sábado, 11 de julho de 2026

O que aconteceu com o futebol brasileiro?

É sempre bom ouvir previsões e análises depois que os acontecimentos esperados passaram. Elas mostram como nossa capacidade de compreender a realidade é limitada. 

A ESPN, da qual Juca Kfouri foi uma das estrelas, está para o jornalismo esportivo assim como a Copa de 1982 está para o futebol brasileiro: foi o canto do cisne. A mesa redonda Linha de Passe, com José Trajano, PVC, Mauro César e outros, além do Juca, foi o ápice do jornalismo esportivo e de uma época nacional. A Seleção do Telê, igualmente, expressou o desejo nacional de voltar aos bons tempos, no futebol e na política. Ambos, a Seleção de 82 e a Linha de Passe, guardam relações com momentos políticos decisivos do país: a redemocratização e o governo Lula. Ao mesmo tempo em que expressavam esperança e alegria já continham o germe da tristeza e da desesperança que viriam depois. Pra gente ver como tudo se mistura e que tudo, no fim das contas, é política. 

O futebol foi a brincadeira de milhões de meninos brasileiros ao longo de décadas do século XX, enquanto o Brasil crescia, se industrializava, se urbanizava. Uma coincidência: o futebol se popularizava em todo o mundo, inclusive no Brasil, e os meninos brasileiros tinham condições ideias para praticar a molecagem de brincar de bola. Nem era futebol propriamente, o jogo inglês com suas regras, era simplesmente "jogar bola". Bastava ter meninos e uma bola para jogar, em qualquer espaço. E havia muitos espaços nas cidades brasileiras que estavam crescendo: lotes vagos, ruas sem movimento, quintais. Juntava-se um bando de meninos, que se dividia em dois grupos, escolhidos no par ou ímpar, procurando equilibrar os times, delimitava-se o campo e marcavam-se os gols com pedras e estava armado o cenário para a brincadeira, sem juiz, os conflitos resolvidos por consenso e pelo desejo de continuar o jogo. 

Foi assim que eu cresci jogando bola, nunca em campo oficial, nunca dois times de onze, nunca com juiz apitando, nunca com dois tempos de 45 minutos também: o jogo era por queda ou até parar, por cansaço ou falta de jogadores. Na verdade, nada disso importava: nem a qualidade do campo nem o número de jogadores, nem o tempo do jogo. Jogar bola era diversão, brincadeira de meninos (eram raras as meninas que jogavam bola, o jogo delas, normalmente, era a queimada, muitas vezes misto). Foi assim também que se formou o futebol brasileiro que encantou o mundo e ganhou três Copas (1958, 1962 e 1970), poderia ter ganhado outras duas, não fosse a húbris, em 1950 e 1966. 

Enfim, no pós-guerra, durante vinte anos, de 1950 a 1970, o futebol brasileiro encantou o mundo e dominou o futebol mundial. E não só entre seleções, também entre clubes, como o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Cruzeiro de Tostão. Por que isso aconteceu? Porque todos os meninos brasileiros cresciam jogando bola, brincando, inventando dribles e jogadas, que, transportadas para o futebol oficial nos clubes e campeonatos, criavam jogadas imprevisíveis, capazes de desorganizar defesas e marcar muitos gols. Porque havia espaços para jogar bola, porque havia muitos meninos e porque eles eram moleques que brincavam na rua, principalmente de jogar bola. Quando essas condições mudaram, o futebol brasileiro entrou em decadência. 

A última geração de jogadores moleques de rua foi a minha, da qual fazem parte Sócrates, Zico, Cerezo, Falcão, Éder, Júnior, Luizinho e o maior de todos, o Rei, Reinaldo, a geração da Seleção de 1982. A nossa geração de meninos foi a última que cresceu brincando na rua, jogando bola em espaços públicos que estavam sendo extintos pelo crescimento sem planejamento das cidades, pela construção desenfreada de edifícios, pelo asfaltamento das vias e sua ocupação pelos carros. O brilho da Seleção de 82 brilhou, quando os meninos da minha geração estavam na casa dos vinte anos, foi como a luz de estrelas distantes que chegam até nós muito tempo depois, expressava condições sociais que já tinham desaparecido: os campinhos e as turmas de moleques jogando bola na rua. 

Simples assim. Só isso e mais nada. O chamado "futebol brasileiro", as Seleções e os times dos anos de ouro, a luz tardia da Seleção de 1982, do Atlético do Rei e do Flamengo do Zico são expressão de uma realidade que não existe mais. Nossa fixação no assunto, as tentativas exitosas de 1994 e 2002, que precisam ser vistas à parte, mostram nossa incapacidade de compreender tanto o passado quanto o presente. O Brasil não tem mais futebol e jogadores extraordinários, nunca voltará a tê-los, eles pertencem ao passado. Há muito tempo competimos com as demais seleções nas mesmas condições que elas, sem nenhuma qualidade especial, própria. Ao contrário, as condições sociais nacionais atuam hoje contra o futebol brasileiro, numa corrupção generalizada marcada pela ausência de política pública de esportes, promiscuidade política, bagunça dos campeonatos, interesses capitalistas das televisões, das empresas de apostas, dos patrocinadores e dos dirigentes esportivos. Para que o Brasil volte a ser vencedor no futebol, assim como nos demais esportes, terá que se equiparar econômica e socialmente às nações ricas, o que passa por mudanças políticas profundas. 

A excelente cobertura esportiva da ESPN durante duas décadas expressou um período em que a chamada democracia brasileira prosperava, sob os dois governos FHC, os dois governos Lula e o primeiro governo Dilma. A inflação tinha sido controlada, o país crescia, os salários estavam em recuperação, a democracia se consolidava, entre solavancos, o povo confiava nela e votava na esquerda, a imprensa funcionava livremente, também entre solavancos. Linha de Passe expressava, no futebol, a confiança geral e dos jornalistas em particular, de que os problemas enfrentados pelo país, e eram muitos, seriam resolvidos democraticamente, seguindo as regras do jogo, numa espécie de progresso contínuo, eleição após eleição, em direção à esquerda. Não poderia ser de outra forma, era impensável que o povo fosse se voltar para a direita, contra governos de esquerda que o favoreciam, contra seus próprios interesses, enfim. A crítica, portanto, era aos governos de esquerda, aos seus defeitos, às suas concessões, às suas fraquezas, ao seu insuficiente esquerdismo. 

O que veio em 2013, com as manifestações de massa contra a Copa de 2014, eram parte disso. Exigia-se educação padrão fifa, saúde padrão fifa, transporte padrão fifa. Para a Copa, o governo lulopetista cumpria as exigências da fifa e construía estádios e tudo mais necessário com "padrões internacionais", mas o que efetivamente fazia diferença na vida dos trabalhadores o governo negligenciava. A Copa foi um marco negativo para o futebol brasileiro e não só pelo vexame da desclassificação com goleada de 7 a 1 para a Alemanha no Mineirão, mas principalmente porque o povo não pôde assistir aos jogos nos estádios, já que os ingressos eram caríssimos, e porque desde então as torcidas foram elitizadas. A Copa de 2014 foi simbólica, mostrou sem deixar dúvida que o lulopetismo tinha aderido ao neoliberalismo, que o PT se transformara de partido dos trabalhadores em partido dos capitalistas, que o governo representava o capital e não seus eleitores. 

 

O que aconteceu com o Brasil? O que aconteceu com a América Latina?

Por que o Brasil e a América Latina deram essa guinada para a direita? 

Ouvir analistas dizendo o mesmo que eu penso e constatar a incapacidade humana de enxergar, enquanto acontece, o óbvio que agora vemos, me dá certo conforto de pensar que a cegueira não é só minha. Me faz também pensar na tragédia grega: nosso destino está escrito, temos conhecimento dele, tentamos evitá-lo e acreditamos arrogantemente que conseguimos, experimentamos a húbris, mas no fim nos encontramos com o que estava previsto e o realizamos, consumando a tragédia. 

Em 2010, Lula terminou seu segundo mandato com aprovação recorde, 87%. Parecia que estava tudo bem e no entanto estava tudo mal, a gente só não sabia ainda, mas hoje é claríssimo. Será que alguém sabia? Vou procurar críticas daquela época que se confirmaram. Isso porque críticas erradas, preconceituosas, havia muitas. A questão é saber se havia críticas corretas e de quem. Mesmo o Ciro, que era crítico do modelo desde 1996, nessa época estava no governo e calado, acho, não tenho certeza, não lembro. Pelo menos não foi candidato em 2010 nem em 2014, erros capitais. 

O fato é que Lula estava no auge e no entanto estava tudo errado, a começar pela falta de um projeto nacional de desenvolvimento sustentável e popular. O Brasil de Lula se desenvolvia e distribuía renda, daí sua popularidade, porque o governo demonstrava competência em administrar o capitalismo, coisa que a direita nunca demonstra, e porque a economia internacional e a política mundial estavam favoráveis. Bastaram os ventos mudarem de direção, na economia e na política, para que aquele sucesso desabasse. O projeto petista era completamente dependente do Lula, sem ele e com a incompetência política da Dilma, o governo se perdeu. 

Do ponto de vista histórico, Lula poderia ter se retirado da política e deixado que o PT escolhesse seu candidato e continuasse seu caminho por conta própria, como maior partido do país e um partido dos trabalhadores. Entraria para a história como um dos nossos maiores presidentes, evitaria a larva jato, a prisão e todas as desgraças pessoais que acompanharam sua queda, mas preferiu escolher uma candidata que dependesse dele para ser eleita, que guardasse sua vaga, pra ele voltar depois. A ambição política é míope e sem limites. 

O que poderia ter acontecido? O candidato petista, que provavelmente não seria Dilma, poderia ter perdido a eleição. Isso seria pior do que o que aconteceu? A alternância no poder e um governo tucano seriam piores do que o desastroso governo Dilma, a larva jato, a prisão do Lula, o golpe de 2016, o bozoísmo, o governo bozo, esse novo governo Lula? Desde 2010 só retrocedemos. Nada do que foi tirado dos trabalhadores pelos governos Dilma 2, Temer e bozo foi devolvido pelo governo Lula 3. Diga-se de passagem, o próprio governo Lula, nos seus bons tempos, tirou direitos trabalhistas na previdência, o que mostra que nunca teve um projeto de fato comprometido com os trabalhadores, apenas distribuiu migalhas dos enormes ganhos do capital, os quais continuam no governo Lula 3. Lula sempre pensou no seu interesse pessoal em primeiro lugar.  

Já ia tudo mal e a gente não via. A direita se preparava para o extremismo, com a expansão das suas bases ideológicas evangélicas e neoliberais no meio do povo, um trabalho de décadas a partir dos EUA que se apresentou pronto nas manifestações golpistas de 2016. O que a gente considerava ser esquerda administrava o Estado para o capital e defendia a democracia, deixando os trabalhadores desorganizados e sem um projeto próprio, enquanto a extrema direita conquistava os trabalhadores para a ideologia neoliberal e se preparava para tomar o poder. 

Tudo é ideologia. A gente acreditava que o governo lulopetista era um governo popular porque o PT era o partido dos trabalhadores, que Lula era um líder popular porque é um ex-sindicalista, ex-operário, homem do povo, retirante nordestino. Ambos porém sempre fizeram a política burguesa, seus limites políticos eram a democracia liberal, que se empenharam em implantar e manter. Crescer como partido, conquistar o povo, ganhar eleições, governar dentro das regras democráticas burguesas, administrar bem o sistema para o capital e dessa forma conceder benefícios ao povo. 

Nunca foi mais que isso, mas já era muito para as classes dominantes brasileiras, isso manteria Lula e o PT eternamente no poder, se fosse possível. Não era: Lula só tinha direito a uma reeleição, e aí começou o drama que põe a política, mesmo a política burguesa, dentro de limites éticos. É curioso: a direita, que se diz liberal e democrata, nunca teve pudor em derrubar a democracia e impor governos autoritários, enquanto a esquerda, que se pretende a favor da transformação social, mantém a democracia burguesa com unhas e dentes. A esquerda adere a todas as práticas corruptas da política burguesa, mas é incapaz de dar um golpe. Fica, por isso, em condições de inferioridade diante da direita. 

Se é para jogar o jogo burguês, se a esquerda acredita na democracia liberal, deve também deixar claro qual é o seu programa, um programa diferente do programa da direita. Será um programa de esquerda? Será a esquerda capaz de defender um programa de esquerda e implantá-lo? Ou sua natureza é defender um programa de esquerda, ganhar eleições e implantar programa de direita? Consideremos que os tucanos eram direita e o PT era esquerda. Como oposição, o governo lulopetista não poderia dar continuidade ao governo FHC, em 2002, mas foi o que fez. Se é um governo de continuidade, porque então se opor ferrenhamente antes e não cooptar os tucanos depois? De fato, foi muito mais uma disputa de egos, entre candidatos, do que entre propostas políticas. E o ego do Lula é o maior de todos. 

Durante mais quatro eleições, lulopetistas e tucanos representaram um teatro em que eram rivais, mas quando finalmente os tucanos destronaram os lulopetistas quem herdou o trono foi o bozoísmo, a extrema direita. Quem, afinal, tinha compromisso com a democracia liberal burguesa? Nenhum dos dois lados, vê-se hoje, pois não foram capazes de se conciliar em nome de um interesse maior, isto é, seu pretenso compromisso com a democracia. E muito menos a extrema direita, é claro, que sempre se declaro abertamente contra ela. Os tucanos apoiaram o golpe de 2016, os lulopetistas preferiram ser derrubados pelo golpe do que aposentar Lula em 2010 e admitir a alternância de poder nas urnas. 

Quem perde com governos burgueses, seja de direita, seja de pretensa esquerda, é sempre o povo. E perde ainda mais quando a democracia burguesa entra em colapso, na disputa entre esquerda e direita, e a extrema direita assume o poder, abole os luxos liberais e implanta programas abertamente antipopulares. 

Música do dia: Tomara (Vinicius de Morais), com Vinicius, Marília Medalha e Toquinho

Vinicius tinha a precisão das palavras, que a música mostra claramente. A sonoridade das palavras, o ritmo das sílabas. Por isso seus sambas são tão agradáveis de se ouvir e fáceis de guardar. Além das melodias, é claro, mas a melodia vem antes de tudo, se não for bonita, a letra não vale nada. Também me parece que metade das vezes ele está refazendo Chega de Saudade, dizendo a mesma coisa de outra forma. 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Max e os 'pets'

Conheci Max há apenas dois dias, mas já somos velhos amigos. Quando acordo, ele está deitado na soleira da porta. Gosto de cachorros e tenho antipatia por pets. Cães domésticos e pets são dois fenômenos sociológicos, um antigo, outro recente. 

É fácil imaginar como a relação entre homens e cães se formou. Nossos ancestrais domesticaram ancestrais dos cachorros oferecendo-lhes comida. Os cachorros antigos viram vantagens nessa relação, se habituaram ao ambiente doméstico, a uma vida preguiçosa, não precisavam caçar para comer, só o que precisavam fazer era seguir os humanos. 

Para nossos ancestrais, e até hoje, as vantagens da relação também são claras. Não precisamos nos confrontar com outros animais hostis, inclusive humanos, os cães fazem isso por nós. Sua simples presença nos protege. Basta andar na cidade, quem ainda anda na cidade, e observar: todo mendigo, hoje conhecido como morador de rua, tem pelo menos um cachorro, às vezes vários. Me intriga pensar que o mendigo tem que alimentar, além de si próprio, um animal de estimação. Já me aconteceu de um morador de rua pedir dinheiro para comprar ração para seu cachorro. Me pareceu um luxo, mas já aprendi que, igual a tudo na vida, se é assim é porque tem motivo. E o primeiro motivo é o mesmo dos nossos ancestrais: o cachorro protege o mendigo na vida violenta da rua. 

A simples presença de um cachorro afasta outros bichos que consideram um humano um animal frágil. Um cachorro pode ser mais ameaçador que um homem. Às vezes é só aparência e basta ameaçá-lo, para o cachorro sair correndo, mas a presença, o latido, o arreganhar os dentes, avançar e até morder, assustam qualquer um, e a capacidade de ser violento é uma característica animal selvagem, ou melhor dizendo, natural que o cachorro comum preservou muito mais do que o Homo sapiens. Na verdade, o Homo sapiens é muito mais violento, é disparadamente o animal mais violento da Terra, o único de fato violento, mas essa é outra questão, trata-se da violência do Estado. Na vida cotidiana, entre indivíduos comuns, entre trabalhadores, a possibilidade de ser atacado, arranhado ou mordido por outro humano é muito menor. O cachorro é fiel ao "dono", isto é, àquele que lhe dá comida, que ele acompanha. E sendo assim afasta outros humanos hostis, a não ser que o "dono" demonstre amizade pelo estranho. Amigo do "dono" não é estranho mais, é amigo do cachorro também. 

Há cachorros que saem correndo e abandonam o dono, se o estranho os enfrenta. A bem da verdade, os cachorros atuais são mais ameaçadores do que capazes de causar danos a humanos, exceto a crianças e adultos medrosos. Por isso, tornou-se uma prática de segurança do patrimônio da ideologia capitalista treinar cachorros para serem violentos. Mais que isso: esses humanos que prezam acima de tudo os bens materiais e a riqueza, mais que a vida de outros humanos, escolhem e fazem "melhoramentos" genéticos em cachorros que têm características para causarem grandes danos e até a morte naqueles que atacarem, tais como tamanho da boca e dos dentes, força da mordida, força das patas e garras etc. Enfim, esses humanos intelectualmente violentos treinam cachorros para serem agressivos como eram antes de se tornarem animais domésticos. Não se trata mais de afastar ameaças à integridade do humano "dono" de um cachorro, mas de afastar ameaças ao patrimônio escandaloso dos capitalistas. O capitalismo é capaz de realizar coisas espantosas. 

A relação que se estabelece entre o homem e o cachorro domesticados é uma das relações mais bonitas do mundo. A gente chama até de amizade e diz que o cão é o melhor amigo do homem, transpondo para o animal de outra espécie o que é normal para outro Homo sapiens. Há quem diga que é possível conversar com os cachorros. A ciência ainda sabe muito pouco sobre como pensam e sentem os outros animais, mas é certo que o cão doméstico nos compreende: agora mesmo acabei de dizer ao Max, que tinha entrado na sala, para ficar na lá fora e ele saiu. Por essa convivência antiga com o Homo sapiens, o Canis familiaris adquiriu muitas características humanas e parece de fato compreender o que lhe falamos. Um cachorro protege seu "dono" em troca de casa e comida, ainda que, conforme disse, essa proteção seja mais aparente do que ativa. No entanto, alguns cães são de fato capazes de morrer para defender seus "donos", de permanecer do seu lado nas piores dificuldades e até de ir buscar ajuda ou empreender um longo caminho de volta solitário para casa. Há belas histórias sobre casos assim. 

Minha antipatia com os pets vem do fato de representarem uma perversão dessa relação entre o Homo sapiens e o Canis familiaris. Na relação entre humanos e pets a amizade foi corrompida. Com os pets, os homens demonstram todos os seus defeitos e aqueles correspondem demonstrando os seus. Pets são incapazes de dar proteção aos humanos, ao contrário, precisam ser protegidos. Os humanos, por sua vez, não buscam proteção física nos pets e sim uma espécie de proteção mental: tratam seus pets como se fossem gente, crianças, eternas crianças, e dão a eles o que muitas vezes não dão às crianças, demonstram impressionante tolerância com eles que não demonstram com crianças. 

Pets são crianças mimadas. Crianças mimadas que não crescem. Há uma coisa de síndrome de Peter Pan na relação entre humanos e pets. Não há nada mais ridículo do que ver um jovem bombado passeando com seu pet minúsculo, ornamentado e perfumado, que late estridentemente quando vê outro pet. Esses humanos saem para passear com seus pets como se fossem bebês e alguns vão mesmo em carrinhos de bebês. Bebês sem fraldas, porém: fazem xixi e cocô nos passeios públicos, nas portas dos vizinhos. Humanos (salvo alguns mendigos) não fazem cocô nas ruas, nunca vi um dono de pet fazendo cocô no passeio, mas todos eles acham normal e aguardam pacientemente que seus pets façam. Os mais "civilizados" em seguida se abaixam e recolhem o cocô num saquinho plástico e jogam numa lixeira de rua. Qual de nós joga seu próprio cocô num saquinho plástico em lixeiras públicas? Imagina todos nós fazendo isso -- meu critério inato de justiça é esse: é justo o que todos podem fazer. Os donos de pets fazem isso regularmente e acham normal. 

Passear nas ruas com pets (e fazer xixi e cocô, eventualmente assustar transeuntes quando os pets são cães grande treinados para ser bravos) não é propriamente passear, mas cumprir uma recomendação veterinária, pois eles passam os dias confinados em apartamentos, quietos, dormindo e comendo e sendo acariciados e precisam fazer exercício físico. Vivem rotinas inadequadas, em resumo, e adquirem as mesmas doenças dos humanos que vivem rotinas inadequadas. Andar nas ruas da cidade é a academia dos pets. Pets precisam de babás. Cães domésticos, embora sejam preguiçosos e ganham seu alimento do homem, vivem soltos, andam para todo lado, correm, se exercitam, enfim. Homens das cidades grandes que moram em apartamentos viraram babás de pets. É comum vermos jovens casais passeando nas ruas com um bebê e um pet. Este, porém é um bebê que jamais cresce. Quando envelhece, exige cuidados de idosos, e seus donos estão a postos e dispostos para realizá-los. Cuidados que inúmeras crianças e inúmeros idosos não recebem; nunca vi o dono ou a dona de um pet colocando-o na rua porque ficou velho ou doente.  

Os homens cuidam mais e melhor dos pets do que dos seus semelhantes. Gastam com eles o que não gastam para cuidar de crianças, idosos e doentes humanos. Não é culpa dos humanos, indivíduos mental e emocionalmente frágeis, fragilizados pela ideologia e pelas condições de vida do capitalismo. Muito menos é culpa dos pets, animais domesticados pelos humanos e escravizados pelas mesmas forças que escravizam os homens. A relação de mútua dependência afetiva entre humanos e pets é só um exemplo entre tantos da corrupção que a civilização capitalista provoca na vida do Homo sapiens e das espécies que ele afeta. 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Como escapar do capitalismo

A economista italiana Clara Mattei diz praticamente o que eu penso sobre o mundo contemporâneo. Ela não apenas retoma Marx, mas também cita (não nominalmente) o brasileiro Rui Mauro Marini e sua teoria da dependência (que inclui outros pensadores, tais como Vânia Bambirra e Teotônio dos Santos). Não é difícil chegar ao que eu penso, os cientistas políticos, econômicos e sociais nos ajudam, mas basta olhar em volta, olhar para nós mesmos. O grande mérito do Marx foi ter enxergado o capitalismo sem ideologia, daí fez o retrato magnífico de O Capital, mas quem leu? Os marxistas russos leram e outros também, fizeram até revoluções, adaptando-o para a ação política; alguns foram vitoriosos, outros derrotados. No século XX, o capitalismo reformado, que sobreviveu a duas guerras mundiais, à crise de 1929, ao fascinazismo e às revoluções comunistas, domesticou o marxismo, tornando-o acadêmico, mas o neoliberalismo e o neofascismo do século XXI estão fazendo com que o pensamento revolucionário renasça. É assim no Brasil, é assim no mundo. Como explica brilhantemente Safatle, liberalismo e fascismo são duas faces da mesma moeda: a ordem capitalista. As nações periféricas sempre viveram sob o fascismo, os trabalhadores sempre viveram sob o fascismo, que só ganha esse nome quando é implantado nas nações centrais e atinge as classes ricas do capitalismo. Completa Mattei: a democracia liberal é a democracia em que os ricos mandam. É interessante ouvir Clara Mattei falando em orçamento participativo e citando explicitamente as experiências brasileiras. Foi o que me fez acreditar no PT dos governos municipais do Patrus e do Célio, depois gradativamente desmobilizado pelo Pimentel e enterrado pelo Lacerda, o prefeito de merda (a gente não imaginava que ia feder cada vez mais nas administrações seguintes). O orçamento participativo era revolucionário, porque tocava na questão central do capitalismo: quem decide para que vai o dinheiro do Estado. Era muito para o PT, um partido que em seguida abandonou o empoderamento popular, quando Lula assumiu a presidência, e passou a governar para o capital, legitimando o poder  burguês do Congresso Nacional, controlado pelas classes proprietárias dominantes e endinheiradas. É interessante também ouvir Clara Mattei colocando a estatística no seu lugar: os analistas sempre falam no "1% mais rico da população", eu discordava e escrevia 0,01%; Clara Mattei vai além, fala em 0,0001%. A concentração de renda e poder no capitalismo é muito maior do que da ordem de 1%. A questão principal, porém, da qual eu falo há décadas e que ela sustenta, é que a dominação do capital não se dá só pela força nem só pelo governo nem só pelos proprietários, ela começa em nós mesmos, que aderimos ao capitalismo e fazemos a nossa parte para mantê-lo vivo. É uma dominação ideológica. Enquanto gostarmos dele, acreditarmos nele e estivermos conformados com ele, o capitalismo continuará vivo. Todo o esforço da ideologia capitalista é esse, para nos manter presos no sistema, pensando que não é possível mudá-lo e que seus valores são bons, que os problemas que enfrentamos são defeitos e que os culpados somos nós mesmos, que não nos esforçamos bastante, não fizemos as coisas certas etc. Enquanto mantemos o foco no indivíduo e vivermos buscando o sucesso individual, o capitalismo seguirá em frente, porque ele se baseia nisso, na nossa motivação para o consumo, que é a expressão material do sucesso. Afinal, o que é o capitalismo? Não é preciso ser doutor em economia para saber, basta olhar para nós mesmos e para o mundo ao redor para compreender. O capitalismo é o sistema econômico baseado no lucro, na produção em busca do lucro. E o que significa isso? Produzir cada vez mais, pois só assim existe lucro, e destruir cada vez mais e concentrar cada vez mais as riquezas nas mãos de poucos e aumentar a pobreza, a miséria, a fome. E a violência para manter as desigualdades e os trabalhadores no submissão. A essa altura da civilização, do desenvolvimento científico e tecnológico e da destruição da Terra, a nossa mãe, o único planeta com biodiversidade e condições ambientais para a vida, o Homo sapiens precisa compreender que a vida só pode continuar abolindo esse sistema insano e criando uma nova forma de viver em sociedade e em harmonia com as outras espécies e a Natureza.   

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Ipês do campus

Julho, mês dos ipês. BH tem muitos, esses são do campus da UFMG.

 

Música do dia: Ternura, com Roberto Carlos

Sempre gostei dessa música, mas nos últimos anos ela ganhou um significado especial. Eu expresso ideias e sentimentos simples pela música, às vezes compondo melodias rudimentares para acompanhar versos, mas principalmente cantarolando alguma canção que contém uma frase afim. A MPB é definitivamente a melhor coisa que os brasileiros produziram, apesar do deprimente horror dominante atual. Até em versões o talento musical brasileiro se revela, como nas pérolas do Haroldo Barbosa; Rossini Pinto, o autor dessa, também foi craque. A gravação original é da Wanderléa, mas é Roberto Carlos quem a canta lindamente. Compositor medíocre, uma vez ou outra bom, ele mostra que é, acima de tudo, cantor, formado sob a influência do João Gilberto. Não exagera e não inventa, como gostam de fazer em geral os cantores e as cantoras que possuem belas vozes, derrapa só uma vez, levemente; quase declama, de forma que a gente até pensa que ele está sentindo o que canta. 

sábado, 27 de junho de 2026

Salvar o SUS e torná-lo excelente

A esquerda brasileira realizou essa grande obra que é o SUS, mas isso já tem quatro décadas. A Constituição de 1988 foi o ápice da democratização do Brasil. Desde então, aqueles que deveriam conduzir o país para o desenvolvimento econômico e a justiça social, isto é, o PSDB e o PT, aderiram ao neoliberalismo e os avanços democráticos foram só retrocedendo. Não basta salvar o SUS, que está sendo engolido pela iniciativa privada, é preciso torná-lo tão bom quanto o melhor plano de saúde privado. Da mesma forma a educação pública, o transporte coletivo, a moradia etc. Quando os neoliberais começaram a privatizar tudo, disseram que ia sobrar dinheiro para o Estado investir nos serviços essenciais. Estavam mentindo deliberadamente, para enganar o povo. Só sobrou dinheiro para pagar os juros dos banqueiros, dar subsídios para o agrotoxiconegócio, incentivar mineradoras, enfim, dinheiro público para o capital. Os canalhas dizem que o Estado é ineficiente e que o capital é eficiente, mas o capital só consegue ser eficiente recebendo dinheiro público. A mais recente roubalheira do capital é o teto de gastos, o arcabouço fiscal, a limitação, enfim, dos gastos sociais, inclusive aumento do salário mínimo, das aposentadorias e tudo mais. Sucatear o SUS e entregar a saúde, isto é, os gastos com doenças, para a iniciativa privada, é o que eles querem. O PT faz isso, gosta disso, defende isso. Até a eleição de 2022, o único candidato a denunciar esse modelo e propor outro foi o Ciro Gomes. Este ano apareceu o Jones Manoel, que deveria ser candidato a presidente, infelizmente não é, é candidato a deputado federal por Pernambuco, mas faz uma campanha de características nacionais, porque sabe que os problemas que ataca e as propostas que defende têm âmbito nacional. O Brasil precisa de um projeto político de esquerda, que tire os recursos públicos dos ricos e privilegia o SUS, a educação pública universal em tempo integral e de qualidade, transporte coletivo de qualidade e gratuito, moradia popular na região central, salário mínimo reajustado muito acima da inflação e da mesma forma aposentadorias e benefícios, além da ação mais importante de todas, uma política ambiental que impeça a autodestruição humana. Uma única realização dessas, o SUS excelente, por exemplo, já seria uma revolução na vida dos brasileiros.   

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Roger Waters e Mona Miari cantam a dor palestina e a insensibilidade mundial

O que um cantor pode fazer diante da dor dos palestinos? Pegar em armas contra Israel? Disparar bombas contra Telavive? Realizar atos terroristas contra instituições sionistas e estadunidenses? Convocar uma manifestação? Emitir um comunicado de protesto? Dar uma entrevista coletiva? Todas essas reações indignadas e minoritárias que vejo acontecerem desde que me entendo por gente são atos de militantes, políticos, governantes, militares, que precisam ter autoridade e devem estar preparados para as consequências. O que um cantor ou uma cantora pode fazer é cantar, da forma mais bonita que for capaz, para despertar um mundo confortavelmente entorpecido. Feito Roger Waters e Mona Miari. Aplausos. E dor.

É sempre bom ouvir de novo o que disseram os políticos

No título original desta publicação, em 2018, escrevi: "Todo mundo deve ver essa entrevista do Guilherme Boulos". E ainda mais hoje. Para comparar com o que ele diz e faz, oito anos depois, e conferir sua coerência. Afinal, é o que precisamos exigir dos políticos: coerência. Foi o que fiz com Ciro Gomes, antes de decidir votar nele em 1998, 2002, 2018 e 2022, e ele sempre passou no teste. Lula me fez mudar de opinião sucessivamente. FHC também. Quanto a Brizola, mudei para melhor, várias vezes. Na essência, porém minha impressão inicial prevaleceu, sobre os os quatro.