sexta-feira, 6 de março de 2026

Fidel e a democracia, em entrevista no Brasil em 1990

Vista 36 anos depois, essa entrevista do revolucionário cubano Fidel Castro pode ser apreciada com o distanciamento que o tempo proporciona. Por um lado, Fidel fala e responde com lucidez impressionante e moderação, enquanto os jornalistas, como de costume, esgrimem ignorância e agressividade. Há um mito no jornalismo segundo o qual o bom repórter é o que incomoda. Sempre concordei com isso discordando, ao mesmo tempo. Sempre me pareceu mais importante que o jornalista seja razoável e bem informado. A questão é que a pergunta que incomoda o entrevistado gera notícia e o jornalista está sempre em busca da notícia: sem lide, não há notícia, e o lide é a novidade, o inesperado, o surpreendente. Isso provoca um círculo vicioso em que o jornalismo produz sempre superficialidades e a novidade de hoje já não tem importância amanhã, mesmo que tenha, como se busca sempre, provocado comoção. Aí se busca a "suíte", isto é, uma matéria que dê continuidade ao assunto, mas ela precisa ser igualmente sensacional. No caso em questão, um dos jornalistas está preocupado com o fato de que em Cuba não tem eleição direta para presidente, como tinha acabado de acontecer no Brasil, depois de 29 anos, dos quais 21 de ditadura militar. Não importam para o tal jornalista os resultados sociais impressionantes da Revolução Cubana, resultados que o capitalismo não atingiu no Brasil na ditadura militar nem atingiria na "democracia" que estava começando. Para os jornalistas que entrevistam Castro, importante é a "democracia", e democracia é esse modelo representativo em que o povo tem o poder em um dia de quatro em quatro anos e nos outros dias sofre e trabalha como escravo do capital, enquanto os capitalistas e seus políticos se locupletam e se aprimoram na corrupção. Não é esse o retrato em arte final do Brasil de março de 2026? O herói do julgamento da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 tem revelada sua face oculta de beneficiário de favores de um banqueiro falido e corruptor. Essa é a democracia brasileira, a democracia que a esquerda quer salvar e sustenta, enquanto a própria burguesia quer destruir e as castas poderosas querem manter como está, para preservar seus privilégios. Em resumo, o que a entrevista mostra é como o jornalismo já cumpria naquele começo de "democracia"e "Nova República" o papel de vender a ideologia do neoliberalismo que dominaria o Brasil, como de resto grande parte do mundo, e domina ainda. Em 2026, porém, quando o capitalismo destrói o planeta e a "democracia" estadunidense pratica o fascismo não só contra outros povos, mas também contra sua própria população, as argumentações a favor da excelência do capitalismo, a simpatia com o imperialismo americano e o menosprezo às revoluções socialistas, quando não o horror a elas, parecem o que são: ideologia reacionária.   

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.