2112 - Antes de criar o Divergência Socialista e o Último Número você fazia performances coletivas/individuais de poesias com livros impressos em mimeógrafo ao lado de Marcelo Dolabela e Rubinho Mendonça. Como surgiu esse projeto?
Jair - Surgiu de um grupo de estudantes universitários liderados por Marcelo Dolabela, bem como de alguns secundaristas como Rubinho, em torno de uma revista chamada Cemflores, inicialmente patrocinada pelo DCE Cultural da UFMG.
Judeus alemães que migraram para os EUA fugindo do nazismo agora estão fugindo dos EUA e voltando para a Alemanha com medo de também serem perseguidos pelo governo trump, como outros grupos raciais. O desafio da nossa época é entender a razão por trás da loucura na política atual.
A primeira morte que me perturbou e consternou profundamente foi a
da minha professora do segundo ano primário, dona Maria José. Eu
tinha nove anos, ela tinha sido minha professora no ano anterior, uma
professora competente e carinhosa, como posso constatar ainda hoje na
caderneta escolar, que conservei, a mais querida das minhas
professoras. Morreu jovem, no parto de uma filha, o que provocou o
comentário da minha mãe, que tinha aproximadamente a mesma idade e
a mesma profissão que ela, que era inadmissível naquela
altura do século XX ainda morrerem mulheres no parto no Brasil. Minha turma
saiu da aula, de manhã, e fomos todos à sua casa, numa rua paralela
à rua do grupo escolar, bem perto. Era o simbólico ano de 1964, em
que também o Brasil morreu mais uma vez. No ano anterior, aconteceu
outra morte memorável, mas esta foi um acontecimento de alcance
geral, acompanhado com imagens e notícias durante muitos e muitos
dias no mundo inteiro, um “fato histórico”: o assassinato do
presidente americano John Kennedy. Ele tinha a mesma idade do meu
pai, que fazia exames para diagnosticar dores no
peito e me lembro da minha mãe telefonando para o médico e pedindo que,
se tivesse notícia ruim, falasse primeiro com ela, pois meu pai
estava muito impressionado. Com imaginação fértil e raciocínio prático, eu pensei que, se meu pai morresse, eu ajudaria a sustentar a casa desenhando histórias em quadrinhos e minha irmã mais velha, que era boa aluna, poderia escrevê-las. (Seria uma manifestação dissimulada do Complexo de Édipo?) A morte rondou aqueles dias, lembro também de visitar
com mamãe uma colega de trabalho dela que sofria de câncer e morreria
logo, lembro do seu quarto confortável e bem iluminado numa casa
elegante. Meu pai viveria mais quarenta anos, com saúde para dar e
vender, morreria em idade provecta. A segunda morte de um conhecido
que me impressionou foi quando eu tinha onze anos, no breve curso de “admissão
ao ginásio”, de um colega de
aula, um menino forte, bronco e atirado. Ele morreu afogado, num domingo, e na segunda fomos
visitar sua família. Foi a primeira vez que fui a uma favela, lembro da dificuldade de chegar ao endereço, subindo vielas escuras, assim como o casebre miserável
em que tinha morado, e de encontrar seus pais, abatidos e surpresos
com nossa presença. A morte seguinte da qual me lembro foi a
primeira de alguém com quem convivia, um parente, o meu avô
paterno, o único que conheci. Ele tinha mais de oitenta anos, há
controvérsias sobre o ano em que nasceu, mas oficialmente teria
82 anos incompletos. Há uma curiosa coincidência entre meus dois
avôs: ambos nasceram no mesmo dia do mesmo ano: 20 de agosto de
1886, mas meu avô materno morreu novo, aos 60 anos, e não o
conheci. Meu avô paterno, vovô Dimas, era um homem austero,
rigoroso, bravo, diligente e bom, que ajudava minha mãe a cuidar dos
filhos, nas faltas das empregadas, e passávamos muitas horas e dias
com ele, acompanhando-o nas suas atividades domésticas e voltas pelo
bairro. Sua morte foi cercada de circunstâncias especiais, pois no
mesmo dia eu estava internado num hospital para tratamento de uma
crise de asma, a mais forte que tive, e vendo as visitas chorosas,
pensava que era por minha causa, me comovia e achava desnecessário,
pois estava me recuperando e me sentia bem. Quando voltei para casa,
minha mãe me deu a notícia com cuidados novelescos, fechados a sós
no meu quarto; me diverti com a cena e me esforcei para desempenhar
meu papel, mas não sofri o impacto, pois, por algum motivo, eu já
sabia o que ela ia me contar e considerava natural que meu avô
morresse – ele era velhinho e iria para o céu, estava tudo dentro
da ordem. O que era a morte para mim, nessa época infantil? Não era
uma coisa terrível, embora fosse triste, lamentável, dolorosa.
Horrível era morrer em pecado e ser condenado ao fogo eterno dos
infernos, mas morrer não, porque existia Deus e as pessoas boas iam
viver em Sua companhia, os sobreviventes podiam se consolar com isso.
A morte precoce e inesperada nos fazia sofrer, mas nos conformávamos
aceitando os desígnios divinos, incompreensíveis, mas sábios.
Nenhuma morte de alguém com quem eu convivia iria me abalar nos anos
seguintes, até que eu entrasse na universidade. Nessa época, quando
eu tinha já meus vinte anos, muitas coisas tinham acontecido e
mudado minha consciência, eu mesmo tinha sido vítima de uma
desgraça absurda, que poderia ter me matado talvez, não matou, mas
me custou uma vista e me deixou em estado de choque diante das mortes
ao meu redor. A desgraça confirmou o que eu tinha descoberto: a
morte absurda como fim da vida absurda, a gratuidade
da vida, a inexistência de Deus, a
ideologia humana que tinham me ensinado e me fazia funcionar, mas eu perdera e não funcionava mais no modo automático. Passaria então a me angustiar com a minha própria morte, com o fim da minha consciência, com a minha saída de cena do teatro da vida, desejando adiá-la permanentemente, pois nunca estava pronto, e sentindo, junto com a dor e a revolta de uma morte precoce e injusta e a impotência para impedir a morte de uma pessoa querida, o alívio inconfessável de que não tinha sido eu ainda, que continuava vivo, que tinha escapado, que podia continuar vivendo e tentando esquecer que também eu morreria um dia, pois a vida é isso, esse tempo, longo ou curto, se contado em anos, mas sempre breve para a consciência do indivíduo que passa os dias na Terra acompanhando o teatro humano e tentando desempenhar o papel que lhe cabe.
O partido do historiador pernambucano é o PCBR, Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, que não tem registro eleitoral, por isso ele será candidato a deputado federal pelo PSOL. Tenho dúvidas sobre a eficácia da política em redes sociais como ação transformadora de esquerda. Reconheço, e nem poderia ser diferente, a eficiência das redes sociais na difusão de informações falsas pela extrema direita, mas continuo achando que a luta de classes é presencial, que não se muda a realidade sem mobilizações reais de massas. Internet, nos seus inúmeros veículos, é um instrumento, não é a própria ação política. Dito isso, é inegável que Jones Manoel se destaca como agitador que renova o debate sobre ideias de esquerda hoje. Ele faz o que a esquerda brasileira, desde que a conheço, há uns cinquenta anos, nunca fez: desenvolver um programa de governo concreto para o Brasil sem perder de vista o objetivo final, isto é, o socialismo. É uma característica da esquerda brasileira pregar o socialismo e, no governo, praticar o capitalismo, sem ousar sequer reformar o Estado. O Brasil se tornou um paraíso dos privilegiados e corruptos, de violências contra os trabalhadores e impunidade, uma terra sem lei, em que o crime organizado está presente em todas as esferas do poder, como mostram as investigações da Polícia Federal sobre o sistema financeiro. O Brasil se tornou isso porque o neoliberalismo desregulou tudo, fez o país retroceder à condição pré-industrial, de colônia agroexportadora. O Brasil se tornou essa terra de desesperança em que a extrema direita avança pregando contra o crime e a corrupção sendo ela própria o sindicato do crime e da corrupção. O Brasil é assim hoje porque a esquerda abdicou de defender e implantar um projeto socialista e se conformou em administrar o Estado burguês, a "democracia". Jones Manoel está ocupando o espaço vazio que o PT deixou. Conforme ele próprio reconhece, é um caminho longo e difícil, mas é preciso começar. Oxalá consiga liderar uma nova esquerda.
Trocando mensagens com um ex-colega do JB nas décadas de 1980 e 1990, tentei lembrar quem votou em quem (isto é, os votos de cada um na redação da sucursal) na eleição da 1989, a primeira eleição presidencial direta depois da ditadura militar (1964-1985). E então me dei conta de que o segundo turno daquela eleição inaugurou uma situação que os brasileiros começaram a viver, em cada eleição presidencial, e que persiste até hoje, 37 anos e dez eleições depois: escolher entre Lula e outro candidato. Na eleição deste ano, Lula, que já governou graças à maioria dos trabalhadores, de cuja classe veio, visa a outra maioria, a das mulheres, como se vê no vídeo abaixo.
É um exercício muito interessante pensar na eleição de 1989, porque nos dá perspectiva histórica. Muita coisa pode ser inferida dessa simples observação, na verdade tudo, ou quase tudo da política brasileira nessas quatro décadas, e, como a política é o sistema nervoso de tudo, do próprio Brasil. A primeira coisa, óbvia, é que Lula é a maior personagem da história do Brasil, pois nenhum outro governante esteve no topo durante tanto tempo, nem mesmo Getúlio Vargas, que, do ponto de vista da construção da nacionalidade brasileira, é infinitamente maior. De fato, ao contrário de Getúlio, Lula não deixará herança palpável, institucional, e se deixar não será boa; sua obra me parece difusa, a simples administração do país, e mais alguma coisa subjetiva, na imaginação popular. Esta última, porém ainda não está muito clara para mim. Se ele tivesse saído em 2010, estaria: Lula deixaria o poder como um mito, no auge do sucesso, com aprovação quase unânime. Seria um Pelé da política, digamos assim, quanto mais o tempo passasse e a situação do país piorasse, como piorou, ele seria lembrado como o presidente de uma época dourada, como ainda hoje lembramos do JK. Muitas coisas aconteceram depois e Lula voltou a realizar façanhas, conseguiu superar o inferno da prisão e deu a volta por cima, elegeu-se presidente outra vez, mas é maior hoje do que foi no passado? Me parece que não, penso que os últimos 16 anos não o engrandeceram, embora tenham contribuído para consolidar sua condição de ídolo para uma parcela da população que já o idolatrava. De fato, prevejo um final melancólico para ele e pior para os brasileiros: deixar o poder derrotado na eleição deste ano. Se isso não ocorrer, será sua última façanha. Os ventos sopram mudança e, conforme sugere o começo deste texto, não há mudança mais simbólica e marcante no Brasil do que Lula perder o protagonismo político. Pesquisas e análises indicam isso, embora com cautela, talvez por medo da volta da extrema direita apocalíptica ao governo, talvez em respeito ao provecto líder, talvez por crença no seu poder mágico, talvez por simples perplexidade.
O Lula de 1989 era um brasileiro muito diferente. Aquela eleição, aliás, foi completamente diferente das eleições que temos tido nas últimas décadas. A eleição foi diferente porque o Brasil era muito diferente. A ditadura cumpriu seu papel de decepar a oposição de esquerda, primeiro os trabalhistas e os comunistas, que governavam com Jango, em 1964, e depois os grupos revolucionários que dirigiram o movimento estudantil de massas, em 1968. Quando os militares começaram a passar o poder para os civis, no governo do general Figueiredo, o que havia na oposição eram os sobreviventes da esquerda, no movimento estudantil e nos sindicatos pelegos. Fraca, traumatizada e confusa, a esquerda aceitou o papel de coadjuvante na oposição liderada por setores burgueses e pequeno-burgueses que queriam trocar os militares por um governo próprio. A esquerda, mesmo enfraquecida, foi fundamental para mobilizar as massas que voltaram à luta a partir de 1977. Incapazes de controlar a insatisfação popular num cenário de crise econômica, os sindicatos pelegos viram surgir um "novo sindicalismo". Lula é expoente desse sindicalismo pelego renovado. É um sindicalismo que não reivindica o trabalhismo e o getulismo, não quer colar o passado trabalhista que o golpe de 1964 e a ditadura rasgaram, ao contrário os rejeita, nas figuras do PTB e do Brizola, e quer fundar uma nova era, com o PT e Lula.
Me parece fundamental prestar atenção nesse momento para entender o que veio depois e existe hoje. A ditadura militar, até a crise econômica que começou na década de 1970 e que se aprofundou na década de 1980, mantinha um projeto nacional de desenvolvimento, tinha inclusive entrado em choque com o governo americano por desenvolver um projeto nuclear. Hoje, uma das coisas de que mais se fala, diante do cerco do imperialismo ianque à Venezuela, Cuba, Colômbia e toda a América Latina e das guerras para mudança de regime no Oriente Médio promovidas pelo mesmo imperialismo e seu braço sionista, é que não há possibilidade de independência sem posse de bomba atômica. Pois bem, o Brasil estava nesse caminho na década de 1970, quando a crise econômica abalou o regime militar. O programa nuclear brasileiro fazia parte do projeto nacional de desenvolvimento, formalizado nos diversos planos nacionais de desenvolvimento (PND) dos militares. Esse projeto, por sua vez, não era uma novidade da ditadura, era uma continuação do que começou na Revolução de 1930 e foi tomando forma nas décadas seguintes em sucessivos planos, dos quais o Plano de Metas do JK, com o slogan "50 anos em 5", é o mais famoso. Em resumo: até a crise econômica dos anos 1980, o Brasil seguia um rumo próprio, o chamado "desenvolvimentismo". A crise que acabou por derrubar a ditadura militar liquidou também o projeto de desenvolvimento nacional.
As forças políticas que emergem dos movimentos de massa oposicionistas a partir do movimento estudantil de 1977, passando pelas greves no ABC paulista e pela onda grevista em todo o país na sequência, pela campanha Diretas Já, derrotada, pela eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral, e culminando na eleição presidencial direta de 1989, essas forças políticas vão sepultar não só a ditadura militar de 21 anos, mas também o trabalhismo getulista e o desenvolvimentismo. O que virá depois será completamente diferente, não terá mais laços com o ciclo histórico inaugurado pela Revolução de 1930 e que chega até a ditadura militar, atravessando a ditadura Vargas (1930-1945) e a República Populista (1946-1964). Curiosamente, ao contrário do que eu imaginava, a eleição presidencial direta de 1989 inaugurou uma nova fase brasileira, mas o seu momento decisivo não foi a eleição do Collor, no segundo turno, foi a derrota do Brizola, no primeiro. Ao tirar Brizola e o PDT do protagonismo político, as forças de oposição (burguesa, pequeno-burguesa, novo sindicalismo e esquerda sobrevivente) que emergiram da luta contra a ditadura militar completam sua obra e deflagram um novo ciclo político que já dura 37 anos.
Exatamente em 1989, o cenário mundial começa a mudar bruscamente com a queda do Muro de Berlim, seguida nos anos próximos do fim da URSS e do bloco soviético. Na crise dos anos 1980, o neoliberalismo começou a proliferar, depois do ser testado no Chile da ditadura militar que derrubou o presidente Allende. Esses ventos estrangeiros dão o tom da música que tocará também no Brasil "democrático". As diferenças entre Brizola e Lula, entre PDT (PTB) e PT são muito maiores do que as diferenças entre Collor e Lula, FHC e Lula, PSDB e PT, como hoje se vê facilmente. Tanto Collor, quanto FHC, quanto Lula são presidentes que aderem ao neoliberalismo e abandonam um projeto nacional de desenvolvimento. FHC inclusive assinou o tratado de não proliferação de armas nucleares com o qual os EUA controlam a emergência de rivais e mantêm o neocolonialismo contemporâneo. Lula não reverteu nenhuma das políticas neoliberais dos seus antecessores, tampouco o desmonte dos direitos trabalhistas promovido pelos governos temer, o minúsculo, e bozo, o boçal. A esquerda brasileira nunca mais falou em socialismo e nacionalismo, como falava antes de 1964 e durante a ditadura, período em que estava na clandestinidade, se dizia marxista, seguia a cartilha leninista e pregava a revolução.
Com o fim da "Era Lula", já neste ano ou no emblemático ano de 2030, quando se comemorará o centenário da Revolução de 1930, o Brasil se vê diante da exigência de começar um novo ciclo, que pode ser o aprofundamento da condição de colônia neoliberal, sob um governo de extrema direita, ou um novo projeto de desenvolvimento nacional. Seja como for, aquelas forças políticas que lideraram a derrubada da ditadura militar e o sepultamento do desenvolvimentismo e implantaram o neoliberalismo no Brasil estão encerrando seu ciclo. Lula é e será sempre o seu expoente máximo.
Neste momento horroroso da história, protagonizado pelos crimes dos governos estadunidense e israelense, lembrei dessa canção. É uma das minhas preferidas. Paulo Francis escreveu uma vez que Simon and Garfunkel eram os melhores intérpretes dos EUA. America expressa o sonho americano, numa época em que o imperialismo ianque já intervinha no mundo inteiro, mas internamente estava dividido e parecia que seus erros podiam ser corrigidos. Os jovens protestavam contra a Guerra do Vietnã, se tornavam hippies e viajavam para descobrir a America. Nunca tive problema com o fato de os americanos chamarem seu país de America, porque pra mim o continente não deve ser chamado de América e sim pelo nome que os indígenas lhes davam. O fato é que alguma coisa, que essa música expressa bem, me unia aos "americanos" que não une mais. A America de S&G ainda tinha salvação. A canção é uma pérola desse grande artista que é Paul Simon, autor de muitas canções belíssimas.
Vista 36 anos depois, essa entrevista do revolucionário cubano Fidel Castro pode ser apreciada com o distanciamento que o tempo proporciona. Por um lado, Fidel fala e responde com lucidez impressionante e moderação, enquanto os jornalistas, como de costume, esgrimem ignorância e agressividade. Há um mito no jornalismo segundo o qual o bom repórter é o que incomoda. Sempre concordei com isso discordando, ao mesmo tempo. Sempre me pareceu mais importante que o jornalista seja razoável e bem informado. A questão é que a pergunta que incomoda o entrevistado gera notícia e o jornalista está sempre em busca da notícia: sem lide, não há notícia, e o lide é a novidade, o inesperado, o surpreendente. Isso provoca um círculo vicioso em que o jornalismo produz sempre superficialidades e a novidade de hoje já não tem importância amanhã, mesmo que tenha, como se busca sempre, provocado comoção. Aí se busca a "suíte", isto é, uma matéria que dê continuidade ao assunto, mas ela precisa ser igualmente sensacional. No caso em questão, um dos jornalistas está preocupado com o fato de que em Cuba não tem eleição direta para presidente, como tinha acabado de acontecer no Brasil, depois de 29 anos, dos quais 21 de ditadura militar. Não importam para o tal jornalista os resultados sociais impressionantes da Revolução Cubana, resultados que o capitalismo não atingiu no Brasil na ditadura militar nem atingiria na "democracia" que estava começando. Para os jornalistas que entrevistam Castro, importante é a "democracia", e democracia é esse modelo representativo em que o povo tem o poder em um dia de quatro em quatro anos e nos outros dias sofre e trabalha como escravo do capital, enquanto os capitalistas e seus políticos se locupletam e se aprimoram na corrupção. Não é esse o retrato em arte final do Brasil de março de 2026? O herói do julgamento da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 tem revelada sua face oculta de beneficiário de favores de um banqueiro falido e corruptor. Essa é a democracia brasileira, a democracia que a esquerda quer salvar e sustenta, enquanto a própria burguesia quer destruir e as castas poderosas querem manter como está, para preservar seus privilégios. Em resumo, o que a entrevista mostra é como o jornalismo já cumpria naquele começo de "democracia"e "Nova República" o papel de vender a ideologia do neoliberalismo que dominaria o Brasil, como de resto grande parte do mundo, e domina ainda. Em 2026, porém, quando o capitalismo destrói o planeta e a "democracia" estadunidense pratica o fascismo não só contra outros povos, mas também contra sua própria população, as argumentações a favor da excelência do capitalismo, a simpatia com o imperialismo americano e o menosprezo às revoluções socialistas, quando não o horror a elas, parecem o que são: ideologia reacionária.
Os trabalhadores, por sua vez, nunca estiveram tão mal, tão
desorganizados e tão confusos. Sob a ideologia do individualismo
empreendedorista, perderam todos os direitos e são incapazes de
reagir, pois não têm mais a sua principal arma, a força do número,
da massa popular, da ação coletiva. Na esquerda, muitos parecem
estar acordando, reconhecendo esses erros, reassumindo a defesa da
revolução. A maior parte, porém continua presa às cartilhas
marxistas de um século ou mais atrás. Parecem não perceber
que toda revolução bem-sucedida foi diferente das outras. Os
revolucionários vitoriosos o foram porque compreenderam as
peculiaridades da sua nação. O Brasil continua miseravelmente
atrasado nisso. Até o golpe militar de 1964, as posições de
esquerda se limitavam a seguir as ordens do stalinismo ou seguir as
ideias do Trotski ou buscar inspiração em Mao Tse-Tung e Fidel
Castro. A única tentativa de pensar a revolução brasileira
partindo das condições brasileiras foi feita pela Polop, mas não
chegou a bom termo. A ditadura desarticulou todas as posições
reformistas e lançou a esquerda desiludida na aventura armada,
igualmente trucidada pelos governos militares fascistas. Depois, o
que veio foi a predominância da luta por liberdades democráticas,
sob hegemonia da oposição burguesa e pequeno-burguesa. A excelente
oportunidade de construção de um partido dos trabalhadores
independente da ideologia burguesa, revolucionário e socialista, foi
jogada fora quando o PT optou por ser um partido eleitoral, cujo
objetivo maior era levar à presidência o seu principal líder, o
ex-operário Lula. Desde então, ocorreu o que descrevi acima. No
Brasil, o PT cumpriu o papel de ser o partido da ordem capitalista
neoliberal e Lula, o líder maior da burguesa. São décadas e
décadas perdidas, quase meio século de atraso na construção de
uma alternativa revolucionária e socialista para os trabalhadores
brasileiros.
Essa é
uma diferença entre a ascensão do fascismo no século XX e a
ascensão do fascismo no século XXI. Há cem anos, o fascismo
mobilizou forças populares contra o proletariado socialista
revolucionário, hoje ele mobiliza o próprio proletariado, que,
abandonado pela esquerda, perdeu o rumo e aderiu à ideologia da
extrema direita. Social-democracia ou trabalhismo ou até socialismo
e muitos outros nomes, sejam quais forem, a esquerda que abandonou a
revolução acomodou-se na ordem burguesa, submeteu-se às regras da
democracia liberal, conquistou o poder em inúmeras nações,
inclusive no Brasil, e tornou-se o partido encarregado de administrar
o capitalismo para a burguesia, o partido da ordem capitalista. Suas
principais atribuições são agora possibilitar o aumento dos lucros
para os capitalistas e reprimir as lutas dos trabalhadores. A
esquerda abandonou os trabalhadores e era natural que outra força
política ocupasse seu espaço: a extrema direita, os fascistas. Não
há mundo melhor para os capitalistas: a esquerda no poder governando
para ela, reprimindo os trabalhadores e assumindo o ônus disso,
enquanto o fascismo ataca o governo, lidera os trabalhadores, ou
partes expressivas deles, e obriga a esquerda a retirar mais e mais
direitos. Quando as posições se invertem, os benefícios dados
pelos fascistas ao capital são ainda maiores e acelerados. Se a
ordem fica instável, os capitalistas podem lançar mão novamente da
esquerda agora democrática e liberal e cada vez mais domesticada,
mais dócil, mais capitalista, mais burguesa.