A funcionária que me atendeu na loja, há nove dias, me informou que a vivo recebe muitas reclamações como a que eu fiz. Disse mesmo que a maioria das reclamações é de cobrança indevida de serviços.
O argumento da última atendente, Renata, é que a culpa é da vítima: eu teria recebido uma mensagem oferecendo o serviço e aceitado. A vivo não tem nada com isso, me disse, e tenho de cancelar o serviço -- que eu nem imagino qual seja e não desfruto dele, só pago por ele -- com quem o presta.
Segundo a atendente da ouvidoria da vivo, a empresa "só empresta a fatura para cobrar pelo serviço".
Tudo isso torna ainda pior o serviço da vivo e demonstra a incompetência da empresa.
Se ela não tem responsabilidade nenhuma e recebe tantas queixas dos clientes, já deveria ter tratado de resolver isso, para não prejudicar sua imagem. É o que qualquer empresas competente e séria faz. Por que deixar que um problema sobre o qual não tem responsabilidade suje sua imagem?
Não é muito melhor identificar a origem e cancelar o tal serviço?
Não é muito melhor para ela não intermediar a cobrança?
O que ganha a vivo com isso?, já que perder -- em credibilidade -- ela perde.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
O péssimo serviço da vivo
E o desrespeito absoluto pelo cliente. E cobrança indevida.
A história:
Desconfiei que o meu crédito no celular para falar com outras operadoras estava diminuindo sem que eu fizesse ligações.
Fiquei um mês sem ligar para outras operadoras (pelo plano, ligações para a mesma operadora são gratuitas) e no fim confirmei que o crédito tinha praticamente zerado. Como?
Fui a uma loja para saber o que estava acontecendo e expliquei à atendente -- muito atenciosa e, registre-se desde já, a única assim dos cinco pelos quais passei.
Ela descobriu que estava sendo cobrado um serviço de mensagem, e pior: além do crédito zerado, eu ainda estava devendo.
Ele imprimiu um registro de atendimento, com inúmeros códigos que a gente não entende, cujo único valor para mim era comprovar que apesar de só ter feito uma ligação de 0,55 centavos eu ainda devia à vivo 9,52, mesmo pagando todas as contas em dia.
Não conseguiu no entanto saber que serviço era e muito menos cancelá-lo.
Chamou uma funcionária mais graduada, que também não conseguiu resolver.
Ligou para um número da empresa, explicou o problema e me pôs em contato, mas a atendente também não conseguiu resolver e me devolveu para a funcionária atenciosa.
A moça reafirmou sua incapacidade de resolver o problema, mas disse que a ouvidoria da vivo o resolveria; anotou o telefone da ouvidoria (0800 775 1212), me entregou o protocolo do atendimento e garantiu que o problema seria resolvido com um telefonema e que eu receberia de volta os débitos indevidos feitos nos últimos três meses. Havia um problema, no entanto: teria de ligar na segunda-feira, pois a ouvidoria não atendia no fim de semana, e era sábado.
Achei aqui péssimo, pois a empresa tinha constatado uma cobrança indevida, mas não resolvia o problema e eu não poderia usar o aparelho no fim de semana. Não havia o que fazer, porém.
Na segunda-feira liguei para a ouvidoria e expliquei o caso. O rapaz me ouviu, disse que localizou minha conta, me fez perguntas e encerrou perguntando se precisava de mais alguma coisa, agradecendo a ligação ou coisa assim.
Ingenuamente, eu perguntei se estava tudo resolvido, se as cobranças indevidas já tinha sido creditadas. Ele respondeu que não, que o caso ia ser analisado e respondido em cinco dias. Fiquei perplexo: mais uma semana sem poder ligar do aparelho!
Exercitei toda a minha paciência e meu otimismo e esperei.
Passou-se a semana inteira e nenhum contato, apesar de o rapaz ter me pedido todos os números de telefone possíveis, inclusive fixos que não são da vivo...
Hoje liguei de novo para a ouvidoria.
Primeiro, atendeu-me a Regina; passei-lhe todas as informações anteriores, ela disse que eu tinha feito uma solicitação de devolução de créditos que não tinha sido atendida. Eu lhe expliquei que não fui eu quem pediu a devolução do crédito, que foi a atendente da loja. Ela me fez novas perguntas e enquanto eu respondia, ela desligou, ou a linha caiu.
Tornei a ligar. Atendeu-me Natália, e eu lhe passei mais uma vez meus dados pessoais e lhe expliquei pela quinta vez a situação. Natália deixou-me ouvindo uma música alta e irritando durante longo tempo, até que desisti e desliguei.
Liguei de novo e uma gravação me informou que "todos os colaboradores estavam ocupados". E mais música alta.
Desliguei e tornei a ligar várias vezes. Por fim atendeu-me Renata, que, depois de ouvir toda a história novamente, me respondeu que a vivo não tem responsabilidade sobre o serviço contratado, que não poderia me devolver as cobranças indevidas e nem mesmo cancelar o serviço -- coisa a moça na loja, a primeira a me atender, nove dias atrás, me disse ter feito.
O que eu faço então?, perguntei.
Renata me recomendou esperar até que uma nova mensagem fosse enviada para o celular referente ao serviço que não soube dizer qual é, e quando isso acontecesse eu deveria digitar a palavra "sair", assim o serviço seria cancelado sabe-se lá por quem...
Perguntei se tinha outra opção além da que ela me deu ou cancelar a linha, ela respondeu que não e me sugeriu mandar uma mensagem para *8486.
Pedi então o telefone da Anatel e ela me respondeu que não sabia. Eu estranhei e argumentei que era obrigação dela fornecer esse telefone. A essa altura minha paciência já tinha se esgotado e eu estava nervoso, mas a atendente Renata -- que deveria ser treinada para atender o público com educação, ainda mais numa ouvidoria -- era mais grosseira do eu: desligou o telefone na minha cara.
Esta é a vivo, que faz tanta propaganda de maravilhas e patrocina eventos nos quais vende sua propaganda de melhor operadora. Melhor seria mudar o nome para morto.
PS: O telefone *8486 também cai numa moderna, simpática, eficiente e longa gravação que termina nos mandando aguardar e depois a ligação cai... Em outras palavras: é impossível resolver o problema na vivo -- será possível cancelar a linha?
PS2: Perdi mais de uma hora da minha manhã tentando resolver o problema e não consegui.
A história:
Desconfiei que o meu crédito no celular para falar com outras operadoras estava diminuindo sem que eu fizesse ligações.
Fiquei um mês sem ligar para outras operadoras (pelo plano, ligações para a mesma operadora são gratuitas) e no fim confirmei que o crédito tinha praticamente zerado. Como?
Fui a uma loja para saber o que estava acontecendo e expliquei à atendente -- muito atenciosa e, registre-se desde já, a única assim dos cinco pelos quais passei.
Ela descobriu que estava sendo cobrado um serviço de mensagem, e pior: além do crédito zerado, eu ainda estava devendo.
Ele imprimiu um registro de atendimento, com inúmeros códigos que a gente não entende, cujo único valor para mim era comprovar que apesar de só ter feito uma ligação de 0,55 centavos eu ainda devia à vivo 9,52, mesmo pagando todas as contas em dia.
Não conseguiu no entanto saber que serviço era e muito menos cancelá-lo.
Chamou uma funcionária mais graduada, que também não conseguiu resolver.
Ligou para um número da empresa, explicou o problema e me pôs em contato, mas a atendente também não conseguiu resolver e me devolveu para a funcionária atenciosa.
A moça reafirmou sua incapacidade de resolver o problema, mas disse que a ouvidoria da vivo o resolveria; anotou o telefone da ouvidoria (0800 775 1212), me entregou o protocolo do atendimento e garantiu que o problema seria resolvido com um telefonema e que eu receberia de volta os débitos indevidos feitos nos últimos três meses. Havia um problema, no entanto: teria de ligar na segunda-feira, pois a ouvidoria não atendia no fim de semana, e era sábado.
Achei aqui péssimo, pois a empresa tinha constatado uma cobrança indevida, mas não resolvia o problema e eu não poderia usar o aparelho no fim de semana. Não havia o que fazer, porém.
Na segunda-feira liguei para a ouvidoria e expliquei o caso. O rapaz me ouviu, disse que localizou minha conta, me fez perguntas e encerrou perguntando se precisava de mais alguma coisa, agradecendo a ligação ou coisa assim.
Ingenuamente, eu perguntei se estava tudo resolvido, se as cobranças indevidas já tinha sido creditadas. Ele respondeu que não, que o caso ia ser analisado e respondido em cinco dias. Fiquei perplexo: mais uma semana sem poder ligar do aparelho!
Exercitei toda a minha paciência e meu otimismo e esperei.
Passou-se a semana inteira e nenhum contato, apesar de o rapaz ter me pedido todos os números de telefone possíveis, inclusive fixos que não são da vivo...
Hoje liguei de novo para a ouvidoria.
Primeiro, atendeu-me a Regina; passei-lhe todas as informações anteriores, ela disse que eu tinha feito uma solicitação de devolução de créditos que não tinha sido atendida. Eu lhe expliquei que não fui eu quem pediu a devolução do crédito, que foi a atendente da loja. Ela me fez novas perguntas e enquanto eu respondia, ela desligou, ou a linha caiu.
Tornei a ligar. Atendeu-me Natália, e eu lhe passei mais uma vez meus dados pessoais e lhe expliquei pela quinta vez a situação. Natália deixou-me ouvindo uma música alta e irritando durante longo tempo, até que desisti e desliguei.
Liguei de novo e uma gravação me informou que "todos os colaboradores estavam ocupados". E mais música alta.
Desliguei e tornei a ligar várias vezes. Por fim atendeu-me Renata, que, depois de ouvir toda a história novamente, me respondeu que a vivo não tem responsabilidade sobre o serviço contratado, que não poderia me devolver as cobranças indevidas e nem mesmo cancelar o serviço -- coisa a moça na loja, a primeira a me atender, nove dias atrás, me disse ter feito.
O que eu faço então?, perguntei.
Renata me recomendou esperar até que uma nova mensagem fosse enviada para o celular referente ao serviço que não soube dizer qual é, e quando isso acontecesse eu deveria digitar a palavra "sair", assim o serviço seria cancelado sabe-se lá por quem...
Perguntei se tinha outra opção além da que ela me deu ou cancelar a linha, ela respondeu que não e me sugeriu mandar uma mensagem para *8486.
Pedi então o telefone da Anatel e ela me respondeu que não sabia. Eu estranhei e argumentei que era obrigação dela fornecer esse telefone. A essa altura minha paciência já tinha se esgotado e eu estava nervoso, mas a atendente Renata -- que deveria ser treinada para atender o público com educação, ainda mais numa ouvidoria -- era mais grosseira do eu: desligou o telefone na minha cara.
Esta é a vivo, que faz tanta propaganda de maravilhas e patrocina eventos nos quais vende sua propaganda de melhor operadora. Melhor seria mudar o nome para morto.
PS: O telefone *8486 também cai numa moderna, simpática, eficiente e longa gravação que termina nos mandando aguardar e depois a ligação cai... Em outras palavras: é impossível resolver o problema na vivo -- será possível cancelar a linha?
PS2: Perdi mais de uma hora da minha manhã tentando resolver o problema e não consegui.
domingo, 28 de setembro de 2014
O melancólico fim da revista veja
Não tem um grande jornalista brasileiro que ainda confia no "carro-chefe" da editora Abril.
Do jornal GGN.
Os motivos por trás da guerra de Veja contra o PT
dom, 28/9/2014 - 9:11, atualizado em 28/9/2014 - 9:12
Jornal GGN - Neste final de semana, o jornalista Ricardo Kotscho em sua coluna criticou a última capa da revista Veja com a chamada "Exclusivo -- O núcleo atômico da delação -- Paulo Roberto Costa diz à Polícia Federal que em 2010 a campanha de Dilma Rousseff pediu dinheiro ao esquema de corrupção da Petrobras".
"Parece coisa de boletim de grêmio estudantil", ironizou Kotscho que lembrou de uma história que ouviu de Eduardo Campos, em 2012. Disse-lhe o ex-presidenciável que ficou perplexo ao ouvir de Roberto Civita: "Você está vendo estas capas aqui? Esta é a única oposição de verdade que ainda existe ao PT no Brasil. O resto é bobagem. Só nós podemos acabar com esta gente e vamos até o fim".
Segundo Kotscho a causa da "bronca" da Veja contra o PT ocorreu no início do primeiro governo Lula, quando o governo resolveu redistribuir verbas publicitárias, reservadas antes apenas à grande mídia.
Balaio do Kotscho
Melancólico fim da revista "Veja", de Mino a Barbosa
Por Ricardo Kotscho
Uma das histórias mais tristes e patéticas da história da imprensa brasileira está sendo protagonizada neste momento pela revista semanal "Veja", carro-chefe da Editora Abril, que já foi uma das maiores publicações semanais do mundo.
Criada e comandada nos primeiros dos seus 47 anos de vida, pelo grande jornalista Mino Carta, hoje ela agoniza nas mãos de dois herdeiros de Victor Civita, que não são do ramo, e de um banqueiro incompetente, que vão acabar quebrando a "Veja" e a Editora Abril inteira do alto de sua onipotência, que é do tamanho de sua incompetência.
Para se ter uma ideia da política editorial que levou a esta derrocada, vou contar uma história que ouvi de Eduardo Campos, em 2012, quando ele foi convidado por Roberto Civita, então dono da Abril, para conhecer a editora.
A íntegra.
Do jornal GGN.
Os motivos por trás da guerra de Veja contra o PT
dom, 28/9/2014 - 9:11, atualizado em 28/9/2014 - 9:12
Jornal GGN - Neste final de semana, o jornalista Ricardo Kotscho em sua coluna criticou a última capa da revista Veja com a chamada "Exclusivo -- O núcleo atômico da delação -- Paulo Roberto Costa diz à Polícia Federal que em 2010 a campanha de Dilma Rousseff pediu dinheiro ao esquema de corrupção da Petrobras".
"Parece coisa de boletim de grêmio estudantil", ironizou Kotscho que lembrou de uma história que ouviu de Eduardo Campos, em 2012. Disse-lhe o ex-presidenciável que ficou perplexo ao ouvir de Roberto Civita: "Você está vendo estas capas aqui? Esta é a única oposição de verdade que ainda existe ao PT no Brasil. O resto é bobagem. Só nós podemos acabar com esta gente e vamos até o fim".
Segundo Kotscho a causa da "bronca" da Veja contra o PT ocorreu no início do primeiro governo Lula, quando o governo resolveu redistribuir verbas publicitárias, reservadas antes apenas à grande mídia.
Balaio do Kotscho
Melancólico fim da revista "Veja", de Mino a Barbosa
Por Ricardo Kotscho
Uma das histórias mais tristes e patéticas da história da imprensa brasileira está sendo protagonizada neste momento pela revista semanal "Veja", carro-chefe da Editora Abril, que já foi uma das maiores publicações semanais do mundo.
Criada e comandada nos primeiros dos seus 47 anos de vida, pelo grande jornalista Mino Carta, hoje ela agoniza nas mãos de dois herdeiros de Victor Civita, que não são do ramo, e de um banqueiro incompetente, que vão acabar quebrando a "Veja" e a Editora Abril inteira do alto de sua onipotência, que é do tamanho de sua incompetência.
Para se ter uma ideia da política editorial que levou a esta derrocada, vou contar uma história que ouvi de Eduardo Campos, em 2012, quando ele foi convidado por Roberto Civita, então dono da Abril, para conhecer a editora.
A íntegra.
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
A história do combate à fome e à miséria no Brasil
Um bom texto que mostra coisas que ficam esquecidas (além de pessoas): que as políticas governamentais são articulações continuadas, não são mérito exclusivo de um político ou um governo, e que elas são tão mais bem-sucedidas quanto têm participação da sociedade.
Um dos méritos dos governos do PT e que corre risco com a eleição de Aécio ou Marina, é este. Lula e Dilma ampliaram o que chamam de "prática republicana".
A primavera começou oficialmente no finalzinho da segunda-feira, quase terça.
Do jornal GGN, em 26/9/14.
Fome de Verdade
Denise Paiva
A chegada da primavera, neste domingo, 21 de setembro, no Rio Janeiro, foi inesperadamente chuvosa com o poder de nos deter em casa, nos impelindo a ler e refletir. Chamou minha atenção o artigo de Flávia Oliveira, no Globo, "Valeu Betinho", e também a informação da ONU de que o Brasil está excluído do Mapa da Fome. Não consegui deter a "traição dos meus dedos" e toquei alguns telefones. Sim, precisei compartilhar e constatar o sentimento de que há de fato, no Brasil, uma grande fome: a fome de verdade.
Não temos mais aquela realidade que o Presidente Itamar fez questão de divulgar numa histórica reunião ministerial em fevereiro de 1993, através de uma socióloga de carreira, sua conterrânea de Juiz de Fora, chamada Ana Peliano. Tiramos, até com certo receio (eu participei deste trabalho), das prateleiras quase extintas do Ipea um estudo lá existente que passou a se chamar Mapa da Fome, para efeitos de divulgação, tendo sido, posteriormente, adotado pela FAO.
Tal estudo revelou a estimativa de que 32 milhões de brasileiros passavam fome. Esta fome foi debelada, nos últimos 20 anos, por esforço conjunto de governo e sociedade, distribuição de cestas básicas, reforma agrária, Lei Orgânica da Assistência Social, universalização da alimentação escolar, programas de transferência de renda – como bolsa escola, bolsa alimentação e depois bolsa família –, mas especialmente pelo combate à inflação.
Em particular merece ser assinalada e reconhecida a grande mobilização social chamada Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, liderada pelo Betinho, que teve seu auge e existência vigorosa apenas no governo Itamar, na medida que o próprio Presidente ordenava a todo o governo, ministérios e empresas públicas, a se engajarem na luta contra a fome e a miséria e assegurava instrumentos e mecanismos necessários para tal.
A expressão maior politica e institucional da politica de combate à fome foi, todavia, o Consea, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar, instalado em 13 de maio de 1993 com a presença e as bênçãos de Dom Helder Câmara. O Conselho inaugura um modelo inédito de participação, com hegemonia da sociedade civil: 21 personalidades indicadas pelo Movimento pela Ética na Política, principal protagonista do afastamento do ex-presidente Collor, se organizaram ao lado de oito ministros de estado.
Foi uma época pungente de percepção da realidade, mudança de paradigmas, quebra de preconceitos, realizações em parcerias, mediação de conflitos. Imaginem o agronegócio, representado por Ney Bittencourt, da Agroceres, ao lado de Plínio Arruda Sampaio. Imaginem CNA, CNC, CNI conversando e definindo pautas comuns com a Contag, MST, CUT.
Na verdade, Betinho entra na história, quando a história já tinha um intenso desenrolar. Este desenrolar teve início com a Frente Nacional de Prefeitos, liderada pela então Prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, ainda em novembro de 1992, que traz para o governo propostas concretas e emergenciais de combate à fome e de inclusão social.
Ainda na interinidade, Itamar se contrapôs ao discurso neoliberal da modernidade e indagou: “Que modernidade é esta que produz tanta fome e tanta miséria?”. Fez uma convocação instigante e agregadora pelo impeachment da fome e pela ética nas prioridades das politicas públicas, propostos por Cristovam Buarque.
Entretanto, faz-se importante recordar o fato político antecedente mais importante, que se deu ainda em janeiro de 1993: o encontro Itamar e Lula. Este encontro, precedido de alguns percalços, só aconteceu pelo empenho e habilidade politica de Pedro Simon, que contou com a colaboração de Eduardo Suplicy. Suplicy, autor da lei de Renda Mínima, recém-aprovada no Congresso, lutava para que ela se tornasse de fato politica pública governamental de combate à fome.
Naquela histórica reunião, Lula apresentou a Itamar a proposta de combate à fome do governo paralelo do PT, coordenada por José Graziano, hoje na FAO. Itamar, por sua vez, apresentou um documento sobre aquilo que já vinha sendo feito, inclusive com a incorporação das propostas da Frente Nacional de Prefeitos, já em andamento e coordenadas com seu ministério.
Itamar convida Betinho para presidir o Consea. Betinho alega problemas de saúde e pede apoio para articular e animar a ação da sociedade civil, que Dom Luciano Mendes de Almeida batiza de Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida.
Itamar, o breve, deixa o governo sob um clima de indignação de muitos que desejavam que ele devesse ter buscado a reeleição em função dos altos e inesperados índices de aprovação. Itamar em pouco tempo foi reconhecido pelo exemplo de governabilidade sem barganha, lisura, simplicidade, combate à inflação e politicas sociais que colocaram o ordenamento social previsto na Constituição de 88 na ordem do dia para todos os brasileiros.
Até hoje fico a me indagar: a polarização entre PSDB e PT, que tomou conta do Brasil nos últimos 20 anos, terá jogado a experiência do governo Itamar no limbo da história? Esta polarização insidiosa é que nos mata dia a dia? Esta pergunta eu compartilho com alguns ministros e representantes da sociedade civil partícipes daquela experiência, testemunhas e protagonistas daquele tempo que foi, de fato, um tempo de "Nova Política". Com eles, a palavra!
Se fomos capazes de enfrentar e debelar a fome de “pão” e a inflação, podemos e devemos debelar a fome de verdade para que não sejamos canibais da nossa própria história!
Rio de Janeiro, 21 de setembro de 2014.
A íntegra.
Um dos méritos dos governos do PT e que corre risco com a eleição de Aécio ou Marina, é este. Lula e Dilma ampliaram o que chamam de "prática republicana".
A primavera começou oficialmente no finalzinho da segunda-feira, quase terça.
Do jornal GGN, em 26/9/14.
Fome de Verdade
Denise Paiva
A chegada da primavera, neste domingo, 21 de setembro, no Rio Janeiro, foi inesperadamente chuvosa com o poder de nos deter em casa, nos impelindo a ler e refletir. Chamou minha atenção o artigo de Flávia Oliveira, no Globo, "Valeu Betinho", e também a informação da ONU de que o Brasil está excluído do Mapa da Fome. Não consegui deter a "traição dos meus dedos" e toquei alguns telefones. Sim, precisei compartilhar e constatar o sentimento de que há de fato, no Brasil, uma grande fome: a fome de verdade.
Não temos mais aquela realidade que o Presidente Itamar fez questão de divulgar numa histórica reunião ministerial em fevereiro de 1993, através de uma socióloga de carreira, sua conterrânea de Juiz de Fora, chamada Ana Peliano. Tiramos, até com certo receio (eu participei deste trabalho), das prateleiras quase extintas do Ipea um estudo lá existente que passou a se chamar Mapa da Fome, para efeitos de divulgação, tendo sido, posteriormente, adotado pela FAO.
Tal estudo revelou a estimativa de que 32 milhões de brasileiros passavam fome. Esta fome foi debelada, nos últimos 20 anos, por esforço conjunto de governo e sociedade, distribuição de cestas básicas, reforma agrária, Lei Orgânica da Assistência Social, universalização da alimentação escolar, programas de transferência de renda – como bolsa escola, bolsa alimentação e depois bolsa família –, mas especialmente pelo combate à inflação.
Em particular merece ser assinalada e reconhecida a grande mobilização social chamada Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, liderada pelo Betinho, que teve seu auge e existência vigorosa apenas no governo Itamar, na medida que o próprio Presidente ordenava a todo o governo, ministérios e empresas públicas, a se engajarem na luta contra a fome e a miséria e assegurava instrumentos e mecanismos necessários para tal.
A expressão maior politica e institucional da politica de combate à fome foi, todavia, o Consea, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar, instalado em 13 de maio de 1993 com a presença e as bênçãos de Dom Helder Câmara. O Conselho inaugura um modelo inédito de participação, com hegemonia da sociedade civil: 21 personalidades indicadas pelo Movimento pela Ética na Política, principal protagonista do afastamento do ex-presidente Collor, se organizaram ao lado de oito ministros de estado.
Foi uma época pungente de percepção da realidade, mudança de paradigmas, quebra de preconceitos, realizações em parcerias, mediação de conflitos. Imaginem o agronegócio, representado por Ney Bittencourt, da Agroceres, ao lado de Plínio Arruda Sampaio. Imaginem CNA, CNC, CNI conversando e definindo pautas comuns com a Contag, MST, CUT.
Na verdade, Betinho entra na história, quando a história já tinha um intenso desenrolar. Este desenrolar teve início com a Frente Nacional de Prefeitos, liderada pela então Prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, ainda em novembro de 1992, que traz para o governo propostas concretas e emergenciais de combate à fome e de inclusão social.
Ainda na interinidade, Itamar se contrapôs ao discurso neoliberal da modernidade e indagou: “Que modernidade é esta que produz tanta fome e tanta miséria?”. Fez uma convocação instigante e agregadora pelo impeachment da fome e pela ética nas prioridades das politicas públicas, propostos por Cristovam Buarque.
Entretanto, faz-se importante recordar o fato político antecedente mais importante, que se deu ainda em janeiro de 1993: o encontro Itamar e Lula. Este encontro, precedido de alguns percalços, só aconteceu pelo empenho e habilidade politica de Pedro Simon, que contou com a colaboração de Eduardo Suplicy. Suplicy, autor da lei de Renda Mínima, recém-aprovada no Congresso, lutava para que ela se tornasse de fato politica pública governamental de combate à fome.
Naquela histórica reunião, Lula apresentou a Itamar a proposta de combate à fome do governo paralelo do PT, coordenada por José Graziano, hoje na FAO. Itamar, por sua vez, apresentou um documento sobre aquilo que já vinha sendo feito, inclusive com a incorporação das propostas da Frente Nacional de Prefeitos, já em andamento e coordenadas com seu ministério.
Itamar convida Betinho para presidir o Consea. Betinho alega problemas de saúde e pede apoio para articular e animar a ação da sociedade civil, que Dom Luciano Mendes de Almeida batiza de Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida.
Itamar, o breve, deixa o governo sob um clima de indignação de muitos que desejavam que ele devesse ter buscado a reeleição em função dos altos e inesperados índices de aprovação. Itamar em pouco tempo foi reconhecido pelo exemplo de governabilidade sem barganha, lisura, simplicidade, combate à inflação e politicas sociais que colocaram o ordenamento social previsto na Constituição de 88 na ordem do dia para todos os brasileiros.
Até hoje fico a me indagar: a polarização entre PSDB e PT, que tomou conta do Brasil nos últimos 20 anos, terá jogado a experiência do governo Itamar no limbo da história? Esta polarização insidiosa é que nos mata dia a dia? Esta pergunta eu compartilho com alguns ministros e representantes da sociedade civil partícipes daquela experiência, testemunhas e protagonistas daquele tempo que foi, de fato, um tempo de "Nova Política". Com eles, a palavra!
Se fomos capazes de enfrentar e debelar a fome de “pão” e a inflação, podemos e devemos debelar a fome de verdade para que não sejamos canibais da nossa própria história!
Rio de Janeiro, 21 de setembro de 2014.
A íntegra.
Luciana Genro em programa da Band
Ela é a candidata que fala o que no passado falavam candidatos do PT e assim põe oxigênio no ar viciado da eleição.
A mentira faz parte da política na democracia representativa.
O entrevistador é ignorante, mas não é raivoso como outros que dominam os programas da "grande" imprensa e que deturpam os assuntos para manipular a opinião público.
Esta eleição talvez tenha sido o fundo do poço do atual modelo -- ou será apenas a primeira que demonstra como será daqui pra frente, fria e sem participação do povo?
Não acredito que a maioria dos brasileiros vá trocar Dilma por Aécio ou Marina.
Trocar um presente bom por uma volta ao passado ruim ou por um futuro incerto é coisa que a maioria da população só faz em momentos de crise, e não vivemos um momento assim.
O governo do PT tem defeitos graves, mas nem de longe é a corrupção.
Corrupção -- vamos entender de uma vez por todas -- faz parte do sistema capitalista e de qualquer governo "democrático". Os governos tucanos e anteriores foram certamente mais corruptos do que os do PT e um possível governo da Marina seria a corrupção no nível talvez do governo Collor, isto é, de um governo, digamos, desgovernado.
O suposto defeito da corrupção é só a eterna bandeira que a direita balança contra a esquerda, tentando conquistar as classes médias moralistas que são numerosas e influenciam o restante da população, já que dela fazem parte artistas, jornalistas, líderes religiosos etc.
No poder, essa direita é ainda mais corrupta.
Não é esta a questão, portanto, muito menos o defeito do governo do PT.
Se ignoramos esse bombardeamento diário de corrupção, o Brasil governado pelo PT melhora muito.
Se a "grande" imprensa mostrasse as coisas boas que estão sendo feitas e que são escondidas, porque faz oposição e só mostra coisas ruins e escandalosas, aí então é provável que os brasileiros se sentissem tão satisfeitos como jamais se sentiram várias gerações nascidas a partir da ditadura.
Aliás, uma pesquisa internacional não divulgada pela "grande" imprensa, é claro, revelou que o brasileiro é um dos povos mais felizes do mundo.
Os brasileiros vão ignorar a sua própria vida, que melhorou, e votar na oposição porque a "grande" imprensa diz sem parar que está tudo ruim?
Se isso acontecer, será um fenômeno social a ser estudado.
A "grande" imprensa ataca o governo do PT pelas suas qualidades, não pelos seus defeitos.
Os defeitos do Brasil no governo do PT são outros, principalmente a destruição do ambiente e a deterioração da qualidade de vida provocadas pelo agronegócio e pela opção automobilística, dois pilares do "desenvolvimentismo".
Defeitos que nem Aécio nem Marina atacariam, ao contrário, aumentariam; talvez Luciana Genro o fizesse, mas ela não será eleita, e se fosse, não teria maioria no Congresso para realizar mudanças, seria engolida pelo sistema reacionário ou teria de apelar para o povo, convocando uma Constituinte ou outra forma de governo popular. Podemos imaginar o que seria isso: se a "grande" imprensa e outros setores reacionários poderosos já são raivosos contra o governo moderado do PT, contra um governo do PSOL deflagrariam uma guerra civil -- com apoio dos EUA.
O grande erro político do PT é optar prioritariamente pela política tradicional em detrimento do empoderamento popular.
Em vez de promover a politização da população e de criar mecanismos de participação popular efetivos, o PT ficou preso na teia da política tradicional da democracia representativa, em que os políticos são eleitos pelo povo mas representam os interesses econômicos que financiam suas campanhas. Nessa política predominam o oportunismo, a corrupção, os interesses das elites. Qualquer ação a favor dos interesses coletivos só é realizada com muito custo, parcialmente, lentamente.
É o que estamos vivendo. Mudanças pela metade e devagar.
A mentira faz parte da política na democracia representativa.
O entrevistador é ignorante, mas não é raivoso como outros que dominam os programas da "grande" imprensa e que deturpam os assuntos para manipular a opinião público.
Esta eleição talvez tenha sido o fundo do poço do atual modelo -- ou será apenas a primeira que demonstra como será daqui pra frente, fria e sem participação do povo?
Não acredito que a maioria dos brasileiros vá trocar Dilma por Aécio ou Marina.
Trocar um presente bom por uma volta ao passado ruim ou por um futuro incerto é coisa que a maioria da população só faz em momentos de crise, e não vivemos um momento assim.
O governo do PT tem defeitos graves, mas nem de longe é a corrupção.
Corrupção -- vamos entender de uma vez por todas -- faz parte do sistema capitalista e de qualquer governo "democrático". Os governos tucanos e anteriores foram certamente mais corruptos do que os do PT e um possível governo da Marina seria a corrupção no nível talvez do governo Collor, isto é, de um governo, digamos, desgovernado.
O suposto defeito da corrupção é só a eterna bandeira que a direita balança contra a esquerda, tentando conquistar as classes médias moralistas que são numerosas e influenciam o restante da população, já que dela fazem parte artistas, jornalistas, líderes religiosos etc.
No poder, essa direita é ainda mais corrupta.
Não é esta a questão, portanto, muito menos o defeito do governo do PT.
Se ignoramos esse bombardeamento diário de corrupção, o Brasil governado pelo PT melhora muito.
Se a "grande" imprensa mostrasse as coisas boas que estão sendo feitas e que são escondidas, porque faz oposição e só mostra coisas ruins e escandalosas, aí então é provável que os brasileiros se sentissem tão satisfeitos como jamais se sentiram várias gerações nascidas a partir da ditadura.
Aliás, uma pesquisa internacional não divulgada pela "grande" imprensa, é claro, revelou que o brasileiro é um dos povos mais felizes do mundo.
Os brasileiros vão ignorar a sua própria vida, que melhorou, e votar na oposição porque a "grande" imprensa diz sem parar que está tudo ruim?
Se isso acontecer, será um fenômeno social a ser estudado.
A "grande" imprensa ataca o governo do PT pelas suas qualidades, não pelos seus defeitos.
Os defeitos do Brasil no governo do PT são outros, principalmente a destruição do ambiente e a deterioração da qualidade de vida provocadas pelo agronegócio e pela opção automobilística, dois pilares do "desenvolvimentismo".
Defeitos que nem Aécio nem Marina atacariam, ao contrário, aumentariam; talvez Luciana Genro o fizesse, mas ela não será eleita, e se fosse, não teria maioria no Congresso para realizar mudanças, seria engolida pelo sistema reacionário ou teria de apelar para o povo, convocando uma Constituinte ou outra forma de governo popular. Podemos imaginar o que seria isso: se a "grande" imprensa e outros setores reacionários poderosos já são raivosos contra o governo moderado do PT, contra um governo do PSOL deflagrariam uma guerra civil -- com apoio dos EUA.
O grande erro político do PT é optar prioritariamente pela política tradicional em detrimento do empoderamento popular.
Em vez de promover a politização da população e de criar mecanismos de participação popular efetivos, o PT ficou preso na teia da política tradicional da democracia representativa, em que os políticos são eleitos pelo povo mas representam os interesses econômicos que financiam suas campanhas. Nessa política predominam o oportunismo, a corrupção, os interesses das elites. Qualquer ação a favor dos interesses coletivos só é realizada com muito custo, parcialmente, lentamente.
É o que estamos vivendo. Mudanças pela metade e devagar.
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
RPJ: a nova marcha da família?
Primeiro pensei que se tratava daqueles jogos, RPG.
A estética da cartilha lembra a TFP e outros movimentos de direita.
Siglas.
O globo da bandeira do Brasil com o mapa invertido e o lema positivista também alterado: "Desordem no Congresso".
Jogo de palavras.
As cores verde, amarelo, azul.
E a palavra mágica, presente em todos os discursos da direita, desde que o Brasil inaugurou uma democracia mais participativa, depois da II Guerra Mundial: corrupção.
Outras palavras fortes: "indignação", "covardia".
E o advérbio que remete à maior campanha política de massas que o Brasil já teve, pelas eleições diretas, em 1984: "já".
A cartilha de 12 páginas, grampeada, com boa qualidade de impressão, está sendo distribuída nas ruas.
Não é apócrifa. Logo no começo, na página 2 há uma lista de nomes de "fundadores" do "movimento". Não conheço nenhum, além do nome não há outra identificação.
RPJ são as iniciais de "Reforma Política Já", o movimento.
A "instituição" se chama Pró-Cidadania -- Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Cidadania. Seu presidente é Marcílio A. Moreira.
Tem página na internet (www.rpj.org.br), telefone (31-9122-4330) e email: m2augusto@hotmail.com.
Podem ser pessoas de bem, bem-intencionadas, como eram muitas que participaram da marcha da família em 1964 e em 1968 estavam de novo nas ruas querendo derrubar a ditadura.
Não dizem que querem derrubar o governo nem derrotar a "ameaça comunista", hoje em dia isso soa anacrônico e não tem apelo. Querem derrotar "os políticos".
Mas os políticos que estão no poder são de esquerda também, o partido no governo é o PT...
Antes, quando os políticos eram, por exemplo, do PSDB, será que eles também se indignaram?
Dúvida.
Comparam-se à campanha das diretas e à campanha contra Collor.
São duas coisas diferentes.
Uma campanha queria a volta de eleição direta para presidente.
A outra queria tirar o presidente eleito diretamente.
A emenda da eleição direta foi derrotada pelo mesmo Congresso de "políticos" que depois cassou Collor e que agora o RPJ quer derrotar.
O impeachment do Collor, visto em retrospecto, foi um equívoco político grave: transferiu o poder para o Congresso de "políticos", que respondeu a uma exigência pretensamente popular manipulada pela "grande" imprensa.
A entrevista do irmão do Collor na capa da maior revista do país foi uma aberração. Outras matérias da campanha diária contra o presidente também.
O "partido da oposição", o partido vampiro da "grande" imprensa provou sangue e continua querendo mais até hoje.
Mesmo fracassando em 2004, contra Lula.
Voltando ao RPJ: a cartilha é bem feita, bem impressa, bem escrita (embora tanto texto certamente afasta grande parte dos leitores), com poucos erros de português. Repete as mesmas coisas em textos curtos, frases objetivas e listas de diagnósticos e propostas.
O raciocínio é simplista: chega de corrupção, a corrupção é coisa de políticos, precisamos reformar a política para acabar com a corrupção, para isso o povo precisa ir para a rua.
Começando na véspera desta eleição: a cartilha convoca a todos para uma grande manifestação na Praça do Papa, dia 28, domingo.
Como na marcha de 64, convoca o leitor "e sua família".
Como na marcha de 64, conta com a proteção da PM mineira. "Pode vir tranquilo. A PM garantirá a nossa segurança."
É uma promessa estranha, pois todos sabemos, e todo mundo que foi para as ruas em 2013 se lembra muito bem, que a PM não vai para as ruas proteger manifestantes, mas para jogar bombas de gás, atirar balas de borracha, prender, bater, ferir, cegar. Por que com o RPJ será diferente? A PM é a favor do RPJ? O governo do estado, à qual a PM é subordinada, é a favor do RPJ?
A cartilha, que deve ter custado muito dinheiro, pede doações numa conta bancária -- de R$ 10, R$ 20 ou R$ 50.
Um movimento que combate a corrupção e prega a transparência, poderia começar informando como arrecadou dinheiro para imprimir a cartilha, quanto ela custou, como emprega o dinheiro das doações.
Sendo ou não coisa de uma nova TFP, de um novo Ibad, de um novo Ipes, reproduz o velho pensamento positivista que os militares legaram ao Brasil ao abolir a monarquia e inaugurar a república.
Um pensamento linear que vê doenças e remédios, que resolve tudo com leis e organização burocrática.
Estou muito velho para ser ingênuo, é óbvio que essa visão da história como bem e mal, dos políticos como diferentes de nós e da corrupção como a causa de todos os males não é discurso de gente "pura" e bem-intencionada.
Ora, os políticos não foram eleitos?
Por que os eleitores -- os integrantes do RPJ inclusive e pra começar -- são melhores do que os políticos?
Dá para começar a discussão por aí, se a intenção é realmente boa; nos distinguirmos deles, dizendo que somos os bons e que eles são os maus, é um raciocínio torto e suspeito.
A corrupção é sempre "do outro". As denúncias de corrupção aparecem sempre quando o governo é de esquerda. Coincidência? Por que a corrupção nos governos de direita não incomoda? Por que um "movimento" que aparenta tanta minúcia no levantamento de dados e na formulação de propostas não analisa igualmente se a corrupção aumentou, diminuiu ou é a mesma ao longo dos anos, dos governos, da história? Por que generaliza? De onde tira as informações sobre corrupção? Da "grande" imprensa? Por que não cita suas fontes? Uma única vez faz isso, e a fonte, como era de se esperar, é a revista Veja. Mas quem combate a corrupção desconhece os escândalos envolvendo a revista? Como basear denúncias numa revista suspeita?
Há poucos dias, um grande movimento de sindicatos, associações, organizações diversas e partidos políticos inclusive, todos identificados, promoveram um grande plebiscito a favor da reforma política. O mesmo objetivo que, aparentemente, o RPJ busca. O plebiscito pede a eleição de uma Constituinte exclusiva para a reforma política.
O resultado do plebiscito saiu ontem: foram 7,4 milhões de votos favoráveis à Constituinte (97,2% -- 2,7%, contrários), número bastante expressivo para um movimento organizado pela sociedade, sem participação governamental nem estatal.
O RPJ não participou. Por quê?
A estética da cartilha lembra a TFP e outros movimentos de direita.
Siglas.
O globo da bandeira do Brasil com o mapa invertido e o lema positivista também alterado: "Desordem no Congresso".
Jogo de palavras.
As cores verde, amarelo, azul.
E a palavra mágica, presente em todos os discursos da direita, desde que o Brasil inaugurou uma democracia mais participativa, depois da II Guerra Mundial: corrupção.
Outras palavras fortes: "indignação", "covardia".
E o advérbio que remete à maior campanha política de massas que o Brasil já teve, pelas eleições diretas, em 1984: "já".
A cartilha de 12 páginas, grampeada, com boa qualidade de impressão, está sendo distribuída nas ruas.
Não é apócrifa. Logo no começo, na página 2 há uma lista de nomes de "fundadores" do "movimento". Não conheço nenhum, além do nome não há outra identificação.
RPJ são as iniciais de "Reforma Política Já", o movimento.
A "instituição" se chama Pró-Cidadania -- Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Cidadania. Seu presidente é Marcílio A. Moreira.
Tem página na internet (www.rpj.org.br), telefone (31-9122-4330) e email: m2augusto@hotmail.com.
Podem ser pessoas de bem, bem-intencionadas, como eram muitas que participaram da marcha da família em 1964 e em 1968 estavam de novo nas ruas querendo derrubar a ditadura.
Não dizem que querem derrubar o governo nem derrotar a "ameaça comunista", hoje em dia isso soa anacrônico e não tem apelo. Querem derrotar "os políticos".
Mas os políticos que estão no poder são de esquerda também, o partido no governo é o PT...
Antes, quando os políticos eram, por exemplo, do PSDB, será que eles também se indignaram?
Dúvida.
Comparam-se à campanha das diretas e à campanha contra Collor.
São duas coisas diferentes.
Uma campanha queria a volta de eleição direta para presidente.
A outra queria tirar o presidente eleito diretamente.
A emenda da eleição direta foi derrotada pelo mesmo Congresso de "políticos" que depois cassou Collor e que agora o RPJ quer derrotar.
O impeachment do Collor, visto em retrospecto, foi um equívoco político grave: transferiu o poder para o Congresso de "políticos", que respondeu a uma exigência pretensamente popular manipulada pela "grande" imprensa.
A entrevista do irmão do Collor na capa da maior revista do país foi uma aberração. Outras matérias da campanha diária contra o presidente também.
O "partido da oposição", o partido vampiro da "grande" imprensa provou sangue e continua querendo mais até hoje.
Mesmo fracassando em 2004, contra Lula.
Voltando ao RPJ: a cartilha é bem feita, bem impressa, bem escrita (embora tanto texto certamente afasta grande parte dos leitores), com poucos erros de português. Repete as mesmas coisas em textos curtos, frases objetivas e listas de diagnósticos e propostas.
O raciocínio é simplista: chega de corrupção, a corrupção é coisa de políticos, precisamos reformar a política para acabar com a corrupção, para isso o povo precisa ir para a rua.
Começando na véspera desta eleição: a cartilha convoca a todos para uma grande manifestação na Praça do Papa, dia 28, domingo.
Como na marcha de 64, convoca o leitor "e sua família".
Como na marcha de 64, conta com a proteção da PM mineira. "Pode vir tranquilo. A PM garantirá a nossa segurança."
É uma promessa estranha, pois todos sabemos, e todo mundo que foi para as ruas em 2013 se lembra muito bem, que a PM não vai para as ruas proteger manifestantes, mas para jogar bombas de gás, atirar balas de borracha, prender, bater, ferir, cegar. Por que com o RPJ será diferente? A PM é a favor do RPJ? O governo do estado, à qual a PM é subordinada, é a favor do RPJ?
A cartilha, que deve ter custado muito dinheiro, pede doações numa conta bancária -- de R$ 10, R$ 20 ou R$ 50.
Um movimento que combate a corrupção e prega a transparência, poderia começar informando como arrecadou dinheiro para imprimir a cartilha, quanto ela custou, como emprega o dinheiro das doações.
Sendo ou não coisa de uma nova TFP, de um novo Ibad, de um novo Ipes, reproduz o velho pensamento positivista que os militares legaram ao Brasil ao abolir a monarquia e inaugurar a república.
Um pensamento linear que vê doenças e remédios, que resolve tudo com leis e organização burocrática.
Estou muito velho para ser ingênuo, é óbvio que essa visão da história como bem e mal, dos políticos como diferentes de nós e da corrupção como a causa de todos os males não é discurso de gente "pura" e bem-intencionada.
Ora, os políticos não foram eleitos?
Por que os eleitores -- os integrantes do RPJ inclusive e pra começar -- são melhores do que os políticos?
Dá para começar a discussão por aí, se a intenção é realmente boa; nos distinguirmos deles, dizendo que somos os bons e que eles são os maus, é um raciocínio torto e suspeito.
A corrupção é sempre "do outro". As denúncias de corrupção aparecem sempre quando o governo é de esquerda. Coincidência? Por que a corrupção nos governos de direita não incomoda? Por que um "movimento" que aparenta tanta minúcia no levantamento de dados e na formulação de propostas não analisa igualmente se a corrupção aumentou, diminuiu ou é a mesma ao longo dos anos, dos governos, da história? Por que generaliza? De onde tira as informações sobre corrupção? Da "grande" imprensa? Por que não cita suas fontes? Uma única vez faz isso, e a fonte, como era de se esperar, é a revista Veja. Mas quem combate a corrupção desconhece os escândalos envolvendo a revista? Como basear denúncias numa revista suspeita?
Há poucos dias, um grande movimento de sindicatos, associações, organizações diversas e partidos políticos inclusive, todos identificados, promoveram um grande plebiscito a favor da reforma política. O mesmo objetivo que, aparentemente, o RPJ busca. O plebiscito pede a eleição de uma Constituinte exclusiva para a reforma política.
O resultado do plebiscito saiu ontem: foram 7,4 milhões de votos favoráveis à Constituinte (97,2% -- 2,7%, contrários), número bastante expressivo para um movimento organizado pela sociedade, sem participação governamental nem estatal.
O RPJ não participou. Por quê?
Mate os males mas não se importe com desenganos
Quem não ouviu, perdeu. Quem não conhece, não pode desconhecer. Direto do túnel do tempo, há quarenta anos. Até hoje lembro das letras e músicas: "Granulou-se o verde vertentiii..." E durou só um ano. Com vinte anos de idade, Guilherme Arantes era um grande poeta, além de grande músico. Em meados dos anos 70, governo Geisel, "abertura", havia jovens que mexiam com política e jovens que mexiam com música, às vezes com os dois. E os outros. Tempos estranhos, repletos de trilhas musicais.
sábado, 20 de setembro de 2014
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