quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Não será hora de os marxistas brasileiros se unirem em um só partido?

Participei, ainda que tímida e marginalmente, da fase final de atuação da célebre Polop, a Organização Revolucionária Marxista-Leninista Política Operária. Organizar jovens universitários como se fossem revolucionários não tinha nada a ver, nos tirar do curso superior e da nossa vida individual para nos enfiar numa militância com dedicação religiosa foi uma irresponsabilidade sem tamanho. E um erro político tão grande quanto era equivocada a linha política da O., que era como a denominávamos. A origem daquilo, porém era pertinente: pensar o caminho da revolução brasileira a partir do marxismo.

Os teóricos e militantes revolucionários da Polop fizeram um trabalho intelectual importante, mas lhes faltava uma peça fundamental na política: ligarem-se aos trabalhadores, especialmente ao proletariado industrial, a principal classe revolucionária, que crescia no Brasil a partir da industrialização, da Revolução de 1930 e da implantação da indústria automobilística em São Paulo, no governo JK. A industrialização colocou o Brasil no ambiente da revolução operária socialista preconizada pelo marxismo. Antes disso, no Brasil rural pré-Revolução de 30, a revolução de inspiração marxista teria de ser feita pelo campesinato, como aconteceu na China. Basta lembrar que até 1950 dois terços da população brasileira estavam no campo. A situação começou a mudar com a política econômica desenvolvimentista, a “modernização” do país, a industrialização, e em apenas três décadas a relação se inverteu, na mais rápida urbanização nacional ocorrida no mundo até então; segundo o último censo, de 2021, mais de 87% dos brasileiros moram em cidades.

Os fatos são que, sem ter um partido comunista forte (o PCB foi fundado oito anos antes, em 1922, e, numa sociedade rural, era muito pequeno e, na representação trabalhista, tinha de concorrer com a expressiva força anarquista), a revolução que aconteceu no Brasil em 1930 foi uma revolução burguesa, uma revolução liderada por setores das classes dominantes, em aliança com setores das classes médias, especialmente os militares, que expressavam uma ideologia nacionalista e queriam modernizar o país. Foi, em síntese, uma revolução nacionalista, contra os cafeicultores paulistas que mandavam no Brasil desde a Proclamação da República. Naquele período histórico, entre duas guerras mundiais, em meio à Crise de 1929, à ascensão do fascinazismo e à consolidação da Revolução Russa de 1917, o nacionalismo era uma ideologia forte mundo afora. Lembremos que Luiz Carlos Prestes, líder da Coluna Prestes, movimento rebelde de grande repercussão na década de 1920, foi convidado a integrar o comando da Revolução de 30, mas recusou, porque já tinha ingressado no Partido Comunista Brasileiro e considerava que a revolução em curso era burguesa. Militares e políticos simpatizantes do fascinazismo, porém participaram a revolução, que acabou se organizando em torno da liderança máxima do fazendeiro gaúcho Getúlio Vargas e mais tarde perseguiu comunistas e integralistas, versão brasileira do fascinazismo.

A revolução estava em curso no mundo inteiro e continuaria assim ao longo do século XX, seja na vertente comunista, seja na vertente anticomunista. É importante ressaltar que todas as revoluções socialistas vitoriosas ocorridas no mundo até hoje passaram pela adaptação da teoria marxista às condições nacionais da época. A Polop tentou fazer isso, mas não se tornou hegemônica na esquerda brasileira e ainda hoje as formulações sobre a revolução brasileira giram em torno de concepções estrangeiras: o leninismo, o maoísmo, o titoísmo, o castrismo etc. A Polop não fazia parte do Partido Comunista, como aconteceu na Rússia, na China, na Iugoslávia, em Cuba, no Vietnã etc., onde foi a direção do partido comunista que fez a adaptação. No Brasil, o PC era intelectualmente indigente e submisso ao stalinismo. Só mais tarde, com o fracasso do projeto reformista do governo trabalhista de Jango, ao qual o PCB aderiu, abatido pelo golpe de 1964, uma dissidência, o PCdoB, e depois defecções que optam pela luta armada, sob inspiração da Revolução Cubana, tentam essa adaptação. A Polop, diferentemente, tem origem no antigo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Talvez por isso nunca foi bem digerida pelos comunistas brasileiros. O principal defeito da Polop, penso eu, talvez por não ter origem no PCB, foi não se ligar aos trabalhadores, não passar de uma organização de intelectuais com inserção nas classes médias estudantis.

O fato é que em meados dos anos 1970 a Polop tentava organizar universitários como se fossem operários revolucionários. Penso que seria razoável organizar cursos de formação política e difundir suas ideias, de forma aprofundada, inclusive usando obras de Marx, Lênin, Trotski e outros líderes comunistas, procurando se constituir como contraponto às formulações do restante da esquerda. No entanto, pretender formar revolucionários na universidade, em substituição ao trabalho que não conseguia executar na classe operária, foi um equívoco óbvio e prejudicial para muitos jovens militantes. Penso também que, com o fim da Polop, perdeu-se uma importante linha de pensamento marxista sobre a revolução brasileira. O caminho da revolução brasileira precisa ser pensado, o marxismo precisa ser adaptado às condições brasileiras do século XXI, como fizeram todos os partidos comunistas vitoriosos no século XX, com a diferença que não existem mais partidos comunistas como existiram antes.

No Brasil ainda existem três partidos comunistas: o PCdoB, um racha errante do PCB ocorrido em 1963 e hoje o maior amigo do PT; o PCBR, outro racha do PCB cuja história desconheço, e o PCB, que é a tentativa de reconstrução do PCB por ex-militantes que não acompanharam a direção quando ela transformou o PCB em PPS, após o fim da URSS. E existem correntes marxistas dentro do PT e do PSOL. Não seria o caso de juntarem-se todos na formação de um único partido? Acho sempre curioso, desde os idos de 1970, as certezas dos comunistas brasileiros, que nunca os levaram a lugar algum, mas os levam a se dividirem porque cada grupo pensa que é dono da verdade e todos os outros traidores. Hoje, diante do iminente fim do lulismo, do evidente engodo do PT, da retomada tardia da discussão da atualidade do marxismo e da necessidade de uma revolução brasileira, não seria o caso de juntarem-se todos os que se consideram marxistas e revolucionários na organização de uma única força política com esse objetivo explícito, ou seja, organizar e liderar os trabalhadores numa revolução rumo ao socialismo? Poderiam começar atualizando o Programa Socialista para o Brasil, da Polop, cotejando-o com as proposições das demais linhas políticas e formulando uma síntese que indique, enfim, o caminho que os marxistas brasileiros buscam há um século para organizar as massas populares, fazer a revolução e começar a transformar o Brasil na nação próspera que ela pode ser, no ambiente do século XXI, em que a questão ambiental é mais urgente do que qualquer outra e salvar a espécie humana da auto-extinção tornou-se a missão histórica dos trabalhadores. Será que ainda não temos maturidade para isso? 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Mineápolis é Gaza, é Alemão, é Venezuela, é Irã

Podia ser qualquer um e a mensagem da gestapo trumpista é essa claramente: quem se opuser ao governo será eliminado. É o mesmo método do nazismo no seu começo e intimidou a população, eliminou a oposição e cooptou a maioria dos alemães, cujos descendentes hoje lamentam o que seus pais e avós fizeram. A história se repete na nação que em meados do século passado se opôs à ascensão do fascinazismo. A história se repete, mas não se repete igual, porque passou um século, muita coisa aconteceu, o mundo é muito diferente, é importante compreender o que foi o fascismo, mas é insuficiente, é preciso compreender o que está acontecendo hoje para enxergar as diferenças que podem ser decisivas. O que me parece cada vez mais evidente é que se trata da agonia do capitalismo e ele não vai morrer sozinho, porque a morte faz parte do sistema e se tornou rotineira e aumentou gigantescamente. Mineápolis é Gaza, é Alemão e Penha, é Irã, é Venezuela, para ficar nas matanças mais recentes.

A corrupção sistêmica no Brasil e a ascensão do fascinazismo nos EUA

Muito bom esse Calma Urgente, com análises profundas, inteligentes, bem informadas e visões diferentes que se somam sobre o Brasil e os EUA. No fim, é o mundo contemporâneo, pois tudo vai se juntando, não é mais possível falar do Brasil sem falar do mundo, não é possível falar de um assunto específico sem falar do todo. O caso do Banco Máster engole o poder político e econômico no Brasil, da extrema direita à esquerda que virou centro-direita, do Congresso ao STF, passando pelo governo federal e governos estaduais. A transformação dos EUA de uma democracia liberal governada por um neonazista a um Estado neonazista, que já tem sua gestapo nas ruas assassinando americanos que discordam do governo. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Migual Nicolelis e José Kobori, juntos contra o mesmo inimigo

À maneira da revistinha Invictus, que reunia Super-Homem e Batman e eu colecionava, nos anos 60. O vídeo com a conversa completa entre Miguel Nicolelis e José Kobori, dois dos pensadores brasileiros mais interessantes hoje. É longo, mas, se a gente salta as interrupções irrelevantes dos entrevistadores, não é tanto tempo assim. Vale a pena ouvir, eles falam de vários aspectos desse nosso mundo contemporâneo que segue aceleradamente para a autodestruição, e, de passagem, citam autores para leitura.

Música do dia: Amor à Natureza, Paulinho da Viola

Há meio século Paulinho da Viola já falava do processo de autoextinção em que entramos. A cidade estúpida é o cenário em que os humanos se refugiam enquanto destroem a Natureza em volta.

Miguel Nicolelis: a espécie humana rumo à autoextinção

No seu livro de ficção científica Nada será como antes o eminente neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis fala do que não é evidente só para quem não quer ver: a espécie humana está perdendo a razão e caminha para se destruir e destruir tudo em volta.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Safatle: grande parte da ditadura militar foi preservada na democracia

Afora o fato de Chico Pinheiro ser um péssimo entrevistador, jornalista estrela, que interrompe o entrevistado e fala mais que ele, Vladimir Safatle, quando consegue falar, diz coisas importantes. Por exemplo, a aberração das polícias militares e o aumento das torturas depois que a ditadura militar acabou. Ele cita a greve dos petroleiros na década de 90 (deve estar se referindo ao governo FHC) e já é então o fim do ciclo de mobilizações, o que aconteceu antes, no fim da ditadura, me parece mais relevante. Quais são os fatos? A ascensão das massas, as greves, a formação de sindicatos e centrais fazem parte da ascensão do Lula e do PT, e o objetivo era esse, levar Lula e o PT ao poder político burguês, ganhar eleições no Executivo, acima de tudo a eleição presidencial. Quando isso aconteceu, a mobilização das massas refluiu, o objetivo já tinha sido alcançado. Não sejamos maniqueístas, afirmando que Lula e o PT foram instrumentos de manipulação das massas pela burguesia, mas também não sejamos cegos para não ver que foi isso que aconteceu. Lula e o PT, o primeiro moldando o segundo, foram domesticados pelas condições políticas da época, isto é, pelo neoliberalismo, e acreditaram que bastava fazer o que fizeram, que reformar o Estado era desnecessário, socialismo então nem pensar, coisa de maluco dos anos 1960. O que estavam fazendo, diante do que fizeram seus predecessores, já era muito. O PT e Lula consideraram que domesticar o neoliberalismo já estava de bom tamanho e foram domesticados por ele. 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Espionando todo mundo no mundo inteiro

Durante a chamada "Guerra Fria", época em que o mundo esteve dividido entre duas grandes áreas de influência, da URSS e dos EUA, os principais vencedores da II Guerra Mundial, fez muito sucesso a ficção de espionagem, ambientada nas ações dos serviços secretos das duas nações. Também havia histórias sobre o serviço secreto inglês e outros menos famosos e nos filmes do Indiana Jones apareceu o serviço secreto nazista, obviamente anterior e já extinto. Com o fim da URSS e do mundo bipolar, o tema eletrizante entrou em decadência. Desde então o serviço secreto israelense, conhecido como Mossad, ganhou projeção, com seus feitos na vida real, não só na literatura, sequestrando e assassinando nazistas em várias partes do mundo e agindo contra palestinos e árabes. Nunca imaginei, porém que aquele pequeno país artificial mantivesse o que é provavelmente a maior rede de espiões em funcionamento no mundo, seja pelo seu tamanho, seja pela extensão da sua atuação, inclusive no Brasil, seja pelos recursos de que dispõe, seja pelas tecnologias que emprega e até desenvolve, seja por sua competência. Uma olhada rápida no verbete da Wikipédia nos deixa assustados. Toda a ficção sobre espiões é pinto perto do que o serviço secreto israelense já fez, continua fazendo e ainda vai fazer. Não é exagero dizer que o Mossad espiona todo mundo no mundo inteiro.  

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Música do dia: Te recuerdo Amanda

Com o autor, o chileno Víctor Jara, em 1972, às vésperas do golpe sanguinário que depôs o presidente Allende e dizimou a oposição, liquidou a experiência socialista democrática e impôs o experimento neoliberal do imperialismo estadunidense. Não é demais lembrar que o brilhante artista (esssa é uma das mais bonitas canções de amor que conheço) foi preso, torturado e teve suas mãos decepadas, antes de ser assassinado pelos militares. Tinha 40 anos.

O xou do jornalismo e o que urge fazer

Por que "show", uma palavra usada há um século no idioma português, não foi aportuguesada ainda? Gosto de escrever xou, assim como gosto de escrever xópim. O jornalismo definitivamente virou espetáculo. Sempre foi assim, o jornalismo sempre gostou e preferiu a notícia sensacional, o lado sensacional da notícia, os donos do negócio querem conquistar público, vender e ganhar dinheiro, porque no capitalismo jornalismo é um negócio como qualquer outro, embora não devesse ser, devesse ser serviço público, mas até onde isso acontece de forma mais marcante e há mais tempo, na Inglaterra, a BBC segue orientação política, um exemplo disso é que os jornalistas foram recomendados a se referirem ao sequestro do presidente Maduro, da Venezuela, pelo presidente dos EUA como "captura". O fato  é que o jornalismo negócio sempre foi xou e sempre houve também o jornalismo com pretensão de ser sério, confiável, honesto e independente, e é este o caso do Jamil Chade e da CartaCapital, por isso faço este comentário. Não posso deixar de observar que a excelente e oportuna matéria do vídeo abaixo é também um xou. O objetivo do melhor jornalismo que se faz hoje, e nunca se fez tanto jornalismo bom como se faz hoje, com as novas tecnologias, é antes de tudo possibilitar que os jornalistas e seu entorno ganhem dinheiro para sobreviver. O assunto desse vídeo é ótimo embora seja terrível: o jornalismo xou quer assuntos terríveis, precisa de assuntos terríveis, vive de assuntos terríveis. Eu sei o que é isso por dentro, sei como o ambiente molda o jornalista. A discussão não tem fim e gira em torno do argumento incontestável que o jornalista não produz o fato, ele apenas informa. Ok. A minha questão é outra. O jornalismo depende tanto de notícias terríveis quanto a medicina depende das doenças. A indústria da doença não quer acabar com as doenças, por isso não cuida de prevenção, que deveria começar por uma campanha contra os agrotóxicos, mas os médicos, os hospitais, os laboratórios, a indústria de equipamentos médicos etc. não estão interessados em diminuir as doenças, que é sua fonte de renda, de enriquecimento, de lucro. Isso é óbvio, nem é preciso demonstrar, enriquecer com exemplos, quem não vê é porque está cego pela ideologia. Tudo de ruim que prospera é porque dá lucro: doenças, guerras, tráfico de drogas, acidentes de trânsito, poluição etc. O jornalismo faz parte dessa lógica, notícias escabrosas são parte fundamental do xou que vende e dá lucro. Simples assim. O jornalismo faz parte da maior indústria do capitalismo, maior que a indústria da guerra, maior que a indústria das comidas envenenadas: a indústria do entretenimento. No fim das contas, o jornalismo é parte do xou, é parte dessa indústria que distrai as pessoas comuns, os trabalhadores desorganizados que pensam que são empreendedores e por isso aderem à ideologia do capitalismo e sustentam a existência moribunda do capitalismo. O mundo está tão ruim, esse despencar da civilização rumo à autodestruição está tão doloroso que as pessoas precisam de muito entretenimento, de muita alienação, que chega para todos o tempo todo nas telinhas dos celulares dos quais ninguém mais tira os olhos. O que importa, porém, parafraseando um célebre filósofo, não é informar -- já temos informações bastantes; o que urge é transformar o mundo. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Emergência climática deixa a comida menos nutritiva

A esquerda debate o pós-Lula e um projeto nacional

Eu me pergunto onde esses brilhantes esquerdistas estavam nas últimas décadas. Eu estava aqui e acompanho desde 1996 o Ciro Gomes questionar a política econômica pós-Plano Real e propor um projeto nacional de desenvolvimento, cada vez mais elaborado, primeiro num livrinho publicado 1996 e escrito a quatro mãos com Mangabeira Unger, O próximo passo, e mais tarde num plano detalhado que passou a difundir país a fora. Vi também a esquerda ignorá-lo, atacá-lo e difamá-lo, inclusive acusando de estar a serviço da direita etc. e tal, enquanto a própria esquerda, principalmente o lulismo, que há décadas também deixou de ser petismo, caminhava cada vez mais para a direita, até chegar ao ponto em que chegou nesse governo dito Lula 3. Repito: eu estava aqui e vi isso acontecer, publiquei inúmeros textos e comentários aqui. A política tem mistérios insondáveis, mas também tem fatos inegáveis, como este: o próprio tempo vai encerrar a Era Lula. Afinal, ele completou 80 anos, a eleição deste ano será provavelmente a sua última e temo que ele encerre sua fulgurante carreira com uma derrota. E sem deixar nenhum legado. Depois do Lula, a esquerda vai ter de recomeçar do zero, com um atraso de meio século. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Música do dia: João e Maria, Chico Buarque

Chico só não é o rei do piropo porque esse posto é ocupado eternamente pelo Vinicius, mas podemos dizer que ele é o herdeiro do rei, o rei vivo. Será essa canção o mais belo piropo do Chico? Talvez. Chico é mestre no jogo de palavras e de ideias. "Não fuja não, finja que...", por exemplo. Numa canção de amor infantil ele dá um jeito de colocar a musa nua sem perder o pudor. Coisas de gênio.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Um guia para quem não quer ser manipulado sobre o Irã

Eu diria simplesmente que a imprensa empresarial não é imparcial, porque não é controlada pelos jornalistas e pela sociedade e sim pelos seus donos e permissionários que têm interesses econômicos e políticos, portanto usam a imprensa como máquina de propaganda e manipulação da opinião pública. Basta ver como o noticiário muda, a favor e contra, como uma notícia vira manchete e depois some: são os interesses do capital que estão agindo. Qualquer jornalista sabe que será demitido se não seguir as ordens do patrão, cujo eufemismo é "linha edotirial". Breno Altaman é mais didático em relação ao noticiário sobre o Irã.

A verdade sobre o Irã

Por que somos tão ignorantes sobre o Irã? Por que nos deixamos enganar pelo noticiário? Por que a imprensa nos manipula? Porque a imprensa tem interesses. Porque os EUA têm interesses. Porque o imperialismo estadunidense prepara a opinião pública para a mudança de regime que pretende fazer no Irã, com uma invasão militar, como já fez ou tenta fazer em todos os países do mundo cujos governos não lhe são submissos ou não têm bombas atômicas. A imprensa, que finge informar, mas na verdade é uma máquina de propaganda, serve aos interesses dos EUA, de Israel, das multinacionais, daqueles 0,00001% que detêm 90% da riqueza produzida pelos trabalhadores de todo o mundo. A imprensa finge parcialidade, mas qualquer jornalista sabe que não é imparcial, que seu patrão lhe diz o que pode e o que não pode publicar, que se contrariar os interesses de quem o emprega será demitido. Só existe imprensa livre quando ela é controlada pelos jornalistas e pela sociedade. Simples assim.

A manipulação do noticiário sobre o Irã

É vergonhosa a cobertura da BBC e da imprensa internacional sobre o Irã. Cito a BBC porque é um veículo do qual gosto e respeito, ou respeitava, porque depois de saber que a direção da estatal britânica recomendou aos seus jornalistas que não falem em "sequestro" do presidente da Venezuela Nicolás Maduro e sim em "captura", perdi também o respeito que tinha por ela. A BBC caiu na vala comum da imprensa empresarial "capturada" pelo imperialismo estadunidense e por Israel. É vergonhosa, repito, a cobertura que vimos e continuamenos vendo sobre a Palestina, sobre a Venezuela, sobre o Irã, sobre a Ucrânia, para ficar nos casos mais recentes. Podemos esperar mais, porque a imprensa perdeu a vergonha de mentir, assim como a direita, a imprensa também está sendo capturada pelos ventos da extrema direita e se tornou porta-voz do imperialismo trumpista. Eu me pergunto quem ainda se deixa enganar, no Brasil, depois da larvajato. Parece claro: diante das contradições políticas atuais, em que tem de escolher um lado, a imprensa empresarial chutou o balde da imparcialidade e escolheu a extrema direita.

EUA e Israel por trás das manifestações no Irã

Por que quem não se importou com os direitos humanos na Palestina se preocupa agora com direitos humanos no Irã? Por que quem não se preocupou com os assassinatos dos EUA na Venezuela agora se importa com assassinatos no Irã? Por que quem não se preocupa com os direitos humanos nos EUA sob o governo Trump agora se preocupa com direitos humanos no Irã? Qualquer jornalista experiente percebe logo que o noticiário está sendo manipulado pela imprensa neoliberal americanista. O público pensa que está consumindo informações, mas está sendo enganado por Globo, Folha, CNN e toda a imprensa empresarial que divulga propaganda do imperialismo estadunidense. O mesmo acontece em relação à Venezuela e aconteceu sobre a Palestina, para ficar em exemplos recentes.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A solução para os problemas brasileiros é conhecida

Não é por ignorância. Há trinta anos Ciro Gomes apresenta um projeto alternativo ao que vigora desde o Plano Real, na opção feita por FHC e continuada por Lula, mas não é ouvido, ou melhor, é ouvido por muitos, mas não conseguiu transformar em apoio político e votos da maioria para ser eleito presidente. Como se vê nesse vídeo, Celso Furtado bem antes tinha uma visão lúcida e um projeto para o Brasil, mas também não era ouvido pelos poderosos. Aliás, a chamada Nova República quis CF como ministro da cultura, mas não da economia. A questão que se impõe é: por que há mais de quatro décadas, sob governos "democráticos", o Brasil se afunda nesse caminho que é uma volta aos tempos antes da Revolução de 1930, ao mesmo tempo que é uma aceleração da destruição ambiental, num modelo que serve apenas ao capital internacional, ao imperialismo e aos setores nacionais que se beneficiam e implantam esse modelo, a saber, os banqueiros, o agrotoxiconegócio e as castas privilegiadas do Estado?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

BBC já fala em Terceira Guerra Mundial

A BBC News Brasil conseguiu fazer uma matéria de 17 minutos sobre as duas guerras mundiais sem citar a Revolução Russa de 1917. Também não falou de capitalismo. É uma forma de abordar a realidade que pode ser incluída entre as causas das guerras: alienação. 

Tenho uma discordância dos brilhantes analistas do sequestro do presidente da Venezuela pelo governo estadunidense: ele é antes de tudo absurdo, não é possível tentar ser racional numa situação com essa. Acontece que essa discordância faz parte de um contexto de acontecimentos absurdos que o mundo, começando pelos empresários, continuando por seus prepostos nos governos, passando pela imprensa e intelectuais e chegando por fim no próprio povo, que adere às ideologias, trata como se fossem razoáveis. Não há outro adjetivo para caracterizar o mundo em que vivemos hoje. Há bem pouco tempo, considerávamos o nazismo, que a maior parte de nós conhecia de ouvir conta, ler e ver filmes, como uma coisa absurda; hoje, aquele comportamento insano está incorporado ao nosso cotidiano pela nova extrema direita. As autoridades vão recuando diante dele e a imprensa trata-o com "imparcialidade jornalística", como se fosse possível ser imparcial diante de um monstro estúpido e violento. A COP30 foi um fracasso, a produção de petróleo aumenta, em vez de diminuir, as mudanças climáticas fazem parte do nosso cotidiano, a destruição da Natureza prossegue aceleradamente. Tudo isso, essa insanidade geral, já é parte do ambiente da terceira guerra mundial. Para a BBC, entretanto, e para a imprensa em geral, que certamente fará matérias semelhantes, como sempre acontece, a terceira guerra mundial é uma notícia a mais.  

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Economista americano denuncia na ONU a agressão dos EUA à Venezuela

Vice-presidente Delcy Rodriguez diz que Maduro continua sendo o presidente

As melhores análises sobre o sequestro do presidente Maduro pelos EUA - 5

Pepe Escobar: os posicionamentos da China, Rússia e outras nações expõem fraqueza do império estadunidense.

As melhores análises sobre o sequestro do presidente Maduro pelos EUA - 4

Juliane Furno: o erro de Hugo Chávez foi não ter aproveitado o dinheiro do petróleo para diversificar a economia venezuelana, que hoje, porém é a segunda que mais cresce na América do Sul, por isso o imperialismo estadunidense ataca o país, que é a experiência revolucionária mais bem-sucedida na América Latina.

As melhores análises sobre o sequestro do presidente Maduro pelos EUA - 3

Salém Nasser: a enézima mudança de regime perpetrada pelos EUA, na Venezuela, não se consumou, o governo continua de pé e unido.

As melhores análises sobre o sequestro do presidente Maduro pelos EUA - 2

Elias Jabbour: a esquerda brasileira deve assumir a bandeira da defesa nacional diante do imperialismo na campanha eleitoral de 2026 e denunciar que a extrema direita vai entregar o Brasil para os EUA.

As melhores análises sobre o sequestro do presidente Maduro pelos EUA - 1

Breno Altman, no vídeo abaixo, Elias Jabbour, Salem Nasser e Juliane Furno, em vídeos que publicarei em sequência, fizeram as melhores análises que eu ouvi até agora. A análise do estranho Pepe Escobar, o firme discurso da presidente interina Delcy Rodriguez e o contundente discurso do economista Jeffrey Sachs na reunião do Conselho de Segurança da ONU complementam a visão geral do assunto. 

Breno Altman: o presidente Maduro foi sequestrado numa eficiente operação de guerra do governo dos EUA, mas a Revolução Bolivariana continua de pé e unida.

domingo, 4 de janeiro de 2026

A Venezuela não é uma ditadura

Essa é a primeira afirmação a se fazer sobre a Venezuela, embora a questão tenha se tornado ridícula, porque o governo trump não é nenhum modelo de democracia, nem mesmo para os estadunidentes -- para os outros povos do mundo nunca foi. Tudo é ideologia, não me canso de repetir. Nem na Venezuela nem em qualquer parte do mundo, os EUA nunca se importaram com a democracia, talvez lá longe, na sua origem como nação, ainda assim uma democracia muito limitada, com igualdade de direitos para os homens brancos e mais ninguém. A questão em qualquer ataque dos EUA contra outro povo nunca foi defender a democracia e sim os interesses econômicos do império. O conceito de democracia para os governos americanos é singular: democracia é o governo daqueles que se submetem a nós. A ditadura militar (1964-1985), por exemplo, foi uma democracia para o governo americano quando derrubou o presidente constitucional e popular, mas deixou de ser quando o governo Geisel desobedeceu Washington e fez um acordo nuclear com os alemães.  

sábado, 3 de janeiro de 2026

História da 'Guerra do Vietnã', 50 anos depois: quando Davi venceu Golias

Mais uma aula de história do Breno Altman. Repito a expressão que ele usou no final da exposição porque é a imagem de compreensão mais fácil, mas a chamada "Guerra do Vietnã" é muito mais do que isso, a começar pelo nome: esse é o nome dado pelos estadunidenses, não é o nome que os vietnamitas lhe dão, obviamente, e sim três nomes diferentes, mudando com o inimigo principal: guerra contra os japoneses, guerra contra os franceses e guerra contra os americanos. A "Guerra do Vietnã" é uma guerra emblemática para a minha geração, assim como a guerra dos sionistas israelenses contra o povo palestino. Mais uma vez repito: a invenção mais importante do Homo sapiens foi a ideologia, tudo é ideologia. A história da "Guerra do Vietnã" nos possibilita ver como a civilização capitalista manipula, com a ideologia, a nossa visão, a nossa opinião e a nossa posição diante dos acontecimentos. A "Guerra do Vietnã" era tão absurda que nem a ideologia avassaladora da imprensa e de Hollywood conseguiu manter o apoio a ela, provocando manifestações populares gigantescas nos EUA e em grande parte do mundo contra ela. É óbvio que os ataques aos vietnamitas foram motivados pelos interesses imperialistas de manter o Vietnã como colônia, como tantas mundo afora. Antes, os interesses imperialistas levaram a duas guerras mundiais entre as próprias nações imperialistas. Quando a II Guerra Mundial acabou, os povos colonizados queriam deixar de ser colônias e a partir de então as nações imperialistas se voltaram contra eles. A força dos colonizados em busca da sua liberdade é insuperável, como mostraram os vietnamitas e já tinham mostrado antes a Revolução Chinesa e, bem antes, durante a I Guerra Mundial, a Revolução Russa. Hoje mesmo estamos vendo o ataque do governo dos EUA à Venezuela. A motivação é mesma: controlar riquezas que interessam ao imperialismo, no caso o petróleo venezuelano. Vamos ver se o povo venezuelano está preparado para resistir. No futuro, os EUA poderão fazer o mesmo com o Brasil, em nome de defesa da Amazônia, por exemplo, ou com qualquer outra nação da América do Sul. A desculpa é sempre ideologia; nenhuma divergência política justifica a agressão dos estadunidenses aos venezuelanos, ou deveríamos julgar legítimo que os venezuelanos ou qualquer outro povo atacasse os EUA por discordar do governo Trump. Aspectos como a solidariedade internacional e a desaprovação do povo estadunidense contarão no desfecho da guerra, mas o mais importante, mostra a história -- e a aula do Breno Altman é um exemplo disso --, é a "resiliência nacional", a capacidade de um povo resistir à agressão externa, para o que é fundamental a existência de uma liderança nacional lúcida, organizada, competente e representativa. O pano de fundo de tudo isso, da I Guerra Mundial à possível "Guerra da Venezuela", é a agonia do capitalismo, esse monstro velho e decrépito que não quer morrer sozinho, quer levar tudo e todos com ele. Na Venezuela, hoje, como na Palestina e em outros lugares, como aconteceu antes no Vietnã, na China e em inúmeros lugares, o que acontece não é uma "guerra", é o ataque imperialista de uma nação capitalista rica a um povo pobre colonizado. Os interesses são claros: a nação imperialista quer se apoderar dos recursos do povo colonizado e mantê-lo sob sua dominação, enquanto o povo pobre colonizado quer ser independente e progredir em paz. Tudo mais é ideologia. Foi assim desde que o capitalismo começou, há quinhentos anos, foi assim quando os europeus chegaram a este continente (que ainda não tem nome, porque "América" não é nome adequado, é uma homenagem ao colonizador) onda já viviam muitos povos, e os europeus simplesmente se apoderaram da terra, exterminaram os indígenas e começaram a depredação da Natureza para tirar dela "riquezas", "recursos naturais", "matéria-prima". Essa é a história do capitalismo. Em seguida, os europeus foram à África, onde fizeram a mesma coisa e ainda aprisionaram povos africanos e os transportaram e venderam como escravos para trabalhar nos seus empreendimentos comerciais neste continente, como plantações de cana-de-açúcar e café, dentre outras. É essa a nossa história, em resumo. Povos asiáticos como os chineses e vietnamitas mostram, com seu progresso, o que pode ser a vida de um povo que resiste e se liberta da dominação imperialista. Todo povo tem direito a isso, à autodeterminação, é o que diz a carta de princípios que rege a ONU, formada para reorganizar o mundo depois da II Guerra Mundial, e é o que diziam também as declarações dos revolucionários estadunidentes e franceses, mas seus governos não as seguiram, porque foram dominados pelos interesses imperialistas que manipularam seus povos com ideologia fabricada e distribuída constantemente pela chamada "grande mídia", pela imprensa, pelas Hollywoods e Globos mundo afora. Para progredir, os povos têm que derrotar o imperialismo. Para sobreviver, a espécie humana tem que superar o capitalismo e criar uma nova ordem mundial, baseada na cooperação entre as nações. A tarefa urgente que une todos os povos está diante de nós: conter as mudanças climáticas provocadas pela devastação insana e contínua da civilização capitalista.