sexta-feira, 24 de julho de 2026
O programa nuclear brasileiro e o desmonte do desenvolvimento nacional
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Jones Manoel, Ciro Gomes e Lula
Jones Manoel conta nesse vídeo, com simplicidade e objetividade e sem mitificar, sua trajetória de vida. Admirável, mas nada romântica, como nas ficções burguesas. Ao contrário, o que ele faz é desfazer o mito da meritocracia. Desde Ciro Gomes não surgia um político tão conectado na realidade quanto Jones Manoel. Desde Lula não aparecia um pernambucano falando tão diretamente ao povo quanto ele. Quem sabe ele não junta as qualidades dos dois -- as qualidades que Ciro tem e não pôde exercer como presidente, as qualidades que Lula não teve enquanto exerceu a presidência -- e conquista a maioria do eleitorado brasileiro na eleição para presidente em 2030? É o que desejo, mas não me iludo achando que basta eleger um bom presidente para que o Brasil deixe de ser a colônia do imperialismo estadunidense em que o transformaram os governos democráticos neoliberais burgueses depois da ditadura militar. Jones Manoel também não se ilude, tem uma visão mais ampla da política, que passa pelo empoderamento popular, e é isso que me anima.
terça-feira, 21 de julho de 2026
Itamar Franco e a candidatura do Patrus Ananias ao governo de Minas
Patrus Ananias foi o prefeito mais importante de Belo Horizonte desde Juscelino Kubitschek. Implantou o Orçamento Participativo, instrumento revolucionário de políticas públicas, copiado pela esquerda dos EUA. Sua trajetória normal, como tantos prefeitos da capital, entre eles o próprio JK, seria tornar-se governador logo em seguida, mas alguma coisa aconteceu no caminho e a ascensão do Patrus foi interrompida.
O que aconteceu foi a eleição de Itamar Franco governador em 1998, um fenômeno pouco estudado e que teve consequências decisivas para a política mineira, uma delas, percebo agora, o golpe na ascensão do Patrus. Outra consequência nefasta eu já tinha notado há muito tempo: em 2002, Itamar abriu mão da reeleição, não sei por que, e ungiu Aécio Naves, um governador eleito e reeleito que deixou péssima herança estadual, no seu estilo de governar, e nacional, ao dar sinal para o golpe, depois de perder a presidência para a Dilma, em 2014. Itamar está na origem de todos esses males.
Sempre que faço retrospectos como este, constato que nossa ciência política é superficial, pois não analisa as consequências do jogo político, das decisões, dos atores, e assim perdemos o sentido da história. História. Não só a eleição de 1998, mas a própria trajetória do esquecido e desvalorizado Itamar é um fenômeno que merece estudo. Um político em particular e um indivíduo em geral não são importantes só por suas obras, mas também pelos acontecimentos que influenciam. Itamar tomou decisões arriscadas e foi premiado pela sorte, desde que se elegeu senador em 1974, quando ninguém mais quis disputar, porque era derrota certa. E depois tornando-se vice do Collor, o que o levou à presidência, com o impeachment de 1992, e ao patrocínio do decisivo e definitivo Plano Real, sob sua presidência.
Como julgar Itamar Franco? Ele foi o senador destemido eleito pelo MDB em 1974, estrela mineira numa eleição memorável que começou a mudar o jogo contra uma ditadura militar que já durava uma década. Foi também o vice do Collor. Foi o presidente que implantou o Plano Real, acabou com a inflação e deu ao Brasil os melhores anos da sua história recente, quando um real valia um dólar. Ungiu FHC como seu sucessor, mas quatro anos depois, como oposicionista, decidiu concorrer ao governo de Minas e foi eleito. E em 2002 abriu mão da reeleição e ungiu Aécio.
A eleição de 1998 foi singular, opôs Itamar a FHC no cenário nacional e no cenário estadual. FHC ganhou a eleição nacional, foi reeleito, mas Itamar ganhou a eleição estadual, derrotou o candidato tucano, apoiado por FHC, que também tentava a reeleição. A disputa normal naquela eleição seria entre Eduardo Azeredo, o governador tucano, e Patrus, do PT, ex-prefeito da capital, político com grande prestígio em ascensão, que tinha feito seu sucessor na prefeitura, em 1996, Célio de Castro. Azeredo deveria ter sido reeleito, como foi FHC, Patrus iria para o segundo turno e formaria cacife para vencer em 2002, juntamente com Lula. A história de Minas e do Brasil seria outra, mas Itamar embaralhou o jogo, com seu prestígio de ex-presidente, tirou Patrus do segundo turno e venceu Azeredo.
A política, como a própria vida, é um jogo de xadrez: cada peça mexida muda o jogo. Itamar mudou o jogo em Minas e consequentemente no Brasil, ao interromper a ascensão do íntegro Patrus e catapultar o indigno Aécio. Itamar é uma figura singular na política brasileira (nunca foi só um político mineiro, porque, desde o mandato de senador, teve sempre projeção nacional), ao mesmo tempo coerente e imprevisível, emedebista histórico que saiu do partido duas vezes (e voltou), fez seus sucessores na presidência e no governo estadual, abriu mão de ser candidato à reeleição, foi governador depois de ser presidente, nacionalista e entreguista, baiano e mineiro, nascido num navio, mulherengo afeito a ridículos (quem, a não ser os mais jovens, não se lembra do episódio da atriz fotografada sem calcinha do seu lado no camarote presidencial durante desfile de escolas de samba no carnaval carioca?), enfim, um político contraditório, errante e bem-sucedido, que nunca gozou da simpatia da mídia e foi mesmo espezinhado pela imprensa paulistana.
No fim das contas, pelas consequências dos seus atos, Itamar Franco (1929-2011) foi um político nefasto para o Brasil: nos legou o Real, que, de plano para controlar a inflação, tornou-se política econômica que fez o país retroceder a colônia agroexportadora; nos legou FHC, que, além de transformar o Real em política econômica, inventou a reeleição corrompida; nos legou Aécio Neves, um desastre para Minas Gerais e para o Brasil; e de quebra impediu a ascensão do Patrus, que certamente teria tornado muito melhor a história de Minas e provavelmente a do Brasil.
A última vez que entrevistei Itamar Franco foi em janeiro de 2010, numa breve passagem pelo diário Hoje em Dia. Eu o procurei, não encontrei, deixei recado e ele retornou, pessoalmente. Lembro que alguém gritou na redação: "O presidente Itamar quer falar com você". Não era uma deferência especial, acho que ele era assim com todos os jornalistas, pois eu mal o conhecia. Ademais, em 2010, sem mandato, no auge da Era Lula e do reinado Aécio, quem ligava para Itamar? Só mesmo um jornalista na seca de notícias de janeiro, buscando repercussão de um assunto no qual ele tinha tido papel importante e que não lembro mais qual era. Ex-presidente sempre rende notícia de primeira página, mesmo que não diga nada importante. Minha primeira chamada de capa no JB foi com matéria sobre o ex-presidente Figueiredo, um ano depois que deixou o cargo, pedindo para ser esquecido: o povo tinha atendido seu pedido. Lembro da conversa com o ex-presidente Itamar: atencioso e simpático, falou sem pressa sobre tudo que eu perguntei e, ao se despedir, ainda disse que poderia lhe telefonar sempre que precisasse.
A eleição de Patrus governador em 2026 seria um recomeço da história de Minas com atraso de quase três décadas. Parece impossível. Ele não conseguiu nem se eleger novamente prefeito, em 2012. E nessa história entram outras peças do xadrez político: a esdrúxula e fratricida divisão do PT mineiro, que tinha do outro lado o ex-governador Fernando Pimentel, de triste memória, herdeiro bem-sucedido e mal-agradecido do Patrus. Foi em 2012 que o mundo acabou, conforme a profecia. Eram outros tempos, animadores ainda, mas já sob a deletéria administração Lacerda, o prefeito de rima fácil. A derrota do Patrus foi um sinal de que estava por vir. Todavia, tantas coisas inacreditáveis aconteceram depois para o mal, por que não pode acontecer uma para o bem, agora?
domingo, 19 de julho de 2026
Melhor do que a final da Copa
A disputa do terceiro lugar, Inglaterra 6 x 4 França, foi sensacional, mas, no momento em que escrevo, intervalo do primeiro para o segundo tempo (tem que explicar, porque agora futebol tem um punhado de intervalos...), essa aula do Breno Altman sobre o futebol é muito melhor do que a final da Copa entre Espanha e Argentina.
É interessante ouvir uma análise muito diferente daquela que eu publiquei aqui no dia 11. Altman, que acompanha futebol muito mais de perto do que eu, tem um olhar e informações que eu não tenho e faz comentários e propostas interessantes. O que eu disse oito dias atrás é o óbvio para mim: a fase de ouro do futebol brasileiro, de 1950 a 1970, que se estendeu ate a Copa de 1982 e àquela geração de jogadores, que jogou ainda, em nível inferior, em 1986, se deveu a condições sociais específicas, o futebol moleque jogado por todos os meninos brasileiros nos inúmeros espaços públicos e privados existentes nas cidades brasileiras em crescimento a partir da Revolução de 1930. Ou seja, era parte do projeto desenvolvimentista nacional. Em certo momento, essas condições acabaram. Hoje, os meninos moram em apartamentos, não existem quintais, lotes vagos e campos de várzea, as famílias têm poucos filhos, não há aquelas turmas de rua, a meninada não sabe o que é jogar bola o dia inteiro, não há quantidade nem qualidade para formação de craques, jogar bola não é uma brincadeira de moleques. Meninos (e meninas, cada vez mais) que quiserem jogar bola terão que jogar em clubes ou escolinhas, futebol de salão, soçaite ou de campo. O jeito brasileiro de jogar bola se curvou ao jeito europeu, o esporte foi dominado por empresários que formam jogadores para exportação, jogador brasileiro virou commodity: empresários os vendem ainda crianças para clubes europeus que tratam de industrializá-los e revendê-los a peso de ouro para o mundo inteiro, nós inclusive, em campeonatos vistos pela televisão e internet. Há muito mais coisas em torno disso, mas o essencial na minha opinião é que as condições sociais mudaram. Para completar, o governo petista elitizou os estádios para cumprir as exigências da Fifa para a Copa de 2014, de forma que o povo também perdeu a paixão que tinha pelo esporte. E não tem vínculos com a seleção, porque os convocados não jogam nos clubes brasileiros, jogam em clubes europeus. De forma que o futebol somente conserva um enganoso prestígio porque há enormes interesses comerciais envolvendo-o, mas a "pátria de chuteiras" já não existe mais.
No novo contexto do esporte, para que a Seleção e os clubes voltem a fazer parte da vida do povo e para que os brasileiros voltem a praticá-lo com paixão, será preciso uma revolução, como em tudo mais nessa decadente nação. O futebol brasileiro precisa renascer praticamente do zero. Em primeiro lugar, o Estado precisa implantar uma política pública de futebol nas escolas infantis e de ensino fundamental, médio e universitário, bem como precisa criar campos e espaços em parques em todos os bairros para a prática do futebol, não só campos oficiais, mas também de terra e gramados para se jogar pelada, jogos com qualquer número de jogadores, informais, brincadeiras. Os estádios precisam ser repensados e reformados para que conforto não signifique ingresso caro e afastamento do povo dos estádios. Os campeonatos em todos os níveis devem ser organizados com seriedade, amadores, profissionais, municipais, estaduais, nacional, e neste, obviamente, para que mereça o nome, é preciso que joguem clubes de todos os estados, não só os do Leste, Sul e mais uns poucos. Como é que uma nação que tem 26 estados e um distrito federal pode ter um campeonato com 20 clubes? É só para copiar, em mais uma coisa, os campeonatos europeus. Enfim, para que o futebol brasileiro volte a empolgar torcedores e brilhar no campo, terá de começar uma nova fase, organizada, planejada, voltada para a coletividade. A fase de ouro do futebol moleque espontâneo passou e a fase da bagunça e da corrupção precisa ser superada.
PS: A final da Copa de 2026, uma copa que teve jogos sensacionais e seleções brilhantes (torci pela Inglaterra, pela qualidade do seu time) e ao mesmo tempo foi marcada mais que nunca pela interferência de interesses políticos e comerciais (onde já se viu um presidente de país sede cancelar um cartão vermelho para um jogador da sua seleção? Que vergonha), terminou e a Espanha se tornou bicampeã vencendo por 1 a 0. Foi um jogo horroroso, mas pelo menos a Argentina, que quase não pegou na bola e não deu um chute a gol, não foi campeã. Se fosse, eu não ia mais querer ver jogos de copa do mundo.
Música do dia: Aqui, oh!, com Milton Nascimento e Toninho Horta
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Elias Jabbour e o projeto da esquerda para o Brasil
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Música do dia: Samba do Crioulo Doido, com Demônios da Garoa
sábado, 11 de julho de 2026
O que aconteceu com o futebol brasileiro?
É sempre bom ouvir previsões e análises depois que os acontecimentos esperados passaram. Elas mostram como nossa capacidade de compreender a realidade é limitada.
A ESPN, da qual Juca Kfouri foi uma das estrelas, está para o jornalismo esportivo assim como a Copa de 1982 está para o futebol brasileiro: foi o canto do cisne. A mesa redonda Linha de Passe, com José Trajano, PVC, Mauro César e outros, além do Juca, foi o ápice do jornalismo esportivo e de uma época nacional. A Seleção do Telê, igualmente, expressou o desejo nacional de voltar aos bons tempos, no futebol e na política. Ambos, a Seleção de 82 e a Linha de Passe, guardam relações com momentos políticos decisivos do país: a redemocratização e o governo Lula. Ao mesmo tempo em que expressavam esperança e alegria já continham o germe da tristeza e da desesperança que viriam depois. Pra gente ver como tudo se mistura e que tudo, no fim das contas, é política.
O futebol foi a brincadeira de milhões de meninos brasileiros ao longo de décadas do século XX, enquanto o Brasil crescia, se industrializava, se urbanizava. Uma coincidência: o futebol se popularizava em todo o mundo, inclusive no Brasil, e os meninos brasileiros tinham condições ideias para praticar a molecagem de brincar de bola. Nem era futebol propriamente, não era o jogo inglês com suas regras, era simplesmente "jogar bola". Bastava ter meninos e uma bola para jogar, em qualquer espaço. E havia muitos espaços nas cidades brasileiras que estavam crescendo: lotes vagos, ruas sem movimento, quintais. Nada disso haveria sem que tivesse acontecido a Revolução de 1930, a ação de classes proprietárias dominantes descontentes unidas a classes médias institucionalizadas, notadamente o Exército, que tomou o poder nacional e começou a implantar um projeto efetivamente nacional, industrializador, urbanizador, modernizador. Nas cidades brasileiras que cresciam, os meninos soltos nas ruas juntavam-se em lotes vagos e quintais, dividiam-se em dois grupos, escolhidos no par ou ímpar, procurando equilibrar os times, delimitavam o campo e marcavam os gols com pedras: estava armado o cenário para a brincadeira, sem juiz, os conflitos resolvidos por consenso e pelo desejo de continuar o jogo.
Foi assim que eu cresci jogando bola, nunca em campo oficial, nunca dois times de onze, nunca com juiz apitando, nunca com dois tempos de 45 minutos também: o jogo era por queda ou até parar, por cansaço ou falta de jogadores. Na verdade, nada disso importava: nem a qualidade do campo nem o número de jogadores, nem o tempo do jogo. Jogar bola era diversão, brincadeira de meninos (eram raras as meninas que jogavam bola, o jogo delas, normalmente, era a queimada, muitas vezes misto). Foi assim também que se formou o futebol brasileiro que encantou o mundo e ganhou três Copas (1958, 1962 e 1970), poderia ter ganhado outras duas, não fosse a húbris, em 1950 e 1966.
Enfim, no pós-guerra, durante vinte anos, de 1950 a 1970, o futebol brasileiro encantou o mundo e dominou o futebol mundial. E não só entre seleções, também entre clubes, como o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Cruzeiro de Tostão. Por que isso aconteceu? Porque todos os meninos brasileiros cresciam jogando bola, brincando, inventando dribles e jogadas, que, transportadas para o futebol oficial nos clubes e campeonatos, criavam jogadas imprevisíveis, capazes de desorganizar defesas e marcar muitos gols. Porque havia espaços para jogar bola, porque havia muitos meninos e porque eles eram moleques que brincavam na rua, principalmente de jogar bola. Quando essas condições mudaram, o futebol brasileiro entrou em decadência.
A última geração de jogadores moleques de rua foi a minha, da qual fazem parte Sócrates, Zico, Cerezo, Falcão, Éder, Júnior, Luizinho e o maior de todos, o Rei, Reinaldo, a geração da Seleção de 1982. A nossa geração de meninos foi a última que cresceu brincando na rua, jogando bola em espaços públicos que estavam sendo extintos pelo crescimento sem planejamento das cidades, pela construção desenfreada de edifícios, pelo asfaltamento das vias e sua ocupação pelos carros. O brilho da Seleção de 82 brilhou, quando os meninos da minha geração estavam na casa dos vinte anos, foi como a luz de estrelas distantes que chegam até nós muito tempo depois, expressava condições sociais que já tinham desaparecido: os campinhos e as turmas de moleques jogando bola na rua.
Simples assim. Só isso e mais nada. O chamado "futebol brasileiro", as Seleções e os times dos anos de ouro, a luz tardia da Seleção de 1982, o Atlético do Rei e o Flamengo do Zico expressaram uma realidade que não existe mais. Nossa fixação no assunto, as tentativas exitosas de 1994 e 2002, que precisam ser vistas à parte, mostram nossa incapacidade de compreender tanto o passado quanto o presente. O Brasil não tem mais futebol e jogadores extraordinários, nunca voltará a tê-los, eles pertencem ao passado. Há muito tempo competimos com as demais seleções sem nenhuma qualidade especial, própria. Ao contrário, as condições sociais nacionais atuam hoje contra o futebol brasileiro, numa corrupção generalizada marcada pela ausência de política pública de esportes, promiscuidade política, bagunça dos campeonatos, interesses capitalistas das televisões, das empresas de apostas, dos patrocinadores e dos dirigentes esportivos. Para que o Brasil volte a ser vencedor no futebol, assim como nos demais esportes, terá que se equiparar econômica e socialmente às nações ricas, o que passa por mudanças políticas profundas. Em outras palavras: para se reorganizar no futebol, o Brasil terá que se reorganizar como nação, voltar a ter um projeto econômico, social e político nacional, no qual o futebol, assim como os demais esportes, faça parte da formação das crianças e jovens.
A excelente cobertura esportiva da ESPN durante duas décadas expressou um período em que a chamada democracia brasileira prosperava, sob os dois governos FHC, os dois governos Lula e o primeiro governo Dilma. A inflação tinha sido controlada, o país crescia, os salários estavam em recuperação, a democracia se consolidava, entre solavancos, o povo confiava nela e votava na esquerda, a imprensa funcionava livremente, também entre solavancos. Linha de Passe expressava, no futebol, a confiança geral e dos jornalistas em particular, de que os problemas enfrentados pelo país, e eram muitos, seriam resolvidos democraticamente, seguindo as regras do jogo, numa espécie de progresso contínuo, eleição após eleição, em direção à esquerda. Não poderia ser de outra forma, era impensável que o povo fosse se voltar para a direita, contra governos de esquerda que o favoreciam, contra seus próprios interesses, enfim.
A crítica que se fazia então era aos governos de esquerda, aos seus defeitos, às suas concessões, às suas fraquezas, ao seu insuficiente esquerdismo. É fácil, hoje, perceber por quê. O governo Lula foi o ápice da chamada "democracia brasileira", o regime político que sucedeu a ditadura militar. Estávamos confiantes no futuro, as melhorias eram sensíveis, acreditávamos no caminhos que estávamos seguindo. Depois de seguidas derrotas (a emenda Diretas Já, a morte do Tancredo, o Plano Cruzado, o governo Collor), começamos a colecionar vitórias, como impeachment do Collor, o Planto Real, a eleição do Lula, o impressionante e surpreendente sucesso do governo petista. Nesse caminho, os brasileiros consumiram uma enorme energia política, expressa nas ruas e nas urnas, em greves e manifestações, em organizações de todos os tipos, acumulada durante os anos de chumbo. Tínhamos de fato muita energia e a gastamos até a eleição do Lula, um operário, um homem do povo, um trabalhador. Como recompensa pelos nossos esforços e sofrimentos, colhíamos os frutos da democracia. Parecia então que progredíamos, que continuaríamos progredindo, que a democracia era o caminho. O período tenebroso da ditadura militar tinha ficado para trás e o horror do governo bozo parecia impossível então.
A história é curiosa, parece que tudo tem duas faces, o futuro está contido no presente, assim como o presente estava contido no passado, ainda que um seja oposto do outro. Da terrível ditadura militar veio a mobilização popular que desaguou na democracia. Enquanto o povo se mobilizava e lutava, sofria derrotas e ao mesmo tempo era forte. Quando conquistamos estabilidade econômica, perdemos direitos sociais. Quando os trabalhadores chegaram enfim ao poder, se desmobilizaram. Quando conquistamos qualidade de vida como jamais antes e nos sentimos confortáveis, começou a ofensiva da extrema direita. Em 2010 parecia que pisávamos em solo fértil e firme, era impossível imaginar o pântano em que estamos afundados em 2026. No entanto, estava tudo lá, sempre, ao mesmo tempo: a luta popular continha o governo Lula, assim como a adesão deste ao neoliberalismo continha a nova ascensão fascista.
O que veio em 2013, com as manifestações de massa contra a Copa de 2014, eram parte disso. Exigia-se educação padrão fifa, saúde padrão fifa, transporte padrão fifa. O governo lulopetista cumpria as exigências da fifa e construía estádios e tudo mais necessário com "padrões internacionais", mas negligenciava o que efetivamente fazia diferença na vida dos trabalhadores. A Copa foi um marco negativo para o futebol brasileiro e não só pelo vexame da desclassificação com goleada de 7 a 1 para a Alemanha no Mineirão, mas principalmente porque o povo não pôde assistir aos jogos nos estádios, já que os ingressos eram caríssimos, e porque desde então as torcidas foram elitizadas. A Copa foi simbólica, mostrou sem deixar dúvida que o PT se transformara de partido dos trabalhadores em partido dos capitalistas, que o governo lulopetista, igual a todo governo burguês, representava a minoria proprietária e não a maioria eleitora.
O que aconteceu com o Brasil? O que aconteceu com a América Latina?
Ouvir analistas dizendo o mesmo que eu penso e constatar a incapacidade humana de enxergar, enquanto acontece, o óbvio que agora vemos, me dá certo conforto de pensar que a cegueira não é só minha. Me faz também pensar na tragédia grega: nosso destino está escrito, temos conhecimento dele, tentamos evitá-lo e acreditamos arrogantemente que conseguimos, experimentamos a húbris, mas no fim nos encontramos com o que estava previsto e o realizamos, consumando a tragédia.
Em 2010, Lula terminou seu segundo mandato com aprovação recorde, 87%. Parecia que estava tudo bem e no entanto estava tudo mal, a gente só não sabia ainda, mas hoje é claríssimo. Será que alguém sabia? Vou procurar críticas daquela época que se confirmaram. Isso porque críticas erradas, preconceituosas, havia muitas. A questão é saber se havia críticas corretas e de quem. Mesmo o Ciro, que era crítico do modelo desde 1996, nessa época estava no governo e calado, acho, não tenho certeza, não lembro. Pelo menos não foi candidato em 2010 nem em 2014, erros capitais.
O fato é que Lula estava no auge e no entanto estava tudo errado, a começar pela falta de um projeto nacional de desenvolvimento sustentável e popular. O Brasil de Lula se desenvolvia e distribuía renda, daí sua popularidade, porque o governo demonstrava competência em administrar o capitalismo, coisa que a direita nunca demonstra, e porque a economia internacional e a política mundial estavam favoráveis. Bastaram os ventos mudarem de direção, na economia e na política, para que aquele sucesso desabasse. O projeto petista era completamente dependente do Lula, sem ele e com a incompetência política da Dilma, o governo se perdeu.
Do ponto de vista histórico, Lula poderia ter se retirado da política e deixado que o PT escolhesse seu candidato e continuasse seu caminho por conta própria, como maior partido do país e um partido dos trabalhadores. Entraria para a história como um dos nossos maiores presidentes, evitaria a larva jato, a prisão e todas as desgraças pessoais que acompanharam sua queda, mas preferiu escolher uma candidata que dependesse dele para ser eleita, que guardasse sua vaga, pra ele voltar depois. A ambição política é míope e sem limites.
O que poderia ter acontecido? O candidato petista, que provavelmente não seria Dilma, poderia ter perdido a eleição. Isso seria pior do que o que aconteceu? A alternância no poder e um governo tucano seriam piores do que o desastroso governo Dilma, a larva jato, a prisão do Lula, o golpe de 2016, o bozoísmo, o governo bozo, esse novo governo Lula? Desde 2010 só retrocedemos. Nada do que foi tirado dos trabalhadores pelos governos Dilma 2, Temer e bozo foi devolvido pelo governo Lula 3. Diga-se de passagem, o próprio governo Lula, nos seus bons tempos, tirou direitos trabalhistas na previdência, o que mostra que nunca teve um projeto de fato comprometido com os trabalhadores, apenas distribuiu migalhas dos enormes ganhos do capital, os quais continuam no governo Lula 3. Lula sempre pensou no seu interesse pessoal em primeiro lugar.
Já ia tudo mal e a gente não via. A direita se preparava para o extremismo, com a expansão das suas bases ideológicas evangélicas e neoliberais no meio do povo, um trabalho de décadas a partir dos EUA que se apresentou pronto nas manifestações golpistas de 2016. O que a gente considerava ser esquerda administrava o Estado para o capital e defendia a democracia, deixando os trabalhadores desorganizados e sem um projeto próprio, enquanto a extrema direita conquistava os trabalhadores para a ideologia neoliberal e se preparava para tomar o poder.
Tudo é ideologia. A gente acreditava que o governo lulopetista era um governo popular porque o PT era o partido dos trabalhadores, que Lula era um líder popular porque é um ex-sindicalista, ex-operário, homem do povo, retirante nordestino. Ambos porém sempre fizeram a política burguesa, seus limites políticos eram a democracia liberal, que se empenharam em implantar e manter. Crescer como partido, conquistar o povo, ganhar eleições, governar dentro das regras democráticas burguesas, administrar bem o sistema para o capital e dessa forma conceder benefícios ao povo.
Nunca foi mais que isso, mas já era muito para as classes dominantes brasileiras, isso manteria Lula e o PT eternamente no poder, se fosse possível. Não era: Lula só tinha direito a uma reeleição, e aí começou o drama que põe a política, mesmo a política burguesa, dentro de limites éticos. É curioso: a direita, que se diz liberal e democrata, nunca teve pudor em derrubar a democracia e impor governos autoritários, enquanto a esquerda, que se pretende a favor da transformação social, mantém a democracia burguesa com unhas e dentes. A esquerda adere a todas as práticas corruptas da política burguesa, mas é incapaz de dar um golpe. Fica, por isso, em condições de inferioridade diante da direita.
Se é para jogar o jogo burguês, se a esquerda acredita na democracia liberal, deve também deixar claro qual é o seu programa, um programa diferente do programa da direita. Será um programa de esquerda? Será a esquerda capaz de defender um programa de esquerda e implantá-lo? Ou sua natureza é defender um programa de esquerda, ganhar eleições e implantar programa de direita? Consideremos que os tucanos eram direita e o PT era esquerda. Como oposição, o governo lulopetista não poderia dar continuidade ao governo FHC, em 2002, mas foi o que fez. Se é um governo de continuidade, porque então se opor ferrenhamente antes e não cooptar os tucanos depois? De fato, foi muito mais uma disputa de egos, entre candidatos, do que entre propostas políticas. E o ego do Lula é o maior de todos.
Durante mais quatro eleições, lulopetistas e tucanos representaram um teatro em que eram rivais, mas quando finalmente os tucanos destronaram os lulopetistas quem herdou o trono foi o bozoísmo, a extrema direita. Quem, afinal, tinha compromisso com a democracia liberal burguesa? Nenhum dos dois lados, vê-se hoje, pois não foram capazes de se conciliar em nome de um interesse maior, isto é, seu pretenso compromisso com a democracia. E muito menos a extrema direita, é claro, que sempre se declaro abertamente contra ela. Os tucanos apoiaram o golpe de 2016, os lulopetistas preferiram ser derrubados pelo golpe do que aposentar Lula em 2010 e admitir a alternância de poder nas urnas.
Quem perde com governos burgueses, seja de direita, seja de pretensa esquerda, é sempre o povo. E perde ainda mais quando a democracia burguesa entra em colapso, na disputa entre esquerda e direita, e a extrema direita assume o poder, abole os luxos liberais e implanta programas abertamente antipopulares.