segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Soneto da fildelidade

E agora o rei. 

 

Soneto da fidelidade 

(Vinicius de Morais)  

 

De tudo, ao meu amor serei atento 

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto 

Que mesmo em face do maior encanto 

Dele se encante mais meu pensamento. 

 

Quero vivê-lo em cada vão momento 

E em louvor hei de espalhar meu canto 

E rir meu riso e derramar meu pranto 

Ao seu pesar ou seu contentamento. 

 

E assim, quando mais tarde me procure 

Quem sabe a morte, angústia de quem vive 

Quem sabe a solidão, fim de quem ama 

 

Eu possa me dizer do amor (que tive): 

Que não seja imortal, posto que é chama 

Mas que seja infinito enquanto dure.

Música do dia: Pois é (Elis e Tom)

Chico Buarque, autor da letra, é o vice-rei do piropo; o rei é o Vinicius, como o próprio Chico o nomeou.

Música do dia de ontem: Will you love me tomorrow (Carole King)

Descobri ontem talvez de forma premonitória que essa música tão significativa sobre o amor não estava na minha lista de prediletas. Um lapso. Agora está. 

Quem está preparado para uma nova ditadura?

O discurso da vitória do Jabbour é de uma sinceridade comovente. E me dá medo porque me faz antever tempos tenebrosos. Ele é um dos novos expoentes da esquerda brasileira no século XXI, ao lado do Jones Manoel e outros. É muito inteligente, culto, experiente, coerente, sério e autista. O autismo lhe confere características psicológicas especiais. Ele alerta para a provável vitória da extrema direita e para a ditadura que virá. Parece pessimista ao ser realista porque nós, brasileiros, temos tendência a fugir da realidade com um otimismo bem-humorado. Basta conhecer a nossa história para constatar as violências perpetradas pelas classes dominantes aos seus opositores, desde o período colonial. Com a formação da nacionalidade brasileira, isso não mudou. São inúmeros episódios e períodos de horror. Os mais recentes e ainda presentes na memória das gerações vivas são a ditadura militar (1964-1985) e o governo do inominável (2019-2022). A pergunta que faço é: por que não aprendemos? Por que a maioria continua achando que a dominação capitalista no Brasil é uma brincadeira que pode ser resolvida a favor dos dominados com grandes acordos com setores das classes dominantes e a conciliação de classes? Há certamente intelectuais, políticos e até partidos de esquerda que pensam como eu, mas há uma grande diferença entre pensar e agir. Quem, na esquerda brasileira, está preparado para enfrentar uma nova ditadura? A eleição de 2026 mostra o encolhimento do chamado centrão e o crescimento da extrema direita, mas mostra também o crescimento da esquerda radical. Vivemos um período de polarização, agora sim, em detrimento do centrismo, característica política da Nova República. A palavra de ordem a partir de 2027 é mais uma vez resistir ao fascismo inerente às classes dominantes e sobreviver à ditadura sanguinolenta que virá. Dessa vez, enfim, será a esquerda capaz de construir uma alternativa própria de poder nacional, de liderá-la, ter sucesso e implantá-la? Eis a questão.  

sábado, 10 de outubro de 2026

A falência da Nova República

Os analistas políticos estão em polvorosa para entender o que está acontecendo, embora o Brasil esteja em crise permanente há uma década. Desde o golpe de 2016 que derrubou a Dilma toda eleição presidencial é uma nova crise. Parece incompreensível como um quebra-cabeça de muitas peças cuja imagem ignoramos. A imagem é a Nova República, a ordem na qual vivemos há 41 anos, e a peça que coloca tudo no lugar é a ideologia da democracia. Se entendemos isso, tudo encaixa. A "democracia brasileira" é uma fantasia criada pela sociedade em oposição ao horror da ditadura militar (1964-1985), mas sempre foi uma confusão danada. Sua certidão de nascimento é a Constituição de 1988, um texto amplo, contraditório e cheio de pendências que ficaram para governos posteriores regulamentarem, muitas não foram e várias mudanças alteraram o sentido original da Constituição. Cabe ao STF zelar pelo seu cumprimento, mas o STF se corrompeu junto com os demais poderes e toda a política. De que vale a democracia, se a vida do povo é uma merda? O único poder que o povo tem é o de votar de quatro em quatro anos e tirar do poder quem está lá e presumivelmente é responsável pela vida ruim. A extrema direita se apresenta como força que vai mudar tudo, o que o povo vai escolher? Manter ruim como está ou arriscar? É a nova ordem da extrema direita que está nascendo, que tal batizá-la de "Velha Ditadura"? Se a esquerda quer reconquistar o povo, precisa apresentar um novo projeto de ordem social também, que melhore sua vida, em vez de ficar tentando preservar a "Nova República".   

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Marina, Ciro e Lula

Nenhuma descrição de foto disponível.Estou pensando nas trajetórias do Ciro Gomes e da Marina Silva, os dois maiores políticos da minha geração, ambos eclipsados pelo gênio político e pela mediocridade do Lula, cujo narcisismo é muito maior do que o amor que ele tem pelos brasileiros e pelo Brasil. Tanto Marina quanto Ciro saíram derrotados dessa desastrosa eleição de 2026, muito pior do que a de 2018, mas ocupam posições muito diferentes: Marina foi uma candidata do Lula, elogiada por ele na derrota, enquanto Ciro foi derrotado pelo lulismo no Ceará. É provável que os três estejam encerrando suas carreiras políticas este ano. Os três também lutaram até o fim, cada um do seu jeito. Quem se lembra que Marina apoiou Aécio no segundo turno em 2014? Ciro apoiou Dilma, mas ambos foram trucidados pelo lulismo, Marina em 2014, Ciro em 2018 e 2022; Marina voltou submissa ao comando do Lula em 2018, Ciro não se submeteu mais. Na política, feio é perder, ninguém se lembra dos perdedores. Ciro, se vencesse este ano, teria todo o respeito do lulismo e este certamente até lhe pediria ajuda para eleger Lula no segundo turno. Uma das características do lulismo é eliminar qualquer concorrência no campo da esquerda. Não há muita diferença em relação ao bozoísmo, que também fez questão de afirmar que o candidato da extrema direita tinha de ser um bozo, e aparentemente se saiu melhor do que Lula em 2018, pois o bozo jr. se saiu melhor do que Haddad. Isso deveria ensinar muito ao lulismo, ou pelo menos ao petismo, mas o petismo tem muita dificuldade em aprender, porque considera que só existe um mestre, Lula, e este se considera infalível, portanto só aceita a derrota final, definitiva. Ela virá agora? Todos esperamos que não, porque com ela virá o caos, uma destruição arrasadora do Estado brasileiro. Todos nos tornamos lulodependentes. Lula me lembra aquela fábula do escorpião (por sinal o signo dele) e do sapo (nós): se ele abrisse mão do poder, se salvaria e salvaria o povo brasileiro, mas ele não trai a sua natureza. Com seu jeito de negociador carismático e encantador de serpentes, Lula de fato sempre joga no tudo ou nada, sendo que o tudo é ele. Entraria para a história, caso não fosse um escorpião e terminasse a travessia do rio tranquilamente em 2010, como um dos maiores presidentes da história, seria lembrado como Getúlio Vargas ou JK, mas desde então desceu a ladeira e já tem hoje a metade da popularidade que tinha, carregando contra si não o ódio dos ricos, que nunca mudou, exceto em alguns expoentes, que o identificaram como um dos seus, mas o ódio dos pobres que deveriam adorá-lo ainda, como adoravam em 2010. Sua posição agora é saber se fará o pior dos seus quatro governos ou sairá derrotado pela ascensão neofascista que foi incapaz de conter. Acho que teria sido muito melhor, para ele e para os brasileiros, que tivesse deixado a esquerda escolher novos líderes, dos quais Ciro e Marina eram os melhores, muito melhores que Lula inclusive, mas a política tem sua própria lógica e não considera bobagens como o que é melhor para a coletividade. É inacreditável o que aconteceu com o Brasil e seus habitantes entre 2010 e 2026. 

São Gonçalo do Rio das Pedras

Música do dia (2): Love (John Lennon)

Qual é a melhor música do John Lennon? Woman? Imagine? Jealous Guy? Nowhere man? God? In my life? Help!? Não há uma apenas, são muitas. John foi um gênio musical e um grande poeta, compôs inúmeras obras-primas. Publico esta hoje como poderia publicar muitas outras, um pouco pelas imagens que me transmitem exatamente isso: amor. John, o humano mais importante do século XX, faria hoje 86 anos. Foi assassinado aos 40, no auge da vida criativa e amorosa. Não foi apenas um dos dias mais tristes da minha vida e de milhões de admiradores, foi também o dia em que a espécie humana demonstrou que não tem salvação -- talvez as novas gerações criadas com amor mudem essa conclusão. Como foi possível que um artista que passou a vida cantando o amor fosse assassinado friamente, absurdamente? E foi.  

Love is real, real is love 

Love is feeling, feeling love 

Love is wanting to be loved 

Love is touch, touch is love 

Love is reaching, reaching love 

Love is asking to be loved 

Love is you, you and me 

Love is knowing we can be 

Love is free, free is love 

Love is living, living love 

Love is needing to be loved 

Música do dia: Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo)

Criar uma obra-prima, acho, é compor uma melodia linda e encontrar versos à altura dela. Foi o caso dessa, que reproduzo aqui em versão instrumental. É a melodia que nos faz gravar e cantar os versos: "Nós os poetas erramos / porque rimamos também / os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem..."  

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

"É preciso reconquistar o povo para salvar a democracia"

Poderia resumir com a frase acima o pensamento do Safatle nessa entrevista, que no entanto é muito mais rico. Ele defende que Lula escreva uma "carta ao povo precarizado", como em 2002 escreveu a "carta aos banqueiros", enganosamente intitulada "carta aos brasileiros", na qual prometeu manter a política econômica do governo FHC, o que de fato fez e faz ainda. O intelectual mais lúcido do país recomenda ao presidente que, se quiser reconquistar os votos que perdeu, deve dessa vez acenar para o povo e não para os banqueiros. Diz o óbvio, mas de forma consequente, o que não faz Singer e outros: a esquerda ficou defendendo o Estado burguês e perdeu o povo, a extrema direita oferece ao povo uma esperança de mudança na vida miserável que tem. A esquerda precisa ser esquerda para conquistar o povo e oferecer SUS de qualidade, educação de qualidade, transporte de qualidade, moradia de qualidade, salários de qualidade, aposentadoria de qualidade, cidades de qualidade, combate efetivo às mudanças climáticas, em vez de andar para a direita e aliar-se ao centrão corrupto e reacionário. A extrema direita mostrou isso mais uma vez nessa eleição ao ampliar sua bancada no Congresso e encolher o centrão. É preciso conquistar o povo, os eleitores, os trabalhadores, não os políticos corruptos, as "elites", os empresários. A democracia que tiver o povo como base será uma democracia muito diferente dessa democracia burguesa corrupta.