sábado, 20 de junho de 2020

Cinco anos de sofrimentos

A morte do netinho do Lula. A morte de dona Marisa. A condução coercitiva do Lula. Os interrogatórios do Lula. A prisão do Lula. A sessão de 'impeachment' da Dilma. As manifestações de elites vestidas com a camisa da CBF e acompanhadas de babás de uniforme branco para tomar conta dos seus filhinhos, aos domingos. As elites se confraternizando e posando para fotos com policiais militares que há décadas batem em manifestantes populares e matam pretos e pobres. Panelaços. As operações espetaculares da Polícia Federal. As gravações de conversas entre corruptos, autoridades e empresários. As sessões espetaculares do Supremo Tribunal Federal. As delações premiadas de prisioneiros. As edições escandalosas diárias do Jornal Nacional. A matança diária de jovens pretos e pobres pelas polícias. O Exército ocupando favelas para “pacificar”. A traição da Dilma no segundo mandato. A traição do Temer. O governo da oposição que não foi eleita. A reforma trabalhista. Um candidato preso, condenado, que não podia ser eleito. Um candidato condenado a perder. O assassinato da Marielle. A facada espetacular no ex-capitão. Notícias falsas, exércitos de robôs fraudando a eleição. Ele não, ele sim. A eleição de um presidente convalescente, sem debate, sem programa, sem nada. A reforma da previdência. Os militares ocupando postos civis no governo. Os piores de cada área escolhidos para comandar ministérios. Fake news, fake news, fake news. O crime de Mariana. O crime de Brumadinho. A liberação dos agrotóxicos. A devastação da Amazônia. Do Cerrado, da Mata Atlântica. A pandemia, o confinamento, a morte rondando, a vida virada de cabeça pra baixo. Os maus exemplos do presidente. Os conflitos diários do presidente com jornalistas, com outras autoridades. O governo que não nos protege da pandemia, que age contra o povo. Filas nos hospitais, falta de leitos, de equipamentos, de materiais, de remédios, de médicos. Doentes morrendo às dezenas, às centenas, aos milhares. Mortos que não podem ser velados. Enterros em covas coletivas. O espetáculo grotesco da reunião ministerial de 22/4. Desemprego, miséria, fome. Os 50 mil mortos, os 1 milhão de contaminados. E as perdas pessoais de cada um.

Há mais de cinco anos, nós, brasileiros, sofremos diariamente, intensamente, crescentemente, como se pagássemos por alguns anos de ingênua felicidade e otimismo que tivemos antes.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

O exemplo americano e a nossa Guerra das Malvinas


O conflito político que o Brasil vive hoje é resultado de problemas que não resolveu no passado e me faz pensar na inglória Guerra das Malvinas, que a Argentina deflagrou contra a Inglaterra em 1982.

Na sua tradição de transições aparentemente pacíficas, o Brasil saiu da ditadura militar em 1985 sem definir o papel dos militares na democracia, evidenciado exemplarmente pelo general Mark Milley, comandante das Forças Armadas dos EUA, no dia 11/6. A ditadura, inclusive, criou um problema adicional, que a Constituinte de 1987-88 absorveu, também sem resolver: as polícias militares.

O exemplo americano define que as Forças Armadas não têm papel e não podem interferir na ordem política interna. Seu papel é lutar pelo povo do país contra inimigos externos. É para isso que o exército é treinado e muito bem pago. Ponto final. É assim nos EUA e vai continuar a ser, eu errei ao posar do lado do presidente Trump, dando a impressão que as Forças Armadas participam da sua política, disse o general.

No Brasil, a confusão entre Forças Armadas e política interna se confunde com a própria República. Nisso os monarquistas sempre estiveram cobertos de razão: a Monarquia era civil. E parlamentarista, o que assegurou estabilidade de 49 anos ao Segundo Reinado. A Monarquia tolerou inclusive a existência legal do Partido Republicano, cujo objetivo era acabar com ela. A República levou um século para aceitar o Partido Comunista, que também pretendia acabar com ela.

O problema militar no Brasil começou quando o Exército voltou vitorioso da Guerra do Paraguai, como instituição nacional ligada ao povo, do qual foi formado, e passou a fazer sombra ao imperador. Tornou-se crônico com o mau exemplo do golpe de 15 de novembro de 1889. Um general derrubou o imperador e a Monarquia, numa quartelada, e assumiu o governo, dando início a uma longa história de intervenções militares na política nacional, que já dura 131 anos. Desde a proclamação, os militares brasileiros se consideram os pais e guardiões da República, para o que contam com apoio de parte dos civis, que estão sempre convocando-os a participar.

Disse que o Brasil tem tradição aparentemente pacífica de transições políticas porque na verdade a história brasileira é feita de inúmeros episódios violentos, além de uma longa violência cotidiana. 

A Independência, cantada como "um grito no Ipiranga" dado pelo próprio herdeiro do trono português, foi repleta de massacres de brasileiros republicanos em todas as partes do país, feitos por um exército de mercenários contratados por Pedro I. Quem tem dúvida procure conhecer o Massacre do Brigue Palhaço.  

A proclamação da República seguiu o mesmo caminho; aparentemente pacífica, no golpe, foi seguida de estados de sítio, revoltas, massacres, traições, covardias, dos quais o mais eloquente é a Revolta da Chibata. A tortura policial é uma instituição republicana usada para manter os pretos libertos e os pobres no seu lugar de submissão a uma ordem oligárquica.

Modernizador, nacionalista e até socializante, o longo governo de Getúlio Vargas é uma ditadura militar extremamente violenta, que se impôs pelo terror.

A ditadura militar de 1964-85 superou-a. Após o AI-5, bastava não sorrir para um fardado, ou mesmo um policial civil, para ser preso, torturado e desaparecer sem deixar vestígios, mas mesmo antes da ditadura dos porões, nos primeiros dias do golpe de 64, os episódios de violência se multiplicavam. E para retroceder mais um pouco, nas vésperas do golpe, o Massacre de Ipatinga deixou mortos um número nunca contado de operários grevistas.

Os militares brasileiros, comandados pela trinca Golberi, Geisel e Figueiredo, deixaram o governo em 1985 negociando com os civis sua impunidade pelos crimes praticados durante a ditadura, deixando a porta aperta para voltarem e ainda transferindo sua herança de violência contra o povo às polícias militares. Desde então, o Brasil vive uma guerra civil permanente, na qual milhares de brasileiros são mortos pelas polícias todo ano, número que cresce ano após ano -- em 2019 foram quase 6 mil.

O confronto evitado na transição de 1985 e na Constituinte de 1988 não desapareceu, porque, sem terem seu papel definitivamente delimitado na democracia, os militares nunca deixaram a política, apenas hibernaram, mantendo uma figura aparentemente ridícula no Congresso, que em 2018 acabou eleito presidente e encheu o governo de generais. Pior do que isso: a corrupção e criminalidade endêmica nas polícias militares fez delas um exército paralelo do próprio Exército.

O atual governo militar me lembra a Guerra das Malvinas, o que pode ser um fato alvissareiro, se se confirmar. Aquela guerra foi uma aventura cujo fracasso fulminou o exército argentino, levando ao fim da breve ditadura, à punição dos seus comandantes e à ao recolhimento das Forças Armadas dos nossos hermanos ao seu papel constitucional, cujo exemplo maior é o americano. No confronto morreram mais de 600 soldados argentinos e outros 1.600 ficaram feridos.

O governo militar atual também é desastroso nesta nova aventura fardada. Incapaz de enfrentar um vírus, de dirigir o Estado e de organizar a economia, já levou à morte mais de 46 mil brasileiros e quase 1 milhão foram contaminados. E aumenta a matança de pobres e pretos, numa guerra macabra que agora vitima crianças. 

Como a derrota dos militares argentinos na Guerra das Malvinas, a derrota do governo militar brasileiro atual na luta contra a pandemia pode decretar seu fim. É preciso que os civis sigam enfim o exemplo americano e ponham as Forças Armadas no seu lugar constitucional. Está demorando uma proposta de emenda à Constituição que deixe expresso no Artigo 142 -- o que não fez a Constituinte de 1987-88 -- que elas não têm papel na ordem nem na política internas.



segunda-feira, 15 de junho de 2020

Por que não o parlamentarismo?

E por que não a reforma política urgente? Com parlamentarismo, essa história de impeachment político acaba. Se o governo não tem apoio ou comete crime, cai.
O impeachment da Dilma foi político, o impeachment do Collor foi político. Temer não teve impeachment porque comprou o Congresso e o despresidente atual lá vai pelo mesmo caminho.
Ou seja, impeachment no Brasil funciona igual derrubada de gabinete no parlamentarismo, não tem nada a ver com crime de responsabilidade, como se alegou contra a Dilma, quando o senador Anastasia forjou um crime, conforme os golpistas queriam.
O impeachment no Brasil é queda de um governo que não consegue governar, que perde a maioria, como acontece no parlamentarismo, com uma diferença fundamental: o povo não é chamado a eleger um novo governo, o governo que emerge do golpe é um governo da oposição. Por isso é golpe, por isso não é democrático, por isso é contra o povo. Temos uma democracia sem-vergonha, na qual o povo escolhe o presidente com seu programa, mas ele não tem maioria no Congresso, então é obrigado a comprar parlamentares e abrir do seu programa, o que significa que todo governo é necessariamente traidor do povo e corrupto.
E nenhum país pode funcionar com mais de trinta partidos, inclusive uma maioria de parlamentares que estão lá só pra fazer negócios pessoais ou de grupos, o tal centrão, sem o qual nenhum presidente governa. Bastam uns cinco partidos para representar todas as ideologias, e todos eles deveriam ter programas claros para se distinguirem. Quem não consegue 10% dos votos fica de fora. E parlamentar não deve ter salário, deve continuar ganhando o que ganhava como profissional, antes de ser eleito. Nem verbas de gabinete, carro, funcionários sem concurso etc. E só ser reeleito uma vez, igual no poder Executivo.

Crédito da foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil. 



Da BBC Brasil

Instituições respondem com 'luvas de pelica' a risco de Bolsonaro à democracia, diz cientista político

Mariana Alvim - @marianaalvim Da BBC News Brasil em São Paulo

O cientista político Sérgio Abranches vem defendendo nos últimos anos que o impeachment é um "processo traumático" e uma "ruptura política grave" na jovem democracia do país, e também sintoma das disfunções do nosso modelo político — um presidencialismo multipartidário fragmentado, que exige do Planalto uma grande esforço para cultivar uma coalizão no Congresso; e um federalismo com forte concentração de poder pelo governo federal.

Clique aqui para ler a entrevista.

sábado, 6 de junho de 2020

Strange Fruit, com Billie Holiday

No Sul dos EUA, árvores dão frutos estranhos, sangue nas folhas, sangue na raiz, corpos pretos balançando no vento.

sábado, 23 de maio de 2020

Os melhores livros que eu li

De ficção. Cada um no seu tempo. (Sujeito a acréscimos.)



1-Cazuza, de Viriato Correia
2-Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos
3-Memórias da Emília, de Monteiro Lobato
4-Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas
5-Romeu e Julieta, de William Shakespeare
6-Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe
7-O Vermelho e o Negro, de Stendhal
8-O Encontro Marcado, de Fernando Sabino
9-Tônio Kroeger, de Thomas Mann
10-Retrato do Artista quando Jovem, de James Joyce  
11-Insônia, de Graciliano Ramos
12-A Peste, de Albert Camus
13-O Jogador, Fiódor Dostoiévski
14-A Náusea, de Jean Paul Sartre
15-Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski
16-Pais e Filhos, de Ivan Turgueniev
17-A Montanha Mágica, de Thomas Mann
18-Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski
19-Michael Kohlhass, de Heinrich von Kleist  
20-A Volta para Marilda, de Osvaldo França Júnior
21-Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe
22-O Caso dos Dez Negrinhos, de Agatha Christie
23-Os Novos, de Luís Vilela
24-Jorge, um Brasileiro, de Osvaldo França Júnior
25-Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa 
26-Hadji Murat, de Leon Tolstoi
27-A Morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstoi
28-O Homem que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura

Os melhores livros de não ficção

Que eu li.



1-A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, de Karl Popper
2-O Capital, de Karl Marx
3-Era dos Extremos, de Eric Hobsbawm 
4-O Castelo de Axel, de Edmund Wilson
5-Getúlio, de Lira Neto
6-Ética para meu Filho, de Fernando Savater
7-O Julgamento de Sócrates, de I. F. Stone
8-Minha Vida, de Leon Trotski
9-O Afeto que se Encerra, de Paulo Francis 
10-Minha Razão de Viver, de Samuel Wainer
11-Pensamentos, de Pascal
12-Discurso do Método, de Descartes
13-Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson
14-Chega de Saudade, de Rui Castro
15-Chatô, o Rei do Brasil, de Fernando Morais
16-Filosofia da Ciência, de Rubem Alves


terça-feira, 19 de maio de 2020

Não é mais a hidroxicloroquina?

A prioridade agora é mudar o código de trânsito. Um maluco dirigindo na contramão em alta velocidade. Um presidente contra o Brasil e os brasileiros. Seu método é nos distrair enquanto seus amigos tomam conta do país -- triplicando o desmatamento da Amazônia, por exemplo. Ou o tiramos antes, ou não sobrarão brasileiros nem Brasil no fim da pandemia.

Flexibilização do Código de Trânsito é prioridade máxima para Bolsonaro

Por Lauriberto Pompeu, Congresso em foco 19/5/20

O governo federal enviou para líderes de partidos do Centrão uma lista de projetos considerados prioritários para serem votados em maio e junho (veja a íntegra). A relação difere das matérias que vêm sendo consideradas mais importantes pelo Ministério da Economia. Na área econômica, Bolsonaro incluiu entre as prioridades a medida provisória do salário mínimo, a autonomia ao Banco Central e a nova Lei de Falências.

Para o presidente, no entanto, o projeto mais urgente é o que altera o Código de Trânsito Brasileiro. O texto aumenta a validade da carteira de motorista de cinco para dez anos e amplia de 20 para 40 pontos o limite para a suspensão da habilitação.

Clique aqui para ler a íntegra no Congresso em Foco.

sábado, 9 de maio de 2020

Para onde vai o dinheiro da publicidade do governo

Antigamente (antes da internet), a verba publicitária do governo federal (e outros governos) ia para as famílias que dominam a comunicação no Brasil, por meio da Globo, Abril, Folha, Estadão, Associados, Band, SBT, Record etc. Pra que mesmo que governos têm de gastar com publicidade? Ninguém nunca soube responder.
A resposta é que não têm de gastar, fazem isso para enriquecer as tais famílias e em troca contar com a simpatia dos seus veículos. Simples assim.
A mais importante informação que nos foi deixada por Roberto Marinho é: "O Globo não é importante pelo que publica, mas pelo que deixa de publicar".
Todos os veículos de comunicação no capitalismo são balcões de negócios -- pequenos com o público em geral, grandes com os poderosos. Embora alguns busquem se equilibrar também na ética, no compromisso com o leitor, porque, afinal, credibilidade é o maior bem que um veículo pode ter -- inclusive para cobrar caro pelo que não publica. Roberto Marinho ganhou muito dinheiro e construiu um império.
Com a internet, os velhos impérios da comunicação começaram a ruir e novos se formaram, basicamente Google e Facebook, que não são impérios nacionais como Globo etc., mas internacionais.
A ótima reportagem da Patrícia Campos Melo nos informa que Gg fica com 20 a 40% da publicidade que recebe. 20 a 40% do bolo global da publicidade é muito, mas muito dinheiro. E Gg, ao contrário dos veículos de comunicação tradicionais, não produz nada! O restante da bolada é distribuída de forma extremamente pulverizada entre os chamados "produtores de conteúdo".
E aí chegamos ao principal: o governo do capitão distribui o dinheiro público da publicidade oficial para canais de criminosos, como saites de feique nius e um canal de jogo do bicho. E até para um saite russo. Além de canais de promoção pessoal do presidente. E para quê? Para que a população pensasse que era boa e necessária a reforma da previdência que praticamente acabou com a aposentadoria dos pobres, mas poupou os militares e outras castas privilegiadas. 
Financiar criminosos é crime.
Essa é a marca desse governo, a conexão com todos os tipos de criminosos, sejam desmatadores, fabricantes de agrotóxicos, infratores do trânsito, feminicidas, milicianos mafiosos, traficantes, banqueiros, fabricantes de feique nius, falsos pastores, armamentistas, inimigos da democracia ou bicheiros.
Isso é uma constatação, é o que nos mostram o noticiário e o comportamento do presidente, dia após dia. Não tem uma ação do governo que seja em benefício do Brasil, que não seja para pôr o Estado a serviço de criminosos.
Na defesa dos seus, o presidente se esquece até da maioria que votou nele, e que até hoje não recebeu nada desse governo, só perdeu.  


Verba publicitária de Bolsonaro irrigou sites de jogos de azar e de fake news na reforma da Previdência 

Patrícia Campos Mello, Folha de S. Paulo, 9/5/20

O governo de Jair Bolsonaro veiculou publicidade sobre a reforma da Previdência em sites de fake news, de jogo do bicho, infantis, em russo e em canal do YouTube que promove o presidente da República.
As informações constam de planilhas enviadas pela Secom (Secretaria Especial de Comunicação da Presidência) por determinação da CGU (Controladoria-Geral da União), a partir de um pedido por meio do Serviço de Informação ao Cidadão.
A Secom contrata agências de publicidade que compram espaços por meio do GoogleAdsense para veicular campanhas em sites, canais do YouTube e aplicativos para celular.
Neste sábado (9/5), após a publicação desta reportagem, o senador Alessandro Vieira, a bancada do Cidadania e senadores do grupo chamado Muda Senado decidiram entrar com representação por improbidade contra a Secom. O grupo decidiu ainda apresentar pedido de convocação do secretário Fábio Wajngarten (Comunicação) para esclarecimentos.
Segundo as planilhas da Secom, disponíveis no site de Acesso à Informação do governo federal, dos 20 canais de YouTube que mais veicularam impressões (anúncios) da campanha da Nova Previdência no período reportado, 14 são primordialmente destinados ao público infantojuvenil, como o canal Turma da Mônica e Planeta Gêmeas.
Um dos canais de YouTube que mais receberam anúncios, segundo a Secom, é o Get Movies, que não só é destinado ao público infantil mas tem 100% do seu conteúdo em russo. “O destino no YouTube para russos que querem assistir a desenhos animados e outros tipos de programa para a família", diz a descrição do canal que recebeu 101.532 anúncios, segundo a tabela.
Em 11 de novembro de 2019, foi pedido à Secom, por meio do Serviço de Informação ao Cidadão, um relatório de canais nos quais os anúncios do governo federal contratados por meio da plataforma Google Ads foram exibidos, para o período de 1º de janeiro a 10 de novembro de 2019.
A Secom negou duas vezes o pedido. Após recursos, a CGU determinou em fevereiro que a Secom deveria disponibilizar o relatório pedido no prazo de 60 dias contados da notificação da decisão.
A resposta da Secom só foi encaminhada ao site em 17 de abril deste ano, mais de cinco meses após o pedido inicial. No entanto, as planilhas enviadas abrangem apenas o período de 6 de junho a 13 de julho de 2019 e 11 a 21 de agosto de 2019.
As planilhas devem ser encaminhadas à CPMI das Fake News nos próximos dias. Os documentos não especificam o total gasto pela Secom com os anúncios. Em maio de 2019, a secretaria anunciou que gastaria R$ 37 milhões em inserções publicitárias sobre a reforma da Previdência, em televisão, internet, jornais, rádio, mídias sociais e painéis em aeroportos.
Outra publicação que recebeu uma quantidade considerável de anúncios com dinheiro público foi um site com resultados do jogo do bicho. O resultadosdobichotemporeal.com.br recebeu 319.082 anúncios, segundo a planilha enviada pela Secom. O jogo do bicho é ilegal no Brasil.
Sites de fake news também receberam muitos cliques — e verba — de anúncios do governo. Um dos campeões, com 66.431 anúncios, foi o Sempre Questione.
Na página inicial deste site, nesta sexta (8/5), havia notícias como “Ovni é flagrado sobrevoando Croata, interior do Ceará, e aterroriza moradores” e “Kiko do Chaves diz que coronavírus é farsa de Bill Gates e da Maçonaria”.
A campanha também foi veiculada em sites que disseminam desinformação, como o Diário do Brasil (36.551 anúncios).
A Secom relata nas planilhas gastos com anúncios veiculados em sites e canais que promovem o presidente Jair Bolsonaro. No Bolsonaro TV – que se descreve como “canal dedicado em apoiar o presidente da República, Jair Messias Bolsonaro” – houve 5.067 impressões, segundo a planilha.

Clique aqui para ler a íntegra da reportagem.


E as castas se locupletam, como sempre

Há alguma dias, o ministro Guedes deu R$ 1 trilhão e 200 bilhões para os bancos. Agora procuradores se dão também uma "ajuda". Afora o que a gente não sabe. Tudo para "combater" a covid-19. É assim o Brasil, as castas superiores ganham em qualquer situação. Para ajudar o povo desempregado o dinheirinho custa a sair, obriga a filas, mas as castas recebem imediatamente, sem polêmica. 

Procuradores do Mato Grosso ganham R$ 1.000 em “bônus covid” 
Joana Diniz, Poder360, 7/5/20
O Ministério Público do Estado Mato Grosso (MPMT) instituiu 1 “bônus covid” de até R$ 1.000 para procuradores, promotores e servidores usarem em gastos de saúde durante a pandemia de coronavírus. O ato administrativo foi editado na 2ª feira (4.mai.2020) e assinado por José Antônio Borges Pereira, procurador-geral de Justiça do Estado.
"Farão jus à ajuda de custo para despesas com saúde os membros e servidores, efetivos e comissionados, ativos do quadro de pessoal do Ministério Público do Estado de Mato Grosso”, diz o documento. A medida pode beneficiar 1.111 pessoas e ter 1 custo de R$ 680 mil por mês.
Clique aqui para ler a íntegra da matéria. 


Enquanto o presidente faz seu show, pandemia e desmatamento aumentam

Desmatamento na Amazônia salta 64% em abril, diz Inpe 
Poder 360, 9/5/20 
O desmatamento na Floresta Amazônica – maior floresta tropical do mundo – cresceu 64% em abril em comparação com o mesmo período do ano passado. Os dados foram divulgados na 6ª feira (9/5/20) pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Segundo o órgão, o salto tem relação com as restrições provocadas pela pandemia da covid-19, que acabou tirando ambientais ficam do campo, o que fragiliza a fiscalização.
Clique aqui para ler a íntegra da matéria. 

Brasil pode se tornar recordista mundial de vítimas do coronavírus, diz consultoria americana
Carta Capital, 9/5/20
O Brasil pode se tornar o país mias atingido pela covid-19 no mundo. Foi o que mostrou um estudo realizado pela consultoria americana Kearney, que trabalha com cenários há mais de 80 anos e está presente em mais de 40 países. Para a empresa, a flexibilização de medidas de isolamento social e a falta de ações que ampliem urgentemente a estrutura de saúde poderão fazer com que o Brasil se torne o recordista mundial de vítimas da doença.
As projeções mostram que, em um cenário mais pessimista, o Brasil chegará a cerca de 295 mil mortos até 20 de dezembro. Em um cenário intermediário esse número poderá chegar a 78 mil vítimas e, na melhor das hipóteses, na qual o país respeitará as medidas de isolamento social, podemos chegar a 28 mil vítimas.
Nesta sexta-feira 8/5, o país bateu mais um recorde de mortes pela covid-19. Foram contabilizados, em apenas 24 horas, 751 mortes, totalizando 9.897 óbitos causados pela doença.
Clique aqui para ler a íntegra da matéria.


Um governo da bagunça

Três dias antes de mais uma manifestação que pretende fechar o STF e o Congresso, cujos líderes são fanáticos seguidores do presidente e dizem que um comboio com militares da reserva está a caminho de Brasília, o presidente marcha sobre o tribunal acompanhado de ministros e dezenas de empresários, para pressionar pelo fim do isolamento social. E marca churrasco para a véspera. Dá maus exemplos e incentiva o desrespeito às leis e à Constituição, como sempre.
O capitão não governa, ele dá xous, debocha, provoca, diz e desdiz, faz e desfaz, usa de tudo para chamar atenção e manter seus seguidores fanáticos sempre mobilizados, enquanto bandidos tomam conta do país e a pandemia mata milhares. Não tem o menor compromisso com o Brasil.
A cena que acompanhamos na quinta-feira é absurda. O STF é um tribunal, última instância para decisões principalmente constitucionais. Mas se meteu a fazer política e é o que se vê. Se seu presidente tivesse um mínimo de dignidade, poria o capitão e seus fanáticos para fora a vassouradas. É o que aconteceria nos EUA, por exemplo. Mas lá nem Trump se mete a fazer o que o capitão fez.
Se o presidente do Supremo Tribunal Federal não entende o que está acontecendo e recebe o presidente e sua turma, como é que os cidadãos comuns podem entender?
Falta educação política aos brasileiros e, temos de reconhecer, 13 anos de governos do Partido dos Trabalhadores não ajudaram em nada. Quando veio o golpe, não houve reação. Não digo reação para defender a presidenta incapaz ou ex-presidente caudilho, mas o próprio povo, o voto da maioria, o direito constitucional de o povo escolher seus governantes, a democracia, enfim.
Agora vemos cenas absurdas como essa. A cada ato tresloucado do presidente, cada vez mais agressivo, todos ficam com medo de que em seguida venha um golpe militar, um "AI-5", uma ditadura, mas é preciso? O que o capitão já fez nesse ano e quatro meses de destruição do Brasil e dos brasileiros já contém os horrores de um governo arbitrário. Um governo da bagunça.

Crédito da foto: Sérgio Lima / Poder 360.
https://static.poder360.com.br/2020/05/bolsonarocomitiva02.jpg


Toffoli equilibra colaboracionismo e ação cirúrgica contra Bolsonaro 
André Barrocal, Carta Capital, 9/5/20
A passagem de Dias Toffoli pelo comando do Supremo Tribunal Federal (STF) termina em setembro e será marcada pela inédita “invasão” da casa pelo presidente da República e empresários. Sua atitude diante da iniciativa de Jair Bolsonaro custou-lhe críticas de bastidores por parte de colega do STF e de estudiosos do tribunal.
Clique aqui para ler a íntegra da matéria.

Com empresários e ministros, Bolsonaro visita STF a pé e provoca aglomeração, em compromisso não agendado
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Bolsonaro diz que fará churrasco para “uns 30 convidados” no sábado
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Bolsonaro manda repórter calar a boca e diz que não interferiu na PF
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quarta-feira, 6 de maio de 2020

O homem honrado em outubro de 2019

A Cult acompanhou o ex-ministro passo a passo.

Sérgio Moro Bolsonaro 

Marcelo Semer, juiz de Direito e escritor, mestre em Direito Penal pela USP, doutor em Criminologia pela USP, membro e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia.

“É no porrete ou na cenoura.”

Desavisado, o leitor que ouvisse essas palavras vulgares dirigidas à forma de conter a disciplina carcerária, poderia se lamentar de mais um arroubo do presidente Bolsonaro, exortando a violência, agora contra presos.

Infelizmente, as palavras não eram de Jair.

O ministro Sérgio Moro as proferiu durante palestra no Fórum de Investimentos Brasil, pouco depois de afirmar desconhecer a existência de tortura pela força que mandara ocupar os presídios do Pará.

Na ação de improbidade movida pelo Ministério Público Federal, que levou ao afastamento do comandante da Força-Tarefa, alguns relatos candentes, de que os presos “são obrigados a ficar pelados ou somente de cueca, descalços, molhados, sujos pelas necessidades fisiológicas”; de que estão “apanhando e sendo atingidos por balas de borracha e spray de pimenta, de modo constante”; e de que as detentas “são colocadas em formigueiro, locais com fezes de ratos e sob o chão molhado”, entre outras barbaridades, como a de policiais quebrando dedos dos presos.

A forma grosseira e intimidatória a responder uma denúncia do MPF (a mesma instituição a que Moro atuou como parceiro e coach no processo da Lava Jato), mostrou que de fato alguns limites foram superados pelo ex-juiz.

É exagero dizer que somente agora descobrimos o potencial autoritário de Moro.

A multiplicidade de funções que assumia na Operação Lava Jato, de investigador, acusador e até carcereiro, já era um sinal de desprezo aos limites que dão conta da democracia.

A busca do apoio popular como forma de legitimação dos procedimentos questionáveis e das rigorosas sentenças, calcada no exemplo das Mãos Limpas italiana, que não se cansava de repetir, era outra pista do quociente autoritário. Na contenda atual contra o STF, Moro representa a “vontade popular” em face de um tribunal ferido que se esforça para tentar recuperar seu viés contra majoritário na esfera criminal.

Clique aqui para ler a íntegra na revista Cult.


Um homem honrado

Um texto como os de antigamente. 

Um homem honrado

Márcio Sotelo Felipe, advogado, mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP; foi procurador-geral do estado de São Paulo. 

Sérgio Moro é um homem honrado. Convocou a imprensa para anunciar que deixava o Ministério da Justiça porque o presidente da República queria interferir ilegalmente na Polícia Federal.

Quando juiz da Lava Jato, determinou a quebra do sigilo telefônico de Lula e suspendeu a medida às 11h13 do dia 16 de março de 2016.  Mas às 13h32 do mesmo dia a escuta ainda era feita e captou uma conversa do ex-presidente com a presidenta Dilma Rousseff. Nesse momento, o sigilo telefônico de Lula estava garantido pela Constituição, mas o então juiz remeteu a gravação à Globo e ali terminou, de fato, o mandato da presidenta da República. Mas Sérgio Moro é um homem honrado.

Às 6 da manhã do dia 4 de março de 2016, a Polícia Federal chegou à casa de Lula para conduzi-lo coercitivamente a Curitiba por determinação do juiz Sérgio Moro, que queria um espetáculo público de humilhação do ex-presidente. Os artigos 218 e 260 do Código de Processo Penal somente autorizam a condução coercitiva quando o réu não atende ao chamado para interrogatório ou quando a testemunha, intimada, não comparece. Lula não era réu e nem havia sido intimado. Mas Sérgio Moro é um homem honrado.

Sérgio Moro condenou o candidato à frente nas pesquisas com uma sentença que não tinha qualquer base fática razoável, criticada por juristas de todo mundo, mutilando as eleições presidenciais. Mas Sérgio Moro é um homem honrado.

Quando se descobriu que a Odebrecht fazia doações ocultas ao Instituto Fernando Henrique Cardoso e os procuradores da Lava Jato sugeriram investigar apenas para aparentar isenção, Sérgio Moro impediu com o argumento de que não convinha “melindrar alguém cujo apoio é importante”. Mas Sérgio Moro é um homem honrado.

Sérgio Moro violou os mais triviais deveres de imparcialidade e isenção de um juiz, como soubemos pelas revelações da Vaza Jato. Conspirou com a acusação e a dirigiu em muitos momentos. Mas Sérgio Moro é um homem honrado.

Sérgio Moro confessou que, ao aceitar ser ministro, pediu uma pensão para sua família caso morresse. Artigo 317 do Código Penal: “solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem”. Como não se consegue vislumbrar algum motivo para essa vantagem ser devida, somos pelo menos autorizados a cogitar corrupção passiva, exatamente o crime pelo qual condenou Lula. Mas Sérgio Moro é um homem honrado.

Moro quis aprovar um pacote punitivista, com ranço de fascismo, que superlotaria o já bárbaro sistema prisional que abriga quase um milhão de presos. Usou, entre outros argumentos, o de que medidas populares traziam capital político para a reforma da previdência. Mas Sérgio Moro é um homem honrado.

Clique aqui para ler a íntegra na revista Cult.


terça-feira, 5 de maio de 2020

A pandemia e as mudanças climáticas

Na Índia, a cadela do Himalaia ficou visível depois de décadas porque o ar ficou mais limpo. E assim vai, mundo afora, basta a gente olhar a nossa própria cidade. Essa é uma das coisas que a humanidade deve aprender com a pandemia. Agora é questão de vida ou morte, é possível que o vírus tenha vindo para ficar, que outros vírus venham, que nossos hábitos tenham de mudar para sempre. Não é melhor a gente ganhar juízo e fazer um mundo melhor, em vez de prosseguir nessa vida insana de destruição ambiental, desigualdades e violências?
Mas também nisso o Brasil está na contramão: aqui, o desmatamento é o principal problema, e ele aumentou durante a pandemia, porque o governo incentiva os infratores e pune os fiscais do Ibama. 


Como o meio ambiente reage à redução da atividade econômica

Juliana Domingos de Lima, 4/5/20, Nexo

Foto: Vias expressas quase vazias em Los Angeles durante a quarentena, com menos carros e ar limpo. Crédito da foto: Lucy Nicholson / Reuters.

Emissões de gases do efeito estufa apresentam queda e há melhora na qualidade do ar. Mas reflexo sobre mudança climática depende das medidas a serem tomadas pós-pandemia.

A redução da atividade econômica em todo o mundo durante a pandemia do novo coronavírus, decretada em 11 de março pela OMS (Organização Mundial da Saúde), tem impactado o meio ambiente.

Espera-se uma queda de cerca de 5% nas emissões de carbono em 2020, em relação ao ano anterior. Houve melhora na qualidade do ar de grandes cidades — na Índia, a cadeia de montanhas do Himalaia ficou visível a partir de cidades do norte do país pela primeira vez em décadas.

Também foram registradas algumas aparições de animais silvestres em localidades urbanas. Muitas das postagens sobre essa fauna que estaria “tomando conta” das cidades desertas, no entanto, são falsas.

Pesquisadores e ativistas não comemoram esses impactos. “É a pior maneira possível de se vivenciar uma melhora no meio ambiente e mostra o tamanho da tarefa [que temos pela frente]”, disse ao jornal britânico The Guardian o professor da Universidade de Columbia Michael Gerrard, referindo-se ao cenário trágico da pandemia, em que os benefícios ambientais dividem espaço com as mortes e a recessão.

Segundo cientistas, a queda nas emissões provocada pela pandemia ainda está aquém da diminuição que precisa ser mantida ao longo dos próximos anos a fim de evitar um desastre climático. Para a ONU (Organização das Nações Unidas), seria necessária uma redução anual de 7,6% pela próxima década para limitar o aquecimento do planeta e suas consequências.

Também é cedo para dizer se esses efeitos são temporários ou se a atual crise pode ter um impacto mais duradouro no curso da mudança climática. Esse rumo dependerá menos do vírus e mais das decisões políticas que se seguirão à crise sanitária.

Clique aqui para ler a íntegra da reportagem no Nexo.


quinta-feira, 30 de abril de 2020

Dedicated to the one I love

Que pérola!

Presidente manda Receita perdoar dívidas de igrejas evangélicas

Todos os dias tem uma notícia assim. Pela primeira vez, um presidente não governa a nação, apenas usa o Estado para beneficiar os seus, começando por seu clã, e outros grupos, a saber: evangélicos, militares e paramilitares, desmatadores, armamentistas, machistas, racistas etc. E o capital financeiro, é claro. Pouco se lhe dá -- e ele mesmo diz cada vez mais explicitamente: " E daí?" -- se os brasileiros morrem de pandemia ou de fome ou de tiro. Como um câncer, vai matar o Brasil inteiro, se não for extirpado antes.

Bolsonaro interfere na Receita Federal para perdoar dívidas milionárias de igrejas evangélicas

Bolsonaro promoveu encontro entre secretário da Receita e o deputado David Soares, filho do pastor R.R. Soares, que deve R$ 144 milhões e tem dois processos de R$ 44 milhões no órgão, a terceira maior dívida ativa da União
Em mais uma investida contra os órgãos de investigação, como denunciou Sérgio Moro em seu pronunciamento demissionário, Jair Bolsonaro está pressionando a Receita Federal a perdoar dívidas de igrejas evangélicas, que formam parte do núcleo duro de apoio ao governo.
Segundo reportagem de Idiana Tomazelli e Adriana Fernandes, na edição desta quinta-feira (30) do jornal O Estado de S.Paulo, Bolsonaro promoveu um encontro entre o secretário especial da Receita Federal, José Barroso Tostes Neto, e o deputado federal David Soares (DEM-SP), filho do pastor R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus.

Clique aqui para ler na revista Fórum.

Clique aqui para ler no Estadão.


Your cat has nine lives, but you only got one, and a dog's life ain't fun

All I want is the truth

Jump when your momma tell you anything

I know you understand the little child inside the man

quarta-feira, 29 de abril de 2020

A pandemia avança: "E daí?"

As notícias da semana são: o Brasil já tem mais mortos por covid-19 do que a China; o presidente diz "E daí?", e negocia cargos no governo com partidos fisiológicos, para barrar seu impeachment; nos EUA, a doença já matou mais americanos do que a Guerra do Vietnã.

Cargos que Bolsonaro negocia com centrão têm mais de R$ 10,6 bi 'livres' para investir em 2020
BBC News Brasil

Brasil ultrapassa a China e é o nono país com maior registro de mortes por coronavírus
País onde surgiu a pandemia teve oficialmente, até hoje, 4.643 óbitos pela covid-19; Brasil soma 5.017 mortes
O Tempo

'E daí? Lamento, quer que eu faça o quê?', diz Bolsonaro sobre recorde de mortos por coronavírus
Brasil registrou 474 novos óbitos nesta terça e ultrapassou a China no total de mortes por covid-19 
Folha de S. Paulo.

Coronavírus já matou mais americanos do que a Guerra do Vietnã
Colabora


terça-feira, 28 de abril de 2020

O Plano Real no final de 1994

Ciro Gomes três anos depois, apenas três anos depois, ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco, administrando o recém-implantado Plano Real, breve ápice da sua carreira, quero dizer, detendo poder. Como evoluiu intelectualmente em tão pouco tempo. E também ganhou arrogância, manifestada em respostas grossas a jornalistas imbecis, aqueles aos quais me referi na publicação anterior.
Se soubesse então quanto a arrogância e outros defeitos dos jornalistas estrelas e puxa-sacos de patrões, empresários e políticos lhe custariam, talvez moderasse suas palavras, em nenhum momento, porém, inadequadas. Compartilho sua impaciência com a estupidez.
Já então os jornalistas, ou estes jornalistas, se interessavam por picuinhas e não por questões importantes. Canalhas, palavra que provoca celeuma na entrevista, é um adjetivo que caracteriza muito bem as elites brasileiras, hoje como ontem.
O Brasil desperdiça talentos.  

Há muito tempo os atores são como são

Admirável entrevista do jovem Ciro Gomes (33 anos), em 1991, antes de assumir o governo do Ceará. Em 1989, perdemos a chance de ter Leonel Brizola na presidência e Ciro também já poderia ter sido presidente. Se a gente entendesse por que não tivemos nem Brizola nem Ciro, talvez entendêssemos melhor o Brasil e nossa vida fosse melhor. Como perdemos tempo.
Uma das coisas que mais me impressionam é a paciência dos políticos, a quem tanto criticamos, com as perguntas idiotas, arrogantes, mal informadas, tendenciosas e superficiais de jornalistas medíocres, que, 26 anos depois, já rasgaram a fantasia e se mostraram reacionários e comprometidos com o golpe, afora os representantes descarados do capital financeiro. Há exceções, é claro.  

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Pérola das pérolas

Raridade das raridades. George Harrison e Paul Simon juntos, cantando em dueto duas obras-primas, Here comes the sun e Homeward bound. Incríviel. 

Coronavírus já matou mais americanos do que a Guerra do Vietnã

Foto: Duas mulheres no Harlem, em Nova York, observam o mural do artista @Dister, retratando socorristas com máscaras e uma mensagem de agradecimento. Foto Johannes Eisele/AFP.


Por José Eustáquio Diniz Alves, Colabora, 27/4/20.

Os Estados Unidos vão bater um triste recorde nesta segunda-feira, 27 de abril: mais de um milhão de pessoas infectadas e cerca de 58 mil mortes provocadas pelo coronavírus. Em dois meses, os EUA tiveram mais mortes pela covid-19 do que o número de americanos mortos durante a Guerra do Vietnã, que durou 20 anos (1/11/1955 – 30/4/1975). O mundo atingiu 3 milhões de casos, com um terço deles nos EUA. O número de mortes globais está em 207 mil, sendo um pouco mais de um quarto nos EUA. O Brasil está bem atrás do maior país das Américas, mas está se aproximando dele, na medida em que os números brasileiros crescem mais rápido do que a média americana e mais do que a média mundial.

Clique aqui para ler a íntegra do artigo no Colabora.


Governo de dois pesos e duas medidas

A ajuda aos informais é só durante três meses e não chegou para grande parte (maioria?), mas o sacrifício o presidente pede que seja por um ano e meio. Não para todos, é claro: duvido que militares fiquem um ano e meio sem reajuste; com certeza o capitão arranjará alguma justificativa para privilegiar a casta castrense, que teve aumento na reforma da previdência, e que faz parte dos grupos com os quais e para as quais ele governa.

Do O Globo:

'O homem que decide a economia no Brasil é um só: chama-se Paulo Guedes'
Em entrevista, ministro manda recado a servidores: 'Não peçam aumento por um ano e meio, contribuam com o Brasil'

Vices... presidentes


Presidente é investigado por facilitar acesso do crime organizado a armas e munições do Exército

Enquanto isso, no Brasil particular da família que governa...

"Após ser acusado de interferir na Polícia Federal, o presidente Jair Bolsonaro agora está sendo investigado pelo Ministério Público Federal por indícios de violar a Constituição ao determinar atos de exclusividade do Exército.
O documento, divulgado nesta segunda-feira 27/4 pelo Estadão, mostra que procuradores abriram dois procedimentos de investigação para apurar uma ordem dada por Bolsonaro ao Comando Logístico do Exército, no último dia 17, que revoga três portarias publicadas entre março e abril sobre monitoramento de armas e munições."

Clique aqui para ler a íntegra na Carta Capital.

E aqui para ler no Estadão (para assinantes).


São Gabriel da Cachoeira confirma dois casos de covid-19

São Gabriel da Cachoeira está no extremo norte do Brasil, no meio da Floresta Amazônica, onde só se chega da barco, depois de horas e horas de viagem, ou de avião. Está à beira do Rio Negro, se não me engano, antes que ele se torne o Amazonas, e sua população é quase toda de indígenas, tanto que tem quatro línguas oficiais. A pandemia chegou lá. Como?
A reportagem é de Kátia Brasil e Elaíze Farias, do Amazônia Real: https://amazoniareal.com.br/com-apenas-7-respiradores-sao-gabriel-da-cachoeira-confirma-dois-casos-de-covid-19/.

"Um dos pacientes é indígena baniwa e seu estado de saúde é grave, segundo o Ministério da Defesa. O único hospital do município é militar e não tem UTI, só tem sete respiradores. O prefeito (do PT) baixou decreto de toque de recolher e o isolamento social. (Foto: João Cláudio Moreira / Amazônia Real.)"


domingo, 26 de abril de 2020

Tirar o presidente urgente para salvar as vidas dos brasileiros

"Coronavírus nos fará pagar a conta da desigualdade social do Brasil", artigo do Dráuzio Varela na Folha de hoje pode ser lido neste link: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella/2020/04/coronavirus-nos-fara-pagar-a-conta-da-desigualdade-social-do-brasil.shtml.
Seremos salvos por um milagre? Somos avestruzes que não querem ver a realidade?

Vergonha de ser de esquerda?

Jovens velhos. Xingar não é preconceito. 

Como ser crítico da esquerda sem ser direitista

Nassif x Giraldeli

O filósofo Paulo Giraldeli (é ele mesmo que diz que a grafia do seu sobrenome varia, sem que seja erro, então escolho escrever sem h e sem l dobrado, essas frescuras de quem acha que assim tem uma linhagem nobre) e o jornalista Luís Nassif não se bicam.
É impressionante como ambos se desqualificam.
Giraldeli diz que Nassif é pau mandado do PT (quando na verdade ele é bastante crítico), que não é jornalista, mas achacador (quando na verdade tem uma carreira admirável).
Nassif diz que Giraldeli se autodenomina filósofo (quando na verdade o é, com também sólida carreira acadêmica), um picareta que publica fotos da sua namorada nua (basta ouvir alguns vídeos dele para ver que tem conhecimento e pensamento ricos).
É uma guerra de egos. Ambos são de esquerda, mas ambos dizem que o outro não é.
Eu, que sou jornalista, mas deveria ter sido filósofo, ouço e admiro os dois, mas não concordo com nenhum.
A seguir, alguns links que mostram os conflitos entre eles e suas contradições na desqualificação mútua.

https://jornalggn.com.br/noticia/o-caso-do-filosofo-ghiraldelli/
http://textosquecurto.blogspot.com/2010/11/canal-de-videos-no-youtube-do-filosofo.html
https://sites.google.com/site/luisnassif02/
https://ghiraldelli.pro.br/2019/04/22/cameron-makes-a-perfect-diving-catch/

sábado, 25 de abril de 2020

Novo diretor da PF é o protetor da família do presidente

Não é o comandante da PF, é o chefe da guarda pessoal do presidente, e vai colocar toda a corporação a serviço das milícias, segundo o filósofo Paulo Giraldeli.

O presidente pôs uma raposa para vigiar seu galinheiro?

O capitão faz um governo original porque não quer governar a nação, que destruir o Estado e tomar o Brasil com aqueles para quem governa, que são as milícias, os neopentecostais, as castas militares, os armamentistas, os machistas, os racistas, os destamatadores, os poluidores, os agrotoxicultores e todo os tipos de criminosos que não aceitam o Estado e afirmam a liberdade individual, que só o capitalismo pode dar. Por isso o filósofo Paulo Giraldeli o chama de anarcocapitalista.
O fato é que o presidente entregou todas as áreas de governo para os inimigos delas, ou seja, pôs raposas para vigiar o galinheiro -- exceto o Ministério da Economia, que entregou a um representante dos banqueiros (mas a lógica é a mesma: banqueiros são as raposas que vigiam a riqueza que a sociedade produz -- e se apropriam dela).
Também no Ministério da Justiça o presidente pôs uma raposa, só que dessa vez a raposa vigiou também o galinheiro do chefe. Ou seja, durante um ano e quatro meses o ex-ministro colecionou provas contra o presidente cujo governo ontem ele abandonou. Ao sair atirando, e dizer as coisas impressionantes que disse à imprensa ontem, Moro deu um recado ao seu ex-chefe.
O que Moro fez ontem provavelmente nunca aconteceu antes, nem aqui nem em parte nenhuma. A imprensa não frisou isso. Vejamos:
1) Moro era ainda ministro quando deu a coletiva. A imprensa inteira o chamou de ex-ministro, mas quando denunciou seu chefe, ele ainda era ministro; só depois foi providenciar sua carta de demissão, como disse no pronunciamento à imprensa.
2) Moro anunciou sua demissão primeiro à imprensa, o presidente ficou sabendo juntamente com toda a população que ele estava saindo. Muitos subordinados já tomaram conhecimento de sua demissão pela imprensa, mas é a primeira vez, que eu saiba, que um chefe fica sabendo da demissão de um subordinado assim.
3) Mais tarde, o Jornal Nacional, com exclusividade, mostrou que o ex-ministro guardou provas dos crimes do presidente. Que mais ele terá? O presidente vai pagar pra ver? Duvido. Mas também duvido que a vida de Moro seja longa, ou pelo menos que possa ser uma vida normal, como ele sugeriu que seria, ao dizer que vai procurar emprego. O juiz que prendeu um presidente, muitos políticos e empresários agora mexeu com o crime organizado violento, para quem nenhuma vida vale nada, como mostra o assassinato da Mariele.

Em print, Moro mostra que Bolsonaro quis demitir Valeixo por investigar aliados

Carta Capital

Presidente enviou ao então ministro uma reportagem sobre investigação da PF contra bolsonaristas: ‘Mais um motivo para a troca’.

O ex-ministro da Justiça Sérgio Moro apresentou imagens que mostram que o presidente Jair Bolsonaro se incomodou com investigações da Polícia Federal sobre deputados da base aliada do governo federal.

Em diálogo por um aplicativo de mensagens, revelado pela emissora Globo, Bolsonaro enviou a Moro um link de uma matéria do saite O Antagonista, que diz: “PF na cola de 10 a 12 deputados bolsonaristas”. A conversa teria ocorrido na quarta-feira 22/4.

Embaixo, o presidente da República afirmou: “Mais um motivo para a troca”, referindo-se ao diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo.

Em resposta, Moro afirmou que não era Valeixo quem conduzia as investigações em questão.

“Este inquérito é conduzido pelo ministro Alexandre [de Moraes] no STF, diligências por ele determinadas, quebras por ele determinadas, buscas por ele determinadas. Conversamos em seguida, às 9h”, disse o então ministro, mencionando o encontro que teriam na manhã da quinta-feira 23.
A TV Globo também revelou um diálogo que Moro apresentou para comprovar que não partiu dele o pedido de que ele ganhe um cargo no Supremo Tribunal Federal (STF). Em pronunciamento oficial, Bolsonaro acusou Moro de ter pedido indicação à Corte, em troca da demissão de Valeixo.

Em uma conversa com a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), a parlamentar pede para que ele aceite a substituição de Valeixo por Alexandre Ramagem, diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Segundo a emissora, parte da deputada a oferta do cargo no STF.

“Por favor, ministro, aceite o Ramagem. E vá em setembro ao STF”, escreveu a deputada. “Eu me comprometo a ajudar. A fazer o Jair Bolsonaro prometer.”

Moro, então, rechaçou a proposta, afirmando: “Prezada, não estou à venda”.

Carla prossegue: “Ministro, por favor, milhões vão se desfazer…” disse. “Eu sei. Por Deus, eu sei. Se existe alguém no Brasil que não está à venda é o senhor.”

O então ministro respondeu: “Vamos aguardar. Já há pessoas conversando lá”.

Rachadinha de Flávio Bolsonaro financiou prédios ilegais da milícia no Rio

O filósofo Paulo Giraldeli diz que o calcanhar de Aquiles do presidente é o outro lado do que é sua força: seus filhos, a comunhão indestrutível que existe entre eles, a equipe invencível que eles sempre formaram. Por isso ele reagiu violentamente contra Moro, isto é, exigindo a mudança na PF e demitindo um ministro que lhe dava enorme cacife. A reportagem abaixo mostra um dos ataques ao calcanhar de Aquiles do presidente.


'Pica do tamanho de um cometa' 

Sérgio Ramalho, The Intercept Brasil, 25/4/20, 7h30

Flávio Bolsonaro financiou e lucrou com a construção ilegal de prédios erguidos pela milícia usando dinheiro público. É o que mostram documentos sigilosos e dados levantados pelo Ministério Público do Rio de Janeiro aos quais o Intercept teve acesso. A investigação preocupa a família Bolsonaro – os advogados do senador já pediram por nove vezes que o procedimento seja suspenso.

O investimento para as edificações levantadas por três construtoras foi feito com dinheiro de “rachadinha”, coletado no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, como afirmam promotores e investigadores sob a condição de anonimato. O andamento das investigações que fecham o cerco contra o filho de Jair Bolsonaro é um dos motivos para que o presidente tenha pressionado o ex-ministro Sergio Moro pela troca do comando da Polícia Federal no Rio, que também investiga o caso, e em Brasília.

Clique aqui para ler a íntegra no The Intercept Brasil.

O presidente, via Record Iurd, frita seu Posto Ipiranga?

Interessante matéria sobre o ministro da Economia no Jornal da Record. Seria o presidente fritando seu Posto Ipiranga, depois de afastar os ministros da Saúde e da Justiça?
Como se sabe, a Rede Record, do neopentecostal Edir Macedo Igreja Universal do Reino de Deus, apoia o presidente -- só não apoia mais que o SBT, porque SS é um puxa-saco sem igual. O telejornal da Record faria uma matéria para desagradar Macedo? Macedo permitiria que seu presidente fosse incomodado? Pode ser que sim, pode ser que não. Empresas jornalísticas têm interesses e funcionamentos complexos, ao contrário do que pensam esquerdistas e direitistas maniqueístas. Mas pode também ser um recado para Guedes, que perdeu importância com a pandemia (o filósofo Giraldeli acredita que Guedes vai com o presidente até o fim, porque o sistema financeira o quer lá; eu penso que mesmo assim ele pode cair), talvez o capitão queira tirá-lo, por algum motivo que desconhecemos (talvez ele seja um empecilho para o "PAC" do Braga Neto).
A reportagem, que é o mais explícito ataque ao Posto Ipiranga que eu vi até agora, também pode ter outras motivações, outros interesses do Macedo -- talvez seja porta-voz dos interesses das empresas aéreas, citadas na matéria, talvez a alta do dólar tenha prejudicado os negócios do bispo e da Iurd, talvez estes tenham alguma demanda específica do governo na pandemia, que Guedes está bloqueando. Pode ser até a reportagem óbvia, que os jornalistas conseguiram fazer, sem censura. 
    

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Três milhões de índios

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos surpreenderá a todos não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio.

We are the world, they were

Ainda é de arrepiar.
Pode parecer brincadeira ou exagero, mas este é o hino do fim do Estado de Bem-Estar Social. Canta um mundo que estava no fim, um mundo que começou no fim da Segunda Grande Guerra, rompeu nos anos 1950, desabrochou nos anos 1960, esperneou nos anos 1970, murchou nos anos 1980 e  desapareceu em seguida, com o neoliberalismo. Tem por isso ar da época em que brilharam todos esses diamantes que se juntam aqui, de Bob Dylan a Michael Jackson, de Paul Simon a Dionne Warwick, de Ray Charles a Willie Nelson, de Quincy Jones a Al Jarreau, de Stevie Wonder a Bruce Springsteen, de Diana Ross a Cyndi Lauper, de Tina Turner a Lionel Richie. Etc.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Ilha da Fantasia, 60

Já que estou no Poder360, vamos a essa outra pérola da imbecilidade jornalística. Grande parte do jornalismo é assim, e continua a sê-lo na internet: superficial e expressão de interesses das elites. Incapaz de ir às causas e aos interesses populares, gerais, de longo prazo. As informações são relevantes, mas o tratamento é o de sempre: escandaloso, sensacionalista, manipulador. E o motivo da matéria não é a importância do assunto, é só porque hoje Brasília completa 60 anos. De qualquer forma, é interessante, para quem for crítico. Conhecer esse FCDF é fundamental, mas entender o sistema de castas do DF é o principal. O problema não é Brasília, o problema é que o Brasil inteiro devia ser rico como BSB.


Brasileiros dão R$ 15 bilhões por ano para sustentar serviços de Brasília

O Distrito Federal não destina recursos vultosos à Polícia Militar, mas possui viaturas Toyota Corolla (cujo preço unitário ultrapassa R$ 100 mil) e os policiais com o maior salário inicial do Brasil. Qual é a mágica? Uma parte significativa de tudo isso é pago não com recursos distritais, mas com dinheiro da União.
Soma-se ao gasto arcado por Brasília parte do bilionário FCDF (Fundo Constitucional do Distrito Federal). A verba é em favor do poder público local, mas conta como despesa do governo federal. Por isso há dinheiro para os Corollas.
O FCDF está no texto constitucional – a lei que o regulamenta é de 2002.

[OBS: Por que a matéria não aproveita para discutir isso? O que a Constituição de 88 pretendeu fazer? Por que foi criado o FCDF? E por que ele foi regulamentado em 2002, tanto tempo depois? Que interesses prevaleceram? Os mesmos dos constituintes? Por que inúmeras outras matérias -- com a democratização da comunicação, por exemplo -- também previstas na Constituição nunca foram regulamentadas e essa foi? É isso que interessa. E mais: Brasília é um estado ou é o "distrito federal"? O que significa o Distrito Federal? Como é em outros países? Vamos comparar e sair da velha ladainha de condenar Brasília como a "ilha da fantasia", que de fato é, mas por outros motivos, mesmo porque a imprensa é uma das peças mais destacadas dessa fantasia, e os jornalistas estão entre os mais deslumbrados por ela, que mais contribuem para que ela exista e seu poder de castas se reproduza e aumente sem parar. O mais interessante é conhecer os salários iniciais na PM em todos os estados, que são absurdamente altos, mesmo nos estados que pagam pior (MG está no meio do caminho e o DF está no topo, porque a União banca). Os salários não são altos porque os soldados ganham muito (ao contrário, todos os soldados deveriam ganhar como os de Brasília; essa é a questão brasileira: todos deveríamos ganhar e viver como as casta de Brasília), mas porque os oficiais ganham muito, como todas as castas de elites dos serviços públicos brasileiros.]

O governo dos piores

O atual presidente brasileiro inventou uma nova modalidade de governo: o governo dos piores. O termo terá de ser criado também, porque ainda não existe, nenhum teórico tinha pensado nisso.
Até o ano passado havia outras formas de governo, que o Brasil já experimentou: monarquia, governo de um só, com Pedro I e Pedro II; oligarquia, governo de poucos, durante a Velha República; tirania, governo ilegítimo, durante a ditadura militar e mais recentemente com o vampiro Temer; democracia, governo do povo, entre 1945 e 1964 e entre 1985 e 2016. Aristocracia, que é o governo dos melhores, nunca teve, porque é um ideal, que os governos em geral perseguem, ao colocar no comando das ações públicas indivíduos competentes. O oposto da aristocracia, o governo dos piores, é uma novidade. Não conheço grego, não sei cunhar o novo termo.
O presidente colocou em cada pasta um inimigo dela, colocou raposas para tomar conta dos galinheiros. Não fez isso por acaso. Na Educação, pôs um sujeito que não gosta de educação, cuja missão é destruir a educação pública; nas Relações Exteriores, um sujeito cuja missão é destruir as relações do Brasil com as outras nações (exceto os EUA, dos quais devemos ser vassalos); no ministério da Economia, um sujeito com a missão de destruir o Estado, para que o capital faça o que quiser. O ministro do Meio Ambiente deve destruir qualquer forma de proteção ao ambiente. Na Funai, o sujeito deve ser inimigo dos indígenas. Na Justiça, um super-herói. E por aí vai.
A pandemia exigiu que o ministro da Saúde protegesse a saúde pública; ele agiu assim, contrariou o presidente e foi demitido. A ordem é deixar o vírus e os brasileiros livres -- o presidente valoriza muito a liberdade, diz que vão morrer só "velhinhos doentes" e que os fortes, como ele, serão imunizados.
Agora vejamos o que faz o novo ministro da Saúde: ele age como se fosse o ministro da Economia, sua preocupação não é com a saúde, não é com o combate à pandemia, é com a saída do isolamento social, pelas consequências econômicas que tem. Ele foi posto lá para interromper o combate à pandemia, para preparar a retomada da economia. Isso não é função dele, é do ministro da Economia, mas é o que ele anuncia.
Já o ministro de Economia devia fazer o que não está fazendo: garantir a sobrevivência dos brasileiros -- trabalhadores e empresas -- durante a pandemia e o isolamento social, e planejar a retomada das atividades depois que a pandemia passar. Além de garantir que o ministério da Saúde possa agir com eficiência para combater a pandemia.
Qualquer pessoa razoável entende isso, mas não é isso que o governo faz, não é isso que está acontecendo. Por quê? Porque essa é a natureza desse governo inovador, o governo dos piores.
Se a gente não entende isso, não entende o que está acontecendo.


Teich diz que planeja saída “progressiva e planejada” do isolamento 
Vídeo foi divulgado pelo Ministério
Poder360, 21/4/20

O ministro Nelson Teich (Saúde) disse nessa 2ª feira (20.abr.2020) que a pasta vai elaborar 1 programa de saída “progressiva, estruturada e planejada” do isolamento social –medida usada para frear as contaminações de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Brasilia, numa reportagem visual

Você conhece Brasília? A BBC Brasil mostra numa "reportagem visual" fantástica como a capital do Brasil foi construída. Só faltou mostrar a distância entre o Distrito Federal e Belo Horizonte: 700 quilômetros.
Brasília 60 anos: como a realidade transformou a cidade idealizada por Lúcio Costa e Niemeyer

A filosofia explica Bolsonaro

Palestra lúcida e bem-humorada de Paulo Giraldeli. "Com clareza, humor, coragem e um olhar sempre crítico", o filósofo explica que Bolsonaro não é inimigo da democracia, é inimigo da república.

O anarcocapitalismo do capitão e suas milícias

O interessante pensamento "novo" do filósofo Paulo Giraldeli. Vale a pena ouvir.

A concentração de renda vai aumentar

"Macroeconomia na crise: dívida pública, política monetária e bancos privados", artigo de Paulo Nogueira Batista Jr. na Carta Capital. A ótima foto está sem crédito.


sábado, 18 de abril de 2020

Empresas de entrega também lucram e exploram mais com a pandemia

Não são só os bancos que lucram com a pandemia, também as empresas brasileiras com nome em inglês de entrega em domicílio, que exploram milhões de entregadores sem pagar qualquer direito trabalhista, estão ganhando mais e pagando cada vez menos por entrega, pelas quais os entregadores são os únicos responsáveis. Chamam a essa nova escravidão de "empresas de tecnologia". Continuamos aprendendo mais sobre o mundo à nossa volta durante o isolamento social.

Enquanto tirava da aposentadoria dos pobres, governo deu aumento para as castas privilegiadas

Presidente tem duas aposentadorias. Vamos continuar aproveitando a quarentena para tomar consciência do que está acontecendo.

Governo dá R$ 1,2 trilhão para bancos e mesmo assim eles aumentam os juros

Quando a gente vê os bancos "ajudando" o combate ao coronavírus, deve desconfiar. Os bancos sempre ganham, no crescimento e na recessão. Ganhavam astronomicamente antes da pandemia e estão ganhando ainda mais com ela. O governo liberou R$ 1,2 trilhão para eles, mas mesmo assim eles aumentaram os juros para o consumidor. Para o dinheiro chegar aos bancos não teve a burocracia que tem para os R$ 600 chegarem aos pobres, é na hora, já chegou. A propaganda de um banco afirma que depois da pandemia "tudo vai voltar ao normal". Quando vi a propaganda pensei que queria dizer que os bancos iam voltar a ganhar rios de dinheiro. Santa ingenuidade: eles já estão ganhando, continuaram ganhando, ganharam mais. Ganham sempre.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Estamos nas mãos dessa gente

É esse tipo de gente que governa. Não estou falando do governo do capitão, estou falando dos economistas. A vida da gente, o governo do país, a sociedade, o presente e o futuro ficam nas mãos de sujeitos cuja capacidade é ler gráficos. É muito pouco. Governar é pensar em muito mais: no bem-estar coletivo, na felicidade, na igualdade, na liberdade, na fraternidade, na natureza, no futuro, no ar, na terra, nas águas, nas árvores, nos pássaros, nos peixes, nos insetos, nos répteis, nos macacos, e nos seres humanos, é claro. Mas esses caras, que mandam no mundo não é de hoje, só sabem "interpretar" números, ler gráficos, são uns seres humanos limitadíssimos, umas bestas quadradas. Se Marx, que foi Marx, falou besteira e mais besteira, e Keynes, que foi Keynes, também era bem limitado, que dizer desses economistas que seguem cartilha? Inventam cada barbaridade, cometem cada erro grosseiro, nos seus planos mirabolantes! E depois saem do governo, deixam a terra arrasada, e vão ganhar rios de dinheiro em consultorias e bancos. Todos ricos, milionários. 

Presidente do BC diz a investidores que reduzir mortes por coronavírus é pior para a economia

Amanda Audi, The Intercept Brasil

16 de Abril de 2020, 1h01

Em fala a investidores do mercado financeiro, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tirou de contexto dados de um gráfico elaborado por economistas do Centro de Pesquisas de Política Econômica para defender a tese de que o isolamento social irá aprofundar a recessão.

“Esse é um gráfico que muita gente tem comunicado em palavras, que é a troca entre o tamanho da recessão e o achatamento da curva [de contaminação] que você quer atingir. Mostra que, quando você tem um achatamento maior, você tem uma recessão maior e vice-versa”, teorizou Campos Neto em uma live organizada pela XP Investimentos, uma das maiores corretoras de valores do Brasil. A fala foi acompanhada ao vivo por mais de 6 mil pessoas no último dia 4, um sábado à noite.

Na ótica do neto de Roberto Campos – ministro do Planejamento da ditadura militar e um dos maiores expoentes do liberalismo econômico no Brasil –, o gráfico serve “para ilustrar que existe essa troca [entre salvar vidas ou combater a recessão] e é uma troca que está sendo considerada”.

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O SUS sucateado e a pandemia

Matéria da DW Brasil trata do assunto que a imprensa brasileira não trata, a questão que está por trás da pandemia. Nisso, capitão e Globo são aliados, ambos querem destruir o SUS, querem que a saúde seja privada, apoiaram o congelamento de gastos com saúde por 20 anos, feito pelo governo Temer. A Globo elegeu o ministro da saúde como herói, para combater o capitão, e fica por isso. A imprensa, como sempre fica na superfície dos problemas, porque se aprofundar vai chegar ao conflito dos interesses públicos, coletivos, com os interesses do capital, os dos irmãos Marinhos inclusive, que ela defende. Simples assim. É preciso que uma agência de notícias estrangeira faça a matéria que Globo, Folha, Estadão, Band etc. não fazem. Aliás, apesar das dificuldades de trabalho para os jornalistas, a cobertura da pandemia é bem chinfrim, quer dizer, é o xou de sempre, na superfície dos assuntos. O leitor que quiser saber mais tem que pesquisar por conta própria. É um tal de repetir números e informações governamentais que dá dó. Por exemplo: o dinheiro que o governo diz que está distribuindo. É isso, o governo diz que está distribuindo, e a imprensa repete. Ninguém vai conferir, ninguém vai aos beneficiários, ninguém checa, aceita o discurso das autoridades, como sempre. Quando a revolta e os saques explodirem, a imprensa vai lá mostrar, mas foi incapaz de prever, de mostrar antes que a revolta vai acontecer. É que o governo diz que está distribuindo dinheiro, mas entre o dizer e o dinheiro chegar às pessoas vai uma distância imensa, a distância da necessidade, da fome, da revolta. Esse governo incompetente e que é contra dar dinheiro a pobres, que é contra serviços públicos, que é contra programas sociais, vai fazer o dinheiro chegar a quem precisa? Eu acho que não, que é só conversa fiada. As filas na porta da Caixa mostram isso, o dinheiro não está chegando, as pessoas sequer têm internet, sequer sabem acessar o aplicativo e não têm nem CPF. E os "pequenos empresários"? Para receberem o dinheiro, tem uma burocracia infinita. A mesma coisa com o SUS; o governo faz hospital de campanha, importa isso e aquilo, mas e o corte de verbas que sucateou o SUS? Ninguém fala. E a desindustrialização que obriga o Brasil a importar milhões de simples máscaras sanitárias? Também é assunto ignorado. Por que o Brasil não produz respiradores? O governo ideológico neoliberal dificulta tudo, porque não quer facilitar, porque não quer gastar. Ele diz que está distribuindo dinheiro, e dizer é só isso que lhe interessa, fazer propaganda, e a imprensa repete, como sempre fez, como imprensa oficial até mesmo do governo que ela supostamente critica.

Sucateado, SUS vive "caos" em meio à pandemia

Única opção para milhares de brasileiros, Sistema Público de Saúde vive disparo em atendimentos em hospitais que sofrem até com falta de sabão. Queda de investimento e aumento da demanda provocam "situação de guerra".

Em diversos hospitais públicos do país, a situação beira o caos. O aumento da procura pelos serviços provocado pela pandemia do novo coronavírus testa a já fragilizada capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS), relatam servidores da área das cinco regiões do Brasil.

"A situação é de guerra", afirma Cleonice Ribeiro, diretora do Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde no Estado de São Paulo (SindSaúdeSP), em entrevista à DW Brasil.

"Tem hospital que não tem sabão para lavar as mãos ou papel toalha para enxugar. Trabalhadores que atendem os pacientes não têm álcool em gel, óculos de proteção ou máscara", exemplifica.

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Para milhões de brasileiros, o SUS é a única alternativa para tratar a saúde. "Existem 40 milhões de pessoas sem carteira assinada, na informalidade, sem emprego. São pessoas totalmente desamparadas, vulneráveis que, se adoecerem, irão buscar o SUS", conclui Moacir Lopes, diretor da Federação Nacional de Sindicatos de Trabalhadores em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social (Fenasps), e servidor do INSS.

"A situação atual é traumática. É o caos total", resume a situação de hospitais públicos frente à pandemia. "Isso porque o SUS já vem sendo sucateado há algum tempo, agora isso fica bem visível", justifica.

Falta de dinheiro e combate na saúde básica

Em todo o país, 42 mil postos de saúde atendem gratuitamente a população. Segundo cálculos do Ministério da Saúde, essas unidades têm capacidade de atender 90% dos casos de coronavírus – se os sintomas apresentados pelos doentes forem os mais leves.

"Existem os postos, mas eles não estão estruturados nem pra atender questões corriqueiras da população em geral, imagina uma situação dessa", pondera Cleuza Faustino, auxiliar de enfermagem servidora do Ministério da Saúde e diretora do Fenasps.

Seis hospitais, todos no Rio de Janeiro, são federais. Há ainda mais de 40 hospitais universitários federais. Os demais da rede pública são geridos por governos estaduais e municipais. Segundo o ministério, 55.101 leitos de terapia intensiva são oferecidos no país, 27.445 são do SUS.

A preocupação é que, se muitas pessoas adoecem de uma vez, o sistema não tenha capacidade de tratar todos os pacientes simultaneamente. Especialistas alertam que os problemas respiratórios provocados pelo novo coronavírus exigem mais dias de tratamento com auxílio de aparelhos, como respiradores, do que outras doenças similares. Portanto, o período de ocupação dos leitos é maior.

Limitações do orçamento

Diante da disseminação da doença, o governo federal prometeu liberar 432 milhões de reais para reforçar o combate nos estados. A tentativa de melhorar as condições de atendimento, porém, esbarra na subida dos preços.

"O governo está tentando comprar, mas o aumento da demanda deixou tudo mais caro e há dificuldades de pagar", afirma a Ribeiro sobre iniciativas em discussão com o governo de São Paulo.

Entre os trabalhadores do SUS, o clima é de inquietação. No estado de São Paulo, que tem 47 mil servidores distribuídos por 45 hospitais, a maioria tem entre 50 e 60 anos.

"Ao longo dos anos, o governo deixou sucatear tanto os serviços e não contratou novos trabalhadores", pontua Ribeiro, do SindSaúdeSP. "Há praticamente 20 anos não há concurso público", complementa.

Um levantamento feito por pesquisadores da Fiocruz, intitulado "Monitoramento da assistência hospitalar no Brasil (2009-2017)", concluiu que o número de leitos no SUS está em queda.

"Houve um desinvestimento crônico no SUS, que comprometeu sua capacidade, com fechamento de leitos", resume Josué Laguardia, médico e pesquisador da Fiocruz.

Uma das conclusões da pesquisa é que a rede hospitalar disponível para o SUS reduziu 5,5% no período pesquisado. Em 2009, eram 4.783 hospitais entre públicos e privados, em 2017 foram 4.521 hospitais.

Para o Fenasps, a Emenda à Constituição (PEC) 55, que fixou um teto aos gastos públicos até 2036, votada no governo de Michel Temer, limita a resposta do SUS. "A rede pública, na situação que está, com corte de verbas, com a medida que congelou verbas por 20 anos, está mais debilitada que nunca", avalia Faustino.

No ano passado, o orçamento destinado à saúde foi de 147 bilhões. Em 2020, esse valor caiu para 136 bilhões, segundo os dados da Controladoria Geral da União. A estimativa da Fenasps é que o preparo adequado do SUS para responder à pandemia exige um investimento extra de 20 a 30 bilhões de reais.

domingo, 12 de abril de 2020

Por que os militares apóiam o presidente

A matéria abaixo é antiga, mas toca num assunto fundamental. Não informa o que eu queria saber: ao passar para a reserva, em 1988, o atual presidente continuou recebendo salário dos cofres públicos, pago por nós, contribuintes, sem no entanto trabalhar, e ainda acumulado com outro salário, também custeado pelos cofres públicos, isto é por nós, o de de deputado federal? Se continuou, isso é corrupção, embora uma corrupção legal. 

Corrupção legalizada chama-se privilégio, e o Brasil é uma nação de castas privilegiadas. Privilégio e corrupção estão entranhadas na sociedade brasileira. Por controlar o Estado e influenciar governos, as castas privilegiadas estabelecem legalmente benefícios que os comuns do povo não têm. Tudo bancado pelo dinheiro público. 

Há ainda o "jeitinho", outro tipo de corrupção, benefício que também é dado a quem tem amigos influentes, parentes influentes, enfim, quem é da turma, da casta. Eu e você, seguindo o caminho normal, não conseguimos, mas aqueles que conhecem as pessoas certas conseguem. 

Aquela corrupção que a larva jato dizia combater é só a ponta do aicebergue. A corrupção institucionalizada e legalizada, que beneficia as castas, é muito maior, é a que realmente importa, mesmo porque a corrupção descarada -- benefícios em troca de propina -- só é investigada e punida quando interessa às castas. A larva jato não existiu para combater a corrupção, como disse, mas para tirar o PT do poder, um poder que já ia para o quarto mandato consecutivo, sujeito a mais dois, com a volta e reeleição do Lula, o que desesperou a oposição derrotada, incomodou os interesses dos americanos (leia-se pré-sal e Brics) e atiçou o ódio da direita. A larva jato cumpriu seu papel político e a corrupção continua a pleno vapor, como se vê em notícias esparsas. Levou ao poder outros corruptos e liberou a corrupção dos privilégios, das castas.

A corrupção descarada sempre foi tolerada no Brasil e a corrupção institucionalizada é considerada normal pela ideologia dominante. O juiz da larva jato, por exemplo, tentou continuar professor da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, trabalhando como assistente de uma ministra do STF, em Brasília. Dois empregos públicos, duas elevadas remunerações pagas com o dinheiro público, nosso, da imensa maioria, dos que não recebem quase nada do Estado, só pagam impostos. 

Como é que um sujeito ia cumprir duas jornadas de trabalho em duas cidades diferentes? Isso não é possível para nenhum trabalhador comum, apenas para as castas privilegiadas, porque elas não trabalham de fato, não têm que produzir, não são remuneradas pelo seu trabalho, elas têm empregos públicos. Tem funcionário público que trabalha muito, tem funcionário público que trabalha mais do que trabalhador da iniciativa privada, mas uma coisa não depende da outra, mesmo porque funcionário público não pode ser demitido, outro privilégio.

A pretensão do juiz foi barrada pelo Conselho Universitário da UFPR e ele teve que optar, mas continuou recebendo dois salários, acumulando dois empregos, o de professor e o de juiz, o que também é absurdo: ele trabalha 16 horas por dia, 88 horas por semana, como qualquer trabalhador comum? Argumenta-se que fez concurso, que é mérito. Mas não existe essa meritocracia para trabalhador comum, não há trabalhador comum que, nem passando em concurso, possa ter dois empregos totalizando 88 horas semanais em duas empresas privadas. O que as castas privilegiadas chamam de meritocracia muitas vezes seria melhor definido como privilégio e corrupção.

Agora, ministro todo-poderoso, é bem provável que o juiz continue recebendo os dois salários, mesmo não dando aulas, e é bem provável que a lei lhe garanta esse privilégio; aliás, talvez acumule três salários, os dois que já recebia e mais o de ministro. 

De qualquer forma, sua situação é privilegiada, como a de qualquer integrante das castas. Qualquer sujeito simples, quando ingressa na política, fica deslumbrado com a quantidade de privilégios que passa a ter quando assume um mandato. Isso é corrupção, na essência; o sujeito ganha uma nova condição social e se afasta do que era, da sua classe social, das pessoas e interesses que o levaram ao mandato, que votaram nele, e se vê envolvido pelos interesses das elites que detêm o poder. O sujeito se corrompe. Por isso a sabedoria popular diz que político é tudo igual, porque percebe essa corrupção essencial dos privilégios de casta. 

Para que isso não aconteça, para que políticos e autoridades em geral não se corrompam, eles não podem ter privilégios. Assim, político com mandato popular deve manter o salário original da sua profissão, por exemplo, e cultivar hábitos simples, sem poder nomear um exército de auxiliares (parentes, amigos, cabos eleitorais), usar carro oficial, ter gastos de gabinete, verba para isso, verba para aquilo, diárias etc. 

Juízes, que devem dar exemplo de honestidade, devem ter o mesmo regime de trabalho, assistência social e aposentadoria que os demais trabalhadores, sem décimo quarto salário, férias-prêmio, quinquênio etc. Trabalhador comum, cujo salário é pago com o lucro do patrão, recebe quinquênio? Recebe férias-prêmio? Por que os funcionários pagos com o dinheiro público recebem? Patrão não divide lucro, mas nós contribuintes dividimos fartamente nosso dinheiro pagando impostos que mantêm os privilégios das castas. 

Por que é assim? Porque juiz brasileiro não é juiz para servir à justiça, é juiz para ter uma posição social de privilégios. E não é qualquer um do povo que se torna juiz, é uma posição reservada aos filhos das elites. Isso vale também para as demais castas. E as castas se perpetuam no controle do Estado e no usufruto dos privilégios que não aceitam perder. O brasileiro comum, diante dessa realidade irremovível, ou se conforma ou se esforça para fazer parte de alguma casta privilegiada; raríssimos conseguem, naturalmente.

Juízes brasileiros receberam no ano passado até R$ 1,5 milhão em salários "atrasados", férias "acumuladas" etc. Que trabalhador brasileiro comum pode em algum momento da sua vida ganhar isso? Os privilégios das castas não têm nada a ver com meritocracia ou outros argumentos que tentam justificá-los -- as justificativas vêm depois, os privilégios são obtidos pela influência no poder. Em algum momento importante da "nossa" história, um grupo social se afirmou e começou a construir seus privilégios. Foi o caso dos militares. 

Por que os militares brasileiros têm privilégios? Não é porque vivem em guerras, como os militares americanos. É difícil saber o que fazem os militares brasileiros, já quem não têm de defender o país em conflitos armados. Na verdade, durante três décadas, ficamos satisfeitos por não ter notícias deles; é como se os pagássemos para não fazer nada -- mas ficar bem longe da política.

Os militares brasileiros têm privilégios porque fizeram a República, a Revolução de 1930 e a ditadura de 1964-1985. Eles conquistaram privilégios conquistando o poder e se impondo à sociedade. Se o povo brasileiro quiser ter privilégios também, vai ter de conquistar o poder e se impor.

O Exército brasileiro ganhou importância na Guerra do Paraguai. O Exército brasileiro é um dos fenômenos da formação do povo brasileiro. Para enfrentar o pequeno Paraguai, o Império foi obrigado a formar um exército recrutado no povo. Fazendeiros mandaram homens do povo e escravos para lutar no seu lugar. Assim, o Exército foi a primeira instituição brasileira com participação popular. Vitorioso, o Exército voltou a guerra com status, reconhecimento, importância política, líderes. No seu seio desenvolveram-se ideias republicanas. 

Quando os fazendeiros decidiram se livrar da família real, uma extravagância brasileira nos trópicos, foram os militares que fizeram o serviço. O golpe de 1889, que implantou a República, gerou dois presidentes generais e teve um começo chamado de jacobino, com demandas populares, nacionalistas, progressistas. Não durou, logo os fazendeiros se livraram também dos militares e implantaram seu projeto nacional aristocrático, baseado na exportação de café, produzido em latifúndios. Foi a República Velha, que durou 41 anos (1889-1930). 

Os militares, também chamados de florianistas, por serem seguidores de Floriano Peixoto, o segundo general presidente, continuaram perturbando a República Velha com levantes e tentativas de golpes, até que em 1930, numa situação de desarranjo econômico provocado pela Grande Depressão, que enfraqueceu o poder dos latifundiários, tomaram o poder novamente e nele colocaram Getúlio Vargas. Seguiu-se uma ditadura de 15 anos, garantida pelo poder militar, com os ideários fascinazistas e stalinistas da época, e o projeto nacionalista industrialista. Nesse período os militares começaram a construir seus privilégios de casta -- tiveram tempo de sobra pra isso. O decreto-lei que cria a reserva remunerada e outros privilégios, por exemplo, é de 1938.

Foram os militares que derrubaram o ditador; o primeiro presidente pós-ditadura foi outro general e outros oficiais do mais alto posto disputaram a presidência em todas as eleições seguintes, perdendo sempre para os civis Getúlio, Juscelino e Jânio. Em 1964 deram o golpe e implantaram uma ditadura que durou 21 anos -- tiveram então muito mais tempo para construir privilégios corporativos, sem falar na repressão, na direção de estatais e serviços públicos, na influência, e ainda na anistia, pela qual entregaram o governo assegurando que não seriam punidos pelos crimes que cometeram. 

Agora, depois de 31anos de democracia, estão aí de novo, com um presidente e um vice, além de vários ministros. Outra notícia, de um saite especializado em concursos, que pode ser lida clicando aqui, informa que o salário dos militares (diz-se soldo) foi reajustado em até 48,9% depois do golpe de 2016 (que trabalhador brasileiro teve reajuste assim? Ao contrário, no mesmo período, os trabalhadores brasileiros perderam renda, e não foi pouca, além de terem perdido emprego e serem empurrados para a informalidade).

Para completar, o atual presidente voltou a reajustar os salários dos militares a partir de janeiro deste ano, ao sancionar a reforma da previdência dos militares -- isso mesmo, quando todos os trabalhadores perderam remuneração, ao se aposentar, e passaram a aposentar mais velhos, os militares ganharam. A matéria pode ser lida clicando aqui. A imprensa não fala no assunto e os próprios militares terão muitas justificativas para isso, talvez com razão -- mas todos os trabalhadores têm motivos para ganhar mais, a diferença é que não têm a influência sobre o Estado para conseguir isso.

O Tesouro Nacional gasta com cada militar inativo 17 vezes mais do que gasta com o trabalhador aposentado comum, diz a matéria do Nexo. Mais da metade dos militares se aposentam com menos de 50 anos. Militares aposentados continuam recebendo os mesmos salários dos militares da ativa, não tem isso de teto do INSS ou outro tipo de cálculo, como o da última reforma da previdência, que cortou um terço do valor da aposentadoria. 

De fato, e esta é a questão de fundo, metade da política brasileira é a disputa das castas e classes pelo dinheiro público, para manter ou ampliar privilégios, cada uma abocanhando o seu conforme sua força e sua influência. Os militares estão na carreira -- e na política -- por motivos bem prosaicos e primitivos: salário, benefícios, privilégios. A parte do ideal ou da ideologia fica por conta da ficção, da máquina de ideologia da mídia. E é por isso que os militares apoiam o atual presidente. 


Qual a diferença entre militares da ativa, da reserva e reformados

Confusão sobre situação de Bolsonaro e de Mourão foi comum na campanha eleitoral. Regime especial de militares inativos será desafio para novo governo. 

O verbete “Jair Bolsonaro” na Wikipedia, uma das maiores fontes de consulta na internet, identifica o presidente eleito como “militar da reserva”. O mesmo ocorreu em textos jornalísticos — incluindo muitos do Nexo — e em materiais impulsionados na própria campanha eleitoral de Bolsonaro, como no refrão do funk “O Proibidão do Bolsonaro”, do MC Reaça, que tem mais de 2 milhões de visualizações no YouTube, e foi tocado na festa da vitória do candidato do PSL na avenida Paulista, em São Paulo, no dia da eleição.

Bolsonaro, porém, não é mais “da reserva” das Forças Armadas. Isso desde o dia 21 de março de 2015, quando passou a ser “capitão reformado” do Exército. Mas qual a diferença entre essas duas expressões? 

A reserva e a reforma

A confusão no uso dos termos é comum porque o equivalente ao regime de aposentadoria dos militares é diferente dos civis.

A diferença entre um oficial “da reserva” e um “reformado” é principalmente sua disponibilidade para, em caso de necessidade, ser reincorporado ao serviço ativo das Forças Armadas em situações extremas como “estado de guerra, estado de sítio, estado de emergência ou em caso de mobilização”, nos termos da Lei 6.880, de 1980.

Nos empregos civis, isso não acontece. Um advogado, jornalista ou professor, por exemplo, não pode, uma vez aposentado, ser convocado de volta ao serviço.

Já o militar na reserva segue à disposição das Forças Armadas, enquanto o militar reformado está definitivamente afastado ou aposentado.

O Exército Brasileiro explicou ao Nexo que Bolsonaro foi para a reserva em 1989 e, em seguida, em 2015, tornou-se “capitão reformado”, “por haver atingido a idade limite de permanência na reserva remunerada do Exército”. Essa idade varia dependendo da patente do militar. No caso de Bolsonaro, capitão, a idade é de 60 anos.

O vice de Bolsonaro, general Antonio Hamilton Mourão, acabou de ir para a reserva, em 23 de fevereiro de 2018. O pedido foi feito por ele mesmo, após atingir 30 anos de serviço ativo, como previsto na lei. Mourão, diferentemente de Bolsonaro, ainda está “na reserva” e poderá ir para a inatividade, como “reformado”, em seguida.