Uma
das reportagens mais interessantes que eu fiz no período em que
trabalhei no Jornal do Brasil foi sobre cassinos clandestinos. Não me
lembro a data exata, provavelmente em 1988. Foi uma pauta encomendada,
isto é, veio diretamente da sede, no Rio, e eu fui escalado,
provavelmente porque andava cobrindo o jogo do bicho, que, apesar de
ilegal, agia escancaradamente em BH. Eu e o repórter fotográfico Mazico
viajamos para o Sul de Minas e passamos quase uma semana à procura de
cassinos clandestinos. Tínhamos boas indicações de fontes e cidades,
principalmente estâncias hidrominerais, mas não foi fácil encontrar um.
Obviamente, sendo clandestinos, não estavam à mostra, mas existiam, todo
mundo sabia, e conseguimos boas entrevistas, uma delas, me lembro bem,
com um "ex-bicheiro" carioca que estava vivendo em Minas. Outra
entrevista curiosa foi com um crupiê veterano, dos tempos em que
cassinos funcionavam livremente, inclusive em BH, onde hoje está
instalado o Museu de Arte da Pampulha, antes que o então presidente
Dutra decretasse sua ilegalidade, em 1946. Essas e outras fontes
defenderam a legalização dos cassinos como atividade turística
importante, mas negaram a existência de cassinos clandestinos na
região. O velho crupiê, homem elegante e de boa conversa, falou com
nostalgia daqueles tempos glamourosos e lamentou que tivessem passado.
Na noite do mesmo dia em que o entrevistamos conseguimos chegar a um
cassino clandestino: precisamos sair de Minas, entrar em São Paulo e
voltar para território mineiro por outra estrada; o cassino ficava na
zona rural, mas o acesso era bom. Funcionava num galpão, que,
externamente, parecia um celeiro, a não ser pela iluminação e pelos
carros luxuosos estacionados no seu entorno. Do lado de dentro, porém
era um salão suntuoso, repleto de gente bem vestida, em volta de mesas
de jogos, servida por garçons alinhados. Cena de cinema. Quando
entramos, Mazico e eu, demos de cara com o velho crupiê, trabalhando na
primeira roleta... Com essa pérola, voltamos para BH no dia seguinte, eu
redigi a extensa reportagem, enviada pelo telex ponta a ponta, e Mazico
despachou as fotos, não me lembro se pelo malote ou transmitidas pela
telefoto. Ficamos muito satisfeitos com o trabalho, que foi elogiado, e
aguardamos ansiosos a edição de domingo, na qual a reportagem deveria sair, revelando
aos leitores do JB que, embora proibidos há mais de quarenta anos, os
cassinos continuavam funcionando no Brasil, pelo menos em Minas Gerais,
provavelmente operados por bicheiros do Rio. A reportagem não saiu
naquele domingo, nem na segunda-feira, quando às vezes saíam dominicais
que tinham sobrado por falta de espaço, nem no domingo seguinte nem dia nenhum.
Lembrei dessa história lendo Sucursal das Incertezas
(foto acima), livro do José de Souza Castro, um dos melhores jornalistas com
quem convivi, um dos grandes de todos os tempos no jornalismo mineiro. José de Souza Castro, o Zé de Castro, como o chamam os
colegas, ou JC, como ele rubricava suas pautas, foi o editor regional do
JB que me enviou para o Sul de Minas e copidescou minha
reportagem. Nas últimas páginas do seu livro, ele narra reportagem semelhante que
escreveu para O Globo, no começo da década
de 1990. Sua matéria, provavelmente melhor, também não foi publicada, embora tivesse até
chamada na TV Globo no sábado à noite, naquele tradicional "Leia amanhã
em O Globo", e, por descuido, chamada na primeira página do jornal de
domingo. No lugar, entrou um calhau, um anúncio de página inteira, por
ordem, presume-se, do mais alto escalão do jornal. Por que será?
Sucursal das Incertezas é um livro primoroso. Nele, JC narra inúmeras reportagens relevantes das décadas de 1970, 1980 e 1990. Embora possa ser lido como memórias pessoais, o trabalho incluiu pesquisas e se tornou um compêndio do jornalismo "nos tempos do telex ponta a
ponta". É um retrato do trabalho da sucursal belo-horizontina do melhor jornal brasileiro da época, quando as sucursais eram importantes e o jornalismo era muito diferente do que é hoje. Nele, estão citados inúmeros jornalistas que trabalharam nos
veículos mineiros e brasileiros no período e as reportagens que
escreveram, devidamente circunstanciadas. O autor situa
as histórias no contexto nacional e faz observações sagazes sobre o
jornalismo, a política e a sociedade da nossa época. Tudo isso num texto
ágil, limpo e atraente, que prende do começo ao final. É, enfim, um
livro surpreendente, mesmo para aqueles que conviveram com o jornalista e
conhecem bem sua competência profissional.
Escrito em 2007 e, inicialmente, disponibilizado pela internet, Sucursal das Incertezas, a história vista por um jornalista dos tempos do telex ponta a ponta está agora publicado em papel, felizmente, e merece ser lido por todos os jornalistas, mas não só. Tem 316 páginas,
incluindo um apêndice de fotografias. A nova edição foi revisada pela
jornalista Cristina Moreno de Castro, filha do JC e com quem ele divide
o Blg da Kika Castro,
por meio do qual o livro pode ser adquirido. A apresentação é do Acílio
Lara Resende, diretor da sucursal do JB em Belo Horizonte durante mais
de duas décadas.