O vídeo abaixo é uma provocação. O discurso do Caetano no festival de 1968, enquanto tentava cantar "É proibido proibir" e era vaiado pelos estudantes da chamada "esquerda festiva", me parece atual em alguns trechos e pertinente. "São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada." Dessa vez, porém a situação se inverte: a juventude, a massa, está entendendo tudo, mas será que as lideranças estão? Ou será que continuarão olhando para trás, "matando amanhã o velhote que morreu ontem"? Mais uma vez é preciso ter lucidez para aproveitar o momento histórico e a mudança de conjuntura.
Sim, a conjuntura mudou domingo, dia 25 de outubro de 2026, quando Lula venceu o segundo turno da eleição presidencial e fez fugir do país o candidato fascista, para não ser preso, pelos inúmeros processos a que responde e que certamente o levarão à prisão, conforme já aconteceu com o pai. A conjuntura não mudou porque Lula venceu, Lula venceu porque a conjuntura mudou. O que fez a conjuntura mudar? A mobilização popular contra o fascismo. Não foi a justiça nem Lula quem fez o fascista fugir, foi a vitória popular, que primeiro se manifestou nas ruas e no domingo se traduziu em votos. Só assim a democracia burguesa capitalista tem sentido, quando as urnas traduzem a vontade popular. E é isso que é preciso manter no governo Lula 4, é essa fogo da mobilização popular que precisa ser alimentado, para não apagar, para aumentar. A minha dúvida é se temos na esquerda brasileira organizações e líderes à altura do momento, da mudança de conjuntura.
Me parece que a massa popular que se levantou para enfrentar a ameaça do fascismo e votar domingo sabe muito bem o que quer, o que é preciso ser feito, o que os grupos e políticos de esquerda devem fazer, mas será que estes sabem? Ou será que não estão entendendo nada? Já vejo surgir nas redes sociais uma lista de reivindicações populares ao governo reeleito. Vejo também a Rede Globo, pelos seus comentaristas e jornalistas, expondo as suas reivindicações, que podem ser resumidas na velha ladainha do equilíbrio das contas públicas, do corte de gastos, que significa o oposto do que o povo quer. Para que lado Lula vai? Para o lado do capital que manda depois do resultado eleitoral ou para o lado do povo que o elegeu? É simples assim, mas Lula só atenderá seus eleitores e contrariará a Globo etc., se a esquerda for capaz de apresentar igualmente um programa para atender as massas populares mobilizadas, majoritárias e vencedoras no domingo passado.
Lula só vai para o lado do povo, se a esquerda o puxar, e para puxá-lo, ela precisa manter o povo mobilizado. A direita age imediatamente depois da eleição, e a esquerda? A esquerda venceu, porque a esquerda é o povo e o povo venceu. Agora, o povo precisa ser respeitado e cabe à esquerda elaborar o programa popular que Lula deverá cumprir para ser honesto com aqueles que votaram nele. Como disse, a lista de reinvidicações populares já está nas redes. Quem vai sistematizá-la e dar-lhe forma coerente como programa de governo? Jones Manoel? Elias Jabbour? Vladimir Safatle? Todos juntos e outros também? A esquerda unida, puxando o PT e o Lula?
O governo Lula 4 precisa nascer com um programa de esquerda formulado a partir das massas mobilizadas e levado de volta a elas, num movimento de esquerda unificado (MEU), capaz de continuar enfrentando o fascismo e fomentar a organização popular. Quem se diz revolucionário mas não age para a revolução não passa de pequena burguesia radicalizada no discurso. O fascismo foi degolado mais uma vez, sem violência, mas não morreu.