ao leitor que defende interesses, que tem um lado. A desonestidade está em fingir que é imparcial. Isso é ideologia. Socialistas é que têm de construir uma imprensa diferente e projetos nacionais nos seus países. O Brasil está na idade da pedra ainda, porque, apesar de Breno Altaman e outras exceções, não tem veículos socialistas expressivos, e principalmente porque à derrubada da ditadura militar (1964-1985) seguiu-se uma adesão vergonhosa ao neoliberalismo que fez o país retroceder à condição anterior à Revolução de 1930, de colônia exportadora de produtos primários, iniciada por Sarney, impulsionada por Collor, formatada por FHC e continuada com afinco por Lula, que, ao voltar, não foi capaz sequer de reverter, ou pelo menos tentar reverter a destruição dos desgovernos temer, o minúsculo, e bozo. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Música do dia (2): Quase fui lhe procurar, com Roberto Carlos

Essa música não é do Roberto, é uma daquelas que ele gravou com sucesso e a gente pensa que é dele, parece dele, mas não é. É do Getúlio Cortes, um compositor prolífico de 87 anos. Ele impressiona pela facilidade das suas melodias e letras, em  geral clichês. Quando o compositor de clichês não é pretensioso, às vezes acerta o ponto e produz pérolas de clichês, como esta. GC é autor de uma série de canções similares gravadas pelo RC nos anos 1960: O gênio, O feio, Pega ladrão e O sósia, todas ridículas, exceto a última, é divertida, uma musiquinha típica da Jovem Guarda. 

Música do dia: Ela desatinou, com Chico Buarque

Os primeiros discos do Chico, assim como os dos Beatles, estão repletos de pérolas. Esta é uma delas. A ideia, o desenvolvimento da ideia em versos, a construção dos versos, o jogo de palavras, as rimas são admiráveis. Bastava o refrão, mas tem mais, muito mais.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A China é o pós-capitalismo

O que é a China? Há muitas respostas. A China é o que a URSS poderia ter sido, não fosse o stalinismo. A China é o que é porque aprendeu com a experiência da URSS. A China é um Estado socialista ou capitalista? O que existe na China é socialismo ou capitalismo de Estado? Refletindo um pouco, eu cheguei à conclusão óbvia: a China não é uma nação capitalista porque o poder político lá é exercido pelo Partido Comunista. Os capitalistas não estão no poder na China, como estão nas nações capitalistas, como o Brasil. Lá, eles se submetem ao Estado governado por um partido comunista que fez uma revolução dos trabalhadores. Isso é diferente de um Estado capitalista onde os capitalistas governam por meio dos seus prepostos políticos. No Brasil, o capital faz o que quer, o Estado está a seu serviço. Na China, o capital está a serviço do Estado. Na China, a revolução pretendeu primeiro distribuir a pobreza, depois decidiu desenvolver o capital e o resultado é o que se vê. O capital a serviço do Estado, de um Estado controlado pelos trabalhadores, pelo partido comunista. A China, portanto, não é uma nação capitalista, é uma nação comunista, porque o poder é exercido pelo Partido Comunista. Para ser rigoroso, em termos de doutrina marxista, a China é socialista, porque o comunismo seria uma etapa posterior, quando as classes sociais tiverem sido eliminadas e isso evidentemente não aconteceu ainda, porque há capitalistas e empresas privadas na China. A China é socialista, mas também é capitalista, porque é o capital que move a economia. O que significa tudo isso? Que a China é o futuro da humanidade, se ainda houver futuro para a espécie humana, se o capitalismo não destruir a Terra antes. Isso porque a China vem demonstrando o que a superação do capitalismo estúpido é capaz de fazer. Isso estava previsto na teoria marxista, na verdade é uma pedra angular dela: o capitalismo impede o desenvolvimento das forças produtivas, o socialismo é imprescindível para a continuação do progresso. A China parece ser a comprovação disso, o salto impressionante que ela deu em cinco décadas não aconteceu em nenhuma outra nação, e fez isso não graças ao capitalismo, mas ao socialismo, isto é, ao controle do capital pelo Estado. O socialismo é isso: o controle do capital pelo Estado, não importa se persistem ou não empresas privadas e capitalistas. A história não termina aí, porém. Primeiro porque, como disse, ainda há classes sociais e desigualdades na China, e isso preciso ser superado, mas também porque é evidente que a Terra não suporta a continuação do desenvolvimento chinês e que ele não pode ser universalizado, pois não há recursos materiais para tanta riqueza, e o socialismo pressupõe internacionalismo. Ou seja, se o socialismo é o que a China é, e se todas as nações se desenvolverem como ela, o que acontecerá com o planeta? Ao ver as imagens desse vídeo, eu entendi o que é a China: é o futuro, é o pós-capitalismo.  

No Brasil, trabalhadores são coisas, não são humanos

Não à toa, o fim da escala 6x1 provoca reações violentas dos ricos e a chamada esquerda é incapaz de mobilizar os trabalhadores para defender essa pequena mudança humanizadora na legislação trabalhista. O que dizer de um filósofo que em apenas vinte minutos explica a estrutura do Estado brasileiro e em seguida a guinada dos trabalhadores para a direita? Safatle brilha nesse vídeo. 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

É possível preservar a Amazônia, mas os latifundiários não querem

Todos os caminhos levam ao mesmo destino: a substituição do capitalismo por outro sistema em que os humanos vivam em igualdade e harmonia com o ambiente e as demais espécies sobre a Terra. Conhecimento para preservar a Amazônia e até produzir mais carne (embora devêssemos compreender que o mais saudável é comer menos carne) existe, mas os fazendeiros não estão a fim, é mais fácil desmatar e ganhar dinheiro rápido, foda-se para o ambiente, para o Brasil, para os outros brasileiros, para as futuras gerações. O sistema capitalista e a "democracia" liberal controlada por políticos corruptos a serviço dos empresários não estão preocupados com essas bobagens como preservação ambiental e mudanças climáticas. Basta ver o que o autocrata americano acaba de fazer em relação às mudanças climáticas e olhar também para o desenvolvimento vertiginoso da China: o capital sobre controle faz maravilhas, o capital descontrolado é um louco disparando para todos os lados.