sábado, 18 de abril de 2026

De Maquiavel para Lula

foto-maquiavel

Quem sou eu para dar conselhos ao maior político brasileiro do nosso tempo, mas o gênio fundador da Ciência Política merece ser ouvido, por seu conhecimento amplo e universal, ainda que não abarque os seis últimos séculos da História, que transformaram a trajetória do Homo sapiens da Renascença na barbárie quase consumada. Lula tinha fama de não ler, ganhou fama de devorador de livros na prisão, segundo seu biógrafo autorizado, não se sabe se leu o Florentino, mas um dos seus inúmeros acólitos poderia ler ou reler para ele. O texto abaixo é o 26º e último capítulo do livro O Príncipe, obra máxima de Nicolau Maquiavel; a tradução é de Mário e Celestino da Silva, no volume 248 das Edições do Senado Federal

Exortação a libertar a Itália dos bárbaros 

DEPOIS DE HAVER REFLETIDO em tudo o que se disse nos anteriores capítulos; após ter perguntado a mim mesmo se os tempos atuais da Itália são de molde a permitir que um novo príncipe adquira nela celebridade e se homem sábio e virtuoso poderá encontrar aqui matéria suscetível de tomar nova forma que constitua motivo de glória para ele e um benefício para a totalidade dos italianos, conclui que talvez nunca tenha existido outra época tão propícia a vinda de um novo príncipe como a de hoje. Se, conforme eu disse, para se conhecer a virtude de Moisés, a grandeza de ânimo de Ciro e a excelência de Teseu era necessário, respectivamente, que o povo de Israel fosse escravo no Egito, que os persas estivessem oprimidos pelos medas e que entre os atenienses lavrasse a desunião, assim, no presente, para se conhecer o valor [virtú] de um espírito italiano era preciso que a Itália descesse ao extremo de hoje, que fosse mais escrava do que os hebreus, mais oprimida que os persas, mais desunida que os atenienses, sem chefe, sem ordem, vencida, despojada, dilacerada, invadida, e que tivesse vencida, e que tivesse suportado toda a espécie de vexames. 

Embora um ou outro de seus homens haja revelado indícios de gênio, deixando supor que Deus o destinará à missão de o redimir, viu-se depois que no ponto culminante das suas ações sofreu o repúdio da fortuna. Destarte, tendo ficado como que sem vida, ela espera quem venha curar-lhe as feridas e pôr um paradeiro à pilhagem dos lombardos, às espoliações e tributos do reino de Nápoles e da Toscana e a sare de todas as chagas já de muito gangrenadas. Veja-se como roga ao Senhor que lhe mande alguém capaz de a salvar dessas crueldades e insolências bárbaras; como está ainda inteiramente pronta a seguir uma bandeira, desde que alguém a desfralde! E a quem poderia ela no momento presente confiar melhor a realização das suas esperanças, do que a vossa ilustre Casa, com os seus méritos [virtù] e fortuna, com as graças de Deus e da Igreja, a qual deu um príncipe [o papa Leão X, da casa dos Médicis]? Quem, mais do que ela, indicado para se colocar à frente dessa obra de redenção? Isso não será difícil se os lembrardes da vida e das ações dos príncipes que mencionei. Posto esses homens fossem extraordinários, nem por isso deixaram de ser homens, e nenhum deles teve oportunidades tão boas como a que agora se apresenta, pois, as suas empresas não foram mais justas nem mais fáceis do que
esta, nem Deus foi para eles mais benevolente do que o é para convosco. De grande justiça reveste-se o caso atual: justum enim est bellum quibus necessarium, et pia arma ubi nulla nisi in armis spes est. [É sempre justa a guerra quando necessária, e piedosas as armas quando não há esperança a não ser nas armas.] Favorabilíssimo é o ânimo existente, e quando esse existe e se inspira nos exemplos que para isso vos propus, não pode haver grandes dificuldades. Outrossim, veem-se, no caso, ocorrer fatos extraordinários, sem precedentes, filhos da vontade de Deus: as águas do mar separaram-se, uma nuvem indicou o caminho, da pedra jorrou água, choveu maná; e tudo concorre para a vossa grandeza. O resto pertence a vós fazê-lo. O Todo-Poderoso não quer fazer tudo para não nos tirar o livre-arbítrio e a parte de glória que nos cabe. 

Não vos admireis que nenhum dos italianos por mim referidos tenha sido capaz de fazer o que da vossa ilustre Casa se pode esperar, nem que, depois de tantas revoluções e de tantos manejos bélicos, pareça ter-se extinguido na Itália a virtude militar. A razão deste fato está em que as antigas instituições [militares] do país não eram boas e ninguém soube fundar novas. Nada contribui tanto para a glória de
um homem que surja no horizonte quanto as novas leis e instituições que ele venha a criar. Quando elas são grandiosas e sólidas, tornam-no digno do mais alto respeito e admiração. Ora, não falta na Itália
matéria adaptável às mais variadas formas que um artífice lhe queira dar. A virtude que escassear nos chefes, supri-la-ão os subalternos. Observai os duelos e as lutas de grupos, e vereis até que ponto chega a força, a destreza e o talento dos italianos. E, todavia, quando a luta é de exércitos, esses dotes desaparecem. Tudo isso tem por causa a fraqueza dos chefes: os capazes não se sujeitam a obedecer; todos se julgam capazes, e até hoje nenhum houve cujo valor [virtù] e fortuna fossem bastantes para compelir os demais a dobrarem a cerviz. Daí provém que de tão longo decurso de tempo, em tantas guerras feitas nos últimos vinte anos, todas as vezes que o exército se compunha inteiramente de italianos, só fracassos se tenham verificado. Disso dão testemunho, primeiro, o Taro, e depois Alexandria, Cápua, Gênova, Vailate, Bolonha e Mestre. 

Se vossa ilustre Casa quiser, portanto, seguir o exemplo dos homens insignes que redimiram as suas províncias, cumpre-lhe antes de mais nada ter, como verdadeiro alicerce de qualquer empresa, exércitos seus; porque não se encontram soldados mais fiéis, mais sinceros e eficientes do que os italianos. E se individualmente são bons, melhores ainda serão quando, todos juntos se virem comandados, distinguidos e sustentados pelo seu príncipe. É necessário, por conseguinte, apresentar essas armas para poder, com valor [virtù] italiano, defender-se dos estrangeiros. Posto que as infantarias suíça e espanhola tenham fama de temíveis, ambas possuem falhas, motivo pelo qual uma terceira espécie de tropas poderia, não apenas resistir-lhes, mas também vencê-las. Com efeito, os espanhóis fraquejam diante da cavalaria e os suíços têm medo dos infantes quando estes os acometem com ímpeto igual ao seu. Daí se origina o fato, que a experiência já demonstrou e ainda demonstrará, de não poderem os espanhóis arrostar a cavalaria francesa e de serem os suíços esmagados pela infantaria espanhola. É verdade que deste último caso não houve até agora prova cabal. Contudo, tivemos um parcial na batalha de Ravena, quando a infantaria espanhola lutou com as tropas alemãs, que empregam um método de combate igual ao das suíças. Os espanhóis, valendo-se da sua agilidade e dos seus broquéis, insinuaram-se por entre os piques dos alemães e atacaram-nos livremente, sem que os seus adversários pudessem defender-se; e tê-los-iam matado todos se a cavalaria não houvesse investido contra eles. Conhecidas, pois, as falhas de uma e de outra dessas infantarias, pode-se organizar uma de novo tipo, apta a resistir à cavalaria e não receosa dos infantes. Bastará para tanto criar novas espécies de armas e novas maneiras de combater. É isto que dá prestígio e grandeza a um príncipe novo. 

É, portanto, essencial aproveitar esta ocasião, para que a Itália veja, após tanto tempo, aparecer o seu redentor. Nem sei exprimir com quanto amor, com quanta sede de vingança e fé obstinada, com quanta ternura e quantas lágrimas ele seria acolhido em todas as províncias que tanto padeceram com aquelas inundações estrangeiras. Que portas se fechariam diante dele? Que povos lhe recusariam obediência? Que inveja ousaria opor-se-lhe? Qual o italiano capaz de negar a sua homenagem? A todos repugna este bárbaro domínio. Abrace, pois, a vossa ilustre Casa esta causa, com aquele espírito e aquela esperança com que se abraçam as empresas justas, para que debaixo das suas insígnias se nobilite esta pátria e sob os seus auspícios se cumpra o dito de Petrarca: 

Virtú contro furore
Prendera l’arme; e fia il combatter corto,
Chè l’ antico valore
Negl’italici cuor non è ancor morto.
 

[A virtude empunhará as armas contra a fúria; e a luta será breve, porque o antigo valor ainda não se extinguiu nos corações italianos. Petrarca, Cancioneiro, parte I, CXXVIII (canção XVI), versos 93 a 96.]

sábado, 11 de abril de 2026

Música do dia (2): Mind games, com John Lennon

Ouvindo esta música a gente percebe a superioridade do John em relação aos outros Beatles (principalmente se na sequência vier Uncle Albert, uma das minhas preferidas do Paul, na qual ele se esforça e brilha) e entende a veneração que George demonstra na letra de All those years ago. E também não compreende como um sujeito que só pregou o amor foi fuzilado no auge da sua vida, conclui que o Homo sapiens não tem salvação, seu destino trágico nessa era está traçado, poderá ser diferente caso sobrevivam alguns exemplares e aprendam com o que fomos e fizemos.

Jones Manoel é o cara

Falta subir no palanque, falar para multidões e se tornar um líder de massas. O fato é que, desde Ciro, a quem ele precisa fazer justiça, não aparece uma liderança política no Brasil com tanta lucidez. Jones Manoel, já disse, tem mais ou menos a idade que tinha o Lula quando surgiu, em contexto histórico e social muito diferente. Oxalá viva tanto e faça o que o outro devia ter feito e não fez. Jones é um fenômeno de massas nesse novo modelo que temos hoje, "massas virtuais", mas não é isso que me entusiasma ao ouvi-lo, é sua lucidez, aliada ao seu conhecimento. Com exceções, tal essa injustiça contra Ciro, na qual não está sozinho, mas não deve se equiparar ao lulólatras, Jones Manoel tem posições sobre o Brasil e o mundo com as quais concordo plenamente. O autoproclamado comunista e revolucionário, o que por si só já é enorme passo, pois no último meio século os comunistas deixaram ou se envergonharam de o ser. Procure um único comunista no PT; o principal herdeiro do Lula, Haddad, é um intelectual brilhante que abraçou o social-liberalismo. O social-liberalismo é a ideologia dos desiludidos com a Revolução Russa, que acreditam que o capitalismo não será superado, que a China inclusive é capitalista, que se trata só de tornar melhor o sistema, diminuindo suas desigualdades etc., mas eles foram atropelados pela nova ascensão fascista, se confundiram quanto ao que fazer quando o muro de Berlim ruiu e não sabem o que fazer agora, insistem no mesmo caminho, que a democracia liberal -- que nunca existiu para os trabalhadores, mas na qual eles são lideranças políticas privilegiadas -- é o valor supremo, de forma que se tornaram os solitários defensores do Estado burguês, contra a extrema direita, mas também contra a esquerda. JM se mostra também um intelectual brilhante de naipe diferente do Haddad, pois está sempre olhando para as pessoas comuns e como um igual a elas, coisa que Lula foi um dia e seu epígono parece não ter capacidade de ser. Me parece que a sucessão política do Lula será disputada entre os dois, mas é claro também que Jones Manoel precisa fazer o teste das ruas e dos palanques. Não basta ser um intelectual brilhante, não basta ter uma argumentação clara e convincente, é preciso ser um intelectual convencedor das massas. Para isso é preciso ter carisma. Lula tem carisma, basta ver a entrevista ridícula que ele deu para o ICL, na qual um jornalista experiente e um empresário esclarecido ficaram babando diante dele, submissos, sem cumprir sua função de entrevistar. O mesmo pode-se dizer de quase todos os jornalistas, intelectuais e políticos brasileiros (e não só brasileiros, basta lembrar daquele estadunidense a que o título faz referência) relevantes seduzidos pelo "encantador de serpentes" . Ciro foi o único com coragem para separar o joio do trigo que existe no Lula. Outro críticos, em geral, e especialmente jornalistas, não podem ser levados a sério, pois estão simplesmente preservando seus empregos e lambendo as botas dos seus patrões. A entrevista ao ICL é mais uma oportunidade para que os que não são cegos vejam a mediocridade do pensamento do Lula, que não tem a menor noção do que deve fazer para tirar o Brasil do buraco em que se encontra, buraco que durante seus governos e afins se transformou numa cratera que ameaça nos engolir a todos. O outro lado da moeda do Lula não é alguém melhor do que ele, é sempre alguém muito pior, o que torna a condição dos brasileiros desesperadora. Não estamos sós, porém, os estadunidenses e toda a espécie humana, em consequência do poder bélico ianque, sofrem do mesmo desespero. O Brasil pode ser uma China tropical, coisa que nem Cuba nem Venezuela nem Argentina nem Uruguai nem Bolívia ou outro país do continente pode ser. O Brasil poderia ser uma China muito melhor do que a China, porque o gigante pela própria Natureza deitando eternamente em berço esplêndido tem tudo para ser o melhor país do mundo, falta-lhe apenas uma classe dominante que decente. Que ela seja, enfim, a classe dos trabalhadores, como pretende Jones Manoel, é que espero para minhas filhas e netos, enquanto olho para o fracasso da minha geração. A tarefa dos jovens é muito mais difícil do que era a nossa, mas Jones Manoel mostra ter lucidez infinitamente maior do que a que teve Lula. Que a conserve, aumentando sempre, e viva também 80 anos ou mais. 

Música do dia: All those years ago, George Harrison

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Os neandertais e os humanos modernos são parentes?

Humanos

A parede introdutória da galeria exibe a diversidade da árvore genealógica humana por meio de réplicas de crânios pertencentes a nossos ancestrais hominídeos. (Fonte: Natural History Museum.)   Hominin family tree graphic showing early hominins, australopithecines and humans

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Postagem publicada em 2014 antecipava o Brasil descendo a ladeira

RPJ: a nova marcha da família? 

Primeiro pensei que se tratava daqueles jogos, RPG. A estética da cartilha lembra a TFP e outros movimentos de direita. Siglas. O globo da bandeira do Brasil com o mapa invertido e o lema positivista também alterado: "Desordem no Congresso". Jogo de palavras. As cores verde, amarelo, azul. E a palavra mágica, presente em todos os discursos da direita, desde que o Brasil inaugurou uma democracia mais participativa, depois da II Guerra Mundial: corrupção. Outras palavras fortes: "indignação", "covardia". E o advérbio que remete à maior campanha política de massas que o Brasil já teve, pelas eleições diretas, em 1984: "já". A cartilha de 12 páginas, grampeada, com boa qualidade de impressão, está sendo distribuída nas ruas. Não é apócrifa. Logo no começo, na página 2 há uma lista de nomes de "fundadores" do "movimento". Não conheço nenhum, além do nome não há outra identificação. RPJ são as iniciais de "Reforma Política Já", o movimento. A "instituição" se chama Pró-Cidadania -- Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Cidadania. Seu presidente é Marcílio A. Moreira. Tem página na internet (www.rpj.org.br), telefone (31-9122-4330) e email: m2augusto@hotmail.com. 

Há poucos dias, um grande movimento de sindicatos, associações, organizações diversas e partidos políticos inclusive, todos identificados, promoveram um grande plebiscito a favor da reforma política. O mesmo objetivo que, aparentemente, o RPJ busca. O plebiscito pede a eleição de uma Constituinte exclusiva para a reforma política. O resultado do plebiscito saiu ontem: foram 7,4 milhões de votos favoráveis à Constituinte (97,2% -- 2,7%, contrários), número bastante expressivo para um movimento organizado pela sociedade, sem participação governamental nem estatal. O RPJ não participou. Por quê?

Clique aqui para ler a íntegra.

Música do dia: Charles Anjo 45 (Jorge Ben), com Caetano Veloso

Não lembrava dessa bela gravação, com participação do autor. A gravação célebre é da Gal Costa no disco ao vivo Fa-tal. A canção é um retrato antigo da presença de protetores nas favelas. Há coisas que são óbvias: se o Estado não está presente, indivíduos, organizações informais e instituições privadas se instalams. Oferecem serviços, impõem sua ordem e exigem obediência: silêncio, colaboração, adesão, votos. Só Brizola e Darcy Ribeiro entenderam isso, a esquerda social-liberal tucana e petista privatizou serviços estatais. Veja como as coisas se encaixam: enquanto o Estado brasileiro era destruído pelo neoliberalismo democratista, o crime organizado crescia. O crime organizado é um tipo de iniciativa privada, está instalado na Faria Lima, como se sabe hoje. Seu melhor ambiente não poderia ser outro senão o governo da extrema direita, que prega a extinção do Estado para os pobres, o monopólio do Estado para os capitalistas. Nele prolifera o "empreendedorismo": igrejas, serviços por aplicativos, milícias etc. Assim, concluímos mais uma vez que o único caminho para a esquerda é do desenvolvimento nacional, com presença central do Estado e poder popular. Tudo se encaixa, basta ouvir com atenção uma canção dos anos 1960.  

quinta-feira, 2 de abril de 2026

O fenômeno Lula

Tudo (ou quase tudo) que o Lula diz nessa entrevista sem perguntas é verdade, mas se sustenta em mentiras, porque não corresponde à realidade. Lula nunca mudou de partido porque o PT é dele, sempre fez o que ele quis, se transformou no Partido do Lula, deixou de ser o Partido dos Trabalhadores. Ciro às vezes fala bobagens, mas Lula também fala, não é por isso que Lula o preteriu como candidato óbvio à sua sucessão, foi porque Ciro brilharia mais do que ele e o jogaria nas sombras, pois tinha (e tem) um projeto para o país, diferente do projeto neoliberal com o qual Lula se comprometeu. Se Lula se preocupa tanto com o partido, por que não deixou que o PT escolhesse seu sucessor, em vez de impor a candidatura desastrosa da Dilma? Depois que o levou ao poder, o PT perdeu sua função, isto é, a função que deveria ter, a de representar os trabalhadores e implantar um programa de governo próprio, coisa que o PT nunca teve. A função do PT sempre foi a de sustentar a candidatura do Lula, de torná-lo um candidato com apoio popular. Tanto isso é verdade que, ao ver que não governaria só com o PT, Lula buscou apoio em outros partidos, que se tornaram privilegiados em relação ao seu próprio partido. O lema do governo Lula passou a ser "um governo de todos", lema dúbio, que poderia ser uma crítica aos governos anteriores, que não incluíam os trabalhadores, mas de fato significava que não seria um governo "só" dos trabalhadores, mas também das classes dominantes. E na prática, ao adotar o projeto neoliberal do FHC, compromisso assumido na famigerada "carta aos brasileiros (banqueiros)", tornou-se o governo dos capitalistas. Tudo isso são fatos, hoje óbvios. O PT tornou-se dependente do Lula, não sobrevive sem ele, definhou e tende a sumir, depois dele, se não se transformar de fato num partido, com programa etc. Lula diz que é preciso ter partidos sérios e acabar com a promiscuidade na política, mas seus governos foram e é mais ainda o atual sustentados na promiscuidade com o chamado centrão, em nome da "governabilidade". O PT nunca suportou dissidências que desafiassem Lula, prova disso são os inúmeros militantes e tendências expulsos. Se Lula se preocupasse com o seu partido, não aceitaria que seus auxiliares, como Jacques Wagner e Clara Ant, promovessem o sionismo e protegessem Israel da reprovação geral ao genocídio palestino. Tampouco se alinharia com os EUA contra a Venezuela, no não reconhecimento da eleição e no veto à entrada no Brics. Enfim, é contradição após contradição, e não só isso, Lula se passa por um semideus, acima do bem e do mal, mas destila veneno, ao dizer que "Camilo achava que o mau era eu e agora está vendo" e que "Ciro foi um bom ministro". É claro que foi. Ciro é certamente o político mais brilhante da nossa época e não apoiar sua candidatura é um dos maiores prejuízos que Lula deu ao Brasil, só comparável ao fato de impedir que Brizola fosse ao segundo turno em 1989. Ao contrário do que diz Lula, Ciro foi vitorioso em todas as eleições que disputou, exceto as de presidente, mas o mais importante é que, uma vez eleito, não traiu seu projeto político e realizou obras concretas. Por isso mesmo era o mais qualificado para suceder Lula, mas este quis Dilma, dependente dele, inexperiente, inábil. É evidente que Dilma foi escolhida para guardar a vaga durante quatro anos, mas aconteceram imprevistos. Isso é pensar no país ou pensar em si mesmo? É essa a questão. Lula não pensou no Brasil, talvez nunca tenha pensado, pensou em si mesmo, talvez só pense em si mesmo. Isso na melhor hipótese, a pior seria seu compromisso com o neoliberalismo. Simples assim. No entanto, não estou condenando Lula, ele só é o que é porque nos deixamos enganar, porque a esquerda se iludiu com o "líder operário", esse ser esperado como um messias pelos marxistas. O messias mostrou ser o mais hábil político da história brasileira, rivalizando com Getúlio. Seu único problema é que não tinha um projeto nacional e popular para o Brasil e para os brasileiros, e converteu-se no líder burguês capitalista. Imagina Lula com o projeto do Brizola, seria muito bom, mas nesse caso, penso, não seria Lula, porque Lula sempre teve uma ideologia capitalista liberal. Não à toa, seu mais dileto afilhado é o social-liberal Fernando Haddad. Lula engabela os entrevistadores, porque é um mestre da retórica, um encantador de serpentes, como o define Ciro. A única vez em que o vi ser apertado por um repórter foi naquela entrevista histórica para o Glenn Greenwald. Afora tudo isso, é o de sempre, a imprensa capitalista busca o que não é importante para os brasileiros, segue a pauta dos patrões, joga Lula contra Ciro e Ciro contra Lula, para favorecer a volta do neofascismo, que será terrível no segundo governo, assim como trump 2 é pior do que trump 1.    

Brizola era de esquerda; Lula e FHC são?

Cada vez com mais frequência me pergunto por que a minha geração foi incapaz de enxergar o que hoje é óbvio. Brizola estava muito à esquerda do que vieram a ser os governos do PSDB e do PT. Dia desses, num programa no YT, uma intelectual de esquerda, instada a escolher o político mais importante para a história do Brasil, ou Lula ou Getúlio, escolheu o primeiro. E eu pensei: que escolha absurda, completamente sem cabimento, só pode ser feita por quem continua vítima da cegueira da qual falei. A obra de Getúlio existe ainda no Brasil, quase cem anos depois, apesar do desmonte a que foi submetida desde a ditadura militar, mas principalmente pelos governos civis "democráticos" e "de esquerda", sem falar no do temer, o minúsculo, e no do bozo, o boçal. E Lula? Gostaria que me apontassem qual a grande realização dos, digamos, 16 anos de governos petistas, excluindo o segundo da Dilma, que não houve. O que é durável nos cinco governos Lula (porque Dilma só existiu porque Lula a escolheu e fez campanha pra ela e, afinal, foi ele também quem escolheu temer, o minúsculo, para vice)? Afora os erros gigantescos que cometeu, do ponto de vista dos interesses nacionais e até mesmo dos seus, como a escolha do vice diminuto e traidor, a coisa mais duradoura que Lula fez foi continuar a política econômica do FHC, de adesão à cartilha do neoliberalismo e submissão aos EUA. Imagina se, no mesmo tempo, a gente tivesse a implantação do programa de educação em tempo integral do Brizola. Aí sim teríamos uma mudança radical no Brasil. Os governos Lula aumentaram muito as vagas na universidade, em 2025 foram quase 10 milhões de alunos, mas 80% delas são em faculdades particulares. Além disso, nas universidades públicas a evasão chegou a 25%. São dois números absurdos e não podem ser usados como propaganda senão por cegos, porque eles mostram, primeiro, que 4 em 5 universitários brasileiros estão fazendo dívida para estudar em faculdades de má qualidade, como confirmou o escândalo recente sobre os cursos de medicina. Mais grave ainda é fazer curso superior e depois ser um trabalhador informal, motorista de uber, entregador de aplicativo. É isso que acontece numa nação que não oferece oportunidades, porque se desindustrializou e todo o dinheiro do Estado sob governos neoliberais de teto de gastos e arcabouços fiscais vai para os banqueiros e para o agrotoxiconegócio, não sobra nada para saúde, educação, transporte, moradia, ciência e tecnologia, enfim, as áreas que beneficiam o povo e oferecerem oportunidades para os jovens. A universidade pública brasileira está sucateada e se socorre com ensino à distância no mínimo deficiente. Não é à toa que Lula perdeu popularidade entre os jovens. Entre aqueles influenciados pelas igrejas neopentecostais, deduz-se quem captura essa impopularidade; entre os outros a simpatia vai para correntes políticas que se definem como socialistas, como a UP. O fato é que, afora o controle da inflação obtida com o Plano Real, e exigência do neoliberalismo para implantação do seu programa de "modernização", nada temos a comemorar em 41 anos de governos civis, 36 de governos eleitos por voto direto, na "democracia". Com um retrospecto tão ruim de realizações, não surpreende que a tão idolatrada "democracia brasileira" venha mais uma vez a cair nas mãos da extrema direita antipovo pela via da escolha popular. As razões são óbvias. Só o que me espanta cada vez mais é por que nos deixamos enganar durante a vida inteira.