É sempre bom ouvir previsões e análises depois que os acontecimentos esperados passaram. Elas mostram como nossa capacidade de compreender a realidade é limitada.
A ESPN, da qual Juca Kfouri foi uma das estrelas, está para o jornalismo esportivo assim como a Copa de 1982 está para o futebol brasileiro: foi o canto do cisne. A mesa redonda Linha de Passe, com José Trajano, PVC, Mauro César e outros, além do Juca, foi o ápice do jornalismo esportivo e de uma época nacional. A Seleção do Telê, igualmente, expressou o desejo nacional de voltar aos bons tempos, no futebol e na política. Ambos, a Seleção de 82 e a Linha de Passe, guardam relações com momentos políticos decisivos do país: a redemocratização e o governo Lula. Ao mesmo tempo em que expressavam esperança e alegria já continham o germe da tristeza e da desesperança que viriam depois. Pra gente ver como tudo se mistura e que tudo, no fim das contas, é política.
O futebol foi a brincadeira de milhões de meninos brasileiros ao longo de décadas do século XX, enquanto o Brasil crescia, se industrializava, se urbanizava. Uma coincidência: o futebol se popularizava em todo o mundo, inclusive no Brasil, e os meninos brasileiros tinham condições ideias para praticar a molecagem de brincar de bola. Nem era futebol propriamente, não era o jogo inglês com suas regras, era simplesmente "jogar bola". Bastava ter meninos e uma bola para jogar, em qualquer espaço. E havia muitos espaços nas cidades brasileiras que estavam crescendo: lotes vagos, ruas sem movimento, quintais. Nada disso haveria sem que tivesse acontecido a Revolução de 1930, a ação de classes proprietárias dominantes descontentes unidas a classes médias institucionalizadas, notadamente o Exército, que tomou o poder nacional e começou a implantar um projeto efetivamente nacional, industrializador, urbanizador, modernizador. Nas cidades brasileiras que cresciam, os meninos soltos nas ruas juntavam-se em lotes vagos e quintais, dividiam-se em dois grupos, escolhidos no par ou ímpar, procurando equilibrar os times, delimitavam o campo e marcavam os gols com pedras: estava armado o cenário para a brincadeira, sem juiz, os conflitos resolvidos por consenso e pelo desejo de continuar o jogo.
Foi assim que eu cresci jogando bola, nunca em campo oficial, nunca dois times de onze, nunca com juiz apitando, nunca com dois tempos de 45 minutos também: o jogo era por queda ou até parar, por cansaço ou falta de jogadores. Na verdade, nada disso importava: nem a qualidade do campo nem o número de jogadores, nem o tempo do jogo. Jogar bola era diversão, brincadeira de meninos (eram raras as meninas que jogavam bola, o jogo delas, normalmente, era a queimada, muitas vezes misto). Foi assim também que se formou o futebol brasileiro que encantou o mundo e ganhou três Copas (1958, 1962 e 1970), poderia ter ganhado outras duas, não fosse a húbris, em 1950 e 1966.
Enfim, no pós-guerra, durante vinte anos, de 1950 a 1970, o futebol brasileiro encantou o mundo e dominou o futebol mundial. E não só entre seleções, também entre clubes, como o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Cruzeiro de Tostão. Por que isso aconteceu? Porque todos os meninos brasileiros cresciam jogando bola, brincando, inventando dribles e jogadas, que, transportadas para o futebol oficial nos clubes e campeonatos, criavam jogadas imprevisíveis, capazes de desorganizar defesas e marcar muitos gols. Porque havia espaços para jogar bola, porque havia muitos meninos e porque eles eram moleques que brincavam na rua, principalmente de jogar bola. Quando essas condições mudaram, o futebol brasileiro entrou em decadência.
A última geração de jogadores moleques de rua foi a minha, da qual fazem parte Sócrates, Zico, Cerezo, Falcão, Éder, Júnior, Luizinho e o maior de todos, o Rei, Reinaldo, a geração da Seleção de 1982. A nossa geração de meninos foi a última que cresceu brincando na rua, jogando bola em espaços públicos que estavam sendo extintos pelo crescimento sem planejamento das cidades, pela construção desenfreada de edifícios, pelo asfaltamento das vias e sua ocupação pelos carros. O brilho da Seleção de 82 brilhou, quando os meninos da minha geração estavam na casa dos vinte anos, foi como a luz de estrelas distantes que chegam até nós muito tempo depois, expressava condições sociais que já tinham desaparecido: os campinhos e as turmas de moleques jogando bola na rua.
Simples assim. Só isso e mais nada. O chamado "futebol brasileiro", as Seleções e os times dos anos de ouro, a luz tardia da Seleção de 1982, o Atlético do Rei e o Flamengo do Zico expressaram uma realidade que não existe mais. Nossa fixação no assunto, as tentativas exitosas de 1994 e 2002, que precisam ser vistas à parte, mostram nossa incapacidade de compreender tanto o passado quanto o presente. O Brasil não tem mais futebol e jogadores extraordinários, nunca voltará a tê-los, eles pertencem ao passado. Há muito tempo competimos com as demais seleções sem nenhuma qualidade especial, própria. Ao contrário, as condições sociais nacionais atuam hoje contra o futebol brasileiro, numa corrupção generalizada marcada pela ausência de política pública de esportes, promiscuidade política, bagunça dos campeonatos, interesses capitalistas das televisões, das empresas de apostas, dos patrocinadores e dos dirigentes esportivos. Para que o Brasil volte a ser vencedor no futebol, assim como nos demais esportes, terá que se equiparar econômica e socialmente às nações ricas, o que passa por mudanças políticas profundas. Em outras palavras: para se reorganizar no futebol, o Brasil terá que se reorganizar como nação, voltar a ter um projeto econômico, social e político nacional, no qual o futebol, assim como os demais esportes, faça parte da formação das crianças e jovens.
A excelente cobertura esportiva da ESPN durante duas décadas expressou um período em que a chamada democracia brasileira prosperava, sob os dois governos FHC, os dois governos Lula e o primeiro governo Dilma. A inflação tinha sido controlada, o país crescia, os salários estavam em recuperação, a democracia se consolidava, entre solavancos, o povo confiava nela e votava na esquerda, a imprensa funcionava livremente, também entre solavancos. Linha de Passe expressava, no futebol, a confiança geral e dos jornalistas em particular, de que os problemas enfrentados pelo país, e eram muitos, seriam resolvidos democraticamente, seguindo as regras do jogo, numa espécie de progresso contínuo, eleição após eleição, em direção à esquerda. Não poderia ser de outra forma, era impensável que o povo fosse se voltar para a direita, contra governos de esquerda que o favoreciam, contra seus próprios interesses, enfim.
A crítica que se fazia então era aos governos de esquerda, aos seus defeitos, às suas concessões, às suas fraquezas, ao seu insuficiente esquerdismo. É fácil, hoje, perceber por quê. O governo Lula foi o ápice da chamada "democracia brasileira", o regime político que sucedeu a ditadura militar. Estávamos confiantes no futuro, as melhorias eram sensíveis, acreditávamos no caminhos que estávamos seguindo. Depois de seguidas derrotas (a emenda Diretas Já, a morte do Tancredo, o Plano Cruzado, o governo Collor), começamos a colecionar vitórias, como impeachment do Collor, o Planto Real, a eleição do Lula, o impressionante e surpreendente sucesso do governo petista. Nesse caminho, os brasileiros consumiram uma enorme energia política, expressa nas ruas e nas urnas, em greves e manifestações, em organizações de todos os tipos, acumulada durante os anos de chumbo. Tínhamos de fato muita energia e a gastamos até a eleição do Lula, um operário, um homem do povo, um trabalhador. Como recompensa pelos nossos esforços e sofrimentos, colhíamos os frutos da democracia. Parecia então que progredíamos, que continuaríamos progredindo, que a democracia era o caminho. O período tenebroso da ditadura militar tinha ficado para trás e o horror do governo bozo parecia impossível então.
A história é curiosa, parece que tudo tem duas faces, o futuro está contido no presente, assim como o presente estava contido no passado, ainda que um seja oposto do outro. Da terrível ditadura militar veio a mobilização popular que desaguou na democracia. Enquanto o povo se mobilizava e lutava, sofria derrotas e ao mesmo tempo era forte. Quando conquistamos estabilidade econômica, perdemos direitos sociais. Quando os trabalhadores chegaram enfim ao poder, se desmobilizaram. Quando conquistamos qualidade de vida como jamais antes e nos sentimos confortáveis, começou a ofensiva da extrema direita. Em 2010 parecia que pisávamos em solo fértil e firme, era impossível imaginar o pântano em que estamos afundados em 2026. No entanto, estava tudo lá, sempre, ao mesmo tempo: a luta popular continha o governo Lula, assim como a adesão deste ao neoliberalismo continha a nova ascensão fascista.
O que veio em 2013, com as manifestações de massa contra a Copa de 2014, eram parte disso. Exigia-se educação padrão fifa, saúde padrão fifa, transporte padrão fifa. O governo lulopetista cumpria as exigências da fifa e construía estádios e tudo mais necessário com "padrões internacionais", mas negligenciava o que efetivamente fazia diferença na vida dos trabalhadores. A Copa foi um marco negativo para o futebol brasileiro e não só pelo vexame da desclassificação com goleada de 7 a 1 para a Alemanha no Mineirão, mas principalmente porque o povo não pôde assistir aos jogos nos estádios, já que os ingressos eram caríssimos, e porque desde então as torcidas foram elitizadas. A Copa foi simbólica, mostrou sem deixar dúvida que o PT se transformara de partido dos trabalhadores em partido dos capitalistas, que o governo lulopetista, igual a todo governo burguês, representava a minoria proprietária e não a maioria eleitora.

