quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Não será hora de os marxistas brasileiros se unirem em um só partido?

Participei, ainda que tímida e marginalmente, da fase final de atuação da célebre Polop, a Organização Revolucionária Marxista-Leninista Política Operária. Organizar jovens universitários como se fossem revolucionários não tinha nada a ver, nos tirar do curso superior e da nossa vida individual para nos enfiar numa militância com dedicação religiosa foi uma irresponsabilidade sem tamanho. E um erro político tão grande quanto era equivocada a linha política da O., que era como a denominávamos. A origem daquilo, porém era pertinente: pensar o caminho da revolução brasileira a partir do marxismo.

Os teóricos e militantes revolucionários da Polop fizeram um trabalho intelectual importante, mas lhes faltava uma peça fundamental na política: ligarem-se aos trabalhadores, especialmente ao proletariado industrial, a principal classe revolucionária, que crescia no Brasil a partir da industrialização, da Revolução de 1930 e da implantação da indústria automobilística em São Paulo, no governo JK. A industrialização colocou o Brasil no ambiente da revolução operária socialista preconizada pelo marxismo. Antes disso, no Brasil rural pré-Revolução de 30, a revolução de inspiração marxista teria de ser feita pelo campesinato, como aconteceu na China. Basta lembrar que até 1950 dois terços da população brasileira estavam no campo. A situação começou a mudar com a política econômica desenvolvimentista, a “modernização” do país, a industrialização, e em apenas três décadas a relação se inverteu, na mais rápida urbanização nacional ocorrida no mundo até então; segundo o último censo, de 2021, mais de 87% dos brasileiros moram em cidades.

Os fatos são que, sem ter um partido comunista forte (o PCB foi fundado oito anos antes, em 1922, e, numa sociedade rural, era muito pequeno e, na representação trabalhista, tinha de concorrer com a expressiva força anarquista), a revolução que aconteceu no Brasil em 1930 foi uma revolução burguesa, uma revolução liderada por setores das classes dominantes, em aliança com setores das classes médias, especialmente os militares, que expressavam uma ideologia nacionalista e queriam modernizar o país. Foi, em síntese, uma revolução contra os cafeicultores paulistas que mandavam no Brasil desde a Proclamação da República, uma revolução de caráter nacionalista. Naquele período histórico, entre duas guerras mundiais, em meio à Crise de 1929, à ascensão do fascinazismo e à consolidação da Revolução Russa de 1917, o nacionalismo era uma ideologia forte mundo afora. Lembremos que Luiz Carlos Prestes, líder da Coluna Prestes, movimento rebelde de grande repercussão na década de 1920, foi convidado a integrar o comando da Revolução de 30, mas recusou, porque já tinha ingressado no Partido Comunista Brasileiro e considerava que a revolução em curso era burguesa. Militares e políticos simpatizantes do fascinazismo, porém participaram a revolução, que acabou se organizando em torno da liderança máxima do fazendeiro gaúcho Getúlio Vargas e mais tarde perseguiu comunistas e integralistas, versão brasileira do fascinazismo.

A revolução estava em curso no mundo inteiro e continuaria assim ao longo do século XX, seja na vertente comunista, seja na vertente anticomunista. É importante ressaltar que todas as revoluções socialistas vitoriosas ocorridas no mundo até hoje passaram pela adaptação da teoria marxista às condições nacionais da época. A Polop tentou fazer isso, mas não se tornou hegemônica na esquerda brasileira e ainda hoje as formulações sobre a revolução brasileira giram em torno de concepções estrangeiras: o leninismo, o maoísmo, o titoísmo, o castrismo etc. A Polop não fazia parte do Partido Comunista, como aconteceu na Rússia, na China, na Iugoslávia, em Cuba, no Vietnã etc., onde foi a direção do partido comunista que fez a adaptação. No Brasil, o PC era intelectualmente indigente e submisso ao stalinismo. Só mais tarde, com o fracasso do projeto reformista do governo trabalhista de Jango, ao qual o PCB aderiu, abatido pelo golpe de 1964, uma dissidência, o PCdoB, e depois defecções que optam pela luta armada, sob inspiração da Revolução Cubana, tentam essa adaptação. A Polop, diferentemente, tem origem no antigo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Talvez por isso nunca foi bem digerida pelos comunistas brasileiros. O principal defeito da Polop, penso eu, talvez por não ter origem no PCB, foi não se ligar aos trabalhadores, não passar de uma organização de intelectuais com inserção nas classes médias estudantis.

O fato é que, em meados dos anos 1970, quando fui militante, a Polop tentava organizar universitários como se fossem operários revolucionários. Penso que seria razoável organizar cursos de formação política e difundir suas ideias, de forma aprofundada, inclusive usando obras de Marx, Lênin, Trotski e outros líderes comunistas, procurando dessa forma se constituir como contraponto às formulações capitulacionistas do restante da esquerda. No entanto, pretender formar revolucionários na universidade, em substituição ao trabalho que não conseguia executar na classe operária, foi um equívoco óbvio e prejudicial para muitos jovens militantes. Penso também que, com o fim da Polop, perdeu-se uma importante linha de pensamento marxista sobre a revolução brasileira. O caminho da revolução brasileira precisa ser pensado, o marxismo precisa ser adaptado às condições brasileiras do século XXI, como fizeram todos os partidos comunistas vitoriosos no século XX, com a diferença que não existem mais partidos comunistas como existiram antes.

No Brasil ainda existem três partidos comunistas: o PCdoB, um racha errante do PCB ocorrido em 1963 e hoje o maior amigo do PT; o PCBR, outro racha do PCB cuja história desconheço, e o PCB, que é a tentativa de reconstrução do PCB por ex-militantes que não acompanharam a direção quando ela transformou o PCB em PPS, após o fim da URSS. E existem correntes marxistas dentro do PT e do PSOL. Não seria o caso de juntarem-se todos na formação de um único partido? Acho sempre curioso, desde os idos de 1970, as certezas dos comunistas brasileiros, que nunca os levaram a lugar algum, mas os levam a se dividirem porque cada grupo pensa que é dono da verdade e todos os outros traidores. Hoje, diante do iminente fim do lulismo, do evidente engodo do PT, da retomada tardia da discussão da atualidade do marxismo e da necessidade de uma revolução brasileira, não seria o caso de juntarem-se todos os que se consideram marxistas e revolucionários na organização de uma única força política com esse objetivo explícito, ou seja, organizar e liderar os trabalhadores numa revolução rumo ao socialismo? Poderiam começar atualizando o Programa Socialista para o Brasil, da Polop, cotejando-o com as proposições das demais linhas políticas e formulando uma síntese que indique, enfim, o caminho que os marxistas brasileiros buscam há um século para organizar as massas populares, fazer a revolução e começar a transformar o Brasil na nação próspera que ela pode ser, no ambiente do século XXI, em que a questão ambiental é mais urgente do que qualquer outra e salvar a espécie humana da auto-extinção tornou-se a missão histórica dos trabalhadores. Será que ainda não temos maturidade para isso? 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Mineápolis é Gaza, é Alemão, é Venezuela, é Irã

Podia ser qualquer um e a mensagem da gestapo trumpista é essa claramente: quem se opuser ao governo será eliminado. É o mesmo método do nazismo no seu começo e intimidou a população, eliminou a oposição e cooptou a maioria dos alemães, cujos descendentes hoje lamentam o que seus pais e avós fizeram. A história se repete na nação que em meados do século passado se opôs à ascensão do fascinazismo. A história se repete, mas não se repete igual, porque passou um século, muita coisa aconteceu, o mundo é muito diferente, é importante compreender o que foi o fascismo, mas é insuficiente, é preciso compreender o que está acontecendo hoje para enxergar as diferenças que podem ser decisivas. O que me parece cada vez mais evidente é que se trata da agonia do capitalismo e ele não vai morrer sozinho, porque a morte faz parte do sistema e se tornou rotineira e aumentou gigantescamente. Mineápolis é Gaza, é Alemão e Penha, é Irã, é Venezuela, para ficar nas matanças mais recentes.

A corrupção sistêmica no Brasil e a ascensão do fascinazismo nos EUA

Muito bom esse Calma Urgente, com análises profundas, inteligentes, bem informadas e visões diferentes que se somam sobre o Brasil e os EUA. No fim, é o mundo contemporâneo, pois tudo vai se juntando, não é mais possível falar do Brasil sem falar do mundo, não é possível falar de um assunto específico sem falar do todo. O caso do Banco Máster engole o poder político e econômico no Brasil, da extrema direita à esquerda que virou centro-direita, do Congresso ao STF, passando pelo governo federal e governos estaduais. A transformação dos EUA de uma democracia liberal governada por um neonazista a um Estado neonazista, que já tem sua gestapo nas ruas assassinando americanos que discordam do governo. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Migual Nicolelis e José Kobori, juntos contra o mesmo inimigo

À maneira da revistinha Invictus, que reunia Super-Homem e Batman e eu colecionava, nos anos 60. O vídeo com a conversa completa entre Miguel Nicolelis e José Kobori, dois dos pensadores brasileiros mais interessantes hoje. É longo, mas, se a gente salta as interrupções irrelevantes dos entrevistadores, não é tanto tempo assim. Vale a pena ouvir, eles falam de vários aspectos desse nosso mundo contemporâneo que segue aceleradamente para a autodestruição, e, de passagem, citam autores para leitura.

Música do dia: Amor à Natureza, Paulinho da Viola

Há meio século Paulinho da Viola já falava do processo de autoextinção em que entramos. A cidade estúpida é o cenário em que os humanos se refugiam enquanto destroem a Natureza em volta.

Miguel Nicolelis: a espécie humana rumo à autoextinção

No seu livro de ficção científica Nada será como antes o eminente neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis fala do que não é evidente só para quem não quer ver: a espécie humana está perdendo a razão e caminha para se destruir e destruir tudo em volta.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Safatle: grande parte da ditadura militar foi preservada na democracia

Afora o fato de Chico Pinheiro ser um péssimo entrevistador, jornalista estrela, que interrompe o entrevistado e fala mais que ele, Vladimir Safatle, quando consegue falar, diz coisas importantes. Por exemplo, a aberração das polícias militares e o aumento das torturas depois que a ditadura militar acabou. Ele cita a greve dos petroleiros na década de 90 (deve estar se referindo ao governo FHC) e já é então o fim do ciclo de mobilizações, o que aconteceu antes, no fim da ditadura, me parece mais relevante. Quais são os fatos? A ascensão das massas, as greves, a formação de sindicatos e centrais fazem parte da ascensão do Lula e do PT, e o objetivo era esse, levar Lula e o PT ao poder político burguês, ganhar eleições no Executivo, acima de tudo a eleição presidencial. Quando isso aconteceu, a mobilização das massas refluiu, o objetivo já tinha sido alcançado. Não sejamos maniqueístas, afirmando que Lula e o PT foram instrumentos de manipulação das massas pela burguesia, mas também não sejamos cegos para não ver que foi isso que aconteceu. Lula e o PT, o primeiro moldando o segundo, foram domesticados pelas condições políticas da época, isto é, pelo neoliberalismo, e acreditaram que bastava fazer o que fizeram, que reformar o Estado era desnecessário, socialismo então nem pensar, coisa de maluco dos anos 1960. O que estavam fazendo, diante do que fizeram seus predecessores, já era muito. O PT e Lula consideraram que domesticar o neoliberalismo já estava de bom tamanho e foram domesticados por ele. 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Espionando todo mundo no mundo inteiro

Durante a chamada "Guerra Fria", época em que o mundo esteve dividido entre duas grandes áreas de influência, da URSS e dos EUA, os principais vencedores da II Guerra Mundial, fez muito sucesso a ficção de espionagem, ambientada nas ações dos serviços secretos das duas nações. Também havia histórias sobre o serviço secreto inglês e outros menos famosos e nos filmes do Indiana Jones apareceu o serviço secreto nazista, obviamente anterior e já extinto. Com o fim da URSS e do mundo bipolar, o tema eletrizante entrou em decadência. Desde então o serviço secreto israelense, conhecido como Mossad, ganhou projeção, com seus feitos na vida real, não só na literatura, sequestrando e assassinando nazistas em várias partes do mundo e agindo contra palestinos e árabes. Nunca imaginei, porém que aquele pequeno país artificial mantivesse o que é provavelmente a maior rede de espiões em funcionamento no mundo, seja pelo seu tamanho, seja pela extensão da sua atuação, inclusive no Brasil, seja pelos recursos de que dispõe, seja pelas tecnologias que emprega e até desenvolve, seja por sua competência. Uma olhada rápida no verbete da Wikipédia nos deixa assustados. Toda a ficção sobre espiões é pinto perto do que o serviço secreto israelense já fez, continua fazendo e ainda vai fazer. Não é exagero dizer que o Mossad espiona todo mundo no mundo inteiro.  

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Música do dia: Te recuerdo Amanda

Com o autor, o chileno Víctor Jara, em 1972, às vésperas do golpe sanguinário que depôs o presidente Allende e dizimou a oposição, liquidou a experiência socialista democrática e impôs o experimento neoliberal do imperialismo estadunidense. Não é demais lembrar que o brilhante artista (esssa é uma das mais bonitas canções de amor que conheço) foi preso, torturado e teve suas mãos decepadas, antes de ser assassinado pelos militares. Tinha 40 anos.

O xou do jornalismo e o que urge fazer

Por que "show", uma palavra usada há um século no idioma português, não foi aportuguesada ainda? Gosto de escrever xou, assim como gosto de escrever xópim. O jornalismo definitivamente virou espetáculo. Sempre foi assim, o jornalismo sempre gostou e preferiu a notícia sensacional, o lado sensacional da notícia, os donos do negócio querem conquistar público, vender e ganhar dinheiro, porque no capitalismo jornalismo é um negócio como qualquer outro, embora não devesse ser, devesse ser serviço público, mas até onde isso acontece de forma mais marcante e há mais tempo, na Inglaterra, a BBC segue orientação política, um exemplo disso é que os jornalistas foram recomendados a se referirem ao sequestro do presidente Maduro, da Venezuela, pelo presidente dos EUA como "captura". O fato  é que o jornalismo negócio sempre foi xou e sempre houve também o jornalismo com pretensão de ser sério, confiável, honesto e independente, e é este o caso do Jamil Chade e da CartaCapital, por isso faço este comentário. Não posso deixar de observar que a excelente e oportuna matéria do vídeo abaixo é também um xou. O objetivo do melhor jornalismo que se faz hoje, e nunca se fez tanto jornalismo bom como se faz hoje, com as novas tecnologias, é antes de tudo possibilitar que os jornalistas e seu entorno ganhem dinheiro para sobreviver. O assunto desse vídeo é ótimo embora seja terrível: o jornalismo xou quer assuntos terríveis, precisa de assuntos terríveis, vive de assuntos terríveis. Eu sei o que é isso por dentro, sei como o ambiente molda o jornalista. A discussão não tem fim e gira em torno do argumento incontestável que o jornalista não produz o fato, ele apenas informa. Ok. A minha questão é outra. O jornalismo depende tanto de notícias terríveis quanto a medicina depende das doenças. A indústria da doença não quer acabar com as doenças, por isso não cuida de prevenção, que deveria começar por uma campanha contra os agrotóxicos, mas os médicos, os hospitais, os laboratórios, a indústria de equipamentos médicos etc. não estão interessados em diminuir as doenças, que é sua fonte de renda, de enriquecimento, de lucro. Isso é óbvio, nem é preciso demonstrar, enriquecer com exemplos, quem não vê é porque está cego pela ideologia. Tudo de ruim que prospera é porque dá lucro: doenças, guerras, tráfico de drogas, acidentes de trânsito, poluição etc. O jornalismo faz parte dessa lógica, notícias escabrosas são parte fundamental do xou que vende e dá lucro. Simples assim. O jornalismo faz parte da maior indústria do capitalismo, maior que a indústria da guerra, maior que a indústria das comidas envenenadas: a indústria do entretenimento. No fim das contas, o jornalismo é parte do xou, é parte dessa indústria que distrai as pessoas comuns, os trabalhadores desorganizados que pensam que são empreendedores e por isso aderem à ideologia do capitalismo e sustentam a existência moribunda do capitalismo. O mundo está tão ruim, esse despencar da civilização rumo à autodestruição está tão doloroso que as pessoas precisam de muito entretenimento, de muita alienação, que chega para todos o tempo todo nas telinhas dos celulares dos quais ninguém mais tira os olhos. O que importa, porém, parafraseando um célebre filósofo, não é informar -- já temos informações bastantes; o que urge é transformar o mundo.