terça-feira, 30 de setembro de 2025

Sionismo x antissionismo, um excelente debate

Vale por mais do que uma aula sobre as causas do genocídio dos palestinos por Israel em Gaza, que completa dois anos: é um curso inteiro de história do sionismo, do judaísmo e do mundo contemporâneo. Tenho críticas ao Breno Altman por sua simpatia ao stalinismo, mas suas falas e seu comportamento nesse debate são admiráveis. Sobre o rabino, o melhor que se pode dizer foi dito no final: ele foi o único sionista que aceitou debater o assunto. E demonstrou diversas vezes as características morais e intelectuais dos extremistas. Seja como for, é útil entender como funciona a cabeça dessas pessoas. A cegueira dos fanáticos aos fatos (como não condenar o genocídio em Gaza e manter a dignidade? Como dormir em paz? Como continuar sendo um religioso?) é tão grande que fica evidente a impossibilidade de entendimento racional. O que vale para Israel vale também para os negacionistas norte-americanos, para não dizer dos bozoístas, que estão em baixa. 

Fiquei pensando também o quanto esses debates e podcasts na internet não só contribuem para a politização de quem se interessa, mas também são avanços na democracia liberal burguesa, cuja decadência é assustadora. E olha que o Brasil hoje anda sendo exemplo para o mundo. O mérito, porém é do Judiciário, que conduziu corretamente o julgamento dos golpistas e não se intimidou com as pressões externas (exceto um ministro do STF), e da sociedade, que saiu às ruas para dizer não à impunidade e à anistia. Foram reações importantes, que mantêm a democracia e impedem que o Brasil se transforme também numa autocracia, como tantas nações já se tornaram, mas foram reações, o que significa que a iniciativa continua com a extrema direita golpista e com os políticos corruptos, corrupção que hoje já se encontra misturada com o crime organizado. É preciso muito mais, é preciso um projeto de nação alternativo e melhor do que o Estado atual para derrotar a ascensão da extrema direita.  

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Certeza de boa leitura

 

Uma das reportagens mais interessantes que eu fiz no período em que trabalhei no Jornal do Brasil foi sobre cassinos clandestinos. Não me lembro a data exata, provavelmente em 1988. Foi uma pauta encomendada, isto é, veio diretamente da sede, no Rio, e eu fui escalado, provavelmente porque andava cobrindo o jogo do bicho, que, apesar de ilegal, agia escancaradamente em BH. Eu e o repórter fotográfico Mazico viajamos para o Sul de Minas e passamos quase uma semana à procura de cassinos clandestinos. Tínhamos boas indicações de fontes e cidades, principalmente estâncias hidrominerais, mas não foi fácil encontrar um. Obviamente, sendo clandestinos, não estavam à mostra, mas existiam, todo mundo sabia, e conseguimos boas entrevistas, uma delas, me lembro bem, com um "ex-bicheiro" carioca que estava vivendo em Minas. Outra entrevista curiosa foi com um crupiê veterano, dos tempos em que cassinos funcionavam livremente, inclusive em BH, onde hoje está instalado o Museu de Arte da Pampulha, antes que o então presidente Dutra decretasse sua ilegalidade, em 1946. Essas e outras fontes defenderam a legalização dos cassinos como atividade turística importante, mas negaram a existência de cassinos clandestinos na região. O velho crupiê, homem elegante e de boa conversa, falou com nostalgia daqueles tempos glamourosos e lamentou que tivessem passado. Na noite do mesmo dia em que o entrevistamos conseguimos chegar a um cassino clandestino: precisamos sair de Minas, entrar em São Paulo e voltar para território mineiro por outra estrada; o cassino ficava na zona rural, mas o acesso era bom. Funcionava num galpão, que, externamente, parecia um celeiro, a não ser pela iluminação e pelos carros luxuosos estacionados no seu entorno. Do lado de dentro, porém era um salão suntuoso, repleto de gente bem vestida, em volta de mesas de jogos, servida por garçons alinhados. Cena de cinema. Quando entramos, Mazico e eu, demos de cara com o velho crupiê, trabalhando na primeira roleta... Com essa pérola, voltamos para BH no dia seguinte, eu redigi a extensa reportagem, enviada pelo telex ponta a ponta, e Mazico despachou as fotos, não me lembro se pelo malote ou transmitidas pela telefoto. Ficamos muito satisfeitos com o trabalho, que foi elogiado, e aguardamos ansiosos a edição de domingo, na qual a reportagem deveria sair, revelando aos leitores do JB que, embora proibidos há mais de quarenta anos, os cassinos continuavam funcionando no Brasil, pelo menos em Minas Gerais, provavelmente operados por bicheiros do Rio. A reportagem não saiu naquele domingo, nem na segunda-feira, quando às vezes saíam dominicais que tinham sobrado por falta de espaço, nem no domingo seguinte nem dia nenhum. 

Lembrei dessa história lendo Sucursal das Incertezas (foto acima), livro do José de Souza Castro, um dos melhores jornalistas com quem convivi, um dos grandes de todos os tempos no jornalismo mineiro. José de Souza Castro, o Zé de Castro, como o chamam os colegas, ou JC, como ele rubricava suas pautas, foi o editor regional do JB que me enviou para o Sul de Minas e copidescou minha reportagem. Nas últimas páginas do seu livro, ele narra reportagem semelhante que escreveu para O Globo, no começo da década de 1990. Sua matéria, provavelmente melhor, também não foi publicada, embora tivesse até chamada na TV Globo no sábado à noite, naquele tradicional "Leia amanhã em O Globo", e, por descuido, chamada na primeira página do jornal de domingo. No lugar, entrou um calhau, um anúncio de página inteira, por ordem, presume-se, do mais alto escalão do jornal. Por que será? 

Sucursal das Incertezas é um livro primoroso. Nele, JC narra inúmeras reportagens relevantes das décadas de 1970, 1980 e 1990. Embora possa ser lido como memórias pessoais, o trabalho incluiu pesquisas e se tornou um compêndio do jornalismo "nos tempos do telex ponta a ponta". É um retrato do trabalho da sucursal belo-horizontina do melhor jornal brasileiro da época, quando as sucursais eram importantes e o jornalismo era muito diferente do que é hoje. Nele, estão citados inúmeros jornalistas que trabalharam nos veículos mineiros e brasileiros no período e as reportagens que escreveram, devidamente circunstanciadas. O autor situa as histórias no contexto nacional e faz observações sagazes sobre o jornalismo, a política e a sociedade da nossa época. Tudo isso num texto ágil, limpo e atraente, que prende do começo ao final. É, enfim, um livro surpreendente, mesmo para aqueles que conviveram com o jornalista e conhecem bem sua competência profissional. 

Escrito em 2007 e, inicialmente, disponibilizado pela internet, Sucursal das Incertezas, a história vista por um jornalista dos tempos do telex ponta a ponta está agora publicado em papel, felizmente, e merece ser lido por todos os jornalistas, mas não só. Tem 316 páginas, incluindo um apêndice de fotografias. A nova edição foi revisada pela jornalista Cristina Moreno de Castro, filha do JC e com quem ele divide o Blg da Kika Castro, por meio do qual o livro pode ser adquirido. A apresentação é do Acílio Lara Resende, diretor da sucursal do JB em Belo Horizonte durante mais de duas décadas. 

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Calma urgente e a reação popular ao projeto da impunidade e à anistia

Esse trio é muito inteligente e bem informado, a análise da Alessandra Orofino, em especial, é excelente, por isso mesmo eu não entendo sua ingenuidade em relação ao lulismo. Eles continuam torcendo pelo que o Lula não vai fazer. "A única forma de aprovar pautas populares é trazer o povo para fazer pressão", diz ela a certa altura. Mas é isso que esperávamos em 2002 e nunca aconteceu, ao contrário, os governos do PT trocaram as massas e as ruas pelas negociações de bastidores e os corredores do poder. Foi o governo lulopetista que escancarou o caminho para o fisiologismo atual que deu no crime organizado no poder, hoje, que pretendia garantir sua impunidade permanente com a PEC aprovada pela Câmara. O governo Lula é um governo neoliberal de centro-direita, longe de ser de esquerda. Eles ficam falando de uma coisa imaginária, o "governo de esquerda". O Torturra diz que com mais 3% "a gente ganha a eleição". A gente quem? Essa centro-direita? Não tem lugar para a esquerda no governo do Lula! Quando será que a nova esquerda festiva vai entender que o buraco é mais embaixo?  

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

A democracia não liberal da China, segundo Elias Jabbour

Boa entrevista do Elias Jabbour, a quem tenho críticas e julgava ser dogmático, já que elogia Stalin, mas demonstra ser um intelectual sério. Há uma convergência na esquerda, de Vladimir Safatle a Jones Manoel, passando pelo Jabbour, de que é preciso formular um projeto nacional nacional de desenvolvimento. Por que esses intelectuais políticos não se juntaram ao Ciro, em vez de continuar fieis ao Lula, eu não entendo. Será que o cerco lulista está se rompendo, sem o Ciro, obviamente, que já foi destruído? 

domingo, 21 de setembro de 2025

Uma aula sobre a China contemporânea

E uma introdução histórica de uma civilização de 3.500 anos. 

A ascensão da China e seu impacto sobre o mundo - Cláudia Trevisan e Yili Wang.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Esquerda no século XXI

Num dos momentos dessa conversa do vídeo abaixo, Vladimir Safatle observa que os governos do PT levaram os movimentos sociais para dentro do governo, para ajudar a gerenciar o Estado, e não é função dos movimentos sociais gerenciar o Estado capitalista, eles devem estar de fora, pressionando o governo a fazer o que ele não quer fazer. Dessa forma a esquerda brasileira -- melhor dizendo, o PT e partidos satélites, dizendo melhor ainda, Lula e os lulistas -- tornou-se gerente das crises do capitalismo, como ainda hoje, enquanto a extrema direita assumiu a posição de revolucionária ou reformista do Estado. A observação do Safatle, o melhor pensador brasileiro da atualidade, na minha opinião, me fez lembrar da minha posição, no final dos anos 70, quando a ditadura militar, nos seus estertores, extinguiu o bipartidarismo, com o objetivo claro de fracionar o MDB, que crescia como partido da oposição, e impedi-lo de tomar o poder mesmo dentro das regras do regime autoritário. E funcionou, novos partidos foram fundados. Foi quando a esquerda passou a discutir a organização de um partido com ideologia socialista e revolucionária, sustentado pelos movimentos sociais cuja força crescia então na oposição à ditadura militar, cujo resultado acabou sendo o PT. Muitas coisas nesse processo podem ser discutidas e me parecem óbvias quase cinquenta anos depois, mas o que eu quero dizer é que minha posição era contrária à criação de um partido de esquerda. Eu achava que os movimentos sociais deviam ser preservados à parte dos partidos. Achava que a esquerda devia incentivar a formação e crescimento dos movimentos sociais, disputar sua liderança e mantê-los independentes dos Estado burguês, inclusive dos partidos. Eu achava que os movimentos sociais eram a fonte do poder popular e se contrapunham ao poder burguês, que, quando se tornassem suficientemente fortes e representativos dos trabalhadores, se tornariam eles próprios o poder, um poder popular, base de outra sociedade, uma sociedade socialista, igualitária e democrática. Não é mais ou menos isso que Safatle está dizendo, quando afirma que os movimentos sociais têm que conservar sua independência em relação ao governo lulista? Seu argumento me parece óbvio, como aquela ideia que eu defendia há quase meio século: os movimentos sociais precisam ser independentes para serem fortes, e precisam ser fortes para empurrar o governo, qualquer governo, acrescento eu, agora como naquela época, para a esquerda, para exigir que ele atenda suas reivindicações. Os movimentos sociais de meio século atrás canalizaram suas forças para o PT, o PT virou o partido do Lula, Lula se tornou presidente, os movimentos sociais foram com ele para o governo, mas não transformaram radicalmente o Estado num Estado socialista, passaram a gerenciar o Estado burguês, se desarticularam e perderam sua força como movimentos sociais. É o que temos hoje: um governo dito de esquerda, empurrado cada vez mais para a direita, defendendo desesperadamente a ordem burguesa da destruição que lhe impõe a extrema direita fascista neoliberal, com apoio... popular! O que mais me impressiona é que a jovem que dialoga com o Safatle, que não conheço, mas parece ser uma liderança do PSOL, não tem a menor consciência de classe, como declara lá pelos 30 minutos e mais um pouco. Como foi que isso aconteceu? O PSOL está à esquerda do PT, é um racha à esquerda do PT, mas ela não tem a menor noção, consciente pelo menos, do que é consciência de classe. Ela tem consciência de que é mulher negra, mas não de que é trabalhadora e que os trabalhadores não se conciliam com o capital. 

Uma história exemplar do Brasil contemporâneo

Eu diria que o Brasil contemporâneo está dividido entre três forças políticas (a política é expressão da sociedade): a primeira, pujante, é a do crime organizado, que expressa o neoliberalismo desenfreado, assumiu o poder com o golpe do temer em 2016, continuou no governo do bozo, ocupou diversos governos estaduais, conta com o apoio eleitoral crescente do povão liderado pelas igrejas evangélicas (que prometem progresso aos pobres como o desta história, e sabemos com provas agora como esse progresso se dá) e manipulado pelas redes sociais, apesar da derrota eleitoral em 2022 e do processo exemplar que condenou os golpistas de extrema direita, tenho dúvida se não voltará ao poder federal no ano que vem; a segunda é a força rendida ao neoliberalismo que tenta desesperadamente manter o Estado sob rédeas civilizadas, inclusive na corrupção e no crime, que se traduz em instituições como o STF, a PF, o Lula (sim, Lula se transformou numa instituição brasileira), parte da imprensa e outras instituições republicanas; a terceira é uma força emergente, que diz que não é possível controlar a ordem burguesa neoliberal corrupta, criminosa e destruidora e que o sistema capitalista precisa ser substituído por outra ordem que coloque a conservação do ambiente, a igualdade e a democracia em primeiro lugar.  

O destruidor da Serra do Curral 

O destruidor da Serra do Curral 

Quem é Alan Cavalcante do Nascimento, empresário que a PF aponta como líder de um esquema que corrompia funcionários públicos e fraudava licenças ambientais em Minas Gerais

Por Allan de Abreu, revista Piauí, 17 set 2025, 11h31 

Na manhã desta quarta-feira (17), a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram uma operação que investiga a corrupção de servidores públicos na área ambiental e de mineração em Minas Gerais. A suspeita é de que empresários pagavam propina para liberar projetos e fraudar licenças ambientais. Segundo a PF, o líder desse grupo criminoso é Alan Cavalcante do Nascimento, um alagoano que fez fortuna na mineração e deixou um rastro de devastação no estado. A piauí publica, abaixo, o trecho de uma reportagem de outubro de 2023 que conta a história de Nascimento e seus rolos na Justiça.

* 

A festa de Réveillon do empresário Alan Cavalcante do Nascimento talvez seja a coisa mais parecida com as luxuosas farras de O grande Gatsby que Alagoas já viu. Na sua mansão de três andares, no Laguna Heliport, o condomínio com o metro quadrado mais caro do estado, o empresário promove três semanas de festa, com direito a pool party e passeios de catamarã. O ponto alto é o dia da virada para o Ano-Novo, quando cerca de quinhentos convidados costumam assistir a shows ao vivo – o último foi o da banda Saia Rodada, cujo cachê pode chegar a 400 mil reais por apresentação. O notável é que, há apenas dez anos, a diversão de Alan Cavalcante – ele prefere ser chamado pelo primeiro sobrenome – limitava-se a corridas de motocross e comemorações no modesto quintal da casa em que vivia, uma edícula em Arapiraca, no agreste alagoano.  

“Eu não era pobre, eu era muito pobre”, disse ele, em conversa com a piauí. “Eu enriqueci com muito trabalho, de segunda a segunda, mais de doze horas por dia.” Em abril do ano passado, numa festa de aniversário, o empresário se emocionou, abraçado à sua mulher, Monica, e à sua irmã Alany, a aniversariante do dia, quando a dupla sertaneja César Menotti & Fabiano, em um show na mansão do Laguna, cantou Tá chorando por quê?. A letra fala de como a prosperidade chega com a bênção divina: Lembra de onde você veio e aonde que você chegou/Lembra de todos os livramentos que você já passou/Nem era para você estar aqui/Mas Deus falou assim:/“Esse aí vou levantar”/“E onde colocar a mão ele vai prosperar.”

E Cavalcante prosperou. Seu patrimônio formal inclui um conglomerado de 38 empresas, entre mineradoras, construtoras e imobiliárias, a maioria em Minas Gerais, e uma multiplicidade de sócios. O capital social de suas empresas, somado, passa de 100 milhões de reais. Em junho passado, seu rosto tornou-se mais conhecido nas redes sociais quando deu o maior lance no leilão beneficente do atacante Neymar, em São Paulo: 1,2 milhão de reais pelo blazer e pelo cordão de ouro e diamantes que o jogador usava no evento. O valor incluiu ainda o Rolex de um empresário amigo do jogador.

Clique aqui para continuar lendo na piauí. Não identifiquei, na revista, o crédito da foto.