segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Somos em relações de afetos, de linguagem e de trabalho

Essa palestra do filósofo Vladimir Safatle poderia ser um editorial deste blog. Igualdade e soberania popular. Acrescento: e em relações de respeito com as outras espécies e com a Terra. 

A realidade supera a ficção a todo momento

Sobre que deve escrever um(a) ficcionista? Fico pensando que sobre coisas banais, porque as histórias extraordinárias estão hoje por conta do jornalismo, que fala do que acontece no mundo real e não na imaginação dos escritores. Frankenstein, por exemplo, parece cada vez mais banal. Tudo bem, a encantadora Sofia Nestrovski faz sua interpretação do livro da Mary Shelley, da qual gosto muito, mas isso não mudou minha decepção com a história. O fato é que neste segundo quarto do século XXI, os acontecimentos e suas personagens superam qualquer imaginação ficcionista. O que dizer do que aconteceu no governo do bozo? Se fosse um xou de horrores, do qual não gosto e não veria, não seria "melhor". E do que vemos agora no governo trump2? O capitalismo perdeu qualquer compostura. E não se trata só do capital e seus donos, propriamente, mas também de toda a sociedade que ainda acredita nele. O surrealismo, que foi um movimento artístico de reação aos horrores capitalistas do começo do século passado, tornou-se banal hoje, porque a repetição dos horrores é a banalização, que o anestesiamento da comunicação, iniciada por roliúdi, universalizada pela televisão e incorporada a todos os momentos das nossas vidas pelas redes sociais, naturalizou. Hoje a gente anda nas ruas desviando de mendigos e sem-casa e mal os nota, enquanto as cópias dos ricos passeiam com seus pets. Mais surreal ainda é ver o proletariado contemporâneo, os entregadores de moto, se considerarem empreendedores e agradecerem a Deus por terem trabalho 16 horas por dia, sete dias por semana, enquanto não se acidentam, porque acidente com moto é a maior causa de acidente no trabalho hoje. O surrealismo está escancarado nas ruas, como é que pode ser arte? Sabemos de todos os horrores, temos consciência de tudo, e no entanto não mudamos o mundo, este é o fato mais notável da nossa época. O vídeo abaixo está na versão original, mas há outros em português, só não é possível reproduzir aqui.

O que aconteceu na Venezuela no dia 3 de janeiro e depois

Breno Altman fez o que a imprensa empresarial brasileira, ex-grande imprensa, deveria fazer e não faz: foi à Venezuela apurar. Entre outras coisas nos conta como foi a negociação com o governo americano nos primeiros minutos do sequestro do presidente Nicolás Maduro. Foi uma negociação que se tem com sequestradores, com terroristas. Delcy Rodríguez recebeu a informação de que Maduro estava morto. Respondeu que nesses termos não havia negociação. Ouviu então que ele estava vivo. Pediu prova de vida e recebeu aquela primeira foto que circulou mundo afora. É uma negociação que se faz com sequestradores e terroristas. Terrorismo é o que os EUA dizem combater, mas é o método de ação do governo americano. O comportamento da presidente e do governo venezuelano é admirável, a revolução bolivariana é o que qualquer nação latino-americana que afirmasse sua independência real em relação aos EUA teria de fazer. E como acontece com a Venezuela enfrentaria o terrorismo estadunidense e a desinformação da imprensa capitalista mundial. Não há por que se espantar com isso. É assim que funciona, a imprensa é capitalista, defende o capitalismo, as empresas, o imperialismo americano e seus aliados. A desonestidade está em não dizer ao leitor que defende interesses, que tem um lado. A desonestidade está em fingir que é imparcial. Isso é ideologia. Socialistas é que têm de construir uma imprensa diferente e projetos nacionais nos seus países. O Brasil está na idade da pedra ainda, porque, apesar de Breno Altaman e outras exceções, não tem veículos socialistas expressivos, e principalmente porque à derrubada da ditadura militar (1964-1985) seguiu-se uma adesão vergonhosa ao neoliberalismo que fez o país retroceder à condição anterior à Revolução de 1930, de colônia exportadora de produtos primários, iniciada por Sarney, impulsionada por Collor, formatada por FHC e continuada com afinco por Lula, que, ao voltar, não foi capaz sequer de reverter, ou pelo menos tentar reverter a destruição dos desgovernos temer, o minúsculo, e bozo. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Música do dia (2): Quase fui lhe procurar, com Roberto Carlos

Essa música não é do Roberto, é uma daquelas que ele gravou com sucesso e a gente pensa que é dele, parece dele, mas não é. É do Getúlio Cortes, um compositor prolífico de 87 anos. Ele impressiona pela facilidade das suas melodias e letras, em  geral clichês. Quando o compositor de clichês não é pretensioso, às vezes acerta o ponto e produz pérolas de clichês, como esta. GC é autor de uma série de canções similares gravadas pelo RC nos anos 1960: O gênio, O feio, Pega ladrão e O sósia, todas ridículas, exceto a última, é divertida, uma musiquinha típica da Jovem Guarda. 

Música do dia: Ela desatinou, com Chico Buarque

Os primeiros discos do Chico, assim como os dos Beatles, estão repletos de pérolas. Esta é uma delas. A ideia, o desenvolvimento da ideia em versos, a construção dos versos, o jogo de palavras, as rimas são admiráveis. Bastava o refrão, mas tem mais, muito mais.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A China é o pós-capitalismo

O que é a China? Há muitas respostas. A China é o que a URSS poderia ter sido, não fosse o stalinismo. A China é o que é porque aprendeu com a experiência da URSS. A China é um Estado socialista ou capitalista? O que existe na China é socialismo ou capitalismo de Estado? Refletindo um pouco, eu cheguei à conclusão óbvia: a China não é uma nação capitalista porque o poder político lá é exercido pelo Partido Comunista. Os capitalistas não estão no poder na China, como estão nas nações capitalistas, como o Brasil. Lá, eles se submetem ao Estado governado por um partido comunista que fez uma revolução dos trabalhadores. Isso é diferente de um Estado capitalista onde os capitalistas governam por meio dos seus prepostos políticos. No Brasil, o capital faz o que quer, o Estado está a seu serviço. Na China, o capital está a serviço do Estado. Na China, a revolução pretendeu primeiro distribuir a pobreza, depois decidiu desenvolver o capital e o resultado é o que se vê. O capital a serviço do Estado, de um Estado controlado pelos trabalhadores, pelo partido comunista. A China, portanto, não é uma nação capitalista, é uma nação comunista, porque o poder é exercido pelo Partido Comunista. Para ser rigoroso, em termos de doutrina marxista, a China é socialista, porque o comunismo seria uma etapa posterior, quando as classes sociais tiverem sido eliminadas e isso evidentemente não aconteceu ainda, porque há capitalistas e empresas privadas na China. A China é socialista, mas também é capitalista, porque é o capital que move a economia. O que significa tudo isso? Que a China é o futuro da humanidade, se ainda houver futuro para a espécie humana, se o capitalismo não destruir a Terra antes. Isso porque a China vem demonstrando o que a superação do capitalismo estúpido é capaz de fazer. Isso estava previsto na teoria marxista, na verdade é uma pedra angular dela: o capitalismo impede o desenvolvimento das forças produtivas, o socialismo é imprescindível para a continuação do progresso. A China parece ser a comprovação disso, o salto impressionante que ela deu em cinco décadas não aconteceu em nenhuma outra nação, e fez isso não graças ao capitalismo, mas ao socialismo, isto é, ao controle do capital pelo Estado. O socialismo é isso: o controle do capital pelo Estado, não importa se persistem ou não empresas privadas e capitalistas. A história não termina aí, porém. Primeiro porque, como disse, ainda há classes sociais e desigualdades na China, e isso preciso ser superado, mas também porque é evidente que a Terra não suporta a continuação do desenvolvimento chinês e que ele não pode ser universalizado, pois não há recursos materiais para tanta riqueza, e o socialismo pressupõe internacionalismo. Ou seja, se o socialismo é o que a China é, e se todas as nações se desenvolverem como ela, o que acontecerá com o planeta? Ao ver as imagens desse vídeo, eu entendi o que é a China: é o futuro, é o pós-capitalismo.  

No Brasil, trabalhadores são coisas, não são humanos

Não à toa, o fim da escala 6x1 provoca reações violentas dos ricos e a chamada esquerda é incapaz de mobilizar os trabalhadores para defender essa pequena mudança humanizadora na legislação trabalhista. O que dizer de um filósofo que em apenas vinte minutos explica a estrutura do Estado brasileiro e em seguida a guinada dos trabalhadores para a direita? Safatle brilha nesse vídeo. 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

É possível preservar a Amazônia, mas os latifundiários não querem

Todos os caminhos levam ao mesmo destino: a substituição do capitalismo por outro sistema em que os humanos vivam em igualdade e harmonia com o ambiente e as demais espécies sobre a Terra. Conhecimento para preservar a Amazônia e até produzir mais carne (embora devêssemos compreender que o mais saudável é comer menos carne) existe, mas os fazendeiros não estão a fim, é mais fácil desmatar e ganhar dinheiro rápido, foda-se para o ambiente, para o Brasil, para os outros brasileiros, para as futuras gerações. O sistema capitalista e a "democracia" liberal controlada por políticos corruptos a serviço dos empresários não estão preocupados com essas bobagens como preservação ambiental e mudanças climáticas. Basta ver o que o autocrata americano acaba de fazer em relação às mudanças climáticas e olhar também para o desenvolvimento vertiginoso da China: o capital sobre controle faz maravilhas, o capital descontrolado é um louco disparando para todos os lados.  

O Brasil é uma nação de castas

Os assuntos desse A Hora são todos relevantes e reveladores, mas nada é mais revelador do que o último: como o judiciário brasileiro é ocupado desde sempre pelas mesmas famílias. O Brasil é um país de castas, como tenho escrito há muito tempo. Não há pregação mais ridícula nestas plagas do que a da meritocracia, da qual as castas privilegiadas gostam tanto. Isso acontece sem prejuízo para a dominação do capital, ao contrário, a dominação deste e a das castas se misturam, mas tentar compreender o Brasil sem olhar para suas castas, aplicando aqui teorias europeias, é uma bobagem. O escândalo do banco Máster, o escândalo da vez nesse país cujos escândalos parecem uma competição e o atual é sempre o maior, imagina-se que insuperável, até que vem o seguinte, num processo que, em vez de aprimorar a "democracia", o que parece acontecer é o anestesiamento da população, o escândalo do banco Máster é uma síntese de como um espertalhão trança uma rede de influências para sustentar sua pirâmide financeira e acaba preso nela, graças à ação da Polícia Federal, que está simplesmente cumprindo sua função. Pelo menos ela. No Brasil, parece não haver instituição que trabalhe mais do que a PF, embora em tempos recentes tenha se prestado ao papel de ajudar o golpe de 16. O espertalhão mineiro do banco Máster buscou nas castas os elos da sua rede, imaginando talvez que seu castelo não desabaria, pois, se seu caísse, cairiam todos com ele. A conferir. As castas são mais que espertas, são os crupiês, não são donas da banca, mas dão as cartas: já derrubaram Dilma, prenderam Lula, empossaram temer e inflaram o bozo, depois soltaram Lula para derrotar o bozo e prenderam o bozo. Toffoli caiu, enfim, graças à PF e ao presidente do STF, Fachin, mas até onde irá o processo? A quem atingirá? O próprio Toffoli sairá só chamuscado, mas manterá seus privilégios e daqui a algum tempo, quando todos se esquecerem do caso, estará de novo desfrutando dos requintes da festa dos ricos, da qual os brasileiros comuns não participam? É tão evidente que tudo isso faz parte da podridão capitalista, mas a esquerda não é capaz de apresentar o socialismo como solução para nossos problemas, pelo menos para os mais graves, porque está comprometida até o pescoço com a ordem burguesa, a tal "democracia", na qual só ela acredita, pois os ricos só se aproveitam dela e os pobres sabem que estão sendo enganados, por isso aderem a quem lhes apresenta uma falsa solução, a extrema direita.  

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026