quinta-feira, 9 de abril de 2026
Humanos
sexta-feira, 3 de abril de 2026
Postagem publicada em 2014 antecipava o Brasil descendo a ladeira
RPJ: a nova marcha da família?
Primeiro pensei que se tratava daqueles jogos, RPG. A estética da cartilha lembra a TFP e outros movimentos de direita. Siglas. O globo da bandeira do Brasil com o mapa invertido e o lema positivista também alterado: "Desordem no Congresso". Jogo de palavras. As cores verde, amarelo, azul. E a palavra mágica, presente em todos os discursos da direita, desde que o Brasil inaugurou uma democracia mais participativa, depois da II Guerra Mundial: corrupção. Outras palavras fortes: "indignação", "covardia". E o advérbio que remete à maior campanha política de massas que o Brasil já teve, pelas eleições diretas, em 1984: "já". A cartilha de 12 páginas, grampeada, com boa qualidade de impressão, está sendo distribuída nas ruas. Não é apócrifa. Logo no começo, na página 2 há uma lista de nomes de "fundadores" do "movimento". Não conheço nenhum, além do nome não há outra identificação. RPJ são as iniciais de "Reforma Política Já", o movimento. A "instituição" se chama Pró-Cidadania -- Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Cidadania. Seu presidente é Marcílio A. Moreira. Tem página na internet (www.rpj.org.br), telefone (31-9122-4330) e email: m2augusto@hotmail.com.
Há poucos dias, um grande movimento de sindicatos, associações, organizações diversas e partidos políticos inclusive, todos identificados, promoveram um grande plebiscito a favor da reforma política. O mesmo objetivo que, aparentemente, o RPJ busca. O plebiscito pede a eleição de uma Constituinte exclusiva para a reforma política. O resultado do plebiscito saiu ontem: foram 7,4 milhões de votos favoráveis à Constituinte (97,2% -- 2,7%, contrários), número bastante expressivo para um movimento organizado pela sociedade, sem participação governamental nem estatal. O RPJ não participou. Por quê?
Música do dia: Charles Anjo 45 (Jorge Ben), com Caetano Veloso
quinta-feira, 2 de abril de 2026
O fenômeno Lula
Brizola era de esquerda; Lula e FHC são?
O 'lobby' sionista "de esquerda" no Brasil: Tábata Amaral, Clara Ant, Jacques Wagner
terça-feira, 31 de março de 2026
Tribunal americano equipara rede social a droga e condena Meta a pagar indenização
Indenização a jovem que foi lesada pelo vício das redes sociais é de 6 milhões de dólares. Documentos da defesa mostram que dirigentes e funcionários da Meta tratam seu produto como droga viciante há muito tempo. "Agora vamos atrás de crianças de 13 anos", diz uma das provas. A estratégia dos advogados foi a mesma usada no século passado contra a indústria do tabaco, que também durante décadas fez propaganda de cigarros e induziu o público a se viciar, tendo conhecimento dos males que provocava. Então e agora, em nome do lucro, movidos sempre pelo capital. A previsão é que uma enxurrada de ações e sentenças virá em seguida, levando ao controle dessas empresas criminosas, finalmente. Um Calma Urgente! de vez em quando é bom. É interessante constatar como Alessandra Orofino e Gregório Duvivier são liberais, acreditam na democracia burguesa, o que significa acreditar no capitalismo e no neoliberalismo. Bruno Torturra compreende a extensão do assunto, a profundidade da questão.
segunda-feira, 30 de março de 2026
A escravidão ao capital é o entrave ao bem-estar humano
"Na China, uma pessoa entra numa cabine e em quinze minutos faz um checape completo", narra Elias Jabbour, para exemplificar como a inteligência artificial pode ser usada para o bem-estar coletivo, numa nação socialista, em vez de ser usada para empresas venderem porcarias e bilionários ficarem ainda mais ricos, como acontece na civilização capitalista.
O fato é que o mundo pode ser muito melhor, se os humanos assumirem o controle do capital, em vez de serem escravos dele e dos seus proprietários. A China fez isso e está mostrando o caminho para o restante da humanidade. Esse é o ponto. As discussões sobre se a China é capitalista ou socialista, se é uma ditadura ou democracia, só mostram o elevado grau ideológico a que o capital nos submeteu no Brasil. Que autoridade temos nós para falar em democracia, numa nação de tanta miséria, tanta violência, tanta exploração do trabalho, tanta opressão, tanta corrupção dos políticos e autoridades capitalistas? Como me disse uma diarista no ônibus, hoje: de quatro em quatro anos, aparece um candidato lá em casa pedindo meu voto, depois some, não quer saber se eu estou precisando de remédio, de comida nem nada. É essa a democracia que a esquerda brasileira defende há mais de quarenta anos. O único obstáculo entre a riqueza extraordinária que os seres humanos produzem e o seu bem-estar é a dominação do capital. Inverta-se isso, assumam os trabalhadores o controle sobre o capital e a vida será incomparavelmente melhor.
domingo, 29 de março de 2026
O melhor aluno da turma*
Em memória do Paulo Gualberto Murta (30/9/1953 - 25/3/2026).
Olhei para os dois lados da Avenida Antônio Carlos, não vi nenhum carro e atravessei correndo. Súbito, ouvi um grito e senti um baque que me estirou no asfalto. Só então vi a bicicleta. Tinha sido atropelado e o ciclista assustado perguntava se eu estava machucado. Respondi que não, olhando as mãos, os joelhos e cotovelos esfolados. Apressei-me a levantar, limpei a camisa branca, apanhei minha pasta de couro preta e retomei o caminho, correndo novamente. Estava atrasado para a aula: tinha consumido os primeiros minutos da manhã terminando o para casa e agora precisava encontrar o portão aberto ou todo meu esforço teria sido em vão.
O grupo escolar era um lugar penoso. Para ir à “casinha”, como se chamava o banheiro, precisava de permissão da professora, quando tinha coragem de pedir. Era uma situação traumática: no jardim de infância, uma vez, não consegui controlar, me sujei e permaneci sentado até que chegassem para me buscar, no começo da noite. O jardim, um conjunto de salinhas interligadas no segundo andar de um sobrado, com piso de taco e paredes cheias de cartazes e desenhos, me dava tristeza. A tarde passava devagar enquanto eu e outros meninos e meninas que nunca se tornaram meus amigos permanecíamos sentados em volta de mesinhas com quatro cadeirinhas cada uma, aprendíamos a escrever nosso nome, ouvíamos histórias tenebrosas de lobos maus e bruxas cruéis e brincávamos de toquinhos e massinhas. Só uma vez me alegrei, com um acontecimento extraordinário: descemos à avenida para saudar a bela Staël Abelha, mineira eleita Miss Brasil, desfilando em carro aberto. No grupo, também ficávamos sentados, mas era em carteiras enfileiradas. A sala de aula era uma prisão, eu ficava sentado na carteira, não podia levantar, não podia conversar, não podia sair. Tinha que permanecer em silêncio, prestar atenção na professora, copiar no caderno o que ela escrevia com giz branco no quadro verde. Como curumins ingênuos, a gente se divertia com as novidades, sem saber que estava sendo treinada pela ideologia do sistema para assimilar sua visão do mundo e obedecer suas leis. Algum gaiato soltava um comentário ou fazia alguma coisa engraçada e arrancava gargalhadas e olhares cúmplices na rebeldia à disciplina que a professora tentava impor. Colegas puxavam conversa, as meninas bonitas atraíam minha atenção, a luz do sol e os ruídos externos me distraíam. Eu olhava para as janelas laterais e minha mente voava, pensando nas brincadeiras que me aguardavam em casa, mas devia corresponder à expectativa da professora e ser bom aluno, para ser recompensado com carinho e admiração. Sem fazer esforço, era aprovado ano após ano com média final máxima. O segundo ano foi especial. Dona Maria Luísa era carinhosa e me incentivava com anotações na caderneta, ao lado das notas das provas bimestrais. No final do ano, escreveu palavras exclamativas: Promovido com 10! 1º lugar! Parabéns! Ela estava grávida e no começo do ano seguinte saiu de licença. Uma manhã recebemos a notícia fúnebre: minha professora querida tinha morrido ao dar à luz. Minha turma visitar sua casa, na Rua Turvo, a dois quarteirões do grupo. Minha mãe, que acabara de ganhar minha irmã caçula, comentou, consternada, que era inadmissível em pleno século XX ainda se morrer de parto no Brasil. No terceiro ano, eu fazia desenhos para ilustrar meus trabalhos e os de colegas e vizinhos que vinham pedir minha ajuda. Dona Marlene, que falava alto e tinha sotaque nortista, se entusiasmava com as minhas composições na séria intitulada “Se eu fosse…” e não se cansava de elogiar minha imaginação para os meus pais. Foi perturbador perder o posto de melhor aluno no quarto e último ano do grupo. Conceituada e temida, Dona Dagmar inspecionava nossos cadernos, um por um, na fila, antes de entrarmos em sala, e aquele ritual me apavorava. Ela desconsiderava meu passado escolar e o fato de ser filho de uma colega e, quando eu levava um bilhete que justificava com a asma um dever de casa não feito, perguntava para a classe: “Tem mais algum doentinho que não fez o para-casa?” Querendo me proteger da megera, minha mãe tentou me trocar de turma, mas não teve sucesso e o episódio selou minha queda. Eu me sentia culpado, pois era relapso. Mal saía da escola, aliviado pelo fim de mais um suplício, abraçava meu amigo e xará, moreninho, tímido e gentil, que morava num bairro distante e sempre tinha dinheiro no bolso, e íamos os dois comprar picolés de groselha na sorveteria da esquina. Eu sabia que aquele gelado proibido e irresistível poderia resultar numa crise de asma, assim como passar a tarde jogando bola na poeira, mas fazia assim mesmo, e adiava o dever de casa para a noite. À noite, distraído pela televisão e vencido pelo cansaço, calculava que poderia cumprir a obrigação no dia seguinte, antes de ir para a aula, se acordasse bem cedinho… Ao acordar, porém o que tinha parecido uma boa solução mostrava-se inexequível diante do sono matinal, e eu preferia dormir mais um pouquinho: levantava em cima da hora, vestia o uniforme correndo, arrumava a pasta, engolia o café com leite e saía mastigando o pão com manteiga, esforçando-me para chegar a tempo, rezando para não ter fila de revista e escapar das chamadas da dona Dagmar.
Naquela manhã, depois de ser atropelado pela bicicleta, encontrei o portão do grupo ainda aberto e me acalmei ao alcançar a sala de aula, pois estava preparado: o para casa tinha sido fácil, uma composição sobre o tema “Meu melhor amigo”. Sem titubear, escrevi sobre José, com quem brincava desde que me lembrava, depois que Gérson foi embora para sempre. Nomeei-o, narrei nossas brincadeiras, proclamei os sentimentos que nos uniam e concluí: “Por tudo isso, José é o meu melhor amigo”. Quando dona Dagmar me chamou, levantei-me e li com segurança minha redação, voltei a sentar satisfeito e esperei pelas outras leituras. A menina que leu depois de mim teceu loas ao seu melhor amigo e fez suspense sobre seu nome. Estranhei que seu melhor amigo fosse homem e não mulher, e compreendi no final, quando ela revelou que falava do seu pai, mas achei aquilo falso e piegas. Outros colegas leram suas composições em seguida e todos falaram do pai. A cada nova leitura eu me encolhia na carteira, envergonhado por também não ter falado do meu pai: no domingo seguinte comemorava-se o Dia dos Pais e com certeza, apesar do título, a instrução da dona Dagmar era homenagear nossos pais, mas eu comi mosca e dera um vexame. Na votação feita pela turma, a minha composição ficou em último lugar; todos deviam pensar que eu não gostava do meu pai. Para mim, no entanto, pai era pai e amigo era amigo.
*Capítulo do livro Ainda me Lembro (17).