Não consegui achar uma notícia decente sobre esse fato. Há muitas coisas a dizer a respeito. A primeira delas é como é difícil achar notícias no celular. No notebook é mais fácil, mas o sistema de busca do celular (Google) é precário e me encaminha para o que ele quer e não para o que eu quero, além do que muitos veículos, especialmente os velhos jornalões, não abrem seus conteúdos para todos. A perda de tempo procurando uma notícia é enorme, e ainda maior porque, quando a acho, tenho que superar os anúncios, numa quantidade tão grande que parece que redes sociais são catálogos de publicidade com alguns conteúdos, muito mais do que televisão e rádio. De fato, buscar informação boa no celular é uma tarefa quase impossível, o que torna compreensíveis a desinformação e a ignorância nas quais a população está imersa hoje, pois consome os lixos oferecidos pelas big techs.
Dito isso, volto à primeira observação. Em lugar nenhum consegui encontrar uma notícia decente sobre esse fato que vou resumir abaixo, acrescentando comentários. A Globo News fez uma mistura querendo dar relevância ao fato, com o comentário da Flávia (esqueci seu sobrenome), que é uma boa jornalista, mas a notícia propriamente se perdeu e ainda mais sua profundidade. A TVT, um canal dos trabalhadores, tinha obrigação de dar a notícia de forma adequada, mas não consegue, fica na superficialidade e na gracinha da canção do João Bosco e do Aldir Blanc. E até o Farol Brasil, pretensamente da esquerda revolucionária, ignora a gravidade do assunto, faz uma confusão danada e também não consegue abordar adequadamente a notícia. As notícias escritas são superficiais. E no entanto, no próprio YouTube há uma grande produção de conteúdos disponível sobre João Cândido e a Revolta da Chibata. No fim, não achei nenhuma matéria, a melhor foi esta que reproduzo abaixo, da fonte, isto é, o Ministério Público Federal, autor da ação, mas ela é anterior à decisão e também não trata adequadamente do assunto, que tem uma relevância enorme par o Brasil e pode -- e precisa -- ser abordada sob diversos aspectos.
Curiosamente, a sentença foi dada no dia 21/5/26, mas só dois meses depois virou notícia. Pior: uma olhada nas matérias publicadas leva à conclusão que ninguém foi à fonte, isto é, a sentença do juiz, coisa que eu também não fiz, porque não consegui ter acesso a ela, apesar de tentar, mas qualquer jornalista pautado poderia fazê-lo. Aparentemente, alguém fez a matéria inicial e os demais veículos saíram copiando ou todos receberam o mesmo press release. Mesmo veículos que eu considero responsáveis fizeram isso. Há inclusive uma divergência de informação nas notícias que mencionam ora R$ 200 mil, ora R$ 300 mil como valor da indenização.
Por sorte, consegui ler a notícia da Folha de S. Paulo, que por sua vez me levou a outra, de forma que entendi que se tratam de duas sentenças, mas exceto a Folha nenhum veículo menciona isso, o que no jornalismo que minha geração praticava era inaceitável. No JB, era norma de redação fazer um sub-lead com a memória do assunto. Ambas as sentenças foram proferidas pelo mesmo juiz, a primeira em maio, a segunda em julho.
Em primeiro lugar, a notícia, que é a seguinte.
O juiz federal substituto Mario Victor Braga Pereira Francisco de Souza, da 4ª Vara da Justiça Federal do Rio de Janeiro, condenou a União a pagar indenização de R$ 300 mil por danos morais aos familiares do marinheiro João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata, falecido em 1969. A ação, movida por Adalberto Cândido, de 87 anos, único filho vivo de João Cândido, se refere a ofensas feitas pelo comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, em carta enviada à Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, em abril de 2024, na qual manifesta sua oposição a que o nome do marinheiro seja incluído na relação de heróis e heroínas da pátria. O juiz rejeitou os pedidos de pagamento referente a promoções retroativas, contagem de tempo de serviço e pensões militares.
Em outra sentença, proferida em maio passado, em ação movida pelo Ministério Público Federal, o mesmo juiz condenou a União a pagar indenização de R$ 200 mil por danos morais, pelos mesmos crimes. Cabem recursos ao Superior Tribunal de Justiça. A homenagem ao marinheiro é um projeto de lei do deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ). Aprovado no Senado e pela Comissão de Cultura da Câmara, o projeto ainda não foi votado pela Câmara.
Agora os comentários.
Olsen (será parente do fotógrafo Jimmy Olsen, colega do jornalista Clark Kent no Planeta Diário e identidade secreta do Superman?) se referiu a João Cândido e seus companheiros como "abjetos marinheiros", seu comportamento como "reprovável exemplo de conduta para o povo brasileiro" e à Revolta da Chibata como "fato opróbio" e "deplorável página da história nacional". O comandante da Marinha do governo Lula afirmou que os revoltosos desrespeitaram a hierarquia e a disciplina e usaram equipamentos militares para chantagear a nação, que buscavam, deliberadamente, vantagens corporativas e ilegítimas, e que há enorme diferença entre reconhecer um erro e enaltecer um heroísmo infundado.
"Nos dias atuais, enaltecer passagens afamadas pela subversão, ruptura de preceitos constitucionais organizados e basilares das Forças Armadas e pelo descomedido emprego da violência de militares contra a vida de civis brasileiros é exaltar atributos morais e profissionais, que nada contribuirão ao pleno estabelecimento e manutenção do verdadeiro Estado Democrático de Direito", conclui a carta.
Em outras palavras, a Marinha do governo Lula usou a tentativa de golpe de 8 de janeiro para vilipendiar a memória dos marinheiros revoltosos de 1910, misturando no mesmo caldo o governo militar golpista do bozo e um movimento justo de marinheiros pobres e negros contra o açoite como castigo aplicado corriqueiramente pelo Estado brasileiro 22 anos depois de abolida a escravidão. A imprensa, os jornalistas, comentaristas e analistas, a pretensa esquerda que está no governo e a esquerda pretensamente revolucionária engoliram isso, por conveniências ou por falta de convicções. Também a sentença do juiz tangencia a questão principal, isto é, o fato de que, 116 anos depois, a essência do Estado brasileiro continua a mesma. No Brasil monarquista, no Brasil da primeira república ou no Brasil do Lula, os brancos, ricos, proprietários e oficiais mandam e os pobres, pretos, trabalhadores e subalternos obedecem ou são mortos.
A íntegra da carta está disponível no saite da Marinha e pode ser lida na íntegra clicando aqui. O leitor poderá constatar que não carrego na tinta, ao contrário, a carta sugere preconceitos inacreditáveis, estes sim inaceitáveis.
Isso é a ponta do aicebergue dessa notícia. A Revolta da Chibata, que até hoje só mereceu homenagens populares, como a célebre canção e samba enredo de escola de samba, é de fato uma página deplorável da história do Brasil não pelos motivos alegados na carta, mas sim pela conduta do Estado nacional, à qual o comportamento do almirante branco se incorporou como capítulo mais recente. Em 1910, o governo do marechal Hermes da Fonseca aceitou as reivindicações dos poderosos revoltosos, que controlavam a esquadra nacional e sitiavam a capital federal, e os marinheiros foram anistiados. Finda a revolta, a anistia foi cancelada, 18 marinheiros foram presos no Natal e encarcerados numa cela minúscula com água e cal durante três dias, 16 morrem asfixiados, só João Cândido e mais um sobrevivem. Outros marinheiros foram enviados para o Acre, vários foram assassinados e jogados no mar. João Cândido foi considerado louco e internado.
Outros detalhes escabrosos podem ser conhecidos em vídeos, inclusive áudio de entrevista com o próprio "almirante negro", que faleceu aos 89 anos. A Revolta da Chibata não é exceção na história do Brasil, que está repleta de rebeliões populares tratadas da mesma forma pelos eurodescentes ricos e poderosos e apagadas da memória nacional. A Revolta da Chibata é uma história exemplar do Brasil verdadeiro que nunca chegou ao poder, nem com Lula, o operário, como mostra este episódio recente. A Marinha ainda a denomina como o comandante Olsem a chama na carta: "Revolta dos Marinheiros". Os governos civis e ditos democráticos não fizeram o que um governo efetivamente democrático deve fazer: uma retratação pública retumbante, com homenagens e atos necessários a transformar todos os revoltosos de 1910 em heróis nacionais, não só a inclusão do nome do seu líder no "livro de aço" do Panteão da Pátria. Indenizações não significam nada, a não ser gerar notícias superficiais, basta ver a diferença entre o valor que o MPF pediu -- R$ 5 milhões -- o que concedeu o juiz.
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