quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Lula e Pimentel

Um ano depois, Lula mostra como ele e o ex-prefeito Pimentel são diferentes. Da entrevista à Folha, hoje:

FOLHA - O sr. defende uma coalizão e uma disputa plebiscitária. Se a coalizão é importante, por que o candidato deve ser do PT e não de um partido aliado?
LULA - Porque seria inexplicável para grande parte da sociedade o maior partido de esquerda do país, que tem o presidente, não ter um sucessor.


Foi o que Pimentel fez em Belo Horizonte em 2008.

Liberalismo e reformismo

O capitalismo é um sistema econômico que atravessa séculos se transformando, se implantando, se estabelecendo, se defendendo para sobreviver. O capitalismo operou maravilhas na civilização, mas as fez paralelamente a muitas destruições. Desde sempre – basta pensar nos povos indígenas da “América” e nos africanos escravizados. Por quê? Porque seus fundamentos são injustos: propriedade privada dos meios de produção, apropriação privada das riquezas, busca incessante do lucro, que significa produzir cada vez mais, destruir cada vez mais os recursos naturais, explorar o trabalho o mais que puder. Esse móvel do capitalismo é incompatível com planejar o futuro, distribuir as riquezas, democratizar o poder. No capitalismo há sempre poucos ganhando muito e desfrutando das riquezas produzidas, enquanto muitos trabalham, ganham e desfrutam pouco. É a essência do sistema.

A história se dá por luta de classes, em última instância. Os capitalistas ascenderam porque lutavam contra a ordem feudal e lideraram as classes oprimidas. Representavam o crescimento econômico, o progresso, o aumento das riquezas materiais e imateriais – conhecimento, artes, liberdade. Prometeram liberdades e direitos, que, uma vez no poder, nunca foram capazes de cumprir integralmente e universalmente, porque vão contra seus interesses. Ao longo dos séculos, os capitalistas usaram de todos os recursos para se manter no poder e realizar seus interesses, seja a guerra, seja o golpe de estado, seja o fascismo, seja a ditadura militar. Um desses recursos é a manipulação da informação, por meio dos meios de comunicação de massa tradicionais (jornais, rádio, televisão, cinema), controlados por meia dúzia de imensos e poderosíssimos grupos, e que constituem uma espécie de partido moderno do capital. Porque é óbvio que o capitalismo compromete a sobrevivência da existência humana, destrói o planeta, impede a justiça e a distribuição de riquezas, fomenta guerras, provoca crises econômicas – e a realidade precisa ser escondida e deturpada.

Depois de algumas décadas em que grassou a ideologia mais sincera do capitalismo, o liberalismo, agora batizado de "neoliberalismo" (de forma resumida, ela sustenta que o mercado livre resolve todos os problemas, portanto odeia ações do Estado que distribuem renda, aumentam impostos, criam estruturas; na verdade, os liberais querem e sempre tiveram o Estado agindo a seu favor, implantando políticas que fomentam os lucros, como obras públicas para a indústria da construção, desemprego para baixar o preço da mão-de-obra, investimentos em estruturas que auxiliam os negócios etc.; quando discursam contra a intervenção do Estado na economia, na verdade os capitalistas querem dizer "intervenção do Estado na economia que não seja a nosso favor, que seja a favor dos trabalhadores"), depois de algumas décadas em que o neoliberalismo grassou, uma nova crise econômica exigiu intervenção do Estado para preservar o sistema.

Esse é um caminho inaugurado há quase um século, caminho que salvou o capitalismo das crises que quase o destruíram no século XX, representadas por duas guerras mundiais, a revolução russa e outras revoluções socialistas, uma crise mundial e a ascensão do fascismo. Desde então os capitalistas vêm alternando políticas liberais e políticas intervencionistas, estas quando aquelas falham. Enquanto a crise não vem, o liberalismo grassa, porque garante lucros fantásticos; quando a crise vem, o Estado intervém para salvá-lo, criando novas regras e políticas – e lucros renovados.

É claro que as políticas sociais dos momentos de crise do capitalismo são melhores para os trabalhadores, porque distribuem renda, criam benefícios, ampliam direitos. É isso que os capitalistas temem – quanto menos anéis cederem para conservar a mão, melhor para eles. Além do mais, nesses momentos, se preservadas as regras do jogo político, isto é, as eleições burguesas, costumam ser vitoriosos políticos que têm apelo reformista e partidos mais próximos do povo.

Em geral esses partidos e políticos são de esquerda, são socialistas e democráticos, mas podem também ser de direita – o partido nazista era reformista. Os capitalistas usam de todos os recursos para se manterem no poder, inclusive partidos fascistas e militares sanguinários. Atualmente, os capitalistas mantêm a indústria da guerra com exércitos terceirizados, milícias mercenárias organizadas na forma de empresas prestadoras de serviços aos Estados, especialmente aos EUA da era Bush neoliberal.

Os efeitos do reformismo de esquerda são nefastos para o capitalismo, porque difíceis de serem revertidos; os efeitos do reformismo de direita também, porque nunca se sabe onde vão parar; geralmente acabam mal, na tomada do poder por reformistas do extremo oposto – daí a importância de transições negociadas e sem convulsões, como a que aconteceu no Brasil em 1985 (o Brasil é um excelente modelo de ordem capitalista bem-sucedida, uma vez que governos de esquerda se encarregaram de implantar, sucessivamente, o liberalismo e o reformismo social, de acordo com as regras e sem grandes transtornos).

O liberalismo é o melhor modelo para os capitalistas, não por ideologia política – isso é a classe média que trata de criar, com suas teorias e academicismos. O liberalismo é o melhor para os capitalistas porque lhes permite ganhar muito dinheiro sem muitos riscos e aborrecimentos, com o Estado todo trabalhando a seu favor, com dedicação. Como ele sempre falha, porém, eles aceitam a intervenção reformadora de esquerda, mas zelam para que ela não vá longe demais, que apenas recupere as condições para um novo ciclo de expansão e uma nova vaga liberal. Na verdade, desde que o revolução socialista operária saiu de cena, a questão social se limita a isso: saber quanto o capitalismo será transformado por um novo ciclo de reformas, que duração e profundidade terão essas reformas, quão irreversíveis na história da humanidade elas serão, e se, enfim, acabarão por substituir o capitalismo por um sistema econômico mais evoluído.

Invictus

Essa história do Obama contra a Fox e do Lula contra Veja/Folha/Globo me lembra uma revistinha de quadrinhos que eu colecionava na infância: Invictus - Batman e Super-Homem juntos contra o mesmo inimigo! O mundo criou seus super-heróis para combater as forças mais obscuras do capitalismo. Podemos ampliar e ver uma nova Liga da Justiça, com Hugo Chávez como Flash, Evo Morales como Lanterna Verde...

Obama contra a Fox

A imprensa imparcial é um mito do capitalismo. A liberdade de imprensa é uma das várias liberdades que a burguesia prometeu e não realizou. Nos EUA é um fundamento da nação, por isso seu abandono faz tantos estragos, mas em países da periferia do capitalismo, como o Brasil, ela nunca foi levada a sério. Obama mostrou o caminho, quando se valeu da internet para se eleger. A rede é uma dessas inovações que o capitalismo cria e o colocam em xeque. Os grandes empresários perderam o controle da informação, por isso radicalizam nos veículos tradicionais, que dominam. A "grande" mídia se transforma, nos dias atuais, no que o fascismo já foi, quase cem anos atrás, como instrumento de salvação do capitalismo. Não nos enganemos com novas teorias e terminologias, Marx já deu nome a isso no século XIX: luta de classes. Os problemas que estão aí são grandes demais para que a economia "de mercado" dê conta de resolver, e é isso, em última instância, que os capitalistas sempre querem. Nas últimas décadas foi chamada de neoliberalismo. Qualquer limite ao capital, qualquer distribuição de renda mexem no seu bolso e no seu poder. Aqui, essa gente não é capaz nem de engolir Lula, que, olhando bem, fez o quê? Fez o capitalismo funcionar, os negócios darem lucros e os banqueiros ganharem como nunca. E Obama? Representa na melhor das hipóteses uma demanda social que explodiu há cinquenta anos. No capitalismo atual há muita gente ganhando de forma criminosa – para citar apenas três setores: os bancos, a indústria automobilística e a indústria bélica – e que só sobreviverá à custa de mais danos à sociedade, à vida e ao meio ambiente. O capital tem também setores avançados, como a indústria da informática, mas não são eles que mandam. Talvez estejamos assistindo, nos EUA, a uma disputa de poder entre esses grupos atrasadíssimos, que podemos chamar de indústria da morte, e outros grupos modernos do capital, que fazem avançar a civilização.

O campeonato que ninguém quer ganhar

A característica deste campeonato brasileiro é que ninguém quer ser campeão. Dito de outro forma: a sete rodadas do fim, não existe um time com perfil de vencedor, com futebol de campeão. Como foi o São Paulo no ano passado, que se recuperou e seguiu firme na segunda metade da competição e se aproveitou da queda do Grêmio (de Roth). O Palmeiras continua sendo o principal candidato, porque, mesmo depois de uma série horrorosa, continua líder. Precisava ganhar quatro jogos para ser campeão, mas um deles, um dos fáceis, era contra o Santo André. Agora pesa contra o time o sentimento de estar em queda, de não conseguir vencer. A seu favor ele tem a incompetência dos que vêm atrás dele.
A gente poderia dizer que o São Paulo tem a chance novamente, mas também o São Paulo não demonstrou firmeza até agora. O Flamengo está num bom momento, mas já teve bons momentos antes e depois caiu. O Inter nunca caiu muito, mas também nunca demonstrou perfil de campeão. O Atlético foi melhor, manteve a liderança durante bom tempo, mas caiu e tornou a subir. A questão do Galo é que não se impôs ainda diante de times mais fortes, e são justamente estes que ele tem pela frente na reta final. Neste momento, o Atlético é o único que depende apenas de si para ser campeão, além do Palmeiras, porque tem um confronto direto com o atual líder. Para ser campeão, porém, precisa se comportar como tal daqui pra frente. Pode começar sábado, vencendo o Vitória, no Mineirão; mais que vencendo, jogando futebol de campeão, fazendo resultado incontestável – 3 a 0, por exemplo. Eu não acredito nisso. Gostaria de estar enganado.
Fora o Atlético, as possibilidades são: 1) o próprio Palmeiras se equilibra nesta semana que ficará sem jogar; 2) o São Paulo finalmente se impõe; 3) o Flamengo mantém a boa fase; 4) o Inter de Mário Sérgio finalmente joga o futebol que todos dizem que pode jogar; 5) o Goiás se recupera, volta a ser imbatível em casa, vence o Palmeiras na próxima rodada; 6) o Cruzeiro faz uma série fantástica de resultados (é o clube que tem a sequência mais fácil) e atropela todos os outros. Mas que o campeonato é imprevisível, é. Emocionante, não pela qualidade técnica dos times e dos jogos - Santo André 2 x Palmeiras 0, hoje, foi emocionante, mas não foi bom -, e sim porque tudo pode acontecer. Talvez no fim de semana apareça, enfim, o time com pinta de campeão. Isso, só isso, torna a rodada emocionante.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O Bolsa Família e a fome no mundo

Brasil é apontado como exemplo no combate à fome
No Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro, a FAO e a Action Aid divulgaram estudos sobre a situação da fome no mundo. As duas organizações destacaram a qualidade das políticas implementadas pelo governo brasileiro no combate à fome e à pobreza. Em 2009, segundo a FAO, mais de 1 bilhão de pessoas vivem em situação de subnutrição. Situação piorou depois da crise econômica mundial. A produção mundial de alimentos deve aumentar em 70% nos próximos 40 anos para suprir a demanda crescente, adverte a FAO.
Redação - Carta Maior

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16195&boletim_id=603&componente_id=10129

OBS: 1) O sucesso do governo Lula se deve às suas políticas para os ricos, mas sua popularidade vem das políticas para os pobres;

2) Essas estatísticas malthusianas que projetam necessidade de crescimento da produção de alimentos para estancar a fome são furadas, sugerem que o problema da fome é falta de alimentos, quando é a desigualdade na distribuição. Basta ver o que programas como Bolsa Família e Fome Zero são capazes de fazer – se dependesse dos capitalistas, eles nunca seriam implantados. Os neoliberais dizem que o mercado vai resolver os problemas sociais. Mentira. Dizem isso há duzentos anos, sabem que não vai acontecer, sabem que o mercado só aumenta a desigualdade. E é isso que eles querem. Ao capitalismo não interessa que o pobre coma, o que ele quer é que quem tem dinheiro compre cada vez mais, coma cada vez mais, porcarias desnecessárias. Obesidade já é uma epidemia nos países ricos e entre as classes ricas dos pobres.

Palpite

O Palmeiras, líder do campeonato brasileiro, tem 54 pontos. Ainda manteria a liderança com 51 pontos. Ou seja, nesta altura do campeonato (30 rodadas e 90 pontos disputados) o título seria conquistado com 56,66% de aproveitamento. Ao final do campeonato (38 rodadas e 114 pontos), este índice é atingido com 64,59 pontos, ou seja, 65 pontos. Isto significa que o Palmeiras precisa vencer quatro jogos em oito para ser campeão. Ou vencer três e empatar três. Ou ainda vencer dois e empatar todos os outros seis. A não ser que outro clube que vem correndo atrás faça uma campanha espetacular. Por exemplo, o Atlético: vencer cinco dos oitos jogos que lhe restam. Ou o Inter: vencer cinco e empatar uma. Ou o São Paulo: idem. Ou o Flamengo: vencer cinco e empatar duas. Ou o Goiás: vencer seis e empatar uma. Ou o Cruzeiro: vencer seis e empatar duas. A sequência do Palmeiras é bem mais fácil do que a do Atlético; dos seus oito jogos, quatro são contra equipes ameaçadas de rebaixamento: Santo André, Fluminense, Sport e Botafogo. Contra o Atlético e o Goiás, tem a vantagem de jogar em casa. Tem ainda o clássico contra o Corinthians e um jogo difícil contra o Grêmio, no Olímpico. O Inter também tem sequência mais difícil do que a do Palmeiras, mas mais fácil que a do Atlético: Grêmio, São Paulo (fora), Botafogo, Barueri (fora), Santos, Atlético (fora), Sport (fora) e Santo André. Se ganhar o Grenal, não seria demais contar com mais nove pontos (os três jogos fáceis em casa), mas precisaria de mais uma vitória fora de casa. O São Paulo tem sequência aparentemente mais fácil (Barueri, Vitória e Sport em casa, Botafogo, fora, além da vantagem de pegar o Inter em casa), mas tem jogos complicados fora: Santos, Grêmio e Goiás. Se vencer o Santos, pode dar a arrancada para o título, desde que vença os quatro jogos em casa. Para o Flamengo, quinto colocado, a arrancada tem que ser ainda mais sensacional, mas, olhando bem sua sequência talvez seja a mais fácil: Botafogo, Barueri (fora), Santos, Atlético (fora), Náutico (fora), Goiás, Corínthinas (fora) e Grêmio. Vencendo o clássico e os jogos em casa, empatar com o Galo será excelente resultado.
O cálculo para disputar a Libertadores deve ser revisto: 62 pontos, talvez menos. A pontuação considerada mínima para o torneio na verdade valerá o título brasileiro de 2009. Isto significa que o Atlético precisará vencer quatro jogos para entrar. É menos do que o time fez até agora. Acontece que a sequência do clube também é mais difícil do que a enfrentada até agora. Para garantir a vaga na Libertadores o Galo terá de jogar mais do que vem jogando. Por isso o jogo contra o Cruzeiro, sem trocadilho, foi crucial.

domingo, 18 de outubro de 2009

Reta final

Vitória, Fluminense, Goiás, Flamengo, Coritiba, Internacional, Palmeiras, Corinthians. Esta é a dificílima sequência final do Atlético no campeonato brasileiro 2009 (em negrito os jogos fora de casa). Cada jogo é uma decisão, basta imaginar o que será enfrentar Flamengo e Inter, no Mineirão, Palmeiras e Goiás, fora. Apesar da vitória surpreendente sobre o São Paulo, o jogo decisivo do Atlético já passou, foi a derrota para o Cruzeiro. Poderia estar hoje a um ponto do Palmeiras e decidir o título no confronto direto, em São Paulo, na penúltima rodada. Daqui pra frente, o Atlético tem dois caminhos: ou joga como campeão (isto significa necessariamente vencer Vitória, Flamengo, Inter e Corinthinas no Mineirão e o Palmeiras em São Paulo) ou comprova a mediocridade de Roth e se conforma com a Sul-Americana. Aposto na segunda hipótese. Pior: vamos perder a vaga na Libertadores para o rival, em ascensão (ajudado pela arbitragem venceu hoje o Botafogo, está em 7º lugar, a quatro pontos do G4 e tem uma sequência muito mais fácil). Meu palpite (pessimista) é que o Atlético fará mais sete a dez pontos e terminará o campeonato com 57 a 60, em sétimo lugar, como no ano passado. Lembremos: em 2008, o time era humilde e seu treinador, Marcelo Oliveira, prata da casa. Este ano, com muito mais pompa e gogó, ficaremos na mesma colocação.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O novo paradigma da comunicação II

ONGs, governos, empresas e organizações diversas formam o novo e pulverizado mercado de trabalho do jornalista na internet

O novo paradigma da comunicação criado pela internet gera novas formas de trabalho para o jornalista. Uma delas é o jornal de jornalistas, sem patrão; mais frequentes, pelos menos por enquanto, são os blogs de jornalistas e as revistas eletrônicas, escritas por especialistas e que contêm mais artigos do que reportagens. Outras formas são os blogs e portais de organizações não governamentais, governos, empresas e organizações diversas. A seguir alguns exemplos desse espectro.

1- Quem quer se informar sobre trabalho escravo e exploração do trabalho no Brasil deve ler o portal Repórter Brasil, do cientista político e jornalista Leonardo Sakamoto, que tem também um blog; o blog é mais pessoal, o portal é noticioso, mas ambos são informativos. Repórter Brasil é produzido por uma ONG de mesmo nome, cujo objetivos é “fomentar a reflexão e ação sobre as diversas situações de injustiça presentes em nossa sociedade, tanto nos casos de flagrante desrespeito aos direitos humanos, como nas condições sociais e estruturais sub-humanas de vida”. A ONG, criada em 2001, tem quatro eixos de atuação: “jornalismo social, projetos de educação e comunicação, combate à escravidão e pesquisa sobre agrocombustíveis”. Ou seja, o jornalismo, que Repórter Brasil faz na internet, é uma das linhas de atuação da ONG, que, ao mesmo tempo, não se limita ao jornalismo. O jornalismo é um instrumento “social” para que a ONG cumpra suas funções de combate à escravidão, educação e pesquisa. Obviamente, para produzir seu portal Repórter Brasil precisa de repórteres, o que significa que faz parte desse novo e pulverizado mercado de trabalho para o jornalista.
http://www.reporterbrasil.org.br

2- Outra iniciativa é a Agência de Informação Frei Tito para América Latina (Adital), criada com apoio e participação do Frei Beto, com os objetivos de levar a agenda social latino-americana e caribenha à mídia internacional, estimular um jornalismo de cunho ético e social, favorecer a integração e a solidariedade entre os povos, entre outros. A Adital reconhece os atores sociais como fontes de informação e democratizadores da comunicação.
http://www.adital.org.br

3- O presidente da República fala diretamente com o público pela internet, no seu blog, o Blog do Planalto. Não se limita a programas semanais no rádio e aparições esporádicas na televisão, ele se comunica várias vezes por dia usando a internet. Pelo Blog do Planalto o leitor (eleitor, cidadão, brasileiro) ficada sabendo de todos os passos do presidente. O blog do Lula, porém, não é escrito por ele, e sim por jornalistas que o acompanham.
Também o ministro Patrus Ananias tem o seu blog, mais pessoal, menos frequente, mas também contendo informações de interesse público e escrito por ele.
http://blog.planalto.gov.br/
http://blogdopatrus.com.br/blog/

4- A Petrobras, maior estatal brasileira, produziu um terremoto ao criar o seu blog. A alegação da “grande” imprensa é que ela seria “furada” pela estatal, uma vez que esta passou a publicar no blog a íntegra das informações e entrevistas dadas à imprensa. Feito um reajuste nesse modelo, pelo qual a versão da empresa é publicada juntamente com a versão da imprensa, o blog segue firme, tendo inaugurado um novo canal de comunicação que está sendo copiado por outras organizações. Tal iniciativa é ao mesmo tempo simples e revolucionária, porque elimina o filtro da “grande” imprensa para as informações, ao mesmo tempo que permite que a estatal pratique a transparência, respondendo com agilidade a qualquer notícia divulgada nos veículos tradicionais. Mais uma vez a produção do blog exige o trabalho de jornalistas.
http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/

5- O youtube do Planalto. O governo federal usa o youtube para divulgar as obras feitas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), programa que está transformando o país, ajudando o presidente Lula a manter seu altíssimo índice de popularidade e que, recentemente, foi decisivo para que o tsunami da crise capitalista mundial não passasse aqui de uma “marolinha”. São pequenos filmes de propaganda e divulgação, no formato do youtube, que seguem caminho descoberto por outras organizações, como o cinema brasileiro e artistas independentes.
http://www.youtube.com/watch?v=UVVElgGDAIs&feature=PlayList&p=E6123ABE04FB57AB&index=0

Como se vê, o novo jornalismo colaborativo se confunde em parte com esse universo também novo e próspero de organizações não governamentais. É nele, como meio de comunicação alternativo, que o novo paradigma da comunicação floresce mais rápida e fortemente. Talvez não seja exagero dizer que, tanto quanto o modelo antigo se sustentava na iniciativa privada, o novo paradigma depende de organizações da sociedade e de recursos diversos, inclusive internacionais, e de programas sociais do Estado, para se viabilizar. Assim é que o Repórter Brasil, por exemplo, sobrevive de colaborações públicas e privadas, legitimadas por sua importante atuação no combate ao trabalho escravo.

Por trás dos blogs do governo se pode identificar a necessidade (além da competência do ministro Franklin Martins): o governo Lula, bem como a Petrobrás estão sob bombardeio permanente da “grande” imprensa – o partido do capital – e usam os blogs para se defenderem.

Paralelamente se pode ver o atraso de outros governos, como a prefeitura de Belo Horizonte, que não dispõe sequer do canal “fale conosco” nas suas páginas na internet – quem quiser se dirigir à autoridade municipal deverá escrever para a Ouvidoria (por sinal, atenciosa), depois de gastar tempo procurando. O que se percebe é que os governos estão preocupados em manter a comunicação interativa apenas naqueles assuntos que lhes interessam, tais como pagamento de taxas, impostos etc.

Nessa comunicação pulverizada, o Twitter é uma ferramenta utilíssima, ao possibilitar ao leitor receber informação atualizada do que publicam aquelas pessoas ou instituições que lhe interessam. É uma nova forma de se manter atualizado sobre tudo, permanentemente.

O novo paradigma da comunicação

O jornalista é um animal em extinção, porque demora a se adaptar às novas e revolucionárias condições de exercício da profissão

O jornalismo está mudando e o jornalista será talvez um dos últimos a perceber isso. Nós, que já denunciamos tantas espécies ameaçadas de extinção, não percebemos que somos uma também. Não me refiro ao fim da exigência do diploma, decretada por Gilmar, O Supremo, embora essa decisão reforce a tendência. Também não estou me referindo à péssima qualidade do jornalismo praticado do país, que, eliminando a reportagem, elimina também o repórter. Estou me referindo à internet.

A internet está criando um novo paradigma de comunicação. Quando as pessoas trocam um sistema por outro, quando este outro perde adeptos enquanto o novo prospera, há uma mudança de paradigma. É o que está acontecendo na comunicação. Rapidamente a internet está substituindo jornais, revistas, televisões e rádios como principal meio de comunicação. O modelo antigo tinha três características principais: 1) a propriedade dos meios de comunicação concentrada em grandes empresas; 2) a produção da informação por jornalistas profissionais; 3) o consumo de informações pelo público.

A internet subverteu esse modelo. Hoje, para produzir e difundir informações não é preciso mais ser dono de um jornal ou revista, concessionário de emissoras de tevê e rádio, não é preciso contratar uma grande equipe de profissionais, não é preciso gastar com a distribuição da publicação ou com a transmissão de sons e imagens. Não dependemos mais dos empresários (pelo menos do empresário tradicional da comunicação) para escrever, publicar e chegar ao leitor. Qualquer jornalista pode ter seu blog – seu jornal.

Também não é preciso ser profissional para produzir informações. Não é só o jornalista que pode ter seu blog, é qualquer pessoa. Qualquer pessoa reproduz informações e as distribui por meio do correio eletrônico, qualquer pessoa escreve textos e os distribuem aos amigos e conhecidos, entra em blogs e portais, comenta, critica e interfere na informação. Qualquer pessoa com um celular pode fotografar ou filmar um fato jornalístico e colocá-lo na rede com enorme repercussão. Todo mundo pode escrever, todo mundo pode participar da produção da informação.

Jornalismo se tornou uma atitude.

É por isso que o jornalista está em extinção. O jornalista tradicional, é claro. Continua existindo espaço e função para o jornalista – em certa medida, a internet ampliou extraordinariamente o “mercado” para o jornalista profissional, uma vez que, agora, qualquer organização pode tem seu próprio veículo de comunicação e falar diretamente ao seu público, sem depender da intermediação dos jornais, revistas, televisões e rádios.

Esse novo profissional, porém, não é mais o autor solitário da informação, não é o dono da verdade, não é o sujeito que seleciona o que o leitor vai ler (os donos dos veículos tradicionais fazem ainda uma triagem da triagem, seja na edição, seja na pauta, seja na “linha editorial”, seja na “falta de espaço”, seja na censura mesmo). Ele precisa trabalhar em cooperação permanente com o leitor. O novo jornalismo é um jornalismo colaborativo, no qual, além de produzir informação, o jornalista atua como intermediário, em contato com os leitores e as fontes, que também se misturam.

Agilidade, competência e conhecimento para produzir a informação correta de forma colaborativa com o leitor é o lema deste novo jornalismo. Na ausência de jornalistas formados ou profissionais atualizados, o novo paradigma se impõe com leigos, no fenômeno dos blogs. O melhor exemplo disso é o blog do Luís Nassif, certamente o jornalista brasileiro que melhor compreendeu e põe em prática o novo modelo, cercado de uma comunidade de leitores qualificados que já ultrapassou 6 mil membros, no momento em que escrevo. Em contraposição, sindicatos e Fenaj, que não criam nem estimulam a criação de jornais de jornalistas na internet, se comportam como pássaros de gaiola, que veem a portinha aberta, mas não sabem mais voar. São sindicatos de um animal em extinção.