segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A China é o pós-capitalismo

O que é a China? Há muitas respostas. A China é o que a URSS poderia ter sido, não fosse o stalinismo. A China é o que é porque aprendeu com a experiência da URSS. A China é um Estado socialista ou capitalista? O que existe na China é socialismo ou capitalismo de Estado? Refletindo um pouco, eu cheguei à conclusão óbvia: a China não é uma nação capitalista porque o poder político lá é exercido pelo Partido Comunista. Os capitalistas não estão no poder na China, como estão nas nações capitalistas, como o Brasil. Lá, eles se submetem ao Estado governado por um partido comunista que fez uma revolução dos trabalhadores. Isso é diferente de um Estado capitalista onde os capitalistas governam por meio dos seus prepostos políticos. No Brasil, o capital faz o que quer, o Estado está a seu serviço. Na China, o capital está a serviço do Estado. Na China, a revolução pretendeu primeiro distribuir a pobreza, depois decidiu desenvolver o capital e o resultado é o que se vê. O capital a serviço do Estado, de um Estado controlado pelos trabalhadores, pelo partido comunista. A China, portanto, não é uma nação capitalista, é uma nação comunista, porque o poder é exercido pelo Partido Comunista. Para ser rigoroso, em termos de doutrina marxista, a China é socialista, porque o comunismo seria uma etapa posterior, quando as classes sociais tiverem sido eliminadas e isso evidentemente não aconteceu ainda, porque há capitalistas e empresas privadas na China. A China é socialista, mas também é capitalista, porque é o capital que move a economia. O que significa tudo isso? Que a China é o futuro da humanidade, se ainda houver futuro para a espécie humana, se o capitalismo não destruir a Terra antes. Isso porque a China vem demonstrando o que a superação do capitalismo estúpido é capaz de fazer. Isso estava previsto na teoria marxista, na verdade é uma pedra angular dela: o capitalismo impede o desenvolvimento das forças produtivas, o socialismo é imprescindível para a continuação do progresso. A China parece ser a comprovação disso, o salto impressionante que ela deu em cinco décadas não aconteceu em nenhuma outra nação, e fez isso não graças ao capitalismo, mas ao socialismo, isto é, ao controle do capital pelo Estado. O socialismo é isso: o controle do capital pelo Estado, não importa se persistem ou não empresas privadas e capitalistas. A história não termina aí, porém. Primeiro porque, como disse, ainda há classes sociais e desigualdades na China, e isso preciso ser superado, mas também porque é evidente que a Terra não suporta a continuação do desenvolvimento chinês e que ele não pode ser universalizado, pois não há recursos materiais para tanta riqueza, e o socialismo pressupõe internacionalismo. Ou seja, se o socialismo é o que a China é, e se todas as nações se desenvolverem como ela, o que acontecerá com o planeta? Ao ver as imagens desse vídeo, eu entendi o que é a China: é o futuro, é o pós-capitalismo.  

No Brasil, trabalhadores são coisas, não são humanos

Não à toa, o fim da escala 6x1 provoca reações violentas dos ricos e a chamada esquerda é incapaz de mobilizar os trabalhadores para defender essa pequena mudança humanizadora na legislação trabalhista. O que dizer de um filósofo que em apenas vinte minutos explica a estrutura do Estado brasileiro e em seguida a guinada dos trabalhadores para a direita? Safatle brilha nesse vídeo. 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

É possível preservar a Amazônia, mas os latifundiários não querem

Todos os caminhos levam ao mesmo destino: a substituição do capitalismo por outro sistema em que os humanos vivam em igualdade e harmonia com o ambiente e as demais espécies sobre a Terra. Conhecimento para preservar a Amazônia e até produzir mais carne (embora devêssemos compreender que o mais saudável é comer menos carne) existe, mas os fazendeiros não estão a fim, é mais fácil desmatar e ganhar dinheiro rápido, foda-se para o ambiente, para o Brasil, para os outros brasileiros, para as futuras gerações. O sistema capitalista e a "democracia" liberal controlada por políticos corruptos a serviço dos empresários não estão preocupados com essas bobagens como preservação ambiental e mudanças climáticas. Basta ver o que o autocrata americano acaba de fazer em relação às mudanças climáticas e olhar também para o desenvolvimento vertiginoso da China: o capital sobre controle faz maravilhas, o capital descontrolado é um louco disparando para todos os lados.  

O Brasil é uma nação de castas

Os assuntos desse A Hora são todos relevantes e reveladores, mas nada é mais revelador do que o último: como o judiciário brasileiro é ocupado desde sempre pelas mesmas famílias. O Brasil é um país de castas, como tenho escrito há muito tempo. Não há pregação mais ridícula nestas plagas do que a da meritocracia, da qual as castas privilegiadas gostam tanto. Isso acontece sem prejuízo para a dominação do capital, ao contrário, a dominação deste e a das castas se misturam, mas tentar compreender o Brasil sem olhar para suas castas, aplicando aqui teorias europeias, é uma bobagem. O escândalo do banco Máster, o escândalo da vez nesse país cujos escândalos parecem uma competição e o atual é sempre o maior, imagina-se que insuperável, até que vem o seguinte, num processo que, em vez de aprimorar a "democracia", o que parece acontecer é o anestesiamento da população, o escândalo do banco Máster é uma síntese de como um espertalhão trança uma rede de influências para sustentar sua pirâmide financeira e acaba preso nela, graças à ação da Polícia Federal, que está simplesmente cumprindo sua função. Pelo menos ela. No Brasil, parece não haver instituição que trabalhe mais do que a PF, embora em tempos recentes tenha se prestado ao papel de ajudar o golpe de 16. O espertalhão mineiro do banco Máster buscou nas castas os elos da sua rede, imaginando talvez que, se seu castelo caísse, cairiam todos com ele. A conferir. Toffoli caiu, enfim, graças à PF e ao presidente do STF, Fachin, mas até onde irá o processo? A quem atingirá? O próprio Toffoli sairá só chamuscado, mas manterá seus privilégios e daqui a algum tempo, quando todos se esquecerem do caso, estará de novo, desfrutando dos requintes da festa dos ricos, da qual os brasileiros comuns não participam? É tão evidentes que tudo isso é faz parte da podridão capitalista, mas a esquerda não é capaz de dizer isso e apresentar o socialismo como solução para nossos problemas, pelo menos para os mais graves, porque está comprometida até o pescoço com a ordem burguesa, a tal "democracia", na qual só ela acredita, pois os ricos só se aproveitam dela e os pobres sabem que estão sendo enganados, por isso aderem a quem lhes apresenta uma falsa solução, a extrema direita.  

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Música do dia (bis): Cantar, com Beto Guedes e Tavinho Moura

Com a segunda parte, cantada pelo Tavinho Moura e pelo Beto Guedes, filho do autor.

Música do dia: Cantar, com Paula Toller

A melhor gravação dessa pérola do Godofredo Guedes, pai do "Clube da Esquina" Beto Guedes, é a do Tavinho Moura. Só ele canta a segunda parte. Sim, Cantar tem uma segunda parte, bem interessante e que ninguém canta. A melhor interpretação, porém, a mais gostosa de ouvir, como tudo que ela canta, é da Paulinha Toller, minha musa do rock-pop brasileiro dos anos 80. Ei-la.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O boicote criminoso dos EUA e a resistência do povo cubano

A resistência heroica da revolução cubana, que já dura mais de 60 anos, é tão persistente quanto a crueldade do imperialismo estadunidense para asfixiá-la com o bloqueio comercial, financeiro e até turístico. Para se ter ideia, o governo trump proíbe que turista que foi a Cuba entre nos EUA. Nessa entrevista, Frei Beto, provavelmente o brasileiro que melhor conhece Cuba, onde atua como religioso desde os anos 1980, conta detalhes dessa tragédia humana que atravessa décadas, acompanhando as mudanças na política e na economia mundial. O bloqueio explica muita coisa e nos dá ideia do que acontece na Venezuela atualmente e o que ainda a espera. Me pergunto, mas Breno Altman não perguntou ao Frei Beto, como foi que os EUA conseguiram sequestrar Maduro e nunca conseguiram fazer o mesmo com Fidel. Outra coisa que eu não compreendo, e essa é mais importante, porque se refere à viabilidade de uma revolução socialista em qualquer parte do mundo, é por que Cuba não produz alimentos, tendo terra agricultável. Frei Beto diz que falta tecnologia e mão-de-obra, o que é contraditório: por que os cubanos não se dedicam à agricultura? Poderiam ser inovadores, praticando uma agricultura ecológica, inclusive substituindo o trigo pelo milho e pela mandioca. Se falta mão-de-obra, o MST poderia ajudar, e isso não é ironia, o MST ajuda Cuba enviando medicamentos, também afetados pelo bloqueio. A essa altura da minha vida, as pessoas que eu mais admiro são aquelas cuja coerência eu acompanho desde sempre, e Frei Betto é uma delas. Só não entendo por que Betto com dois tês, talvez tenha também alguma coerência. Opera Mundi é o melhor canal de informação do Brasil e sobrevive de forma similar a Cuba: de contribuições generosas do público que o admira.  

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O agente secreto (trailer)

A obra-prima do cinema brasileiro

Já pensei que O som ao redor era o melhor filme brasileiro que eu tinha visto, depois pensei isso de Bacurau. Pensei o mesmo de Que horas ela volta?, da Ana Muylaert, e Central do Brasil, do Walter Salles, de O auto da compadecida e de filmes mais singelos do Jorge Furtado, pequenas obras de arte artesanais. Agora formo convicção ao ver pela segunda vez O agente secreto, do Kléber Mendonça Filho, diretor também dos dois primeiros filmes citados. O cinema, quando é arte, é a maior de todas. Durante uma hora ou duas nos envolve numa realidade inventada. Penso que essa é a característica da obra de arte. Acontece isso comigo também quando leio Os irmãos Karamázov ou um álbum do Calvin, quando escuto Imagine ou Saudade do Brasil, para ficar em poucos exemplos de artes diversas. A diferença do cinema é o envolvimento total que ele proporciona. Isso é possível porque o cinema é uma indústria. Foi preciso muito tempo para se chegar aos recursos tecnológicos de que essa indústria dispõe hoje e foi preciso acumular muita experiência profissional. Como indústria, o cinema exige muito capital para comprar os recursos necessários à realização do filme. O agente secreto é o que é porque tem esses recursos, haja vista o périplo que KMF e Wagner Moura empreendem para promover o filme. Uma indústria que funciona bem produz artigos excelentes, mas não produz obras de arte. A obra de arte transcende o produto industrial, por isso muitos discordam que cinema seja arte, salvo exceções, como em filmes quase artesanais. Minha opinião é um pouco diferente, mas o argumento faz sentido. Afinal, como manter a característica de arte num produto industrial cuja elaboração depende de tantas pessoas, além de tantos equipamentos? Pois é. Hollywood é uma indústria, assim como a roliúde brasileira, a Globo, também o é, para ficar nas maiores. Todas as nações que criaram sua indústria cinematográfica seguiram o mesmo modelo, no qual o realizador de fato é o produtor, que capta o investimento dos capitalistas e produz um artigo que deve dar lucro, um investimento alto, que precisa vender muito para ser recuperado e quando o filme faz sucesso o lucro é também astronômico e transforma suas estrela em milionários. Capitalismo. Na indústria cinematográfica do tipo roliudiana, o diretor é um empregado, assim como todos os outros, atrizes e atores são os indivíduos mais visíveis, os "artistas". O diretor é o funcionário mais importante, mas não é o dono do produto, está cercado de auxiliares dos quais depende profundamente e muitas vezes as estrelas se impõem a ele. O filme obra de arte também é isso, qual é a diferença então? Na minha opinião, as diferenças são duas: a primeira é que o filme é um "projeto" pessoal do cineasta e a segunda é que ele mantém o controle da produção. Ou seja, quando o diretor é um artista e mantém tal controle da máquina industrial do cinema e dispõe dos recursos necessários para realizar seu projeto, o resultado é uma obra de arte. Vê-se logo que é uma coisa muito difícil e que exige experiência, além de talento. Quantos diretores brasileiros demonstraram talento manipulando poucos recursos e não conseguiram produzir obras de arte? Talvez Gláuber Rocha, hoje, realizasse filmes melhores do que Terra em transe. Talvez. Os grandes diretores americanos se impuseram sobre a máquina industrial, mas produziram obras de arte graças à experiência que acumularam nela. O mesmo se pode dizer dos cineastas italianos, franceses, ingleses e outros. Ainda não vi Retratos fantasmas, mas vi também no computador Enjaulado, um dos primeiros curtas do KMF, de década de 1990, e já tem a identidade do autor, assim como Aquarius. Os filmes do KMF têm personalidade, são meio estranhos e ao mesmo tempo muito seguros, segurança que se expressa no controle dos detalhes, que são muitos. O agente secreto é, entre outras coisas, uma obra-prima de detalhes. É difícil imaginar que o cineasta possa fazer um filme melhor. Saí do cinema com uma sensação que não tinha desde minha juventude, ao ver os melhores filmes da minha vida. Abaixo uma boa entrevista do diretor. 

Uma metrópole viva

Quanto tempo leva um império para desmoronar? Na era da bomba atômica, um império desmorona sem levar com ele toda a civilização? Outra civilização está em ascensão vertiginosa: como será o império chinês? Os EUA são uma nação diversa, talvez a mais incrível já existente, não vai desaparecer de uma hora para outra, nem sem intensa luta intestina. Nova York é uma nação dentro da nação e tem agora um prefeito de esquerda. Oxalá tome iniciativas de esquerda e não capitule ao neoliberalismo como fez a esquerda das nações centrais e de outras, como o Brasil.