sexta-feira, 3 de abril de 2026

Postagem publicada em 2014 antecipava o Brasil descendo a ladeira

RPJ: a nova marcha da família? 

Primeiro pensei que se tratava daqueles jogos, RPG. A estética da cartilha lembra a TFP e outros movimentos de direita. Siglas. O globo da bandeira do Brasil com o mapa invertido e o lema positivista também alterado: "Desordem no Congresso". Jogo de palavras. As cores verde, amarelo, azul. E a palavra mágica, presente em todos os discursos da direita, desde que o Brasil inaugurou uma democracia mais participativa, depois da II Guerra Mundial: corrupção. Outras palavras fortes: "indignação", "covardia". E o advérbio que remete à maior campanha política de massas que o Brasil já teve, pelas eleições diretas, em 1984: "já". A cartilha de 12 páginas, grampeada, com boa qualidade de impressão, está sendo distribuída nas ruas. Não é apócrifa. Logo no começo, na página 2 há uma lista de nomes de "fundadores" do "movimento". Não conheço nenhum, além do nome não há outra identificação. RPJ são as iniciais de "Reforma Política Já", o movimento. A "instituição" se chama Pró-Cidadania -- Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Cidadania. Seu presidente é Marcílio A. Moreira. Tem página na internet (www.rpj.org.br), telefone (31-9122-4330) e email: m2augusto@hotmail.com. 

Há poucos dias, um grande movimento de sindicatos, associações, organizações diversas e partidos políticos inclusive, todos identificados, promoveram um grande plebiscito a favor da reforma política. O mesmo objetivo que, aparentemente, o RPJ busca. O plebiscito pede a eleição de uma Constituinte exclusiva para a reforma política. O resultado do plebiscito saiu ontem: foram 7,4 milhões de votos favoráveis à Constituinte (97,2% -- 2,7%, contrários), número bastante expressivo para um movimento organizado pela sociedade, sem participação governamental nem estatal. O RPJ não participou. Por quê?

Clique aqui para ler a íntegra.

Música do dia: Charles Anjo 45 (Jorge Ben), com Caetano Veloso

Não lembrava dessa bela gravação, com participação do autor. A gravação célebre é da Gal Costa no disco ao vivo Fa-tal. A canção é um retrato antigo da presença de protetores nas favelas. Há coisas que são óbvias: se o Estado não está presente, indivíduos, organizações informais e instituições privadas se instalams. Oferecem serviços, impõem sua ordem e exigem obediência: silêncio, colaboração, adesão, votos. Só Brizola e Darcy Ribeiro entenderam isso, a esquerda social-liberal tucana e petista privatizou serviços estatais. Veja como as coisas se encaixam: enquanto o Estado brasileiro era destruído pelo neoliberalismo democratista, o crime organizado crescia. O crime organizado é um tipo de iniciativa privada, está instalado na Faria Lima, como se sabe hoje. Seu melhor ambiente não poderia ser outro senão o governo da extrema direita, que prega a extinção do Estado para os pobres, o monopólio do Estado para os capitalistas. Nele prolifera o "empreendedorismo": igrejas, serviços por aplicativos, milícias etc. Assim, concluímos mais uma vez que o único caminho para a esquerda é do desenvolvimento nacional, com presença central do Estado e poder popular. Tudo se encaixa, basta ouvir com atenção uma canção dos anos 1960.  

quinta-feira, 2 de abril de 2026

O fenômeno Lula

Tudo (ou quase tudo) que o Lula diz nessa entrevista sem perguntas é verdade, mas se sustenta em mentiras, porque não corresponde à realidade. Lula nunca mudou de partido porque o PT é dele, sempre fez o que ele quis, se transformou no Partido do Lula, deixou de ser o Partido dos Trabalhadores. Ciro às vezes fala bobagens, mas Lula também fala, não é por isso que Lula o preteriu como candidato óbvio à sua sucessão, foi porque Ciro brilharia mais do que ele e o jogaria nas sombras, pois tinha (e tem) um projeto para o país, diferente do projeto neoliberal com o qual Lula se comprometeu. Se Lula se preocupa tanto com o partido, por que não deixou que o PT escolhesse seu sucessor, em vez de impor a candidatura desastrosa da Dilma? Depois que o levou ao poder, o PT perdeu sua função, isto é, a função que deveria ter, a de representar os trabalhadores e implantar um programa de governo próprio, coisa que o PT nunca teve. A função do PT sempre foi a de sustentar a candidatura do Lula, de torná-lo um candidato com apoio popular. Tanto isso é verdade que, ao ver que não governaria só com o PT, Lula buscou apoio em outros partidos, que se tornaram privilegiados em relação ao seu próprio partido. O lema do governo Lula passou a ser "um governo de todos", lema dúbio, que poderia ser uma crítica aos governos anteriores, que não incluíam os trabalhadores, mas de fato significava que não seria um governo "só" dos trabalhadores, mas também das classes dominantes. E na prática, ao adotar o projeto neoliberal do FHC, compromisso assumido na famigerada "carta aos brasileiros (banqueiros)", tornou-se o governo dos capitalistas. Tudo isso são fatos, hoje óbvios. O PT tornou-se dependente do Lula, não sobrevive sem ele, definhou e tende a sumir, depois dele, se não se transformar de fato num partido, com programa etc. Lula diz que é preciso ter partidos sérios e acabar com a promiscuidade na política, mas seus governos foram e é mais ainda o atual sustentados na promiscuidade com o chamado centrão, em nome da "governabilidade". O PT nunca suportou dissidências que desafiassem Lula, prova disso são os inúmeros militantes e tendências expulsos. Se Lula se preocupasse com o seu partido, não aceitaria que seus auxiliares, como Jacques Wagner e Clara Ant, promovessem o sionismo e protegessem Israel da reprovação geral ao genocídio palestino. Tampouco se alinharia com os EUA contra a Venezuela, no não reconhecimento da eleição e no veto à entrada no Brics. Enfim, é contradição após contradição, e não só isso, Lula se passa por um semideus, acima do bem e do mal, mas destila veneno, ao dizer que "Camilo achava que o mau era eu e agora está vendo" e que "Ciro foi um bom ministro". É claro que foi. Ciro é certamente o político mais brilhante da nossa época e não apoiar sua candidatura é um dos maiores prejuízos que Lula deu ao Brasil, só comparável ao fato de impedir que Brizola fosse ao segundo turno em 1989. Ao contrário do que diz Lula, Ciro foi vitorioso em todas as eleições que disputou, exceto as de presidente, mas o mais importante é que, uma vez eleito, não traiu seu projeto político e realizou obras concretas. Por isso mesmo era o mais qualificado para suceder Lula, mas este quis Dilma, dependente dele, inexperiente, inábil. É evidente que Dilma foi escolhida para guardar a vaga durante quatro anos, mas aconteceram imprevistos. Isso é pensar no país ou pensar em si mesmo? É essa a questão. Lula não pensou no Brasil, talvez nunca tenha pensado, pensou em si mesmo, talvez só pense em si mesmo. Isso na melhor hipótese, a pior seria seu compromisso com o neoliberalismo. Simples assim. No entanto, não estou condenando Lula, ele só é o que é porque nos deixamos enganar, porque a esquerda se iludiu com o "líder operário", esse ser esperado como um messias pelos marxistas. O messias mostrou ser o mais hábil político da história brasileira, rivalizando com Getúlio. Seu único problema é que não tinha um projeto nacional e popular para o Brasil e para os brasileiros, e converteu-se no líder burguês capitalista. Imagina Lula com o projeto do Brizola, seria muito bom, mas nesse caso, penso, não seria Lula, porque Lula sempre teve uma ideologia capitalista liberal. Não à toa, seu mais dileto afilhado é o social-liberal Fernando Haddad. Lula engabela os entrevistadores, porque é um mestre da retórica, um encantador de serpentes, como o define Ciro. A única vez em que o vi ser apertado por um repórter foi naquela entrevista histórica para o Glenn Greenwald. Afora tudo isso, é o de sempre, a imprensa capitalista busca o que não é importante para os brasileiros, segue a pauta dos patrões, joga Lula contra Ciro e Ciro contra Lula, para favorecer a volta do neofascismo, que será terrível no segundo governo, assim como trump 2 é pior do que trump 1.    

Brizola era de esquerda; Lula e FHC são?

Cada vez com mais frequência me pergunto por que a minha geração foi incapaz de enxergar o que hoje é óbvio. Brizola estava muito à esquerda do que vieram a ser os governos do PSDB e do PT. Dia desses, num programa no YT, uma intelectual de esquerda, instada a escolher o político mais importante para a história do Brasil, ou Lula ou Getúlio, escolheu o primeiro. E eu pensei: que escolha absurda, completamente sem cabimento, só pode ser feita por quem continua vítima da cegueira da qual falei. A obra de Getúlio existe ainda no Brasil, quase cem anos depois, apesar do desmonte a que foi submetida desde a ditadura militar, mas principalmente pelos governos civis "democráticos" e "de esquerda", sem falar no do temer, o minúsculo, e no do bozo, o boçal. E Lula? Gostaria que me apontassem qual a grande realização dos, digamos, 16 anos de governos petistas, excluindo o segundo da Dilma, que não houve. O que é durável nos cinco governos Lula (porque Dilma só existiu porque Lula a escolheu e fez campanha pra ela e, afinal, foi ele também quem escolheu temer, o minúsculo, para vice)? Afora os erros gigantescos que cometeu, do ponto de vista dos interesses nacionais e até mesmo dos seus, como a escolha do vice diminuto e traidor, a coisa mais duradoura que Lula fez foi continuar a política econômica do FHC, de adesão à cartilha do neoliberalismo e submissão aos EUA. Imagina se, no mesmo tempo, a gente tivesse a implantação do programa de educação em tempo integral do Brizola. Aí sim teríamos uma mudança radical no Brasil. Os governos Lula aumentaram muito as vagas na universidade, em 2025 foram quase 10 milhões de alunos, mas 80% delas são em faculdades particulares. Além disso, nas universidades públicas a evasão chegou a 25%. São dois números absurdos e não podem ser usados como propaganda senão por cegos, porque eles mostram, primeiro, que 4 em 5 universitários brasileiros estão fazendo dívida para estudar em faculdades de má qualidade, como confirmou o escândalo recente sobre os cursos de medicina. Mais grave ainda é fazer curso superior e depois ser um trabalhador informal, motorista de uber, entregador de aplicativo. É isso que acontece numa nação que não oferece oportunidades, porque se desindustrializou e todo o dinheiro do Estado sob governos neoliberais de teto de gastos e arcabouços fiscais vai para os banqueiros e para o agrotoxiconegócio, não sobra nada para saúde, educação, transporte, moradia, ciência e tecnologia, enfim, as áreas que beneficiam o povo e oferecerem oportunidades para os jovens. A universidade pública brasileira está sucateada e se socorre com ensino à distância no mínimo deficiente. Não é à toa que Lula perdeu popularidade entre os jovens. Entre aqueles influenciados pelas igrejas neopentecostais, deduz-se quem captura essa impopularidade; entre os outros a simpatia vai para correntes políticas que se definem como socialistas, como a UP. O fato é que, afora o controle da inflação obtida com o Plano Real, e exigência do neoliberalismo para implantação do seu programa de "modernização", nada temos a comemorar em 41 anos de governos civis, 36 de governos eleitos por voto direto, na "democracia". Com um retrospecto tão ruim de realizações, não surpreende que a tão idolatrada "democracia brasileira" venha mais uma vez a cair nas mãos da extrema direita antipovo pela via da escolha popular. As razões são óbvias. Só o que me espanta cada vez mais é por que nos deixamos enganar durante a vida inteira.    

O 'lobby' sionista "de esquerda" no Brasil: Tábata Amaral, Clara Ant, Jacques Wagner

Por meio de um projeto de lei, a deputada do PSB Tábata Amaral serve ao lobby sionista e pretende censurar qualquer crítica a Israel no Brasil. A assessora do presidente Lula Clara Ant, do PT, também a serviço do lobby sionista, organiza um seminário para promover o sionismo no Brasil. E na Bahia do líder do governo Jacques Wagner, uma espécie de ACM "de esquerda", os soldados israelenses criminosos de guerra no genocídio dos palestinos passam férias sem precisar de visto de entrada e têm liberdade para agredir a população local e expressar racismo, entre outros crimes relatados por moradores e comerciantes. Mais uma ótima análise do corajoso do judeu antissionista Breno Altman. 

terça-feira, 31 de março de 2026

Tribunal americano equipara rede social a droga e condena Meta a pagar indenização

Indenização a jovem que foi lesada pelo vício das redes sociais é de 6 milhões de dólares. Documentos da defesa mostram que dirigentes e funcionários da Meta tratam seu produto como droga viciante há muito tempo. "Agora vamos atrás de crianças de 13 anos", diz uma das provas. A estratégia dos advogados foi a mesma usada no século passado contra a indústria do tabaco, que também durante décadas fez propaganda de cigarros e induziu o público a se viciar, tendo conhecimento dos males que provocava. Então e agora, em nome do lucro, movidos sempre pelo capital. A previsão é que uma enxurrada de ações e sentenças virá em seguida, levando ao controle dessas empresas criminosas, finalmente. Um Calma Urgente! de vez em quando é bom. É interessante constatar como Alessandra Orofino e Gregório Duvivier são liberais, acreditam na democracia burguesa, o que significa acreditar no capitalismo e no neoliberalismo. Bruno Torturra compreende a extensão do assunto, a profundidade da questão. 

segunda-feira, 30 de março de 2026

A escravidão ao capital é o entrave ao bem-estar humano

"Na China, uma pessoa entra numa cabine e em quinze minutos faz um checape completo", narra Elias Jabbour, para exemplificar como a inteligência artificial pode ser usada para o bem-estar coletivo, numa nação socialista, em vez de ser usada para empresas venderem porcarias e bilionários ficarem ainda mais ricos, como acontece na civilização capitalista. 

O fato é que o mundo pode ser muito melhor, se os humanos assumirem o controle do capital, em vez de serem escravos dele e dos seus proprietários. A China fez isso e está mostrando o caminho para o restante da humanidade. Esse é o ponto. As discussões sobre se a China é capitalista ou socialista, se é uma ditadura ou democracia, só mostram o elevado grau ideológico a que o capital nos submeteu no Brasil. Que autoridade temos nós para falar em democracia, numa nação de tanta miséria, tanta violência, tanta exploração do trabalho, tanta opressão, tanta corrupção dos políticos e autoridades capitalistas? Como me disse uma diarista no ônibus, hoje: de quatro em quatro anos, aparece um candidato lá em casa pedindo meu voto, depois some, não quer saber se eu estou precisando de remédio, de comida nem nada. É essa a democracia que a esquerda brasileira defende há mais de quarenta anos. O único obstáculo entre a riqueza extraordinária que os seres humanos produzem e o seu bem-estar é a dominação do capital. Inverta-se isso, assumam os trabalhadores o controle sobre o capital e a vida será incomparavelmente melhor.  

domingo, 29 de março de 2026

O melhor aluno da turma*

Em memória do Paulo Gualberto Murta (30/9/1953 - 25/3/2026). 

Olhei para os dois lados da Avenida Antônio Carlos, não vi nenhum carro e atravessei correndo. Súbito, ouvi um grito e senti um baque que me estirou no asfalto. Só então vi a bicicleta. Tinha sido atropelado e o ciclista assustado perguntava se eu estava machucado. Respondi que não, olhando as mãos, os joelhos e cotovelos esfolados. Apressei-me a levantar, limpei a camisa branca, apanhei minha pasta de couro preta e retomei o caminho, correndo novamente. Estava atrasado para a aula: tinha consumido os primeiros minutos da manhã terminando o para casa e agora precisava encontrar o portão aberto ou todo meu esforço teria sido em vão. 

O grupo escolar era um lugar penoso. Para ir à “casinha”, como se chamava o banheiro, precisava de permissão da professora, quando tinha coragem de pedir. Era uma situação traumática: no jardim de infância, uma vez, não consegui controlar, me sujei e permaneci sentado até que chegassem para me buscar, no começo da noite. O jardim, um conjunto de salinhas interligadas no segundo andar de um sobrado, com piso de taco e paredes cheias de cartazes e desenhos, me dava tristeza. A tarde passava devagar enquanto eu e outros meninos e meninas que nunca se tornaram meus amigos permanecíamos sentados em volta de mesinhas com quatro cadeirinhas cada uma, aprendíamos a escrever nosso nome, ouvíamos histórias tenebrosas de lobos maus e bruxas cruéis e brincávamos de toquinhos e massinhas. Só uma vez me alegrei, com um acontecimento extraordinário: descemos à avenida para saudar a bela Staël Abelha, mineira eleita Miss Brasil, desfilando em carro aberto. No grupo, também ficávamos sentados, mas era em carteiras enfileiradas. A sala de aula era uma prisão, eu ficava sentado na carteira, não podia levantar, não podia conversar, não podia sair. Tinha que permanecer em silêncio, prestar atenção na professora, copiar no caderno o que ela escrevia com giz branco no quadro verde. Como curumins ingênuos, a gente se divertia com as novidades, sem saber que estava sendo treinada pela ideologia do sistema para assimilar sua visão do mundo e obedecer suas leis. Algum gaiato soltava um comentário ou fazia alguma coisa engraçada e arrancava gargalhadas e olhares cúmplices na rebeldia à disciplina que a professora tentava impor. Colegas puxavam conversa, as meninas bonitas atraíam minha atenção, a luz do sol e os ruídos externos me distraíam. Eu olhava para as janelas laterais e minha mente voava, pensando nas brincadeiras que me aguardavam em casa, mas devia corresponder à expectativa da professora e ser bom aluno, para ser recompensado com carinho e admiração. Sem fazer esforço, era aprovado ano após ano com média final máxima. O segundo ano foi especial. Dona Maria Luísa era carinhosa e me incentivava com anotações na caderneta, ao lado das notas das provas bimestrais. No final do ano, escreveu palavras exclamativas: Promovido com 10! 1º lugar! Parabéns! Ela estava grávida e no começo do ano seguinte saiu de licença. Uma manhã recebemos a notícia fúnebre: minha professora querida tinha morrido ao dar à luz. Minha turma visitar sua casa, na Rua Turvo, a dois quarteirões do grupo. Minha mãe, que acabara de ganhar minha irmã caçula, comentou, consternada, que era inadmissível em pleno século XX ainda se morrer de parto no Brasil. No terceiro ano, eu fazia desenhos para ilustrar meus trabalhos e os de colegas e vizinhos que vinham pedir minha ajuda. Dona Marlene, que falava alto e tinha sotaque nortista, se entusiasmava com as minhas composições na séria intitulada “Se eu fosse…” e não se cansava de elogiar minha imaginação para os meus pais. Foi perturbador perder o posto de melhor aluno no quarto e último ano do grupo. Conceituada e temida, Dona Dagmar inspecionava nossos cadernos, um por um, na fila, antes de entrarmos em sala, e aquele ritual me apavorava. Ela desconsiderava meu passado escolar e o fato de ser filho de uma colega e, quando eu levava um bilhete que justificava com a asma um dever de casa não feito, perguntava para a classe: “Tem mais algum doentinho que não fez o para-casa?” Querendo me proteger da megera, minha mãe tentou me trocar de turma, mas não teve sucesso e o episódio selou minha queda. Eu me sentia culpado, pois era relapso. Mal saía da escola, aliviado pelo fim de mais um suplício, abraçava meu amigo e xará, moreninho, tímido e gentil, que morava num bairro distante e sempre tinha dinheiro no bolso, e íamos os dois comprar picolés de groselha na sorveteria da esquina. Eu sabia que aquele gelado proibido e irresistível poderia resultar numa crise de asma, assim como passar a tarde jogando bola na poeira, mas fazia assim mesmo, e adiava o dever de casa para a noite. À noite, distraído pela televisão e vencido pelo cansaço, calculava que poderia cumprir a obrigação no dia seguinte, antes de ir para a aula, se acordasse bem cedinho… Ao acordar, porém o que tinha parecido uma boa solução mostrava-se inexequível diante do sono matinal, e eu preferia dormir mais um pouquinho: levantava em cima da hora, vestia o uniforme correndo, arrumava a pasta, engolia o café com leite e saía mastigando o pão com manteiga, esforçando-me para chegar a tempo, rezando para não ter fila de revista e escapar das chamadas da dona Dagmar. 

Naquela manhã, depois de ser atropelado pela bicicleta, encontrei o portão do grupo ainda aberto e me acalmei ao alcançar a sala de aula, pois estava preparado: o para casa tinha sido fácil, uma composição sobre o tema “Meu melhor amigo”. Sem titubear, escrevi sobre José, com quem brincava desde que me lembrava, depois que Gérson foi embora para sempre. Nomeei-o, narrei nossas brincadeiras, proclamei os sentimentos que nos uniam e concluí: “Por tudo isso, José é o meu melhor amigo”. Quando dona Dagmar me chamou, levantei-me e li com segurança minha redação, voltei a sentar satisfeito e esperei pelas outras leituras. A menina que leu depois de mim teceu loas ao seu melhor amigo e fez suspense sobre seu nome. Estranhei que seu melhor amigo fosse homem e não mulher, e compreendi no final, quando ela revelou que falava do seu pai, mas achei aquilo falso e piegas. Outros colegas leram suas composições em seguida e todos falaram do pai. A cada nova leitura eu me encolhia na carteira, envergonhado por também não ter falado do meu pai: no domingo seguinte comemorava-se o Dia dos Pais e com certeza, apesar do título, a instrução da dona Dagmar era homenagear nossos pais, mas eu comi mosca e dera um vexame. Na votação feita pela turma, a minha composição ficou em último lugar; todos deviam pensar que eu não gostava do meu pai. Para mim, no entanto, pai era pai e amigo era amigo. 

*Capítulo do livro Ainda me Lembro (17).

sábado, 28 de março de 2026

Por que os governos do PT não aumentaram a consciência popular

Alguma coisa está acontecendo na esquerda, quando até Breno Altman faz críticas contundentes ao PT. Enfim. Ele faz constatações fundamentais ("Em quase vinte anos de governos petistas, a consciência política popular não aumentou nada, como isso é possível?"), mas não tira as conclusões necessárias. Ora, isso aconteceu porque o PT, sob a liderança do Lula, virou um partido burguês, deixou de ser um partido dos trabalhadores e se tornou um partido dos capitalistas, administrando o Estado para a classe dominante, que não consegue eleger candidatos próprios, ora vai com a esquerda (FHC, Lula, Dilma), ora vai com a direita (Collor) ou com extrema direita (bozo pai e bozo filho), porque é uma fração insignificante da população, e usa todo o seu poder para domar o presidente que ajuda a eleger, usando os instrumentos que controla: Congresso, STF, veículos de comunicação, além da ameaça permanente do Exército. Nada melhor para o capital do que o governo de um partido popular, porque mantém os trabalhadores paralisados e assume todos os ônus de governar, como está acontecendo agora. Por isso, um partido de esquerda quando chega ao poder tem que governar para os trabalhadores e enfrentar o capital, porque, de qualquer forma vai levar chumbo do capital, e precisa pelo menos manter o apoio da sua base. O PT fez o contrário, buscou (e busca ainda, exceto nas eleições) o apoio do capital e abandonou os trabalhadores. Conclusão: a extrema direita capturou os trabalhadores com ideias absurdas e o capital abandonou Lula. Quando precisou, para derrotar o bozo descontrolado, foi buscá-lo de volta. Agora, com se deduz do noticiário da globo, uol, estadão etc., já negociou com o bozo filho e vai com ele. Enquanto isso, os trabalhadores que ainda acreditam no Lula, que já foram quase 90%, mas agora são menos da metade disso, perderam as referências do que significa ser de esquerda, acham que políticos são todos iguais, todos corruptos e interessados só no seu. Por quê? Porque o PT não tem um projeto próprio para o país que o distinga dos partidos burgueses. Não defende a nação nem os trabalhadores: não revogou a abolição dos direitos trabalhistas feita pelos governos temer e bozo e não implanta um programa de desenvolvimento que privilegie os interesses nacionais em detrimento dos interesses do capital internacional. Ou Lula acorda e apresenta um programa radical para o Brasil e para os trabalhadores, ou o bozo jr. ganha a eleição e os próximos anos serão ainda piores do que os anos 2019-2022, do governo pandêmico, como está sendo pior o segundo governo trump.  

terça-feira, 24 de março de 2026

A melhor análise da comunicação do governo Lula

Não é falta de aviso. Entra num ouvido e sai pelo outro. Há muito tempo. Entre outras coisas, esse comunicador que eu não conhecia, mas é convincente, mostra que a extrema direita emprega ferramentas usadas por Lênin há mais de cem anos e que a esquerda abandonou. Ele pede um choque na comunicação do governo e avisa que se o bozo filho for eleito será muito pior do que o pai.