A disputa do terceiro lugar, Inglaterra 6 x 4 França, foi sensacional, mas, no momento em que escrevo, intervalo do primeiro para o segundo tempo (tem que explicar, porque agora futebol tem um punhado de intervalos...), essa aula do Breno Altman sobre o futebol é muito melhor do que a final da Copa entre Espanha e Argentina.
É interessante ouvir uma análise muito diferente daquela que eu publiquei aqui no dia 11. Altman, que acompanha futebol muito mais de perto do que eu, tem um olhar e informações que eu não tenho e faz comentários e propostas interessantes. O que eu disse oito dias atrás é o óbvio para mim: a fase de ouro do futebol brasileiro, de 1950 a 1970, que se estendeu ate a Copa de 1982 e àquela geração de jogadores, que jogou ainda, em nível inferior, em 1986, se deveu a condições sociais específicas, o futebol moleque jogado por todos os meninos brasileiros nos inúmeros espaços públicos e privados existentes nas cidades brasileiras em crescimento a partir da Revolução de 1930. Ou seja, era parte do projeto desenvolvimentista nacional. Em certo momento, essas condições acabaram. Hoje, os meninos moram em apartamentos, não existem quintais, lotes vagos e campos de várzea, as famílias têm poucos filhos, não há aquelas turmas de rua, a meninada não sabe o que é jogar bola o dia inteiro, não há quantidade nem qualidade para formação de craques, jogar bola não é uma brincadeira de moleques. Meninos (e meninas, cada vez mais) que quiserem jogar bola terão que jogar em clubes ou escolinhas, futebol de salão, soçaite ou de campo. O jeito brasileiro de jogar bola se curvou ao jeito europeu, o esporte foi dominado por empresários que formam jogadores para exportação, jogador brasileiro virou commodity: empresários os vendem ainda crianças para clubes europeus que tratam de industrializá-los e revendê-los a peso de ouro para o mundo inteiro, nós inclusive, em campeonatos vistos pela televisão e internet. Há muito mais coisas em torno disso, mas o essencial na minha opinião é que as condições sociais mudaram. Para completar, o governo petista elitizou os estádios para cumprir as exigências da Fifa para a Copa de 2014, de forma que o povo também perdeu a paixão que tinha pelo esporte. E não tem vínculos com a seleção, porque os convocados não jogam nos clubes brasileiros, jogam em clubes europeus. De forma que o futebol somente conserva um enganoso prestígio porque há enormes interesses comerciais envolvendo-o, mas a "pátria de chuteiras" já não existe mais.
No novo contexto do esporte, para que a Seleção e os clubes voltem a fazer parte da vida do povo e para que os brasileiros voltem a praticá-lo com paixão, será preciso uma revolução, como em tudo mais nessa decadente nação. O futebol brasileiro precisa renascer praticamente do zero. Em primeiro lugar, o Estado precisa implantar uma política pública de futebol nas escolas infantis e de ensino fundamental, médio e universitário, bem como precisa criar campos e espaços em parques em todos os bairros para a prática do futebol, não só campos oficiais, mas também de terra e gramados para se jogar pelada, jogos com qualquer número de jogadores, informais, brincadeiras. Os estádios precisam ser repensados e reformados para que conforto não signifique ingresso caro e afastamento do povo dos estádios. Os campeonatos em todos os níveis devem ser organizados com seriedade, amadores, profissionais, municipais, estaduais, nacional, e neste, obviamente, para que mereça o nome, é preciso que joguem clubes de todos os estados, não só os do Leste, Sul e mais uns poucos. Como é que uma nação que tem 26 estados e um distrito federal pode ter um campeonato com 20 clubes? É só para copiar, em mais uma coisa, os campeonatos europeus. Enfim, para que o futebol brasileiro volte a empolgar torcedores e brilhar no campo, terá de começar uma nova fase, organizada, planejada, voltada para a coletividade. A fase de ouro do futebol moleque espontâneo passou e a fase da bagunça e da corrupção precisa ser superada.
PS: A final da Copa de 2026, uma copa que teve jogos sensacionais e seleções brilhantes (torci pela Inglaterra, pela qualidade do seu time) e ao mesmo tempo foi marcada mais que nunca pela interferência de interesses políticos e comerciais (onde já se viu um presidente de país sede cancelar um cartão vermelho para um jogador da sua seleção? Que vergonha), terminou e a Espanha se tornou bicampeã vencendo por 1 a 0. Foi um jogo horroroso, mas pelo menos a Argentina, que quase não pegou na bola e não deu um chute a gol, não foi campeã. Se fosse, eu não ia mais querer ver jogos de copa do mundo.
A letra é do Fernando Brant (não sei quanto TH, autor da melodia, participou dela). Sempre identifiquei essa música com a peça Oh! Oh! Oh! Minas Gerais, de J. D'Ângelo e Jonas Bloch, mas parece que não têm relação, embora contemporâneas, o fim da década de 1960. F.B. é o grande poeta da sua geração mineira, escreveu sobre os sentimentos mineiros, especialmente dos jovens. Sair de Minas sempre foi uma obsessão dos mineiros. Minas é muitas e Belo Horizonte é uma cidade artificial e fascinante para os do interior, porque moderna, mas limitada, e por isso só local de passagem para grandes artistas, feito Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, autor da definição supracitada, Fernando Sabino e outros. Além de políticos, como Juscelino Kubitschek. A fixação com o mar, o Rio de Janeiro, então capital e sempre a cidade maravilhosa, símbolo do país. Foram e não voltaram, assim como o Clube da Esquina, mas então começou uma coisa diferente, naquela geração: alguns ficaram, alguns voltaram. Na minha geração nasceu uma espécie de movimento de afirmar a permanência em Belo Horizonte, em Minas: não era preciso sair para fazer sucesso. Galpão, Corpo, Ponto de Partida, Skank, Pato Fu etc., reorçados pelos do Clube da Esquina que ficaram ou voltaram. "Quem sai da terra natal em outros cantos não para", cantou Fagner, do Pessoal do Ceará, outro bando de migrantes, do Nordeste para a metrópole. O que significa isso? Jornalista, conheço muitos que foram para São Paulo e para o exterior e nunca voltaram. Independentemente da profissão, sair da terra natal é um empreendimento aventureiro e doloroso ao mesmo tempo. Estranho num lugar, o que resta ao migrante? O trabalho, as relações profissionais, as amizades. É preciso encontrar um amor, casar, ter filhos, formar família, criar raízes no lugar. Nós, brasileiros, temos experiências de migração, todas elas forçadas, aforas as citadas aventureiras: os indígenas, obrigados a fugir dos europeus colonizadores para o interior, para a floresta; os africanos, trazidos à força para trabalhar como escravos na agricultura exportadora; os operários europeus em busca de trabalho no Novo Continente; os nordestinos fugitivos da seca. Os mineiros do norte também fazem essa migração forçada. Samba de Orly: o Rio de Janeiro é o oposto: os cariocas querem voltar. Quem conhece o Rio de Janeiro sabe que é um lugar grandiosamente encantador. O mundo certamente tem outras cidades assim, que não conheço. No entanto, no que transformamos o Rio? O mesmo posso dizer de Belo Horizonte, que, artificial, poderia ser uma cidade maravilhosa também, sem seu crescimento fosse planejado como a construção. O que fizeram dela?
Há muitas coisas a dizer sobre essa entrevista do Elias Jabbour. A primeira é que ele é, ao lado do Jones Manoel e do Vladimir Safatle, o intelectual mais brilhante da esquerda brasileira (e já que não há intelectuais na direita, do Brasil). A segunda coisa é sobre a capacidade dos autistas. Ele é autista, assim como a exuberante Suzana Herculano e o Messi, e o que os autistas fazem é impressionante. A terceira coisa a dizer é que grande parte, senão tudo, mas a essência do pensamento do Elias Jabbour vem sendo exposta pelo Ciro Gomes desde 1996, no livro O Próximo Passo, que escreveu em parceria com Roberto Mangabeira Unger, uma crítica ao governo FHC e uma proposta para superar o caminho que o Brasil continuou segundo nos governos Lula e Dilma. Em resumo, trata-se do seguinte. O desenvolvimento brasileiro entrou em colapso com o aumento internacional do preço do petróleo que fez disparar a dívida externa e a inflação. Foi isso inclusive, a incapacidade de resolver esse problema numa ditadura de direita corrupta e incompetente, que levou à derrubada do regime militar. Os governos civis "democráticos" se empenharam em: 1) dar prioridade ao combate à inflação; 2) adaptarem o país à nova ordem internacional neoliberal. Foi uma demonstração evidente de que as elites brasileiras não tinham uma solução para a questão do desenvolvimento nacional interrompido e que se submetiam aos modelos impostos de fora. Só Ciro Gomes (e Mangabeira Unger), que eu saiba, se opuseram a esse modelo nos últimos trinta anos. A disputa entre esquerda e direita ficou em torno de questões marginais, ainda que importantes, numa disputa ideológica que criou condições para a praga do fascismo. A quarta coisa a dizer sobre a entrevista é que em 2010 eu escrevi um livro, 60 Anos de Grandes Obras e Histórias: A Construção do Brasil, publicado pela Ideia e patrocinado por uma multinacional, que aborda exatamente o pujante desenvolvimento brasileiro a partir da década de 1940, que durou décadas, atravessou governos, inclusive a ditadura militar, foi interrompido na crise dos anos 1980 e tinha sido retomado pelo governo Lula, com o PAC. O Brasil tem um projeto nacional de desenvolvimento, mas ele foi interrompido no governo Collor e o governo FHC escolheu outro caminho, de "estabilização", que escolheu uma nova posição para o país na economia internacional, de exportador de matérias-primas e importador de tecnologias e produtos industrializados. O que o Jabbour diz é muito simples, mas tem duas ou três coisas fundamentais pra gente compreender o Brasil atual e uma delas é que nosso esquerda é uma merda, que não entende nada da nossa história e importa teorias estrangeiras que nos mantêm colonizados. A direita é entreguista e capacho do imperialismo, além de reacionária, autoritária, estúpida, burra e ignorante. A burguesia nacional, como qualquer burguesia, quer ganhar dinheiro, só isso, não importa de onde ele vem. Ela não vai fazer nenhuma revolução nem liderar nada, como pretendia o partidão e a ideologia marxista-leninista tradicional, mas, se um projeto nacional lhe der a oportunidade de desenvolver o país, ela vai aderir. E esse projeto tem que vir da esquerda, que é o único, digamos, setor da sociedade brasileira que pensa. Isso, que a esquerda brasileira não tem um projeto nacional, está cada vez mais claro e foi colocado na ordem do dia pelos intelectuais citados no começo e por outros, que estão ressuscitando os ideólogos da Polop, Rui Mauro Marini e outros, que fizeram o mais avançado esforço de compreender o Brasil e formular um projeto revolucionário nacional. Jabbour elogia o trabalhismo e critica o PT e o Lula, ao mesmo tempo elogia o PT e o Lula. Está certo, porque o problema do PT não é existir, é ter seguido o caminho que seguiu. A esquerda devia dirigir o PT com ideias e guiar o Lula, mas foi o Lula que guiou o PT, com seu projeto pessoal de poder, e o PT aderiu ao neoliberalismo. Lula é errático, pode ser neoliberal ou desenvolvimentista, e o PT o acompanhou. Foi uma escolha ideológica travestida de adaptação às condições históricas, que Jabbour demonstra terem sido equivocadas, pois havia outro caminho, o que não havia era lucidez, um projeto próprio, de esquerda e socialista, como tem a China, por exemplo. Se o Brasil, na década de 1980 tivesse feito outra escolha, a de crescer com capital próprio e não se submeter ao FMI e ao Consenso de Washington, seria hoje uma potência maior do que a China. E disso vem mais uma questão: por que os brasileiros são assim? Por que os líderes mais brilhantes dos últimos cinquenta anos, civis e intelectuais, de esquerda e progressistas, capitularam ao neoliberalismo e fizeram o país retroceder à condição de colônia agrária exportadora, que tinha sido superada com a Revolução de 1930? A situação brasileira atual é terrível, a direita fascista se tornou muito influente, a situação climática coloca a humanidade toda diante de catástrofes crescentes, não há solução que não passe pela prioridade ao ambiente, mas parece que finalmente a esquerda começa a pensar e compreender que é quem ela quem tem de liderar a revolução brasileira e para isso precisa ter boas análises e projetos. A chamada Era Lula está no fim e única esperança para os brasileiros é que ela seja superada por um projeto de esquerda e não pelo caos fascista.
Rui Mauro Marini foi quem melhor compreendeu a posição do Brasil no capitalismo mundial, mas foi Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, quem melhor interpretou a história do Brasil.
É sempre bom ouvir previsões e análises depois que os acontecimentos esperados passaram. Elas mostram como nossa capacidade de compreender a realidade é limitada.
A ESPN, da qual Juca Kfouri foi uma das estrelas, está para o jornalismo esportivo assim como a Copa de 1982 está para o futebol brasileiro: foi o canto do cisne. A mesa redonda Linha de Passe, com José Trajano, PVC, Mauro César e outros, além do Juca, foi o ápice do jornalismo esportivo e de uma época nacional. A Seleção do Telê, igualmente, expressou o desejo nacional de voltar aos bons tempos, no futebol e na política. Ambos, a Seleção de 82 e a Linha de Passe, guardam relações com momentos políticos decisivos do país: a redemocratização e o governo Lula. Ao mesmo tempo em que expressavam esperança e alegria já continham o germe da tristeza e da desesperança que viriam depois. Pra gente ver como tudo se mistura e que tudo, no fim das contas, é política.
O futebol foi a brincadeira de milhões de meninos brasileiros ao longo de décadas do século XX, enquanto o Brasil crescia, se industrializava, se urbanizava. Uma coincidência: o futebol se popularizava em todo o mundo, inclusive no Brasil, e os meninos brasileiros tinham condições ideias para praticar a molecagem de brincar de bola. Nem era futebol propriamente, não era o jogo inglês com suas regras, era simplesmente "jogar bola". Bastava ter meninos e uma bola para jogar, em qualquer espaço. E havia muitos espaços nas cidades brasileiras que estavam crescendo: lotes vagos, ruas sem movimento, quintais. Nada disso haveria sem que tivesse acontecido a Revolução de 1930, a ação de classes proprietárias dominantes descontentes unidas a classes médias institucionalizadas, notadamente o Exército, que tomou o poder nacional e começou a implantar um projeto efetivamente nacional, industrializador, urbanizador, modernizador. Nas cidades brasileiras que cresciam, os meninos soltos nas ruas juntavam-se em lotes vagos e quintais, dividiam-se em dois grupos, escolhidos no par ou ímpar, procurando equilibrar os times, delimitavam o campo e marcavam os gols com pedras: estava armado o cenário para a brincadeira, sem juiz, os conflitos resolvidos por consenso e pelo desejo de continuar o jogo.
Foi assim que eu cresci jogando bola, nunca em campo oficial, nunca dois times de onze, nunca com juiz apitando, nunca com dois tempos de 45 minutos também: o jogo era por queda ou até parar, por cansaço ou falta de jogadores. Na verdade, nada disso importava: nem a qualidade do campo nem o número de jogadores, nem o tempo do jogo. Jogar bola era diversão, brincadeira de meninos (eram raras as meninas que jogavam bola, o jogo delas, normalmente, era a queimada, muitas vezes misto). Foi assim também que se formou o futebol brasileiro que encantou o mundo e ganhou três Copas (1958, 1962 e 1970), poderia ter ganhado outras duas, não fosse a húbris, em 1950 e 1966.
Enfim, no pós-guerra, durante vinte anos, de 1950 a 1970, o futebol brasileiro encantou o mundo e dominou o futebol mundial. E não só entre seleções, também entre clubes, como o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Cruzeiro de Tostão. Por que isso aconteceu? Porque todos os meninos brasileiros cresciam jogando bola, brincando, inventando dribles e jogadas, que, transportadas para o futebol oficial nos clubes e campeonatos, criavam jogadas imprevisíveis, capazes de desorganizar defesas e marcar muitos gols. Porque havia espaços para jogar bola, porque havia muitos meninos e porque eles eram moleques que brincavam na rua, principalmente de jogar bola. Quando essas condições mudaram, o futebol brasileiro entrou em decadência.
A última geração de jogadores moleques de rua foi a minha, da qual fazem parte Sócrates, Zico, Cerezo, Falcão, Éder, Júnior, Luizinho e o maior de todos, o Rei, Reinaldo, a geração da Seleção de 1982. A nossa geração de meninos foi a última que cresceu brincando na rua, jogando bola em espaços públicos que estavam sendo extintos pelo crescimento sem planejamento das cidades, pela construção desenfreada de edifícios, pelo asfaltamento das vias e sua ocupação pelos carros. O brilho da Seleção de 82 brilhou, quando os meninos da minha geração estavam na casa dos vinte anos, foi como a luz de estrelas distantes que chegam até nós muito tempo depois, expressava condições sociais que já tinham desaparecido: os campinhos e as turmas de moleques jogando bola na rua.
Simples assim. Só isso e mais nada. O chamado "futebol brasileiro", as Seleções e os times dos anos de ouro, a luz tardia da Seleção de 1982, o Atlético do Rei e o Flamengo do Zico expressaram uma realidade que não existe mais. Nossa fixação no assunto, as tentativas exitosas de 1994 e 2002, que precisam ser vistas à parte, mostram nossa incapacidade de compreender tanto o passado quanto o presente. O Brasil não tem mais futebol e jogadores extraordinários, nunca voltará a tê-los, eles pertencem ao passado. Há muito tempo competimos com as demais seleções sem nenhuma qualidade especial, própria. Ao contrário, as condições sociais nacionais atuam hoje contra o futebol brasileiro, numa corrupção generalizada marcada pela ausência de política pública de esportes, promiscuidade política, bagunça dos campeonatos, interesses capitalistas das televisões, das empresas de apostas, dos patrocinadores e dos dirigentes esportivos. Para que o Brasil volte a ser vencedor no futebol, assim como nos demais esportes, terá que se equiparar econômica e socialmente às nações ricas, o que passa por mudanças políticas profundas. Em outras palavras: para se reorganizar no futebol, o Brasil terá que se reorganizar como nação, voltar a ter um projeto econômico, social e político nacional, no qual o futebol, assim como os demais esportes, faça parte da formação das crianças e jovens.
A excelente cobertura esportiva da ESPN durante duas décadas
expressou um período em que a chamada democracia brasileira prosperava,
sob os dois governos FHC, os dois governos Lula e o primeiro governo
Dilma. A inflação tinha sido controlada, o país crescia, os salários
estavam em recuperação, a democracia se consolidava, entre solavancos, o
povo confiava nela e votava na esquerda, a imprensa funcionava
livremente, também entre solavancos. Linha de Passe expressava, no
futebol, a confiança geral e dos jornalistas em particular, de que os
problemas enfrentados pelo país, e eram muitos, seriam resolvidos
democraticamente, seguindo as regras do jogo, numa espécie de progresso
contínuo, eleição após eleição, em direção à esquerda. Não poderia ser
de outra forma, era impensável que o povo fosse se voltar para a
direita, contra governos de esquerda que o favoreciam, contra seus
próprios interesses, enfim.
A crítica que se fazia então era aos governos de
esquerda, aos seus defeitos, às suas concessões, às suas fraquezas, ao
seu insuficiente esquerdismo. É fácil, hoje, perceber por quê. O governo Lula foi o ápice da chamada "democracia brasileira", o regime político que sucedeu a ditadura militar. Estávamos confiantes no futuro, as melhorias eram sensíveis, acreditávamos no caminhos que estávamos seguindo. Depois de seguidas derrotas (a emenda Diretas Já, a morte do Tancredo, o Plano Cruzado, o governo Collor), começamos a colecionar vitórias, como impeachment do Collor, o Planto Real, a eleição do Lula, o impressionante e surpreendente sucesso do governo petista. Nesse caminho, os brasileiros consumiram uma enorme energia política, expressa nas ruas e nas urnas, em greves e manifestações, em organizações de todos os tipos, acumulada durante os anos de chumbo. Tínhamos de fato muita energia e a gastamos até a eleição do Lula, um operário, um homem do povo, um trabalhador. Como recompensa pelos nossos esforços e sofrimentos, colhíamos os frutos da democracia. Parecia então que progredíamos, que continuaríamos progredindo, que a democracia era o caminho. O período tenebroso da ditadura militar tinha ficado para trás e o horror do governo bozo parecia impossível então.
A história é curiosa, parece que tudo tem duas faces, o futuro está contido no presente, assim como o presente estava contido no passado, ainda que um seja oposto do outro. Da terrível ditadura militar veio a mobilização popular que desaguou na democracia. Enquanto o povo se mobilizava e lutava, sofria derrotas e ao mesmo tempo era forte. Quando conquistamos estabilidade econômica, perdemos direitos sociais. Quando os trabalhadores chegaram enfim ao poder, se desmobilizaram. Quando conquistamos qualidade de vida como jamais antes e nos sentimos confortáveis, começou a ofensiva da extrema direita. Em 2010 parecia que pisávamos em solo fértil e firme, era impossível imaginar o pântano em que estamos afundados em 2026. No entanto, estava tudo lá, sempre, ao mesmo tempo: a luta popular continha o governo Lula, assim como a adesão deste ao neoliberalismo continha a nova ascensão fascista.
O que veio em 2013, com as manifestações de massa contra a Copa de 2014, eram parte disso. Exigia-se educação padrão fifa, saúde padrão fifa, transporte padrão fifa. O governo lulopetista cumpria as exigências da fifa e construía estádios e tudo mais necessário com "padrões internacionais", mas negligenciava o que efetivamente fazia diferença na vida dos trabalhadores. A Copa foi um marco negativo para o futebol brasileiro e não só pelo vexame da desclassificação com goleada de 7 a 1 para a Alemanha no Mineirão, mas principalmente porque o povo não pôde assistir aos jogos nos estádios, já que os ingressos eram caríssimos, e porque desde então as torcidas foram elitizadas. A Copa foi simbólica, mostrou sem deixar dúvida que o PT se transformara de partido dos trabalhadores em partido dos capitalistas, que o governo lulopetista, igual a todo governo burguês, representava a minoria proprietária e não a maioria eleitora.
Por que o Brasil e a América Latina deram essa guinada para a direita?
Ouvir analistas dizendo o mesmo que eu penso e constatar a
incapacidade humana de enxergar, enquanto acontece, o óbvio que agora
vemos, me dá certo conforto de pensar que a cegueira não é só minha. Me
faz também pensar na tragédia grega: nosso destino está escrito, temos
conhecimento dele, tentamos evitá-lo e acreditamos arrogantemente que
conseguimos, experimentamos a húbris, mas no fim nos encontramos com o
que estava previsto e o realizamos, consumando a tragédia.
Em 2010, Lula terminou seu segundo
mandato com aprovação recorde, 87%. Parecia que estava tudo bem e no
entanto estava tudo mal, a gente só não sabia ainda, mas hoje é
claríssimo. Será que alguém sabia? Vou procurar críticas daquela época
que se confirmaram. Isso porque críticas erradas, preconceituosas, havia
muitas. A questão é saber se havia críticas corretas e de quem. Mesmo o
Ciro, que era crítico do modelo desde 1996, nessa época estava no
governo e calado, acho, não tenho certeza, não lembro. Pelo menos não
foi candidato em 2010 nem em 2014, erros capitais.
O fato é que
Lula estava no auge e no entanto estava tudo errado, a começar pela
falta de um projeto nacional de desenvolvimento sustentável e popular. O
Brasil de Lula se desenvolvia e distribuía renda, daí sua popularidade,
porque o governo demonstrava competência em administrar o capitalismo,
coisa que a direita nunca demonstra, e
porque a economia internacional e a política mundial estavam favoráveis.
Bastaram os ventos mudarem de direção, na economia e na política, para
que aquele sucesso desabasse. O projeto petista era completamente
dependente do Lula, sem ele e com a incompetência política da Dilma, o
governo se perdeu.
Do ponto de vista histórico, Lula poderia ter
se retirado da política e deixado que o PT escolhesse seu candidato e
continuasse seu caminho por conta própria, como maior partido do país e
um partido dos trabalhadores. Entraria para a história como um dos
nossos maiores presidentes, evitaria a larva jato, a prisão e todas as
desgraças pessoais que acompanharam sua queda, mas preferiu escolher
uma candidata que dependesse dele para ser eleita, que guardasse sua
vaga, pra ele voltar depois. A ambição política é míope e sem limites.
O
que poderia ter acontecido? O candidato petista, que provavelmente não
seria Dilma, poderia ter perdido a eleição. Isso seria pior do que o que
aconteceu? A alternância no poder e um governo tucano seriam piores do
que o desastroso governo Dilma, a larva jato, a prisão do Lula, o golpe
de 2016, o bozoísmo, o governo bozo, esse novo governo Lula? Desde 2010
só retrocedemos. Nada do que foi tirado dos trabalhadores pelos governos
Dilma 2, Temer e bozo foi devolvido pelo governo Lula 3. Diga-se de
passagem, o próprio governo Lula, nos seus bons tempos, tirou direitos
trabalhistas na previdência, o que mostra que nunca teve um projeto de
fato comprometido com os trabalhadores, apenas distribuiu migalhas dos
enormes ganhos do capital, os quais continuam no governo Lula 3. Lula sempre pensou no seu interesse pessoal em primeiro lugar.
Já
ia tudo mal e a gente não via. A direita se preparava para o
extremismo, com a expansão das suas bases ideológicas evangélicas e
neoliberais no meio do povo, um trabalho de décadas a partir dos EUA que
se apresentou pronto nas manifestações golpistas de 2016. O que a gente
considerava ser esquerda administrava o Estado para o capital e
defendia a democracia, deixando os trabalhadores desorganizados e sem um
projeto próprio, enquanto a extrema direita conquistava os
trabalhadores para a ideologia neoliberal e se preparava para tomar o
poder.
Tudo é ideologia. A gente acreditava que o governo lulopetista era um
governo popular porque o PT era o partido dos trabalhadores, que Lula
era um líder popular porque é um ex-sindicalista, ex-operário, homem do
povo, retirante nordestino. Ambos porém sempre fizeram a política
burguesa, seus limites políticos eram a democracia liberal, que se
empenharam em implantar e manter.
Crescer como partido, conquistar o povo, ganhar eleições, governar
dentro das regras democráticas burguesas, administrar bem o sistema para
o capital e dessa forma conceder benefícios ao povo.
Nunca foi
mais que isso, mas já era muito para as classes dominantes brasileiras,
isso manteria Lula e o PT eternamente no poder, se fosse possível. Não
era: Lula só tinha direito a uma reeleição, e aí começou o drama que põe
a política, mesmo a política burguesa, dentro de limites éticos. É
curioso: a direita, que se diz liberal e democrata, nunca teve pudor em
derrubar a democracia e impor governos autoritários, enquanto a
esquerda, que se pretende a favor da transformação social, mantém a
democracia burguesa com unhas e dentes. A esquerda adere a todas as
práticas corruptas da política burguesa, mas é incapaz de dar um golpe. Fica, por isso, em condições de inferioridade diante da direita.
Se é para jogar o jogo burguês, se a esquerda acredita na democracia liberal, deve também deixar claro qual é o seu programa, um programa diferente do programa da direita. Será um programa de esquerda? Será a esquerda capaz de defender um programa de esquerda e implantá-lo? Ou sua natureza é defender um programa de esquerda, ganhar eleições e implantar programa de direita? Consideremos que os tucanos eram direita e o PT era esquerda. Como oposição, o governo lulopetista não poderia dar continuidade ao governo FHC, em 2002, mas foi o que fez. Se é um governo de continuidade, porque então se opor ferrenhamente antes e não cooptar os tucanos depois? De fato, foi muito mais uma disputa de egos, entre candidatos, do que entre propostas políticas. E o ego do Lula é o maior de todos.
Durante mais quatro eleições, lulopetistas e tucanos representaram um teatro em que eram rivais, mas quando finalmente os tucanos destronaram os lulopetistas quem herdou o trono foi o bozoísmo, a extrema direita. Quem, afinal, tinha compromisso com a democracia liberal burguesa? Nenhum dos dois lados, vê-se hoje, pois não foram capazes de se conciliar em nome de um interesse maior, isto é, seu pretenso compromisso com a democracia. E muito menos a extrema direita, é claro, que sempre se declaro abertamente contra ela. Os tucanos apoiaram o golpe de 2016, os lulopetistas preferiram ser derrubados pelo golpe do que aposentar Lula em 2010 e admitir a alternância de poder nas urnas.
Quem perde com governos burgueses, seja de direita, seja de pretensa esquerda, é sempre o povo. E perde ainda mais quando a democracia burguesa entra em colapso, na disputa entre esquerda e direita, e a extrema direita assume o poder, abole os luxos liberais e implanta programas abertamente antipopulares.
Vinicius tinha a precisão das palavras, que a música mostra claramente. A sonoridade das palavras, o ritmo das sílabas. Por isso seus sambas são tão agradáveis de se ouvir e fáceis de guardar. Além das melodias, é claro, mas a melodia vem antes de tudo, se não for bonita, a letra não vale nada. Também me parece que metade das vezes ele está refazendo Chega de Saudade, dizendo a mesma coisa de outra forma.
Conheci Max há apenas dois dias, mas já somos velhos amigos. Quando
acordo, ele está deitado na soleira da porta. Gosto de cachorros e tenho
antipatia por pets. Cães domésticos e pets são dois fenômenos sociológicos, um antigo, outro recente.
É
fácil imaginar como a relação entre homens e cães se formou. Nossos
ancestrais domesticaram ancestrais dos cachorros oferecendo-lhes comida.
Os cachorros antigos viram vantagens nessa relação, se habituaram ao
ambiente doméstico, a uma vida preguiçosa, não precisavam caçar para
comer, só o que precisavam fazer era seguir os humanos.
Para
nossos ancestrais, e até hoje, as vantagens da relação também são
claras. Não precisamos nos confrontar com outros animais hostis,
inclusive humanos, os cães fazem isso por nós. Sua simples presença nos
protege. Basta andar na cidade, quem ainda anda na cidade, e observar: todo mendigo,
hoje conhecido como morador de rua, tem pelo menos um cachorro, às
vezes vários. Me intriga pensar que o mendigo tem que alimentar, além de
si próprio, um animal de estimação. Já me aconteceu de um morador de
rua pedir dinheiro para comprar ração para seu cachorro. Me pareceu um
luxo, mas já aprendi que, igual a tudo na vida, se é assim é porque tem
motivo. E o primeiro motivo é o mesmo dos nossos ancestrais: o cachorro
protege o mendigo na vida violenta da rua.
A simples presença de
um cachorro afasta outros bichos que consideram um humano um animal
frágil. Um cachorro pode ser mais ameaçador que um homem. Às
vezes é só aparência e basta ameaçá-lo, para o cachorro sair correndo,
mas a presença, o latido, o arreganhar os dentes, avançar e até morder,
assustam qualquer um, e a capacidade de ser violento é uma
característica animal selvagem, ou melhor dizendo, natural que o
cachorro comum preservou muito mais do que o Homo sapiens. Na
verdade, o Homo sapiens é muito mais violento, é disparadamente o animal
mais violento da Terra, o único de fato violento, mas essa é outra questão, trata-se da violência
do Estado. Na vida cotidiana, entre indivíduos comuns, entre
trabalhadores, a possibilidade de ser atacado, arranhado ou mordido por
outro humano é muito menor. O cachorro é fiel ao "dono", isto é,
àquele que lhe dá comida, que ele acompanha. E sendo assim afasta outros
humanos hostis, a não ser que o "dono" demonstre amizade pelo estranho.
Amigo do "dono" não é estranho mais, é amigo do cachorro também.
Há
cachorros que saem correndo e abandonam o dono, se o estranho os
enfrenta. A bem da verdade, os cachorros atuais são mais ameaçadores do
que capazes de causar danos a humanos, exceto a crianças e adultos
medrosos. Por isso, tornou-se uma prática de segurança do patrimônio da
ideologia capitalista treinar cachorros para serem violentos. Mais que
isso: esses humanos que prezam acima de tudo os bens materiais e a
riqueza, mais que a vida de outros humanos, escolhem e fazem
"melhoramentos" genéticos em cachorros que têm características para
causarem grandes danos e até a morte naqueles que atacarem, tais como tamanho da boca e dos dentes, força da mordida, força das patas
e garras etc. Enfim, esses humanos intelectualmente violentos treinam
cachorros para serem agressivos como eram antes de se tornarem animais
domésticos. Não se trata mais de afastar ameaças à integridade do humano
"dono" de um cachorro, mas de afastar ameaças ao patrimônio escandaloso
dos capitalistas. O capitalismo é capaz de realizar coisas espantosas.
A relação que se estabelece entre o homem e o
cachorro domesticados é uma das relações mais bonitas do mundo. A gente
chama até de amizade e diz que o cão é o melhor amigo do homem, transpondo para o animal de outra espécie o que é
normal para outro Homo sapiens. Há quem diga que é possível conversar
com os cachorros. A ciência ainda sabe muito pouco sobre como pensam e
sentem os outros animais, mas é certo que o cão doméstico nos compreende: agora mesmo acabei de dizer ao Max, que tinha entrado na sala, para ficar na lá fora e ele saiu. Por essa convivência antiga com o Homo sapiens, o Canis familiaris adquiriu muitas características humanas e parece de fato
compreender o que lhe falamos. Um cachorro protege seu "dono" em
troca de casa e comida, ainda que, conforme disse, essa proteção seja
mais aparente do que ativa. No entanto, alguns cães são de fato
capazes de morrer para defender seus "donos", de permanecer do seu lado
nas piores dificuldades e até de ir buscar ajuda ou empreender um longo
caminho de volta solitário para casa. Há belas histórias sobre casos
assim.
Minha antipatia com os pets vem do fato de representarem uma perversão dessa relação entre o Homo sapiens e o Canis familiaris. Na relação entre humanos e pets a amizade foi corrompida. Com os pets,
os homens demonstram todos os seus defeitos e aqueles correspondem
demonstrando os seus. Pets são incapazes de dar proteção aos humanos, ao
contrário, precisam ser protegidos. Os humanos, por sua vez, não buscam
proteção física nos pets e sim uma espécie de proteção mental: tratam seus pets como se fossem gente, crianças, eternas crianças, e dão a eles o que muitas vezes não dão às crianças, demonstram impressionante tolerância com eles que não demonstram com crianças.
Pets são crianças mimadas. Crianças mimadas que não crescem. Há uma coisa de síndrome de Peter Pan na relação entre humanos e pets. Não há nada mais ridículo do que ver um jovem bombado passeando com seu pet minúsculo, ornamentado e perfumado, que late estridentemente quando vê outro pet. Esses humanos saem para passear com seus pets
como se fossem bebês e alguns vão mesmo em carrinhos de bebês. Bebês
sem fraldas, porém: fazem xixi e cocô nos passeios públicos, nas portas
dos vizinhos. Humanos (salvo alguns mendigos) não fazem cocô nas ruas,
nunca vi um dono de pet fazendo cocô no passeio, mas todos eles acham normal e aguardam pacientemente que seus pets
façam. Os mais "civilizados" em seguida se abaixam e recolhem o cocô
num saquinho plástico e jogam numa lixeira de rua. Qual de nós joga seu
próprio cocô num saquinho plástico em lixeiras públicas? Imagina todos
nós fazendo isso -- meu critério inato de justiça é esse: é justo o que todos podem fazer. Os donos de pets fazem isso regularmente e acham normal.
Passear nas ruas com pets (e fazer xixi e cocô, eventualmente assustar transeuntes quando os pets
são cães grande treinados para ser bravos) não é propriamente passear,
mas cumprir uma recomendação veterinária, pois eles passam os dias
confinados em apartamentos, quietos, dormindo e comendo e sendo
acariciados e precisam fazer exercício físico. Vivem rotinas inadequadas, em resumo, e adquirem as mesmas doenças dos humanos que vivem rotinas inadequadas. Andar nas ruas da cidade é
a academia dos pets. Pets precisam de babás. Cães domésticos, embora sejam preguiçosos e ganham seu alimento do homem, vivem
soltos, andam para todo lado, correm, se exercitam, enfim. Homens das cidades grandes que moram em apartamentos
viraram babás de pets. É comum vermos jovens casais passeando nas ruas com um bebê e um pet.
Este, porém é um bebê que jamais cresce. Quando envelhece, exige
cuidados de idosos, e seus donos estão a postos e dispostos para
realizá-los. Cuidados que inúmeras crianças e inúmeros idosos não
recebem; nunca vi o dono ou a dona de um pet colocando-o na rua porque ficou velho ou doente.
Os homens cuidam mais e melhor dos pets do que dos seus
semelhantes. Gastam com eles o que não gastam para cuidar de crianças, idosos e doentes humanos. Não é culpa dos humanos, indivíduos mental e emocionalmente
frágeis, fragilizados pela ideologia e pelas condições de vida do
capitalismo. Muito menos é culpa dos pets, animais domesticados pelos humanos e escravizados pelas mesmas forças que escravizam os homens. A relação de mútua dependência afetiva entre humanos e pets é
só um exemplo entre tantos da corrupção que a civilização capitalista provoca na vida do Homo sapiens e das espécies que ele afeta.
A economista italiana Clara Mattei diz praticamente o que eu penso sobre o mundo contemporâneo. Ela não apenas retoma Marx, mas também cita (não nominalmente) o brasileiro Rui Mauro Marini e sua teoria da dependência (que inclui outros pensadores, tais como Vânia Bambirra e Teotônio dos Santos). Não é difícil chegar ao que eu penso, os cientistas políticos, econômicos e sociais nos ajudam, mas basta olhar em volta, olhar para nós mesmos. O grande mérito do Marx foi ter enxergado o capitalismo sem ideologia, daí fez o retrato magnífico de O Capital, mas quem leu? Os marxistas russos leram e outros também, fizeram até revoluções, adaptando-o para a ação política; alguns foram vitoriosos, outros derrotados. No século XX, o capitalismo reformado, que sobreviveu a duas guerras mundiais, à crise de 1929, ao fascinazismo e às revoluções comunistas, domesticou o marxismo, tornando-o acadêmico, mas o neoliberalismo e o neofascismo do século XXI estão fazendo com que o pensamento revolucionário renasça. É assim no Brasil, é assim no mundo. Como explica brilhantemente Safatle, liberalismo e fascismo são duas faces da mesma moeda: a ordem capitalista. As nações periféricas sempre viveram sob o fascismo, os trabalhadores sempre viveram sob o fascismo, que só ganha esse nome quando é implantado nas nações centrais e atinge as classes ricas do capitalismo. Completa Mattei: a democracia liberal é a democracia em que os ricos mandam. É interessante ouvir Clara Mattei falando em orçamento participativo e citando explicitamente as experiências brasileiras. Foi o que me fez acreditar no PT dos governos municipais do Patrus e do Célio, depois gradativamente desmobilizado pelo Pimentel e enterrado pelo Lacerda, o prefeito de merda (a gente não imaginava que ia feder cada vez mais nas administrações seguintes). O orçamento participativo era revolucionário, porque tocava na questão central do capitalismo: quem decide para que vai o dinheiro do Estado. Era muito para o PT, um partido que em seguida abandonou o empoderamento popular, quando Lula assumiu a presidência, e passou a governar para o capital, legitimando o poder burguês do Congresso Nacional, controlado pelas classes proprietárias dominantes e endinheiradas. É interessante também ouvir Clara Mattei colocando a estatística no seu lugar: os analistas sempre falam no "1% mais rico da população", eu discordava e escrevia 0,01%; Clara Mattei vai além, fala em 0,0001%. A concentração de renda e poder no capitalismo é muito maior do que da ordem de 1%. A questão principal, porém, da qual eu falo há décadas e que ela sustenta, é que a dominação do capital não se dá só pela força nem só pelo governo nem só pelos proprietários, ela começa em nós mesmos, que aderimos ao capitalismo e fazemos a nossa parte para mantê-lo vivo. É uma dominação ideológica. Enquanto gostarmos dele, acreditarmos nele e estivermos conformados com ele, o capitalismo continuará vivo. Todo o esforço da ideologia capitalista é esse, para nos manter presos no sistema, pensando que não é possível mudá-lo e que seus valores são bons, que os problemas que enfrentamos são defeitos e que os culpados somos nós mesmos, que não nos esforçamos bastante, não fizemos as coisas certas etc. Enquanto mantemos o foco no indivíduo e vivermos buscando o sucesso individual, o capitalismo seguirá em frente, porque ele se baseia nisso, na nossa motivação para o consumo, que é a expressão material do sucesso. Afinal, o que é o capitalismo? Não é preciso ser doutor em economia para saber, basta olhar para nós mesmos e para o mundo ao redor para compreender. O capitalismo é o sistema econômico baseado no lucro, na produção em busca do lucro. E o que significa isso? Produzir cada vez mais, pois só assim existe lucro, e destruir cada vez mais e concentrar cada vez mais as riquezas nas mãos de poucos e aumentar a pobreza, a miséria, a fome. E a violência para manter as desigualdades e os trabalhadores no submissão. A essa altura da civilização, do desenvolvimento científico e tecnológico e da destruição da Terra, a nossa mãe, o único planeta com biodiversidade e condições ambientais para a vida, o Homo sapiens precisa compreender que a vida só pode continuar abolindo esse sistema insano e criando uma nova forma de viver em sociedade e em harmonia com as outras espécies e a Natureza.