terça-feira, 27 de outubro de 2026

Documento histórico: a fuga do bozo jr.

Vários significados. O primeiro, além de todos, é a comparação do comportamento do presidente reeleito, há oito anos, com o desse desqualificado filhote de filhote da ditadura, hoje. Nem os seus numerosos eleitores agora acreditam mais nele. Outro significado é que a Globo resolveu sepultar a dinastia do inominável. Mais um, na sequência do JN: a mesma corporação vai voltar à ladainha do ajuste fiscal. E outro, o mais importante, que está por trás de tudo: só o povo mobilizado e nas ruas e puxado pelos jovens é capaz de mudar o destino do Brasil, isto é, dos brasileiros, isto é, o nosso. Viva o povo mineiro! Viva o povo brasileiro!

A melhor reflexão sobre o momento histórico do qual participamos

Viva o povo mineiro! Viva o povo brasileiro! Um excelente Calma Urgente! para ser ouvido do começo ao fim.

Lula 4 precisa ser um governo apoiado na mobilização popular

Jones Manoel segue sendo o mais lúcido dos políticos de esquerda do Brasil, agora legitimado pelo mandato de deputado federal mais bem votado de Pernambuco e um dos líderes do levante popular juvenil que levou à virada histórica no segundo turno da eleição presidencial de 2026. A sua análise coincide 100% com a minha. Ele é desde já meu candidato da esquerda à sucessão do Lula, candidatura que precisará ser construída na liderança desse trabalho diário, no Congresso e fora dele, para puxar o governo Lula 4 para a aliança com os trabalhadores nas ruas e nas organizações populares e não com os políticos e empresários que dominam as instituições corrompidas da democracia burguesa. Meu único reparo à análise do JM é talvez em relação ao PT. Defendo que a mobilização popular exija que o PT assuma o papel histórico para o qual foi criado e lidere a união de toda a esquerda, mas essa união também pode ser em torno de um movimento de esquerda unificado (MEU é uma boa sigla, não é?) que puxe o PT. 

Jones Manoel 2030!

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Vencemos! Celebração, orgulho de ser mineiro e brasileiro, elogio da juventude

Mais uma vez Minas escolheu o lado certo. Mais uma vez Minas decidiu a eleição presidencial. Foi o único estado a virar do primeiro para o segundo turno. Todos sabíamos que quem ganha em Minas ganha no Brasil. Minas é o retrato do Brasil. E Minas virou. Os mineiros que não votaram no primeiro turno se mobilizaram, eu inclusive. Nunca tive tanto orgulho de ser mineiro como ontem. Minas, estado vermelho. Ao chegar a Belo Horizonte sábado, levei um choque de realidade ao ser jogado no meio de uma multidão barulhenta e agressiva vestida com as traumáticas camisas da CBF. Ela não foi suficiente, porém. Minas é muitas e é predominantemente vermelha, quando seu povo se mobiliza. Muitas emoções para dois dias. E eu, que nem lulista sou, gritei, ri, me emocionei, chorei até. Porque Minas virou e eu participei desse esforço popular, fiz parte dos mais de um milhão de mineiros que se mobilizaram para votar no Lula e impedir que os fascistas tomassem o governo federal. 

Essa vitória pode ser mais importante do que a de 2002. Vai fazer diferença nos próximos quatro anos, nas próximas décadas. Vai fazer diferença no continente e no mundo. O Brasil resiste à ascensão mundial do fascismo e aponta outro caminho. Lula foi reeleito e afirmou seu impressionante carisma, além de vitalidade, mas não foi ele quem venceu. Quem venceu ontem foi o povo brasileiro, especialmente a juventude, a quem caberá o futuro. O segundo turno da eleição presidencial de 2026 marcou o momento em que a juventude brasileira tomou as rédeas do seu destino e começou a construir o Brasil do século XXI. Os jovens entusiasmaram os velhos e levaram Lula à vitória. 

O símbolo da fantástica vitória popular brasileira de ontem é uma jovem paranaense. Enquanto Lula discursava, eu só tinha olhos para ela, para seus olhos brilhantes e seu sorriso cativante, para o entusiasmo, a energia, a esperança e a alegria traduzidas em beleza juvenil. Dez anos depois de emocionar os brasileiros e conquistar nossos corações e mentes como líder estudantil secundarista, Ana Júlia Ribeiro, eleita deputada federal pelo PT-PR, é um dos símbolos do Brasil que está por vir. Não à toa, foi a primeira a quem Lula abraçou depois do discurso. O Brasil que está por vir terá o amor e a força das mulheres. 

Cabe a essa geração de jovens renovar o PT e, libertado da armadilha lulista, ainda que inspirada no admirável líder, dar ao único partido brasileiro nascido de baixo para cima um programa de esquerda, enfim, mas não só um programa, e sim governos de esquerda com participação popular, capazes de inventar o futuro. Foi isso que prometeu o velho Lula ontem, no discurso da vitória: governar com participação popular. E foi a juventude que empurrou Lula para essa posição, porque foi sobretudo ela que se mobilizou, puxou os velhos e virou a eleição, salvou o Brasil de um governo fascista do crime organizado. Cabe à juventude continuar puxando a sociedade para a esquerda, como sempre fez na história do Brasil, desde a a campanha épica de libertação dos escravos, ainda no Império. 

A nova geração tem a árdua missão de aprender com as gerações anteriores, em especial com a geração que começou a derrubar a ditadura militar (1964-1985), a minha geração, e escolher um caminho melhor, um caminho de esquerda, baseado no poder popular, em vez de se agarrar a um líder carismático e ficar dependente dele. O Brasil não vai superar seus problemas históricos acumulados em séculos, dos quais os mais graves deles hoje são a destruição da Natureza e a destruição do Estado e seu controle crescente pelo crime organizado, sem uma revolução. Se a geração de jovens que venceu a eleição presidencial de 2026 e reelegeu o Lula não assumir o controle da política com seus ideais justos, sem se curvar, como fez a minha geração, à corrupção capitalista, o Brasil, aquele do qual todas as gerações de brasileiros ouviram falar desde seu nascimento, o "país do futuro", vai virar país do passado. 

O Brasil do futuro será feminino, popular e revolucionário. Ou não será jamais o Brasil.  

Declaração política

Escrevo às seis da manhã, antes de começar a eleição decisiva deste domingo, aquela que vai decidir se o Brasil continua trilhando (!) o caminho à beira do abismo da Nova República ou se despenca rumo à autodestruição. Escrevo às 6h, mas só vou publicar depois que a votação for encerrada. Minha avaliação da tragédia brasileira, parte da tragédia mundial, independe do resultado das urnas. Todos os meus esforços e desejos são para reeleger Lula, tenho consciência de todas as críticas que lhe fazem, compartilho há décadas de várias e compreendo outras que são produtos da ideologia da extrema direita. 

Quem está na minha posição, como talvez, espero, a maioria ainda dos eleitores brasileiros que se mobilizam para votar, é refém do Lula: ou ele ou pior. Foi sempre assim. O lulismo, fenômeno político que substituiu outro mais amplo, auspicioso e renovador na política brasileira, o petismo, nunca nos oferece nada, a não ser ilusões e benefícios imediatos, todos eles dependentes de um compromisso: Lula precisa continuar presidente (ainda que pelas mãos dos seus afilhados ungidos). 

Esse é o primeiro problema da trágica condição brasileira. Nos tornamos dependentes de um líder político excepcional que nunca teve um projeto de poder coletivo e que se moveu com competência maquiavélica (no sentido filosófico ou científico do termo) para a direita, para se manter no poder. Para governar sem apoio e contrariando os interesses dos capitalistas brasileiros, grande parte dos quais tem índole fascista, entreguista, egoísta, parasitária, corrupta e canalha, Lula teria de mobilizar permanentemente o povo, os trabalhadores, para quem e em nome de quem fundou um partido. No entanto, o PT, ao longo de décadas deixou de ser um partido de organização dos trabalhadores e se transformou no partido cabo eleitoral do Lula. Um poderoso exército de cabos eleitorais, como nunca antes do Brasil tinha visto. Ao nomear o "Exército do Lula" no segundo turno da campanha deste ano, o deputado Janones, enfim, sintetizou quem somos, quem fomos sempre, crescentemente, desde 1989. Naquela época, não pegava bem nos nomear assim, pois a memória da ditadura militar era recente e traumática, mas hoje até isso aceitamos de boa vontade, ser um exército (corpo militar), de salvação (da democracia), comandados (pelo "marechal" Lula). É isso ou nada. 

Nenhum lulista fanático que não viu isso até hoje verá ainda, eu suponho, e há outros, os que veem, mas ainda assim se submetem, porque não conseguem formular outra alternativa pensando por conta própria. É a força da ideologia, nesse caso a ideologia democratista, que nasceu no combate à ditadura, tomou forma na Nova República e na Constituição de 1988 e foi sustentada pela esquerda, primeiro nos governos Itamar e FHC, depois nos governos lulistas. Por essa ideologia, a ideologia da minha geração, o grande ideal é defender a democracia, não importa que qualidade de vida ela dá ao povo, os pobres, aos trabalhadores. 

A esquerda abdicou de formular um projeto de nação para os trabalhadores e se agarrou à defesa da ordem burguesa, mascarada pelo fato de ter na presidência um ex-operário. A direita, sem conseguir vencer nas urnas um líder carismático de origem popular, caminhou para a extrema direita e, vendo os trabalhadores abandonados pelo governo burguês comandado por um ex-operário aparentemente de esquerda, tratou de conquistá-los formulando uma proposta de transformação social. A proposta de transformação social da extrema direita sempre é baseada na denúncia da corrupção, prática na qual ela própria é especialista, mas a atribui à esquerda. Também é baseada em mentiras e violência. Corrupção, mentira e violência: somem-se estas três características e veremos os políticos que capturaram metade dos eleitores brasileiros, talvez metade menos um, talvez metade mais um, hoje. 

Seja qual for o resultados das urnas, ele expressa o fim da Nova República, personificada no Lula. É muito curioso que seja assim, pois Lula e o partido cuja fundação liderou nasceram justamente como oposição à esquerda à Nova República, mas se tornaram a sustentação dela. A história é contraditória, assim como a vida. A partir de hoje, o Brasil caminha ou para o fascismo declarado ou será obrigado a caminhar de volta para o que nunca conseguiu ser ou nunca foi com sucesso: uma nação governada por um projeto político de esquerda. Que começou a ser inventado na mobilização do segundo turno, sob novos líderes, críticos e lúcidos, entre os quais destaco Jones Manoel, Elias Jabbour e Vladimir Safatle. 

Formular e apresentar aos brasileiros um projeto de nação efetivamente de esquerda é a primeira tarefa dos novos líderes, os líderes pós-lulistas, mas há outra igualmente importante: a união de todos os grupelhos de esquerda acima das suas divergências desprezíveis, em nome de um Brasil popular e soberano.  

domingo, 25 de outubro de 2026

O crime organizado quer tomar o poder pelas urnas

É esse o resumo da eleição deste domingo 25 de outubro de 2026. Tudo é óbvio para quem não é cego pela ideologia. E como se vê nesse vídeo, nem os próprios políticos representantes do crime organizado escondem seu objetivo. Por exemplo: o candidato a presidente quer eliminar a identificação da munição, que é o meio pelo qual se chega ao autor do disparo em um crime. A impunidade dos bandidos é ampla no Brasil, mas os criminosos querem que ela seja total. Simples assim. É o que a maioria dos brasileiros vai decidir se quer hoje.

Música do dia: Queixa (Caetano Veloso)

Nenhuma música diz exatamente o que eu sinto, por isso escrevo, em vez de passar a vida cantando, mas muitas se aproximam, por isso publico as músicas do dia. 
 
Dessa coisa que mete medoPela sua grandezaNão sou o único culpadoDisso eu tenho a certeza
(...) 
Um amor assim delicadoNenhum homem dariaTalvez tenha sido o pecadoApostar na alegria
(...)
Princesa, surpresa, você me arrasouSerpente, nem sente que me envenenouSenhora, e agora me diga aonde eu vouAmiga, me diga
 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A história de um bandido que quer ser presidente

Mais um episódio da excelente série Revelando. Não será por falta de informação disponível que o bozo jr. será eleito presidente da República, se o for, e espero que não, e faço a minha parte, e espero que a maioria dos eleitores brasileiros também. Seja como for, a possibilidade de que seja eleito, a pequena margem que pode derrotá-lo e a votação que teve no primeiro turno dizem coisas sobre os brasileiros que o esforço jornalístico extraordinário e admirável das últimas semanas não discute. Compreensivelmente, porque agora o que interessa é impedir sua eleição. No entanto, temos que enfrentar estas questões, se quisermos andar para frente. Porque, vamos combinar, este é o momento mais angustiante das nossas vidas, mas chegamos a ele por meio de uma sucessão de momentos cada vez mais angustiantes, nos quais não encaramos os nossos problemas. 

Que problemas são esses? O primeiro deles é a péssima qualidade da "nossa democracia" ou "democracia brasileira", como costumamos chamar a ordem política (e social e econômica, talvez não nessa ordem de influência) que vigora no Brasil desde o fim da ditadura militar (1964-1985). Não podemos ignorar, como temos feito há uma década, isto é, desde o impeachement da presidenta Dilma, de triste memória, que a ascensão da extrema direita se dá na democracia, que os autoritários já chegaram ao poder pelo voto popular e estão perto de repetir esse feito, apesar da eleição do Lula em 2022. Como é que aqueles que são contra o povo e contra a democracia podem conquistar a maioria do povo e o poder na democracia? É isso que todos os que se dizem democratas deveriam se perguntar, para começo de conversa. Quem faz essa pergunta costuma concluir que o "defeito" está no povo, não na "nossa democracia". Errado. O defeito não está no povo, o defeito está na democracia. Não sou o único a ver isso, o filósofo Vladimir Safatle e o ativista agora eleito deputado federal por Pernambuco Jones Manoel também veem. 

A "democracia brasileira" é uma construção defeituosa, que nasceu para se opor à ditadura e arregimentou as massas populares na memorável campanha Diretas já!, se institucionalizou na Constituição de 1988 e foi efetivamente construída pela esquerda, isto é, por dois partidos e presidentes tidos como de esquerda, PSDB e PT, FHC e Lula. Essa construção defeituosa deu muito pouco ao povo brasileiro, ao contrário do que dizem expoentes brilhantes do nosso tempo, porém equivocados e cegos politicamente, que mais uma vez se levantam para defender a reeleição do Lula. É por isso, porque a "nossa democracia" é uma merda e porque o povo a identifica com a esquerda, que a maioria caminhou para a extrema direita. A esquerda brasileira passou décadas praticando políticas de direita que foram identificadas como políticas de esquerda e agora metade do povo faz opção pela extrema direita, que é a única força oposicionista organizada e tem apoio do capital, das empresas de tecnologia e do governo estadunidense. Há oposições de esquerda, mas elas não são organizadas e influentes como a extrema direita. 

A opção de metade do povo brasileiro pela extrema direita só é incompreensível para os democratistas, isto é, os defensores da democracia burguesa capitalista institucionalizada pela Constituição de 1988, classes sociais beneficiadas pela ordem em vigor há quase quarenta anos, que derrubaram a ditadura com apoio do povo, mas depois se distanciaram dele, e cujo maior expoente político é o Lula. Simples assim. Comparado com o que o povo brasileiro precisa, o que foi que Lula e os democratistas fizeram? Muito pouco. Ou o povo não estaria tão descontente. O que os democratistas fizeram para combater a violência da qual o povo é vítima? É nessa área que o fracasso da "democracia brasileira" é mais evidente, porque é justamente do crime organizado que vem a extrema direita. Se os democratistas tivessem sido eficientes em combater o crime organizado, pelo menos isso, teriam impedido a ascensão da extrema direita. Os democratistas das classes privilegiadas nunca compartilharam o poder com o povo, limitaram este ao direito ao voto de quatro em quatro anos, quando esse poder se manifesta assim, na forma de plebiscito: reeleger ou derrotar o presidente (e o governador ou prefeito). Minto: houve, décadas atrás, iniciativas do PT, quando ainda era um partido de esquerda, de implantar o orçamento participativo, no qual o povo era chamado a escolher em que a prefeitura deveria aplicar o dinheiro dos impostos, mas elas foram abandonadas em favor de esquemas de corrupção e de acordos criminosos no Congresso, nas assembleias e câmaras municipais.   

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Música do dia (2): Assum preto (Gal Costa)

"Assum preto, o meu cantar é tão triste quanto o teu, também roubaram o meu amor, que era a luz dos olhos meus." Procure uma referência à ditadura militar (1964-1985) e não encontrará. No entanto, o disco (gravado ao vivo no show) Fa-tal, Gal a todo vapor é o melhor documento do que foram os anos de chumbo, aquele período sombrio que se seguiu à decretação do AI-5, que coincidiu com o "milagre brasileiro" e com o governo Médici (1969-1974). A opressão está no ar do começo ao fim deste disco e Assum preto talvez seja "a mais completa tradução", uma poesia que fala do mais cruel e insensível sofrimento que o sapiens e só ele é capaz de afligir, "por ingnorança ou mardade das pior". Gal canta respirando profundamente, soltando angústia junto com sua voz poderosa. 

Música do dia: Dê um rolê (Gal Costa)

Pra capoeirista. Daquele show maravilhoso. Essa música pode ser cantada hoje com a mesma atualidade. Arte não é isso, a perenidade da essência humana? "Não se assuste, pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa. Enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvir apenas quem já dizia: eu não tenho nada, antes de você ser, eu sou amor da cabeça aos pés. E só tô beijando rosto de quem dá valor, pra quem vale mais um gosto do que cem mil réis."