quinta-feira, 30 de julho de 2026

Corrupção, governo Zema, imprensa e mineração em Minas Gerais

Apesar das catástrofes de Mariana e Brumadinho, de repercussão internacional e prejuízos gigantescos e permanentes para Minas Gerais e para o Brasil, principalmente para a coletividade e para o ambiente, a destruição produzida pela mineração no estado aumentou exponencialmente nos últimos anos, com a corrupção das autoridades que deveriam coibi-la e o silêncio da chamada "grande imprensa", comprada pela publicidade farta e outros agrados. O caso mais escandaloso é o da Serra do Curral, em Belo Horizonte. Tá tudo dominado, exceto, aparentemente, a Polícia Federal. 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Música do dia: Emanuelle, com Marie Espinosa e Quentin Bachelet

Gosto muito da música, mas confesso que a razão de publicar este vídeo é a beleza de Marie Espionsa.

 

Elias Jabbour para presidente

O título é uma provocação, é claro, mas certamente o Brasil estaria melhor se ele governasse e não Lula. Vladimir Safatle, Jones Manoel e Elias Jabbour são os políticos mais lúcidos do Brasil hoje. Muito diferentes, eles convergem no amplidão do seu conhecimento e na capacidade de pensar com a própria cabeça, para além de repetirem cartilhas e reverenciarem o Lula, que é o que a esquerda brasileira fez no último meio século. Dessa forma, eles conseguem ver a realidade nacional e mundial, porque, em 2026, é impossível olhar o Brasil sem olhar ao mesmo tempo o mundo. Elias Jabbour, em especial, é um sujeito admirável, pela sua origem, condição individual e trajetória, as quais conta nessas entrevistas. Isso já o torna digno de respeito, mas o mais importante é sua posição sobre o desenvolvimento econômico contemporâneo, baseado no seu conhecimento da experiência chinesa. Gostaria muito de vê-lo com poder no governo nacional, não esse poder miúdo de ministros e até presidente e governadores, num eterno toma-lá-dá-cá, que não enxerga um palmo além do nariz, mesquinho e imediatista, que não pensa no futuro nem no povo, mas num governo nacional verdadeiro, com planejamento, racionalidade e busca do bem-estar geral. Me impressiona que ele não tenha até hoje (essa série de entrevistas é uma tentativa medíocre de fazer isso) uma assessoria competente que o ensine a dar entrevistas, ordene seu pensamento (muito rico e por isso confuso), o interrompa sempre que necessário e reoriente suas respostas, ajude-o a falar com mais calma e outras qualidades necessárias aos políticos. Afinal, ele tem 50 anos e é candidato a deputado federal. Jabbour é o avesso do Lula, que fala esplendidamente, mas não tem conteúdo. Ele tem a honestidade que falta aos políticos desse eterno centrão brasileiro, do qual fazem parte, inacreditavelmente, a extrema direita e a pretensa esquerda. 

sábado, 25 de julho de 2026

Revolta da Chibata: reparações mostram o que mudou e o que não mudou no Brasil

Não consegui achar uma notícia decente sobre esse fato. Há muitas coisas a dizer a respeito. A primeira delas é como é difícil achar notícias no celular. No notebook é mais fácil, mas o sistema de busca do celular (Google) é precário e me encaminha para o que ele quer e não para o que eu quero, além do que muitos veículos, especialmente os velhos jornalões, não abrem seus conteúdos para todos. A perda de tempo procurando uma notícia é enorme, e ainda maior porque, quando a acho, tenho que superar os anúncios, numa quantidade tão grande que parece que redes sociais são catálogos de publicidade com alguns conteúdos, muito mais do que televisão e rádio. De fato, buscar informação boa no celular é uma tarefa quase impossível, o que torna compreensíveis a desinformação e a ignorância nas quais a população está imersa hoje, pois consome os lixos oferecidos pelas big techs

Dito isso, volto à primeira observação. Em lugar nenhum consegui encontrar uma notícia decente sobre esse fato que vou resumir abaixo, acrescentando comentários. A Globo News fez uma mistura querendo dar relevância ao fato, com o comentário da Flávia (esqueci seu sobrenome), que é uma boa jornalista, mas a notícia propriamente se perdeu e ainda mais sua profundidade. A TVT, um canal dos trabalhadores, tinha obrigação de dar a notícia de forma adequada, mas não consegue, fica na superficialidade e na gracinha da canção do João Bosco e do Aldir Blanc. E até o Farol Brasil, pretensamente da esquerda revolucionária, ignora a gravidade do assunto, faz uma confusão danada e também não consegue abordar adequadamente a notícia. As notícias escritas são superficiais. E no entanto, no próprio YouTube há uma grande produção de conteúdos disponível sobre João Cândido e a Revolta da Chibata. No fim, não achei nenhuma matéria, a melhor foi esta que reproduzo abaixo, da fonte, isto é, o Ministério Público Federal, autor da ação, mas ela é anterior à decisão e também não trata adequadamente do assunto, que tem uma relevância enorme par o Brasil e pode -- e precisa -- ser abordada sob diversos aspectos.  

Curiosamente, a sentença foi dada no dia 21/5/26, mas só dois meses depois virou notícia. Pior: uma olhada nas matérias publicadas leva à conclusão que ninguém foi à fonte, isto é, a sentença do juiz, coisa que eu também não fiz, porque não consegui ter acesso a ela, apesar de tentar, mas qualquer jornalista pautado poderia fazê-lo. Aparentemente, alguém fez a matéria inicial e os demais veículos saíram copiando ou todos receberam o mesmo press release. Mesmo veículos que eu considero responsáveis fizeram isso. Há inclusive uma divergência de informação nas notícias que mencionam ora R$ 200 mil, ora R$ 300 mil como valor da indenização. 

Por sorte, consegui ler a notícia da Folha de S. Paulo, que por sua vez me levou a outra, de forma que entendi que se tratam de duas sentenças, mas exceto a Folha nenhum veículo menciona isso, o que no jornalismo que minha geração praticava era inaceitável. No JB, era norma de redação fazer um sub-lead com a memória do assunto. Ambas as sentenças foram proferidas pelo mesmo juiz, a primeira em maio, a segunda em julho. 

Em primeiro lugar, a notícia, que é a seguinte. 

O juiz federal substituto Mario Victor Braga Pereira Francisco de Souza, da 4ª Vara da Justiça Federal do Rio de Janeiro, condenou a União a pagar indenização de R$ 300 mil por danos morais aos familiares do marinheiro João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata, falecido em 1969. A ação, movida por Adalberto Cândido, de 87 anos, único filho vivo de João Cândido, se refere a ofensas feitas pelo comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, em carta enviada à Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, em abril de 2024, na qual manifesta sua oposição a que o nome do marinheiro seja incluído na relação de heróis e heroínas da pátria. O juiz rejeitou os pedidos de pagamento referente a promoções retroativas, contagem de tempo de serviço e pensões militares. 

Em outra sentença, proferida em maio passado, em ação movida pelo Ministério Público Federal, o mesmo juiz condenou a União a pagar indenização de R$ 200 mil por danos morais, pelos mesmos crimes. Cabem recursos ao Superior Tribunal de Justiça. A homenagem ao marinheiro é um projeto de lei do deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ). Aprovado no Senado e pela Comissão de Cultura da Câmara, o projeto ainda não foi votado pela Câmara. 

Agora os comentários. 

Olsen (será parente do fotógrafo Jimmy Olsen, colega do jornalista Clark Kent no Planeta Diário e identidade secreta do Superman?) se referiu a João Cândido e seus companheiros como "abjetos marinheiros", seu comportamento como "reprovável exemplo de conduta para o povo brasileiro" e à Revolta da Chibata como "fato opróbio" e "deplorável página da história nacional". O comandante da Marinha do governo Lula afirmou que os revoltosos desrespeitaram a hierarquia e a disciplina e usaram equipamentos militares para chantagear a nação, que buscavam, deliberadamente, vantagens corporativas e ilegítimas, e que há enorme diferença entre reconhecer um erro e enaltecer um heroísmo infundado. 

"Nos dias atuais, enaltecer passagens afamadas pela subversão, ruptura de preceitos constitucionais organizados e basilares das Forças Armadas e pelo descomedido emprego da violência de militares contra a vida de civis brasileiros é exaltar atributos morais e profissionais, que nada contribuirão ao pleno estabelecimento e manutenção do verdadeiro Estado Democrático de Direito", conclui a carta. 

Em outras palavras, a Marinha do governo Lula usou a tentativa de golpe de 8 de janeiro para vilipendiar a memória dos marinheiros revoltosos de 1910, misturando no mesmo caldo o governo militar golpista do bozo e um movimento justo de marinheiros pobres e negros contra o açoite como castigo aplicado corriqueiramente pelo Estado brasileiro 22 anos depois de abolida a escravidão. A imprensa, os jornalistas, comentaristas e analistas, a pretensa esquerda que está no governo e a esquerda pretensamente revolucionária engoliram isso, por conveniências ou por falta de convicções. Também a sentença do juiz tangencia a questão principal, isto é, o fato de que, 116 anos depois, a essência do Estado brasileiro continua a mesma. No Brasil monarquista, no Brasil da primeira república ou no Brasil do Lula, os brancos, ricos, proprietários e oficiais mandam e os pobres, pretos, trabalhadores e subalternos obedecem ou são mortos. 

A íntegra da carta está disponível no saite da Marinha e pode ser lida na íntegra clicando aqui. O leitor poderá constatar que não carrego na tinta, ao contrário, a carta sugere preconceitos inacreditáveis, estes sim inaceitáveis.  

Isso é a ponta do aicebergue dessa notícia. A Revolta da Chibata, que até hoje só mereceu homenagens populares, como a célebre canção e samba enredo de escola de samba, é de fato uma página deplorável da história do Brasil não pelos motivos alegados na carta, mas sim pela conduta do Estado nacional, à qual o comportamento do almirante branco se incorporou como capítulo mais recente. Em 1910, o governo do marechal Hermes da Fonseca aceitou as reivindicações dos poderosos revoltosos, que controlavam a esquadra nacional e sitiavam a capital federal, e os marinheiros foram anistiados. Finda a revolta, a anistia foi cancelada, 18 marinheiros foram presos no Natal e encarcerados numa cela minúscula com água e cal durante três dias, 16 morrem asfixiados, só João Cândido e mais um sobrevivem. Outros marinheiros foram enviados para o Acre, vários foram assassinados e jogados no mar. João Cândido foi considerado louco e internado. 

Outros detalhes escabrosos podem ser conhecidos em vídeos, inclusive áudio de entrevista com o próprio "almirante negro", que faleceu aos 89 anos. A Revolta da Chibata não é exceção na história do Brasil, que está repleta de rebeliões populares tratadas da mesma forma pelos eurodescentes ricos e poderosos e apagadas da memória nacional. A Revolta da Chibata é uma história exemplar do Brasil verdadeiro que nunca chegou ao poder, nem com Lula, o operário, como mostra este episódio recente. A Marinha ainda a denomina como o comandante Olsem a chama na carta: "Revolta dos Marinheiros". Os governos civis e ditos democráticos não fizeram o que um governo efetivamente democrático deve fazer: uma retratação pública retumbante, com homenagens e atos necessários a transformar todos os revoltosos de 1910 em heróis nacionais, não só a inclusão do nome do seu líder no "livro de aço" do Panteão da Pátria. Indenizações não significam nada, a não ser gerar notícias superficiais, basta ver a diferença entre o valor que o MPF pediu -- R$ 5 milhões -- o que concedeu o juiz.  

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O programa nuclear brasileiro e o desmonte do desenvolvimento nacional

A entrevista é muito ruim, o entrevistado é daqueles cientistas que sabem muita coisa e consideram muito importante o que sabem, e de fato é, mas não sabem contar a história para os leigos, que não conhecem o assunto, e Breno Altman não se sai muito bem tentando amestrá-lo. Entretanto, confirma o que está cada vez mais claro na tragédia brasileira: até a ditadura militar, o Brasil tinha um projeto de desenvolvimento nacional. Nos anos 80, o projeto entrou em crise e os governos civis que vieram em seguida abriram mão dele; aderiram ao neoliberalismo e optaram por transformar o país numa nova colônia agroexportadora. O projeto nuclear brasileiro era autônomo, fez grandes progressos e foi abandonado no governo Collor. Uma geração inteira de cientistas e técnicos foi desperdiçada e não deixa sucessores. Aconteceu o mesmo em todas as áreas de ciência e tecnologia, exceto talvez na agricultura. 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Jones Manoel, Ciro Gomes e Lula

Jones Manoel conta nesse vídeo, com simplicidade e objetividade e sem mitificar, sua trajetória de vida. Admirável, mas nada romântica, como nas ficções burguesas. Ao contrário, o que ele faz é desfazer o mito da meritocracia. Desde Ciro Gomes não surgia um político tão conectado na realidade quanto Jones Manoel. Desde Lula não aparecia um pernambucano falando tão diretamente ao povo quanto ele. Quem sabe ele não junta as qualidades dos dois -- as qualidades que Ciro tem e não pôde exercer como presidente, as qualidades que Lula não teve enquanto exerceu a presidência -- e conquista a maioria do eleitorado brasileiro na eleição para presidente em 2030? É o que desejo, mas não me iludo achando que basta eleger um bom presidente para que o Brasil deixe de ser a colônia do imperialismo estadunidense em que o transformaram os governos democráticos neoliberais burgueses depois da ditadura militar. Jones Manoel também não se ilude, tem uma visão mais ampla da política, que passa pelo empoderamento popular, e é isso que me anima.  

terça-feira, 21 de julho de 2026

Itamar Franco e a candidatura do Patrus Ananias ao governo de Minas

Patrus Ananias foi o prefeito mais importante de Belo Horizonte desde Juscelino Kubitschek. Implantou o Orçamento Participativo, instrumento revolucionário de políticas públicas, copiado pela esquerda dos EUA. Sua trajetória normal, como tantos prefeitos da capital, entre eles o próprio JK, seria tornar-se governador logo em seguida, mas alguma coisa aconteceu no caminho e a ascensão do Patrus foi interrompida. 

O que aconteceu foi a eleição de Itamar Franco governador em 1998, um fenômeno pouco estudado e que teve consequências decisivas para a política mineira, uma delas, percebo agora, o golpe na ascensão do Patrus. Outra consequência nefasta eu já tinha notado há muito tempo: em 2002, Itamar abriu mão da reeleição, não sei por que, e ungiu Aécio Naves, um governador eleito e reeleito que deixou péssima herança estadual, no seu estilo de governar, e nacional, ao dar sinal para o golpe, depois de perder a presidência para a Dilma, em 2014. Itamar está na origem de todos esses males. 

Sempre que faço retrospectos como este, constato que nossa ciência política é superficial, pois não analisa as consequências do jogo político, das decisões, dos atores, e assim perdemos o sentido da história. História. Não só a eleição de 1998, mas a própria trajetória do esquecido e desvalorizado Itamar é um fenômeno que merece estudo. Um político em particular e um indivíduo em geral não são importantes só por suas obras, mas também pelos acontecimentos que influenciam. Itamar tomou decisões arriscadas e foi premiado pela sorte, desde que se elegeu senador em 1974, quando ninguém mais quis disputar, porque era derrota certa. E depois tornando-se vice do Collor, o que o levou à presidência, com o impeachment de 1992, e ao patrocínio do decisivo e definitivo Plano Real, sob sua presidência. 

Como julgar Itamar Franco? Ele foi o senador destemido eleito pelo MDB em 1974, estrela mineira numa eleição memorável que começou a mudar o jogo contra uma ditadura militar que já durava uma década. Foi também o vice do Collor. Foi o presidente que implantou o Plano Real, acabou com a inflação e deu ao Brasil os melhores anos da sua história recente, quando um real valia um dólar. Ungiu FHC como seu sucessor, mas quatro anos depois, como oposicionista, decidiu concorrer ao governo de Minas e foi eleito. E em 2002 abriu mão da reeleição e ungiu Aécio. 

A eleição de 1998 foi singular, opôs Itamar a FHC no cenário nacional e no cenário estadual. FHC ganhou a eleição nacional, foi reeleito, mas Itamar ganhou a eleição estadual, derrotou o candidato tucano, apoiado por FHC, que também tentava a reeleição. A disputa normal naquela eleição seria entre Eduardo Azeredo, o governador tucano, e Patrus, do PT, ex-prefeito da capital, político com grande prestígio em ascensão, que tinha feito seu sucessor na prefeitura, em 1996, Célio de Castro. Azeredo deveria ter sido reeleito, como foi FHC, Patrus iria para o segundo turno e formaria cacife para vencer em 2002, juntamente com Lula. A história de Minas e do Brasil seria outra, mas Itamar embaralhou o jogo, com seu prestígio de ex-presidente, tirou Patrus do segundo turno e venceu Azeredo. 

A política, como a própria vida, é um jogo de xadrez: cada peça mexida muda o jogo. Itamar mudou o jogo em Minas e consequentemente no Brasil, ao interromper a ascensão do íntegro Patrus e catapultar o indigno Aécio. Itamar é uma figura singular na política brasileira (nunca foi só um político mineiro, porque, desde o mandato de senador, teve sempre projeção nacional), ao mesmo tempo coerente e imprevisível, emedebista histórico que saiu do partido duas vezes (e voltou), fez seus sucessores na presidência e no governo estadual, abriu mão de ser candidato à reeleição, foi governador depois de ser presidente, nacionalista e entreguista, baiano e mineiro, nascido num navio, mulherengo afeito a ridículos (quem, a não ser os mais jovens, não se lembra do episódio da atriz fotografada sem calcinha do seu lado no camarote presidencial durante desfile de escolas de samba no carnaval carioca?), enfim, um político contraditório, errante e bem-sucedido, que nunca gozou da simpatia da mídia e foi mesmo espezinhado pela imprensa paulistana. 

No fim das contas, pelas consequências dos seus atos, Itamar Franco (1929-2011) foi um político nefasto para o Brasil: nos legou o Real, que, de plano para controlar a inflação, tornou-se política econômica que fez o país retroceder a colônia agroexportadora; nos legou FHC, que, além de transformar o Real em política econômica, inventou a reeleição corrompida; nos legou Aécio Neves, um desastre para Minas Gerais e para o Brasil; e de quebra impediu a ascensão do Patrus, que certamente teria tornado muito melhor a história de Minas e provavelmente a do Brasil. 

A última vez que entrevistei Itamar Franco foi em janeiro de 2010, numa breve passagem pelo diário Hoje em Dia. Eu o procurei, não encontrei, deixei recado e ele retornou, pessoalmente. Lembro que alguém gritou na redação: "O presidente Itamar quer falar com você". Não era uma deferência especial, acho que ele era assim com todos os jornalistas, pois eu mal o conhecia. Ademais, em 2010, sem mandato, no auge da Era Lula e do reinado Aécio, quem ligava para Itamar? Só mesmo um jornalista na seca de notícias de janeiro, buscando repercussão de um assunto no qual ele tinha tido papel importante e que não lembro mais qual era. Ex-presidente sempre rende notícia de primeira página, mesmo que não diga nada importante. Minha primeira chamada de capa no JB foi com matéria sobre o ex-presidente Figueiredo, um ano depois que deixou o cargo, pedindo para ser esquecido: o povo tinha atendido seu pedido. Lembro da conversa com o ex-presidente Itamar: atencioso e simpático, falou sem pressa sobre tudo que eu perguntei e, ao se despedir, ainda disse que poderia lhe telefonar sempre que precisasse. 

A eleição de Patrus governador em 2026 seria um recomeço da história de Minas com atraso de quase três décadas. Parece impossível. Ele não conseguiu nem se eleger novamente prefeito, em 2012. E nessa história entram outras peças do xadrez político: a esdrúxula e fratricida divisão do PT mineiro, que tinha do outro lado o ex-governador Fernando Pimentel, de triste memória, herdeiro bem-sucedido e mal-agradecido do Patrus. Foi em 2012 que o mundo acabou, conforme a profecia. Eram outros tempos, animadores ainda, mas já sob a deletéria administração Lacerda, o prefeito de rima fácil. A derrota do Patrus foi um sinal de que estava por vir. Todavia, tantas coisas inacreditáveis aconteceram depois para o mal, por que não pode acontecer uma para o bem, agora? 

domingo, 19 de julho de 2026

Melhor do que a final da Copa

A disputa do terceiro lugar, Inglaterra 6 x 4 França, foi sensacional, mas, no momento em que escrevo, intervalo do primeiro para o segundo tempo (tem que explicar, porque agora futebol tem um punhado de intervalos...), essa aula do Breno Altman sobre o futebol é muito melhor do que a final da Copa entre Espanha e Argentina. 

É interessante ouvir uma análise muito diferente daquela que eu publiquei aqui no dia 11. Altman, que acompanha futebol muito mais de perto do que eu, tem um olhar e informações que eu não tenho e faz comentários e propostas interessantes. O que eu disse oito dias atrás é o óbvio para mim: a fase de ouro do futebol brasileiro, de 1950 a 1970, que se estendeu ate a Copa de 1982 e àquela geração de jogadores, que jogou ainda, em nível inferior, em 1986, se deveu a condições sociais específicas, o futebol moleque jogado por todos os meninos brasileiros nos inúmeros espaços públicos e privados existentes nas cidades brasileiras em crescimento a partir da Revolução de 1930. Ou seja, era parte do projeto desenvolvimentista nacional. Em certo momento, essas condições acabaram. Hoje, os meninos moram em apartamentos, não existem quintais, lotes vagos e campos de várzea, as famílias têm poucos filhos, não há aquelas turmas de rua, a meninada não sabe o que é jogar bola o dia inteiro, não há quantidade nem qualidade para formação de craques, jogar bola não é uma brincadeira de moleques. Meninos (e meninas, cada vez mais) que quiserem jogar bola terão que jogar em clubes ou escolinhas, futebol de salão, soçaite ou de campo. O jeito brasileiro de jogar bola se curvou ao jeito europeu, o esporte foi dominado por empresários que formam jogadores para exportação, jogador brasileiro virou commodity: empresários os vendem ainda crianças para clubes europeus que tratam de industrializá-los e revendê-los a peso de ouro para o mundo inteiro, nós inclusive, em campeonatos vistos pela televisão e internet. Há muito mais coisas em torno disso, mas o essencial na minha opinião é que as condições sociais mudaram. Para completar, o governo petista elitizou os estádios para cumprir as exigências da Fifa para a Copa de 2014, de forma que o povo também perdeu a paixão que tinha pelo esporte. E não tem vínculos com a seleção, porque os convocados não jogam nos clubes brasileiros, jogam em clubes europeus. De forma que o futebol somente conserva um enganoso prestígio porque há enormes interesses comerciais envolvendo-o, mas a "pátria de chuteiras" já não existe mais. 

No novo contexto do esporte, para que a Seleção e os clubes voltem a fazer parte da vida do povo e para que os brasileiros voltem a praticá-lo com paixão, será preciso uma revolução, como em tudo mais nessa decadente nação. O futebol brasileiro precisa renascer praticamente do zero. Em primeiro lugar, o Estado precisa implantar uma política pública de futebol nas escolas infantis e de ensino fundamental, médio e universitário, bem como precisa criar campos e espaços em parques em todos os bairros para a prática do futebol, não só campos oficiais, mas também de terra e gramados para se jogar pelada, jogos com qualquer número de jogadores, informais, brincadeiras. Os estádios precisam ser repensados e reformados para que conforto não signifique ingresso caro e afastamento do povo dos estádios. Os campeonatos em todos os níveis devem ser organizados com seriedade, amadores, profissionais, municipais, estaduais, nacional, e neste, obviamente, para que mereça o nome, é preciso que joguem clubes de todos os estados, não só os do Leste, Sul e mais uns poucos. Como é que uma nação que tem 26 estados e um distrito federal pode ter um campeonato com 20 clubes? É só para copiar, em mais uma coisa, os campeonatos europeus. Enfim, para que o futebol brasileiro volte a empolgar torcedores e brilhar no campo, terá de começar uma nova fase, organizada, planejada, voltada para a coletividade. A fase de ouro do futebol moleque espontâneo passou e a fase da bagunça e da corrupção precisa ser superada. 

PS: A final da Copa de 2026, uma copa que teve jogos sensacionais e seleções brilhantes (torci pela Inglaterra, pela qualidade do seu time) e ao mesmo tempo foi marcada mais que nunca pela interferência de interesses políticos e comerciais (onde já se viu um presidente de país sede cancelar um cartão vermelho para um jogador da sua seleção? Que vergonha), terminou e a Espanha se tornou bicampeã vencendo por 1 a 0. Foi um jogo horroroso, mas pelo menos a Argentina, que quase não pegou na bola e não deu um chute a gol, não foi campeã. Se fosse, eu não ia mais querer ver jogos de copa do mundo. 

Música do dia: Aqui, oh!, com Milton Nascimento e Toninho Horta

A letra é do Fernando Brant (não sei quanto TH, autor da melodia, participou dela). Sempre identifiquei essa música com a peça Oh! Oh! Oh! Minas Gerais, de J. D'Ângelo e Jonas Bloch, mas parece que não têm relação, embora contemporâneas, o fim da década de 1960. F.B. é o grande poeta da sua geração mineira, escreveu sobre os sentimentos mineiros, especialmente dos jovens. Sair de Minas sempre foi uma obsessão dos mineiros. Minas é muitas e Belo Horizonte é uma cidade artificial e fascinante para os do interior, porque moderna, mas limitada, e por isso só local de passagem para grandes artistas, feito Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, autor da definição supracitada, Fernando Sabino e outros. Além de políticos, como Juscelino Kubitschek. A fixação com o mar, o Rio de Janeiro, então capital e sempre a cidade maravilhosa, símbolo do país. Foram e não voltaram, assim como o Clube da Esquina, mas então começou uma coisa diferente, naquela geração: alguns ficaram, alguns voltaram. Na minha geração nasceu uma espécie de movimento de afirmar a permanência em Belo Horizonte, em Minas: não era preciso sair para fazer sucesso. Galpão, Corpo, Ponto de Partida, Skank, Pato Fu etc., reorçados pelos do Clube da Esquina que ficaram ou voltaram. "Quem sai da terra natal em outros cantos não para", cantou Fagner, do Pessoal do Ceará, outro bando de migrantes, do Nordeste para a metrópole. O que significa isso? Jornalista, conheço muitos que foram para São Paulo e para o exterior e nunca voltaram. Independentemente da profissão, sair da terra natal é um empreendimento aventureiro e doloroso ao mesmo tempo. Estranho num lugar, o que resta ao migrante? O trabalho, as relações profissionais, as amizades. É preciso encontrar um amor, casar, ter filhos, formar família, criar raízes no lugar. Nós, brasileiros, temos experiências de migração, todas elas forçadas, aforas as citadas aventureiras: os indígenas, obrigados a fugir dos europeus colonizadores para o interior, para a floresta; os africanos, trazidos à força para trabalhar como escravos na agricultura exportadora; os operários europeus em busca de trabalho no Novo Continente; os nordestinos fugitivos da seca. Os mineiros do norte também fazem essa migração forçada. Samba de Orly: o Rio de Janeiro é o oposto: os cariocas querem voltar. Quem conhece o Rio de Janeiro sabe que é um lugar grandiosamente encantador. O mundo certamente tem outras cidades assim, que não conheço. No entanto, no que transformamos o Rio? O mesmo posso dizer de Belo Horizonte, que, artificial, poderia ser uma cidade maravilhosa também, sem seu crescimento fosse planejado como a construção. O que fizeram dela? 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Elias Jabbour e o projeto da esquerda para o Brasil

Há muitas coisas a dizer sobre essa entrevista do Elias Jabbour. A primeira é que ele é, ao lado do Jones Manoel e do Vladimir Safatle, o intelectual mais brilhante da esquerda brasileira (e já que não há intelectuais na direita, do Brasil). A segunda coisa é sobre a capacidade dos autistas. Ele é autista, assim como a exuberante Suzana Herculano e o Messi, e o que os autistas fazem é impressionante. A terceira coisa a dizer é que grande parte, senão tudo, mas a essência do pensamento do Elias Jabbour vem sendo exposta pelo Ciro Gomes desde 1996, no livro O Próximo Passo, que escreveu em parceria com Roberto Mangabeira Unger, uma crítica ao governo FHC e uma proposta para superar o caminho que o Brasil continuou segundo nos governos Lula e Dilma. Em resumo, trata-se do seguinte. O desenvolvimento brasileiro entrou em colapso com o aumento internacional do preço do petróleo que fez disparar a dívida externa e a inflação. Foi isso inclusive, a incapacidade de resolver esse problema numa ditadura de direita corrupta e incompetente, que levou à derrubada do regime militar. Os governos civis "democráticos" se empenharam em: 1) dar prioridade ao combate à inflação; 2) adaptarem o país à nova ordem internacional neoliberal. Foi uma demonstração evidente de que as elites brasileiras não tinham uma solução para a questão do desenvolvimento nacional interrompido e que se submetiam aos modelos impostos de fora. Só Ciro Gomes (e Mangabeira Unger), que eu saiba, se opuseram a esse modelo nos últimos trinta anos. A disputa entre esquerda e direita ficou em torno de questões marginais, ainda que importantes, numa disputa ideológica que criou condições para a praga do fascismo. A quarta coisa a dizer sobre a entrevista é que em 2010 eu escrevi um livro, 60 Anos de Grandes Obras e Histórias: A Construção do Brasil, publicado pela Ideia e patrocinado por uma multinacional, que aborda exatamente o pujante desenvolvimento brasileiro a partir da década de 1940, que durou décadas, atravessou governos, inclusive a ditadura militar, foi interrompido na crise dos anos 1980 e tinha sido retomado pelo governo Lula, com o PAC. O Brasil tem um projeto nacional de desenvolvimento, mas ele foi interrompido no governo Collor e o governo FHC escolheu outro caminho, de "estabilização", que escolheu uma nova posição para o país na economia internacional, de exportador de matérias-primas e importador de tecnologias e produtos industrializados. O que o Jabbour diz é muito simples, mas tem duas ou três coisas fundamentais pra gente compreender o Brasil atual e uma delas é que nosso esquerda é uma merda, que não entende nada da nossa história e importa teorias estrangeiras que nos mantêm colonizados. A direita é entreguista e capacho do imperialismo, além de reacionária, autoritária, estúpida, burra e ignorante. A burguesia nacional, como qualquer burguesia, quer ganhar dinheiro, só isso, não importa de onde ele vem. Ela não vai fazer nenhuma revolução nem liderar nada, como pretendia o partidão e a ideologia marxista-leninista tradicional, mas, se um projeto nacional lhe der a oportunidade de desenvolver o país, ela vai aderir. E esse projeto tem que vir da esquerda, que é o único, digamos, setor da sociedade brasileira que pensa. Isso, que a esquerda brasileira não tem um projeto nacional, está cada vez mais claro e foi colocado na ordem do dia pelos intelectuais citados no começo e por outros, que estão ressuscitando os ideólogos da Polop, Rui Mauro Marini e outros, que fizeram o mais avançado esforço de compreender o Brasil e formular um projeto revolucionário nacional. Jabbour elogia o trabalhismo e critica o PT e o Lula, ao mesmo tempo elogia o PT e o Lula. Está certo, porque o problema do PT não é existir, é ter seguido o caminho que seguiu. A esquerda devia dirigir o PT com ideias e guiar o Lula, mas foi o Lula que guiou o PT, com seu projeto pessoal de poder, e o PT aderiu ao neoliberalismo. Lula é errático, pode ser neoliberal ou desenvolvimentista, e o PT o acompanhou. Foi uma escolha ideológica travestida de adaptação às condições históricas, que Jabbour demonstra terem sido equivocadas, pois havia outro caminho, o que não havia era lucidez, um projeto próprio, de esquerda e socialista, como tem a China, por exemplo. Se o Brasil, na década de 1980 tivesse feito outra escolha, a de crescer com capital próprio e não se submeter ao FMI e ao Consenso de Washington, seria hoje uma potência maior do que a China. E disso vem mais uma questão: por que os brasileiros são assim? Por que os líderes mais brilhantes dos últimos cinquenta anos, civis e intelectuais, de esquerda e progressistas, capitularam ao neoliberalismo e fizeram o país retroceder à condição de colônia agrária exportadora, que tinha sido superada com a Revolução de 1930? A situação brasileira atual é terrível, a direita fascista se tornou muito influente, a situação climática coloca a humanidade toda diante de catástrofes crescentes, não há solução que não passe pela prioridade ao ambiente, mas parece que finalmente a esquerda começa a pensar e compreender que é quem ela quem tem de liderar a revolução brasileira e para isso precisa ter boas análises e projetos. A chamada Era Lula está no fim e única esperança para os brasileiros é que ela seja superada por um projeto de esquerda e não pelo caos fascista.    

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Música do dia: Samba do Crioulo Doido, com Demônios da Garoa

Rui Mauro Marini foi quem melhor compreendeu a posição do Brasil no capitalismo mundial, mas foi Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, quem melhor interpretou a história do Brasil.

sábado, 11 de julho de 2026

O que aconteceu com o futebol brasileiro?

É sempre bom ouvir previsões e análises depois que os acontecimentos esperados passaram. Elas mostram como nossa capacidade de compreender a realidade é limitada. 

A ESPN, da qual Juca Kfouri foi uma das estrelas, está para o jornalismo esportivo assim como a Copa de 1982 está para o futebol brasileiro: foi o canto do cisne. A mesa redonda Linha de Passe, com José Trajano, PVC, Mauro César e outros, além do Juca, foi o ápice do jornalismo esportivo e de uma época nacional. A Seleção do Telê, igualmente, expressou o desejo nacional de voltar aos bons tempos, no futebol e na política. Ambos, a Seleção de 82 e a Linha de Passe, guardam relações com momentos políticos decisivos do país: a redemocratização e o governo Lula. Ao mesmo tempo em que expressavam esperança e alegria já continham o germe da tristeza e da desesperança que viriam depois. Pra gente ver como tudo se mistura e que tudo, no fim das contas, é política. 

O futebol foi a brincadeira de milhões de meninos brasileiros ao longo de décadas do século XX, enquanto o Brasil crescia, se industrializava, se urbanizava. Uma coincidência: o futebol se popularizava em todo o mundo, inclusive no Brasil, e os meninos brasileiros tinham condições ideias para praticar a molecagem de brincar de bola. Nem era futebol propriamente, não era o jogo inglês com suas regras, era simplesmente "jogar bola". Bastava ter meninos e uma bola para jogar, em qualquer espaço. E havia muitos espaços nas cidades brasileiras que estavam crescendo: lotes vagos, ruas sem movimento, quintais. Nada disso haveria sem que tivesse acontecido a Revolução de 1930, a ação de classes proprietárias dominantes descontentes unidas a classes médias institucionalizadas, notadamente o Exército, que tomou o poder nacional e começou a implantar um projeto efetivamente nacional, industrializador, urbanizador, modernizador. Nas cidades brasileiras que cresciam, os meninos soltos nas ruas juntavam-se em lotes vagos e quintais, dividiam-se em dois grupos, escolhidos no par ou ímpar, procurando equilibrar os times, delimitavam o campo e marcavam os gols com pedras: estava armado o cenário para a brincadeira, sem juiz, os conflitos resolvidos por consenso e pelo desejo de continuar o jogo. 

Foi assim que eu cresci jogando bola, nunca em campo oficial, nunca dois times de onze, nunca com juiz apitando, nunca com dois tempos de 45 minutos também: o jogo era por queda ou até parar, por cansaço ou falta de jogadores. Na verdade, nada disso importava: nem a qualidade do campo nem o número de jogadores, nem o tempo do jogo. Jogar bola era diversão, brincadeira de meninos (eram raras as meninas que jogavam bola, o jogo delas, normalmente, era a queimada, muitas vezes misto). Foi assim também que se formou o futebol brasileiro que encantou o mundo e ganhou três Copas (1958, 1962 e 1970), poderia ter ganhado outras duas, não fosse a húbris, em 1950 e 1966. 

Enfim, no pós-guerra, durante vinte anos, de 1950 a 1970, o futebol brasileiro encantou o mundo e dominou o futebol mundial. E não só entre seleções, também entre clubes, como o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Cruzeiro de Tostão. Por que isso aconteceu? Porque todos os meninos brasileiros cresciam jogando bola, brincando, inventando dribles e jogadas, que, transportadas para o futebol oficial nos clubes e campeonatos, criavam jogadas imprevisíveis, capazes de desorganizar defesas e marcar muitos gols. Porque havia espaços para jogar bola, porque havia muitos meninos e porque eles eram moleques que brincavam na rua, principalmente de jogar bola. Quando essas condições mudaram, o futebol brasileiro entrou em decadência. 

A última geração de jogadores moleques de rua foi a minha, da qual fazem parte Sócrates, Zico, Cerezo, Falcão, Éder, Júnior, Luizinho e o maior de todos, o Rei, Reinaldo, a geração da Seleção de 1982. A nossa geração de meninos foi a última que cresceu brincando na rua, jogando bola em espaços públicos que estavam sendo extintos pelo crescimento sem planejamento das cidades, pela construção desenfreada de edifícios, pelo asfaltamento das vias e sua ocupação pelos carros. O brilho da Seleção de 82 brilhou, quando os meninos da minha geração estavam na casa dos vinte anos, foi como a luz de estrelas distantes que chegam até nós muito tempo depois, expressava condições sociais que já tinham desaparecido: os campinhos e as turmas de moleques jogando bola na rua. 

Simples assim. Só isso e mais nada. O chamado "futebol brasileiro", as Seleções e os times dos anos de ouro, a luz tardia da Seleção de 1982, o Atlético do Rei e o Flamengo do Zico expressaram uma realidade que não existe mais. Nossa fixação no assunto, as tentativas exitosas de 1994 e 2002, que precisam ser vistas à parte, mostram nossa incapacidade de compreender tanto o passado quanto o presente. O Brasil não tem mais futebol e jogadores extraordinários, nunca voltará a tê-los, eles pertencem ao passado. Há muito tempo competimos com as demais seleções sem nenhuma qualidade especial, própria. Ao contrário, as condições sociais nacionais atuam hoje contra o futebol brasileiro, numa corrupção generalizada marcada pela ausência de política pública de esportes, promiscuidade política, bagunça dos campeonatos, interesses capitalistas das televisões, das empresas de apostas, dos patrocinadores e dos dirigentes esportivos. Para que o Brasil volte a ser vencedor no futebol, assim como nos demais esportes, terá que se equiparar econômica e socialmente às nações ricas, o que passa por mudanças políticas profundas. Em outras palavras: para se reorganizar no futebol, o Brasil terá que se reorganizar como nação, voltar a ter um projeto econômico, social e político nacional, no qual o futebol, assim como os demais esportes, faça parte da formação das crianças e jovens. 

A excelente cobertura esportiva da ESPN durante duas décadas expressou um período em que a chamada democracia brasileira prosperava, sob os dois governos FHC, os dois governos Lula e o primeiro governo Dilma. A inflação tinha sido controlada, o país crescia, os salários estavam em recuperação, a democracia se consolidava, entre solavancos, o povo confiava nela e votava na esquerda, a imprensa funcionava livremente, também entre solavancos. Linha de Passe expressava, no futebol, a confiança geral e dos jornalistas em particular, de que os problemas enfrentados pelo país, e eram muitos, seriam resolvidos democraticamente, seguindo as regras do jogo, numa espécie de progresso contínuo, eleição após eleição, em direção à esquerda. Não poderia ser de outra forma, era impensável que o povo fosse se voltar para a direita, contra governos de esquerda que o favoreciam, contra seus próprios interesses, enfim. 

A crítica que se fazia então era aos governos de esquerda, aos seus defeitos, às suas concessões, às suas fraquezas, ao seu insuficiente esquerdismo. É fácil, hoje, perceber por quê. O governo Lula foi o ápice da chamada "democracia brasileira", o regime político que sucedeu a ditadura militar. Estávamos confiantes no futuro, as melhorias eram sensíveis, acreditávamos no caminhos que estávamos seguindo. Depois de seguidas derrotas (a emenda Diretas Já, a morte do Tancredo, o Plano Cruzado, o governo Collor), começamos a colecionar vitórias, como impeachment do Collor, o Planto Real, a eleição do Lula, o impressionante e surpreendente sucesso do governo petista. Nesse caminho, os brasileiros consumiram uma enorme energia política, expressa nas ruas e nas urnas, em greves e manifestações, em organizações de todos os tipos, acumulada durante os anos de chumbo. Tínhamos de fato muita energia e a gastamos até a eleição do Lula, um operário, um homem do povo, um trabalhador. Como recompensa pelos nossos esforços e sofrimentos, colhíamos os frutos da democracia. Parecia então que progredíamos, que continuaríamos progredindo, que a democracia era o caminho. O período tenebroso da ditadura militar tinha ficado para trás e o horror do governo bozo parecia impossível então. 

A história é curiosa, parece que tudo tem duas faces, o futuro está contido no presente, assim como o presente estava contido no passado, ainda que um seja oposto do outro. Da terrível ditadura militar veio a mobilização popular que desaguou na democracia. Enquanto o povo se mobilizava e lutava, sofria derrotas e ao mesmo tempo era forte. Quando conquistamos estabilidade econômica, perdemos direitos sociais. Quando os trabalhadores chegaram enfim ao poder, se desmobilizaram. Quando conquistamos qualidade de vida como jamais antes e nos sentimos confortáveis, começou a ofensiva da extrema direita. Em 2010 parecia que pisávamos em solo fértil e firme, era impossível imaginar o pântano em que estamos afundados em 2026. No entanto, estava tudo lá, sempre, ao mesmo tempo: a luta popular continha o governo Lula, assim como a adesão deste ao neoliberalismo continha a nova ascensão fascista.   

O que veio em 2013, com as manifestações de massa contra a Copa de 2014, eram parte disso. Exigia-se educação padrão fifa, saúde padrão fifa, transporte padrão fifa. O governo lulopetista cumpria as exigências da fifa e construía estádios e tudo mais necessário com "padrões internacionais", mas negligenciava o que efetivamente fazia diferença na vida dos trabalhadores. A Copa foi um marco negativo para o futebol brasileiro e não só pelo vexame da desclassificação com goleada de 7 a 1 para a Alemanha no Mineirão, mas principalmente porque o povo não pôde assistir aos jogos nos estádios, já que os ingressos eram caríssimos, e porque desde então as torcidas foram elitizadas. A Copa foi simbólica, mostrou sem deixar dúvida que o PT se transformara de partido dos trabalhadores em partido dos capitalistas, que o governo lulopetista, igual a todo governo burguês, representava a minoria proprietária e não a maioria eleitora.  

O que aconteceu com o Brasil? O que aconteceu com a América Latina?

Por que o Brasil e a América Latina deram essa guinada para a direita? 

Ouvir analistas dizendo o mesmo que eu penso e constatar a incapacidade humana de enxergar, enquanto acontece, o óbvio que agora vemos, me dá certo conforto de pensar que a cegueira não é só minha. Me faz também pensar na tragédia grega: nosso destino está escrito, temos conhecimento dele, tentamos evitá-lo e acreditamos arrogantemente que conseguimos, experimentamos a húbris, mas no fim nos encontramos com o que estava previsto e o realizamos, consumando a tragédia. 

Em 2010, Lula terminou seu segundo mandato com aprovação recorde, 87%. Parecia que estava tudo bem e no entanto estava tudo mal, a gente só não sabia ainda, mas hoje é claríssimo. Será que alguém sabia? Vou procurar críticas daquela época que se confirmaram. Isso porque críticas erradas, preconceituosas, havia muitas. A questão é saber se havia críticas corretas e de quem. Mesmo o Ciro, que era crítico do modelo desde 1996, nessa época estava no governo e calado, acho, não tenho certeza, não lembro. Pelo menos não foi candidato em 2010 nem em 2014, erros capitais. 

O fato é que Lula estava no auge e no entanto estava tudo errado, a começar pela falta de um projeto nacional de desenvolvimento sustentável e popular. O Brasil de Lula se desenvolvia e distribuía renda, daí sua popularidade, porque o governo demonstrava competência em administrar o capitalismo, coisa que a direita nunca demonstra, e porque a economia internacional e a política mundial estavam favoráveis. Bastaram os ventos mudarem de direção, na economia e na política, para que aquele sucesso desabasse. O projeto petista era completamente dependente do Lula, sem ele e com a incompetência política da Dilma, o governo se perdeu. 

Do ponto de vista histórico, Lula poderia ter se retirado da política e deixado que o PT escolhesse seu candidato e continuasse seu caminho por conta própria, como maior partido do país e um partido dos trabalhadores. Entraria para a história como um dos nossos maiores presidentes, evitaria a larva jato, a prisão e todas as desgraças pessoais que acompanharam sua queda, mas preferiu escolher uma candidata que dependesse dele para ser eleita, que guardasse sua vaga, pra ele voltar depois. A ambição política é míope e sem limites. 

O que poderia ter acontecido? O candidato petista, que provavelmente não seria Dilma, poderia ter perdido a eleição. Isso seria pior do que o que aconteceu? A alternância no poder e um governo tucano seriam piores do que o desastroso governo Dilma, a larva jato, a prisão do Lula, o golpe de 2016, o bozoísmo, o governo bozo, esse novo governo Lula? Desde 2010 só retrocedemos. Nada do que foi tirado dos trabalhadores pelos governos Dilma 2, Temer e bozo foi devolvido pelo governo Lula 3. Diga-se de passagem, o próprio governo Lula, nos seus bons tempos, tirou direitos trabalhistas na previdência, o que mostra que nunca teve um projeto de fato comprometido com os trabalhadores, apenas distribuiu migalhas dos enormes ganhos do capital, os quais continuam no governo Lula 3. Lula sempre pensou no seu interesse pessoal em primeiro lugar.  

Já ia tudo mal e a gente não via. A direita se preparava para o extremismo, com a expansão das suas bases ideológicas evangélicas e neoliberais no meio do povo, um trabalho de décadas a partir dos EUA que se apresentou pronto nas manifestações golpistas de 2016. O que a gente considerava ser esquerda administrava o Estado para o capital e defendia a democracia, deixando os trabalhadores desorganizados e sem um projeto próprio, enquanto a extrema direita conquistava os trabalhadores para a ideologia neoliberal e se preparava para tomar o poder. 

Tudo é ideologia. A gente acreditava que o governo lulopetista era um governo popular porque o PT era o partido dos trabalhadores, que Lula era um líder popular porque é um ex-sindicalista, ex-operário, homem do povo, retirante nordestino. Ambos porém sempre fizeram a política burguesa, seus limites políticos eram a democracia liberal, que se empenharam em implantar e manter. Crescer como partido, conquistar o povo, ganhar eleições, governar dentro das regras democráticas burguesas, administrar bem o sistema para o capital e dessa forma conceder benefícios ao povo. 

Nunca foi mais que isso, mas já era muito para as classes dominantes brasileiras, isso manteria Lula e o PT eternamente no poder, se fosse possível. Não era: Lula só tinha direito a uma reeleição, e aí começou o drama que põe a política, mesmo a política burguesa, dentro de limites éticos. É curioso: a direita, que se diz liberal e democrata, nunca teve pudor em derrubar a democracia e impor governos autoritários, enquanto a esquerda, que se pretende a favor da transformação social, mantém a democracia burguesa com unhas e dentes. A esquerda adere a todas as práticas corruptas da política burguesa, mas é incapaz de dar um golpe. Fica, por isso, em condições de inferioridade diante da direita. 

Se é para jogar o jogo burguês, se a esquerda acredita na democracia liberal, deve também deixar claro qual é o seu programa, um programa diferente do programa da direita. Será um programa de esquerda? Será a esquerda capaz de defender um programa de esquerda e implantá-lo? Ou sua natureza é defender um programa de esquerda, ganhar eleições e implantar programa de direita? Consideremos que os tucanos eram direita e o PT era esquerda. Como oposição, o governo lulopetista não poderia dar continuidade ao governo FHC, em 2002, mas foi o que fez. Se é um governo de continuidade, porque então se opor ferrenhamente antes e não cooptar os tucanos depois? De fato, foi muito mais uma disputa de egos, entre candidatos, do que entre propostas políticas. E o ego do Lula é o maior de todos. 

Durante mais quatro eleições, lulopetistas e tucanos representaram um teatro em que eram rivais, mas quando finalmente os tucanos destronaram os lulopetistas quem herdou o trono foi o bozoísmo, a extrema direita. Quem, afinal, tinha compromisso com a democracia liberal burguesa? Nenhum dos dois lados, vê-se hoje, pois não foram capazes de se conciliar em nome de um interesse maior, isto é, seu pretenso compromisso com a democracia. E muito menos a extrema direita, é claro, que sempre se declaro abertamente contra ela. Os tucanos apoiaram o golpe de 2016, os lulopetistas preferiram ser derrubados pelo golpe do que aposentar Lula em 2010 e admitir a alternância de poder nas urnas. 

Quem perde com governos burgueses, seja de direita, seja de pretensa esquerda, é sempre o povo. E perde ainda mais quando a democracia burguesa entra em colapso, na disputa entre esquerda e direita, e a extrema direita assume o poder, abole os luxos liberais e implanta programas abertamente antipopulares. 

Música do dia: Tomara (Vinicius de Morais), com Vinicius, Marília Medalha e Toquinho

Vinicius tinha a precisão das palavras, que a música mostra claramente. A sonoridade das palavras, o ritmo das sílabas. Por isso seus sambas são tão agradáveis de se ouvir e fáceis de guardar. Além das melodias, é claro, mas a melodia vem antes de tudo, se não for bonita, a letra não vale nada. Também me parece que metade das vezes ele está refazendo Chega de Saudade, dizendo a mesma coisa de outra forma. 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Max e os 'pets'

Conheci Max há apenas dois dias, mas já somos velhos amigos. Quando acordo, ele está deitado na soleira da porta. Gosto de cachorros e tenho antipatia por pets. Cães domésticos e pets são dois fenômenos sociológicos, um antigo, outro recente. 

É fácil imaginar como a relação entre homens e cães se formou. Nossos ancestrais domesticaram ancestrais dos cachorros oferecendo-lhes comida. Os cachorros antigos viram vantagens nessa relação, se habituaram ao ambiente doméstico, a uma vida preguiçosa, não precisavam caçar para comer, só o que precisavam fazer era seguir os humanos. 

Para nossos ancestrais, e até hoje, as vantagens da relação também são claras. Não precisamos nos confrontar com outros animais hostis, inclusive humanos, os cães fazem isso por nós. Sua simples presença nos protege. Basta andar na cidade, quem ainda anda na cidade, e observar: todo mendigo, hoje conhecido como morador de rua, tem pelo menos um cachorro, às vezes vários. Me intriga pensar que o mendigo tem que alimentar, além de si próprio, um animal de estimação. Já me aconteceu de um morador de rua pedir dinheiro para comprar ração para seu cachorro. Me pareceu um luxo, mas já aprendi que, igual a tudo na vida, se é assim é porque tem motivo. E o primeiro motivo é o mesmo dos nossos ancestrais: o cachorro protege o mendigo na vida violenta da rua. 

A simples presença de um cachorro afasta outros bichos que consideram um humano um animal frágil. Um cachorro pode ser mais ameaçador que um homem. Às vezes é só aparência e basta ameaçá-lo, para o cachorro sair correndo, mas a presença, o latido, o arreganhar os dentes, avançar e até morder, assustam qualquer um, e a capacidade de ser violento é uma característica animal selvagem, ou melhor dizendo, natural que o cachorro comum preservou muito mais do que o Homo sapiens. Na verdade, o Homo sapiens é muito mais violento, é disparadamente o animal mais violento da Terra, o único de fato violento, mas essa é outra questão, trata-se da violência do Estado. Na vida cotidiana, entre indivíduos comuns, entre trabalhadores, a possibilidade de ser atacado, arranhado ou mordido por outro humano é muito menor. O cachorro é fiel ao "dono", isto é, àquele que lhe dá comida, que ele acompanha. E sendo assim afasta outros humanos hostis, a não ser que o "dono" demonstre amizade pelo estranho. Amigo do "dono" não é estranho mais, é amigo do cachorro também. 

Há cachorros que saem correndo e abandonam o dono, se o estranho os enfrenta. A bem da verdade, os cachorros atuais são mais ameaçadores do que capazes de causar danos a humanos, exceto a crianças e adultos medrosos. Por isso, tornou-se uma prática de segurança do patrimônio da ideologia capitalista treinar cachorros para serem violentos. Mais que isso: esses humanos que prezam acima de tudo os bens materiais e a riqueza, mais que a vida de outros humanos, escolhem e fazem "melhoramentos" genéticos em cachorros que têm características para causarem grandes danos e até a morte naqueles que atacarem, tais como tamanho da boca e dos dentes, força da mordida, força das patas e garras etc. Enfim, esses humanos intelectualmente violentos treinam cachorros para serem agressivos como eram antes de se tornarem animais domésticos. Não se trata mais de afastar ameaças à integridade do humano "dono" de um cachorro, mas de afastar ameaças ao patrimônio escandaloso dos capitalistas. O capitalismo é capaz de realizar coisas espantosas. 

A relação que se estabelece entre o homem e o cachorro domesticados é uma das relações mais bonitas do mundo. A gente chama até de amizade e diz que o cão é o melhor amigo do homem, transpondo para o animal de outra espécie o que é normal para outro Homo sapiens. Há quem diga que é possível conversar com os cachorros. A ciência ainda sabe muito pouco sobre como pensam e sentem os outros animais, mas é certo que o cão doméstico nos compreende: agora mesmo acabei de dizer ao Max, que tinha entrado na sala, para ficar na lá fora e ele saiu. Por essa convivência antiga com o Homo sapiens, o Canis familiaris adquiriu muitas características humanas e parece de fato compreender o que lhe falamos. Um cachorro protege seu "dono" em troca de casa e comida, ainda que, conforme disse, essa proteção seja mais aparente do que ativa. No entanto, alguns cães são de fato capazes de morrer para defender seus "donos", de permanecer do seu lado nas piores dificuldades e até de ir buscar ajuda ou empreender um longo caminho de volta solitário para casa. Há belas histórias sobre casos assim. 

Minha antipatia com os pets vem do fato de representarem uma perversão dessa relação entre o Homo sapiens e o Canis familiaris. Na relação entre humanos e pets a amizade foi corrompida. Com os pets, os homens demonstram todos os seus defeitos e aqueles correspondem demonstrando os seus. Pets são incapazes de dar proteção aos humanos, ao contrário, precisam ser protegidos. Os humanos, por sua vez, não buscam proteção física nos pets e sim uma espécie de proteção mental: tratam seus pets como se fossem gente, crianças, eternas crianças, e dão a eles o que muitas vezes não dão às crianças, demonstram impressionante tolerância com eles que não demonstram com crianças. 

Pets são crianças mimadas. Crianças mimadas que não crescem. Há uma coisa de síndrome de Peter Pan na relação entre humanos e pets. Não há nada mais ridículo do que ver um jovem bombado passeando com seu pet minúsculo, ornamentado e perfumado, que late estridentemente quando vê outro pet. Esses humanos saem para passear com seus pets como se fossem bebês e alguns vão mesmo em carrinhos de bebês. Bebês sem fraldas, porém: fazem xixi e cocô nos passeios públicos, nas portas dos vizinhos. Humanos (salvo alguns mendigos) não fazem cocô nas ruas, nunca vi um dono de pet fazendo cocô no passeio, mas todos eles acham normal e aguardam pacientemente que seus pets façam. Os mais "civilizados" em seguida se abaixam e recolhem o cocô num saquinho plástico e jogam numa lixeira de rua. Qual de nós joga seu próprio cocô num saquinho plástico em lixeiras públicas? Imagina todos nós fazendo isso -- meu critério inato de justiça é esse: é justo o que todos podem fazer. Os donos de pets fazem isso regularmente e acham normal. 

Passear nas ruas com pets (e fazer xixi e cocô, eventualmente assustar transeuntes quando os pets são cães grande treinados para ser bravos) não é propriamente passear, mas cumprir uma recomendação veterinária, pois eles passam os dias confinados em apartamentos, quietos, dormindo e comendo e sendo acariciados e precisam fazer exercício físico. Vivem rotinas inadequadas, em resumo, e adquirem as mesmas doenças dos humanos que vivem rotinas inadequadas. Andar nas ruas da cidade é a academia dos pets. Pets precisam de babás. Cães domésticos, embora sejam preguiçosos e ganham seu alimento do homem, vivem soltos, andam para todo lado, correm, se exercitam, enfim. Homens das cidades grandes que moram em apartamentos viraram babás de pets. É comum vermos jovens casais passeando nas ruas com um bebê e um pet. Este, porém é um bebê que jamais cresce. Quando envelhece, exige cuidados de idosos, e seus donos estão a postos e dispostos para realizá-los. Cuidados que inúmeras crianças e inúmeros idosos não recebem; nunca vi o dono ou a dona de um pet colocando-o na rua porque ficou velho ou doente.  

Os homens cuidam mais e melhor dos pets do que dos seus semelhantes. Gastam com eles o que não gastam para cuidar de crianças, idosos e doentes humanos. Não é culpa dos humanos, indivíduos mental e emocionalmente frágeis, fragilizados pela ideologia e pelas condições de vida do capitalismo. Muito menos é culpa dos pets, animais domesticados pelos humanos e escravizados pelas mesmas forças que escravizam os homens. A relação de mútua dependência afetiva entre humanos e pets é só um exemplo entre tantos da corrupção que a civilização capitalista provoca na vida do Homo sapiens e das espécies que ele afeta. 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Como escapar do capitalismo

A economista italiana Clara Mattei diz praticamente o que eu penso sobre o mundo contemporâneo. Ela não apenas retoma Marx, mas também cita (não nominalmente) o brasileiro Rui Mauro Marini e sua teoria da dependência (que inclui outros pensadores, tais como Vânia Bambirra e Teotônio dos Santos). Não é difícil chegar ao que eu penso, os cientistas políticos, econômicos e sociais nos ajudam, mas basta olhar em volta, olhar para nós mesmos. O grande mérito do Marx foi ter enxergado o capitalismo sem ideologia, daí fez o retrato magnífico de O Capital, mas quem leu? Os marxistas russos leram e outros também, fizeram até revoluções, adaptando-o para a ação política; alguns foram vitoriosos, outros derrotados. No século XX, o capitalismo reformado, que sobreviveu a duas guerras mundiais, à crise de 1929, ao fascinazismo e às revoluções comunistas, domesticou o marxismo, tornando-o acadêmico, mas o neoliberalismo e o neofascismo do século XXI estão fazendo com que o pensamento revolucionário renasça. É assim no Brasil, é assim no mundo. Como explica brilhantemente Safatle, liberalismo e fascismo são duas faces da mesma moeda: a ordem capitalista. As nações periféricas sempre viveram sob o fascismo, os trabalhadores sempre viveram sob o fascismo, que só ganha esse nome quando é implantado nas nações centrais e atinge as classes ricas do capitalismo. Completa Mattei: a democracia liberal é a democracia em que os ricos mandam. É interessante ouvir Clara Mattei falando em orçamento participativo e citando explicitamente as experiências brasileiras. Foi o que me fez acreditar no PT dos governos municipais do Patrus e do Célio, depois gradativamente desmobilizado pelo Pimentel e enterrado pelo Lacerda, o prefeito de merda (a gente não imaginava que ia feder cada vez mais nas administrações seguintes). O orçamento participativo era revolucionário, porque tocava na questão central do capitalismo: quem decide para que vai o dinheiro do Estado. Era muito para o PT, um partido que em seguida abandonou o empoderamento popular, quando Lula assumiu a presidência, e passou a governar para o capital, legitimando o poder  burguês do Congresso Nacional, controlado pelas classes proprietárias dominantes e endinheiradas. É interessante também ouvir Clara Mattei colocando a estatística no seu lugar: os analistas sempre falam no "1% mais rico da população", eu discordava e escrevia 0,01%; Clara Mattei vai além, fala em 0,0001%. A concentração de renda e poder no capitalismo é muito maior do que da ordem de 1%. A questão principal, porém, da qual eu falo há décadas e que ela sustenta, é que a dominação do capital não se dá só pela força nem só pelo governo nem só pelos proprietários, ela começa em nós mesmos, que aderimos ao capitalismo e fazemos a nossa parte para mantê-lo vivo. É uma dominação ideológica. Enquanto gostarmos dele, acreditarmos nele e estivermos conformados com ele, o capitalismo continuará vivo. Todo o esforço da ideologia capitalista é esse, para nos manter presos no sistema, pensando que não é possível mudá-lo e que seus valores são bons, que os problemas que enfrentamos são defeitos e que os culpados somos nós mesmos, que não nos esforçamos bastante, não fizemos as coisas certas etc. Enquanto mantemos o foco no indivíduo e vivermos buscando o sucesso individual, o capitalismo seguirá em frente, porque ele se baseia nisso, na nossa motivação para o consumo, que é a expressão material do sucesso. Afinal, o que é o capitalismo? Não é preciso ser doutor em economia para saber, basta olhar para nós mesmos e para o mundo ao redor para compreender. O capitalismo é o sistema econômico baseado no lucro, na produção em busca do lucro. E o que significa isso? Produzir cada vez mais, pois só assim existe lucro, e destruir cada vez mais e concentrar cada vez mais as riquezas nas mãos de poucos e aumentar a pobreza, a miséria, a fome. E a violência para manter as desigualdades e os trabalhadores no submissão. A essa altura da civilização, do desenvolvimento científico e tecnológico e da destruição da Terra, a nossa mãe, o único planeta com biodiversidade e condições ambientais para a vida, o Homo sapiens precisa compreender que a vida só pode continuar abolindo esse sistema insano e criando uma nova forma de viver em sociedade e em harmonia com as outras espécies e a Natureza.   

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Ipês do campus

Julho, mês dos ipês. BH tem muitos, esses são do campus da UFMG.

 

Música do dia: Ternura, com Roberto Carlos

Sempre gostei dessa música, mas nos últimos anos ela ganhou um significado especial. Eu expresso ideias e sentimentos simples pela música, às vezes compondo melodias rudimentares para acompanhar versos, mas principalmente cantarolando alguma canção que contém uma frase afim. A MPB é definitivamente a melhor coisa que os brasileiros produziram, apesar do deprimente horror dominante atual. Até em versões o talento musical brasileiro se revela, como nas pérolas do Haroldo Barbosa; Rossini Pinto, o autor dessa, também foi craque. A gravação original é da Wanderléa, mas é Roberto Carlos quem a canta lindamente. Compositor medíocre, uma vez ou outra bom, ele mostra que é, acima de tudo, cantor, formado sob a influência do João Gilberto. Não exagera e não inventa, como gostam de fazer em geral os cantores e as cantoras que possuem belas vozes, derrapa só uma vez, levemente; quase declama, de forma que a gente até pensa que ele está sentindo o que canta.