sábado, 11 de julho de 2026

O que aconteceu com o Brasil? O que aconteceu com a América Latina?

Por que o Brasil e a América Latina deram essa guinada para a direita? 

Ouvir analistas dizendo o mesmo que eu penso e constatar a incapacidade humana de enxergar, enquanto acontece, o óbvio que agora vemos, me dá certo conforto de pensar que a cegueira não é só minha. Me faz também pensar na tragédia grega: nosso destino está escrito, temos conhecimento dele, tentamos evitá-lo e acreditamos arrogantemente que conseguimos, experimentamos a húbris, mas no fim nos encontramos com o que estava previsto e o realizamos, consumando a tragédia. 

Em 2010, Lula terminou seu segundo mandato com aprovação recorde, 87%. Parecia que estava tudo bem e no entanto estava tudo mal, a gente só não sabia ainda, mas hoje é claríssimo. Será que alguém sabia? Vou procurar críticas daquela época que se confirmaram. Isso porque críticas erradas, preconceituosas, havia muitas. A questão é saber se havia críticas corretas e de quem. Mesmo o Ciro, que era crítico do modelo desde 1996, nessa época estava no governo e calado, acho, não tenho certeza, não lembro. Pelo menos não foi candidato em 2010 nem em 2014, erros capitais. 

O fato é que Lula estava no auge e no entanto estava tudo errado, a começar pela falta de um projeto nacional de desenvolvimento sustentável e popular. O Brasil de Lula se desenvolvia e distribuía renda, daí sua popularidade, porque o governo demonstrava competência em administrar o capitalismo, coisa que a direita nunca demonstra, e porque a economia internacional e a política mundial estavam favoráveis. Bastaram os ventos mudarem de direção, na economia e na política, para que aquele sucesso desabasse. O projeto petista era completamente dependente do Lula, sem ele e com a incompetência política da Dilma, o governo se perdeu. 

Do ponto de vista histórico, Lula poderia ter se retirado da política e deixado que o PT escolhesse seu candidato e continuasse seu caminho por conta própria, como maior partido do país e um partido dos trabalhadores. Entraria para a história como um dos nossos maiores presidentes, evitaria a larva jato, a prisão e todas as desgraças pessoais que acompanharam sua queda, mas preferiu escolher uma candidata que dependesse dele para ser eleita, que guardasse sua vaga, pra ele voltar depois. A ambição política é míope e sem limites. 

O que poderia ter acontecido? O candidato petista, que provavelmente não seria Dilma, poderia ter perdido a eleição. Isso seria pior do que o que aconteceu? A alternância no poder e um governo tucano seriam piores do que o desastroso governo Dilma, a larva jato, a prisão do Lula, o golpe de 2016, o bozoísmo, o governo bozo, esse novo governo Lula? Desde 2010 só retrocedemos. Nada do que foi tirado dos trabalhadores pelos governos Dilma 2, Temer e bozo foi devolvido pelo governo Lula 3. Diga-se de passagem, o próprio governo Lula, nos seus bons tempos, tirou direitos trabalhistas na previdência, o que mostra que nunca teve um projeto de fato comprometido com os trabalhadores, apenas distribuiu migalhas dos enormes ganhos do capital, os quais continuam no governo Lula 3. Lula sempre pensou no seu interesse pessoal em primeiro lugar.  

Já ia tudo mal e a gente não via. A direita se preparava para o extremismo, com a expansão das suas bases ideológicas evangélicas e neoliberais no meio do povo, um trabalho de décadas a partir dos EUA que se apresentou pronto nas manifestações golpistas de 2016. O que a gente considerava ser esquerda administrava o Estado para o capital e defendia a democracia, deixando os trabalhadores desorganizados e sem um projeto próprio, enquanto a extrema direita conquistava os trabalhadores para a ideologia neoliberal e se preparava para tomar o poder. 

Tudo é ideologia. A gente acreditava que o governo lulopetista era um governo popular porque o PT era o partido dos trabalhadores, que Lula era um líder popular porque é um ex-sindicalista, ex-operário, homem do povo, retirante nordestino. Ambos porém sempre fizeram a política burguesa, seus limites políticos eram a democracia liberal, que se empenharam em implantar e manter. Crescer como partido, conquistar o povo, ganhar eleições, governar dentro das regras democráticas burguesas, administrar bem o sistema para o capital e dessa forma conceder benefícios ao povo. 

Nunca foi mais que isso, mas já era muito para as classes dominantes brasileiras, isso manteria Lula e o PT eternamente no poder, se fosse possível. Não era: Lula só tinha direito a uma reeleição, e aí começou o drama que põe a política, mesmo a política burguesa, dentro de limites éticos. É curioso: a direita, que se diz liberal e democrata, nunca teve pudor em derrubar a democracia e impor governos autoritários, enquanto a esquerda, que se pretende a favor da transformação social, mantém a democracia burguesa com unhas e dentes. A esquerda adere a todas as práticas corruptas da política burguesa, mas é incapaz de dar um golpe. Fica, por isso, em condições de inferioridade diante da direita. 

Se é para jogar o jogo burguês, se a esquerda acredita na democracia liberal, deve também deixar claro qual é o seu programa, um programa diferente do programa da direita. Será um programa de esquerda? Será a esquerda capaz de defender um programa de esquerda e implantá-lo? Ou sua natureza é defender um programa de esquerda, ganhar eleições e implantar programa de direita? Consideremos que os tucanos eram direita e o PT era esquerda. Como oposição, o governo lulopetista não poderia dar continuidade ao governo FHC, em 2002, mas foi o que fez. Se é um governo de continuidade, porque então se opor ferrenhamente antes e não cooptar os tucanos depois? De fato, foi muito mais uma disputa de egos, entre candidatos, do que entre propostas políticas. E o ego do Lula é o maior de todos. 

Durante mais quatro eleições, lulopetistas e tucanos representaram um teatro em que eram rivais, mas quando finalmente os tucanos destronaram os lulopetistas quem herdou o trono foi o bozoísmo, a extrema direita. Quem, afinal, tinha compromisso com a democracia liberal burguesa? Nenhum dos dois lados, vê-se hoje, pois não foram capazes de se conciliar em nome de um interesse maior, isto é, seu pretenso compromisso com a democracia. E muito menos a extrema direita, é claro, que sempre se declaro abertamente contra ela. Os tucanos apoiaram o golpe de 2016, os lulopetistas preferiram ser derrubados pelo golpe do que aposentar Lula em 2010 e admitir a alternância de poder nas urnas. 

Quem perde com governos burgueses, seja de direita, seja de pretensa esquerda, é sempre o povo. E perde ainda mais quando a democracia burguesa entra em colapso, na disputa entre esquerda e direita, e a extrema direita assume o poder, abole os luxos liberais e implanta programas abertamente antipopulares. 

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