sexta-feira, 17 de julho de 2026
Elias Jabbour e o projeto da esquerda para o Brasil
Há muitas coisas a dizer sobre essa entrevista do Elias Jabbour. A primeira é que ele é, ao lado do Jones Manoel e do Vladimir Safatle, o intelectual mais brilhante da esquerda brasileira (e já que não há intelectuais na direita, do Brasil). A segunda coisa é sobre a capacidade dos autistas. Ele é autista, assim como a exuberante Suzana Herculano e o Messi, e o que os autistas fazem é impressionante. A terceira coisa a dizer é que grande parte, senão tudo, mas a essência do pensamento do Elias Jabbour vem sendo exposta pelo Ciro Gomes desde 1996, no livro O Próximo Passo, que escreveu em parceria com Roberto Mangabeira Unger, uma crítica ao governo FHC e uma proposta para superar o caminho que o Brasil continuou segundo nos governos Lula e Dilma. Em resumo, trata-se do seguinte. O desenvolvimento brasileiro entrou em colapso com o aumento internacional do preço do petróleo que fez disparar a dívida externa e a inflação. Foi isso inclusive, a incapacidade de resolver esse problema numa ditadura de direita corrupta e incompetente, que levou à derrubada do regime militar. Os governos civis "democráticos" se empenharam em: 1) dar prioridade ao combate à inflação; 2) adaptarem o país à nova ordem internacional neoliberal. Foi uma demonstração evidente de que as elites brasileiras não tinham uma solução para a questão do desenvolvimento nacional interrompido e que se submetiam aos modelos impostos de fora. Só Ciro Gomes (e Mangabeira Unger), que eu saiba, se opuseram a esse modelo nos últimos trinta anos. A disputa entre esquerda e direita ficou em torno de questões marginais, ainda que importantes, numa disputa ideológica que criou condições para a praga do fascismo. A quarta coisa a dizer sobre a entrevista é que em 2010 eu escrevi um livro, 60 Anos de Grandes Obras e Histórias: A Construção do Brasil, publicado pela Ideia e patrocinado por uma multinacional, que aborda exatamente o pujante desenvolvimento brasileiro a partir da década de 1940, que durou décadas, atravessou governos, inclusive a ditadura militar, foi interrompido na crise dos anos 1980 e tinha sido retomado pelo governo Lula, com o PAC. O Brasil tem um projeto nacional de desenvolvimento, mas ele foi interrompido no governo Collor e o governo FHC escolheu outro caminho, de "estabilização", que escolheu uma nova posição para o país na economia internacional, de exportador de matérias-primas e importador de tecnologias e produtos industrializados. O que o Jabbour diz é muito simples, mas tem duas ou três coisas fundamentais pra gente compreender o Brasil atual e uma delas é que nosso esquerda é uma merda, que não entende nada da nossa história e importa teorias estrangeiras que nos mantêm colonizados. A direita é entreguista e capacho do imperialismo, além de reacionária, autoritária, estúpida, burra e ignorante. A burguesia nacional, como qualquer burguesia, quer ganhar dinheiro, só isso, não importa de onde ele vem. Ela não vai fazer nenhuma revolução nem liderar nada, como pretendia o partidão e a ideologia marxista-leninista tradicional, mas, se um projeto nacional lhe der a oportunidade de desenvolver o país, ela vai aderir. E esse projeto tem que vir da esquerda, que é o único, digamos, setor da sociedade brasileira que pensa. Isso, que a esquerda brasileira não tem um projeto nacional, está cada vez mais claro e foi colocado na ordem do dia pelos intelectuais citados no começo e por outros, que estão ressuscitando os ideólogos da Polop, Rui Mauro Marini e outros, que fizeram o mais avançado esforço de compreender o Brasil e formular um projeto revolucionário nacional. Jabbour elogia o trabalhismo e critica o PT e o Lula, ao mesmo tempo elogia o PT e o Lula. Está certo, porque o problema do PT não é existir, é ter seguido o caminho que seguiu. A esquerda devia dirigir o PT com ideias e guiar o Lula, mas foi o Lula que guiou o PT, com seu projeto pessoal de poder, e o PT aderiu ao neoliberalismo. Lula é errático, pode ser neoliberal ou desenvolvimentista, e o PT o acompanhou. Foi uma escolha ideológica travestida de adaptação às condições históricas, que Jabbour demonstra terem sido equivocadas, pois havia outro caminho, o que não havia era lucidez, um projeto próprio, de esquerda e socialista, como tem a China, por exemplo. Se o Brasil, na década de 1980 tivesse feito outra escolha, a de crescer com capital próprio e não se submeter ao FMI e ao Consenso de Washington, seria hoje uma potência maior do que a China. E disso vem mais uma questão: por que os brasileiros são assim? Por que os líderes mais brilhantes dos últimos cinquenta anos, civis e intelectuais, de esquerda e progressistas, capitularam ao neoliberalismo e fizeram o país retroceder à condição de colônia agrária exportadora, que tinha sido superada com a Revolução de 1930? A situação brasileira atual é terrível, a direita fascista se tornou muito influente, a situação climática coloca a humanidade toda diante de catástrofes crescentes, não há solução que não passe pela prioridade ao ambiente, mas parece que finalmente a esquerda começa a pensar e compreender que é quem ela quem tem de liderar a revolução brasileira e para isso precisa ter boas análises e projetos. A chamada Era Lula está no fim e única esperança para os brasileiros é que ela seja superada por um projeto de esquerda e não pelo caos fascista.
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