domingo, 29 de março de 2026

O melhor aluno da turma*

Em memória do Paulo Gualberto Murta (30/9/1953 - 25/3/2026). 

 

Olhei para os dois lados da Avenida Antônio Carlos, não vi nenhum carro e atravessei correndo. Súbito, ouvi um grito e senti um baque que me estirou no asfalto. Só então vi a bicicleta. Tinha sido atropelado e o ciclista assustado perguntava se eu estava machucado. Respondi que não, olhando as mãos, os joelhos e cotovelos esfolados. Apressei-me a levantar, limpei a camisa branca, apanhei minha pasta de couro preta e retomei o caminho, correndo novamente. Estava atrasado para a aula: tinha consumido os primeiros minutos da manhã terminando o para casa e agora precisava encontrar o portão aberto ou todo meu esforço teria sido em vão. 

O grupo escolar era um lugar penoso. Para ir à “casinha”, como se chamava o banheiro, precisava de permissão da professora, quando tinha coragem de pedir. Era uma situação traumática: no jardim de infância, uma vez, não consegui controlar, me sujei e permaneci sentado até que chegassem para me buscar, no começo da noite. O jardim, um conjunto de salinhas interligadas no segundo andar de um sobrado, com piso de taco e paredes cheias de cartazes e desenhos, me dava tristeza. A tarde passava devagar enquanto eu e outros meninos e meninas que nunca se tornaram meus amigos permanecíamos sentados em volta de mesinhas com quatro cadeirinhas cada uma, aprendíamos a escrever nosso nome, ouvíamos histórias tenebrosas de lobos maus e bruxas cruéis e brincávamos de toquinhos e massinhas. Só uma vez me alegrei, com um acontecimento extraordinário: descemos à avenida para saudar a bela Staël Abelha, mineira eleita Miss Brasil, desfilando em carro aberto. No grupo, também ficávamos sentados, mas era em carteiras enfileiradas. A sala de aula era uma prisão, eu ficava sentado na carteira, não podia levantar, não podia conversar, não podia sair. Tinha que permanecer em silêncio, prestar atenção na professora, copiar no caderno o que ela escrevia com giz branco no quadro verde. Como curumins ingênuos, a gente se divertia com as novidades, sem saber que estava sendo treinada pela ideologia do sistema para assimilar sua visão do mundo e obedecer suas leis. Algum gaiato soltava um comentário ou fazia alguma coisa engraçada e arrancava gargalhadas e olhares cúmplices na rebeldia à disciplina que a professora tentava impor. Colegas puxavam conversa, as meninas bonitas atraíam minha atenção, a luz do sol e os ruídos externos me distraíam. Eu olhava para as janelas laterais e minha mente voava, pensando nas brincadeiras que me aguardavam em casa, mas devia corresponder à expectativa da professora e ser bom aluno, para ser recompensado com carinho e admiração. Sem fazer esforço, era aprovado ano após ano com média final máxima. O segundo ano foi especial. Dona Maria Luísa era carinhosa e me incentivava com anotações na caderneta, ao lado das notas das provas bimestrais. No final do ano, escreveu palavras exclamativas: Promovido com 10! 1º lugar! Parabéns! Ela estava grávida e no começo do ano seguinte saiu de licença. Uma manhã recebemos a notícia fúnebre: minha professora querida tinha morrido ao dar à luz. Minha turma visitar sua casa, na Rua Turvo, a dois quarteirões do grupo. Minha mãe, que acabara de ganhar minha irmã caçula, comentou, consternada, que era inadmissível em pleno século XX ainda se morrer de parto no Brasil. No terceiro ano, eu fazia desenhos para ilustrar meus trabalhos e os de colegas e vizinhos que vinham pedir minha ajuda. Dona Marlene, que falava alto e tinha sotaque nortista, se entusiasmava com as minhas composições na séria intitulada “Se eu fosse…” e não se cansava de elogiar minha imaginação para os meus pais. Foi perturbador perder o posto de melhor aluno no quarto e último ano do grupo. Conceituada e temida, Dona Dagmar inspecionava nossos cadernos, um por um, na fila, antes de entrarmos em sala, e aquele ritual me apavorava. Ela desconsiderava meu passado escolar e o fato de ser filho de uma colega e, quando eu levava um bilhete que justificava com a asma um dever de casa não feito, perguntava para a classe: “Tem mais algum doentinho que não fez o para-casa?” Querendo me proteger da megera, minha mãe tentou me trocar de turma, mas não teve sucesso e o episódio selou minha queda. Eu me sentia culpado, pois era relapso. Mal saía da escola, aliviado pelo fim de mais um suplício, abraçava meu amigo e xará, moreninho, tímido e gentil, que morava num bairro distante e sempre tinha dinheiro no bolso, e íamos os dois comprar picolés de groselha na sorveteria da esquina. Eu sabia que aquele gelado proibido e irresistível poderia resultar numa crise de asma, assim como passar a tarde jogando bola na poeira, mas fazia assim mesmo, e adiava o dever de casa para a noite. À noite, distraído pela televisão e vencido pelo cansaço, calculava que poderia cumprir a obrigação no dia seguinte, antes de ir para a aula, se acordasse bem cedinho… Ao acordar, porém o que tinha parecido uma boa solução mostrava-se inexequível diante do sono matinal, e eu preferia dormir mais um pouquinho: levantava em cima da hora, vestia o uniforme correndo, arrumava a pasta, engolia o café com leite e saía mastigando o pão com manteiga, esforçando-me para chegar a tempo, rezando para não ter fila de revista e escapar das chamadas da dona Dagmar. 

Naquela manhã, depois de ser atropelado pela bicicleta, encontrei o portão do grupo ainda aberto e me acalmei ao alcançar a sala de aula, pois estava preparado: o para casa tinha sido fácil, uma composição sobre o tema “Meu melhor amigo”. Sem titubear, escrevi sobre José, com quem brincava desde que me lembrava, depois que Gérson foi embora para sempre. Nomeei-o, narrei nossas brincadeiras, proclamei os sentimentos que nos uniam e concluí: “Por tudo isso, José é o meu melhor amigo”. Quando dona Dagmar me chamou, levantei-me e li com segurança minha redação, voltei a sentar satisfeito e esperei pelas outras leituras. A menina que leu depois de mim teceu loas ao seu melhor amigo e fez suspense sobre seu nome. Estranhei que seu melhor amigo fosse homem e não mulher, e compreendi no final, quando ela revelou que falava do seu pai, mas achei aquilo falso e piegas. Outros colegas leram suas composições em seguida e todos falaram do pai. A cada nova leitura eu me encolhia na carteira, envergonhado por também não ter falado do meu pai: no domingo seguinte comemorava-se o Dia dos Pais e com certeza, apesar do título, a instrução da dona Dagmar era homenagear nossos pais, mas eu comi mosca e dera um vexame. Na votação feita pela turma, a minha composição ficou em último lugar; todos deviam pensar que eu não gostava do meu pai. Para mim, no entanto, pai era pai e amigo era amigo. 

*Capítulo do livro Ainda me Lembro (17).

sábado, 28 de março de 2026

Por que os governos do PT não aumentaram a consciência popular

Alguma coisa está acontecendo na esquerda, quando até Breno Altman faz críticas contundentes ao PT. Enfim. Ele faz constatações fundamentais ("Em quase vinte anos de governos petistas, a consciência política popular não aumentou nada, como isso é possível?"), mas não tira as conclusões necessárias. Ora, isso aconteceu porque o PT, sob a liderança do Lula, virou um partido burguês, deixou de ser um partido dos trabalhadores e se tornou um partido dos capitalistas, administrando o Estado para a classe dominante, que não consegue eleger candidatos próprios, ora vai com a esquerda (FHC, Lula, Dilma), ora vai com a direita (Collor) ou com extrema direita (bozo pai e bozo filho), porque é uma fração insignificante da população, e usa todo o seu poder para domar o presidente que ajuda a eleger, usando os instrumentos que controla: Congresso, STF, veículos de comunicação, além da ameaça permanente do Exército. Nada melhor para o capital do que o governo de um partido popular, porque mantém os trabalhadores paralisados e assume todos os ônus de governar, como está acontecendo agora. Por isso, um partido de esquerda quando chega ao poder tem que governar para os trabalhadores e enfrentar o capital, porque, de qualquer forma vai levar chumbo do capital, e precisa pelo menos manter o apoio da sua base. O PT fez o contrário, buscou (e busca ainda, exceto nas eleições) o apoio do capital e abandonou os trabalhadores. Conclusão: a extrema direita capturou os trabalhadores com ideias absurdas e o capital abandonou Lula. Quando precisou, para derrotar o bozo descontrolado, foi buscá-lo de volta. Agora, com se deduz do noticiário da globo, uol, estadão etc., já negociou com o bozo filho e vai com ele. Enquanto isso, os trabalhadores que ainda acreditam no Lula, que já foram quase 90%, mas agora são menos da metade disso, perderam as referências do que significa ser de esquerda, acham que políticos são todos iguais, todos corruptos e interessados só no seu. Por quê? Porque o PT não tem um projeto próprio para o país que o distinga dos partidos burgueses. Não defende a nação nem os trabalhadores: não revogou a abolição dos direitos trabalhistas feita pelos governos temer e bozo e não implanta um programa de desenvolvimento que privilegie os interesses nacionais em detrimento dos interesses do capital internacional. Ou Lula acorda e apresenta um programa radical para o Brasil e para os trabalhadores, ou o bozo jr. ganha a eleição e os próximos anos serão ainda piores do que os anos 2019-2022, do governo pandêmico, como está sendo pior o segundo governo trump.  

terça-feira, 24 de março de 2026

A melhor análise da comunicação do governo Lula

Não é falta de aviso. Entra num ouvido e sai pelo outro. Há muito tempo. Entre outras coisas, esse comunicador que eu não conhecia, mas é convincente, mostra que a extrema direita emprega ferramentas usadas por Lênin há mais de cem anos e que a esquerda abandonou. Ele pede um choque na comunicação do governo e avisa que se o bozo filho for eleito será muito pior do que o pai.   

segunda-feira, 23 de março de 2026

Voto nulo ou voto útil?

Parece uma pergunta de difícil resposta, desde os anos 1970. Nildo Ouriques faz parte de uma tradição política da qual participei na juventude, originária da Polop, a única tentativa de formular um caminho brasileiro para a revolução socialista e cujo maior expoente foi o cientista social mineiro Ruy Mauro Marini. 

Em 1970, a ditadura militar estava no auge. O Brasil ganhou a Copa do Mundo do México, o "milagre econômico" deslanchava, o país crescia em índices chineses, o movimento estudantil de 1968 tinha sido derrotado, a esquerda revolucionária foi esfacelada, a oposição do fascismo estava morta, presa, clandestina ou exilada. Teve eleição parlamentar naquele ano, a ditadura sempre fingiu que era uma democracia burguesa, e grande parte do povo, que não é bobo, votou nulo. O partido do governo, a Arena, saiu amplamente vitorioso, e o partido da "oposição", oposição consentida e castrada, o MDB, convenceu poucos eleitores. A ditadura deitava e rolava na propaganda do "país que vai pra frente", "ame-o ou deixe-o", um slogan precursor do "Vai pra Cuba!", que os neofascistas recuperaram. Eles se repetem sempre, sem qualquer criatividade, porque são, acima de tudo, indigentes mentais e débeis morais. 

Quatro anos depois veio outra eleição e a surpresa: em apenas quatro anos, o humor popular tinha mudado e seu voto migrou, em grande parte, para o MDB. Em Minas, elegeu para o Senado Itamar Franco, que viria depois a ser presidente. A esquerda sobrevivente se dividiu: pregar o voto nulo, reforçando a tendência popular em 1970, ou apoiar "candidatos autênticos" da "oposição" MDB. A maior parte fez essa opção, a minoria, praticamente apenas os remanescentes da Polop, pregaram o voto nulo. A ditadura levou um susto e o MDB passou a ser um novo espaço de atuação institucional da esquerda, que foi aos poucos estreitando seu laços com o que havia de descontentamento na burguesia e na pequena burguesia. A divisão da esquerda nunca se refez, os "democratistas" prevaleceram e a Polop se autodissolveu. 

A eleição de 1974 foi o primeiro sinal de que a ditadura ia acabar algum dia. Isso porque a situação econômica mundial que sustentava o "milagre brasileiro" tinha mudado, com a crise do petróleo, que disparou a dívida brasileira. Pouco antes, o novo presidente ditador, Geisel, então presidente da Petrobrás, tinha decidido não investir em tecnologia e pesquisa, considerando que não valia a pena, pois o preço do petróleo era muito baixo. Foi um erro crucial. E olha que a ditadura tinha um plano de desenvolvimento econômico, um projeto de industrialização, baseado em empresas estatais; o Brasil nunca teve tantas "brás" quanto nesse época. Os militares chegaram até a começar um programa nuclear, o que levou a atritos com os EUA e perda de apoio, outro motivo para enfraquecimento do regime. 

O fato é que a ditadura foi incompetente em relação ao petróleo e nunca mais se recuperou, foi só descendo a ladeira, vendo a inflação crescer e a oposição também, se dividindo entre "aberturistas", favoráveis a uma abertura política lenta, gradual e segura, e a linha dura, favorável ao fechamento total. O processo foi uma agonia longa e os militares da linha Geisel se impuseram e levaram tudo, no fim, voltando para os quartéis sem qualquer punição, cheios de privilégios, impondo sucessivas derrotas à oposição, que acabou engolindo, como primeiro presidente civil, um político da ditadura, e, como primeiro presidente eleito pelo voto direto, outro político de direita apoiado pela Globo. Depois vieram o governo Itamar Franco e a estabilização da economia, com o Plano Real, a eleição de FHC e sua adesão ao Consenso de Washington, que implantou o neoliberalismo na América Latina, e a promessa do Lula de que, se fosse eleito na quarta tentativa, seguiria na mesma toada, o que cumpriu. 

Agora o voto nulo ressurge, diante de uma interpretação da realidade em que parte da esquerda, aquela mesma herdeira do voto nulo de 1974, diz que, seja com Lula, seja com o bozo, ou seu filho, pouco muda no país e que é preciso buscar outro caminho, o da revolução. É um dilema: não há dúvida de que é melhor viver num governo minimamente civilizado, como o do Lula, do que num desgoverno que liberou todos os crimes, como foi o do bozo. Também é certo, por outro lado, que enquanto a alternativa ao fascismo for Lula, o Brasil e a vida dos brasileiros dificilmente vão melhorar.  

Pistas de Marina Lima e Antônio Cícero

Boa entrevista da Marina Lima para a Folha de S. Paulo. Não sabia que a Folha fazia entrevistas em vídeo, vi essa por acaso. Tenho uma, digamos, relação com a Marina. Temos a mesma idade, dei a uma filha esse belo nome e um dos motivos foi a simpatia pela cantora. Ela me impressionou muito quando apareceu, no final dos anos 1970, começo dos 80. Achei que era diferente e tinha talento, gostei muito de algumas canções, Fullgás em especial, comprei seus primeiros discos, tinham uma sonoridade própria. Depois me desinteressei dela, não acompanhei sua carreira. Também admirei o Antônio Cícero letrista, com versos elaborados e modernos. Quando fazia músicas com minha irmã Rita, lembrava da parceria desses dois irmãos. A decisão do Antônio Cícero pela eutanásia, há dois anos, é uma dessas coisas marcantes pela sua raridade, que nos faz pensar e admirar. A Marina fala dessas coisas nessa entrevista, na modernidades dos dois, diferente do ambiente musical brasileiro da época, dos diversos ambientes, melhor dizendo. Ao contrário do que eu imaginava e apesar da voz, ela está firme. 

Outro pernambucano se destaca na política, desta vez de esquerda

Jones Manoel é o primeiro militante político de esquerda brasileiro que vem do povo e ganha projeção popular nacional, desde Lula. Ele também é pernambucano e tem mais ou menos a idade que Lula tinha quando se projetou nacionalmente, liderando e controlando as greves dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP) e logo influenciando o movimento sindicato de todo o país, até formar o PT e dar um salto para a política, na mais impressionante trajetória de um político brasileiro desde Getúlio Vargas. As comparações param por aí. Tenho há muito tempo minha opinião sobre o Lula, com o qual nunca concordei, mas já fui mais ou menos condescendente, conforme a situação. Lula nunca foi de esquerda e nunca pretendeu fazer política fora dos limites da dominação burguesa, o que na prática o coloca como representante do capital; as dúvidas ficam quanto à origem do seu compromisso com o imperialismo estadunidense, mas isso não importa de fato, porque, na prática, assim como FHC, ele seguiu a cartilha neoliberal e nunca se indispôs com Washington. Jones Manoel não é líder sindical, sua projeção se deu nas redes sociais, embora seja militante do PCBR e participe ativamente de movimentos populares. A principal diferença entre ele e o presidente está na consciência política, baseada em amplo conhecimento, que o tornam uma personalidade da qual se podem esperar ações e posicionamentos raros no Brasil. Em conhecimento, se assemelha ao Ciro Gomes, em coragem, ao Brizola. Que faça um boa campanha para deputado e continue lúcido, num trajeto até a candidatura a presidente em 1930, são os meus votos.    

Imprensa e ideologia (2)

Depois de publicar o post anterior ("Imprensa e ideologia") vi este vídeo esclarecedor. Parece feito sob medida para parte do que escrevi. Mostra que, além de instrumento, a Globo está metida até o pescoço nos interesses que defende. Palmas para o ICL. A propósito: a Globo colocou o símbolo do PT e poupou Jacques Wagner, petista da Bahia envolvido com o Master e que faz parte do lobby sionista.   

domingo, 22 de março de 2026

Imprensa e ideologia

Eu ia publicar um vídeo da Globonews para exemplificar, mas decidi não perder tempo com isso. É sobre o Irã, mas podia ser sobre a Palestina, Cuba, Venezuela, até sobre o Brasil. A Globo é um instrumento da política neoliberal, o que significa do capital internacional, o que significa do imperialismo estadunidense, o que significa da civilização eurocêntrica. Está no Brasil, mas copia, com qualidade inferior, como tudo que o capital internacional produz no país, a imprensa capitalista hegemônica. O que fez nas manifestações populares de 2013 e na campanha do impeachment da presidenta Dilma foi asqueroso. Faz o mesmo na política internacional, sempre subserviente aos EUA. 

Não foi a Globo, porém quem subjugou minha geração. Todos sabíamos de que lado ela estava, pois apoiou o golpe de 1964, foi porta-voz oficiosa da ditadura, boicotou os movimentos populares, tentou impedir a eleição do Brizola e lhe fez oposição, ajudou a derrubar a emenda das diretas e a eleger o Collor. A ideologia é insidiosa. O neoliberalismo contaminou minha geração, a geração estudantil que se levantou contra a ditadura e começou a derrubá-la, transmitido pela própria esquerda, nos governos dos seus principais expoentes, FHC, Lula e Dilma. O tucano inaugurou a adesão ao Consenso de Washington e o ex-operário, fazendo-lhe oposição, seguiu o mesmo caminho, porém, uma vez no poder, e da mesma forma a ex-guerrilheira. 

A ideologia funciona assim, primeiro confiamos nas pessoas, depois acreditamos nelas, e continuamos obedecendo-as mesmo quando elas não fazem o que esperamos, quando suas ações não correspondem mais ao discurso. A imagem da Dilma, que pegou em armas contra a ditadura, era mais forte do que os atos do seu governo a favor do capital. A imagem do Lula, um líder operário, sindicalista, retirante nordestino, homem autêntico do povo, sempre superou seu governo subserviente aos banqueiros e ao agrotoxiconegócio, abraçado ao magnata da indústria, seu vice. A imagem do intelectual marxista FHC sempre dourou as medidas antinacionais e antitrabalhistas que ele tomou. Já lhe tive desprezo, a partir do momento em que inventou a reeleição em seu próprio benefício, mas hoje penso que, dos três, talvez o sociólogo seja o mais honesto, uma vez que nunca se arvorou em líder dos trabalhadores. 

O fato é que atravessamos décadas de confusão ideológica, influenciados pelo fim da URSS e do bloco soviético, sem compreender a civilização chinesa e colonizados pelo eurocentrismo, sem compreender que, aderindo ao neoliberalismo dos tucanos e petistas, ajudávamos a abrir caminho para o fascismo militar, que fez um governo de horrores, no qual morreram mais de 700 mil brasileiros na pandemia. Não obstante, e embora seu líder máximo se encontre preso por tramar um golpe de Estado, o fascismo está pronto para voltar ao poder, novamente com apoio da Globo, do UOL etc. e por meio do voto popular. Quantas décadas levaremos para construir uma alternativa política enfim popular e nacional? 

O que explica o fracasso do governo de esquerda no Chile

Jones Manoel analisa o fiasco do presidente cuja candidatura nasceu da uma grande rebelião popular e foi a grande esperança de esquerda. Em resumo: não cumpriu as promessas de campanha e fez um governo neoliberal, alinhado com os EUA. Os eleitores escolheram um candidato que prometeu mudanças, na sua eleição e na sua sucessão. Lembra o Brasil. O fato é que, ao chegar ao governo, no Estado burguês capitalista, a esquerda latino-americana precisa escolher entre executar um programa popular e mobilizar e organizar os trabalhadores ou se curvar aos interesses do capital e do imperialismo e fazer o que estes querem, como todos os governos de direita, dar ao povo algumas migalhas do banquete dos ricos, justificando que não dá pra fazer mais. O capital tem estratégias e muito dinheiro para realizá-las, impondo seus interesses. Quanto à esquerda, perdeu o rumo e ficou órfã, depois do fim da URSS e do seu bloco; poucos são os políticos e partidos que compreendem que ser de esquerda é formular e executar um projeto nacionalista, porque o capital não tem pátria e as burguesias nacionais não se distinguem do capital internacional, não têm o menor interesse no desenvolvimento nacional, muito menos se preocupam com os trabalhadores.   

sábado, 21 de março de 2026