A resistência heroica da revolução cubana, que já dura mais de 60 anos, é tão persistente quanto a crueldade do imperialismo estadunidense para asfixiá-la com o bloqueio comercial, financeiro e até turístico. Para se ter ideia, o governo trump proíbe que turista que foi a Cuba entre nos EUA. Nessa entrevista, Frei Beto, provavelmente o brasileiro que melhor conhece Cuba, onde atua como religioso desde os anos 1980, conta detalhes dessa tragédia humana que atravessa décadas, acompanhando as mudanças na política e na economia mundial. O bloqueio explica muita coisa e nos dá ideia do que acontece na Venezuela atualmente e o que ainda a espera. Me pergunto, mas Breno Altman não perguntou ao Frei Beto, como foi que os EUA conseguiram sequestrar Maduro e nunca conseguiram fazer o mesmo com Fidel. Outra coisa que eu não compreendo, e essa é mais importante, porque se refere à viabilidade de uma revolução socialista em qualquer parte do mundo, é por que Cuba não produz alimentos, tendo terra agricultável. Frei Beto diz que falta tecnologia e mão-de-obra, o que é contraditório: por que os cubanos não se dedicam à agricultura? Poderiam ser inovadores, praticando uma agricultura ecológica, inclusive substituindo o trigo pelo milho e pela mandioca. Se falta mão-de-obra, o MST poderia ajudar, e isso não é ironia, o MST ajuda Cuba enviando medicamentos, também afetados pelo bloqueio. A essa altura da minha vida, as pessoas que eu mais admiro são aquelas cuja coerência eu acompanho desde sempre, e Frei Betto é uma delas. Só não entendo por que Betto com dois tês, talvez tenha também alguma coerência. Opera Mundi é o melhor canal de informação do Brasil e sobrevive de forma similar a Cuba: de contribuições generosas do público que o admira.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
A obra-prima do cinema brasileiro
Já pensei que O som ao redor era o melhor filme brasileiro que eu tinha visto, depois pensei isso de Bacurau. Pensei o mesmo de Que horas ela volta?, da Ana Muylaert, e Central do Brasil, do Walter Salles, de O auto da compadecida e de filmes mais singelos do Jorge Furtado, pequenas obras de arte artesanais. Agora formo convicção ao ver pela segunda vez O agente secreto, do Kléber Mendonça Filho, diretor também dos dois primeiros filmes citados. O cinema, quando é arte, é a maior de todas. Durante uma hora ou duas nos envolve numa realidade inventada. Penso que essa é a característica da obra de arte. Acontece isso comigo também quando leio Os irmãos Karamázov ou um álbum do Calvin, quando escuto Imagine ou Saudade do Brasil, para ficar em poucos exemplos de artes diversas. A diferença do cinema é o envolvimento total que ele proporciona. Isso é possível porque o cinema é uma indústria. Foi preciso muito tempo para se chegar aos recursos tecnológicos de que essa indústria dispõe hoje e foi preciso acumular muita experiência profissional. Como indústria, o cinema exige muito capital para comprar os recursos necessários à realização do filme. O agente secreto é o que é porque tem esses recursos, haja vista o périplo que KMF e Wagner Moura empreendem para promover o filme. Uma indústria que funciona bem produz artigos excelentes, mas não produz obras de arte. A obra de arte transcende o produto industrial, por isso muitos discordam que cinema seja arte, salvo exceções, como em filmes quase artesanais. Minha opinião é um pouco diferente, mas o argumento faz sentido. Afinal, como manter a característica de arte num produto industrial cuja elaboração depende de tantas pessoas, além de tantos equipamentos? Pois é. Hollywood é uma indústria, assim como a roliúde brasileira, a Globo, também o é, para ficar nas maiores. Todas as nações que criaram sua indústria cinematográfica seguiram o mesmo modelo, no qual o realizador de fato é o produtor, que capta o investimento dos capitalistas e produz um artigo que deve dar lucro, um investimento alto, que precisa vender muito para ser recuperado e quando o filme faz sucesso o lucro é também astronômico e transforma suas estrela em milionários. Capitalismo. Na indústria cinematográfica do tipo roliudiana, o diretor é um empregado, assim como todos os outros, atrizes e atores são os indivíduos mais visíveis, os "artistas". O diretor é o funcionário mais importante, mas não é o dono do produto, está cercado de auxiliares dos quais depende profundamente e muitas vezes as estrelas se impõem a ele. O filme obra de arte também é isso, qual é a diferença então? Na minha opinião, as diferenças são duas: a primeira é que o filme é um "projeto" pessoal do cineasta e a segunda é que ele mantém o controle da produção. Ou seja, quando o diretor é um artista e mantém tal controle da máquina industrial do cinema e dispõe dos recursos necessários para realizar seu projeto, o resultado é uma obra de arte. Vê-se logo que é uma coisa muito difícil e que exige experiência, além de talento. Quantos diretores brasileiros demonstraram talento manipulando poucos recursos e não conseguiram produzir obras de arte? Talvez Gláuber Rocha, hoje, realizasse filmes melhores do que Terra em transe. Talvez. Os grandes diretores americanos se impuseram sobre a máquina industrial, mas produziram obras de arte graças à experiência que acumularam nela. O mesmo se pode dizer dos cineastas italianos, franceses, ingleses e outros. Ainda não vi Retratos fantasmas, mas vi também no computador Enjaulado, um dos primeiros curtas do KMF, de década de 1990, e já tem a identidade do autor, assim como Aquarius. Os filmes do KMF têm personalidade, são meio estranhos e ao mesmo tempo muito seguros, segurança que se expressa no controle dos detalhes, que são muitos. O agente secreto é, entre outras coisas, uma obra-prima de detalhes. É difícil imaginar que o cineasta possa fazer um filme melhor. Saí do cinema com uma sensação que não tinha desde minha juventude, ao ver os melhores filmes da minha vida. Abaixo uma boa entrevista do diretor.
Uma metrópole viva
Música do dia: Youre gonna lose that girl, The Beatles
A esquerda não tem uma política para as cidades brasileiras
Sim, é assim que um bairro morre, que uma cidade perde a alma, que seus moradores se tornam coisas, mercadorias. Essa é uma experiência que todos nós conhecemos. O que acontece em Sampa, aconteceu e acontece em Beagá. Qual é a política da esquerda para as cidades brasileiras? Não tem. A política em vigor é a política neoliberal, nas cidades como em tudo mais: manda o dinheiro que compra autoridades e muda leis para favorecê-lo, de forma que a população perde sempre. Quando eu digo que Lula e o PT são políticos burgueses e que se submeteram ao neoliberalismo dominante no mundo capitalista nas últimas cinco décadas, que nunca tiveram um programa próprio para o Brasil, é a isso que estou me referindo. O povo quer mudança, quer melhorar sua vida, quer uma alternativa às violências que sofre diariamente. Se não as encontra na chamada esquerda, que há muito tempo se tornou centro e até direita, vai procurá-la na extrema direita, que faz propostas neofascistas de transformação social. É fazendo propostas concretas de transformar as cidades, as relações de trabalho, a educação, a saúde, a aposentadoria, os transportes, a moradia e acima de tudo, porque tudo depende disso, a recuperação do meio ambiente, que a esquerda vai se tornar uma alternativa popular.
DW crítica x BBC sumbissa
Nestes tempos estranhos, a DW, emissora alemã, está assumindo o lugar que a BBC tinha, pelo menos aqui. A BBC se curvou ao tirano ianque e evita reportagens que possam contrariar o imperialismo americano. Chegou ao ponto de proibir o uso da palavra sequestro para informar sobre o sequestro do presidente da Venezuela Nicolás Maduro pelo governo americano. A DW mantém posição mais crítica. Não há jornalismo quando não se mostra a realidade sem censura.
O assunto é ponto de partida para uma série de reportagens sobre os valadarenses e outros mineiros que estão voltando à força para o Brasil depois de décadas. Não sei se estão sendo feitas, pois não acompanho mais os jornais impressos, ou melhor, o que restou deles. Quando eu era repórter, fizemos muitas matérias sobre o fenômeno da migração de mineiros para os EUA, especialmente jovens de Governador Valadares, número estimado em um décimo da população local. Toda família de GV (e depois de outras cidades da região) tinha pelo menos um parente vivendo nos EUA, mandando dinheiro para os pais ou para a mulher, comprando imóveis, movimentando a economia local. Agora estão voltando à força, como o homem da reportagem, que tem 48 anos e morava nos EUA há 21, já se considerava americano. A deportação virou notícia sensacional agora, em consequência da ação do ICE, a gestapo do trump, mas dizem que Obama deportou mais. O pano de fundo de tudo é o capitalismo, com suas contradições que a imprensa evita, pois só vão acabar quando os trabalhadores controlarem o capital, coisa que os capitalistas não fazem, pois querem sempre mais dinheiro e poder. A nação que foi construída por imigrantes agora os persegue, mata, prende, deporta. E o mundo burguês, a democracia liberal, não se pronuncia, não se levanta, não se opõe. Os capitalistas são incapazes de controlar o capital e a democracia burguesa é incapaz de proteger os trabalhadores. Como se a Terra tivesse donos, como se territórios nacionais fossem dados da Natureza e não invenções arbitrárias dos homens, como se alguns homens tivessem direito aos ambientes e todos os outros não. Abolir as fronteiras nacionais e abolir a posse da Terra pelos homens, convivência pacífica, harmoniosa e igualitária dos indivíduos da espécie humana entre si e com as outras espécies é o que a vida exige de nós hoje. O mundo será isso ou deixará de existir em breve, com seus tiranos enclausurados em casamatas tentando escapar das mudanças climáticas e da guerra nuclear.
Também me pergunto se o governo Lula está aproveitando a oportunidade das deportações para lançar uma política de recepção e acolhimento dos deportados, tipo: "Bem-vindos de volta ao Brasil". É uma excelente oportunidade para afirmar Brasil como uma nação que pode ser diferente e melhor, que pode oferecer outro exemplo para as outras nações, para toda a humanidade. O Brasil é uma rara nação neste planeta que pode viver de forma autossuficiente no cenário das mudanças climáticas, mas tem que colocar seu povo e a recuperação ambiental como prioridades de um programa nacional de desenvolvimento, coisa que inexiste entre nós desde que os governos ditos democráticos aderiram ao neoliberalismo, após a derrubada da ditadura militar (1964-1985). Deter a destruição da Amazônia, recuperar o Pantanal e o Cerrado, reflorestar a Mata Atlântica, cuidar de todos os biomas, desenvolver uma economia de características locais, ajustadas a cada bioma, promover a biodiversidade, ocupar grande parte da população nessas atividades, que são atividades econômicas, promover a agroecologia, que já está mais do que testada e aprovada, depende só de o Estado trocar o modelo agrodevastador, tóxico, latifundiário e exportador pela produção familiar agroecológica. Trocar o transporte rodoviário pelo transporte ferroviário, realizar reformas urbanas a favor dos moradores, em vez das construtoras rentistas. Distribuir o poder político para a população, para que ela possa decidir sobre sua vida.