quarta-feira, 8 de abril de 2020

The dream is over

Há cinquenta anos, John Lennon disse "o sonho acabou". Vale a pena ouvir a lista de coisas e pessoas nas quais ele não acreditava mais. "I just believe in Me. Yoko and Me. That's reality." Me pergunto se a sua geração entendeu o que ele disse. Afinal, ele foi a melhor expressão dos que nasceram depois da Segunda Grande Guerra. "Imagine" continua um hino atual, mais atual do que nunca, para além de todo bem e todo mal, de todas as ideologias nefastas.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

B.B. King, Jeff Beck, Eric Clapton, Albert Collins & Buddy Guy in Apollo Theater 1993 Part 2

Pra você ter ideia, Eric Clapton é o que toca menos nesse time -- e ninguém toca mais que "Clapton is God".
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Minhas músicas prediletas

Minhas músicas prediletas*

1) Largo do Concerto para piano em fá menor BWV 1056 (J. S. Bach). 
2) God (John Lennon).
3) I say a little prayer for you (Burt Bacharach e Hal David), com Aretha Franklin 
4) Feitio de oração (Noel Rosa e Vadico).
5) Saudade do Brasil (Tom Jobim).
6) L'hymne a l’amour (Edith Piaf e Marguerite Monnot), Edith Piaf. 
7) Cordas de aço (Cartola).
8) Dear old Stockholm, com Stan Getz e Chet Baker.  
9) Flor, minha flor, com o Grupo Galpão. 
10) Lodi (John Fogerty), com CCR.

11) Adagio do Concerto para clarineta e orquestra K 622 (Mozart).
12) Everytime we say goodbye (Cole Porter), com Ella Fitzgerald.
13) Corcovado (Tom e Vinicius), com Astrud e João Gilberto e Stan Getz.
14) Oh Darling!, The Beatles. 
15) O morro não tem vez (Tom e Vinicius), com Stan Getz, Luiz Bonfá, Tom etc.
16) Moon river (Henry Mancini).
17) Clube da esquina nº 2 (Milton Nascimento e Lô Borges), sem letra.
18) Sinal fechado (Paulinho da Viola)
19) Old love, Erico Clapton (acústico).
20) Por una cabeza (Carlos Gardel e Alfredo Le Pera), Carlos Gardel. 

21) Primeiro movimento da Quinta Sinfonia (Beethoven).
22) Watching the wheels (John Lennon). 
23) Sala de recepção (Cartola). 
24) Nosso romance (Jacob do Bandolim), com Paulo Moura.
25) It's too late (Carole King).
26) If I fell (Lennon e McCartney), The Beatles. 
27) Rancho da goiabada (Aldir Blanc e João Bosco), com Elis Regina.
28) Layla (Eric Clapton).

29) Pois é, pra quê (Sidney Miller), com MPB4.

30) My pledge of love (Joe Jeffrey), com Joe Jeffrey Group.

31) Segundo movimento da Quinta Sinfonia (Beethoven).
32) Bom tempo (Chico Buarque). 
33) Oh my love (John Lennon).
34) Sábado (Frederico), com Som Imaginário. 
35) The sound of silence (Paul Simon), Simon and Garfunkel.
36) Antonico (Ismael Silva), com Gal Costa no disco Gal a todo vapor. 
37) In my life (Lennon e McCartney), The Beatles.
38) Que reste-t-il de nos amours (Léo Chauliac, Charles Trenet, Charles Trenet), com João Gilberto.
39) Noites Cariocas (Jacob do Bandolim).
40) My sweet Lord (George Harrison).

41) Pela décima vez (Noel Rosa), com Cristina Buarque.
42) Take five (Paul Desmond), com The Dave Brubeck Quartet

43) Estrada do sol (Tom Jobim e Dolores Duran), com Elis Regina.
44) Ain't no sunshine (Bill Withers), com Bill Withers.

45) The Medley (Lennon e McCartney), The Beatles.


*Música predileta é aquela que me encantou quando a ouvi pela primeira vez e toda vez que a escuto paro para prestar atenção e a repito. Também incluí nesta lista músicas que tocam meu coração por algum motivo, músicas que eu canto, não necessariamente preciso ouvi-las.

(Publicado originalmente em 26/8/2010 (não por acaso), no Belorizontem.) 

domingo, 5 de abril de 2020

Coronavírus: China vive dilema de repatriação de 1 milhão de estudantes espalhados pelo mundo

Mais uma vez a notícia do O Globo (The New York Times) não é a notícia, isto é, a pandemia e a repatriação dos estudantes, mas o fato de que a China tem mais de 1 milhão de estudantes espalhados pelo mundo. Quando o Brasil começou a mandar jovens pobres para estudar em nações mais desenvolvidas, a direita reacionária de castas privilegiadas que governa o Brasil desde 1822 reagiu, estrilou e por fim deu o golpe de 2016. Foi assim (também) que a China deu o salto tecnológico que deu, que a mesma elite reacionária tanto elogia quando lhe interessa. Mas ela quer que tudo continue como na Colônica, no Império e na Velha República, quando só seus filhos podiam estudar no exterior. 

Pequim teme que eles provoquem uma nova onda de covid-19 no país; ao mesmo tempo, não quer passar a imagem de que não se preocupa com seus cidadãos

Alexandra Stevenson e Tiffany May, do The New York Times

NOVA YORK - Um estudante sonhou comprar uma passagem de US$ 30 mil em um jato particular. Uma mãe, frustrada com a incapacidade de levar a filha para casa, enviou máscaras. Um grupo de pais desesperados fez um incomum apelo público ao governo chinês por ajuda.

O surto de coronavírus deixou mais de um milhão de estudantes chineses em dormitórios vazios e amedrontadas cidades ao redor do mundo. Muitos desses estudantes no exterior querem voltar para a China, onde números oficiais sugerem que as autoridades fizeram progressos para conter a pandemia. O medo, a política e as diferentes prioridades do governo chinês estão no caminho.

Clique aqui para ler a íntegra.


Militares se preparam para enfrentar o povo, não inimigos externos, diz historiador

Publico a entrevista abaixo não por admiração ao seu conteúdo, mas pela perplexidade que me causa a indigência intelectual da esquerda. As coisas que o historiador -- um sujeito com passado de militância em organização de esquerda clandestina durante a ditadura e depois com experiência, não só política, mas como intelectual acadêmico -- diz me impressionam. É muito pouco para tanto tempo. Estamos dentro de outro golpe e a esquerda ainda está discutindo a ditadura! Ainda não a compreendeu e superou! Ficou mais de trinta anos de democracia sem conseguir acertar as contas com a ditadura e agora faz autocrítica do que não fez! É muita indigência intelectual.

Quem leu "O homem que amava os cachorros" sabe o estrago que o stalinismo fez em três gerações de revolucionários em potencial em todo o mundo, mas já tivemos quase um século para superá-lo -- primeiro no momento mesmo em que acontecia; depois na revisão feita por Kruschev; por fim com o desmoronamento da URSS. Parece, porém, que muitos (inclusive mais jovens do que eu) nunca conseguirão entender o significado do stalinismo-leninismo-marxismo para a humanidade, nunca conseguirão pensar com a própria cabeça.
Enquanto isso, o neoliberalismo continua conduzindo a humanidade para a autodestruição, sem encontrar oposição de verdade, sem ter outro projeto econômico, social e político para rivalizar com ele.


Em conversa sobre o passado e o presente, Manuel Domingos Neto reflete sobre o cenário das Forças Armadas no Brasil

Brasil de Fato: Em comparação a outros países da América Latina, como o Chile e a Argentina, onde torturadores foram punidos e o povo tem mais sensibilidade às vidas ceifadas pelos militares, no caso brasileiro, isso não acontece. Ao contrário, Ustra é exaltado por Bolsonaro, parlamentares, e parte da nação. Nos últimos dias, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, seguiu a interpretação do governo em relação ao golpe, e declarou que ele foi um  "marco para a democracia brasileira". Isso lhe surpreende?

Manuel Domingos Neto: Como nós sabemos, a ditadura acabou através de um pacto. Esse pacto incluía a anistia e, portanto, incluiu a liberdade dos torturadores. Foi o pacto possível e, a partir de então, nós vivemos persistentemente um problema não resolvido. Os crimes de lesa-humanidade configurados na tortura e praticados pelos agentes do Estado não poderiam ser esquecidos ou se passar um pano em cima e acabou-se. Isso persistiu o tempo todo, tensionando, sendo, inclusive, uma das causas da animação dos militares pra retirar a esquerda de cena, porque eu acho que, no auge da legitimidade dos governos Lula, deveria ter sido feita alguma coisa. Não foi feito.

Estava muito vivo, nessas circunstâncias, o desgaste profundo dos militares e se tentou pôr panos quentes até na Comissão da Verdade, já no governo Dilma Rousseff (PT), aí o incômodo foi terrível porque, durante todo esse período de democratização ou de democracia, a formação dos militares, a cabeça dos militares, as suas narrativas não foram mexidas, não foram tocadas. No máximo, eles silenciaram, ficaram, digamos, hibernando, e surgem, com o reacionarismo gritante apenas nos últimos anos.

Agora, eu não acredito que o retorno dos militares como agentes políticos, como protagonistas da cena política se deva apenas a isso. Acho que isso merece uma análise bem mais complicada porque entram outros fatores. Mas, sem duvida, o fato de não ter havido uma prestação de contas, esses panos quentes em cima da tortura contribuíram pra ferocidade com a qual eles retornam agora, paraninfando um regime infame.

No dia de hoje, nós temos essa ordem do dia do ministro da Defesa, que é repugnante sob todos os aspectos. Ela é mentirosa, é falsa, desrespeitosa com os brasileiros, é desrespeitosa com a inteligência do homem comum. Não é preciso ser genial pra entender que essa ordem do ministro Fernando é um acinte. Como é que o sujeito assina um papel dizendo “instalamos uma ditadura pra defender a democracia”? Isso é ridículo, não tem fundamento, não tem cabimento.

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quinta-feira, 2 de abril de 2020

Mônica de Bolle: "Dane-se o Estado mínimo, é preciso gastar e errar pelo excesso"

Para a economista da Universidade Johns Hopkins, ministro Paulo Guedes está preso a dogmas ideológicos e mantém letargia para tomar decisões que afetam quem já está passando fome.

Heloísa Mendonça, El País Brasil, 1/4/20. Crédito da foto: Cecília Acioli / Folhapress.

“E, para os defensores da calma e da serenidade, saibam: o momento é de urgência”, escreve a economista brasileira Mônica de Bolle, em mais um tuíte para cobrar decisões rápidas de autoridades diante do quadro excepcional pelo qual passa o Brasil e o mundo. Pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional e professora da Universidade Johns Hopkins, em Washington, de Bolle tem sido incansável em defender que é preciso abandonar o teto de gastos para frear a escalada da pandemia de coronavírus e seus impactos econômicos. “Hoje, dane-se o Estado mínimo, você precisa gastar e é preciso errar pelo lado do excesso”, afirma a economista, que sempre pregou austeridade responsável.

Bolle critica a condução do ministro de Economia, o liberal Paulo Guedes, para enfrentar a crise e avalia que ao invés de tentar acalmar o mercado financeiro, o chefe da pasta deveria estar solucionando o problemas dos milhões de brasileiros que já não têm como se sustentar. Em entrevista ao El País, a economista avalia que a posição negacionista de Jair Bolsonaro, que tenta minimizar a pandemia e quer afrouxar as regras de quarentena, pode escalar para uma situação “de absoluta instabilidade social e institucional”.

“Se você não aplicar o isolamento social e deixar a epidemia correr solta, como já vimos aqui em Nova York, o sistema de saúde entra em colapso e a economia junto. Não há como evitar o colapso econômico, ele vem na mesma forma, na verdade vem pior”.

Leia os principais trechos da entrevista:

Pergunta. O Senado aprovou, na noite desta segunda-feira, o projeto que prevê um auxílio emergencial de 600 reais para amparar os trabalhadores que perderam renda com a crise da pandemia de coronavírus. Agora a lei vai para sanção presidencial. A ajuda é suficiente?


Resposta. O texto aprovado foi tal qual o encaminhado pela Câmara, o que é bom, porque permite que o pagamento possa ser feito de imediato. Tenho algumas críticas, acredito que o projeto poderia ter sido aprimorado antes, mas isso é menos importante, porque o principal é que saia o pagamento. No entanto, acredito que seja necessário um projeto de lei complementar a esse, ajustando a cobertura do benefício para contemplar mais pessoas e não apenas os trabalhadores informais. No Brasil, há uma quantidade grande de trabalhadores formais cuja a situação é muito precária.

P. E a duração de três meses do benefício? É suficiente?

R. São três meses prorrogáveis, mas essa crise não terá acabado em 90 dias. Precisamos estender esse prazo para que as pessoas tenham a segurança mínima de que essa renda com a qual elas vão poder contar terá um prazo mais longo. Isso é muito importante para dar um chão às pessoas. Vários projetos que foram apresentados pela oposição queriam um prazo maior, mas o Governo resistiu e preferiu ficar só nos três meses. Jair Bolsonaro resiste em reconhecer que a crise vai ser mais longa do que três meses, porque isso vai de encontro com a narrativa a que ele se agarrou de que isso é uma crise de curto prazo, que vai acabar logo. Mas todo mundo já sabe que ela será mais longa, então é uma postura anacrônica. Ainda tem uma grande articulação de um PL complementar para ajustar esses dois parâmetros, mas é preferível aprovar dessa forma para não atrasar o processo de começar a pagar as pessoas. Mas isso depende do Governo Federal que tem que implementar a lei e desenhar a logística para isso. Já deveria ter feito isso na semana passada. Mais uma vez, o Governo está super atrasado. Alguns projetos de lei sobre medidas de proteção das empresas estão sendo formulados também. Outra vez, o Congresso vai propor um texto, que provavelmente será lei. Mas a implementação sempre é do Executivo. O Congresso vai até onde pode, mas precisa da perna do Governo para funcionar, se essa perna ficar inerte, como tocar para frente o que precisa?

P. Nos último dias, o Governo anunciou um pacote de medidas econômicas para amenizar os efeitos da crise, mas a maioria delas ainda estão no papel. O que é mais urgente?

R. É um caminhão de coisas que estão faltando, porque o Governo não fez quase nada, está em uma inércia absoluta. O Banco Central tomou ações importantes nas últimas semanas, todas elas na direção correta, de dar liquidez para o mercado, indiretamente para as empresas, que precisam também. O BC tem feito, no entanto, o esforço que pode, já que o protagonista precisa ser o Ministério da Economia. E o esforço maior que precisa ser feito é muito grande. Requer o repasse dos recursos ao Sistema Único de Saúde (SUS), a implantação da renda mínima, as linhas de crédito que você pode dar para as empresas para garantir empregos. Não se pode apenas atuar na frente das pessoas vulneráveis, mas também na manutenção dos empregos formais. E só se consegue isso dando sustentação para as empresas. É necessário desenhar qual a forma que você vai fazer isso, e a maneira a ser feita para uma empresa de médio porte é completamente diferente para um microempresário, ainda mais para as microempresas que estão muito endividadas e não vão conseguir linha de crédito dos bancos públicos. Para esses microempresários, é necessária uma ação parecida com a renda mínima. O Tesouro dá dinheiro diretamente para essas empresas com uma contrapartida de manutenção de emprego, dá para monitorar. Além disso, o microempresário muitas vezes é uma pessoa só, não é questão de manutenção de emprego é de sobrevivência dessas pessoas.

P. Fica claro que o Governo precisará adotar uma política de gastos fortes, mas tem uma equipe liderada por Paulo Guedes, um liberal que, desde o dia um, prometeu cortes e menos Estado na economia. Como avalia a condução do ministro diante da crise do coronavírus?

R. O Paulo Guedes está completamente despreparado neste momento para enfrentar essa crise. A letargia e a inércia já demonstram isso. A incapacidade de largar os dogmas ideológicos que ele tem, como o Estado mínimo, o Estado que não pode gastar, é completamente inapropriada para esse momento. Hoje, dane-se o Estado mínimo, você precisa gastar. É preciso é errar pelo lado do excesso não para o lado da cautela numa crise desse tipo.

P. Neste fim de semana, em uma live com representantes da corretora XP, Guedes afirmou que “é conversa fiada” os rumores de que ele sairia do cargo. A videoconferência foi vista como um movimento para acalmar o mercado financeiro.

R. Isso é mais um despreparo, essa preocupação de passar recado para o mercado. Ninguém tem que passar recado para o mercado, precisa trabalhar para as pessoas, são as pessoas que estão morrendo de fome e que já não têm condições de se sustentar que importam. É incrível essa surdez e essa cegueira.

P. Uma das primeiras medidas anunciadas pelo ministério da Economia, que precisou recuar, mirou o lado das empresas — que poderiam suspender os contratos de trabalho —, mas não contemplou, em um primeiro momento, como o empregado iria sobreviver. Como resolver a questão dos empregados e empregadores?

R. É uma falta de entendimento total. Se você não estiver dando apoio para os trabalhadores de todos os tipos, informais, formais, autônomos, se não der sustentação para as pessoas, você também não está dando sustentação para as empresas. Tem que ser uma ação coordenada para as pessoas e empresas, para que você não tenha um desemprego em massa no país, porque isso também vai quebrar as empresas. Não vai ter gente para consumir. É uma absoluta falta de compreensão da gravidade do momento e da urgência das medidas, de sentar e trabalhar. Se não tem capacidade de fazer isso, pede ajuda. Há muitas pessoas dando ideias e tentando formular propostas que possam ser levadas para frente. Por que o ministro precisa ser tão turrão a ponto de não escutar?

P. A postura do presidente Jair Bolsonaro de minimizar a pandemia de coronavírus pode de fato afetar as decisões do ministério da Saúde e outras autoridades do país? Induzir a própria população a tomar um caminho contrário ao determinado pela OMS?

R. Em tese sim, mas na prática eu estou achando que não. Mesmo Santa Catarina que tem um governador [Comandante Moisés (PSL)] mais alinhado com Bolsonaro, que já estava cedendo às pressões do comércio e de alguns empresários local para abandonar as medidas de quarentena, voltou atrás. A manifestação da epidemia, que nas próximas duas semanas vai ser absurdamente dramática no país, vai impedir que as pessoas sigam essa linha. A população de modo geral está muito assustada com o que está acontecendo.

P. Ao combater as regras de quarentena, Bolsonaro se isola até mesmo de aliados políticos que têm grande peso em suas decisões, como o presidente Donald Trump, que chegou a adotar essa linha negacionista da doença, mas já voltou atrás…

R. A reviravolta do Trump é impressionante. Ele começou falando no início que era apenas uma gripe, um resfriado, nessa linha do Bolsonaro, que as pessoas morrem todo ano de gripe. Estava completamente embarcado nesse discurso. As pessoas ao redor dele conseguiram, no entanto, mudar seu alinhamento para algo mais pé no chão.

P. Bolsonaro tem criado ruído inclusive com o próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

R. Exatamente. Cria uma fissura entre ele e o Mandetta, tira dele a capacidade do que ele precisa fazer, o ministro fica desautorizado e é a pior sinalização, pior maneira de enfrentar a crise.

P. Quais medidas outros países estão implementando que deveriam ser exportadas aqui no Brasil para amenizar os efeitos da pandemia?

R. Acho que há um consenso de alguns pilares. É preciso dinheiro para o SUS a quantidade que for, pelo menos uns 50 bilhões de reais. Verbas para as micros e pequenas empresas no esquema de renda mínima, onde você tem como contrapartida não demitir funcionários. Eu calculei 30 bilhões de reais. Renda mínima para os 77 milhões do cadastro único com o esforço de recadastramento para alcançar umas 100 milhões de pessoas, já que sabemos que atualmente temos cerca de 50% a 60% da população em situação de vulnerabilidade.

P. Alguns deputados e entidades começam a falar na contribuição dos mais ricos para ajudar amenizar essa crise, sugerindo a volta do debate de um aumento de impostos para grandes fortunas e patrimônios. Paulo Guedes já afirmou que descarta um plano de tributos nesse momento. Qual a sua opinião?

R. Acho que a discussão sobre o tema é válida, mas não neste momento. O mais importante é tomar as medidas de emergência, emitindo dívida e acabou. Mais para frente, como essas medidas vão ser mais permanentes que temporárias, você começa a ver como vamos fazer para financiar a médio prazo isso tudo.

Clique aqui para ler a íntegra.


Manifesto: 'O Brasil não pode ser destruído por Bolsonaro'



O BRASIL NÃO PODE SER DESTRUÍDO POR BOLSONARO

O Brasil e o mundo enfrentam uma emergência sem precedentes na história moderna, a pandemia do coronavírus, de gravíssimas consequências para a vida humana, a saúde pública e a atividade econômica. Em nosso país a emergência é agravada por um presidente da República irresponsável. Jair Bolsonaro é o maior obstáculo à tomada de decisões urgentes para reduzir a evolução do contágio, salvar vidas e garantir a renda das famílias, o emprego e as empresas. Atenta contra a saúde pública, desconsiderando determinações técnicas e as experiências de outros países. Antes mesmo da chegada do vírus, os serviços públicos e a economia brasileira já estavam dramaticamente debilitados pela agenda neoliberal que vem sendo imposta ao país. Neste momento é preciso mobilizar, sem limites, todos os recursos públicos necessários para salvar vidas.

Bolsonaro não tem condições de seguir governando o Brasil e de enfrentar essa crise, que compromete a saúde e a economia. Comete crimes, frauda informações, mente e incentiva o caos, aproveitando-se do desespero da população mais vulnerável. Precisamos de união e entendimento para enfrentar a pandemia, não de um presidente que contraria as autoridades de Saúde Pública e submete a vida de todos aos seus interesses políticos autoritários. Basta! Bolsonaro é mais que um problema político, tornou-se um problema de saúde pública. Falta a Bolsonaro grandeza. Deveria renunciar, que seria o gesto menos custoso para permitir uma saída democrática ao país. Ele precisa ser urgentemente contido e responder pelos crimes que está cometendo contra nosso povo.

Ao mesmo tempo, ao contrário de seu governo -- que anuncia medidas tardias e erráticas -- temos compromisso com o Brasil. Por isso chamamos a unidade das forças políticas populares e democráticas em torno de um Plano de Emergência Nacional para implantar as seguintes ações:

-Manter e qualificar as medidas de redução do contato social enquanto forem necessárias, de acordo com critérios científicos;

-Criação de leitos de UTI provisórios e importação massiva de testes e equipamentos de proteção para profissionais e para a população;

-Implementação urgente da Renda Básica permanente para desempregados e trabalhadores informais, de acordo com o PL aprovado pela Câmara dos Deputados, e com olhar especial aos povos indígenas, quilombolas e aos sem-teto, que estão em maior vulnerabilidade;

-Suspensão da cobrança das tarifas de serviços básicos para os mais pobres enquanto dure a crise,

-Proibição de demissões, com auxílio do Estado no pagamento do salário aos setores mais afetados e socorro em forma de financiamento subsidiado, aos médios, pequenos e micro empresários;

-Regulamentação imediata de tributos sobre grandes fortunas, lucros e dividendos; empréstimo compulsório a ser pago pelos bancos privados e utilização do Tesouro Nacional para arcar com os gastos de saúde e seguro social, além da previsão de revisão seletiva e criteriosa das renunciais fiscais, quando a economia for normalizada.

Frente a um governo que aposta irresponsavelmente no caos social, econômico e político, é obrigação do Congresso Nacional legislar na emergência, para proteger o povo e o país da pandemia. É dever de governadores e prefeitos zelarem pela saúde pública, atuando de forma coordenada, como muitos têm feito de forma louvável. É também obrigação do Ministério Público e do Judiciário deter prontamente as iniciativas criminosas de um Executivo que transgride as garantias constitucionais à vida humana. É dever de todos atuar com responsabilidade e patriotismo.

Assinam (por ordem alfabética):

Carlos Siqueira, presidente nacional do PSB.

Carlos Lupi, presidente nacional do PDT.

Ciro Gomes, ex-candidato a presidência pelo PDT.

Edmilson Costa, presidente nacional do PCB.

Fernando Haddad, ex-candidato à presidência pelo PT.

Flavio Dino, governador do estado do Maranhão. 

Guilherme Boulos, ex-candidato à presidência pelo PSOL.

Gleisi Hoffmann, presidenta nacional do PT.

Juliano Medeiros, presidente nacional do PSOL.

Luciana Santos, presidenta nacional do PC do B.

Manuela D'Ávila, ex-candidata a vice-presidência (PC do B).

Roberto Requião, ex-governador do Paraná.

Sônia Guajajara, ex-candidata à vide-presidência (PSOL)

Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul

(Publicado pelo Brasil 247. Fotos: Reuters | 247 | ABr.)