domingo, 4 de outubro de 2026

Em memória do Inho

Hoje, meu amigo de infância Luís, o Inho, faria 70 anos. Ele era o craque do nosso time e um talentoso violonista. Morreu muito jovem, aos 26 anos, de forma violenta, longe de casa. Em sua homenagem publico trecho do livro Ainda me lembro. 


Minha vida de menino 

O portão da casa do Teco rangeu e ele apareceu em seguida. Ao nos avistar sob a luz do poste, subiu ao nosso encontro. Queria nos contar uma novidade: o Cruzeirim topava jogar contra o Alvorada. 

Cresci jogando bola. Era assim que se dizia, jogar bola, não era futebol, talvez porque futebol era um jogo com dois times de onze jogadores, camisas numeradas, campo oficial, dois tempos de 45 minutos, juiz e bandeirinhas. Nossos jogos não tinham nada disso. Para nós, bastavam dois jogadores, uma bola e um espaço qualquer. De fato, até sozinhos nós jogávamos. Todo menino tinha uma bola, perto de nós sempre havia uma bola. Jogávamos bola nos terreiros das nossas casas, em corredores, em lotes vagos e até na rua, embora nossa rua fosse uma ladeira. O jogo se adaptava às condições, mas sempre era jogar bola. Desenvolvemos uma habilidade admirável de controlar a bola no piso de pedras da rua íngreme. Chamávamos a isso de “cruzo”: um de nós ficava mais abaixo, no passeio, e cruzava a bola, alta, na direção dos que estavam na rua, de frente para um portão largo improvisado como gol e defendido por um goleiro. Cada um dava só um toque na boa, sem deixá-la cair no chão, e o terceiro era um chute ao gol – se o goleiro defendia ou o chute ia para fora, quem errava ia para o gol e o goleiro passava à linha. Nesse jogo, interrompido e recomeçado a qualquer momento, para pedestres e carros passarem ou quando uma mãe chamava, passávamos horas nos divertindo animadamente, ocupando o espaço público, gritando e estrondando o portão com os chutes. Para alguns adultos aquilo era incompreensível, mas para nós era a coisa mais natural do mundo. Quando um carro apontava na esquina, alguém avisava: “Ó o carro” – e o esperávamos passar. Eram poucos os veículos então. Quando a bola escapava, o cruzador descia correndo atrás dela, gritando para que algum transeunte a parasse, o que acontecia com frequência, pois muitos gostavam de nos ajudar e se desculpavam quando não conseguiam. Com sorte, a bola não ia além da Rua Diamantina, pouco movimentada, mas, se chegava à Avenida Antônio Carlos, o risco de perdê-la era grande. Dançando entre veículos, algumas bolas escaparam, outras estouraram. 

Nossa habilidade se evidenciava também nas quedas de “chutinhos”, cujo objetivo era chutar a bola para cima o maior número de vezes seguidas. Nisso eu era campeão: uma vez dei 253 chutinhos e só parei porque minha perna doeu. O macete era pegar o jeito da bola, sentir seu peso e suas irregularidades, arranjar uma posição confortável e bater sempre com a mesma força, com o mesmo lugar do pé, repetindo o movimento, mantendo a concentração. 

Quando a turma aumentou, nossas peladas passaram a ser no campo do Pitangui Esporte Clube, de terra e poeira fina, cercado por enorme pedreira desativada e espaços vazios. Os dois times eram escolhidos no par ou ímpar, um jogavam de camisa e o outro sem. Não tinha juiz, mas a gente se entendia: divergências eram superadas, machucar fazia parte do jogo e as amizades se refaziam depois de discussões, embora, às vezes, a brincadeira acabasse em briga. (...) 

Quando José e Jorge começaram a vender sonhos e não podiam mais brincar de dia, a turma passou a se encontrar à noite. No começo da tarde, eles enchiam os balaios dos bolinhos feitos na casa de Wilson e Cabeção e saíam pelas redondezas, cada um para um lado: Jorge ia em direção ao Bairro São Cristóvão e José em direção ao Centro, só voltavam ao entardecer ou quando os balaios ficavam vazios. Para mim, aquilo era uma coisa incompreensível: meus amigos, ainda crianças e já trabalhando. Lá em casa, a gente só tinha que estudar, meu pai e minha mãe pagavam todas as despesas e nos davam tudo que queríamos. Depois dos banhos e da janta, a turma ia se formando, junto ao poste; um a um íamos chegando, assoviando, assinalando nossa presença. Reunidos ali, na luz da lâmpada, em frente à minha casa, constatamos que já éramos numerosos o bastante para formar um time de futebol. Queríamos jogar em campo oficial, com bola oficial, vestindo uniforme, chuteiras e tudo. Fizemos uma vaquinha e compramos um jogo de camisas usado, com listas verticais vermelhas e brancas, buracos e forte cecê. Dona Maria, nossa empregada, lavou-as, esfregando bem debaixo do braço, e remendou-as. Escolhemos o nome Alvorada Futebol Clube, adequado às iniciais bordadas no escudo, e começamos a procurar um adversário para o jogo de estreia. Agora, Teco nos dava a boa notícia, acompanhada de um aviso. 

 -Eles são bons. O Alan desequilibra. 

Alan era o primo do Teco. Os dois cresceram juntos, tinham a mesma idade e físicos parecidos, por isso ganharam os apelidos de Tico e Teco, como os esquilos do desenho animado, mas só o do César pegou. Ser bom de bola devia ser coisa de família, pois Teco era o nosso craque, o primeiro escolhido no par ou ímpar. Jogava com elegância, driblava com facilidade e sem pressa, protegia a bola de uma forma que era difícil tomá-la dele, chutava com pontaria e fazia muitos gols. Tinha um talento nato que o diferenciava dos outros, mas também defeitos: era temperamental, manhoso, não gostava muito de correr e abandonava o jogo quando alguma coisa o aborrecia. Às vezes era preciso ir buscá-lo em casa e convencê-lo a jogar, pois se esquecia ou não estava a fim. Eu queria garantir sua presença na estreia do nosso time. 

-Você vai jogar, não vai? – perguntei-lhe. José olhou pra mim com uma expressão de censura que eu conhecia: ele se incomodava quando a gente paparicava o Teco. 

Eu não ligava de fazer isso, pois não rivalizava com ele, mas José, sim. Se Teco era o craque da turma, José era o decano e o nosso jogador mais completo: corria muito, marcava, chutava e cabeceava bem, ganhava as divididas e era bom até no gol, rivalizando com seu irmão, o nosso goleiro oficial. José tinha fome de bola, era competitivo e raramente perdia. 

 -Podem deixar o Alan por minha conta – prometeu, sem esperar a resposta do Teco e afirmando sua autoridade.

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