segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

A extraordinária obra de Cármem Silva

Existe um mundo pós-capitalista sendo criado e que a mídia capitalista não mostra?
Ou as iniciativas são reações pré-capitalistas citadas por Marx há 160 anos, no Manifesto Comunista? Como são essas iniciativas? Elas persistem? Malogram? Renascem? Prosperam? Se impõem, como soluções melhores do que as soluções capitalistas? Podem se universalizar?
Na política é fácil ver que o projeto comunista foi pior do que o capitalista, por isso morreu, enquanto o capitalista sobrevive, embora reacionário, implantando a barbárie. E na economia? Que iniciativas econômicas são melhores do que as capitalitas? Na agricultura, por exemplo, está aí a Agenda Gotsch, sintrópica.
Na organização social, esse vídeo mostra uma iniciativa e uma personagem pelas quais Luís Nassif manifesta incontido entusiasmo. Pessoas agindo coletivamente, sem depender do Estado, para resolver problemas individuais que são coletivos, isto é, sociais, isto é, que atingem a muitos indivíduos, e portanto deveriam ser objeto de política pública, mas não são.
E também não dependem de um partido político do tipo comunista.
Na verdade, essa é a solução ideal para os problemas sociais: os indivíduos interessados se reúnem e fazem. O Estado deve colaborar como pode (no caso brasileiro, ele atrapalha e tenta impedir, como a justiça (com j minúsculo), que prendeu, processa e impõe restrições à lider Cármem Silva).
Essa é uma solução pós-capitalista, porque não é movida pelo lucro, que a todos e a tudo move no capitalismo, mas é uma solução, e uma solução melhor do que a capitalista.
Qual é a solução capitalista para a questão habitacional? O Minha Casa Minha Vida, por exemplo, para ficar num projeto pretensamente de esquerda, supostamente bem intencionado. Ele cria conjuntos habitacionais artificiais em locais distantes e sem infraestrutura, onde ninguém quer morar, mas o pobre que não tem nada deveria querer. Obviamente, não pode ser assim, isso não é solução, a não ser para o capital, que vai fabricar e ter lucro com as moradias, incluindo aí maior ou menor dose de corrupção. Sem falar na relação clientelista dos políticos e na relação paternalista deseducativa dos beneficiados com aqueles.
Por isso envolver os interessados e eles mesmos resolverem os problemas é uma solução melhor do que a capitalista, uma solução pós-capitalista.
E quando os próprios sem-casa escolhem sua moradia eles não vão para a periferia, vão para o centro. O centro abandonado e decadente tem a infraestrutura que todos querem -- os ricos querem e compram porque têm dinheiro, mas os pobres, que foram excluídos dos benefícios do capitalismo porque não têm dinheiro para comprar, também querem.
Ocupar o centro deve ser a primeira orientação de uma política habitacional racional, social, pós-capitalista, que atende não os interesses do capital que quer construir e lucrar, e sim os interesses daqueles que precisam morar.
Simples assim. 

sábado, 28 de dezembro de 2019

Os números mágicos da economia

Estatísticas, como as divulgadas pelo IBGE sobre emprego (matéria abaixo, do El País), existem para tentar precisar a realidade. Sem elas, ficaríamos discursando em torno de achismos, cada um com o seu.
O jornalismo brasileiro, porém, nunca teve capacidade de criticar estatísticas, sempre fez delas pretextos para manchetes, para o bem e para o mal. O jornalismo é assim, ao contrário do que diz Paulo Giraldeli sobre a Globo, no seu ótimo livro "A filosofia explica o bolsonarismo". Giraldeli (seu sobrenome tem mais alguma letra, mas estou sem paciência para o excesso de letras dobradas, agás, zês e falta de acentos que tomaram conta dos nomes brasileiros estrangeirizados, desmodernizados e afrescalhados) não conhece o jornalismo por dentro, ignora as minúcias pelas quais as informações são manipuladas -- sim, a Globo, como toda a imprensa, manipula informações.
O jornalismo sempre deixou a explicação das estatísticas para especialistas que poucos leem, separando as duas coisas. Explicar -- ou interpretar, no jargão jornalístico -- é uma coisa complicada, porque envolve opinião, ponto de vista, posicionamento político etc., então é melhor ficar nos fatos puros -- nos números puros, neste caso.
Mas o que é que os números dizem? Eles já vêm acompanhados das explicações dos especialistas que os divulgam, como os do IBGE. Mas os próprios números são sujeitos a críticas: por que esses e não outros? Como foram elaborados? Para quem? O que se pretende com essa metodologia? O que ela expressa? Há quanto tempo foi criada? Com que frequência é atualizada? Que parte da realidade ela mostra? Com que precisão?
Os repórteres, em geral jovens, mal compreendem o que recebem, estão preocupados em reproduzir fielmente as fontes e em encontrar as novidades, o que é notícia, em fazer seu trabalho, enfim, cumprir sua tarefa diária, com a qual garantem seu emprego. Pesar a novidade é um trabalho para veteranos, e veteranos críticos.
Para divulgar e dar destaque a números que terão tanta e tão duradoura repercussão é preciso confiar na sua lisura e na sua veracidade.
Essa é uma fraqueza que a formação acadêmica dos jornalistas brasileiros nunca conseguiu superar. E agora, que não é preciso mais ter formação acadêmica e nem mesmo registro profissional para exercer o jornalismo, o que esperar de quem reporta? As empresas definem o que querem, e em se tratando de empresa brasileira, em se tratando de empresa capitalista, definirão pelo custo: quem aceita ganhar salário mínimo para ser jornalista, trabalhar quantas horas for preciso, 24 horas com o celular nas mãos, qualquer dia da semana, para privar o ambiente glamuroso das notícias. Jovens, é claro, jovens tecnológicos, espertos, que não sabem escrever, têm conhecimento raso, mas ágeis e produtivos.
Tudo isso para dizer que a notícia abaixo diz muito pouco do que está acontecendo, mesmo produzida por uma repórter superexperiente. Peguei no fim da notícia esse trecho que reproduzo abaixo. Me parece o mais importante, mas mesmo assim diz muito pouco.
Notícias com estatísticas econômicas precisam servir para informar o leitor sobre o que está sendo feito pelo governo e pelas empresas, o que está acontecendo na economia, enfim, e essa faz muito pouco para isso, fica só no nível rasteiro de manchete, na notícia rasa que os repórteres buscam para cumprir a pauta e não perder seu dia de trabalho, para conquistar espaço no jornal e na primeira página, e na empresa e no meio. O que a gente precisa saber, e a notícia não diz, é o que o neoliberalismo está fazendo com o emprego, a renda, o trabalho, os direitos, a vida, enfim, dos brasileiros; o que a reforma trabalhista do governo golpista está fazendo, o que a nova reforma trabalhista da "carteira verde e amarelo" está fazendo. Como dizia a apresentação de uma revista criada durante a ditadura e que teve vida breve, "contra fato, há argumento".
O que eu quero dizer, enfim, é que, neste momento em que a internet destruiu os impérios jornalísticos, e com eles o jornalismo impresso; em que o jornalismo busca formas de sobreviver e está sendo reinventado; em que depende fundamentalmente dos jornalistas para existir, porque os empresários querem lucro e não vão investir numa atividade que dá prejuízo; neste momento de reinvenção, os veículos jornalísticos precisam ser empreendimentos com projetos bem detalhados de como vão produzir e divulgar informações, que informações, para quem, com quais objetivos. Não basta simplesmente cobrir o dia a dia, produzir notícias, reportar fatos, frequentar ambientes oficiais e comparecer a coletivas. O jornalismo agora, mais do que nunca e definitivamente, precisa ser feito a partir de ideias claras, a partir do conhecimento de quem o produz.
Quando a notícia era o produto vendido por jornais, responsável pelo lucro dos donos dos impérios jornalísticos, sua exploração sensacionalista fazia sentido. Agora que o jornalismo, isto é, a produção de notícias para venda, está deixando de ser um negócio lucrativo, o processo pode, deve e tem de merecer uma nova metodologia, uma metodologia comprometida com a importância social do que é divulgado.
Num ambiente em que acontece justamente o oposto, em que os cursos de jornalismo estão falindo e fechando, em que os jornalistas estão ficando sem emprego e ganhando salário mínimo, não é fácil fazer isso. E quem vai fazê-lo? Acho que precisa haver -- e haverá e já está havendo -- um movimento para que os próprios jornalistas assumam o jornalismo e sua formação, sua qualificação cada vez mais exigente, não só em tecnologias e línguas, mas principalmente em conhecimentos aprofundados e críticos dos assuntos.
O jornalismo é sempre uma forma de manipulação de informações, o que importa é como as informações são manipuladas, quão próximas da verdade e dos interesses da democracia elas se encontram.

Emprego tem leve melhora e mais vagas com carteira assinada, mas informais superam e desafiam recuperação
Carla Jiménez, El País, 27/12/19
(...)
O grande desafio é reduzir a informalidade do mercado de trabalho, que hoje está na faixa dos 41%. Dos 94,4 milhões de brasileiros consideradas ocupados, ou seja, que trabalharam ao menos uma hora em trabalho remunerado (com dinheiro, ou com benefícios como moradia e alimentação) no período da pesquisa, 33,4 milhões têm carteira assinada, ou 378.000 pessoas a mais no mercado formal em comparação com o trimestre anterior. A maioria das vagas veio do comércio, de olho nas vendas de final de ano, explica Adriana Beringuy.
Outros 24,6 milhões trabalham por conta própria, o que inclui tanto empregadores sem registro e sem funcionários, como atividades como faxina, motorista de aplicativo ou entregadores. Foram 303.000 pessoas a mais nesse status no período. O IBGE considera que 38,8 milhões de brasileiros estão dentro da categoria informal, incluindo os que trabalham por conta própria.
“O movimento da carteira (assinada) é positivo, mas não é suficiente para um mudança na estrutura do mercado de trabalho”, diz Beringuy. “A despeito dessa reação, durante o ano todo houve um crescimento nas categoria relacionadas à informalidade, que são conta própria e empregados sem carteira”, completa. A analista reconhece, contudo, que a criação das vagas informais pode ser um passo que anteceda uma reação. “Mas não dá para antecipar nada. É preciso esperar os primeiros meses de 2020 para ver como o mercado se comporta”, diz.
Já o rendimento médio real ficou em 2.332 reais, com pouca variação sobre o trimestre anterior ou ao ano passado. Mas a massa de rendimento teve uma leve melhora, chegando a 215 bilhões de reais, uma alta de 2,1% sobre o trimestre anterior, e 3% sobre o mesmo período de 2018. Essa expansão se explica pelo maior número de pessoas trabalhando: o total de 94,4 milhões representa um recorde na série histórica da PNAD Contínua.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Por que alguns anos não terminam

Uma interessante reflexão de fim de ano, por Antônio Brito, aquele, o do "lamento informar que o presidente Tancredo Neves faleceu..." 


Por que alguns anos não terminam

Antônio Brito 

20/12/19 (sexta-feira) - 5h50

Nós, os brasileiros, temos uma antiga, sólida e indestrutível aliança com o otimismo, ainda que os resultados dela sejam muito discutíveis. Faz parte da cultura nacional, desde sempre, desviar o olhar da realidade e apontá-lo para algum lugar supostamente mágico de onde virão soluções milagrosas que farão o centroavante desencantar, dinheiro aparecer no final do mês e a vida melhorar apenas porque assim queremos.

A forma como vivenciamos a chegada de um ano novo expressa esta cultura. A exemplo do mundo todo, injetamos alegria e esperança com a simples troca no calendário. Mas, diferente de outros países, nós parecemos realmente acreditar nisto.

Para 2020, porém, os fatos são claros demais para que esperemos por grandes transformações. A sensatez indica que o ano novo leva mais jeito de continuidade do que de mudança. Bolsonaro, o PT e o chamado centro são três boas explicações para que 2020 comece como ano gêmeo de 2019.

Clique aqui para ler a íntegra no Poder 360.

A retrospectiva 2019 da excelente agência Pública

Desmatamento e violações aos direitos humanos atingiram o recorde no governo Bolsonaro; a democracia, desprezada em discursos das autoridades, sofreu com o desmantelamento das instituições e a perseguição à imprensa.

O ano que pôs o jornalismo à prova

A violência de discurso contra mulheres, gays, indígenas, quilombolas, nordestinos – e contra a própria imprensa – fez soar o alarme ainda na campanha eleitoral. Se o presidente Jair Bolsonaro ganhasse, teríamos um governo de extrema direita e radicalmente misógino, como notou o intelectual português Manuel Loff . Na redação, nos preparamos para uma cobertura ampla do governo de um candidato eleito sob o símbolo das armas, com a marca do autoritarismo, e que, como estratégia de comunicação com a sociedade, promovia a perseguição aos jornalistas – e aos fatos – e elegia como missão o ataque à cultura, aos movimentos e às organizações sociais.

Uma de nossas primeiras reportagens do ano mostrou o desvirtuamento do Ministério de Direitos Humanos, que passou a se chamar Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos ao ser liderado por uma pastora que defende a imagem bíblica da “mulher virtuosa”, submissa ao homem e desinteressada de seus direitos. Seus secretários foram escolhidos entre evangélicos e católicos militantes, contrários aos direitos LGBT e ao aborto. Um general, que se posicionou contra a Comissão da Verdade, passou a presidir a Comissão da Anistia.

Prenúncios do que viria. Em abril, o ministério foi acusado de impedir inspeções a presídios no Ceará pelos peritos do Mecanismo Nacional de Prevenção ao Combate à Tortura, demitidos em massa por Bolsonaro dois meses depois. Os conselhos que contavam com a participação da sociedade civil, entre eles o do trabalho escravo, foram extintos. A promessa de combater a violência contra a mulher traduziu-se na prática em desmonte dessas políticas, abandono da rede de proteção e criminalização das vítimas. Um exemplo contundente: confrontada com o holocausto das meninas estupradas na Ilha de Marajó, Damares atribuiu o problema ao fato de as meninas “não usarem calcinha”. A reportagem da Pública visitou a região e mostrou problema bem diverso e complexo, que a ministra deveria conhecer.

“Terrivelmente evangélica”, Damares ampliou sua cruzada para além das atribuições do ministério. Atuou nos bastidores da eleição do Conselho de Psicologia por uma chapa pró-cura gay, que acabou perdendo. Entregou a tarefa de fazer o texto-base do 4o Plano dos Direitos Humanos à Anajure – Associação Nacional de Juristas Evangélicos. Damares foi uma das fundadoras da associação, que reúne cerca de 700 juristas e faz lobby no Congresso e nas audiências do STF em prol das bandeiras das igrejas evangélicas. Sua próxima façanha pode ser a nomeação de um ministro do STF “terrivelmente evangélico”, como prometeu o presidente Bolsonaro. O plano de poder dos evangélicos, como vem mostrando o projeto Transnacionais da Fé, uma colaboração entre jornalistas de 16 países sob a liderança da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia, é continental. E é impulsionado pelos Estados Unidos de Trump.

Clique aqui para ler a retrospectiva.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Lições do governo de direita

O governo Bolsonaro dá lições de como e para quem governar: por decreto, para o capital. Não tem nenhum pudor em tirar direitos dos trabalhadores, dos setores populares, da maioria; não se importa em desrespeitar descaradamente as partes da sociedade que despreza, como indígenas, mulheres, pretos, pobres, camponeses, homossexuais e outros.
Não é novidade, a ditadura militar (1964-1985) também foi assim. Com duas diferenças: o governo Bolsonaro foi eleito pela maioria e a ditadura tinha um projeto nacional.
O projeto neoliberal de Bolsonaro é um desatino que pretende implantar no Brasil um capitalismo do século XIX. Até agora, tudo que ele fez foi destruir o Estado para abrir caminho para o capital.
Digo que dá lições de como e para quem governar, porque, no poder, a esquerda foi incapaz de fazer para os trabalhadores, em 13 anos, um décimo do que o capitão fez, em um ano, para o capital.
No poder, a esquerda governa "para todos", respeita a democracia e afaga o capital. A direita, governa para o capital, é autoritária e desce o cacete nos pobres sem dó.

A Renca é um produto legal da civilização, mas o capital não respeita a lei, atua ilegalmente, por meio de grilagem de terras, desmatamento, exploração clandestina. O que o governo de direita faz é mudar a lei, para tornar legal e liberar a exploração que extermina indígenas e depreda o ambiente, de forma que o Estado não tenha de agir contra os criminosos, ao contrário, os proteja e garanta suas ações, com polícias e justiça. Simples assim.   


Bolsonaro estuda reeditar decreto de Temer que permite explorar minério em reserva da Amazônia

A Renca, no Amapá e no Pará, tem área de meio Portugal. “Somos escravos ambientais”, reclama vice-líder do Governo. Oposição diz que Governo tenta sequestrar a floresta.

Afonso Benites, Brasília, 11/12/19, El País

O Governo de Jair Bolsonaro estuda reeditar o decreto da gestão Michel Temer que pretendia extinguir a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca), uma floresta preservada de 46.450 quilômetros quadrados localizada nos Estados do Pará e do Amapá, no Norte do Brasil. O objetivo é permitir a exploração mineral de parte dessa área, que equivale à metade de Portugal. Em 2017, o então presidente Michel Temer tentou acabar com a proteção ambiental da zona sob o mesmo pretexto, o de exploração comercial. A pressão de parte da opinião pública e de representantes da classe artística brasileira, no entanto, fez com que ele revogasse o decreto que tratava do tema.

Um ano depois, sem alarde, Temer publicou um decreto que deixa em aberto a possibilidade de exploração mineral na área. Até o momento, nenhum novo registro de exploração foi feito, segundo técnicos do Ministério das Minas e Energia.
A proposta sobre a elaboração dos estudos para extinguir a Renca surgiu já no início da gestão Bolsonaro, foi reforçada em abril, quando o presidente esteve em Macapá (AP) inaugurando um aeroporto e ganhou força na última semana, depois que ele foi questionado por parlamentares governistas. “Almocei com o presidente na semana passada e ele me falou que mandou fazer os estudos”, afirmou ao EL PAÍS o vice-líder do Governo no Senado, Lucas Barreto (PSD-AP). Ele é um dos principais defensores da liberação de parte da área da reserva para mineração. Dois assessores com acesso ao Palácio do Planalto confirmaram a versão de Barreto e disseram que a decisão sobre o tema está próxima de ser tomada.

Antes de fazer qualquer anúncio sobre a Renca, Bolsonaro assinou na terça-feira a medida provisória da regularização fundiária, chamada por opositores de “MP da Grilagem”. Por meio dela será possível fazer a autodeclaração de imóveis rurais de até 1.650 hectares que não tenham registros. A expectativa é que cerca de 600.000 áreas sejam registradas, parte delas na Amazônia.

Líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (REDE-AP), levou nesta semana a preocupação com o tema para a Conferência do Clima em Madri (COP 25), onde ele participa de uma série de reuniões e painéis com autoridades ambientais e representantes de governos estrangeiros. “Todos com quem converso estão escandalizados com a possibilidade de se extinguir a Renca”, disse Rodrigues.

Na avaliação do senador, o Governo tem dado vários sinais de que um decreto está próximo de ser assinado e as falas públicas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, demonstram que o Brasil tem conduzido de maneira equivocada o assunto. “O discurso do ministro na COP 25 teve uma clara perspectiva de sequestrador. A síntese da fala dele é essa: eu tenho floresta, se vocês não me derem dinheiro, eu desmato”.

Criada há 35 anos, a Renca tem cinco áreas protegidas em que, pela legislação atual, não poderia ser realizada a exploração mineral. São duas terras indígenas, três unidades de conservação de proteção integral. Há ainda outras quatro unidades de conservação de uso sustentável, que, em tese, há a possibilidade de exploração. Pelos cálculos da ONG ambientalista WWF, cerca de 30% da Renca poderia ser minerada. Defensor da exploração da área, o senador Barreto diz que essa área não chega a 4%, o equivalente a aproximadamente 2.160 quilômetros quadrados. “Não queremos que se derrube todas as árvores. Queremos uma exploração mineral de uma pequena parcela para ajudar a desenvolver nosso Estado”, afirmou.

Os defensores da extinção total ou parcial da Renca dizem que seria possível explorar nela ouro, ferro, fosfato, titânio, manganês, nióbio, fósforo e tântalo. “Estudos feitos na década de 1970/80 dizem que teríamos mais de um trilhão de dólares para explorar. Imagina esse valor atualizado”, disse o senador Barreto. Na sua avaliação, o dano ambiental seria localizado, já que apenas regiões montanhosas seriam exploradas, sob forte fiscalização e, na necessidade de recuperação ambiental, elas poderiam ocorrer em até três décadas.

Clique aqui para ler a íntegra no El País Brasil.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Lula e o caos

O "mensalão" -- sobre o qual escrevi aqui uma década atrás -- foi o ensaio da larva jato. No vídeo abaixo (trecho de uma entrevista), Lula resume o que foi o processo, uma trama política para prendê-lo, tirar o PT do poder e levar ao governo o neoliberalismo e seus políticos de extrema direita.
Simples assim.
Não é tudo, porém.
O PT no poder foi um governo capitalista, de esquerda, de conciliação de classes, que governou para os ricos e distribuiu as migalhas para os pobres.
Não fez nada a favor dos pobres que fosse duradouro, definitivo: não fez mudanças radicais nem envolveu os trabalhadores na defesa das instituições democráticas.
Quando falo em mudanças radicais me refiro a: a defesa do ambiente como centro de todas as políticas públicas; educação fundamental pública gratuita de qualidade para todos; saúde pública gratuita de qualidade para todos; aposentadoria igual para todos, inclusive políticos, juízes, militares, todo o funcionalismo público, com regras claras e bancada pelo Estado, com o dinheiro dos ricos; transporte coletivo público de qualidade; polícias da democracia, para defender direitos, não para reprimir trabalhadores e matar pobres; espaços de lazer na cidade, parques, praças, áreas verdes; acesso e financiamento da cultura; distribuição de terras e incentivo para a agricultura familiar ecológica que produz para alimentar os brasileiros etc. Enfim, uma sociedade civilizada, igualitária, democrática.
É difícil entender isso? No entanto, não foi em torno disso, não foi em torno dos interesses do povo e do Brasil que giraram os governos do PT, foi em torno de se manter no poder, fazendo alianças com políticos e partidos corruptos, se corrompendo também. A política tradicional do capital, enfim.
A democracia moderna depende de certo equilíbrio entre as forças políticas divergentes, antagônicas até; depende de alternância no poder. O PT e Lula, em especial, desequilibraram esse jogo, porque venceram quatro eleições sucessivas. Quando terminou seu segundo mandato, Lula não saiu de cena, como fazem os presidentes americanos; ele elegeu um poste e voltou para reelegê-lo, indicando que depois voltaria para mais dois mandatos, perpetuando-se no poder. Gerou o desespero da oposição moderada, que abriu caminho para a oposição extremada, a extrema direita neoliberal reacionária, corrupta, militarizada. 
Vivemos nesse inferno do antagonismo extremado PT x antiPT, Lula x antiLula há meia década.
O governo da extrema direita neoliberal nos levou ao caos no qual afundamos cada vez mais e do qual não há saída, porque sua proposta é o caos mesmo.
E Lula e o PT insistem em se apresentar como a solução.
No começo dessa tragédia brasileira eu pensei, como Franklin Martins, que o povo se revoltaria ao compreender a injustiça de que Lula é vítima, como aconteceu com Getúlio, mas hoje vejo que a situação ficou muito mais complexa, que o desgaste do Lula foi muito grande, que o fenômeno evangélico é muito forte, que a corrupção da política pelo crime organizado que chegou ao poder não se resolverá facilmente. Acho que Lula não voltará a ser o que já foi, não dará a volta por cima.
E o pior: até hoje não temos um caminho alternativo ao caos da direita.

O menino prodígio belga não vê o mundo em que vive

O menino prodígio que está se formando em engenharia aos nove anos quer inventar a imortalidade. O mundo ao seu redor está acabando (como esta revista Galileu, que publica a matéria e está no seu último mês), mas ele não vê. O menino belga celebrado pela mídia tradicional como "o novo Einstein" é cego para o mundo em que vive. Poderia se dedicar a tanta coisa útil para o mundo no qual vive, para a natureza da qual faz parte, para preservar a vida, enfim, mas está preocupado com a imortalidade individual. É um retrato da espécie humana e dessa sociedade rica que se autodestrói. O indivíduo vivendo eternamente num mundo que ele destrói.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Uma história de jornalismo: a entrevista que poderia ter salvado Chico Mendes

A entrevista que teria salvado a vida de Chico Mendes

Há 25 anos, Jornal do Brasil teve a chance de publicar a entrevista que poderia ter salvado a vida de Chico Mendes; o "interesse" pela publicação do material, porém, só aconteceu após o assassinato do ativista.

Edilson Martins, no Pragmatismo Político, em 11/11/13

A pouco mais de um mês de completar 25 anos do assassinato de Chico Mendes, ocorrido no dia 22 de dezembro de 1988, em Xapuri (AC), recebo do jornalista Altino Machado, do Blog da Amazônia, a mensagem a seguir, que contém relevante depoimento e indagação:

– No dia 18 de dezembro de 1988, numa banca de revistas, em Rio Branco (AC), encontrei o líder sindical e ecologista Chico Mendes (1944-1988) pela última vez. Estava triste ao constatar que o Jornal do Brasil não havia publicado naquele domingo uma entrevista dele. Quatro dias depois, em Xapuri, Chico Mendes foi assassinado. Qual é a história daquela que ficou conhecida como a última entrevista do seringueiro, concedida a você, Edilson Martins?

Vamos lá, aos idos de dezembro. Chico Mendes telefona dizendo encontrar-se em São Paulo, e que agora as ameaças sinalizavam, de verdade, sua morte. Corriam os dias de dezembro de 1988; se esse é o ano da Nova Constituição, da greve na CSN, no Rio, ainda temos que suportar as sobras da ditadura militar, José Sarney, presidindo o país. Na lata, respondi: “Dá um tempo, vou tentar um depoimento teu no Jornal do Brasil”. Naqueles anos, o JB era um dos grandes jornais, ainda, do país, apesar da crise financeira comendo pelas bordas.

Vou até a Av. Brasil, procuro o jornalista Zuenir Ventura, que editava um Caderno Especial, e falo da morte anunciada. Ele reage, dizendo não saber de quem se tratava – em verdade ninguém sabia, e combinamos de eu fazer a entrevista. Ligo para Chico, peço que venha correndo ao Rio, e até argumentei: “Mano velho, com esta entrevista eles vão ter que adiar, pelo menos uns dois ou três meses, tua morte”.

Ao chegar ao Rio, começamos a gravar, e dois dias depois o texto estava concluído. Vou ao JB, e entrego, em mãos, a entrevista ao Zuenir. À noite, corria talvez o dia 7, ou 8 de dezembro, convido-o para comer no Lamas. Ele baixa a cabeça, como se estivesse emburrado; “Tô sem grana, e você gastando dinheiro comigo.”

Fomos ao Lamas, bar boêmio do Rio, até hoje, mas àquela época reunia a nata dos profissionais que “fechavam” a primeira página dos grandes jornais. Adentramos, falei com muitos “coleguinhas”, fui a algumas mesas com o Chico ao meu lado, e ninguém, sequer ninguém, perguntou quem era aquele caipira, roupas fora do padrão, gordinho, quase um capiau. Terminamos por dividir um PF (prato feito).

No sábado, corro às bancas em busca do Caderno Especial, e vejo que a entrevista não saíra. Entro em pânico. Procuro o Zuenir e sou informado que se encontrava em Vitória, no Espírito Santo, mas que segunda-feira retornaria ao jornal. Na segunda, na redação, ele me diz que a matéria não saíra porque eu estava trazendo mais um cara que politizava demais a questão ambiental. Essa era a opinião do jornal.

Clique aqui para continuar lendo esta matéria.

Clique aqui para ler a entrevista do JB.

Sabiá

Sei hoje como sempre soube: só a arte nos salva.

"Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos de me enganar
Como fiz enganos de me encontrar
Como fiz estradas de me perder
Fiz de tudo e nada de te esquecer."

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Há um ano

PS: Em um ano de governo do capitão, o autoritarismo militar não é a pior das suas características, as piores são a imposição do fundamentalismo evangélico e principalmente a política neoliberal de destruição do Estado, que está tornando o Brasil uma "ex-nação", na expressão do Ciro Gomes, de longe o político mais lúcido que o país tem. Outro aspecto da análise é que o poder da comunicação concentrada em poucas mãos mudou de figura, com um governo que usa a internet, as redes sociais, um exército de robôs e notícias falsas para se comunicar, ao mesmo tempo que ataca a imprensa de todas formas possíveis, tanto jornalistas quanto empresas, que não gostam dele e o criticam, mas apoiam sem pudor sua agenda econômica neoliberal. O que se segue foi escrito há um ano.  


O golpe de 2016 e a volta dos militares torna-se ainda pior porque nos pegou desprevenidos, iludidos com a democracia que durou 31 anos (1985-2016) e com os impressionantes resultados sociais e econômicos da Era Lula (2003-2010). O que vem por aí – um governo militar autoritário eleito pelo voto popular – pode ser pior, em alguns aspectos, do que a ditadura de 1964-1985.
Quase tudo, porém, foi previsto e ignorado, porque nos iludíamos. O próprio provável presidente, um capitão da reserva, que tem um general da reserva como vice, uma legião de militares o apoiando e vários generais cotados para ministros [e as milícias, o crime organizado, multinacionais do petróleo, da indústria armamentista etc., o governo americano], é um exemplo. A democracia não fez o ajuste de contas com a ditadura, deixou o inimigo sobreviver enfraquecido, fingindo que não oferecia mais perigo, e agora, no meio de uma crise econômica e política que golpeou a democracia, ele ressurge, revigorado com o sangue do povo desesperado.
Não era de se esperar que o governo Sarney ajustasse contas com a ditadura, muito menos o governo Collor; esperava-se que os governos tucanos o fizessem, mas nem mesmo os governos do PT, mais à esquerda, foram capazes disso – de punir os torturadores, jogar o autoritarismo na lata de lixo da História e reformar as Forças Armadas e as polícias militares para que se tornassem de uma vez por toda defensoras da democracia. Agora, são os militares que, sem qualquer pudor, fazem a revisão da História, transformam os democratas em diabos e promovem o elogio da ditadura.
Não houve sequer o embate dos políticos com os militares, dos democratas com os autoritários. A volta dos militares ao poder de certa forma afirma, mais de quatro décadas depois, o êxito da abertura lenta, gradual e segura promovida por Golberi e Geisel. Foi como se eles tivessem dito: vamos entregar o poder e nos preservar, para que no futuro novas gerações de militares voltem. Tímidos, medrosos, conciliadores, os civis democratas não compreenderam o perigo que aquilo representava, não tiveram coragem para enfrentar os militares, fingiram que nada tinha acontecido, que a ditadura era um presente do céu, que a democracia ia durar para sempre, que o povo não precisaria defendê-la, que não precisava conhecer os fatos que ignorou durante as décadas de governos autoritários, de repressão e censura. Faltou educar o povo sobre sua História, as verdades e mazelas da ditadura, o valor da democracia e a necessidade de defendê-la.
Os militares não voltariam agora ao proscênio sem a ajuda da mídia golpista. Democratizar a comunicação – que nada mais é do que pôr em prática a Constituição de 1988, coisa que os governos do PSDB e do PT não fizeram – é condição fundamental para a democracia.
Foi com participação decisiva da globoetc. que o PSDB e o PMDB deram o golpe; os dois partidos assumiram o governo golpista, mas quem herdou os votos das multidões que foram às ruas incentivadas pela globoetc. foi a extrema direita militar – que, agora sabemos, não é a corporação, é uma parte dela, envolvida com o crime organizado, assim como as polícias militares, organizadas pela ditadura, que foram mantidas intactas pela Nova República, assumiram o papel de repressão dos movimentos populares, de extermínio de pobres, favelados, negros e jovens, ligaram-se ao tráfico e formaram as milícias.
Uma reforma das polícias é fundamental para organizar um Estado democrático no Brasil. Assim como é fundamental democratizar a comunicação. Não existe em nenhuma nação democrática uma imprensa concentrada como existe no Brasil, capaz de decidir o que o povo vai saber e o que não vai fazer, de eleger e depor presidentes, como um poder acima dos outros; nem mesmo e muito menos nos EUA há uma Globo – lá, a imprensa está cumprindo o papel de desmascarar o governo fake do tri-bi-milionário Donald Trump.
Ainda mais importante do que democratizar a mídia e as forças policiais é democratizar a educação. Não existe nada mais importante para uma nação do que a educação do seu povo. Os governos do ciclo democrático que terminou em 2016 não precisariam fazer mais nada se implantassem em todo o país as escolas da democracia: um sistema de educação pública universal de qualidade em tempo integral. Começando pela educação infantil e sendo implantada gradualmente até a universidade e a pós-graduação, uma educação assim teria feito uma revolução democrática sólida e duradoura no Brasil, como fez nos países capitalistas mais avançados.
Se começasse em 1995, no primeiro governo FHC, e continuasse nos governos seguintes, de Lula e Dilma, como um programa de Estado, não um programa partidário, as crianças que entraram na escola naquele ano já estariam hoje no doutorado. Milhões de jovens estariam na universidade, outros milhões no ensino médio, outros mais no ensino fundamental.
O Brasil tem excelentes educadores e projetos educacionais, não é esse o problema. O problema é o presidente e o partido vencedores na eleição considerarem a educação do seu povo como uma escolha perigosa, porque um povo educado é um povo difícil de ser enganado e manipulado. Com exceção de Leonel Brizola e Darci Ribeiro, nenhum político brasileiro teve essa coragem até hoje, e governos posteriores, no Rio de Janeiro, trataram de destruir seu legado. O PT preferiu expandir a educação distribuindo dinheiro público para a iniciativa privada, fazendo o processo inverso, do fim para começo, contemplando a universidade e o ensino técnico, modelo que enriqueceu, por exemplo, o casal de políticos Muniz, célebre por sua corrupção.
Para democratizar a educação é preciso, primeiro, tornar a educação prioridade e destinar muito dinheiro no orçamento para ela. Atualmente, o dinheiro público é destinado, quase todo, para pagar banqueiros e o restante para o pagamento dos privilégios das castas de juízes, militares, políticos e funcionários públicos graduados. Não sobra dinheiro para o povo: educação, saúde, transporte, ambiente, lazer, qualidade de vida nas cidades etc. não cabem no orçamento.
A educação pública de qualidade é cara, mas não é despesa, é investimento, o mais valioso, pois trará resultados incalculáveis para a nação. Escolas em tempo integral, escolas com espaços e instalações de primeira, com os melhores professores, bem remunerados, com pedagogia moderna, com equipamentos de ponta, com equipamentos esportivos e prática de esportes, com ateliês de arte, com oficinas de ofícios, com refeições e alimentos de qualidade, naturais, orgânicos, com nutricionista, médica, dentista, psicóloga. Enfim, uma escola de qualidade na qual crianças e jovens passem o dia, enquanto seus pais trabalham, convivendo e praticando a democracia, ricos, medianos e pobres, protagonistas da sua formação, com auxílio dos melhores profissionais e a participação dos pais na vida escolar.
Quem pode ser contra uma educação assim? É claro que ela não interessa a uma minoria que já tem educação de qualidade para seus filhos, que paga caro por ela, e que reage a toda mudança, porque quer manter a desigualdade e a injustiça. Mesmo ela, porém, em gerações futuras, se beneficiará dos ganhos que a educação e a democracia trazem, tais como a diminuição da violência que apavora os privilegiados. Por melhor que seja uma boa escola particular, ela não oferece a riqueza da convivência democrática entre diferentes, porque nela todos são ricos.
O atual candidato do PT, um professor, ex-ministro da Educação, poderia ter apresentado essa proposta, só essa, como carro-chefe e síntese do seu programa – como a construção de Brasília foi a síntese do programa vitorioso de JK. Isso jogaria muita luz sobre a proposta, lhe daria personalidade, distinguindo-o do Lula, ampliaria o debate sobre o que realmente importa e no mínimo plantaria uma semente para a próxima campanha eleitoral.
Enquanto essa semente não for plantada, o Brasil não tem futuro democrático. Teremos apenas bons períodos de ilusão, como os anos JK, o Plano Real e a Era Lula, alternados com governos autoritários, obscurantistas, reacionários, antipovo.


Do golpe à eleição

Recapitulando:
o PSDB não aceitou o resultado da eleição de 2014, pediu recontagem de votos e pôs em dúvida a reeleição da presidenta Dilma;
a operação larva jato decidiu derrubar o governo, perseguir o PT e prender o ex-presidente Lula;
a direita decidiu pedir o impeachment da presidenta e convocou manifestações;
a mídia golpista incentivou as manifestações, o impeachment e a larva jato;
a classe média reacionária bateu panelas, vestiu a camisa da corrupta CBF, comprou bandeiras da nação que ela detesta e foi para as ruas manifestar seu ódio contra pobres, negros, minorias sexuais, trabalhadores e esquerdistas;
o Congresso reacionário e corrupto aprovou o impeachment;
o Supremo Tribunal Federal, que tem a função de defender a Constituição, prevaricou e apoiou o golpe com decisões e omissões;
o vice-presidente traidor comprou o Congresso, assumiu o governo e pôs em prática aceleradamente o programa derrotado nas urnas, e até o que a oposição não defendeu, um programa antipovo, antidireitos, antinacional;
a perseguição ao PT, travestido de combate à corrupção, se tornou uma perseguição aos políticos em geral e até um novo impeachment contra o vice-presidente foi tentado;
a crise econômica se agravou, o desemprego se multiplicou, fome, miséria, violência aumentaram; a popularidade dos políticos tradicionais caiu e o candidato da extrema direita se projetou como salvador da pátria, apoiado pelas forças ideológicas e capitalistas mais reacionárias;
o ex-presidente Lula, cuja popularidade ao deixar o governo chegou ao recorde de 87% e que continuava sendo a principal opção do eleitorado, foi perseguido implacavelmente pela larva jato, preso e impedidode concorrer;
um incidente providencial ocorrido durante a campanha, o esfaqueamento por um popular, tirou o candidato da extrema direita da campanha, ele não teve de participar de debates, nos quais se saía muito mal, e sua popularidade cresceu;
sem precisar debater nem se mostrar, o candidato de extrema direita fez uma campanha virtual com informações falsas a seu favor e principalmente contra o principal adversário, do PT, copiando a campanha do presidente americano Donald Trump;
o resultado eleitoral confirmou a liderança do candidato de extrema direita, com votação muito superior à que se poderia esperar numa eleição normal, e o candidato do PT em segundo lugar;
para a esquerda, o candidato de extrema direita seria o mais fácil de derrotar, para a direita, o candidato do PT seria também o mais fácil de derrotar;
a eleição se tornou uma disputa entre petismo e antipetismo, com algumas variantes: autoritarismo contra democracia, barbárie contra civilização, um governo já testado contra um governo imprevisível;
o sentimento antipetista, inflado por uma intolerância que saiu do armário, uma respulsa aos políticos, um autoengano de que o candidato de extrema direita representa o novo e a eterna esperança na mudança, conquistou a maioria do eleitorado, ao que tudo indica, e pela primeira vez levará ao poder no Brasil, pelo voto, um presidente declaradamente autoritário e conservador, além de despreparado e inexperiente;
mais do que isso, com ele irão para o governo as forças políticas, ideológicas e sociais mais reacionárias, que querem fazer retroceder os direitos sociais;
se os quatro últimos anos foram terríveis, aproximam-se tempos ainda piores.

A dependência do Brasil

Dom Pedro I não proclamou a independência do Brasil. É impressionante como a verdade é escondida por palavras e discursos. Uma das características da sociedade é criar discursos para esconder a verdade. O que aconteceu em 1822 pode ser chamado de várias formas, mas independência do Brasil não é uma delas. O príncipe regente Pedro de fato proclamou o oposto: a dependência do Brasil.
A partir daquele ato de “rebeldia” às cortes portuguesas, o Brasil tornou-se dependente de Dom Pedro, da família real portuguesa, da monarquia, dos próprios portugueses residentes no Brasil, dos ingleses e da Inglaterra, que o apoiaram.
Ao mesmo tempo, o imperador passou a perseguir os brasileiros republicanos e até monarquistas constitucionais, que, estes sim, lutavam por diversas formas de independência do Brasil.
De fato a situação sob Pedro I nada mudou em relação à colônia. Pedro, como seus antepassados, explorou o Brasil para a família real, manteve-o como posse pessoal, perseguiu, guerreou, prendeu e matou brasileiros rebeldes.
1822 tem pouquíssima importância para a afirmação do Brasil. Os fatos decisivos estão em 1808, quando a Revolução Francesa, levada pelo exército de Napoleão, invade Portugal e põe para correr a corte portuguesa. Dom João VI, sua mãe louca e sua mulher maluca, seus filhos, entre eles o adolescente Pedro, e milhares de nobres fogem numa grande frota naval para o Brasil. Durante 13 anos, até 1821, o Brasil será sede do império, condição que mudará radicalmente a colônia. Obviamente, quando, expulsos os franceses, a corte volta para Portugal, o “Brasil” não quer retornar à condição de colônia. Foi uma situação impossível que os portugueses tentaram impor.
Neste ponto, nosso olhar deve se voltar para o ambiente americano, para os antecedentes nativistas no Brasil, para o processo de independência da América espanhola, para os recém-criados Estados Unidos da América. O que aconteceu em torno do príncipe regente não tem a importância que lhe deram as palavras e discursos dos dependentes. Embora seja importante também conhecer aqueles círculos monarquistas, especialmente o “patriarca” José Bonifácio de Andrade e Silva. É significativo que ainda hoje seus descendentes estejam presentes na política nacional, como agentes reacionários que nunca serviram à independência e sempre se aliaram a interesses estrangeiros.
Porque esta é a questão fundamental: os dependentes, de Pedro I a Temer, dos Andradas aos tucanos, sempre se aliaram às grandes potências estrangeiras para esmagar o povo brasileiro. O Brasil e sua independência não são assuntos que lhes interessam, eles nunca tiveram um projeto de nação para o Brasil. Não tinham em 1822 e não têm hoje.
Independência implica num projeto de nação, se os donos do Brasil não têm um projeto de nação, mas sim de manter o país como colônia dependente de grandes potências, como é possível falar em independência? Nunca tivemos independência.
Simples assim.


Não começou agora

Ontem, enquanto o Flamengo comemorava os títulos brasileiro e da Libertadores, a Câmara aprovou a transformação dos clubes em empresas.O brasileiro é basicamente um povo que abdica, como talvez nenhum outro, de construir a sua nação.

A Cemig e o Cruzeiro

“O povo que abdica do seu direito não pode queixar-se dos seus opressores.” (Luís Felipe de Saldanha da Gama, 7 de dezembro de 1893.)

Nesta quarta-feira 27/9/17 dois acontecimentos importantes aconteceram para Minas Gerais. O primeiro foi o leilão de quatro usinas hidrelétricas da Cemig – Companhia Energética de Minas Gerais pelo governo federal; o segundo, a conquista da Copa do Brasil pelo Cruzeiro sobre o Flamengo, nos pênaltis. A vitória do clube belo-horizontino, tarde da noite, mobilizou e foi festejada com foguetes por uma quantidade tão numerosa de torcedores que, se quisessem, sozinhos, eles teriam derrubado o presidente golpista Temer. Ainda agora, no dia seguinte, espocam foguetes e ecoam gritos de torcedores. Já a venda das usinas da Cemig foi ignorada.
Os mineiros assistiram impassíveis à entrega a investidores chineses de hidrelétricas construídas com recursos, tecnologia e mão de obra nacionais, ao longo de seis décadas, para gerar energia para o estado e para o país. Sem as usinas, a Cemig, uma estatal gigante do setor, criada nos anos 50 do século passado para promover o desenvolvimento de Minas e do Brasil, torna-se uma empresa menor, quase anã. O preço da hidreletricidade fornecida aos mineiros e brasileiros tende a aumentar e a participação do negócio energia no desenvolvimento tende a diminuir. O governo federal vendeu as usinas para fazer caixa e pagar suas contas do ano, como quem vende o apartamento em que mora para pagar a taxa de condomínio e as contas em atraso.
Um terceiro fato importante aconteceu no mesmo dia: o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou por 6 votos a 5, com o voto de minerva da presidenta Cármen Lúcia, mineira, o ensino religioso nas escolas públicas.
Vale lembrar que na Monarquia brasileira o Estado e a religião católica estavam unidas, o catolicismo era religião oficial e o imperador era o chefe da igreja. A República, implantada a partir de 1889, separou Estado e religião, estabeleceu o Estado laico. Estamos voltando, portanto, 128 anos depois, ao século XIX. O golpe em curso no Brasil, desde 2016, faz a nação retroceder aceleradamente a etapas superadas do seu desenvolvimento. Neste caso, ao século XIX; no caso das riquezas nacionais, o retrocesso é ainda maior: voltamos ao período colonial, aos tempos anteriores à chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808.
Observo também alguns detalhes significativos que expressam a extensão do golpe. O golpe não é só do presidente ilegítimo Temer, nele estão envolvidas todas as instituições republicanas: os governos estaduais, o judiciário, o legislativo, o empresariado, a imprensa.
O governador, Fernando Pimentel, do PT, fez pronunciamento divulgado em vídeo lamentando a venda das usinas e afirmando que o tempo dirá se foi boa para o Brasil, que com certeza não foi para Minas. Ponto final. Em outros tempos, quando o então presidente FHC quis vender Furnas, o governador Itamar Franco respondeu que reagiria com armas.
Quem não reage ao golpe também participa dele.
O golpe contra o caráter laico do Estado foi dado pelo STF. O golpe primeiro, da destituição da presidente Dilma, foi dado pelo Congresso. O golpe antes do golpe, a não aceitação do resultado da eleição, foi dado pelo candidato derrotado, pelo então principal partido de oposição. O golpe da “legitimação popular” foi dado nas ruas pela minoria derrotada nas urnas. A mobilização popular para apoio ao golpe foi estimulada pela imprensa. O golpe de destruição do principal partido político nacional e do maior líder da história brasileira foi feita pelo Judiciário, pela Procuradoria Geral da República, pelo Ministério Público, pela Polícia Federal e pela imprensa.
É da cultura dos brasileiros se mobilizarem no futebol e no carnaval e ignorarem a política. Faz parte da cultura dos brasileiros agirem apaixonadamente na vida privada e com apatia na vida pública. É claro que o espaço que os brasileiros do povo não ocupam na política é ocupado por outros brasileiros, das elites econômicas e sociais.


sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Mais uma comparação entre Brasil e Chile

Olha essa notícia do mesmo Poder 360. E este saite não é da grande imprensa, dos barões -- mas é de jornalistas que conviveram intimamente com o baronato e que pensam que têm pedigri. A Abraji, por exemplo, está cheia deles; quando superar essa limitação, e vai superar em breve, penso eu, por força da realidade, vai ter papel importante na reconstrução do jornalismo brasileiro.

Mas o Poder 360 não tem senso de ridículo, porque critica a aposentadoria chilena, mas se omite (e apoia) sobre a reforma da previdência brasileira. Ora, com o dólar a 4,20, a aposentadoria chilena é bem próxima do salário mínimo brasileiro, menos de 1.000 reais!

A notícia vale pra gente ver como é difícil recuperar direitos perdidos. O reajuste é para aposentados com 80 anos ou mais. Outra medida reduz pela metade a passagem de ônibus para aposentados; aqui não pagamos nada.


Em meio a protestos, Chile aumenta aposentadoria mínima de idosos em 50%

Benefícios são baixíssimos e causam revolta. Mesmo pós-reajuste, valor é só de US$ 207.

Clique aqui para ler a matéria no Poder 360.


O Brasil de 2019 é o Chile de 1973

Este artigo mostra como o governo do capitão está desmontando o Estado na área de meio ambiente. São várias ações articuladas. Não dá dinheiro para a fiscalização e ela não pode funcionar. Quando funciona, é desautorizada. E as multas ainda têm que ser referendadas por um novo órgão que o governo criou.

O que o governo de extrema direita está fazendo no ambiente faz também em outras áreas. E faz isso obedecendo uma política deliberada. Essa política visa a destruir o Estado e deixar a ação livre para o capital.

É uma política de classe portanto, uma política do capital, para o capital. É a política do chamado neoliberalismo.

Que está em vigor e expansão no mundo desde a década de 1980, há quatro décadas, depois de quatro décadas de predomínio de políticas social-democratas.

A social-democracia salvou o capitalismo do colapso no século XX, quando foi ameaçado por  duas guerras mundiais, uma crise econômica devastadora, a de 1929, a ascensão do nazifascismo e a revolução proletária comunista.

O capitalismo liberal, isto é, sem controle, desregulado, não sabia o que fazer, perdeu o controle, e via o mundo caminhar para regimes totalitários nazifascistas ou para a revolução socialista. Preferiu a intervenção estatal que preservava o capitalismo.

Quando a economia da Rússia naufragou, o liberalismo pôs suas manguinhas de fora outra vez. Já não tinha o fantasma da revolução socialista a assustá-lo, já não tinha a sombra de um outro tipo de economia, que não deu certo.

O neoliberalismo começou exatamente quando acabou a ditadura no Brasil. No Chile, o neoliberalismo coincidiu com a ditadura Pinochet. Há quem diga que ele foi ensaiado lá, antes de ganhar os governos dos EUA e da Inglaterra, com Reagan e Thatcher.

Os militares chilenos fizeram o que o capitão e seu primeiro-ministro Guedes estão fazendo no Brasil 45 anos depois. Os resultados chilenos estão aí hoje, para serem vistos e compreendidos. E não podemos esquecer do banho de sangue que foi a deposição do presidente Allende em 1973 e da destruição da oposição, para implantação da ditadura.

No Brasil, a ditadura militar (1964-1985) conviveu ainda com a ordem social-democrata mundial do pós-guerra e foi comandada por uma corporação que tinha um projeto nacional; em vez desregular e desestatizar a economia, regulou-a e estatizou-a mais.

Exemplos: a ditadura acabou com a estabilidade no emprego, mas criou o FGTS; perseguiu os trabalhadores do campo, mas criou um programa de reforma agrária; prendeu, matou ou exilou as lideranças trabalhistas e comunistas e colou pelegos nos sindicatos, mas manteve a estrutura rica e poderosa destes. Da qual, por sinal, nasceu Lula.

A ditadura acabou numa onda claramente trabalhista, social-democrata, de esquerda. A Constituição de 1988 expressou esse anseio de liberdade, democracia e direitos exatamente no momento em que nascia a nova onda neoliberal. O conflito esteve presente na Constituinte e se expressou na eleição de 1989.

Collor, representante do neoliberalismo em ascensão, foi eleito naquela primeira eleição direta com apoio decisivo dos barões da comunicação.

Do outro lado estavam as forças da social-democracia: Covas, Brizola e Lula (embora este ainda não soubesse que era social-democrata, porque o PT foi criado antes do fim da União Soviética e do colapso dos partidos comunistas e estes ainda tinham grande influência na esquerda).

A partir do impeachment de Collor, porém, o governo caminhou para a social-democracia, com Itamar, FHC e Lula. Incorporando sempre a tensão entre os direitos sociais democráticos da Constituição de 1988 e as pressões do neoliberalismo.

Os barões da mídia, representando o neoliberalismo, sempre pressionaram por reformas na Constituição e apoiaram candidatos de direita. Tiveram de engolir o sapo barbudo, preferível a Brizola, mas para isso Lula fez inúmeras concessões, antes de ser eleito, com a Carta aos Brasileiros, e depois, governando "para todos", o que significou dar muito dinheiro para os banqueiros, para o agronegócio, para a elite empresarial da Fiesp e para os barões da mídia.

O golpe de 2016 desorganizou a ordem democrática vigente de 1994, quando o Plano Real elegeu FHC. Tirou do poder o PT -- que parecia eterno, tendo ganhando quatro eleições presidenciais seguidas, inclusive reelegendo uma presidenta explicitamente inepta para o cargo -- e colocou no seu lugar um capacho. A mesma onda que derrubou o PT, porém, afogou o PSDB, a oposição mais civilizada.

Na crista da onda golpista vieram o partido da larva jato e o capitão, com seus evangélicos e milicianos, associados ao neoliberalismo.

Ou seja, com o capitão, o neoliberalismo chega ao poder novamente, como chegou com Collor, em 1989, sem qualquer resquício ou pudor social-democrata, como tiveram os governos de Itamar, do PSDB e do PT. Por suas características autoritárias, broncas e reacionárias e por suas ligações com o crime organizado, este governo pratica o liberalismo sem qualquer restrição. Ele está aí pra isso mesmo e não se preocupa com as consequências, porque acredita que cumpre uma missão divina.

As organizações social-democratas ainda estão atônitas e desunidas e o povo sofre, desorganizado, humilhado, desempregado, miserável, faminto, desamparado.

O projeto neoliberal não cria nada, só destrói. É pior, muito pior, do que a ditadura dos militares. Muito mais obscurantista, muito mais reacionário, muito mais antinacional, muito mais antipovo. Um horror. Para sair disso, as lideranças social-democratas terão cair na real e se iluminarem, e o povo terá de tirar forças não sei de onde, mas terá de tirar.


Um desgoverno que estimula o desmatamento

Por Randolfe Rodrigues, no Poder 360

O Brasil possui 334 Unidades de Conservação Federais que estão sob revisão do Ministério do Meio Ambiente. Correm o risco de terem o seu tamanho reduzido, a destinação alterada ou mesmo serem extintas. Entre elas, Abrolhos, santuário ecológico que o governo pretende inserir nas áreas passíveis para exploração de petróleo. A região concentra a maior biodiversidade do Atlântico Sul e 1 gigantesco banco de corais, além de ser berçário das baleias jubarte.

A fiscalização dos crimes ambientais também caiu drasticamente com Bolsonaro na presidência. O número de multas aplicadas teve redução de quase 40%. Para completar, o governo criou os “núcleos de conciliação”, foro instituído via decreto para analisar as multas aplicadas mesmo que os infratores não reclamem das sanções. Em outras palavras, algo como uma anistia antecipada para crimes ambientais e desmoralização dos órgãos de fiscalização.

Ataques aos servidores dos órgãos ambientais não ficaram de fora do desmonte da governança ambiental promovida por Bolsonaro. Agora, o governo anuncia previamente as operações de fiscalização, proporcionando aos desmatadores e outros criminosos ambientais camuflarem suas atividades e destruírem provas dos crimes cometidos, sem falar na exposição dos fiscais ao risco de serem alvos de ataques e emboscadas dos criminosos. Um completo absurdo! 

Clique aqui para ler a íntegra do artigo. 

sábado, 16 de novembro de 2019

A direita tem projeto, a esquerda, não

Essa jornalista e filósofa alemã diz o que venho observando desde o governo Lula: a esquerda não tem um projeto de sociedade. Entendo isso em relação à esquerda marxista-lenininista-stalinista, que predominou no século XX, como decorrência do fim da URSS. Não entendo bem em relação à social-democracia. Lula e o PT, por exemplo, que se projetam como socialistas, vermelhos, amigos de revolucionários cubanos e outros, estão à direita da social-democracia. O fato é que a direita tem um projeto reacionário, mas a esquerda não tem mais.

“A extrema direita tem uma utopia. Conservadores e sociais-democratas não têm nenhuma”

A alemã Carolin Emcke, filósofa e repórter de guerra durante dez anos, analisa como a xenofobia tenta monopolizar o discurso político

Milagros Pérez Oliva, El País.

A jornalista e filósofa alemã Carolin Emcke (Mülheim an der Ruhr, 1967) vem há muitos anos observando e refletindo sobre diferentes formas de violência que condicionam nossas vidas. Aluna de Jürgen Habermas, o pensador vivo mais influente do mundo, trabalhou como repórter de guerra para a Der Spiegel entre 1996 e 2006, em lugares como o Afeganistão, Kosovo e Iraque. Seus livros Gegen den Hass (“Contra o ódio”) e Wie Wir Begehren (“Como desejamos”), ambos inéditos no Brasil, são uma referência nos debates sobre a ascensão de uma extrema direita racista e xenófoba que tenta monopolizar e condicionar o discurso político. Emcke proferiu nesta semana uma conferência dentro do ciclo Feminismos, do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB).

PERGUNTA. Em sua obra você aborda a relação entre poder e violência. O que mais a preocupa em relação a esta questão?

RESPOSTA. Preocupa-me a força que está adquirindo uma ideologia autoritária, antimoderna e baseada em dogmas de pureza que constroem a realidade como se fosse um perigo, uma ameaça. Esta ideologia está mudando o discurso político no sentido de normalizar o racismo, o antissemitismo, o antifeminismo, e contribui para desumanizar as pessoas ou coletivos que mais tarde são vítimas de atentados da extrema direita. O problema é que, quando eles ocorrem, focamos o debate na violência e despolitizamos o contexto ideológico que a torna possível. Não só temos que lutar contra o extremismo quando é violento, mas também contra a ideologia que leva à violência.

Clique aqui para ler a entrevista no El País.


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Aspectos progressistas no fenômeno evangélico

Assim como a igreja católica, em especial as comunidades eclesiais de base, foi uma base do crescimento do PT, as igrejas evangélicas são base do crescimento da direita no Brasil.
Eduardo Cunha e o capitão são expressões disso.
A esquerda não compreende o fenômeno de expansão dos evangélicos, que, segundo projeções, podem ser a maioria dos brasileiros dentro de vinte anos.
Essa ótima entrevista lança luz sobre o assunto, começando por sua frase final. Vale a pena ver esse diálogo inteligente.

Um país de castas

O Brasil é um país de castas, e isso nunca é questionado por nenhuma reforma. Ao contrário, toda reforma é sempre para tirar mais dinheiro (e direitos) das castas dos pobres e miseráveis para dar dinheiro às castas privilegiadas.
Estas são as dos banqueiros, dos ministros, desembargadores, juízes, procuradores e promotores, dos vereadores, deputados e senadores, dos oficiais militares, dos industriais, dos agrotoxiconegociantes, dos mineradores etc.

Quanto custa o Judiciário brasileiro 

Por Juliana Fuzaro, no Justificando.

O Brasil possui um dos Poderes Judiciários mais caros do mundo.

De acordo com dados averiguados por Luciano da Ros, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em seu estudo O Custo da Justiça no Brasil. Ele revela que com exceção de El Salvador, que utiliza 1,35% do PIB (Produto Interno Bruto), o Brasil é o responsável pelo Judiciário que mais gasta no mundo, com 1,2% do PIB em 2014. Se comparado a países como EUA (0,14%) e Itália (0,19%), o Brasil fica em disparada.

O Artigo 37, inciso XI e XII, da Constituição Federal de 1988, tratam a respeito da diferença da remuneração entre os três poderes, sendo o primeiro referente ao teto, que não poderão ultrapassar em espécie, o subsídio mensal, dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, enquanto o segundo diz respeito a remuneração dos cargos da mesma alçada entre os poderes, que não poderão ultrapassar ao do Executivo.

Entretanto, a complexidade do Poder Judiciário não é dada apenas aos valores salariais, que chegam a R$37.000,00 para os Ministros do Supremo Tribunal de Justiça. Em 2014, o gasto do PJ foi correspondente ao gasto das Forças Armadas brasileira (1,4% do PIB), mesmo a última tendo 330 mil servidores, e o PJ, de acordo com o Relatório Justiça em Números/2015, possuía 418.000 servidores somando todos as categorias, além de 22,5 mil juízes. Em 2017, o Poder Judiciário gastou 36,2 bilhões de reais, de acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Tesouro Nacional. Esse retrato revela o quanto o sistema possui números exorbitantes e uma complexidade que deveria ser repensada, apesar de a fatia salarial e de encargos representar 80% das despesas sujeitas ao teto.

Clique aqui para ler a íntegra da matéria.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Um projeto de estilo nazista

Por quê? Porque baseado em um líder, um füher.
O capitão acredita, depois de sobreviver à misteriosa facada, que é um predestinado. Liberta-se do partido para criar um à sua imagem e semelhança -- com seus filhos e seguidores fanáticos. Começa pelo nome Aliança (palavra de evangélicos, uma base, talvez única, do fundamentalismo no Brasil contemporâneo) pelo Brasil (apelo ao patriotismo). Aposto que criará um símbolo forte, como a suástica, provavelmente com as cores verde e amarela.
Terá fragilidades, ou contradições: será o partido do liberalismo "puro"? O liberalismo é uma política de elite, de ricos, de desigualdade. Como arrebanhará o povo? O nazismo foi uma política com dominação e uso do Estado, coisa que o governo do capitão faz, impregnando educação e cultura públicas com valores fundamentalistas cristãos. O que fará em relação à economia para que possa controlar recursos estatais, já que está liberalizando a economia e enfraquecendo o Estado? Dará uma guinada na campanha de 2022, talvez já em 2020?
O que eu penso é que não se deve subestimar o capitão, principalmente nesse ambiente de enfraquecimento da direita tradicional.

O ambicioso plano de Bolsonaro de usar smartphones para criar um novo partido em 4 meses

André Shalders - @andreshalders Da BBC News Brasil em Brasília

O presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), apresentará a seus aliados políticos nesta terça-feira 12/11 o plano de criar uma nova legenda: a Aliança Pelo Brasil.

A ideia é dispensar os cabos eleitorais nas ruas coletando assinaturas em papel. Os interessados em apoiar o novo partido do presidente da República usariam apenas um aplicativo de celular e o leitor de digitais de seus próprios aparelhos para firmar a adesão.

Com o novo meio de coleta de assinaturas, a sigla reuniria as quase 500 mil assinaturas necessárias em 3 a 4 meses - a tempo de lançar candidatos nas eleições municipais de 2020.

Clique aqui para ler a matéria na BBC Brasil.


Os milhões de dólares do Bolsa Capital

Publico a matéria abaixo por três motivos. O primeiro é que sou amigo do Nairo; o segundo é para chamar atenção para o blog Além do Fato; o terceiro é chamar atenção para a notícia.

Nairo é um amigo extraordinário e talvez o melhor repórter de economia de Minas, há décadas. Tem um defeito: escrever para seus iguais, isto é, quem conhece como ele. Não escreve para o público leigo, e por isso sempre precisou de um editor puxando sua orelha, lhe dizendo isso, pedindo que explique ao leitor comum conhecimentos básicos que ele menospreza porque domina. Nesta matéria, por exemplo, o que é semicondutor, para que serve, a importância econômica e tecnológica da fábrica para o país.

Além do Fato é um blog relativamente recente ancorado no portal Uai, liderado pelo experiente Orion Teixeira, com notícias produzidas também pelos não menos experientes Nairo e Ricardo Campos. Oxalá prospere; o jornalismo depende para sobreviver de iniciativas dos jornalistas. Os colegas de Alagoas estão dando o exemplo. A gente nota logo que as páginas estão cheias de anúncios, mas, na internet, isso não significa que os autores estejam faturando, como nos impressos. O dinheiro da publicidade na internet não vai para o veículo e o portal que o ancora também não paga os autores como um jornal paga um jornalista. Trata-se de um mercado muito lucrativo para gigantes multinacionais (Gg e Fb, em especial), baseado num tipo de trabalho parente do trabalho escravo, no qual todos nós estamos produzindo conteúdos de graça, e aqueles que descobrem como faturar, os que se tornam fenômenos de público, tornam-se também milionários. Não é o caso dos jornalistas, mas quem sabe será ainda?

Quanto à notícia, em resumo ela expressa o que não se fala: o Estado brasileiro distribui dinheiro à vontade para empresários, "investidores", capitalistas, enfim. E a imprensa se cala, os indignados se calam, a direita se cala. Estes só atacam o dinheiro gasto com a previdência, Bolsa Família, SUS, universidades públicas, educação básica, enfim, com o dinheiro cujos destinatários são o povo, os pobres, os trabalhadores. O Bolsa Capital ninguém ataca. E é ele que destrói o Brasil, que quebra o Brasil.

O Bolsa Capital come metade do orçamento brasileiro. Todo mundo sabe disso, toda a imprensa, todos os especialistas, todos os políticos. No entanto, não existe nenhuma campanha e nenhum programa de governo pretendendo reformar os bancos. Ao contrário, todo o esforço do governo, com apoio da imprensa e especialistas dizendo que "é necessário", é feito no sentido oposto: economizar nos gastos com o povo para sobrar mais dinheiro para pagar os bancos.

Todas as reformas "necessárias" são feitas para isso, para que o governo tenha dinheiro para pagar suas dívidas com os bancos.

Um absurdo do qual poucos falam e quando falam são ignorados ou duramente atacados -- pela imprensa, pelos especialistas, pelos governos. Por quê? Porque a opção da imprensa, dos especialistas, dos governos é pelo capital. Governos, especialistas e imprensa são representantes do capital. Simples assim.

E quando se fala em Bolsa Capital não se fala em 89 reais por família, fala-se em milhões de dólares por empresa.

Essa notícia é mais uma sobre um assunto que fica escondido do leitor, dos cidadãos, dos pobres, dos trabalhadores, do povo, dos brasileiros: as montanhas de dinheiro que o Estado gasta com empresários, enriquecendo "investidores", transferindo riqueza de pobres para ricos, destinando a uns poucos o dinheiro arrecadado com impostos cobrados de todos nós. Simples assim.


BNDES abandona Unitec e faz cobrança extrajudicial

por Nairo Alméri | publicado: 12/11/2019

BNDES bancou 33% dos quase R$ 1 bilhão investidos Unitec Semicondutores (foto). Agora recorre à Justiça para receber o financiamento vencido e não liquidado. Foto: Facebook/Unitec Tecnologia

O BNDES não quer perder mais tempo com a Unitec Semicondutores, de Ribeirão das Neves. O banco é acionista-investidor, tendo aportado 33,02% do cerca de R$ 1 bilhão aplicados na sociedade. A empresa, porém, não superou os estágios da construção civil, montagem de equipamentos (muitos deles usados) e comissionamentos etc. Nem todos os equipamentos foram instalados. 

Em agosto, precisava de mais US$ 80 milhões, para montar a parte fundamental da fabrica de chips. Mas, por falta de garantias, há três anos nem os acionistas-investidores estatais (o outro é o BDMG) nem a Finep colocam dinheiro.

A última tentativa de uma tábua de salvação para a Unitec foi em 29 de agosto, em reunião no BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais). Teve participação de representante da Finep (Financiadora de Pesquisa e Inovação/Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação).

Aquela rodada ocorreu após duas convocações frustradas de AGEs dos acionistas (12 e 28 de agosto). Em ambas, a ordem do dia previa a desde a venda dos equipamentos à extinção da fábrica. O extremo seria na hipótese de os acionistas não aprovarem aportes de capital nem identificado outro investidor. Todas as partes silenciaram sobre a tal AGE e a reunião no BDMG.
BNDES tornou reunião inútil

Mas, fato é que, em 22/8 (bem antes da reunião no BDMG), já estava publicado despacho da juíza Andrea de Araújo Peixoto, da 26ª Vara Federal, do TRF-RJ, autorizando o BNDES a executar extrajudicial a dívida Unitec. Contudo, deixava brecha para, em até 15 dias, independentemente de penhora, para executada impetrar ação de embargo.

Clique aqui para ler a íntegra no blog Além do Fato.

O gráfico abaixo foi reproduzido do saite Auditoria Cidadã da Dívida.

https://auditoriacidada.org.br/wp-content/uploads/2019/02/grafico.jpg

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Grande imprensa finge que é contra, mas apoia governo do capitão

Assim como apoiou Temer, assim como apoiou o golpe. Basta ver as manchetes.
O governo liberal destrói o país, entregando-o para o capital e tirando todos os direitos possíveis dos brasileiros, mas a imprensa chama isso de "reformas", que ela apóia sem criticar.
São "necessárias". Para quem? Não para os brasileiros, não para os trabalhadores, não para o povo. São necessárias para o capital.
A reforma da previdência vai "economizar" bilhões. Como assim "economizar"? Tirar aposentadoria dos velhos trabalhadores. Quer dizer que tirar dinheiro dos trabalhadores é economizar. A reforma trabalhista também "economizou". Assim sobra mais dinheiro para o capital, mais lucros, mais dinheiro do Estado, que vem dos impostos e que será destinado a subsídios e todo tipo de favorecimento ao capital. É só isso que o governo vem fazendo desde o golpe. E que a imprensa aplaude, porque representa os interesses do capital, não tem o menor compromisso com o Brasil, muito menos com os trabalhadores, o povo, os brasileiros.
Cortar despesas com educação também é "economizar". Cortar despesas com saúde também é "economizar". Tudo que é despesa com pobre, com povo, com trabalhador se for cortado é "economia".

Todo dinheiro "economizado" com os trabalhadores vai para pagar a dívida com os bancos, os elevadíssimos juros da dívida bancária. O governo não economiza no pagamento aos bancos.

A grande imprensa sabe disso e apóia essa política, como apoiou o golpe contra a democracia, como apoiou a eleição do capitão.
Políticos também pensam com a imprensa, STF também etc.
Preparam cenário para revoltas. 
Enquanto o governo destrói tudo em nome do liberalismo etc., o capitão faz palhaçadas para distrair o público, e a imprensa o ataca, para fingir que tem compromisso com o Brasil, com a democracia, com o povo etc. Tudo cena.
O que importa é que a sociedade está sendo destruída e só vai sobrar o caos capitalista, com o crime organizado fazendo o que quer, inclusive o crime organizado do capital, que nunca aumentou tanto quanto durante esse período de larva jato, de "combate à corrupção". Que de fato foi só uma operação política para afastar do poder líderes políticos que ganhavam eleições e colocar no poder a turma do liberalismo.
Para mudar isso, para recompor uma sociedade minimamente civilizada, para recuperar direitos e reconstruir a democracia, vai levar tempo.
Para os brasileiros terem de novo um governo que deixa de economizar em gastos com os brasileiros e passar a economizar em gastos com o capital, com os banqueiros, os empresários, o agronegócio, as mineradoras, os industriais, as castas privilegiadas.


O mundo vai acabar; cientistas dizem como evitar

Outubro foi o mês mais quente da História. O capitalismo liberal está acabando com o planeta como o conhecemos, isto é, com condições para a existência da espécie humana. Antes de nos extinguirmos, extinguiremos (e já extinguimos) muitas espécies. Mas o planeta continuará, de outro jeito, com espécies que sobreviverem. A questão é só para os humanos, ou melhor, para as crianças, os jovens, os adultos, que ainda têm muito tempo pela frente, uma vez que nós, os velhos, estamos consumindo tudo enquanto vivemos e só deixaremos lixo para eles.
A questão é ser racional, mas a racionalidade é um desafio para a espécie humana, basta ver o capitão e sua gente, esse ministro da economia e suas "reformas", o Brasil dos últimos cinco anos. Afora todo o mundo ao redor, começando pelos fantásticos EUA.

As seis mudanças urgentes para conter a emergência climática, segundo 11 mil cientistas

Por Matt McGrath, repórter de meio ambiente da BBC, 6 novembro 2019

Um estudo global elaborado por cerca de 11 mil cientistas confirmou as pesquisas que apontam que o mundo está diante de uma emergência climática.

O estudo (em inglês), baseado em 40 anos de dados obtidos a partir de diferentes medições, aponta que os governos estão fracassando no combate a essa crise e que, sem mudanças profundas e duradouras, estamos diante da perspectiva de "sofrimento humano inédito".

O trabalho também aponta seis áreas em que medidas imediatas poderiam ter um grande impacto na contenção da crise.

1. Energia: A proposta do estudo é que políticos imponham altos impostos sobre a emissão de carbono, de forma a desestimular o consumo de combustíveis fósseis (como petróleo), além de eliminar os subsídios existentes para esse tipo de combustível.

Os pesquisadores defendem substituir o petróleo e o gás por energias renováveis e implementar medidas amplas de práticas de conservação, além de "deixar os estoques remanescentes de combustíveis fósseis no solo" — ou seja, deixar de explorá-los.

2. Poluentes de curta duração: Trata-se de um grupo de gases que ficam por pouco tempo na atmosfera, mas têm grande impacto no efeito estufa. São eles o metano, a fuligem e hidrofluorcabonetos, e os pesquisadores afirmam que limitar sua emissão tem o potencial de reduzir a atual tendência de aquecimento global em até 50% ao longo das próximas décadas, "além de salvar milhões de vidas e aumentar colheitas graças à redução da poluição do ar".

3. Natureza: O estudo pede mais esforços para a preservação e a restauração de ecossistemas da Terra — por exemplo, fitoplâncton, recifes de corais, florestas, savanas, mangues e pântanos contribuem "significativamente" para a absorção de CO2. "Plantas terrestes e marinhas, animais e micro-organismos têm papéis importantes no armazenamento do carbono", diz o texto.

"Devemos rapidamente impedir a perda de habitat e de biodiversidade, protegendo as florestas ainda intactas, sobretudo aquelas com alta taxa de absorção de carbono, (...) e ao mesmo tempo aumentar o reflorestamento em grande escala. Embora a terra disponível esteja se limitando em alguns lugares (por causa das mudanças climáticas), um terço da redução de emissões necessária até 2030 para o (cumprimento do) Acordo de Paris pode ser obtido com essas soluções naturais."

4. Comida: O estudo argumenta que uma alimentação mais à base de frutas, vegetais, grãos e oleaginosas e menos voltada para a proteína animal, particularmente gado ruminante, "pode melhorar a saúde humana e reduzir significativamente as emissões de gases do efeito estufa", diz o texto, agregando que práticas mais eficientes de cultivo e colheita e redução da "enorme quantidade de desperdício de comida" também são vitais.

5. Economia: Para os cientistas, a extração extensiva de matérias-primas e a exploração em excesso dos ecossistemas, na busca pelo crescimento econômico, devem ser "rapidamente contidas para a manutenção de longo prazo da nossa biosfera".

"Precisamos de uma economia livre de carbono e políticas públicas que guiem decisões econômicas nesse sentido", argumenta o estudo. "Nossa meta deve mudar de crescimento do PIB para a sustentabilidade de ecossistemas e a melhora do bem-estar humano, priorizando necessidades básicas e reduzindo a desigualdade."

6. População: O estudo aponta que a população humana na Terra aumenta em mais de 200 mil pessoas por dia e defende que isso seja estabilizado (e depois reduzido) "com parâmetros que garantam a integridade social".

"Há práticas comprovadas e eficientes que fortalecem os direitos humanos ao mesmo tempo em que reduzem taxas de fertilidade e reduzem os impactos do crescimento populacional nas emissões de gases-estufa e na perda de biodiversidade", prossegue o texto. "Essas políticas tornam o planejamento familiar disponível a todas as pessoas, removem barreiras a seu acesso e alcançam a plena igualdade de gênero, incluindo a educação primária e secundária como norma geral, sobretudo para meninas e jovens mulheres."

'Obrigação moral'

Os cientistas que endossam o estudo afirmam ter "uma obrigação moral de claramente advertir a humanidade sobre ameaças catastróficas e falar as coisas da forma como elas são".

"Temos altas emissões, temperaturas crescentes, sabemos disso há 40 anos e não agimos — não é necessário ser um gênio para saber que temos um problema", diz à BBC um dos principais autores da pesquisa, Thomas Newsome, da Universidade de Sydney.

Divulgado no mesmo dia, 6 de novembro, em que dados de satélite apontam que o mês de outubro foi o mais quente já registrado, o estudo afirma que apenas medir as temperaturas da superfície terrestre é um modo inadequado em evidenciar os perigos reais de um mundo em processo de aquecimento.

Por isso, os autores listaram diversos dados que mostram, nos últimos 40 anos, o crescimento das populações humana e animal, a produção per capita de carne (que é altamente poluente) e o consumo de combustíveis fósseis.

Houve, ao mesmo tempo, avanços em outras áreas. Por exemplo, a energia renovável cresceu significativamente, embora ainda tenha fatia muito menor que o uso de combustíveis fósseis.

Mas, somando tudo, os pesquisadores dizem que estamos indo na direção errada e intensificando a emergência climática.

"Uma emergência significa que se não agirmos ou respondermos aos impactos das mudanças climáticas e reduzirmos as emissões de carbono, a produção de gado, o desmatamento e o consumo de combustíveis fósseis, os impactos provavelmente serão mais severos dos que os que já vivemos atá agora", prossegue Newsome.

"Isso pode fazer com áreas da Terra se tornem inabitáveis para humanos."

Os cientistas signatários se dizem, também, frustrados pelo fato de que múltiplas conferências e assembleias climáticas tenham tido poucos efeitos práticos. Mas destacam que "fomos encorajados por uma recente onda global de preocupação com o clima — governos adotando novas políticas, crianças realizando greves, processos judiciais avançando, e movimentos cidadãos demandando mudanças".

(Publicado pela BBC Brasil.)

sábado, 2 de novembro de 2019

Você sabia que câncer tem cura? Uma história do capital

No dia dos mortos, uma história de assassinos.
Câncer tem cura mas custa caro, porque o laboratório não quer a cura, quer o lucro. Uma história do capital. O capital lucra produzindo a doença, vendendo agrotóxicos e alimentos contaminados, e ganha vendendo remédios, equipamentos, hospitais etc. Ainda mais no capital do século XXI, em que não existem mais empresas concorrentes, diferentes, e sim o simples capital, investidor, que está em todas as empresas, anônimo, nas mãos de pouquíssimas pessoas, em processo acelerado de concentração. Então é assim: câncer é um mercado de produtos muito lucrativos, pra que acabar com ele?

“Seria melhor que meu remédio contra o câncer fosse mais barato”

As descobertas do Prêmio Nobel de Medicina de 2018 levaram a um tratamento revolucionário que é vendido por mais de 100.000 euros por paciente

Manuel Ansede, El País Brasil

https://brasil.elpais.com/resizer/NzcVxdSTNvvBJU75WuN2R0Whoz8=/1500x0/smart/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com/public/PLE6TKDR7LJALLUWEKHEAWGGNU.jpg
O cientista japonês Tasuku Honjo, pai da imunoterapia, em Madri.

O pesquisador Tasuku Honjo não sabe quantas pessoas lhe devem a vida. Talvez centenas de milhares? “Possivelmente”, responde. Honjo, nascido na cidade japonesa de Kyoto há 77 anos, ganhou o Prêmio Nobel de Medicina de 2018 pela descoberta de um revolucionário tratamento contra o câncer: a imunoterapia. Um dos primeiros casos de sucesso está gravado em sua mente, o de uma mulher de 60 anos com câncer de ovário. Depois de um ano de tratamento, estava curada.

Em 1992 Honjo identificou uma proteína, a PD-1, que atua como um freio das defesas do organismo. Ao soltar essas rédeas, por meio de um medicamento chamado Nivolumabe, o próprio sistema imunológico ataca com sanha as células tumorais. A estratégia –eficaz em cerca de 25% dos pacientes– foi aprovada em 2014 para alguns tipos de câncer de pele, de pulmão, de rim e de fígado. E as indicações não param de crescer. Existem 2.000 testes clínicos em andamento. As vendas de Nivolumabe ultrapassam os 4,3 bilhões de euros (cerca de 19,2 bilhões de reais) anuais.

O cientista japonês, de passagem por Madri para receber um prêmio da Fundação Fernández-Cruz, se sente enganado. Em 2003 Honjo patenteou seus primeiros resultados junto à farmacêutica japonesa Ono Pharmaceutical, empresa que acabou assinando um acordo com a gigante norte-americana Bristol-Myers Squibb para produzir o Nivolumabe, sob o nome comercial de Opdivo. Um tratamento para uma pessoa pode custar entre 50.000 e 100.000 euros por ano, dependendo do país. Honjo, da Universidade de Kyoto, recebe menos de 1% a título de direitos autorais. Ele quer mais, diz, para doar.

Pergunta. O senhor é otimista. Acredita que chegará o dia em que ninguém morrerá de câncer?

Resposta. Acredito que o câncer poderá ser uma doença crônica algum dia. Você não pode dizer que ninguém morrerá de câncer, porque inclusive hoje ainda temos pessoas morrendo de doenças infecciosas, mas acredito que o câncer não ameaçará nossas vidas.

    “Você não pode dizer que ninguém morrerá de câncer, mas acredito que não ameaçará nossas vidas”

P. Na conferência do Nobel o senhor disse que o câncer poderia ser uma doença crônica em 2050.

R. É uma esperança, não tenho garantias, é claro.

P. O que o senhor acha do preço do Opdivo [o medicamento pioneiro em imunoterapia, desenvolvido graças às descobertas de Tasuku Honjo]? Em alguns países ultrapassa os 50.000 euros por paciente.

R. Nós, cientistas, não participamos da determinação do preço dos medicamentos. Depende de cada país, de seu modelo de Estado de bem-estar, então não posso fazer comentários. Obviamente, seria melhor que fosse mais barato, para que todo mundo pudesse se beneficiar. Sempre acontece o mesmo problema com qualquer medicamento. Até a penicilina, quando chegou ao mercado, era muito cara. E depois ficou acessível para qualquer um.

Clique aqui para ler a íntegra no El País.



Comerciais dos anos 60

Uma aula de sociologia, de economia, de psicologia, de filosofia, de história. Para quem sabe ver. E até um choque capaz de fazer ver. Não vemos só com os olhos, vemos com a mente, que é educada para selecionar e interpretações informações desde que nascemos. Quando vimos esses comerciais, quem era criança na época, viu de uma forma; agora vê de outra, porque o que era normal, não é mais. E então a publicidade contém muito mais informações do que um livro de sociologia etc.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Indústria tenta mudar guia da alimentação saudável

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Associação bancada por Nestlé e Coca-cola tentou engavetar guia que recomenda comida de verdade 

João Peres, The Intercept Brasil, 30 de Outubro de 2019

Arthur Chioro havia acabado de assumir o cargo de ministro da Saúde, em fevereiro de 2014, quando foi a um evento em Brasília. O que era para ser um momento descontraído virou uma reunião improvisada com Edmundo Klotz, então presidente da Abia, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos.

“Ele me trouxe um caderninho. Uma publicação muito bonita. Era algo que, se eu abrisse a gaveta, não teria como confundir. Algo que realmente se destacava”, recorda Chioro. “Havia três pontos-chave, três questões das quais a indústria não abria mão. Uma delas era que não se publicasse em hipótese alguma o Guia Alimentar.”

Não funcionou. Naquele mesmo ano o Ministério da Saúde publicou o Guia Alimentar para a População Brasileira, que inovou a forma como a alimentação saudável era vista: saíram as recomendações nutricionais complicadas, entraram diretrizes mais simples, focadas em comida de verdade – aquelas baseadas em ingredientes in natura e minimamente processados – e redução do consumo de alimentos industrializados.

A publicação nunca foi digerida pela indústria – e, agora, seus representantes viram em Jair Bolsonaro uma oportunidade para resolver o incômodo.

Foi a primeira vez que Chioro, hoje professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, detalhou como funcionou o lobby da indústria alimentícia na época. Klotz encerrou um período de 32 anos como principal representante de Nestlé, Danone, Unilever, Coca-Cola e companhia limitada. Quem assumiu seu lugar foi João Dornellas, que já manifestou publicamente a intenção de alterar as recomendações.

Clique aqui para ler a íntegra da reportagem no The Intercept Brasil. 



terça-feira, 29 de outubro de 2019

Da série 'A destruição do Brasil pelo golpe'

É claro que o governo atual falha no combate ao vazamento que completa a destruição ambiental do Brasil pelo golpe: primeiro foi a Bacia do Rio Doce, seguido da Bacia do Rio das Velhas, pelas mineradoras; depois a Amazônia queimada pelo agronegócio, além de queimadas em toda parte, inclusive no entorno de BH; agora, as praias.
O governo atual é incompetente, não tem quadros, só tem ideologia, a neoliberal, que quer desregulamentar tudo para que o capital lucre mais, gaste menos, não tenha opositores. Simples assim. Por isso a direita, que levou o mundo a duas guerras no começo do século passado e ficou apavorada com a crise mundial de 1929, não consegue administrar o capitalismo e precisou da esquerda, com suas reformas, para salvá-lo. Mas ela só cede quando vê o povo descontrolado destruir tudo, em revolta, e teme que isso dê em revolução, que é quando um grupo ideológico coeso e competente, como foram os bolchevistas em 1917, assume a liderança. Construir dá trabalho, governos ideológicos cegos não têm competência para isso.

Vazamento de óleo no Nordeste: quais órgãos são responsáveis por limpar, investigar e punir

João Fellet - @joaofellet Da BBC News Brasil em São Paulo

(Imagem: militares da Marinha e agentes do Ibama trabalham para retirar óleo da foz do rio Jaboatão, em Pernambuco.)

Ibama e Marinha

As manchas de óleo no litoral do Nordeste mobilizaram vários órgãos federais, estaduais e municipais, além de milhares de voluntários.

O incidente já afetou 225 praias em 80 municípios desde o fim de agosto. Neste fim de semana, as manchas voltaram a aparecer em seis praias do Rio Grande do Norte que já haviam sido afetadas pelo vazamento (Tabatinga, Búzios e Camurupim, em Nísia Floresta; Praia do Giz e Praia do Amor, em Tibau do Sul; e Pirangi do Norte, em Parnamirim).

A dimensão do acidente e as dúvidas quanto à sua autoria têm alimentado embates entre autoridades e motivado críticas de comunidades impactadas e ambientalistas, que questionam a eficácia da resposta governamental ao desastre.

Qual é, no entanto, a atribuição de cada órgão em um incidente como esse? Quem é responsável por limpar as praias, investigar o vazamento e denunciar os responsáveis?

Clique aqui para ler a íntegra da reportatem no saite da BBC Brasil.


terça-feira, 22 de outubro de 2019

Julgamento da prisão em 2ª instância não julga o principal

A BBC Brasil fez uma extensa matéria para comparar o sistema brasileiro com os de outros países. Sempre é bom ter informação, e logo de cara a gente vê que também nisso o que está acontecendo aqui é uma macaquice, influência neoliberal, americana e britânica. A matéria não trata porém do principal: a injustiça intrínseca da justiça brasileira, que precisa ser virada pelo avesso para merecer o nome.
No caso específico, a decisão foi feita ad hoc, para prender Lula e destruir o PT, não tem nada a ver com impunidade, muito menos com justiça. No caso geral, a justiça brasileira solta os ricos e prende os pobres, estes quando a polícia não mata antes. Simples assim. E é assim porque as castas privilegiadas, os ricaços e os poderosos querem que seja assim. Se as coisas começam a mudar e saem do seu controle, dão golpe.
Bacurau. Acorda, amor.

Alvo de disputa no Brasil, prisão após condenação em 2ª instância é permitida nos EUA e em países da Europa
Mariana Schreiber - @marischreiber Da BBC Brasil em Brasília 

Clique aqui para ler a matéria da BBC Brasil.

PAD: o programa acelerado de destruição do Brasil pelo golpe

É o desPAC, o pad, o programa de aceleração da destruição pelo golpe, que começou com Temer e continua com o governo miliciano-evangélico-neoliberal.
Enquanto o circo nos distrai, o governo do pad vai fazendo ilegal e autoritariamente o que quer.

Projeto do governo de ampliar mineração ameaça 30% das terras indígenas do país

Por Maria Fernanda Ribeiro, Repórter Brasil. 

Secretário do Ministério de Minas e Energia afirma que projeto de lei deve ser enviado ao Congresso ainda este mês; áreas cobiçadas por empresas equivalem a 28 milhões de campos de futebol e atingem 160 etnias.

Clique aqui para ler a reportagem na íntegra.


Governo federal vai privatizar cidades históricas e lagos de Três Marias e Furnas

The Intercept Brasil descobriu a lista secreta do Ministério do Turismo.
São 222 espaços públicos que serão privatizados, incluindo praias, lagos, rios, ilhas, parques, trilhas, comunidades, praças, sítios arqueológicos, monumentos, teatros, museus e tudo mais. Em Minas, estão incluídos os dois lagos e o que é propriedade federal nas cidades históricas.

Clique aqui para ver a lista.


Pantanal, Forte de Copacabana e + 200 pontos turísticos que o governo quer alugar

Não tem nada errado, era isso que ele pretendia, sempre pretendeu e prometeu fazer. É a ideologia, são os interesses do neoliberalismo, do capitalismo predador, das castas privilegiadas para quem o povo é lixo e a natureza é "recurso natural", que deve ser explorado e transformado em lixo também, sempre para deleite e lucro dos ricaços e poderosos.
Errado é a maioria do povo o eleger, errado é os brasileiros apoiarem passivamente a destruição do seu país, sua entrega para estrangeiros, sua destruição pelo capital predador e pelas castas privilegiadas que no meio da mais profunda crise do país em todos os tempos continuam ganhando novos privilégios.
Tá péssimo, já esteve ruim e vai piorar mais ainda.
Bacurau. Acorda, amor. 

Aluga-se o Brasil
Exclusivo: Pantanal, Forte de Copacabana e +200 pontos turísticos que Bolsonaro quer alugar


Breno Costa, The Intercept Brasil, 16 de Outubro de 2019

Jair Bolsonaro está colocando em marcha um plano imenso para transformar áreas públicas, praias, cachoeiras, lagoas e zonas de preservação ambiental em empreendimentos turísticos privados. Tive acesso a documentos internos do Ministério do Turismo que mostram como isso está se desenvolvendo de maneira acelerada no governo de Bolsonaro — um entusiasta da criação de “Cancúns” brasileiras.

Um dos documentos é uma planilha produzida no primeiro semestre deste ano que lista 222 propriedades da União espalhadas por 17 estados e Distrito Federal, que o governo quer passar para a iniciativa privada explorar (clique aqui para ver a lista completa). São indicações feitas pelos governos estaduais a pedido do governo federal. Há desde prédios históricos e terrenos em locais privilegiados a parques nacionais e ilhas. Até mesmo um parque no Pantanal está entre os alvos do governo — com 135 mil hectares, quase o tamanho da cidade de São Paulo, o Parque do Pantanal Matogrossense hoje não tem infraestrutura turística alguma.

A lista será consideravelmente maior. Os outros 9 estados, entre eles São Paulo, ainda não haviam respondido ao pedido do Ministério do Turismo por áreas da União em seus territórios que seriam de interesse turístico para uma eventual concessão à iniciativa privada.

Claro que essas áreas não serão todas concedidas ao mesmo tempo, e haverá modelos diferentes de concessão e destinação. Mas o projeto, que o governo deverá anunciar ainda neste ano, segue as bases de um programa iniciado há três anos pelo governo de Portugal.

O Revive, como será chamado também no Brasil, concede construções históricas sem uso e/ou em estado deteriorado para empresas privadas, com vistas ao turismo. Isso não envolve simplesmente um trabalho de restauração. Somente neste ano, nove patrimônios históricos portugueses foram colocados à disposição, entre conventos, mosteiros e até um castelo. Todos eles irão virar hotéis, com 50 anos de concessão à empresa vencedora da licitação (há um concurso para cada local). Neste momento, o governo português está recebendo propostas de grupos hoteleiros e outros interessados em transformar o Mosteiro de Travanca, em Amarante, uma joia beneditina colocada de pé quatro séculos antes de Pedro Álvares Cabral chegar ao Brasil.

Clique aqui para ler a reportagem na íntegra.