segunda-feira, 27 de julho de 2026

Música do dia: Emanuelle, com Marie Espinosa e Quentin Bachelet

Gosto muito da música, mas confesso que a razão de publicar este vídeo é a beleza de Marie Espionsa.

 

Elias Jabbour para presidente

O título é uma provocação, é claro, mas certamente o Brasil estaria melhor se ele governasse e não Lula. Vladimir Safatle, Jones Manoel e Elias Jabbour são os políticos mais lúcidos do Brasil hoje. Muito diferentes, eles convergem no amplidão do seu conhecimento e na capacidade de pensar com a própria cabeça, para além de repetirem cartilhas e reverenciarem o Lula, que é o que a esquerda brasileira fez no último meio século. Dessa forma, eles conseguem ver a realidade nacional e mundial, porque, em 2026, é impossível olhar o Brasil sem olhar ao mesmo tempo o mundo. Elias Jabbour, em especial, é um sujeito admirável, pela sua origem, condição individual e trajetória, as quais conta nessas entrevistas. Isso já o torna digno de respeito, mas o mais importante é sua posição sobre o desenvolvimento econômico contemporâneo, baseado no seu conhecimento da experiência chinesa. Gostaria muito de vê-lo com poder no governo nacional, não esse poder miúdo de ministros e até presidente e governadores, num eterno toma-lá-dá-cá, que não enxerga um palmo além do nariz, mesquinho e imediatista, que não pensa no futuro nem no povo, mas num governo nacional verdadeiro, com planejamento, racionalidade e busca do bem-estar geral. Me impressiona que ele não tenha até hoje (essa série de entrevistas é uma tentativa medíocre de fazer isso) uma assessoria competente que o ensine a dar entrevistas, ordene seu pensamento (muito rico e por isso confuso), o interrompa sempre que necessário e reoriente suas respostas, ajude-o a falar com mais calma e outras qualidades necessárias aos políticos. Afinal, ele tem 50 anos e é candidato a deputado federal. Jabbour é o avesso do Lula, que fala esplendidamente, mas não tem conteúdo. Ele tem a honestidade que falta aos políticos desse eterno centrão brasileiro, do qual fazem parte, inacreditavelmente, a extrema direita e a pretensa esquerda. 

sábado, 25 de julho de 2026

Revolta da Chibata: reparações mostram o que mudou e o que não mudou no Brasil

Não consegui achar uma notícia decente sobre esse fato. Há muitas coisas a dizer a respeito. A primeira delas é como é difícil achar notícias no celular. No notebook é mais fácil, mas o sistema de busca do celular (Google) é precário e me encaminha para o que ele quer e não para o que eu quero, além do que muitos veículos, especialmente os velhos jornalões, não abrem seus conteúdos para todos. A perda de tempo procurando uma notícia é enorme, e ainda maior porque, quando a acho, tenho que superar os anúncios, numa quantidade tão grande que parece que redes sociais são catálogos de publicidade com alguns conteúdos, muito mais do que televisão e rádio. De fato, buscar informação boa no celular é uma tarefa quase impossível, o que torna compreensíveis a desinformação e a ignorância nas quais a população está imersa hoje, pois consome os lixos oferecidos pelas big techs

Dito isso, volto à primeira observação. Em lugar nenhum consegui encontrar uma notícia decente sobre esse fato que vou resumir abaixo, acrescentando comentários. A Globo News fez uma mistura querendo dar relevância ao fato, com o comentário da Flávia (esqueci seu sobrenome), que é uma boa jornalista, mas a notícia propriamente se perdeu e ainda mais sua profundidade. A TVT, um canal dos trabalhadores, tinha obrigação de dar a notícia de forma adequada, mas não consegue, fica na superficialidade e na gracinha da canção do João Bosco e do Aldir Blanc. E até o Farol Brasil, pretensamente da esquerda revolucionária, ignora a gravidade do assunto, faz uma confusão danada e também não consegue abordar adequadamente a notícia. As notícias escritas são superficiais. E no entanto, no próprio YouTube há uma grande produção de conteúdos disponível sobre João Cândido e a Revolta da Chibata. No fim, não achei nenhuma matéria, a melhor foi esta que reproduzo abaixo, da fonte, isto é, o Ministério Público Federal, autor da ação, mas ela é anterior à decisão e também não trata adequadamente do assunto, que tem uma relevância enorme par o Brasil e pode -- e precisa -- ser abordada sob diversos aspectos.  

Curiosamente, a sentença foi dada no dia 21/5/26, mas só dois meses depois virou notícia. Pior: uma olhada nas matérias publicadas leva à conclusão que ninguém foi à fonte, isto é, a sentença do juiz, coisa que eu também não fiz, porque não consegui ter acesso a ela, apesar de tentar, mas qualquer jornalista pautado poderia fazê-lo. Aparentemente, alguém fez a matéria inicial e os demais veículos saíram copiando ou todos receberam o mesmo press release. Mesmo veículos que eu considero responsáveis fizeram isso. Há inclusive uma divergência de informação nas notícias que mencionam ora R$ 200 mil, ora R$ 300 mil como valor da indenização. 

Por sorte, consegui ler a notícia da Folha de S. Paulo, que por sua vez me levou a outra, de forma que entendi que se tratam de duas sentenças, mas exceto a Folha nenhum veículo menciona isso, o que no jornalismo que minha geração praticava era inaceitável. No JB, era norma de redação fazer um sub-lead com a memória do assunto. Ambas as sentenças foram proferidas pelo mesmo juiz, a primeira em maio, a segunda em julho. 

Em primeiro lugar, a notícia, que é a seguinte. 

O juiz federal substituto Mario Victor Braga Pereira Francisco de Souza, da 4ª Vara da Justiça Federal do Rio de Janeiro, condenou a União a pagar indenização de R$ 300 mil por danos morais aos familiares do marinheiro João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata, falecido em 1969. A ação, movida por Adalberto Cândido, de 87 anos, único filho vivo de João Cândido, se refere a ofensas feitas pelo comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, em carta enviada à Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, em abril de 2024, na qual manifesta sua oposição a que o nome do marinheiro seja incluído na relação de heróis e heroínas da pátria. O juiz rejeitou os pedidos de pagamento referente a promoções retroativas, contagem de tempo de serviço e pensões militares. 

Em outra sentença, proferida em maio passado, em ação movida pelo Ministério Público Federal, o mesmo juiz condenou a União a pagar indenização de R$ 200 mil por danos morais, pelos mesmos crimes. Cabem recursos ao Superior Tribunal de Justiça. A homenagem ao marinheiro é um projeto de lei do deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ). Aprovado no Senado e pela Comissão de Cultura da Câmara, o projeto ainda não foi votado pela Câmara. 

Agora os comentários. 

Olsen (será parente do fotógrafo Jimmy Olsen, colega do jornalista Clark Kent no Planeta Diário e identidade secreta do Superman?) se referiu a João Cândido e seus companheiros como "abjetos marinheiros", seu comportamento como "reprovável exemplo de conduta para o povo brasileiro" e à Revolta da Chibata como "fato opróbio" e "deplorável página da história nacional". O comandante da Marinha do governo Lula afirmou que os revoltosos desrespeitaram a hierarquia e a disciplina e usaram equipamentos militares para chantagear a nação, que buscavam, deliberadamente, vantagens corporativas e ilegítimas, e que há enorme diferença entre reconhecer um erro e enaltecer um heroísmo infundado. 

"Nos dias atuais, enaltecer passagens afamadas pela subversão, ruptura de preceitos constitucionais organizados e basilares das Forças Armadas e pelo descomedido emprego da violência de militares contra a vida de civis brasileiros é exaltar atributos morais e profissionais, que nada contribuirão ao pleno estabelecimento e manutenção do verdadeiro Estado Democrático de Direito", conclui a carta. 

Em outras palavras, a Marinha do governo Lula usou a tentativa de golpe de 8 de janeiro para vilipendiar a memória dos marinheiros revoltosos de 1910, misturando no mesmo caldo o governo militar golpista do bozo e um movimento justo de marinheiros pobres e negros contra o açoite como castigo aplicado corriqueiramente pelo Estado brasileiro 22 anos depois de abolida a escravidão. A imprensa, os jornalistas, comentaristas e analistas, a pretensa esquerda que está no governo e a esquerda pretensamente revolucionária engoliram isso, por conveniências ou por falta de convicções. Também a sentença do juiz tangencia a questão principal, isto é, o fato de que, 116 anos depois, a essência do Estado brasileiro continua a mesma. No Brasil monarquista, no Brasil da primeira república ou no Brasil do Lula, os brancos, ricos, proprietários e oficiais mandam e os pobres, pretos, trabalhadores e subalternos obedecem ou são mortos. 

A íntegra da carta está disponível no saite da Marinha e pode ser lida na íntegra clicando aqui. O leitor poderá constatar que não carrego na tinta, ao contrário, a carta sugere preconceitos inacreditáveis, estes sim inaceitáveis.  

Isso é a ponta do aicebergue dessa notícia. A Revolta da Chibata, que até hoje só mereceu homenagens populares, como a célebre canção e samba enredo de escola de samba, é de fato uma página deplorável da história do Brasil não pelos motivos alegados na carta, mas sim pela conduta do Estado nacional, à qual o comportamento do almirante branco se incorporou como capítulo mais recente. Em 1910, o governo do marechal Hermes da Fonseca aceitou as reivindicações dos poderosos revoltosos, que controlavam a esquadra nacional e sitiavam a capital federal, e os marinheiros foram anistiados. Finda a revolta, a anistia foi cancelada, 18 marinheiros foram presos no Natal e encarcerados numa cela minúscula com água e cal durante três dias, 16 morrem asfixiados, só João Cândido e mais um sobrevivem. Outros marinheiros foram enviados para o Acre, vários foram assassinados e jogados no mar. João Cândido foi considerado louco e internado. 

Outros detalhes escabrosos podem ser conhecidos em vídeos, inclusive áudio de entrevista com o próprio "almirante negro", que faleceu aos 89 anos. A Revolta da Chibata não é exceção na história do Brasil, que está repleta de rebeliões populares tratadas da mesma forma pelos eurodescentes ricos e poderosos e apagadas da memória nacional. A Revolta da Chibata é uma história exemplar do Brasil verdadeiro que nunca chegou ao poder, nem com Lula, o operário, como mostra este episódio recente. A Marinha ainda a denomina como o comandante Olsem a chama na carta: "Revolta dos Marinheiros". Os governos civis e ditos democráticos não fizeram o que um governo efetivamente democrático deve fazer: uma retratação pública retumbante, com homenagens e atos necessários a transformar todos os revoltosos de 1910 em heróis nacionais, não só a inclusão do nome do seu líder no "livro de aço" do Panteão da Pátria. Indenizações não significam nada, a não ser gerar notícias superficiais, basta ver a diferença entre o valor que o MPF pediu -- R$ 5 milhões -- o que concedeu o juiz.  

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O programa nuclear brasileiro e o desmonte do desenvolvimento nacional

A entrevista é muito ruim, o entrevistado é daqueles cientistas que sabem muita coisa e consideram muito importante o que sabem, e de fato é, mas não sabem contar a história para os leigos, que não conhecem o assunto, e Breno Altman não se sai muito bem tentando amestrá-lo. Entretanto, confirma o que está cada vez mais claro na tragédia brasileira: até a ditadura militar, o Brasil tinha um projeto de desenvolvimento nacional. Nos anos 80, o projeto entrou em crise e os governos civis que vieram em seguida abriram mão dele; aderiram ao neoliberalismo e optaram por transformar o país numa nova colônia agroexportadora. O projeto nuclear brasileiro era autônomo, fez grandes progressos e foi abandonado no governo Collor. Uma geração inteira de cientistas e técnicos foi desperdiçada e não deixa sucessores. Aconteceu o mesmo em todas as áreas de ciência e tecnologia, exceto talvez na agricultura. 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Jones Manoel, Ciro Gomes e Lula

Jones Manoel conta nesse vídeo, com simplicidade e objetividade e sem mitificar, sua trajetória de vida. Admirável, mas nada romântica, como nas ficções burguesas. Ao contrário, o que ele faz é desfazer o mito da meritocracia. Desde Ciro Gomes não surgia um político tão conectado na realidade quanto Jones Manoel. Desde Lula não aparecia um pernambucano falando tão diretamente ao povo quanto ele. Quem sabe ele não junta as qualidades dos dois -- as qualidades que Ciro tem e não pôde exercer como presidente, as qualidades que Lula não teve enquanto exerceu a presidência -- e conquista a maioria do eleitorado brasileiro na eleição para presidente em 2030? É o que desejo, mas não me iludo achando que basta eleger um bom presidente para que o Brasil deixe de ser a colônia do imperialismo estadunidense em que o transformaram os governos democráticos neoliberais burgueses depois da ditadura militar. Jones Manoel também não se ilude, tem uma visão mais ampla da política, que passa pelo empoderamento popular, e é isso que me anima.  

terça-feira, 21 de julho de 2026

Itamar Franco e a candidatura do Patrus Ananias ao governo de Minas

Patrus Ananias foi o prefeito mais importante de Belo Horizonte desde Juscelino Kubitschek. Implantou o Orçamento Participativo, instrumento revolucionário de políticas públicas, copiado pela esquerda dos EUA. Sua trajetória normal, como tantos prefeitos da capital, entre eles o próprio JK, seria tornar-se governador logo em seguida, mas alguma coisa aconteceu no caminho e a ascensão do Patrus foi interrompida. 

O que aconteceu foi a eleição de Itamar Franco governador em 1998, um fenômeno pouco estudado e que teve consequências decisivas para a política mineira, uma delas, percebo agora, o golpe na ascensão do Patrus. Outra consequência nefasta eu já tinha notado há muito tempo: em 2002, Itamar abriu mão da reeleição, não sei por que, e ungiu Aécio Naves, um governador eleito e reeleito que deixou péssima herança estadual, no seu estilo de governar, e nacional, ao dar sinal para o golpe, depois de perder a presidência para a Dilma, em 2014. Itamar está na origem de todos esses males. 

Sempre que faço retrospectos como este, constato que nossa ciência política é superficial, pois não analisa as consequências do jogo político, das decisões, dos atores, e assim perdemos o sentido da história. História. Não só a eleição de 1998, mas a própria trajetória do esquecido e desvalorizado Itamar é um fenômeno que merece estudo. Um político em particular e um indivíduo em geral não são importantes só por suas obras, mas também pelos acontecimentos que influenciam. Itamar tomou decisões arriscadas e foi premiado pela sorte, desde que se elegeu senador em 1974, quando ninguém mais quis disputar, porque era derrota certa. E depois tornando-se vice do Collor, o que o levou à presidência, com o impeachment de 1992, e ao patrocínio do decisivo e definitivo Plano Real, sob sua presidência. 

Como julgar Itamar Franco? Ele foi o senador destemido eleito pelo MDB em 1974, estrela mineira numa eleição memorável que começou a mudar o jogo contra uma ditadura militar que já durava uma década. Foi também o vice do Collor. Foi o presidente que implantou o Plano Real, acabou com a inflação e deu ao Brasil os melhores anos da sua história recente, quando um real valia um dólar. Ungiu FHC como seu sucessor, mas quatro anos depois, como oposicionista, decidiu concorrer ao governo de Minas e foi eleito. E em 2002 abriu mão da reeleição e ungiu Aécio. 

A eleição de 1998 foi singular, opôs Itamar a FHC no cenário nacional e no cenário estadual. FHC ganhou a eleição nacional, foi reeleito, mas Itamar ganhou a eleição estadual, derrotou o candidato tucano, apoiado por FHC, que também tentava a reeleição. A disputa normal naquela eleição seria entre Eduardo Azeredo, o governador tucano, e Patrus, do PT, ex-prefeito da capital, político com grande prestígio em ascensão, que tinha feito seu sucessor na prefeitura, em 1996, Célio de Castro. Azeredo deveria ter sido reeleito, como foi FHC, Patrus iria para o segundo turno e formaria cacife para vencer em 2002, juntamente com Lula. A história de Minas e do Brasil seria outra, mas Itamar embaralhou o jogo, com seu prestígio de ex-presidente, tirou Patrus do segundo turno e venceu Azeredo. 

A política, como a própria vida, é um jogo de xadrez: cada peça mexida muda o jogo. Itamar mudou o jogo em Minas e consequentemente no Brasil, ao interromper a ascensão do íntegro Patrus e catapultar o indigno Aécio. Itamar é uma figura singular na política brasileira (nunca foi só um político mineiro, porque, desde o mandato de senador, teve sempre projeção nacional), ao mesmo tempo coerente e imprevisível, emedebista histórico que saiu do partido duas vezes (e voltou), fez seus sucessores na presidência e no governo estadual, abriu mão de ser candidato à reeleição, foi governador depois de ser presidente, nacionalista e entreguista, baiano e mineiro, nascido num navio, mulherengo afeito a ridículos (quem, a não ser os mais jovens, não se lembra do episódio da atriz fotografada sem calcinha do seu lado no camarote presidencial durante desfile de escolas de samba no carnaval carioca?), enfim, um político contraditório, errante e bem-sucedido, que nunca gozou da simpatia da mídia e foi mesmo espezinhado pela imprensa paulistana. 

No fim das contas, pelas consequências dos seus atos, Itamar Franco (1929-2011) foi um político nefasto para o Brasil: nos legou o Real, que, de plano para controlar a inflação, tornou-se política econômica que fez o país retroceder a colônia agroexportadora; nos legou FHC, que, além de transformar o Real em política econômica, inventou a reeleição corrompida; nos legou Aécio Neves, um desastre para Minas Gerais e para o Brasil; e de quebra impediu a ascensão do Patrus, que certamente teria tornado muito melhor a história de Minas e provavelmente a do Brasil. 

A última vez que entrevistei Itamar Franco foi em janeiro de 2010, numa breve passagem pelo diário Hoje em Dia. Eu o procurei, não encontrei, deixei recado e ele retornou, pessoalmente. Lembro que alguém gritou na redação: "O presidente Itamar quer falar com você". Não era uma deferência especial, acho que ele era assim com todos os jornalistas, pois eu mal o conhecia. Ademais, em 2010, sem mandato, no auge da Era Lula e do reinado Aécio, quem ligava para Itamar? Só mesmo um jornalista na seca de notícias de janeiro, buscando repercussão de um assunto no qual ele tinha tido papel importante e que não lembro mais qual era. Ex-presidente sempre rende notícia de primeira página, mesmo que não diga nada importante. Minha primeira chamada de capa no JB foi com matéria sobre o ex-presidente Figueiredo, um ano depois que deixou o cargo, pedindo para ser esquecido: o povo tinha atendido seu pedido. Lembro da conversa com o ex-presidente Itamar: atencioso e simpático, falou sem pressa sobre tudo que eu perguntei e, ao se despedir, ainda disse que poderia lhe telefonar sempre que precisasse. 

A eleição de Patrus governador em 2026 seria um recomeço da história de Minas com atraso de quase três décadas. Parece impossível. Ele não conseguiu nem se eleger novamente prefeito, em 2012. E nessa história entram outras peças do xadrez político: a esdrúxula e fratricida divisão do PT mineiro, que tinha do outro lado o ex-governador Fernando Pimentel, de triste memória, herdeiro bem-sucedido e mal-agradecido do Patrus. Foi em 2012 que o mundo acabou, conforme a profecia. Eram outros tempos, animadores ainda, mas já sob a deletéria administração Lacerda, o prefeito de rima fácil. A derrota do Patrus foi um sinal de que estava por vir. Todavia, tantas coisas inacreditáveis aconteceram depois para o mal, por que não pode acontecer uma para o bem, agora? 

domingo, 19 de julho de 2026

Melhor do que a final da Copa

A disputa do terceiro lugar, Inglaterra 6 x 4 França, foi sensacional, mas, no momento em que escrevo, intervalo do primeiro para o segundo tempo (tem que explicar, porque agora futebol tem um punhado de intervalos...), essa aula do Breno Altman sobre o futebol é muito melhor do que a final da Copa entre Espanha e Argentina. 

É interessante ouvir uma análise muito diferente daquela que eu publiquei aqui no dia 11. Altman, que acompanha futebol muito mais de perto do que eu, tem um olhar e informações que eu não tenho e faz comentários e propostas interessantes. O que eu disse oito dias atrás é o óbvio para mim: a fase de ouro do futebol brasileiro, de 1950 a 1970, que se estendeu ate a Copa de 1982 e àquela geração de jogadores, que jogou ainda, em nível inferior, em 1986, se deveu a condições sociais específicas, o futebol moleque jogado por todos os meninos brasileiros nos inúmeros espaços públicos e privados existentes nas cidades brasileiras em crescimento a partir da Revolução de 1930. Ou seja, era parte do projeto desenvolvimentista nacional. Em certo momento, essas condições acabaram. Hoje, os meninos moram em apartamentos, não existem quintais, lotes vagos e campos de várzea, as famílias têm poucos filhos, não há aquelas turmas de rua, a meninada não sabe o que é jogar bola o dia inteiro, não há quantidade nem qualidade para formação de craques, jogar bola não é uma brincadeira de moleques. Meninos (e meninas, cada vez mais) que quiserem jogar bola terão que jogar em clubes ou escolinhas, futebol de salão, soçaite ou de campo. O jeito brasileiro de jogar bola se curvou ao jeito europeu, o esporte foi dominado por empresários que formam jogadores para exportação, jogador brasileiro virou commodity: empresários os vendem ainda crianças para clubes europeus que tratam de industrializá-los e revendê-los a peso de ouro para o mundo inteiro, nós inclusive, em campeonatos vistos pela televisão e internet. Há muito mais coisas em torno disso, mas o essencial na minha opinião é que as condições sociais mudaram. Para completar, o governo petista elitizou os estádios para cumprir as exigências da Fifa para a Copa de 2014, de forma que o povo também perdeu a paixão que tinha pelo esporte. E não tem vínculos com a seleção, porque os convocados não jogam nos clubes brasileiros, jogam em clubes europeus. De forma que o futebol somente conserva um enganoso prestígio porque há enormes interesses comerciais envolvendo-o, mas a "pátria de chuteiras" já não existe mais. 

No novo contexto do esporte, para que a Seleção e os clubes voltem a fazer parte da vida do povo e para que os brasileiros voltem a praticá-lo com paixão, será preciso uma revolução, como em tudo mais nessa decadente nação. O futebol brasileiro precisa renascer praticamente do zero. Em primeiro lugar, o Estado precisa implantar uma política pública de futebol nas escolas infantis e de ensino fundamental, médio e universitário, bem como precisa criar campos e espaços em parques em todos os bairros para a prática do futebol, não só campos oficiais, mas também de terra e gramados para se jogar pelada, jogos com qualquer número de jogadores, informais, brincadeiras. Os estádios precisam ser repensados e reformados para que conforto não signifique ingresso caro e afastamento do povo dos estádios. Os campeonatos em todos os níveis devem ser organizados com seriedade, amadores, profissionais, municipais, estaduais, nacional, e neste, obviamente, para que mereça o nome, é preciso que joguem clubes de todos os estados, não só os do Leste, Sul e mais uns poucos. Como é que uma nação que tem 26 estados e um distrito federal pode ter um campeonato com 20 clubes? É só para copiar, em mais uma coisa, os campeonatos europeus. Enfim, para que o futebol brasileiro volte a empolgar torcedores e brilhar no campo, terá de começar uma nova fase, organizada, planejada, voltada para a coletividade. A fase de ouro do futebol moleque espontâneo passou e a fase da bagunça e da corrupção precisa ser superada. 

PS: A final da Copa de 2026, uma copa que teve jogos sensacionais e seleções brilhantes (torci pela Inglaterra, pela qualidade do seu time) e ao mesmo tempo foi marcada mais que nunca pela interferência de interesses políticos e comerciais (onde já se viu um presidente de país sede cancelar um cartão vermelho para um jogador da sua seleção? Que vergonha), terminou e a Espanha se tornou bicampeã vencendo por 1 a 0. Foi um jogo horroroso, mas pelo menos a Argentina, que quase não pegou na bola e não deu um chute a gol, não foi campeã. Se fosse, eu não ia mais querer ver jogos de copa do mundo. 

Música do dia: Aqui, oh!, com Milton Nascimento e Toninho Horta

A letra é do Fernando Brant (não sei quanto TH, autor da melodia, participou dela). Sempre identifiquei essa música com a peça Oh! Oh! Oh! Minas Gerais, de J. D'Ângelo e Jonas Bloch, mas parece que não têm relação, embora contemporâneas, o fim da década de 1960. F.B. é o grande poeta da sua geração mineira, escreveu sobre os sentimentos mineiros, especialmente dos jovens. Sair de Minas sempre foi uma obsessão dos mineiros. Minas é muitas e Belo Horizonte é uma cidade artificial e fascinante para os do interior, porque moderna, mas limitada, e por isso só local de passagem para grandes artistas, feito Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, autor da definição supracitada, Fernando Sabino e outros. Além de políticos, como Juscelino Kubitschek. A fixação com o mar, o Rio de Janeiro, então capital e sempre a cidade maravilhosa, símbolo do país. Foram e não voltaram, assim como o Clube da Esquina, mas então começou uma coisa diferente, naquela geração: alguns ficaram, alguns voltaram. Na minha geração nasceu uma espécie de movimento de afirmar a permanência em Belo Horizonte, em Minas: não era preciso sair para fazer sucesso. Galpão, Corpo, Ponto de Partida, Skank, Pato Fu etc., reorçados pelos do Clube da Esquina que ficaram ou voltaram. "Quem sai da terra natal em outros cantos não para", cantou Fagner, do Pessoal do Ceará, outro bando de migrantes, do Nordeste para a metrópole. O que significa isso? Jornalista, conheço muitos que foram para São Paulo e para o exterior e nunca voltaram. Independentemente da profissão, sair da terra natal é um empreendimento aventureiro e doloroso ao mesmo tempo. Estranho num lugar, o que resta ao migrante? O trabalho, as relações profissionais, as amizades. É preciso encontrar um amor, casar, ter filhos, formar família, criar raízes no lugar. Nós, brasileiros, temos experiências de migração, todas elas forçadas, aforas as citadas aventureiras: os indígenas, obrigados a fugir dos europeus colonizadores para o interior, para a floresta; os africanos, trazidos à força para trabalhar como escravos na agricultura exportadora; os operários europeus em busca de trabalho no Novo Continente; os nordestinos fugitivos da seca. Os mineiros do norte também fazem essa migração forçada. Samba de Orly: o Rio de Janeiro é o oposto: os cariocas querem voltar. Quem conhece o Rio de Janeiro sabe que é um lugar grandiosamente encantador. O mundo certamente tem outras cidades assim, que não conheço. No entanto, no que transformamos o Rio? O mesmo posso dizer de Belo Horizonte, que, artificial, poderia ser uma cidade maravilhosa também, sem seu crescimento fosse planejado como a construção. O que fizeram dela? 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Elias Jabbour e o projeto da esquerda para o Brasil

Há muitas coisas a dizer sobre essa entrevista do Elias Jabbour. A primeira é que ele é, ao lado do Jones Manoel e do Vladimir Safatle, o intelectual mais brilhante da esquerda brasileira (e já que não há intelectuais na direita, do Brasil). A segunda coisa é sobre a capacidade dos autistas. Ele é autista, assim como a exuberante Suzana Herculano e o Messi, e o que os autistas fazem é impressionante. A terceira coisa a dizer é que grande parte, senão tudo, mas a essência do pensamento do Elias Jabbour vem sendo exposta pelo Ciro Gomes desde 1996, no livro O Próximo Passo, que escreveu em parceria com Roberto Mangabeira Unger, uma crítica ao governo FHC e uma proposta para superar o caminho que o Brasil continuou segundo nos governos Lula e Dilma. Em resumo, trata-se do seguinte. O desenvolvimento brasileiro entrou em colapso com o aumento internacional do preço do petróleo que fez disparar a dívida externa e a inflação. Foi isso inclusive, a incapacidade de resolver esse problema numa ditadura de direita corrupta e incompetente, que levou à derrubada do regime militar. Os governos civis "democráticos" se empenharam em: 1) dar prioridade ao combate à inflação; 2) adaptarem o país à nova ordem internacional neoliberal. Foi uma demonstração evidente de que as elites brasileiras não tinham uma solução para a questão do desenvolvimento nacional interrompido e que se submetiam aos modelos impostos de fora. Só Ciro Gomes (e Mangabeira Unger), que eu saiba, se opuseram a esse modelo nos últimos trinta anos. A disputa entre esquerda e direita ficou em torno de questões marginais, ainda que importantes, numa disputa ideológica que criou condições para a praga do fascismo. A quarta coisa a dizer sobre a entrevista é que em 2010 eu escrevi um livro, 60 Anos de Grandes Obras e Histórias: A Construção do Brasil, publicado pela Ideia e patrocinado por uma multinacional, que aborda exatamente o pujante desenvolvimento brasileiro a partir da década de 1940, que durou décadas, atravessou governos, inclusive a ditadura militar, foi interrompido na crise dos anos 1980 e tinha sido retomado pelo governo Lula, com o PAC. O Brasil tem um projeto nacional de desenvolvimento, mas ele foi interrompido no governo Collor e o governo FHC escolheu outro caminho, de "estabilização", que escolheu uma nova posição para o país na economia internacional, de exportador de matérias-primas e importador de tecnologias e produtos industrializados. O que o Jabbour diz é muito simples, mas tem duas ou três coisas fundamentais pra gente compreender o Brasil atual e uma delas é que nosso esquerda é uma merda, que não entende nada da nossa história e importa teorias estrangeiras que nos mantêm colonizados. A direita é entreguista e capacho do imperialismo, além de reacionária, autoritária, estúpida, burra e ignorante. A burguesia nacional, como qualquer burguesia, quer ganhar dinheiro, só isso, não importa de onde ele vem. Ela não vai fazer nenhuma revolução nem liderar nada, como pretendia o partidão e a ideologia marxista-leninista tradicional, mas, se um projeto nacional lhe der a oportunidade de desenvolver o país, ela vai aderir. E esse projeto tem que vir da esquerda, que é o único, digamos, setor da sociedade brasileira que pensa. Isso, que a esquerda brasileira não tem um projeto nacional, está cada vez mais claro e foi colocado na ordem do dia pelos intelectuais citados no começo e por outros, que estão ressuscitando os ideólogos da Polop, Rui Mauro Marini e outros, que fizeram o mais avançado esforço de compreender o Brasil e formular um projeto revolucionário nacional. Jabbour elogia o trabalhismo e critica o PT e o Lula, ao mesmo tempo elogia o PT e o Lula. Está certo, porque o problema do PT não é existir, é ter seguido o caminho que seguiu. A esquerda devia dirigir o PT com ideias e guiar o Lula, mas foi o Lula que guiou o PT, com seu projeto pessoal de poder, e o PT aderiu ao neoliberalismo. Lula é errático, pode ser neoliberal ou desenvolvimentista, e o PT o acompanhou. Foi uma escolha ideológica travestida de adaptação às condições históricas, que Jabbour demonstra terem sido equivocadas, pois havia outro caminho, o que não havia era lucidez, um projeto próprio, de esquerda e socialista, como tem a China, por exemplo. Se o Brasil, na década de 1980 tivesse feito outra escolha, a de crescer com capital próprio e não se submeter ao FMI e ao Consenso de Washington, seria hoje uma potência maior do que a China. E disso vem mais uma questão: por que os brasileiros são assim? Por que os líderes mais brilhantes dos últimos cinquenta anos, civis e intelectuais, de esquerda e progressistas, capitularam ao neoliberalismo e fizeram o país retroceder à condição de colônia agrária exportadora, que tinha sido superada com a Revolução de 1930? A situação brasileira atual é terrível, a direita fascista se tornou muito influente, a situação climática coloca a humanidade toda diante de catástrofes crescentes, não há solução que não passe pela prioridade ao ambiente, mas parece que finalmente a esquerda começa a pensar e compreender que é quem ela quem tem de liderar a revolução brasileira e para isso precisa ter boas análises e projetos. A chamada Era Lula está no fim e única esperança para os brasileiros é que ela seja superada por um projeto de esquerda e não pelo caos fascista.    

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Música do dia: Samba do Crioulo Doido, com Demônios da Garoa

Rui Mauro Marini foi quem melhor compreendeu a posição do Brasil no capitalismo mundial, mas foi Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, quem melhor interpretou a história do Brasil.