sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A história de um bandido que quer ser presidente

Mais um episódio da excelente série Revelando. Não será por falta de informação disponível que o bozo jr. será eleito presidente da República, se o for, e espero que não, e faço a minha parte, e espero que a maioria dos eleitores brasileiros também. Seja como for, a possibilidade de que seja eleito, a pequena margem que pode derrotá-lo e a votação que teve no primeiro turno dizem coisas sobre os brasileiros que o esforço jornalístico extraordinário e admirável das últimas semanas não discute. Compreensivelmente, porque agora o que interessa é impedir sua eleição. No entanto, temos que enfrentar estas questões, se quisermos andar para frente. Porque, vamos combinar, este é o momento mais angustiante das nossas vidas, mas chegamos a ele por meio de uma sucessão de momentos cada vez mais angustiantes, nos quais não encaramos os nossos problemas. 

Que problemas são esses? O primeiro deles é a péssima qualidade da "nossa democracia" ou "democracia brasileira", como costumamos chamar a ordem política (e social e econômica, talvez não nessa ordem de influência) que vigora no Brasil desde o fim da ditadura militar (1964-1985). Não podemos ignorar, como temos feito há uma década, isto é, desde o impeachement da presidenta Dilma, de triste memória, que a ascensão da extrema direita se dá na democracia, que os autoritários já chegaram ao poder pelo voto popular e estão perto de repetir esse feito, apesar da eleição do Lula em 2022. Como é que aqueles que são contra o povo e contra a democracia podem conquistar a maioria do povo e o poder na democracia? É isso que todos os que se dizem democratas deveriam se perguntar, para começo de conversa. Quem faz essa pergunta costuma concluir que o "defeito" está no povo, não na "nossa democracia". Errado. O defeito não está no povo, o defeito está na democracia. Não sou o único a ver isso, o filósofo Vladimir Safatle e o ativista agora eleito deputado federal por Pernambuco Jones Manoel também veem. 

A "democracia brasileira" é uma construção defeituosa, que nasceu para se opor à ditadura e arregimentou as massas populares na memorável campanha Diretas já!, se institucionalizou na Constituição de 1988 e foi efetivamente construída pela esquerda, isto é, por dois partidos e presidentes tidos como de esquerda, PSDB e PT, FHC e Lula. Essa construção defeituosa deu muito pouco ao povo brasileiro, ao contrário do que dizem expoentes brilhantes do nosso tempo, porém equivocados e cegos politicamente, que mais uma vez se levantam para defender a reeleição do Lula. É por isso, porque a "nossa democracia" é uma merda e porque o povo a identifica com a esquerda, que a maioria caminhou para a extrema direita. A esquerda brasileira passou décadas praticando políticas de direita que foram identificadas como políticas de esquerda e agora metade do povo faz opção pela extrema direita, que é a única força oposicionista organizada e tem apoio do capital, das empresas de tecnologia e do governo estadunidense. Há oposições de esquerda, mas elas não são organizadas e influentes como a extrema direita. 

A opção de metade do povo brasileiro pela extrema direita só é incompreensível para os democratistas, isto é, os defensores da democracia burguesa capitalista institucionalizada pela Constituição de 1988, classes sociais beneficiadas pela ordem em vigor há quase quarenta anos, que derrubaram a ditadura com apoio do povo, mas depois se distanciaram dele, e cujo maior expoente político é o Lula. Simples assim. Comparado com o que o povo brasileiro precisa, o que foi que Lula e os democratistas fizeram? Muito pouco. Ou o povo não estaria tão descontente. O que os democratistas fizeram para combater a violência da qual o povo é vítima? É nessa área que o fracasso da "democracia brasileira" é mais evidente, porque é justamente do crime organizado que vem a extrema direita. Se os democratistas tivessem sido eficientes em combater o crime organizado, pelo menos isso, teriam impedido a ascensão da extrema direita. Os democratistas das classes privilegiadas nunca compartilharam o poder com o povo, limitaram este ao direito ao voto de quatro em quatro anos, quando esse poder se manifesta assim, na forma de plebiscito: reeleger ou derrotar o presidente (e o governador ou prefeito). Minto: houve, décadas atrás, iniciativas do PT, quando ainda era um partido de esquerda, de implantar o orçamento participativo, no qual o povo era chamado a escolher em que a prefeitura deveria aplicar o dinheiro dos impostos, mas elas foram abandonadas em favor de esquemas de corrupção e de acordos criminosos no Congresso, nas assembleias e câmaras municipais.   

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