segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Uma metrópole viva
Música do dia: Youre gonna lose that girl, The Beatles
A esquerda não tem uma política para as cidades brasileiras
Sim, é assim que um bairro morre, que uma cidade perde a alma, que seus moradores se tornam coisas, mercadorias. Essa é uma experiência que todos nós conhecemos. O que acontece em Sampa, aconteceu e acontece em Beagá. Qual é a política da esquerda para as cidades brasileiras? Não tem. A política em vigor é a política neoliberal, nas cidades como em tudo mais: manda o dinheiro que compra autoridades e muda leis para favorecê-lo, de forma que a população perde sempre. Quando eu digo que Lula e o PT são políticos burgueses e que se submeteram ao neoliberalismo dominante no mundo capitalista nas últimas cinco décadas, que nunca tiveram um programa próprio para o Brasil, é a isso que estou me referindo. O povo quer mudança, quer melhorar sua vida, quer uma alternativa às violências que sofre diariamente. Se não as encontra na chamada esquerda, que há muito tempo se tornou centro e até direita, vai procurá-la na extrema direita, que faz propostas neofascistas de transformação social. É fazendo propostas concretas de transformar as cidades, as relações de trabalho, a educação, a saúde, a aposentadoria, os transportes, a moradia e acima de tudo, porque tudo depende disso, a recuperação do meio ambiente, que a esquerda vai se tornar uma alternativa popular.
DW crítica x BBC sumbissa
Nestes tempos estranhos, a DW, emissora alemã, está assumindo o lugar que a BBC tinha, pelo menos aqui. A BBC se curvou ao tirano ianque e evita reportagens que possam contrariar o imperialismo americano. Chegou ao ponto de proibir o uso da palavra sequestro para informar sobre o sequestro do presidente da Venezuela Nicolás Maduro pelo governo americano. A DW mantém posição mais crítica. Não há jornalismo quando não se mostra a realidade sem censura.
O assunto é ponto de partida para uma série de reportagens sobre os valadarenses e outros mineiros que estão voltando à força para o Brasil depois de décadas. Não sei se estão sendo feitas, pois não acompanho mais os jornais impressos, ou melhor, o que restou deles. Quando eu era repórter, fizemos muitas matérias sobre o fenômeno da migração de mineiros para os EUA, especialmente jovens de Governador Valadares, número estimado em um décimo da população local. Toda família de GV (e depois de outras cidades da região) tinha pelo menos um parente vivendo nos EUA, mandando dinheiro para os pais ou para a mulher, comprando imóveis, movimentando a economia local. Agora estão voltando à força, como o homem da reportagem, que tem 48 anos e morava nos EUA há 21, já se considerava americano. A deportação virou notícia sensacional agora, em consequência da ação do ICE, a gestapo do trump, mas dizem que Obama deportou mais. O pano de fundo de tudo é o capitalismo, com suas contradições que a imprensa evita, pois só vão acabar quando os trabalhadores controlarem o capital, coisa que os capitalistas não fazem, pois querem sempre mais dinheiro e poder. A nação que foi construída por imigrantes agora os persegue, mata, prende, deporta. E o mundo burguês, a democracia liberal, não se pronuncia, não se levanta, não se opõe. Os capitalistas são incapazes de controlar o capital e a democracia burguesa é incapaz de proteger os trabalhadores. Como se a Terra tivesse donos, como se territórios nacionais fossem dados da Natureza e não invenções arbitrárias dos homens, como se alguns homens tivessem direito aos ambientes e todos os outros não. Abolir as fronteiras nacionais e abolir a posse da Terra pelos homens, convivência pacífica, harmoniosa e igualitária dos indivíduos da espécie humana entre si e com as outras espécies é o que a vida exige de nós hoje. O mundo será isso ou deixará de existir em breve, com seus tiranos enclausurados em casamatas tentando escapar das mudanças climáticas e da guerra nuclear.
Também me pergunto se o governo Lula está aproveitando a oportunidade das deportações para lançar uma política de recepção e acolhimento dos deportados, tipo: "Bem-vindos de volta ao Brasil". É uma excelente oportunidade para afirmar Brasil como uma nação que pode ser diferente e melhor, que pode oferecer outro exemplo para as outras nações, para toda a humanidade. O Brasil é uma rara nação neste planeta que pode viver de forma autossuficiente no cenário das mudanças climáticas, mas tem que colocar seu povo e a recuperação ambiental como prioridades de um programa nacional de desenvolvimento, coisa que inexiste entre nós desde que os governos ditos democráticos aderiram ao neoliberalismo, após a derrubada da ditadura militar (1964-1985). Deter a destruição da Amazônia, recuperar o Pantanal e o Cerrado, reflorestar a Mata Atlântica, cuidar de todos os biomas, desenvolver uma economia de características locais, ajustadas a cada bioma, promover a biodiversidade, ocupar grande parte da população nessas atividades, que são atividades econômicas, promover a agroecologia, que já está mais do que testada e aprovada, depende só de o Estado trocar o modelo agrodevastador, tóxico, latifundiário e exportador pela produção familiar agroecológica. Trocar o transporte rodoviário pelo transporte ferroviário, realizar reformas urbanas a favor dos moradores, em vez das construtoras rentistas. Distribuir o poder político para a população, para que ela possa decidir sobre sua vida.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Será Aldo Rebelo a novidade na eleição de 2026?
Uma década de decadência da democracia burguesa
Calma urgente faz um balanço da década marcada pelo ano de 2016, quando começaram grandes mudanças no Brasil e no mundo. Bem, eu não tenho instagrã e essa rede social é uma das marcas da década. Também não tenho feicibuque; tive, achei terrível e saí antes que começasse a reviravolta na internet. Qual é a reviravolta (que pode ser constatada em publicações deste jornalaico, no ar desde 2009)? É que a internet era um espaço de democratização da comunicação, consequentemente ocupada pela esquerda, pelas novas ideias, pela diversidade, pela crítica, pela criatividade, pela interatividade, pela liberdade, em resumo: por uma democracia de iguais. Isso aconteceu enquanto a internet não era um negócio rentável. Quando as empresas de tecnologia descobriram como ganhar dinheiro aqui, aquela alegre anarquia democrática acabou e a esquerda foi jogada para escanteio. Mais do que ganhar dinheiro, ou junto com isso, porque também na "vida real" funciona assim, essas empresas aprenderam como manipular o público e dominar o poder político, de uma forma nova e ampla como nunca tinha acontecido. E a internet se tornou o espaço da extrema direita. Simples assim. Bem, além de não ter instagrã e feici, e talvez também por isso, eu olhava para o mundo real e via outras coisas, tipo: quem colocou temer, o anão, lá foi Lula, quem escolheu Dilma foi Lula, quem disputou e venceu a reeleição (depois de ser contra ela, quando FHC a inventou para se beneficiar) foi Lula, quem quis continuar no poder impondo uma candidata sua, em vez de se afastar e deixar o PT seguir seu rumo e se renovar, foi Lula, quem transformou o partido dos trabalhadores num partido de um candidato só foi Lula, quem nunca teve um programa de esquerda para o Brasil e continuou a política neoliberal do FHC foi Lula. Enfim, Lula, que este ano vai disputar mais uma eleição, aos 80 anos, e continua sendo a única opção da esquerda brasileira, não é o herói da pátria. Poderia ter sido um grande presidente, apesar da sua política neoliberal, e nos poupado de muitos sofrimentos, e a ele também, se tivesse tido grandeza para sair de campo ao final do seu segundo mandato. Lula não é nenhum santo e nós, que nos curvamos à sua desastrosa liderança, também não somos. Nessa década em que tudo piorou nas nossas vidas, precisamos aprender pelo menos que o Brasil precisa de um partido e de lideranças de esquerda verdadeiras, que conquistem o poder para nos livrar da autoextinção que está cada vez mais próxima e começar a construção de uma sociedade em que os humanos vivam como iguais e em harmonia com a Natureza.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
Reflexões sobre esquerda, marxistas, comunistas e PT - 2
Diz o Manifesto do Partido Comunista, no seu capítulo II:
“Os comunistas diferenciam-se dos demais partidos proletários apenas pelo facto de que, por um lado, nas diversas lutas nacionais dos proletários eles acentuam e fazem valer os interesses comuns, independentes da nacionalidade, do proletariado todo, e pelo facto de que, por outro lado, nos diversos estádios de desenvolvimento por que a luta entre o proletariado e a burguesia passa, representam sempre o interesse do movimento total”.
Eu pergunto: considerando isso, o PT é um partido comunista? Obviamente, não. Não o sendo, por que os marxistas (isto é, comunistas) brasileiros não formaram ou formam uma facção dentro do PT, a facção comunista, que representa os interesses internacionais e totais dos operários, segundo esses pontos elementares seguidos pelos marxistas (comunistas)?
Diz também o mesmo capítulo:
“os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: abolição da propriedade privada”.
Eu pergunto: qual foi a última vez que algum político brasileiro de esquerda falou em abolição da propriedade privada?
E afirma ainda o Manifesto: “O poder político propriamente dito é o poder organizado de uma classe para opressão de outra”.
Se isso é verdade, Lula e o PT são instrumentos de opressão dos trabalhadores em nome dos capitalistas desde que chegaram ao poder em 2003.
Voltando ao começo: o Manifesto Comunista afirma o internacionalismo da luta operária. E faz isso com ênfase, num trecho crucial em que distingue o partido comunista de outros partidos operários em apenas dois aspectos, dos quais um é o internacionalismo.
Na minha singela opinião, isso é um argumento decisivo a favor do Trotski e contra o "socialismo num só país" stalinista (e talvez também agora do Partido Comunista Chinês). Simpatizei com Trotski antes mesmo de ler livros seus e sua biografia escrita por Isaac Deutscher, nos quais se vê um intelectual gigante e um revolucionário autêntico. Ao mesmo tempo, não se pode ignorar que Trotski foi derrotado, o que não quer dizer muito. Quer dizer muito, porém, e merece reflexão profunda, o fato de mais de oitenta anos depois do seu assassinato a mando de Stalin o trotskismo não tenha revigorado e se tornado importante em nenhuma nação. Sempre lembro do brilhantismo da Libelu no movimento estudantil dos anos 70 e fico pensando como foi que aquele grupo tão lúcido degenerou, fornecendo quadros grotescos para o PT, o governo Lula e a imprensa burguesa, salvo exceções honrosas.
Seja como for, o internacionalismo é uma característica essencial dos comunistas. E no entanto não existe hoje uma organização comunista internacional! O Manifesto é uma proclamação escrita por Marx e Engels para comunistas de várias nações europeias e não só europeias, é o manifesto de uma organização internacional, a "Primeira Internacional". Não à toa termina com a conclamação famosa: "Proletários de todos os países, uni-vos!". Houve depois uma Segunda Internacional, uma Terceira Internacional e uma Quarta Internacional, esta trotskista. Não há mais, o que significa que os comunistas abandonaram uma das suas duas características básicas.
A mesma reflexão cabe sobre a segunda característica dos comunistas: além de internacionalistas, os comunistas "sempre representam os interesses do movimento em sua totalidade". E quais são esses interesses? Diz o manifesto mais adiante: "constituição do proletariado em classe, derrubada da dominação da burguesia, conquista do poder político pelo proletariado".
Sendo assim, por que os comunistas, isto é, os marxistas, abandonaram qualquer pretensão revolucionária, qualquer trabalho de organização do proletariado como classe, qualquer intenção de derrubada da dominação burguesa, qualquer objetivo de conquista de poder político pelo proletariado? Por que trocaram, enfim, o projeto político revolucionário pela administração do Estado burguês?
Considerando que hoje os interesses dos operários de todo o mundo são, em primeiro lugar e urgentemente, tomar o poder e salvar a espécie humana da extinção pelo capitalismo, por que os comunistas não assumem a liderança desse movimento internacional?
Por que o trotskismo não foi capaz de evoluir, se organizar e conquistar as massas trabalhadoras num mundo cada vez mais caótico e necessitado de um projeto claro de revolução?
Não sei, mas sei que não se pode chamar de comunista o stalinismo, assim como não se pode chamar de esquerda o PT. E que não há marxistas à altura das necessidades do movimento operário internacional neste segundo quarto do século XXI.
Reflexões sobre esquerda, marxistas, comunistas e PT - 1
Hoje me parece mais evidente do que nunca que eu estava certo ao considerar um equívoco a criação de um partido de esquerda, que veio a ser o partido dos trabalhadores, com o objetivo de disputar as eleições burguesas. Eu pensava então que a esquerda devia se dedicar a organizar os trabalhadores em sindicatos e movimentos independentes, preservando sua força, que era então crescente, em greves e manifestações etc., e marginal à sociedade burguesa da ditadura militar, antes da Constituição de 1988. Organizar e liderar movimentos dos trabalhadores seria preparar a estrutura política de uma sociedade pós-capitalista. Enquanto isso, essa vasta organização operária deveria negociar com todos os partidos burgueses e seus candidatos, trocando eventualmente votos por conquistas e benefícios. Organizar um partido e entrar na disputa burguesa significava aderir ao Estado burguês, acreditar na democracia liberal e até administrar o capitalismo para a burguesia, o que acabou acontecendo, de forma que o PT e Lula tornaram-se não só o partido e o político burgueses brasileiros por excelência no século XXI, como também alvos da extrema direita que ataca a democracia burguesa. Não é curioso, além de absurdo, que a extrema direita entranhada no capitalismo até o pescoço mobilize massas para uma revolução contra o Estado burguês, identificado com um partido e um líder de esquerda? Não é evidente a origem disso?