sábado, 10 de outubro de 2026
A falência da Nova República
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Marina, Ciro e Lula
Estou pensando nas trajetórias do Ciro Gomes e da Marina Silva, os dois maiores políticos da minha geração, ambos eclipsados pelo gênio político e pela mediocridade do Lula, cujo narcisismo é muito maior do que o amor que ele tem pelos brasileiros e pelo Brasil. Tanto Marina quanto Ciro saíram derrotados dessa desastrosa eleição de 2026, muito pior do que a de 2018, mas ocupam posições muito diferentes: Marina foi uma candidata do Lula, elogiada por ele na derrota, enquanto Ciro foi derrotado pelo lulismo no Ceará. É provável que os três estejam encerrando suas carreiras políticas este ano. Os três também lutaram até o fim, cada um do seu jeito. Quem se lembra que Marina apoiou Aécio no segundo turno em 2014? Ciro apoiou Dilma, mas ambos foram trucidados pelo lulismo, Marina em 2014, Ciro em 2018 e 2022; Marina voltou submissa ao comando do Lula em 2018, Ciro não se submeteu mais. Na política, feio é perder, ninguém se lembra dos perdedores. Ciro, se vencesse este ano, teria todo o respeito do lulismo e este certamente até lhe pediria ajuda para eleger Lula no segundo turno. Uma das características do lulismo é eliminar qualquer concorrência no campo da esquerda. Não há muita diferença em relação ao bozoísmo, que também fez questão de afirmar que o candidato da extrema direita tinha de ser um bozo, e aparentemente se saiu melhor do que Lula em 2018, pois o bozo jr. se saiu melhor do que Haddad. Isso deveria ensinar muito ao lulismo, ou pelo menos ao petismo, mas o petismo tem muita dificuldade em aprender, porque considera que só existe um mestre, Lula, e este se considera infalível, portanto só aceita a derrota final, definitiva. Ela virá agora? Todos esperamos que não, porque com ela virá o caos, uma destruição arrasadora do Estado brasileiro. Todos nos tornamos lulodependentes. Lula me lembra aquela fábula do escorpião (por sinal o signo dele) e do sapo (nós): se ele abrisse mão do poder, se salvaria e salvaria o povo brasileiro, mas ele não trai a sua natureza. Com seu jeito de negociador carismático e encantador de serpentes, Lula de fato sempre joga no tudo ou nada, sendo que o tudo é ele. Entraria para a história, caso não fosse um escorpião e terminasse a travessia do rio tranquilamente em 2010, como um dos maiores presidentes da história, seria lembrado como Getúlio Vargas ou JK, mas desde então desceu a ladeira e já tem hoje a metade da popularidade que tinha, carregando contra si não o ódio dos ricos, que nunca mudou, exceto em alguns expoentes, que o identificaram como um dos seus, mas o ódio dos pobres que deveriam adorá-lo ainda, como adoravam em 2010. Sua posição agora é saber se fará o pior dos seus quatro governos ou sairá derrotado pela ascensão neofascista que foi incapaz de conter. Acho que teria sido muito melhor, para ele e para os brasileiros, que tivesse deixado a esquerda escolher novos líderes, dos quais Ciro e Marina eram os melhores, muito melhores que Lula inclusive, mas a política tem sua própria lógica e não considera bobagens como o que é melhor para a coletividade. É inacreditável o que aconteceu com o Brasil e seus habitantes entre 2010 e 2026.
Música do dia (2): Love (John Lennon)
Qual é a melhor música do John Lennon? Woman? Imagine? Jealous Guy? Nowhere man? God? In my life? Help!? Não há uma apenas, são muitas. John foi um gênio musical e um grande poeta, compôs inúmeras obras-primas. Publico esta hoje como poderia publicar muitas outras, um pouco pelas imagens que me transmitem exatamente isso: amor. John, o humano mais importante do século XX, faria hoje 86 anos. Foi assassinado aos 40, no auge da vida criativa e amorosa. Não foi apenas um dos dias mais tristes da minha vida e de milhões de admiradores, foi também o dia em que a espécie humana demonstrou que não tem salvação -- talvez as novas gerações criadas com amor mudem essa conclusão. Como foi possível que um artista que passou a vida cantando o amor fosse assassinado friamente, absurdamente? E foi.
Love is real, real is love
Love is feeling, feeling love
Love is wanting to be loved
Love is touch, touch is love
Love is reaching, reaching love
Love is asking to be loved
Love is you, you and me
Love is knowing we can be
Love is free, free is love
Love is living, living love
Love is needing to be loved
Música do dia: Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo)
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
"É preciso reconquistar o povo para salvar a democracia"
"É preciso superar o neoliberalismo para salvar a democracia", diz Singer
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
Interferências tradicionais nas eleições de 2026
domingo, 4 de outubro de 2026
Em memória do Inho
Hoje, meu amigo de infância Luís, o Inho, faria 70 anos. Ele era o craque do nosso time e um talentoso violonista. Morreu muito jovem, aos 26 anos, de forma violenta, longe de casa. Em sua homenagem publico trecho do livro Ainda me lembro.
Minha vida de menino
O portão da casa do Teco rangeu e ele apareceu em seguida. Ao nos avistar sob a luz do poste, subiu ao nosso encontro. Queria nos contar uma novidade: o Cruzeirim topava jogar contra o Alvorada.
Cresci jogando bola. Era assim que se dizia, jogar bola, não era futebol, talvez porque futebol era um jogo com dois times de onze jogadores, camisas numeradas, campo oficial, dois tempos de 45 minutos, juiz e bandeirinhas. Nossos jogos não tinham nada disso. Para nós, bastavam dois jogadores, uma bola e um espaço qualquer. De fato, até sozinhos nós jogávamos. Todo menino tinha uma bola, perto de nós sempre havia uma bola. Jogávamos bola nos terreiros das nossas casas, em corredores, em lotes vagos e até na rua, embora nossa rua fosse uma ladeira. O jogo se adaptava às condições, mas sempre era jogar bola. Desenvolvemos uma habilidade admirável de controlar a bola no piso de pedras da rua íngreme. Chamávamos a isso de “cruzo”: um de nós ficava mais abaixo, no passeio, e cruzava a bola, alta, na direção dos que estavam na rua, de frente para um portão largo improvisado como gol e defendido por um goleiro. Cada um dava só um toque na boa, sem deixá-la cair no chão, e o terceiro era um chute ao gol – se o goleiro defendia ou o chute ia para fora, quem errava ia para o gol e o goleiro passava à linha. Nesse jogo, interrompido e recomeçado a qualquer momento, para pedestres e carros passarem ou quando uma mãe chamava, passávamos horas nos divertindo animadamente, ocupando o espaço público, gritando e estrondando o portão com os chutes. Para alguns adultos aquilo era incompreensível, mas para nós era a coisa mais natural do mundo. Quando um carro apontava na esquina, alguém avisava: “Ó o carro” – e o esperávamos passar. Eram poucos os veículos então. Quando a bola escapava, o cruzador descia correndo atrás dela, gritando para que algum transeunte a parasse, o que acontecia com frequência, pois muitos gostavam de nos ajudar e se desculpavam quando não conseguiam. Com sorte, a bola não ia além da Rua Diamantina, pouco movimentada, mas, se chegava à Avenida Antônio Carlos, o risco de perdê-la era grande. Dançando entre veículos, algumas bolas escaparam, outras estouraram.
Nossa habilidade se evidenciava também nas quedas de “chutinhos”, cujo objetivo era chutar a bola para cima o maior número de vezes seguidas. Nisso eu era campeão: uma vez dei 253 chutinhos e só parei porque minha perna doeu. O macete era pegar o jeito da bola, sentir seu peso e suas irregularidades, arranjar uma posição confortável e bater sempre com a mesma força, com o mesmo lugar do pé, repetindo o movimento, mantendo a concentração.
Quando a turma aumentou, nossas peladas passaram a ser no campo do Pitangui Esporte Clube, de terra e poeira fina, cercado por enorme pedreira desativada e espaços vazios. Os dois times eram escolhidos no par ou ímpar, um jogavam de camisa e o outro sem. Não tinha juiz, mas a gente se entendia: divergências eram superadas, machucar fazia parte do jogo e as amizades se refaziam depois de discussões, embora, às vezes, a brincadeira acabasse em briga. (...)
Quando José e Jorge começaram a vender sonhos e não podiam mais brincar de dia, a turma passou a se encontrar à noite. No começo da tarde, eles enchiam os balaios dos bolinhos feitos na casa de Wilson e Cabeção e saíam pelas redondezas, cada um para um lado: Jorge ia em direção ao Bairro São Cristóvão e José em direção ao Centro, só voltavam ao entardecer ou quando os balaios ficavam vazios. Para mim, aquilo era uma coisa incompreensível: meus amigos, ainda crianças e já trabalhando. Lá em casa, a gente só tinha que estudar, meu pai e minha mãe pagavam todas as despesas e nos davam tudo que queríamos. Depois dos banhos e da janta, a turma ia se formando, junto ao poste; um a um íamos chegando, assoviando, assinalando nossa presença. Reunidos ali, na luz da lâmpada, em frente à minha casa, constatamos que já éramos numerosos o bastante para formar um time de futebol. Queríamos jogar em campo oficial, com bola oficial, vestindo uniforme, chuteiras e tudo. Fizemos uma vaquinha e compramos um jogo de camisas usado, com listas verticais vermelhas e brancas, buracos e forte cecê. Dona Maria, nossa empregada, lavou-as, esfregando bem debaixo do braço, e remendou-as. Escolhemos o nome Alvorada Futebol Clube, adequado às iniciais bordadas no escudo, e começamos a procurar um adversário para o jogo de estreia. Agora, Teco nos dava a boa notícia, acompanhada de um aviso.
-Eles são bons. O Alan desequilibra.
Alan era o primo do Teco. Os dois cresceram juntos, tinham a mesma idade e físicos parecidos, por isso ganharam os apelidos de Tico e Teco, como os esquilos do desenho animado, mas só o do César pegou. Ser bom de bola devia ser coisa de família, pois Teco era o nosso craque, o primeiro escolhido no par ou ímpar. Jogava com elegância, driblava com facilidade e sem pressa, protegia a bola de uma forma que era difícil tomá-la dele, chutava com pontaria e fazia muitos gols. Tinha um talento nato que o diferenciava dos outros, mas também defeitos: era temperamental, manhoso, não gostava muito de correr e abandonava o jogo quando alguma coisa o aborrecia. Às vezes era preciso ir buscá-lo em casa e convencê-lo a jogar, pois se esquecia ou não estava a fim. Eu queria garantir sua presença na estreia do nosso time.
-Você vai jogar, não vai? – perguntei-lhe. José olhou pra mim com uma expressão de censura que eu conhecia: ele se incomodava quando a gente paparicava o Teco.
Eu não ligava de fazer isso, pois não rivalizava com ele, mas José, sim. Se Teco era o craque da turma, José era o decano e o nosso jogador mais completo: corria muito, marcava, chutava e cabeceava bem, ganhava as divididas e era bom até no gol, rivalizando com seu irmão, o nosso goleiro oficial. José tinha fome de bola, era competitivo e raramente perdia.
-Podem deixar o Alan por minha conta – prometeu, sem esperar a resposta do Teco e afirmando sua autoridade.
