segunda-feira, 23 de março de 2026
Imprensa e ideologia (2)
domingo, 22 de março de 2026
Imprensa e ideologia
Eu ia publicar um vídeo da Globonews para exemplificar, mas decidi não perder tempo com isso. É sobre o Irã, mas podia ser sobre a Palestina, Cuba, Venezuela, até sobre o Brasil. A Globo é um instrumento da política neoliberal, o que significa do capital internacional, o que significa do imperialismo estadunidense, o que significa da civilização eurocêntrica. Está no Brasil, mas copia, com qualidade inferior, como tudo que o capital internacional produz no país, a imprensa capitalista hegemônica. O que fez nas manifestações populares de 2013 e na campanha do impeachment da presidenta Dilma foi asqueroso. Faz o mesmo na política internacional, sempre subserviente aos EUA.
Não foi a Globo, porém quem subjugou minha geração. Todos sabíamos de que lado ela estava, pois apoiou o golpe de 1964, foi porta-voz oficiosa da ditadura, boicotou os movimentos populares, tentou impedir a eleição do Brizola e lhe fez oposição, ajudou a derrubar a emenda das diretas e a eleger o Collor. A ideologia é insidiosa. O neoliberalismo contaminou minha geração, a geração estudantil que se levantou contra a ditadura e começou a derrubá-la, transmitido pela própria esquerda, nos governos dos seus principais expoentes, FHC, Lula e Dilma. O tucano inaugurou a adesão ao Consenso de Washington e o ex-operário, fazendo-lhe oposição, seguiu o mesmo caminho, porém, uma vez no poder, e da mesma forma a ex-guerrilheira.
A ideologia funciona assim, primeiro confiamos nas pessoas, depois acreditamos nelas, e continuamos obedecendo-as mesmo quando elas não fazem o que esperamos, quando suas ações não correspondem mais ao discurso. A imagem da Dilma, que pegou em armas contra a ditadura, era mais forte do que os atos do seu governo a favor do capital. A imagem do Lula, um líder operário, sindicalista, retirante nordestino, homem autêntico do povo, sempre superou seu governo subserviente aos banqueiros e ao agrotoxiconegócio, abraçado ao magnata da indústria, seu vice. A imagem do intelectual marxista FHC sempre dourou as medidas antinacionais e antitrabalhistas que ele tomou. Já lhe tive desprezo, a partir do momento em que inventou a reeleição em seu próprio benefício, mas hoje penso que, dos três, talvez o sociólogo seja o mais honesto, uma vez que nunca se arvorou em líder dos trabalhadores.
O fato é que atravessamos décadas de confusão ideológica, influenciados pelo fim da URSS e do bloco soviético, sem compreender a civilização chinesa e colonizados pelo eurocentrismo, sem compreender que, aderindo ao neoliberalismo dos tucanos e petistas, ajudávamos a abrir caminho para o fascismo militar, que fez um governo de horrores, no qual morreram mais de 700 mil brasileiros na pandemia. Não obstante, e embora seu líder máximo se encontre preso por tramar um golpe de Estado, o fascismo está pronto para voltar ao poder, novamente com apoio da Globo, do UOL etc. e por meio do voto popular. Quantas décadas levaremos para construir uma alternativa política enfim popular e nacional?
O que explica o fracasso do governo de esquerda no Chile
sábado, 21 de março de 2026
Música do dia: Desculpe, Babe, com Os Mutantes
quarta-feira, 18 de março de 2026
De férias do genocídio palestino, soldados israelenses trazem violência para o Brasil
Parece absurdo, mas é verdade. Como prêmio pelo serviço militar na Palestina, onde mataram milhares de civis desarmados, crianças e mulheres inclusive, soldados israelenses passam férias no Sul da Bahia de tempos em tempos. A gente pode imaginar como está a cabeça e o comportamento desses homens acostumados a praticar barbaridades que vemos relatadas no genocídio do povo palestino. Aqui, não são bem vistos pela população, pois manifestam racismo, arrogância e agressividade, mas os dólares que gastam agradam os comerciantes. Dessa vez eles intervieram numa manifestação de brasileiros e alguns foram presos. Eles não precisam de visto para entrar no Brasil, informa uma das reportagens, o que é absurdo, porque Israel não permite que estrangeiros entrem na Palestina, ataca e afunda navios que se aproximam, prende seus ocupantes, mas os soldados israelenses entram e circulam livremente no Brasil e ainda hostilizam e agridem brasileiros. A notícia do G1 omite a nacionalidade dos "turistas" que agrediram brasileiros, numa clara demonstração de como o lobby sionista controla a Globo. Como diz a comentarista baiana de outra reportagem, não precisamos e não podemos tolerar que os israelenses venham praticar violência também no Brasil, contra brasileiros. Sua entrada deve ser controlada pelo governo brasileiro.
Uma aula sobre a história dos EUA no século XX até hoje
segunda-feira, 16 de março de 2026
As contradições de Haddad: marxista na oposição, liberal no governo
domingo, 15 de março de 2026
Entrevista com Jair Fonseca (Jair Gatto), da banda Último Número e outras
No blog 2112.
2112 - Antes de criar o Divergência Socialista e o Último Número você fazia performances coletivas/individuais de poesias com livros impressos em mimeógrafo ao lado de Marcelo Dolabela e Rubinho Mendonça. Como surgiu esse projeto?
Jair - Surgiu de um grupo de estudantes universitários liderados por Marcelo Dolabela, bem como de alguns secundaristas como Rubinho, em torno de uma revista chamada Cemflores, inicialmente patrocinada pelo DCE Cultural da UFMG.
Leia a íntegra no blog 2112 clicando aqui.
A reportagem mais interessante sobre judeus nos últimos tempos
O tempo e as mortes
A primeira morte que me perturbou e consternou profundamente foi a da minha professora do segundo ano primário, dona Maria José. Eu tinha nove anos, ela tinha sido minha professora no ano anterior, uma professora competente e carinhosa, como posso constatar ainda hoje na caderneta escolar, que conservei, a mais querida das minhas professoras. Morreu jovem, no parto de uma filha, o que provocou o comentário da minha mãe, que tinha aproximadamente a mesma idade e a mesma profissão que ela, que era inadmissível naquela altura do século XX ainda morrerem mulheres no parto no Brasil. Minha turma saiu da aula, de manhã, e fomos todos à sua casa, numa rua paralela à rua do grupo escolar, bem perto. Era o simbólico ano de 1964, em que também o Brasil morreu mais uma vez. No ano anterior, aconteceu outra morte memorável, mas esta foi um acontecimento de alcance geral, acompanhado com imagens e notícias durante muitos e muitos dias no mundo inteiro, um “fato histórico”: o assassinato do presidente americano John Kennedy. Ele tinha a mesma idade do meu pai, que fazia exames para diagnosticar dores no peito e me lembro da minha mãe telefonando para o médico e pedindo que, se tivesse notícia ruim, falasse primeiro com ela, pois meu pai estava muito impressionado. Com imaginação fértil e raciocínio prático, eu pensei que, se meu pai morresse, eu ajudaria a sustentar a casa desenhando histórias em quadrinhos e minha irmã mais velha, que era boa aluna, poderia escrevê-las. (Seria uma manifestação dissimulada do Complexo de Édipo?) A morte rondou aqueles dias, lembro também de visitar com mamãe uma colega de trabalho dela que sofria de câncer e morreria logo, lembro do seu quarto confortável e bem iluminado numa casa elegante. Meu pai viveria mais quarenta anos, com saúde para dar e vender, morreria em idade provecta. A segunda morte de um conhecido que me impressionou foi quando eu tinha onze anos, no breve curso de “admissão ao ginásio”, de um colega de aula, um menino forte, bronco e atirado. Ele morreu afogado, num domingo, e na segunda fomos visitar sua família. Foi a primeira vez que fui a uma favela, lembro da dificuldade de chegar ao endereço, subindo vielas escuras, assim como o casebre miserável em que tinha morado, e de encontrar seus pais, abatidos e surpresos com nossa presença. A morte seguinte da qual me lembro foi a primeira de alguém com quem convivia, um parente, o meu avô paterno, o único que conheci. Ele tinha mais de oitenta anos, há controvérsias sobre o ano em que nasceu, mas oficialmente teria 82 anos incompletos. Há uma curiosa coincidência entre meus dois avôs: ambos nasceram no mesmo dia do mesmo ano: 20 de agosto de 1886, mas meu avô materno morreu novo, aos 60 anos, e não o conheci. Meu avô paterno, vovô Dimas, era um homem austero, rigoroso, bravo, diligente e bom, que ajudava minha mãe a cuidar dos filhos, nas faltas das empregadas, e passávamos muitas horas e dias com ele, acompanhando-o nas suas atividades domésticas e voltas pelo bairro. Sua morte foi cercada de circunstâncias especiais, pois no mesmo dia eu estava internado num hospital para tratamento de uma crise de asma, a mais forte que tive, e vendo as visitas chorosas, pensava que era por minha causa, me comovia e achava desnecessário, pois estava me recuperando e me sentia bem. Quando voltei para casa, minha mãe me deu a notícia com cuidados novelescos, fechados a sós no meu quarto; me diverti com a cena e me esforcei para desempenhar meu papel, mas não sofri o impacto, pois, por algum motivo, eu já sabia o que ela ia me contar e considerava natural que meu avô morresse – ele era velhinho e iria para o céu, estava tudo dentro da ordem. O que era a morte para mim, nessa época infantil? Não era uma coisa terrível, embora fosse triste, lamentável, dolorosa. Horrível era morrer em pecado e ser condenado ao fogo eterno dos infernos, mas morrer não, porque existia Deus e as pessoas boas iam viver em Sua companhia, os sobreviventes podiam se consolar com isso. A morte precoce e inesperada nos fazia sofrer, mas nos conformávamos aceitando os desígnios divinos, incompreensíveis, mas sábios. Nenhuma morte de alguém com quem eu convivia iria me abalar nos anos seguintes, até que eu entrasse na universidade. Nessa época, quando eu tinha já meus vinte anos, muitas coisas tinham acontecido e mudado minha consciência, eu mesmo tinha sido vítima de uma desgraça absurda, que poderia ter me matado talvez, não matou, mas me custou uma vista e me deixou em estado de choque diante das mortes ao meu redor. A desgraça confirmou o que eu tinha descoberto: a morte absurda como fim da vida absurda, a gratuidade da vida, a inexistência de Deus, a ideologia humana que tinham me ensinado e me fazia funcionar, mas eu perdera e não funcionava mais no modo automático. Passaria então a me angustiar com a minha própria morte, com o fim da minha consciência, com a minha saída de cena do teatro da vida, desejando adiá-la permanentemente, pois nunca estava pronto, e sentindo, junto com a dor e a revolta de uma morte precoce e injusta e a impotência para impedir a morte de uma pessoa querida, o alívio inconfessável de que não tinha sido eu ainda, que continuava vivo, que tinha escapado, que podia continuar vivendo e tentando esquecer que também eu morreria um dia, pois a vida é isso, esse tempo, longo ou curto, se contado em anos, mas sempre breve para a consciência do indivíduo que passa os dias na Terra acompanhando o teatro humano e tentando desempenhar o papel que lhe cabe.