quarta-feira, 22 de abril de 2026

Em 2018, Lula queria um candidato para perder a eleição

Minha opinião sobre 2018 é a mesma expressa nesse vídeo. Não foi a primeira vez que Lula fez isso. Assim como FHC inventou a reeleição para se beneficiar, imoralmente, em 1998, Lula inventou Dilma em 2010 para guardar sua vaga e voltar em 2014, mas ela quis continuar. Lula poderia ter tido grandeza e escolhido o melhor para o país, em 2010 e 2018, mas ele se considera insubstituível. Se alguém melhor do que ele, feito Ciro, chegasse à presidência, ele passaria a segundo plano, por isso escolheu postes. Isso não me surpreende, o que me espanta é a quantidade de intelectuais, artistas e políticos que se submetem a ele e ao seu discurso tão pobre. Hoje, tem muita gente acordando, a chamada "esquerda radical", ou comunista, faz críticas abertas ao lulopetismo, mas já é tão tarde, tantas coisas ruins poderiam ter sido evitadas se Lula tivesse se retirado em 2010, no auge da glória. Até para ele mesmo, para sua biografia e sua pretensão de entrar para a história brasileira, teria sido melhor.  

Música do dia (2): Valsa nº 2, de Dmitri Shostakovich

E como uma coisa puxa outra, esta belíssima Valsa nº 2, de Shostakovich, mais uma apresentação grandiosa no estilo do André Rieu e bem característica de espetáculos europeus ao ar livre antes da pandemia.  

Música do dia: I Will Follow Him

A canção é ótima, desde a primeira gravação, por Peggy March (aos 14 anos!), passando pela que eu conhecia, do Rick Nelson, alterada para "I Will Follow You", mas ficou mesmo sensacional no filme Mudança de Hábito, uma coisa em que os americanos, digo estadunidenses, não têm rivais, e ainda mais emocionante nessa versão num espetáculo ao ar livre com orquestra e coral sob regência de André Rieu.

Mais uma entrevista do Lula

Mais ou menos metade desse vídeo é uma entrevista com o presidente Lula. Muito ruim, por sinal. Me parece que Lula vive em outro mundo. Dá pra gente pensar em muitas coisas enquanto ouve, a primeira, óbvia, é quem ainda aguenta essa ladainha, mas me ocorre logo a comparação com o Ciro Gomes, que os lulopetistas acusam de ser autoritário etc. e tal. Lula não deixa ninguém falar e, no entanto, não é chamado de autoritário. Falar sem parar é um instrumento que ele usa para se impor. Quase tudo que diz que precisa ser feito, a gente pode perguntar: e por que ele, Dilma e o PT não fizeram em 20 anos? Em relação a todas as dificuldades que tem para governar, a gente pode perguntar: por que então quer mais um mandato? Acho que Lula perdeu sua grande qualidade, o conhecimento da situação do povo, que talvez nenhum outro presidente tenha tido tão bem. Ouvindo a entrevista, o que mais me ocorreu foi a previsão de que dessa vez ele não vai ganhar. Se ganhar, será realmente um milagre, que os lulólatras acreditam que ele é capaz de fazer. Cada vez compreendo mais o raciocínio que parece ser majoritário entre os brasileiros hoje segundo o qual, seja com Lula seja com bozo, sênior ou júnior, pouco muda na vida do povo. Outra convicção é que um precisa do outro. E mais uma: enquanto Lula estiver no topo, nenhuma liderança de esquerda ganhará força. 

domingo, 19 de abril de 2026

Mais uma ótima análise do Jones Manoel

O comunista pernambucano faz o que eu sempre esperei da esquerda brasileira, desde os anos 1970, quando comecei a ouvir os discursos ditos marxistas-leninistas: propostas factíveis para governar o Brasil capitalista e transformá-lo numa grande nação razoável, econômica, social e politicamente democrática. A esquerda nunca entendeu o Brasil concreto, sempre falou de um Brasil teórico, baseado nas experiências revolucionárias estrangeiras e nas análises sociais europeias. A Polop tentou pensar a revolução brasileira no começo dos anos 1960, mas os resultados práticos do seu esforço foram pífios ou desastrosos. Quando chegou ao poder, com FHC primeiro e depois com Lula, a dita esquerda adotou o neoliberalismo como modelo, se submeteu confortavelmente ao capital e esqueceu os compromissos com os trabalhadores. Jones Manoel me parece o primeiro intelectual marxista brasileiro que une as ideias socialistas à realidade nacional concreta. Pouco a pouco ele vem elaborando uma alternativa de esquerda com possibilidades de ser bem-sucedida, de fazer um governo mil vezes melhor do que os medíocres governos lulopetistas e milhões de vezes melhor do que os governos da extrema direita. Acrescento que ele não é o único político brasileiro a fazer isso; sem o mesmo compromisso com a revolução socialista e a ideologia marxista-leninista, Ciro Gomes apresenta sem sucesso aos brasileiros desde 1998 um projeto que em muito se assemelha ao do JM.

Música do dia (2): Prelúdio Nº. 1 em C maior, BWV 846, de J. S. Bach

Bonitinho o vídeo.

Finalmente um discurso de esquerda no Brasil

Eu não ouvia nada parecido desde 1977, quando os estudantes universitários brasileiros voltaram às ruas. Aos poucos, no próprio Movimento Estudantil, esse discurso foi abafado e finalmente calado em toda a esquerda em nome da defesa das liberdades democráticas, as quais, viu-se depois, nada mais eram do que o neoliberalismo, o velho Estado burguês. A maior vergonha é que nas últimas décadas essa ordem tenha sido implantada e mantida pelo governo de um partido dos trabalhadores (sic).

Para Lula, de Maquiavel

foto-maquiavel

Quem sou eu para dar conselhos ao maior político brasileiro do nosso tempo, mas o gênio fundador da Ciência Política merece ser ouvido, por seu conhecimento amplo e universal, ainda que não abarque os seis últimos séculos da História, que transformaram a trajetória do Homo sapiens da Renascença na barbárie quase consumada. Troquemos nomes e veremos o Brasil contemporâneo. Lula tinha fama de não ler, ganhou fama de devorador de livros na prisão, segundo seu biógrafo autorizado, não se sabe se leu o Florentino, mas um dos seus inúmeros acólitos poderia ler ou reler para ele. O texto abaixo é o 26º e último capítulo do livro O Príncipe, obra máxima de Nicolau Maquiavel; a tradução é de Mário e Celestino da Silva, no volume 248 das Edições do Senado Federal

Exortação a libertar a Itália dos bárbaros 

DEPOIS DE HAVER REFLETIDO em tudo o que se disse nos anteriores capítulos; após ter perguntado a mim mesmo se os tempos atuais da Itália são de molde a permitir que um novo príncipe adquira nela celebridade e se homem sábio e virtuoso poderá encontrar aqui matéria suscetível de tomar nova forma que constitua motivo de glória para ele e um benefício para a totalidade dos italianos, conclui que talvez nunca tenha existido outra época tão propícia a vinda de um novo príncipe como a de hoje. Se, conforme eu disse, para se conhecer a virtude de Moisés, a grandeza de ânimo de Ciro e a excelência de Teseu era necessário, respectivamente, que o povo de Israel fosse escravo no Egito, que os persas estivessem oprimidos pelos medas e que entre os atenienses lavrasse a desunião, assim, no presente, para se conhecer o valor [virtú] de um espírito italiano era preciso que a Itália descesse ao extremo de hoje, que fosse mais escrava do que os hebreus, mais oprimida que os persas, mais desunida que os atenienses, sem chefe, sem ordem, vencida, despojada, dilacerada, invadida, e que tivesse vencida, e que tivesse suportado toda a espécie de vexames. 

Embora um ou outro de seus homens haja revelado indícios de gênio, deixando supor que Deus o destinará à missão de o redimir, viu-se depois que no ponto culminante das suas ações sofreu o repúdio da fortuna. Destarte, tendo ficado como que sem vida, ela espera quem venha curar-lhe as feridas e pôr um paradeiro à pilhagem dos lombardos, às espoliações e tributos do reino de Nápoles e da Toscana e a sare de todas as chagas já de muito gangrenadas. Veja-se como roga ao Senhor que lhe mande alguém capaz de a salvar dessas crueldades e insolências bárbaras; como está ainda inteiramente pronta a seguir uma bandeira, desde que alguém a desfralde! E a quem poderia ela no momento presente confiar melhor a realização das suas esperanças, do que a vossa ilustre Casa, com os seus méritos [virtù] e fortuna, com as graças de Deus e da Igreja, a qual deu um príncipe [o papa Leão X, da casa dos Médicis]? Quem, mais do que ela, indicado para se colocar à frente dessa obra de redenção? Isso não será difícil se os lembrardes da vida e das ações dos príncipes que mencionei. Posto esses homens fossem extraordinários, nem por isso deixaram de ser homens, e nenhum deles teve oportunidades tão boas como a que agora se apresenta, pois, as suas empresas não foram mais justas nem mais fáceis do que esta, nem Deus foi para eles mais benevolente do que o é para convosco. De grande justiça reveste-se o caso atual: justum enim est bellum quibus necessarium, et pia arma ubi nulla nisi in armis spes est. [É sempre justa a guerra quando necessária, e piedosas as armas quando não há esperança a não ser nas armas.] Favorabilíssimo é o ânimo existente, e quando esse existe e se inspira nos exemplos que para isso vos propus, não pode haver grandes dificuldades. Outrossim, veem-se, no caso, ocorrer fatos extraordinários, sem precedentes, filhos da vontade de Deus: as águas do mar separaram-se, uma nuvem indicou o caminho, da pedra jorrou água, choveu maná; e tudo concorre para a vossa grandeza. O resto pertence a vós fazê-lo. O Todo-Poderoso não quer fazer tudo para não nos tirar o livre-arbítrio e a parte de glória que nos cabe. 

Não vos admireis que nenhum dos italianos por mim referidos tenha sido capaz de fazer o que da vossa ilustre Casa se pode esperar, nem que, depois de tantas revoluções e de tantos manejos bélicos, pareça ter-se extinguido na Itália a virtude militar. A razão deste fato está em que as antigas instituições [militares] do país não eram boas e ninguém soube fundar novas. Nada contribui tanto para a glória de um homem que surja no horizonte quanto as novas leis e instituições que ele venha a criar. Quando elas são grandiosas e sólidas, tornam-no digno do mais alto respeito e admiração. Ora, não falta na Itália matéria adaptável às mais variadas formas que um artífice lhe queira dar. A virtude que escassear nos chefes, supri-la-ão os subalternos. Observai os duelos e as lutas de grupos, e vereis até que ponto chega a força, a destreza e o talento dos italianos. E, todavia, quando a luta é de exércitos, esses dotes desaparecem. Tudo isso tem por causa a fraqueza dos chefes: os capazes não se sujeitam a obedecer; todos se julgam capazes, e até hoje nenhum houve cujo valor [virtù] e fortuna fossem bastantes para compelir os demais a dobrarem a cerviz. Daí provém que de tão longo decurso de tempo, em tantas guerras feitas nos últimos vinte anos, todas as vezes que o exército se compunha inteiramente de italianos, só fracassos se tenham verificado. Disso dão testemunho, primeiro, o Taro, e depois Alexandria, Cápua, Gênova, Vailate, Bolonha e Mestre. 

Se vossa ilustre Casa quiser, portanto, seguir o exemplo dos homens insignes que redimiram as suas províncias, cumpre-lhe antes de mais nada ter, como verdadeiro alicerce de qualquer empresa, exércitos seus; porque não se encontram soldados mais fiéis, mais sinceros e eficientes do que os italianos. E se individualmente são bons, melhores ainda serão quando, todos juntos se virem comandados, distinguidos e sustentados pelo seu príncipe. É necessário, por conseguinte, apresentar essas armas para poder, com valor [virtù] italiano, defender-se dos estrangeiros. Posto que as infantarias suíça e espanhola tenham fama de temíveis, ambas possuem falhas, motivo pelo qual uma terceira espécie de tropas poderia, não apenas resistir-lhes, mas também vencê-las. Com efeito, os espanhóis fraquejam diante da cavalaria e os suíços têm medo dos infantes quando estes os acometem com ímpeto igual ao seu. Daí se origina o fato, que a experiência já demonstrou e ainda demonstrará, de não poderem os espanhóis arrostar a cavalaria francesa e de serem os suíços esmagados pela infantaria espanhola. É verdade que deste último caso não houve até agora prova cabal. Contudo, tivemos um parcial na batalha de Ravena, quando a infantaria espanhola lutou com as tropas alemãs, que empregam um método de combate igual ao das suíças. Os espanhóis, valendo-se da sua agilidade e dos seus broquéis, insinuaram-se por entre os piques dos alemães e atacaram-nos livremente, sem que os seus adversários pudessem defender-se; e tê-los-iam matado todos se a cavalaria não houvesse investido contra eles. Conhecidas, pois, as falhas de uma e de outra dessas infantarias, pode-se organizar uma de novo tipo, apta a resistir à cavalaria e não receosa dos infantes. Bastará para tanto criar novas espécies de armas e novas maneiras de combater. É isto que dá prestígio e grandeza a um príncipe novo. 

É, portanto, essencial aproveitar esta ocasião, para que a Itália veja, após tanto tempo, aparecer o seu redentor. Nem sei exprimir com quanto amor, com quanta sede de vingança e fé obstinada, com quanta ternlura e quantas lágrimas ele seria acolhido em todas as províncias que tanto padeceram com aquelas inundações estrangeiras. Que portas se fechariam diante dele? Que povos lhe recusariam obediência? Que inveja ousaria opor-se-lhe? Qual o italiano capaz de negar a sua homenagem? A todos repugna este bárbaro domínio. Abrace, pois, a vossa ilustre Casa esta causa, com aquele espírito e aquela esperança com que se abraçam as empresas justas, para que debaixo das suas insígnias se nobilite esta pátria e sob os seus auspícios se cumpra o dito de Petrarca: 

Virtú contro furore
Prendera l’arme; e fia il combatter corto,
Chè l’ antico valore
Negl’italici cuor non è ancor morto.
 

[A virtude empunhará as armas contra a fúria; e a luta será breve, porque o antigo valor ainda não se extinguiu nos corações italianos. Petrarca, Cancioneiro, parte I, CXXVIII (canção XVI), versos 93 a 96.]

Música do dia: Please, please me, The Beatles

A genialidade do John Lennon e da banda, incluindo o quinto Beatle. Eu não entendia inglês quando ouvi essa canção, aos dez anos ou menos, mas entendi tudo, porque arte é isso, uma música tão boa, com vozes e instrumentos tão bons, só pode dizer coisas boas. Todos os compositores sabem que música é música, a letra acompanha e não pode atrapalhar, quando está à altura da música, com ideias e jogos de palavras tipo please, please me, vira uma canção genial, embora música não precise de letra, a imaginação entende a melodia. 

sábado, 11 de abril de 2026

Música do dia (2): Mind games, com John Lennon

Ouvindo esta música a gente percebe a superioridade do John em relação aos outros Beatles (principalmente se na sequência vier Uncle Albert, uma das minhas preferidas do Paul, na qual ele se esforça e brilha) e entende a veneração que George demonstra na letra de All those years ago. E também não compreende como um sujeito que só pregou o amor foi fuzilado no auge da sua vida, conclui que o Homo sapiens não tem salvação, seu destino trágico nessa era está traçado, poderá ser diferente caso sobrevivam alguns exemplares e aprendam com o que fomos e fizemos.