quinta-feira, 2 de julho de 2026

Ipês do campus

Julho, mês dos ipês. BH tem muitos, esses são do campus da UFMG.

 

Música do dia: Ternura, com Roberto Carlos

Sempre gostei dessa música, mas nos últimos anos ela ganhou um significado especial. Eu expresso ideias e sentimentos simples pela música, às vezes compondo melodias rudimentares para acompanhar versos, mas principalmente cantarolando alguma canção que contém uma frase afim. A MPB é definitivamente a melhor coisa que os brasileiros produziram, apesar do deprimente horror dominante atual. Até em versões o talento musical brasileiro se revela, como nas pérolas do Haroldo Barbosa; Rossini Pinto, o autor dessa, também foi craque. A gravação original é da Wanderléa, mas é Roberto Carlos quem a canta lindamente. Compositor medíocre, uma vez ou outra bom, ele mostra que é, acima de tudo, cantor, formado sob a influência do João Gilberto. Não exagera e não inventa, como gostam de fazer em geral os cantores e as cantoras que possuem belas vozes, derrapa só uma vez, levemente; quase declama, de forma que a gente até pensa que ele está sentindo o que canta. 

sábado, 27 de junho de 2026

Salvar o SUS e torná-lo excelente

A esquerda brasileira realizou essa grande obra que é o SUS, mas isso já tem quatro décadas. A Constituição de 1988 foi o ápice da democratização do Brasil. Desde então, aqueles que deveriam conduzir o país para o desenvolvimento econômico e a justiça social, isto é, o PSDB e o PT, aderiram ao neoliberalismo e os avanços democráticos foram só retrocedendo. Não basta salvar o SUS, que está sendo engolido pela iniciativa privada, é preciso torná-lo tão bom quanto o melhor plano de saúde privado. Da mesma forma a educação pública, o transporte coletivo, a moradia etc. Quando os neoliberais começaram a privatizar tudo, disseram que ia sobrar dinheiro para o Estado investir nos serviços essenciais. Estavam mentindo deliberadamente, para enganar o povo. Só sobrou dinheiro para pagar os juros dos banqueiros, dar subsídios para o agrotoxiconegócio, incentivar mineradoras, enfim, dinheiro público para o capital. Os canalhas dizem que o Estado é ineficiente e que o capital é eficiente, mas o capital só consegue ser eficiente recebendo dinheiro público. A mais recente roubalheira do capital é o teto de gastos, o arcabouço fiscal, a limitação, enfim, dos gastos sociais, inclusive aumento do salário mínimo, das aposentadorias e tudo mais. Sucatear o SUS e entregar a saúde, isto é, os gastos com doenças, para a iniciativa privada, é o que eles querem. O PT faz isso, gosta disso, defende isso. Até a eleição de 2022, o único candidato a denunciar esse modelo e propor outro foi o Ciro Gomes. Este ano apareceu o Jones Manoel, que deveria ser candidato a presidente, infelizmente não é, é candidato a deputado federal por Pernambuco, mas faz uma campanha de características nacionais, porque sabe que os problemas que ataca e as propostas que defende têm âmbito nacional. O Brasil precisa de um projeto político de esquerda, que tire os recursos públicos dos ricos e privilegia o SUS, a educação pública universal em tempo integral e de qualidade, transporte coletivo de qualidade e gratuito, moradia popular na região central, salário mínimo reajustado muito acima da inflação e da mesma forma aposentadorias e benefícios, além da ação mais importante de todas, uma política ambiental que impeça a autodestruição humana. Uma única realização dessas, o SUS excelente, por exemplo, já seria uma revolução na vida dos brasileiros.   

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Roger Waters e Mona Miari cantam a dor palestina e a insensibilidade mundial

O que um cantor pode fazer diante da dor dos palestinos? Pegar em armas contra Israel? Disparar bombas contra Telavive? Realizar atos terroristas contra instituições sionistas e estadunidenses? Convocar uma manifestação? Emitir um comunicado de protesto? Dar uma entrevista coletiva? Todas essas reações indignadas e minoritárias que vejo acontecerem desde que me entendo por gente são atos de militantes, políticos, governantes, militares, que precisam ter autoridade e devem estar preparados para as consequências. O que um cantor ou uma cantora pode fazer é cantar, da forma mais bonita que for capaz, para despertar um mundo confortavelmente entorpecido. Feito Roger Waters e Mona Miari. Aplausos. E dor.

É sempre bom ouvir de novo o que disseram os políticos

No título original desta publicação, em 2018, escrevi: "Todo mundo deve ver essa entrevista do Guilherme Boulos". E ainda mais hoje. Para comparar com o que ele diz e faz, oito anos depois, e conferir sua coerência. Afinal, é o que precisamos exigir dos políticos: coerência. Foi o que fiz com Ciro Gomes, antes de decidir votar nele em 1998, 2002, 2018 e 2022, e ele sempre passou no teste. Lula me fez mudar de opinião sucessivamente. FHC também. Quanto a Brizola, mudei para melhor, várias vezes. Na essência, porém minha impressão inicial prevaleceu, sobre os os quatro.

Música do dia: Oh! Darling, The Beatles

Uma das minhas prediletas, uma das canções geniais do Paul, bem menos numerosas do que as do John, para meu gosto. Posso cantar essa canção agora que passou. "É preciso ter morrido para ser um completo criador", escreveu Thomas Mann. 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Estado policial brasileiro: PM entra em escola para intimidar educadoras

O bozo já não é presidente e está preso por tentativa de golpe, mas seus seguidores e seu projeto policial de governo permanece em ação, com a contribuição de igrejas evangélicas e de governos municipais e estaduais, inclusive do PT, que, na Bahia, entrega escolas para serem administradas pela PM. O Brasil é um país em que a polícia é mais importante que a escola, e que futuro pode ter um país assim? Essa história é estarrecedora, mas quem ainda se estarrece com a corrupção e os desmandos dos poderosos no Brasil? Mais estarrecedor ainda é que a primeira comentarista do programa dá razão à polícia! Não tem a menor noção do que seja educação, não tem capacidade para comentar o assunto, e no entanto está na televisão fazendo isso. Felizmente, outros comentaristas sensatos põem os pingos nos is.  

domingo, 21 de junho de 2026

Músicas do dia: I'll get you e Don't let me down, The Beatles

Quase todas as músicas dos Beatles deveriam figuar na minha lita de canções preferidas, porque sempre as repito. Vão aqui duas queridas, como diz a moçada de hoje, opostas tem tudo, no tempo e no estilo, exceto na genialidade do John Lennon: Don't let me down e I'll get you.

domingo, 14 de junho de 2026

Música do dia: Paralelas, do Belchior. E a fraude da IA

A melhor gravação de Paralelas que eu já escutei, melhor que a original, da Vanusa, melhor do que a do autor, Belchior. Infelizmente, como é comum nesses canais não oficiais (e por isso resisto a publicar vídeos deles, exceto quando, como neste caso, não encontro o oficial) não consta o crédito de voz e instrumentos. Me fez pensar no João Gilberto. Quando ouvi JG pela primeira vez foi como se estivesse aprendendo o que é cantar: não é preciso gritar. Gal Costa grita em Fa-tal e é lindo. Os tropicalistas gritavam e era muito bom. Quando João Gilberto canta, porém a gente sente a letra junto com a melodia, uma coisa só, e aprende o que é música. Me faz pensar que toda canção tem seu arranjo, vocal inclusive e em primeiro lugar, adequado, que é função dos intérpretes encontrá-lo. Os compositores eruditos se dedicavam (dedicam) a isso, não é?, mas os populares cada vez menos. Até os anos 1950, meados dos 60, fazia parte da gravação de uma canção passar pelo arranjo de um maestro. Tom Jobim fez muito isso para outros. Canções do Noel Rosa e outros sambistas da era de ouro eram muito diferentes na versão orquestrada. A revolução pop dos anos 1960 de certa forma dissolveu isso (embora as gravações dos Beatles tenham se tornado cada vez mais sofisticadas), as interpretações passaram a ser mais informais e hoje os arranjos acompanham a mediocridade dos "sertanejos", "pagodes" etc. Por isso também eu gosto daquela série acústica da MTV, que tem discos memoráveis, como o da Cássia Eller. Eu lembrei de Paralelas esta manhã, não sei por que, talvez pelo "oitavo andar", e comecei a assobiar lentamente, em seguida procurei uma gravação, ouvi a da Vanusa, depois ouvir a do Belchior e por fim essa, no ritmo do meu assobio e que é, de fato, pela voz e pelo arranjo de cordas, pelo cello, a melhor que eu já ouvi e que, enfim, achou a interpretação certa, como João Gilberto fazia. Infelizmente, com boxes de informações dispensáveis e sem créditos necessários, informa só que é "cover intimista".  Será a própria Vanusa? A voz lembra a dela, digamos, "mais educada", mas nesse caso, por que negligenciar o crédito? Se não é, por que esconder voz tão bela? 

PS: Eu também não tinha percebido até hoje que Vanusa e Paula Toller eram a mesma pessoa. 

PS2: Ao rolar a lista de comentários do canal do YT, encontre a resposta copiada abaixo. 

"Olá, Renato, tudo bem? Como descrito no vídeo, é uma versão cover, que recriamos com auxílio de IA. Eu fiz uma versão intimista ao violão, cantei como achei que ficaria mais legal, num tom um pouco mais grave, e usei a IA para, a partir dessa matriz inicial, adicionar arranjos e substituir a minha voz por uma vez feminina com timbre que lembra o timbre da Vanusa." 

Ou seja: a cantora não existe, a voz não existe, nem as cordas vocais nem o ar que as movimenta nem os pulmões nem a boca, nada. Tampouco os músicos. É tudo falso, artificial. Nos comentários, fãs da falecida Vanusa a exaltam sem se darem conta de que é uma imitação educada da voz da cantora, uma fraude. Depois de escrever os elogios acima e ouvir repetidamente a gravação, me sinto ludibriado. Gostaria de ouvir a cantora cantando um disco inteiro, mas ela não existe. Essa linda voz é um Frankenstein.  

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O discurso final de O Grande Ditador, sempre atual. Salve, Chaplin!

De tempos em tempos é preciso rever e reouvir esse discurso, sempre atual com interpretações diferentes. No Natal do ano que vem faz 50 anos que Charles Chaplin morreu, aos 88 anos. Naquela altura da minha vida era como se Chaplin tivesse feito parte dela sempre, e no entanto já se vai meio século. O tempo não passa igual a vida inteira, passa devagar e parece longo quando se é jovem, passa depressa e sempre igual quando se envelhece. É a variedade de acontecimentos que torna o tempo longo ou breve. Thomas Mann discorreu sobre isso em A Montanha Mágica. A espécie humana tem muitas coisas interessantes para conhecer, para todos os indivíduos de uma sociedade conhecerem, não só os cientistas, não só os intelectuais, não só os ricos. É isso que eu admiro em Cuba, uma pequena nação em que qualquer um conversa sobre literatura, segundo inúmeros relatos (nunca fui lá, nem nos EUA nem na Europa nem em qualquer outro país). Cubanos são pobres e cruelmente perseguidos pelos governos da nação mais rica do planeta. Fico imaginando como seria Cuba rica, como seria um mundo rico em que todos ouvissem ópera, conhecessem ciências, lessem literatura, discutissem filosofia. A espécie humana prefere a miséria e as bombas, a violência e o celular, a ignorância e o luxo. É uma escolha incompreensível para mim.