segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Declaração política

Escrevo às seis da manhã, antes de começar a eleição decisiva deste domingo, aquela que vai decidir se o Brasil continua trilhando (!) o caminho à beira do abismo da Nova República ou se despenca rumo à autodestruição. Escrevo às 6h, mas só vou publicar depois que a votação for encerrada. Minha avaliação da tragédia brasileira, parte da tragédia mundial, independe do resultado das urnas. Todos os meus esforços e desejos são para reeleger Lula, tenho consciência de todas as críticas que lhe fazem, compartilho há décadas de várias e compreendo outras que são produtos da ideologia da extrema direita. 

Quem está na minha posição, como talvez, espero, a maioria ainda dos eleitores brasileiros que se mobilizam para votar, é refém do Lula: ou ele ou pior. Foi sempre assim. O lulismo, fenômeno político que substituiu outro mais amplo, auspicioso e renovador na política brasileira, o petismo, nunca nos oferece nada, a não ser ilusões e benefícios imediatos, todos eles dependentes de um compromisso: Lula precisa continuar presidente (ainda que pelas mãos dos seus afilhados ungidos). 

Esse é o primeiro problema da trágica condição brasileira. Nos tornamos dependentes de um líder político excepcional que nunca teve um projeto de poder coletivo e que se moveu com competência maquiavélica (no sentido filosófico ou científico do termo) para a direita, para se manter no poder. Para governar sem apoio e contrariando os interesses dos capitalistas brasileiros, grande parte dos quais tem índole fascista, entreguista, egoísta, parasitária, corrupta e canalha, Lula teria de mobilizar permanentemente o povo, os trabalhadores, para quem e em nome de quem fundou um partido. No entanto, o PT, ao longo de décadas deixou de ser um partido de organização dos trabalhadores e se transformou no partido cabo eleitoral do Lula. Um poderoso exército de cabos eleitorais, como nunca antes do Brasil tinha visto. Ao nomear o "Exército do Lula" no segundo turno da campanha deste ano, o deputado Janones, enfim, sintetizou quem somos, quem fomos sempre, crescentemente, desde 1989. Naquela época, não pegava bem nos nomear assim, pois a memória da ditadura militar era recente e traumática, mas hoje até isso aceitamos de boa vontade, ser um exército (corpo militar), de salvação (da democracia), comandados (pelo "marechal" Lula). É isso ou nada. 

Nenhum lulista fanático que não viu isso até hoje verá ainda, eu suponho, e há outros, os que veem, mas ainda assim se submetem, porque não conseguem formular outra alternativa pensando por conta própria. É a força da ideologia, nesse caso a ideologia democratista, que nasceu no combate à ditadura, tomou forma na Nova República e na Constituição de 1988 e foi sustentada pela esquerda, primeiro nos governos Itamar e FHC, depois nos governos lulistas. Por essa ideologia, a ideologia da minha geração, o grande ideal é defender a democracia, não importa que qualidade de vida ela dá ao povo, os pobres, aos trabalhadores. 

A esquerda abdicou de formular um projeto de nação para os trabalhadores e se agarrou à defesa da ordem burguesa, mascarada pelo fato de ter na presidência um ex-operário. A direita, sem conseguir vencer nas urnas um líder carismático de origem popular, caminhou para a extrema direita e, vendo os trabalhadores abandonados pelo governo burguês comandado por um ex-operário aparentemente de esquerda, tratou de conquistá-los formulando uma proposta de transformação social. A proposta de transformação social da extrema direita sempre é baseada na denúncia da corrupção, prática na qual ela própria é especialista, mas a atribui à esquerda. Também é baseada em mentiras e violência. Corrupção, mentira e violência: somem-se estas três características e veremos os políticos que capturaram metade dos eleitores brasileiros, talvez metade menos um, talvez metade mais um, hoje. 

Seja qual for o resultados das urnas, ele expressa o fim da Nova República, personificada no Lula. É muito curioso que seja assim, pois Lula e o partido cuja fundação liderou nasceram justamente como oposição à esquerda à Nova República, mas se tornaram a sustentação dela. A história é contraditória, assim como a vida. A partir de hoje, o Brasil caminha ou para o fascismo declarado ou será obrigado a caminhar de volta para o que nunca conseguiu ser ou nunca foi com sucesso: uma nação governada por um projeto político de esquerda. Que começou a ser inventado na mobilização do segundo turno, sob novos líderes, críticos e lúcidos, entre os quais destaco Jones Manoel, Elias Jabbour e Vladimir Safatle. 

Formular e apresentar aos brasileiros um projeto de nação efetivamente de esquerda é a primeira tarefa dos novos líderes, os líderes pós-lulistas, mas há outra igualmente importante: a união de todos os grupelhos de esquerda acima das suas divergências desprezíveis, em nome de um Brasil popular e soberano.  

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