segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Música do dia (3): Sobradinho, com Sá e Guarabyra
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Música do dia: Um gosto de sol, com Milton Nascimento (MN e Ronaldo Bastos)
Declaração de voto
Vou votar no Lula, é claro, como sempre votei no segundo turno – e nunca no primeiro. Dessa vez, porém talvez vote no primeiro turno, porque não tenho outra opção, como tive em 98, 2002, 2018 e 2022, o Ciro, que é, de longe, o melhor político que o Brasil teve nas últimas três décadas, mas foi inviabilizado pela mediocridade e pela corrupção do lulupetismo. Votei nulo uma vez, em 1974, no auge da ditadura militar, e mesmo assim, se fosse hoje, provavelmente não votaria de novo. Há uma grande diferença entre votar e fazer, votar e defender ideias. O voto é individual, solitário e unitário, é uma armadilha da política burguesa -- e a ciência política sabe bem disso: uma armadilha inventada para burlar o poder popular que irrompeu da Revolução Francesa. Eu não sou estúpido e não vou negar meu voto ao Lula, não vou deixar de fazer a minha parte para impedir que um candidato fascista seja eleito. Isso é elementar. Não significa que eu vou deixar de criticar essa coisa corrompida que é o lulupetismo. Eleger Lula mais uma vez é muito pouco diante do que os trabalhadores brasileiros precisam. Corrupção não é roubar, embora roubar dinheiro público seja corrupção e o lulopetismo faça isso. Corrupção é muito mais e pior: é perder princípios, objetivos, compromissos, é deixar de ser o que deveria ser, deixar de fazer o que deveria fazer, transformar-se em coisa pior do que era, trair os interesses coletivos aos quais deveria servir, para os quais foi eleito e que são a razão da sua existência, e no seu lugar colocar interesses particulares, sejam os próprios, sejam os dos ricos e poderosos, em troca de vantagens e benefícios pessoais. Não foi só o Lula e os dirigentes do luopetismo que se corromperam, foram também os militantes, os mais aguerridos militantes de esquerda que escolheram acreditar na mentirada ideológica do Lula e se abster de criticá-lo, que preferem se curvar e seguir o "grande líder" a obrigá-lo a se curvar e defender os interesses populares, os seus interesses originais, os quais o tornaram o que é. Denunciar a corrupção lulopetista é obrigação de qualquer um do povo, assim como é dever dos políticos e ideólogos de esquerda apresentar um projeto de nação alternativo ao projeto neoliberal fascista. Votar no Lula para impedir a vitória de um candidato fascista, notoriamente corrupto e instrumento do crime organizado é um ato de sobrevivência. O que eu quero, porém não é um nem outro, é um governo popular, igualitário, democrático, que distribua poder e riquezas, que empodere os trabalhadores e possibilite que o que eles produzem fique com eles, não com os proprietários capitalistas.
sábado, 1 de agosto de 2026
Eleição em Minas em 2026 é prévia da eleição nacional em 2030
A eleição em Minas é tradicionalmente retrato fiel do Brasil, porque o estado é uma espécie de média nacional. Este ano, ganhará uma característica adicional, por conta do cenário inesperado que se formou. Ela será muito diferente de eleições anteriores, porque o governador não pode ser reeleito e o vice, agora governador, que ele apoia, é fraco. Assim, perde-se a principal força, isto é, o poder eleitoral decisivo do Palácio da Liberdade. Para completar, o candidato preferido nas pesquisas, inexplicavelmente, não se lançou ainda e perdeu seu próprio partido, que decidiu apoiar outro candidato.
Com tudo isso, a eleição ficou muito aberta, com vários candidatos aparentemente em pé de igualdade na preferência do eleitorado, isso antes de pesquisas que apresentem seus nomes. As dúvidas ficam em relação ao próprio candidato preferido, se vai se lançar ou não, e a outro candidato que tem apoio de muitos partidos e terá o maior tempo de propaganda. Afora isso, a eleição terá dois ex-prefeitos da capital, Kalil, que já foi candidato na última eleição, e Patrus, do PT, cuja candidatura significa uma retomada história do partido em Minas. E o bozoísmo não tem até agora um candidato, embora, é claro, algum, exceto os dois últimos, vá se oferecer a ele.
Ou seja, a eleição em Minas toma a configuração, de certa forma, do que será a eleição de 2030, sem bozo e sem Lula, com novas candidaturas, novas articulações e candidatos que, embora recebendo apoio dos dois polos, terão de se afirmar por conta própria. Vai ser interessante observar como se comportarão os candidatos e como vai reagir o eleitorado. Será muito bom se os eleitores mineiros forem capazes de votar desprezando precocemente o que em 2030 será passado e escolherem considerando exclusivamente os candidatos em disputa e suas propostas.
O PT tem um candidato digno e a oportunidade de realizar uma campanha comprometida com os interesses dos mineiros (o principal dos quais é enfrentar a mineração destruidora e corrupta) e com o futuro de Minas e do Brasil. Mesmo porque o futuro do Brasil sempre passou, no caminho, desde Pedro I, por Minas. Oxalá o faça!
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Corrupção, governo Zema, imprensa e mineração em Minas Gerais
Apesar das catástrofes de Mariana e Brumadinho, de repercussão internacional e prejuízos gigantescos e permanentes para Minas Gerais e para o Brasil, principalmente para a coletividade e para o ambiente, a destruição produzida pela mineração no estado aumentou exponencialmente nos últimos anos, com a corrupção das autoridades que deveriam coibi-la e o silêncio da chamada "grande imprensa", comprada pela publicidade farta e outros agrados. O caso mais escandaloso é o da Serra do Curral, em Belo Horizonte. Tá tudo dominado, exceto, aparentemente, a Polícia Federal.
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Música do dia: Emanuelle, com Marie Espinosa e Quentin Bachelet
Elias Jabbour para presidente
O título é uma provocação, é claro, mas certamente o Brasil estaria melhor se ele governasse e não Lula. Vladimir Safatle, Jones Manoel e Elias Jabbour são os políticos mais lúcidos do Brasil hoje. Muito diferentes, eles convergem no amplidão do seu conhecimento e na capacidade de pensar com a própria cabeça, para além de repetirem cartilhas e reverenciarem o Lula, que é o que a esquerda brasileira fez no último meio século. Dessa forma, eles conseguem ver a realidade nacional e mundial, porque, em 2026, é impossível olhar o Brasil sem olhar ao mesmo tempo o mundo. Elias Jabbour, em especial, é um sujeito admirável, pela sua origem, condição individual e trajetória, as quais conta nessas entrevistas. Isso já o torna digno de respeito, mas o mais importante é sua posição sobre o desenvolvimento econômico contemporâneo, baseado no seu conhecimento da experiência chinesa. Gostaria muito de vê-lo com poder no governo nacional, não esse poder miúdo de ministros e até presidente e governadores, num eterno toma-lá-dá-cá, que não enxerga um palmo além do nariz, mesquinho e imediatista, que não pensa no futuro nem no povo, mas num governo nacional verdadeiro, com planejamento, racionalidade e busca do bem-estar geral. Me impressiona que ele não tenha até hoje (essa série de entrevistas é uma tentativa medíocre de fazer isso) uma assessoria competente que o ensine a dar entrevistas, ordene seu pensamento (muito rico e por isso confuso), o interrompa sempre que necessário e reoriente suas respostas, ajude-o a falar com mais calma e outras qualidades necessárias aos políticos. Afinal, ele tem 50 anos e é candidato a deputado federal. Jabbour é o avesso do Lula, que fala esplendidamente, mas não tem conteúdo. Ele tem a honestidade que falta aos políticos desse eterno centrão brasileiro, do qual fazem parte, inacreditavelmente, a extrema direita e a pretensa esquerda.
sábado, 25 de julho de 2026
Revolta da Chibata: reparações mostram o que mudou e o que não mudou no Brasil
Não consegui achar uma notícia decente sobre esse fato. Há muitas coisas a dizer a respeito. A primeira delas é como é difícil achar notícias no celular. No notebook é mais fácil, mas o sistema de busca do celular (Google) é precário e me encaminha para o que ele quer e não para o que eu quero, além do que muitos veículos, especialmente os velhos jornalões, não abrem seus conteúdos para todos. A perda de tempo procurando uma notícia é enorme, e ainda maior porque, quando a acho, tenho que superar os anúncios, numa quantidade tão grande que parece que redes sociais são catálogos de publicidade com alguns conteúdos, muito mais do que televisão e rádio. De fato, buscar informação boa no celular é uma tarefa quase impossível, o que torna compreensíveis a desinformação e a ignorância nas quais a população está imersa hoje, pois consome os lixos oferecidos pelas big techs.
Dito isso, volto à primeira observação. Em lugar nenhum consegui encontrar uma notícia decente sobre esse fato que vou resumir abaixo, acrescentando comentários. A Globo News fez uma mistura querendo dar relevância ao fato, com o comentário da Flávia (esqueci seu sobrenome), que é uma boa jornalista, mas a notícia propriamente se perdeu e ainda mais sua profundidade. A TVT, um canal dos trabalhadores, tinha obrigação de dar a notícia de forma adequada, mas não consegue, fica na superficialidade e na gracinha da canção do João Bosco e do Aldir Blanc. E até o Farol Brasil, pretensamente da esquerda revolucionária, ignora a gravidade do assunto, faz uma confusão danada e também não consegue abordar adequadamente a notícia. As notícias escritas são superficiais. E no entanto, no próprio YouTube há uma grande produção de conteúdos disponível sobre João Cândido e a Revolta da Chibata. No fim, não achei nenhuma matéria, a melhor foi esta que reproduzo abaixo, da fonte, isto é, o Ministério Público Federal, autor da ação, mas ela é anterior à decisão e também não trata adequadamente do assunto, que tem uma relevância enorme par o Brasil e pode -- e precisa -- ser abordada sob diversos aspectos.
Curiosamente, a sentença foi dada no dia 21/5/26, mas só dois meses depois virou notícia. Pior: uma olhada nas matérias publicadas leva à conclusão que ninguém foi à fonte, isto é, a sentença do juiz, coisa que eu também não fiz, porque não consegui ter acesso a ela, apesar de tentar, mas qualquer jornalista pautado poderia fazê-lo. Aparentemente, alguém fez a matéria inicial e os demais veículos saíram copiando ou todos receberam o mesmo press release. Mesmo veículos que eu considero responsáveis fizeram isso. Há inclusive uma divergência de informação nas notícias que mencionam ora R$ 200 mil, ora R$ 300 mil como valor da indenização.
Por sorte, consegui ler a notícia da Folha de S. Paulo, que por sua vez me levou a outra, de forma que entendi que se tratam de duas sentenças, mas exceto a Folha nenhum veículo menciona isso, o que no jornalismo que minha geração praticava era inaceitável. No JB, era norma de redação fazer um sub-lead com a memória do assunto. Ambas as sentenças foram proferidas pelo mesmo juiz, a primeira em maio, a segunda em julho.
Em primeiro lugar, a notícia, que é a seguinte.
O juiz federal substituto Mario Victor Braga Pereira Francisco de Souza, da 4ª Vara da Justiça Federal do Rio de Janeiro, condenou a União a pagar indenização de R$ 300 mil por danos morais aos familiares do marinheiro João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata, falecido em 1969. A ação, movida por Adalberto Cândido, de 87 anos, único filho vivo de João Cândido, se refere a ofensas feitas pelo comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, em carta enviada à Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, em abril de 2024, na qual manifesta sua oposição a que o nome do marinheiro seja incluído na relação de heróis e heroínas da pátria. O juiz rejeitou os pedidos de pagamento referente a promoções retroativas, contagem de tempo de serviço e pensões militares.
Em outra sentença, proferida em maio passado, em ação movida pelo Ministério Público Federal, o mesmo juiz condenou a União a pagar indenização de R$ 200 mil por danos morais, pelos mesmos crimes. Cabem recursos ao Superior Tribunal de Justiça. A homenagem ao marinheiro é um projeto de lei do deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ). Aprovado no Senado e pela Comissão de Cultura da Câmara, o projeto ainda não foi votado pela Câmara.
Agora os comentários.
Olsen (será parente do fotógrafo Jimmy Olsen, colega do jornalista Clark Kent no Planeta Diário e identidade secreta do Superman?) se referiu a João Cândido e seus companheiros como "abjetos marinheiros", seu comportamento como "reprovável exemplo de conduta para o povo brasileiro" e à Revolta da Chibata como "fato opróbio" e "deplorável página da história nacional". O comandante da Marinha do governo Lula afirmou que os revoltosos desrespeitaram a hierarquia e a disciplina e usaram equipamentos militares para chantagear a nação, que buscavam, deliberadamente, vantagens corporativas e ilegítimas, e que há enorme diferença entre reconhecer um erro e enaltecer um heroísmo infundado.
"Nos dias atuais, enaltecer passagens afamadas pela subversão, ruptura de preceitos constitucionais organizados e basilares das Forças Armadas e pelo descomedido emprego da violência de militares contra a vida de civis brasileiros é exaltar atributos morais e profissionais, que nada contribuirão ao pleno estabelecimento e manutenção do verdadeiro Estado Democrático de Direito", conclui a carta.
Em outras palavras, a Marinha do governo Lula usou a tentativa de golpe de 8 de janeiro para vilipendiar a memória dos marinheiros revoltosos de 1910, misturando no mesmo caldo o governo militar golpista do bozo e um movimento justo de marinheiros pobres e negros contra o açoite como castigo aplicado corriqueiramente pelo Estado brasileiro 22 anos depois de abolida a escravidão. A imprensa, os jornalistas, comentaristas e analistas, a pretensa esquerda que está no governo e a esquerda pretensamente revolucionária engoliram isso, por conveniências ou por falta de convicções. Também a sentença do juiz tangencia a questão principal, isto é, o fato de que, 116 anos depois, a essência do Estado brasileiro continua a mesma. No Brasil monarquista, no Brasil da primeira república ou no Brasil do Lula, os brancos, ricos, proprietários e oficiais mandam e os pobres, pretos, trabalhadores e subalternos obedecem ou são mortos.
A íntegra da carta está disponível no saite da Marinha e pode ser lida na íntegra clicando aqui. O leitor poderá constatar que não carrego na tinta, ao contrário, a carta sugere preconceitos inacreditáveis, estes sim inaceitáveis.
Isso é a ponta do aicebergue dessa notícia. A Revolta da Chibata, que até hoje só mereceu homenagens populares, como a célebre canção e samba enredo de escola de samba, é de fato uma página deplorável da história do Brasil não pelos motivos alegados na carta, mas sim pela conduta do Estado nacional, à qual o comportamento do almirante branco se incorporou como capítulo mais recente. Em 1910, o governo do marechal Hermes da Fonseca aceitou as reivindicações dos poderosos revoltosos, que controlavam a esquadra nacional e sitiavam a capital federal, e os marinheiros foram anistiados. Finda a revolta, a anistia foi cancelada, 18 marinheiros foram presos no Natal e encarcerados numa cela minúscula com água e cal durante três dias, 16 morrem asfixiados, só João Cândido e mais um sobrevivem. Outros marinheiros foram enviados para o Acre, vários foram assassinados e jogados no mar. João Cândido foi considerado louco e internado.
Outros detalhes escabrosos podem ser conhecidos em vídeos, inclusive áudio de entrevista com o próprio "almirante negro", que faleceu aos 89 anos. A Revolta da Chibata não é exceção na história do Brasil, que está repleta de rebeliões populares tratadas da mesma forma pelos eurodescentes ricos e poderosos e apagadas da memória nacional. A Revolta da Chibata é uma história exemplar do Brasil verdadeiro que nunca chegou ao poder, nem com Lula, o operário, como mostra este episódio recente. A Marinha ainda a denomina como o comandante Olsem a chama na carta: "Revolta dos Marinheiros". Os governos civis e ditos democráticos não fizeram o que um governo efetivamente democrático deve fazer: uma retratação pública retumbante, com homenagens e atos necessários a transformar todos os revoltosos de 1910 em heróis nacionais, não só a inclusão do nome do seu líder no "livro de aço" do Panteão da Pátria. Indenizações não significam nada, a não ser gerar notícias superficiais, basta ver a diferença entre o valor que o MPF pediu -- R$ 5 milhões -- o que concedeu o juiz.