terça-feira, 24 de março de 2026

A melhor análise da comunicação do governo Lula

Não é falta de aviso. Entra num ouvido e sai pelo outro. Há muito tempo. Entre outras coisas, esse comunicador que eu não conhecia, mas é convincente, mostra que a extrema direita emprega ferramentas usadas por Lênin há mais de cem anos e que a esquerda abandonou. Ele pede um choque na comunicação do governo e avisa que se o bozo filho passar só um milagre impede a volta do neofascismo ao poder. E dessa vez será muito pior.   

segunda-feira, 23 de março de 2026

Voto nulo ou voto útil?

Parece uma pergunta de difícil resposta, desde os anos 1970. Nildo Ouriques faz parte de uma tradição política da qual participei na juventude, originária da Polop, a única tentativa de formular um caminho brasileiro para a revolução socialista e cujo maior expoente foi o cientista social mineiro Ruy Mauro Marini. 

Em 1970, a ditadura militar estava no auge. O Brasil ganhou a Copa do Mundo do México, o "milagre econômico" deslanchava, o país crescia em índices chineses, o movimento estudantil de 1968 tinha sido derrotado, a esquerda revolucionária foi esfacelada, a oposição do fascismo estava morta, presa, clandestina ou exilada. Teve eleição parlamentar naquele ano, a ditadura sempre fingiu que era uma democracia burguesa, e grande parte do povo, que não é bobo, votou nulo. O partido do governo, a Arena, saiu amplamente vitorioso, e o partido da "oposição", oposição consentida e castrada, o MDB, convenceu poucos eleitores. A ditadura deitava e rolava na propaganda do "país que vai pra frente", "ame-o ou deixe-o", um slogan precursor do "Vai pra Cuba!", que os neofascistas recuperaram. Eles se repetem sempre, sem qualquer criatividade, porque são, acima de tudo, indigentes mentais e débeis morais. 

Quatro anos depois veio outra eleição e a surpresa: em apenas quatro anos, o humor popular tinha mudado e seu voto migrou, em grande parte, para o MDB. Em Minas, elegeu para o Senado Itamar Franco, que viria depois a ser presidente. A esquerda sobrevivente se dividiu: pregar o voto nulo, reforçando a tendência popular em 1970, ou apoiar "candidatos autênticos" da "oposição" MDB. A maior parte fez essa opção, a minoria, praticamente apenas os remanescentes da Polop, pregaram o voto nulo. A ditadura levou um susto e o MDB passou a ser um novo espaço de atuação institucional da esquerda, que foi aos poucos estreitando seu laços com o que havia de descontentamento na burguesia e na pequena burguesia. A divisão da esquerda nunca se refez, os "democratistas" prevaleceram e a Polop se autodissolveu. 

A eleição de 1974 foi o primeiro sinal de que a ditadura ia acabar algum dia. Isso porque a situação econômica mundial que sustentava o "milagre brasileiro" tinha mudado, com a crise do petróleo, que disparou a dívida brasileira. Pouco antes, o novo presidente ditador, Geisel, então presidente da Petrobrás, tinha decidido não investir em tecnologia e pesquisa, considerando que não valia a pena, pois o preço do petróleo era muito baixo. Foi um erro crucial. E olha que a ditadura tinha um plano de desenvolvimento econômico, um projeto de industrialização, baseado em empresas estatais; o Brasil nunca teve tantas "brás" quanto nesse época. Os militares chegaram até a começar um programa nuclear, o que levou a atritos com os EUA e perda de apoio, outro motivo para enfraquecimento do regime. 

O fato é que a ditadura foi incompetente em relação ao petróleo e nunca mais se recuperou, foi só descendo a ladeira, vendo a inflação crescer e a oposição também, se dividindo entre "aberturistas", favoráveis a uma abertura política lenta, gradual e segura, e a linha dura, favorável ao fechamento total. O processo foi uma agonia longa e os militares da linha Geisel se impuseram e levaram tudo, no fim, voltando para os quartéis sem qualquer punição, cheios de privilégios, impondo sucessivas derrotas à oposição, que acabou engolindo, como primeiro presidente civil, um político da ditadura, e, como primeiro presidente eleito pelo voto direto, outro político de direita apoiado pela Globo. Depois vieram o governo Itamar Franco e a estabilização da economia, com o Plano Real, a eleição de FHC e sua adesão ao Consenso de Washington, que implantou o neoliberalismo na América Latina, e a promessa do Lula de que, se fosse eleito na quarta tentativa, seguiria na mesma toada, o que cumpriu. 

Agora o voto nulo ressurge, diante de uma interpretação da realidade em que parte da esquerda, aquela mesma herdeira do voto nulo de 1974, diz que, seja com Lula, seja com o bozo, ou seu filho, pouco muda no país e que é preciso buscar outro caminho, o da revolução. É um dilema: não há dúvida de que é melhor viver num governo minimamente civilizado, como o do Lula, do que num desgoverno que liberou todos os crimes, como foi o do bozo. Também é certo, por outro lado, que enquanto a alternativa ao fascismo for Lula, o Brasil e a vida dos brasileiros dificilmente vão melhorar.  

Pistas de Marina Lima e Antônio Cícero

Boa entrevista da Marina Lima para a Folha de S. Paulo. Não sabia que a Folha fazia entrevistas em vídeo, vi essa por acaso. Tenho uma, digamos, relação com a Marina. Temos a mesma idade, dei a uma filha esse belo nome e um dos motivos foi a simpatia pela cantora. Ela me impressionou muito quando apareceu, no final dos anos 1970, começo dos 80. Achei que era diferente e tinha talento, gostei muito de algumas canções, Fullgás em especial, comprei seus primeiros discos, tinham uma sonoridade própria. Depois me desinteressei dela, não acompanhei sua carreira. Também admirei o Antônio Cícero letrista, com versos elaborados e modernos. Quando fazia músicas com minha irmã Rita, lembrava da parceria desses dois irmãos. A decisão do Antônio Cícero pela eutanásia, há dois anos, é uma dessas coisas marcantes pela sua raridade, que nos faz pensar e admirar. A Marina fala dessas coisas nessa entrevista, na modernidades dos dois, diferente do ambiente musical brasileiro da época, dos diversos ambientes, melhor dizendo. Ao contrário do que eu imaginava e apesar da voz, ela está firme. 

Outro pernambucano se destaca na política, desta vez de esquerda

Jones Manoel é o primeiro militante político de esquerda brasileiro que vem do povo e ganha projeção popular nacional, desde Lula. Ele também é pernambucano e tem mais ou menos a idade que Lula tinha quando se projetou nacionalmente, liderando e controlando as greves dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP) e logo influenciando o movimento sindicato de todo o país, até formar o PT e dar um salto para a política, na mais impressionante trajetória de um político brasileiro desde Getúlio Vargas. As comparações param por aí. Tenho há muito tempo minha opinião sobre o Lula, com o qual nunca concordei, mas já fui mais ou menos condescendente, conforme a situação. Lula nunca foi de esquerda e nunca pretendeu fazer política fora dos limites da dominação burguesa, o que na prática o coloca como representante do capital; as dúvidas ficam quanto à origem do seu compromisso com o imperialismo estadunidense, mas isso não importa de fato, porque, na prática, assim como FHC, ele seguiu a cartilha neoliberal e nunca se indispôs com Washington. Jones Manoel não é líder sindical, sua projeção se deu nas redes sociais, embora seja militante do PCBR e participe ativamente de movimentos populares. A principal diferença entre ele e o presidente está na consciência política, baseada em amplo conhecimento, que o tornam uma personalidade da qual se podem esperar ações e posicionamentos raros no Brasil. Em conhecimento, se assemelha ao Ciro Gomes, em coragem, ao Brizola. Que faça um boa campanha para deputado e continue lúcido, num trajeto até a candidatura a presidente em 1930, são os meus votos.    

Imprensa e ideologia (2)

Depois de publicar o post anterior ("Imprensa e ideologia") vi este vídeo esclarecedor. Parece feito sob medida para parte do que escrevi. Mostra que, além de instrumento, a Globo está metida até o pescoço nos interesses que defende. Palmas para o ICL. A propósito: a Globo colocou o símbolo do PT e poupou Jacques Wagner, petista da Bahia envolvido com o Master e que faz parte do lobby sionista.   

domingo, 22 de março de 2026

Imprensa e ideologia

Eu ia publicar um vídeo da Globonews para exemplificar, mas decidi não perder tempo com isso. É sobre o Irã, mas podia ser sobre a Palestina, Cuba, Venezuela, até sobre o Brasil. A Globo é um instrumento da política neoliberal, o que significa do capital internacional, o que significa do imperialismo estadunidense, o que significa da civilização eurocêntrica. Está no Brasil, mas copia, com qualidade inferior, como tudo que o capital internacional produz no país, a imprensa capitalista hegemônica. O que fez nas manifestações populares de 2013 e na campanha do impeachment da presidenta Dilma foi asqueroso. Faz o mesmo na política internacional, sempre subserviente aos EUA. 

Não foi a Globo, porém quem subjugou minha geração. Todos sabíamos de que lado ela estava, pois apoiou o golpe de 1964, foi porta-voz oficiosa da ditadura, boicotou os movimentos populares, tentou impedir a eleição do Brizola e lhe fez oposição, ajudou a derrubar a emenda das diretas e a eleger o Collor. A ideologia é insidiosa. O neoliberalismo contaminou minha geração, a geração estudantil que se levantou contra a ditadura e começou a derrubá-la, transmitido pela própria esquerda, nos governos dos seus principais expoentes, FHC, Lula e Dilma. O tucano inaugurou a adesão ao Consenso de Washington e o ex-operário, fazendo-lhe oposição, seguiu o mesmo caminho, porém, uma vez no poder, e da mesma forma a ex-guerrilheira. 

A ideologia funciona assim, primeiro confiamos nas pessoas, depois acreditamos nelas, e continuamos obedecendo-as mesmo quando elas não fazem o que esperamos, quando suas ações não correspondem mais ao discurso. A imagem da Dilma, que pegou em armas contra a ditadura, era mais forte do que os atos do seu governo a favor do capital. A imagem do Lula, um líder operário, sindicalista, retirante nordestino, homem autêntico do povo, sempre superou seu governo subserviente aos banqueiros e ao agrotoxiconegócio, abraçado ao magnata da indústria, seu vice. A imagem do intelectual marxista FHC sempre dourou as medidas antinacionais e antitrabalhistas que ele tomou. Já lhe tive desprezo, a partir do momento em que inventou a reeleição em seu próprio benefício, mas hoje penso que, dos três, talvez o sociólogo seja o mais honesto, uma vez que nunca se arvorou em líder dos trabalhadores. 

O fato é que atravessamos décadas de confusão ideológica, influenciados pelo fim da URSS e do bloco soviético, sem compreender a civilização chinesa e colonizados pelo eurocentrismo, sem compreender que, aderindo ao neoliberalismo dos tucanos e petistas, ajudávamos a abrir caminho para o fascismo militar, que fez um governo de horrores, no qual morreram mais de 700 mil brasileiros na pandemia. Não obstante, e embora seu líder máximo se encontre preso por tramar um golpe de Estado, o fascismo está pronto para voltar ao poder, novamente com apoio da Globo, do UOL etc. e por meio do voto popular. Quantas décadas levaremos para construir uma alternativa política enfim popular e nacional? 

O que explica o fracasso do governo de esquerda no Chile

Jones Manoel analisa o fiasco do presidente cuja candidatura nasceu da uma grande rebelião popular e foi a grande esperança de esquerda. Em resumo: não cumpriu as promessas de campanha e fez um governo neoliberal, alinhado com os EUA. Os eleitores escolheram um candidato que prometeu mudanças, na sua eleição e na sua sucessão. Lembra o Brasil. O fato é que, ao chegar ao governo, no Estado burguês capitalista, a esquerda latino-americana precisa escolher entre executar um programa popular e mobilizar e organizar os trabalhadores ou se curvar aos interesses do capital e do imperialismo e fazer o que estes querem, como todos os governos de direita, dar ao povo algumas migalhas do banquete dos ricos, justificando que não dá pra fazer mais. O capital tem estratégias e muito dinheiro para realizá-las, impondo seus interesses. Quanto à esquerda, perdeu o rumo e ficou órfã, depois do fim da URSS e do seu bloco; poucos são os políticos e partidos que compreendem que ser de esquerda é formular e executar um projeto nacionalista, porque o capital não tem pátria e as burguesias nacionais não se distinguem do capital internacional, não têm o menor interesse no desenvolvimento nacional, muito menos se preocupam com os trabalhadores.   

sábado, 21 de março de 2026

quarta-feira, 18 de março de 2026

De férias do genocídio palestino, soldados israelenses trazem violência para o Brasil

Parece absurdo, mas é verdade. Como prêmio pelo serviço militar na Palestina, onde mataram milhares de civis desarmados, crianças e mulheres inclusive, soldados israelenses passam férias no Sul da Bahia de tempos em tempos. A gente pode imaginar como está a cabeça e o comportamento desses homens acostumados a praticar barbaridades que vemos relatadas no genocídio do povo palestino. Aqui, não são bem vistos pela população, pois manifestam racismo, arrogância e agressividade, mas os dólares que gastam agradam os comerciantes. Dessa vez eles intervieram numa manifestação de brasileiros e alguns foram presos. Eles não precisam de visto para entrar no Brasil, informa uma das reportagens, o que é absurdo, porque Israel não permite que estrangeiros entrem na Palestina, ataca e afunda navios que se aproximam, prende seus ocupantes, mas os soldados israelenses entram e circulam livremente no Brasil e ainda hostilizam e agridem brasileiros. A notícia do G1 omite a nacionalidade dos "turistas" que agrediram brasileiros, numa clara demonstração de como o lobby sionista controla a Globo. Como diz a comentarista baiana de outra reportagem, não precisamos e não podemos tolerar que os israelenses venham praticar violência também no Brasil, contra brasileiros. Sua entrada deve ser controlada pelo governo brasileiro.  

Uma aula sobre a história dos EUA no século XX até hoje

Suzana Botár, que eu não conhecia, faz uma exposição brilhante sobre a política americana contemporânea, desde a virada democrata com Roosevelt, em 1933, até a ascensão republicana do trump, passando pela derrocada do Estado de Bem-Estar Social e a reinvenção do liberalismo, uma realidade complexa que resume a história mundial. Ela fala tão fácil e com tanta clareza e bom humor, que parece simples esse jogo de xadrez da política internacional. E é tão bonita. O que eu acho mais impressionante é como a imprensa capitalista difunde uma ideologia ignorante e o melhor é ver que essa ideologia está desmoronando nesse terremoto trumpista-bozoísta. "Somos contaminados pelo neoliberalismo progressista." É isso, essa frase resume o diagnóstico da esquerda brasileira e mundial atual.