terça-feira, 3 de março de 2026

Esse mundo maluco (6)

Os trabalhadores, por sua vez, nunca estiveram tão mal, tão desorganizados e tão confusos. Sob a ideologia do individualismo empreendedorista, perderam todos os direitos e são incapazes de reagir, pois não têm mais a sua principal arma, a força do número, da massa popular, da ação coletiva. Na esquerda, muitos parecem estar acordando, reconhecendo esses erros, reassumindo a defesa da revolução. A maior parte, porém continua presa às cartilhas marxistas de um século ou mais atrás. Parecem não perceber que toda revolução bem-sucedida foi diferente das outras. Os revolucionários vitoriosos o foram porque compreenderam as peculiaridades da sua nação. O Brasil continua miseravelmente atrasado nisso. Até o golpe militar de 1964, as posições de esquerda se limitavam a seguir as ordens do stalinismo ou seguir as ideias do Trotski ou buscar inspiração em Mao Tse-Tung e Fidel Castro. A única tentativa de pensar a revolução brasileira partindo das condições brasileiras foi feita pela Polop, mas não chegou a bom termo. A ditadura desarticulou todas as posições reformistas e lançou a esquerda desiludida na aventura armada, igualmente trucidada pelos governos militares fascistas. Depois, o que veio foi a predominância da luta por liberdades democráticas, sob hegemonia da oposição burguesa e pequeno-burguesa. A excelente oportunidade de construção de um partido dos trabalhadores independente da ideologia burguesa, revolucionário e socialista, foi jogada fora quando o PT optou por ser um partido eleitoral, cujo objetivo maior era levar à presidência o seu principal líder, o ex-operário Lula. Desde então, ocorreu o que descrevi acima. No Brasil, o PT cumpriu o papel de ser o partido da ordem capitalista neoliberal e Lula, o líder maior da burguesa. São décadas e décadas perdidas, quase meio século de atraso na construção de uma alternativa revolucionária e socialista para os trabalhadores brasileiros.

Esse mundo maluco (5)

Essa é uma diferença entre a ascensão do fascismo no século XX e a ascensão do fascismo no século XXI. Há cem anos, o fascismo mobilizou forças populares contra o proletariado socialista revolucionário, hoje ele mobiliza o próprio proletariado, que, abandonado pela esquerda, perdeu o rumo e aderiu à ideologia da extrema direita. Social-democracia ou trabalhismo ou até socialismo e muitos outros nomes, sejam quais forem, a esquerda que abandonou a revolução acomodou-se na ordem burguesa, submeteu-se às regras da democracia liberal, conquistou o poder em inúmeras nações, inclusive no Brasil, e tornou-se o partido encarregado de administrar o capitalismo para a burguesia, o partido da ordem capitalista. Suas principais atribuições são agora possibilitar o aumento dos lucros para os capitalistas e reprimir as lutas dos trabalhadores. A esquerda abandonou os trabalhadores e era natural que outra força política ocupasse seu espaço: a extrema direita, os fascistas. Não há mundo melhor para os capitalistas: a esquerda no poder governando para ela, reprimindo os trabalhadores e assumindo o ônus disso, enquanto o fascismo ataca o governo, lidera os trabalhadores, ou partes expressivas deles, e obriga a esquerda a retirar mais e mais direitos. Quando as posições se invertem, os benefícios dados pelos fascistas ao capital são ainda maiores e acelerados. Se a ordem fica instável, os capitalistas podem lançar mão novamente da esquerda agora democrática e liberal e cada vez mais domesticada, mais dócil, mais capitalista, mais burguesa.

Esse mundo maluco (4)

Essa é uma característica da nossa época maluca: a falência da democracia burguesa. E com ela chegamos a outro ponto importante: se os capitalistas novamente já não defendem a democracia liberal, tal como aconteceu na primeira onda fascista, há um século, em várias nações da Europa, mas não só da Europa, em todas as partes do mundo, inclusive no Brasil; se sequer os EUA, que há um século foram a ponta de lança da democracia liberal na guerra contra as nações fascistas do Eixo, se sequer os estadunidenses praticam mais a democracia liberal, quem é que a defende? A democracia liberal burguesa é defendida hoje pela esquerda. Essa é a ironia trágica do nosso tempo. A esquerda que no passado quis destruí-la para implantar o socialismo, liderando o proletariado, assumiu o comando do Estado burguês e passou a carregar o estandarte da democracia burguesa. A esquerda, nitidamente no Brasil, mas igualmente em grande parte do mundo, com exceções honrosas, tornou-se o partido da ordem, não da ordem socialista, mas da ordem capitalista. A esquerda passou a defender a democracia liberal capitalista dos ataques fascistas dos próprios capitalistas. É irônico, mas é também trágico, porque ao fazer isso, a esquerda se afastou não só dos seus ideais revolucionários socialistas, mas também da sua base social, os trabalhadores, e estes foram conquistados pela extrema direita, pelos fascistas.

Esse mundo maluco (3)

A China realizou o que Marx imaginava de forma diferente, pois a revolução chinesa foi liderada pelos comunistas (marxistas), mas foi feita pelos camponeses e não pelo proletariado industrial, como deveria acontecer na concepção marxista, pois o país era muito atrasado economicamente, não tinha ainda desenvolvido sua indústria, era uma nação periférica no capitalismo e tinha sido dominada pelo colonialismo imperialista. Os comunistas chineses tomaram o poder, fizeram reformas sociais e mudanças econômicas, depois promoveram a industrialização com participação do capital internacional, mas sob seu controle político, econômico e social, chegando em meio século a rivalizar com a maior potência capitalista, ultrapassando-a em diversos aspectos. Se a China fosse uma potência capitalista, teria se tornado imperialista e disputaria mercados por meio de guerras, como fizeram as nações capitalistas nos últimos séculos, situação que provocou duas guerras mundiais e inúmeras outras, ainda hoje. O fato de não fazer isso é mais uma prova de que não é capitalista. No entanto, a China de fato disputa mercados com as nações capitalistas e é isso que provoca a reação da maior potência imperialista. A China disputa mercados de forma diferente: atraindo capitais para produzirem na China, exportando produtos mais baratos e oferecendo cooperação com nações periféricas. O sucesso chinês é resultado inegável do seu modelo de desenvolvimento, cuja característica fundamental é o controle do capital pelo Estado, cujo poder político está sob controle do partido comunista chinês. Nesse sentido, a China é uma sociedade caracterizada pelo capitalismo de Estado, isso é verdade, mas também podemos dizer que o capitalismo de Estado, sob controle do partido comunista, é uma ordem social de transição para o comunismo. A China se tornará comunista quando for capaz de realizar a igualdade social total, ou seja, igualdade econômica e política, além de social. É preciso reconhecer que a China está muito avançada nesse processo, pois fez a revolução, levou os trabalhadores ao poder, desenvolveu as forças produtivas e distribuiu riquezas de forma muito mais equilibrada do que os fazem as nações capitalistas liberais. Da mesma forma, é preciso dizer que a Terra não comporta um mundo inteiro crescendo e destruindo o ambiente como o fazem as nações capitalistas e também a China. O desafio da China é combinar desenvolvimento com conservação ambiental, caso contrário o próprio modelo chinês entrará em colapso. Do ponto de vista político, pode-se afirmar que a revolução chinesa estabeleceu um novo modelo de democracia, diferente da democracia liberal. Pode-se argumentar que as liberdades burguesas não existem na China revolucionária, mas também pode-se argumentar que os trabalhadores não desfrutam das liberdades burguesas nas democracias liberais. Ademais, o novo avanço do fascismo tornou essa discussão ultrapassada, pois a democracia liberal já não é praticada sequer nas nações que a defendiam.

Esse mundo maluco (2)

Desde que Marx concebeu sua ideologia, a esquerda de todo o mundo concorda que existem duas classes sociais antagônicas na sociedade capitalista: os capitalistas e os trabalhadores, os proprietários e os assalariados, uma minoria cada vez menor e todos os outros indivíduos, uma maioria cada vez maior. A proposta marxista era muito simples: os trabalhadores devem se organizar, tomar o poder dos capitalistas, destruir o capitalismo e construir o socialismo. Na verdade, essa ideia já existia, o que ele fez foi desenvolvê-la melhor. Marx fez uma análise pormenorizada de como os capitalistas exploravam os trabalhadores, como o capital desenvolvia as forças produtivas e não conseguia controlá-las, gerando crises cada vez maiores, que só poderiam ser superadas com a mudança do modo de produção capitalista para um modo de produção socialista. Ele sustentou sua proposta com uma teoria da história segundo a qual o desenvolvimento das forças produtivas se dá pela luta de classes e pela tomada do poder pela classe que representava o avanço das forças produtivas. Hoje isso parece óbvio, diante da destruição que o capitalismo produz no mundo, com desigualdades, miséria, violências de todos os tipos, guerras, mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, a China (governada pelo partido) comunista é o melhor exemplo de como o controle do capital pelo Estado é capaz de acelerar o desenvolvimento das forças produtivas. Ela nos faz pensar no que teria acontecido se as nações centrais do capitalismo tivessem feito revoluções socialistas.

Esse mundo maluco (1)

O mundo parece maluco, mas não é o mundo, é o capitalismo. O capitalismo é o capital, com a sua força, e as ideologias que ele gera nos capitalistas, isto é, os empresários e seus serviçais, em primeiro lugar os intelectuais. O mundo está maluco, com o crescimento do fascismo, liderado pelos estados unidos e por israel, nos governos trump e netanyahu. E eles jogam bombas em crianças palestinas, jogam bombas em crianças iranianas. Os governos de outras nações nada fazem, alguns protestam verbalmente. No Brasil, políticos, lideranças e personalidades de esquerda também protestam verbalmente e convocam manifestações. Quem critica os governos de esquerda que nada fazem não tira as consequências necessárias. Nós, indivíduos comuns razoáveis, sensíveis, humanos, de esquerda, protestamos também, verbalmente, em redes sociais e participamos de manifestações. O que adianta? Pouco. A pressão internacional é fundamental e as manifestações funcionam pressionando governos, obrigados a responder, e imprensa, obrigada a cobrir. Particularmente no Brasil, sequer nos levantamos quando a polícia assassina crianças faveladas ou crianças indígenas, por que haveria de ser diferente quando fascistas estrangeiros assassinam crianças de outras nações? Somos fracos, poucos e desorganizados. Se fôssemos organizados, seríamos muitos. Se fôssemos muitos, seríamos fortes. Por que somos desorganizados? Essa é a tragédia da esquerda, do marxismo, dos trabalhadores e da espécie humana.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Democracia liberal e fascismo sempre conviveram, segundo Vladimir Safatle

O fascismo não desapareceu depois da sua derrota na Segunda Guerra Mundial, continuou presente, assim como já existia antes para todos os povos colonizados. No Brasil, sempre convivemos com ele, tivemos o maior partido fascista (integralista) fora da Europa, com 1 milhão e 200 mil filiados, e ele nunca se afastou do poder (a ditadura militar teve generais integralistas), por isso não devemos nos espantar com o seu ressurgimento explícito na última década. Quando o fascismo assustou os europeus ao ser praticado contra eles, já tinha sido experimentado na África, nas Américas e em todas as regiões colonizadas pela democracia liberal europeia. O fascismo sempre conviveu com a democracia liberal: democracia para uns poucos e fascismo para os outros, democracia nos ambientes dos ricos, fascismo nos ambientes do povo. O fascismo é a violência contra as populações que, na sociedade capitalista, não têm status de gente, são coisas: os palestinos, os favelados, os africanos escravizados, os indígenas, em resumo: os trabalhadores. As mortes destes não são lamentadas pela democracia liberal e pelo fascismo, eles sequer são identificados, não têm nome nem rosto nem direito à memória. 

Essas ideias e outras mais, brilhantemente costuradas e fundamentadas, foram expostas na manhã desta segunda-feira 2/3/26 pelo filósofo Vladimir Safatle na aula magna "Fascismo como nome correto", que abriu o primeiro semestre letivo na UFMG (foto). A realidade que elas expressam está à nossa vista hoje o tempo todo, mas é preciso ter lucidez para apreendê-la e nomeá-la, como o faz Safatle. Foi uma das melhores palestras que eu já ouvi. Uma visão clara do nosso tempo sintetizada em cerca de uma hora. Espero que a UFMG a tenha gravado e publique no seu canal no YouTube e demais veículos de divulgação. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Por que o Brasil não se dividiu como aconteceu com a América espanhola

A razão fundamental é que a independência brasileira foi liderada pelo príncipe regente de Portugal e, ao manter a monarquina, ele manteve também a integridade do território da ex-colônia, à custa do massacre dos brasileiros das várias regiões que organizaram levantes republicanos. Detalhaes contados nesse vídeo enriquecem o contexto e de quebra nos ensinam sobre a história do restante da América Latina, que nossa educação formal e nossa cultura eurocêntrica ignoram. Mais uma aula da BBC. Quando o lobby estadunidense e sionista não interfere nele vergonhosamente, o jornalismo da estatal britânica costuma ser muito bom. 

Por que brasileiros e portugueses falam tão diferente

A internet, em especial o YouTube, ao se transformar nessa rede infinita de canais de vídeo, possibilita que aprendemamos em alguns minutos coisas que não aprendemos na escola. É um salto no conhecimento. A BBC se destaca nisso.