quinta-feira, 2 de julho de 2026
Música do dia: Ternura, com Roberto Carlos
sábado, 27 de junho de 2026
Salvar o SUS e torná-lo excelente
quarta-feira, 24 de junho de 2026
Roger Waters e Mona Miari cantam a dor palestina e a insensibilidade mundial
É sempre bom ouvir de novo o que disseram os políticos
Música do dia: Oh! Darling, The Beatles
terça-feira, 23 de junho de 2026
Estado policial brasileiro: PM entra em escola para intimidar educadoras
domingo, 21 de junho de 2026
Músicas do dia: I'll get you e Don't let me down, The Beatles
domingo, 14 de junho de 2026
Música do dia: Paralelas, do Belchior. E a fraude da IA
A melhor gravação de Paralelas que eu já escutei, melhor que a original, da Vanusa, melhor do que a do autor, Belchior. Infelizmente, como é comum nesses canais não oficiais (e por isso resisto a publicar vídeos deles, exceto quando, como neste caso, não encontro o oficial) não consta o crédito de voz e instrumentos. Me fez pensar no João Gilberto. Quando ouvi JG pela primeira vez foi como se estivesse aprendendo o que é cantar: não é preciso gritar. Gal Costa grita em Fa-tal e é lindo. Os tropicalistas gritavam e era muito bom. Quando João Gilberto canta, porém a gente sente a letra junto com a melodia, uma coisa só, e aprende o que é música. Me faz pensar que toda canção tem seu arranjo, vocal inclusive e em primeiro lugar, adequado, que é função dos intérpretes encontrá-lo. Os compositores eruditos se dedicavam (dedicam) a isso, não é?, mas os populares cada vez menos. Até os anos 1950, meados dos 60, fazia parte da gravação de uma canção passar pelo arranjo de um maestro. Tom Jobim fez muito isso para outros. Canções do Noel Rosa e outros sambistas da era de ouro eram muito diferentes na versão orquestrada. A revolução pop dos anos 1960 de certa forma dissolveu isso (embora as gravações dos Beatles tenham se tornado cada vez mais sofisticadas), as interpretações passaram a ser mais informais e hoje os arranjos acompanham a mediocridade dos "sertanejos", "pagodes" etc. Por isso também eu gosto daquela série acústica da MTV, que tem discos memoráveis, como o da Cássia Eller. Eu lembrei de Paralelas esta manhã, não sei por que, talvez pelo "oitavo andar", e comecei a assobiar lentamente, em seguida procurei uma gravação, ouvi a da Vanusa, depois ouvir a do Belchior e por fim essa, no ritmo do meu assobio e que é, de fato, pela voz e pelo arranjo de cordas, pelo cello, a melhor que eu já ouvi e que, enfim, achou a interpretação certa, como João Gilberto fazia. Infelizmente, com boxes de informações dispensáveis e sem créditos necessários, informa só que é "cover intimista". Será a própria Vanusa? A voz lembra a dela, digamos, "mais educada", mas nesse caso, por que negligenciar o crédito? Se não é, por que esconder voz tão bela?
PS: Eu também não tinha percebido até hoje que Vanusa e Paula Toller eram a mesma pessoa.
PS2: Ao rolar a lista de comentários do canal do YT, encontrei a resposta copiada abaixo.
"Olá, Renato, tudo bem? Como descrito no vídeo, é uma versão cover, que recriamos com auxílio de IA. Eu fiz uma versão intimista ao violão, cantei como achei que ficaria mais legal, num tom um pouco mais grave, e usei a IA para, a partir dessa matriz inicial, adicionar arranjos e substituir a minha voz por uma vez feminina com timbre que lembra o timbre da Vanusa."
quarta-feira, 10 de junho de 2026
O discurso final de O Grande Ditador, sempre atual. Salve, Chaplin!
domingo, 7 de junho de 2026
Mais um alerta sobre a tragédia das mudanças climáticas catastróficas
sexta-feira, 5 de junho de 2026
A melhor política de Minas Gerais
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Brasil: de pai para filho desde o Império
domingo, 31 de maio de 2026
Colômbia: extrema direita assassinou 5 mil e extinguiu um partido
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Os crimes da ditadura militar contra as elites que apoiaram o golpe
Quando a gente pensa que já sabe de tudo, aparecem coisas novas, como essas gravações inéditas das sessões de julgamento do Supremo Tribunal Militar. Material histórico de ouro nas mãos do historiador Carlos Fico. Aplausos. Vale muito a pena ouvir o podcast.
A língua é a coisa mais interessante do Homo sapiens, porque funciona, ou expressa, estreitamente em sintonia com o cérebro, o pensamento, que é o que nos distingue. "Caiu a ficha" é uma expressão admirável da capacidade do brasileiro traduzir em linguagem simples e clara uma ideia complexa. A ficha da compreensão cai de uma vez, ainda que demore. Talvez os gregos dissessem "epifania" -- de fato, "caiu a ficha" é a epifania em brasileiro. Esse podcast faz parte do mesmo quebra-cabeça de "Ainda estou aqui". Poderia aumentar a lista, chegando a "O que é isso, companheiro?", o livro, numa linha que nos conduziria à luta contra a ditadura nos anos 1970, culminando com a campanha Diretas Já!, resultando na Constituinte de 1988 e no governo FHC, muito mais marcante da nossa época do que os governos Lula (/Dilma/Temer), ao contrário do que se supunha e eu mesmo afirmei muitas vezes: o intelectual tucano, com o Plano Real e sua "modernização", isto é, desmonte do desenvolvimentismo e adesão ao neoliberalismo, estruturou o Brasil contemporâneo, que Lula e Dilma seguiram e Temer e bozo aprofundaram, ou seja, um Brasil cujo papel no mundo é de coadjuvante das potências, fornecendo-lhes matérias-primas abundantes e mão-de-obra barata. O que a ficha revela ao cair é que essas mesmas "elites" que entregam o Brasil para os estrangeiros na "democracia" são aquelas que em 1964 apoiaram o golpe militar, mas depois viram a estupidez que era o governo dos milicos e passaram à oposição. Elas se mobilizaram de diversas formas entre 1964 e 1968, até o AI-5, e contra elas recaiu a repressão brutal dos "anos de chumbo". Os trabalhadores, suas lideranças e representações políticas já tinham sido exterminados da cena política no 1º de abril. Voltariam sim, a partir de 1978, e atingiriam o ponto máximo na cena política nacional com o PT e Lula, mas sempre usados pela elites citadas, submetidas a elas, sem vontade própria, sem expressão política própria até hoje, mera massa de manobra, mero exército para derrotar os fascistas que nunca foram embora, como explica Safatle. Exatamente porque tinham apoiado o golpe e eram parte da elite no poder, embora dissidente dela, como se vê claramente em "Ainda estou aqui", os oposicionistas de 1964-1968 não tinham medo, esse medo que acompanhou minha geração, crescida sob a ditadura, e os trabalhadores, brutalmente massacrados pelo golpe e pelo "milagre brasileiro".
domingo, 24 de maio de 2026
Para jornalistas que não sabem que existe tortura em Israel
A Venezuela vista por uma repórter do O Globo
Governo de conciliação não faz o que prometeu em campanha
Homo sapiens: rumo à autoextinção
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Outra imprensa é possível
Venezuela, Cuba, Bolívia... Brasil. O avanço dos EUA sobre a América Latina
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Música do dia: Virgínia, com Os Mutantes
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Música do dia: Com açúcar, com afeto (Chico Buarque), com Jane Morais
sábado, 9 de maio de 2026
Música do dia: I'm so tired, The Beatles
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Música do dia: Bashi achuki, com Trio Mandili
quarta-feira, 6 de maio de 2026
Xingamentos e ameaças na Câmara dos Deputados
terça-feira, 5 de maio de 2026
José Dirceu ou a ideologia do PT
sexta-feira, 1 de maio de 2026
Música do dia: E agora, José?, com Paulo Diniz
O poema do Carlos Drummond de Andrade serve de tema para o quadro político brasileiro, diante da derrota histórica do governo Lula, com a rejeição pelo Senado do seu indicado a ministro do Supremo Tribunal Federal, coisa que só tinha acontecido no governo Floriano Peixoto, nos primórdios da República, ainda no século XIX. Me lembrou aquele momento assustador há dez anos, quando a Câmara aceitou o pedido de impeachment da presidenta Dilma: muita coisa aconteceu e muita esperança havia ainda, mas o governo já tinha acabado. É a pergunta que faz o analista Frederico Krepe no vídeo que também reproduzo abaixo, juntamente com a do Jones Manoel, duas análises lúcidas. Para completar seu serviço o Congresso, ontem, derrubou o veto presidencial e manteve a revisão das penas dos golpistas de 8 de janeiro. Da minha parte, digo o que sinto desde que a volta do Lula se anunciou, ao ser solto em 2019: o Brasil continua afundando enquanto marca passo, sem encontrar seu caminho, seguindo políticos corrompidos, prestes a voltar às trevas de um novo governo bozo, dessa vez do jr. Já escrevi muitas vezes ao longo das quase duas décadas deste blog o que penso do Lula e do fracasso da minha geração. Quando o bozo pai foi eleito, naquela farsa da facada, parecia que os brasileiros viviam um pesadelo, ao qual a pandemia deu cores dantescas; uma repetição do pesadelo parece a descida definitiva ao inferno. Todos sabemos que bozo jr. é um bandido cercado de bandidos, que o Congresso está dominado pelo crime organizado e por interesses particulares, antinacionais e antipopulares. A imprensa empresarial não é muito melhor e já não tem a força que tinha, o STF dá mostras de que o julgamento dos golpistas de 8 de janeiro foi um ato político, não uma demonstração de idoneidade; foi por assim dizer o último ato de um longo processo que começou com a farsa do mensalão, que pode ser nomeado como a tragédia do povo brasileiro. A política brasileira está toda podre. E é isso, a podridão, que vai se institucionalizar a partir de 2027, ao que tudo indica. Depois, só uma revolução popular poderá consertar, mas como imaginar uma revolução, se até o povo se tornou reacionário, aderiu à ideologia dominante e vota na extrema direita? E agora, José? José, para onde?
quarta-feira, 29 de abril de 2026
A viagem de Paulo Diniz e Juarez Correia pelo sertão de Pernambuco
domingo, 26 de abril de 2026
Lula e o PT deram o exemplo para a juventude "antissistema"
Estou procurando no blog e ainda não achei quando foi a primeira vez que eu falei isso que o Breno Altaman está falando hoje: o PT se transformou no partido da ordem. Quer dizer, ele diz que ainda não aconteceu, mas há uma pressão forte para acontecer, eu digo que já aconteceu há muito tempo, desde que Lula assumiu a presidência pela primeira vez. Altman adota uma política gradualista de aceitar a ideia, assim como aceita hoje ideias que não aceitava há algum tempo. A questão é que a situação política do Brasil ficou evidente e que a pergunta que eu mesmo me faço é: por que nos deixamos enganar durante tanto tempo? Quando digo "nós" me refiro às pessoas de esquerda, anticapitalistas, que leram Marx, que idealizam uma sociedade igualitária e tudo mais. Hoje me parece evidente que Lula e o PT foram o melhor partido e o melhor presidente que o capital poderia desejar, porque conteve os trabalhadores enquanto fazia o que os capitalistas queriam. Qualquer governo enfrentaria a oposição dos trabalhadores, como de fato outros enfrentaram antes. Não mais agora, porque a organização dos trabalhadores foi ampla e fortemente destruída e os jovens não querem carteira assinada nem sindicatos nem nada parecido, pois se consideram "empreendedores", isto é, foram ganhos pela ideologia neoliberal capitalista. Como disse um banqueiro, tanto faz que a eleição de outubro seja vencida por Lula ou bozo jr., porque Lula já se mostrou confiável -- e os trabalhadores, acrescento eu, defendem o sistema, achando que estão atacando o sistema. Lula, o ex-líder sindical, e o PT, o partido dos trabalhadores, deram o exemplo e agora os jovens trabalhadores também defendem o capitalismo. Altman está dizendo coisas que só marxistas revolucionários diziam. E faz uma observação interessante: o discurso do Lula na Espanha parece um pedido de socorro.
PS: Em 2011, escrevi sobre isso, talvez tenha sido a primeira vez, e lá se vão 15 anos.
sábado, 25 de abril de 2026
Para banqueiro, tanto faz que o eleito em outubro seja Lula ou bozo jr.
O elo perdido da revolução brasileira
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Em 2018, Lula queria um candidato para perder a eleição
Música do dia (2): Valsa nº 2, de Dmitri Shostakovich
Música do dia: I Will Follow Him
Mais uma entrevista do Lula
domingo, 19 de abril de 2026
Mais uma ótima análise do Jones Manoel
O comunista pernambucano faz o que eu sempre esperei da esquerda brasileira, desde os anos 1970, quando comecei a ouvir os discursos ditos marxistas-leninistas: propostas factíveis para governar o Brasil capitalista e transformá-lo numa grande nação razoável, econômica, social e politicamente democrática. A esquerda nunca entendeu o Brasil concreto, sempre falou de um Brasil teórico, baseado nas experiências revolucionárias estrangeiras e nas análises sociais europeias. A Polop tentou pensar a revolução brasileira no começo dos anos 1960, mas os resultados práticos do seu esforço foram pífios ou desastrosos. Quando chegou ao poder, com FHC primeiro e depois com Lula, a dita esquerda adotou o neoliberalismo como modelo, se submeteu confortavelmente ao capital e esqueceu os compromissos com os trabalhadores. Jones Manoel me parece o primeiro intelectual marxista brasileiro que une as ideias socialistas à realidade nacional concreta. Pouco a pouco ele vem elaborando uma alternativa de esquerda com possibilidades de ser bem-sucedida, de fazer um governo mil vezes melhor do que os medíocres governos lulopetistas e milhões de vezes melhor do que os governos da extrema direita. Acrescento que ele não é o único político brasileiro a fazer isso; sem o mesmo compromisso com a revolução socialista e a ideologia marxista-leninista, Ciro Gomes apresenta sem sucesso aos brasileiros desde 1998 um projeto que em muito se assemelha ao do JM.
Finalmente um discurso de esquerda no Brasil
Para Lula, de Maquiavel

Quem sou eu para dar conselhos ao maior político brasileiro do nosso tempo, mas o gênio fundador da Ciência Política merece ser ouvido, por seu conhecimento amplo e universal, ainda que não abarque os seis últimos séculos da História, que transformaram a trajetória do Homo sapiens da Renascença na barbárie quase consumada. Troquemos nomes e veremos o Brasil contemporâneo. Lula tinha fama de não ler, ganhou fama de devorador de livros na prisão, segundo seu biógrafo autorizado, não se sabe se leu o Florentino, mas um dos seus inúmeros acólitos poderia ler ou reler para ele. O texto abaixo é o 26º e último capítulo do livro O Príncipe, obra máxima de Nicolau Maquiavel; a tradução é de Mário e Celestino da Silva, no volume 248 das Edições do Senado Federal.
Exortação a libertar a Itália dos bárbaros
DEPOIS DE HAVER REFLETIDO em tudo o que se disse nos anteriores capítulos; após ter perguntado a mim mesmo se os tempos atuais da Itália são de molde a permitir que um novo príncipe adquira nela celebridade e se homem sábio e virtuoso poderá encontrar aqui matéria suscetível de tomar nova forma que constitua motivo de glória para ele e um benefício para a totalidade dos italianos, conclui que talvez nunca tenha existido outra época tão propícia a vinda de um novo príncipe como a de hoje. Se, conforme eu disse, para se conhecer a virtude de Moisés, a grandeza de ânimo de Ciro e a excelência de Teseu era necessário, respectivamente, que o povo de Israel fosse escravo no Egito, que os persas estivessem oprimidos pelos medas e que entre os atenienses lavrasse a desunião, assim, no presente, para se conhecer o valor [virtú] de um espírito italiano era preciso que a Itália descesse ao extremo de hoje, que fosse mais escrava do que os hebreus, mais oprimida que os persas, mais desunida que os atenienses, sem chefe, sem ordem, vencida, despojada, dilacerada, invadida, e que tivesse vencida, e que tivesse suportado toda a espécie de vexames.
Embora um ou outro de seus homens haja revelado indícios de gênio, deixando supor que Deus o destinará à missão de o redimir, viu-se depois que no ponto culminante das suas ações sofreu o repúdio da fortuna. Destarte, tendo ficado como que sem vida, ela espera quem venha curar-lhe as feridas e pôr um paradeiro à pilhagem dos lombardos, às espoliações e tributos do reino de Nápoles e da Toscana e a sare de todas as chagas já de muito gangrenadas. Veja-se como roga ao Senhor que lhe mande alguém capaz de a salvar dessas crueldades e insolências bárbaras; como está ainda inteiramente pronta a seguir uma bandeira, desde que alguém a desfralde! E a quem poderia ela no momento presente confiar melhor a realização das suas esperanças, do que a vossa ilustre Casa, com os seus méritos [virtù] e fortuna, com as graças de Deus e da Igreja, a qual deu um príncipe [o papa Leão X, da casa dos Médicis]? Quem, mais do que ela, indicado para se colocar à frente dessa obra de redenção? Isso não será difícil se os lembrardes da vida e das ações dos príncipes que mencionei. Posto esses homens fossem extraordinários, nem por isso deixaram de ser homens, e nenhum deles teve oportunidades tão boas como a que agora se apresenta, pois, as suas empresas não foram mais justas nem mais fáceis do que esta, nem Deus foi para eles mais benevolente do que o é para convosco. De grande justiça reveste-se o caso atual: justum enim est bellum quibus necessarium, et pia arma ubi nulla nisi in armis spes est. [É sempre justa a guerra quando necessária, e piedosas as armas quando não há esperança a não ser nas armas.] Favorabilíssimo é o ânimo existente, e quando esse existe e se inspira nos exemplos que para isso vos propus, não pode haver grandes dificuldades. Outrossim, veem-se, no caso, ocorrer fatos extraordinários, sem precedentes, filhos da vontade de Deus: as águas do mar separaram-se, uma nuvem indicou o caminho, da pedra jorrou água, choveu maná; e tudo concorre para a vossa grandeza. O resto pertence a vós fazê-lo. O Todo-Poderoso não quer fazer tudo para não nos tirar o livre-arbítrio e a parte de glória que nos cabe.
Não vos admireis que nenhum dos italianos por mim referidos tenha sido capaz de fazer o que da vossa ilustre Casa se pode esperar, nem que, depois de tantas revoluções e de tantos manejos bélicos, pareça ter-se extinguido na Itália a virtude militar. A razão deste fato está em que as antigas instituições [militares] do país não eram boas e ninguém soube fundar novas. Nada contribui tanto para a glória de um homem que surja no horizonte quanto as novas leis e instituições que ele venha a criar. Quando elas são grandiosas e sólidas, tornam-no digno do mais alto respeito e admiração. Ora, não falta na Itália matéria adaptável às mais variadas formas que um artífice lhe queira dar. A virtude que escassear nos chefes, supri-la-ão os subalternos. Observai os duelos e as lutas de grupos, e vereis até que ponto chega a força, a destreza e o talento dos italianos. E, todavia, quando a luta é de exércitos, esses dotes desaparecem. Tudo isso tem por causa a fraqueza dos chefes: os capazes não se sujeitam a obedecer; todos se julgam capazes, e até hoje nenhum houve cujo valor [virtù] e fortuna fossem bastantes para compelir os demais a dobrarem a cerviz. Daí provém que de tão longo decurso de tempo, em tantas guerras feitas nos últimos vinte anos, todas as vezes que o exército se compunha inteiramente de italianos, só fracassos se tenham verificado. Disso dão testemunho, primeiro, o Taro, e depois Alexandria, Cápua, Gênova, Vailate, Bolonha e Mestre.
Se vossa ilustre Casa quiser, portanto, seguir o exemplo dos homens insignes que redimiram as suas províncias, cumpre-lhe antes de mais nada ter, como verdadeiro alicerce de qualquer empresa, exércitos seus; porque não se encontram soldados mais fiéis, mais sinceros e eficientes do que os italianos. E se individualmente são bons, melhores ainda serão quando, todos juntos se virem comandados, distinguidos e sustentados pelo seu príncipe. É necessário, por conseguinte, apresentar essas armas para poder, com valor [virtù] italiano, defender-se dos estrangeiros. Posto que as infantarias suíça e espanhola tenham fama de temíveis, ambas possuem falhas, motivo pelo qual uma terceira espécie de tropas poderia, não apenas resistir-lhes, mas também vencê-las. Com efeito, os espanhóis fraquejam diante da cavalaria e os suíços têm medo dos infantes quando estes os acometem com ímpeto igual ao seu. Daí se origina o fato, que a experiência já demonstrou e ainda demonstrará, de não poderem os espanhóis arrostar a cavalaria francesa e de serem os suíços esmagados pela infantaria espanhola. É verdade que deste último caso não houve até agora prova cabal. Contudo, tivemos um parcial na batalha de Ravena, quando a infantaria espanhola lutou com as tropas alemãs, que empregam um método de combate igual ao das suíças. Os espanhóis, valendo-se da sua agilidade e dos seus broquéis, insinuaram-se por entre os piques dos alemães e atacaram-nos livremente, sem que os seus adversários pudessem defender-se; e tê-los-iam matado todos se a cavalaria não houvesse investido contra eles. Conhecidas, pois, as falhas de uma e de outra dessas infantarias, pode-se organizar uma de novo tipo, apta a resistir à cavalaria e não receosa dos infantes. Bastará para tanto criar novas espécies de armas e novas maneiras de combater. É isto que dá prestígio e grandeza a um príncipe novo.
É, portanto, essencial aproveitar esta ocasião, para que a
Itália veja, após tanto tempo, aparecer o seu redentor. Nem sei exprimir
com quanto amor, com quanta sede de vingança e fé obstinada, com quanta
ternlura e quantas lágrimas ele seria acolhido em todas as províncias
que tanto padeceram com aquelas inundações estrangeiras. Que portas se
fechariam diante dele? Que povos lhe recusariam obediência? Que inveja
ousaria opor-se-lhe? Qual o italiano capaz de negar a sua homenagem? A
todos repugna este bárbaro domínio. Abrace, pois, a vossa ilustre Casa
esta causa, com aquele espírito e aquela esperança com que se abraçam as
empresas justas, para que debaixo das suas insígnias se nobilite esta
pátria e sob os seus auspícios se cumpra o dito de Petrarca:
Virtú contro furore
Prendera l’arme; e fia il combatter corto,
Chè l’ antico valore
Negl’italici cuor non è ancor morto.
[A virtude empunhará as armas contra a fúria; e a luta será breve, porque o antigo valor ainda não se extinguiu nos corações italianos. Petrarca, Cancioneiro, parte I, CXXVIII (canção XVI), versos 93 a 96.]
Música do dia: Please, please me, The Beatles
sábado, 11 de abril de 2026
Música do dia (2): Mind games, com John Lennon
Jones Manoel é o cara
quinta-feira, 9 de abril de 2026
Humanos
sexta-feira, 3 de abril de 2026
Postagem publicada em 2014 antecipava o Brasil descendo a ladeira
RPJ: a nova marcha da família?
Primeiro pensei que se tratava daqueles jogos, RPG. A estética da cartilha lembra a TFP e outros movimentos de direita. Siglas. O globo da bandeira do Brasil com o mapa invertido e o lema positivista também alterado: "Desordem no Congresso". Jogo de palavras. As cores verde, amarelo, azul. E a palavra mágica, presente em todos os discursos da direita, desde que o Brasil inaugurou uma democracia mais participativa, depois da II Guerra Mundial: corrupção. Outras palavras fortes: "indignação", "covardia". E o advérbio que remete à maior campanha política de massas que o Brasil já teve, pelas eleições diretas, em 1984: "já". A cartilha de 12 páginas, grampeada, com boa qualidade de impressão, está sendo distribuída nas ruas. Não é apócrifa. Logo no começo, na página 2 há uma lista de nomes de "fundadores" do "movimento". Não conheço nenhum, além do nome não há outra identificação. RPJ são as iniciais de "Reforma Política Já", o movimento. A "instituição" se chama Pró-Cidadania -- Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Cidadania. Seu presidente é Marcílio A. Moreira. Tem página na internet (www.rpj.org.br), telefone (31-9122-4330) e email: m2augusto@hotmail.com.
Há poucos dias, um grande movimento de sindicatos, associações, organizações diversas e partidos políticos inclusive, todos identificados, promoveram um grande plebiscito a favor da reforma política. O mesmo objetivo que, aparentemente, o RPJ busca. O plebiscito pede a eleição de uma Constituinte exclusiva para a reforma política. O resultado do plebiscito saiu ontem: foram 7,4 milhões de votos favoráveis à Constituinte (97,2% -- 2,7%, contrários), número bastante expressivo para um movimento organizado pela sociedade, sem participação governamental nem estatal. O RPJ não participou. Por quê?
Música do dia: Charles Anjo 45 (Jorge Ben), com Caetano Veloso
quinta-feira, 2 de abril de 2026
O fenômeno Lula
Brizola era de esquerda; Lula e FHC são?
O 'lobby' sionista "de esquerda" no Brasil: Tábata Amaral, Clara Ant, Jacques Wagner
terça-feira, 31 de março de 2026
Tribunal americano equipara rede social a droga e condena Meta a pagar indenização
Indenização a jovem que foi lesada pelo vício das redes sociais é de 6 milhões de dólares. Documentos da defesa mostram que dirigentes e funcionários da Meta tratam seu produto como droga viciante há muito tempo. "Agora vamos atrás de crianças de 13 anos", diz uma das provas. A estratégia dos advogados foi a mesma usada no século passado contra a indústria do tabaco, que também durante décadas fez propaganda de cigarros e induziu o público a se viciar, tendo conhecimento dos males que provocava. Então e agora, em nome do lucro, movidos sempre pelo capital. A previsão é que uma enxurrada de ações e sentenças virá em seguida, levando ao controle dessas empresas criminosas, finalmente. Um Calma Urgente! de vez em quando é bom. É interessante constatar como Alessandra Orofino e Gregório Duvivier são liberais, acreditam na democracia burguesa, o que significa acreditar no capitalismo e no neoliberalismo. Bruno Torturra compreende a extensão do assunto, a profundidade da questão.
segunda-feira, 30 de março de 2026
A escravidão ao capital é o entrave ao bem-estar humano
"Na China, uma pessoa entra numa cabine e em quinze minutos faz um checape completo", narra Elias Jabbour, para exemplificar como a inteligência artificial pode ser usada para o bem-estar coletivo, numa nação socialista, em vez de ser usada para empresas venderem porcarias e bilionários ficarem ainda mais ricos, como acontece na civilização capitalista.
O fato é que o mundo pode ser muito melhor, se os humanos assumirem o controle do capital, em vez de serem escravos dele e dos seus proprietários. A China fez isso e está mostrando o caminho para o restante da humanidade. Esse é o ponto. As discussões sobre se a China é capitalista ou socialista, se é uma ditadura ou democracia, só mostram o elevado grau ideológico a que o capital nos submeteu no Brasil. Que autoridade temos nós para falar em democracia, numa nação de tanta miséria, tanta violência, tanta exploração do trabalho, tanta opressão, tanta corrupção dos políticos e autoridades capitalistas? Como me disse uma diarista no ônibus, hoje: de quatro em quatro anos, aparece um candidato lá em casa pedindo meu voto, depois some, não quer saber se eu estou precisando de remédio, de comida nem nada. É essa a democracia que a esquerda brasileira defende há mais de quarenta anos. O único obstáculo entre a riqueza extraordinária que os seres humanos produzem e o seu bem-estar é a dominação do capital. Inverta-se isso, assumam os trabalhadores o controle sobre o capital e a vida será incomparavelmente melhor.
domingo, 29 de março de 2026
O melhor aluno da turma*
Em memória do Paulo Gualberto Murta (30/9/1953 - 25/3/2026).
Olhei para os dois lados da Avenida Antônio Carlos, não vi nenhum carro e atravessei correndo. Súbito, ouvi um grito e senti um baque que me estirou no asfalto. Só então vi a bicicleta. Tinha sido atropelado e o ciclista assustado perguntava se eu estava machucado. Respondi que não, olhando as mãos, os joelhos e cotovelos esfolados. Apressei-me a levantar, limpei a camisa branca, apanhei minha pasta de couro preta e retomei o caminho, correndo novamente. Estava atrasado para a aula: tinha consumido os primeiros minutos da manhã terminando o para casa e agora precisava encontrar o portão aberto ou todo meu esforço teria sido em vão.
O grupo escolar era um lugar penoso. Para ir à “casinha”, como se chamava o banheiro, precisava de permissão da professora, quando tinha coragem de pedir. Era uma situação traumática: no jardim de infância, uma vez, não consegui controlar, me sujei e permaneci sentado até que chegassem para me buscar, no começo da noite. O jardim, um conjunto de salinhas interligadas no segundo andar de um sobrado, com piso de taco e paredes cheias de cartazes e desenhos, me dava tristeza. A tarde passava devagar enquanto eu e outros meninos e meninas que nunca se tornaram meus amigos permanecíamos sentados em volta de mesinhas com quatro cadeirinhas cada uma, aprendíamos a escrever nosso nome, ouvíamos histórias tenebrosas de lobos maus e bruxas cruéis e brincávamos de toquinhos e massinhas. Só uma vez me alegrei, com um acontecimento extraordinário: descemos à avenida para saudar a bela Staël Abelha, mineira eleita Miss Brasil, desfilando em carro aberto. No grupo, também ficávamos sentados, mas era em carteiras enfileiradas. A sala de aula era uma prisão, eu ficava sentado na carteira, não podia levantar, não podia conversar, não podia sair. Tinha que permanecer em silêncio, prestar atenção na professora, copiar no caderno o que ela escrevia com giz branco no quadro verde. Como curumins ingênuos, a gente se divertia com as novidades, sem saber que estava sendo treinada pela ideologia do sistema para assimilar sua visão do mundo e obedecer suas leis. Algum gaiato soltava um comentário ou fazia alguma coisa engraçada e arrancava gargalhadas e olhares cúmplices na rebeldia à disciplina que a professora tentava impor. Colegas puxavam conversa, as meninas bonitas atraíam minha atenção, a luz do sol e os ruídos externos me distraíam. Eu olhava para as janelas laterais e minha mente voava, pensando nas brincadeiras que me aguardavam em casa, mas devia corresponder à expectativa da professora e ser bom aluno, para ser recompensado com carinho e admiração. Sem fazer esforço, era aprovado ano após ano com média final máxima. O segundo ano foi especial. Dona Maria Luísa era carinhosa e me incentivava com anotações na caderneta, ao lado das notas das provas bimestrais. No final do ano, escreveu palavras exclamativas: Promovido com 10! 1º lugar! Parabéns! Ela estava grávida e no começo do ano seguinte saiu de licença. Uma manhã recebemos a notícia fúnebre: minha professora querida tinha morrido ao dar à luz. Minha turma visitar sua casa, na Rua Turvo, a dois quarteirões do grupo. Minha mãe, que acabara de ganhar minha irmã caçula, comentou, consternada, que era inadmissível em pleno século XX ainda se morrer de parto no Brasil. No terceiro ano, eu fazia desenhos para ilustrar meus trabalhos e os de colegas e vizinhos que vinham pedir minha ajuda. Dona Marlene, que falava alto e tinha sotaque nortista, se entusiasmava com as minhas composições na séria intitulada “Se eu fosse…” e não se cansava de elogiar minha imaginação para os meus pais. Foi perturbador perder o posto de melhor aluno no quarto e último ano do grupo. Conceituada e temida, Dona Dagmar inspecionava nossos cadernos, um por um, na fila, antes de entrarmos em sala, e aquele ritual me apavorava. Ela desconsiderava meu passado escolar e o fato de ser filho de uma colega e, quando eu levava um bilhete que justificava com a asma um dever de casa não feito, perguntava para a classe: “Tem mais algum doentinho que não fez o para-casa?” Querendo me proteger da megera, minha mãe tentou me trocar de turma, mas não teve sucesso e o episódio selou minha queda. Eu me sentia culpado, pois era relapso. Mal saía da escola, aliviado pelo fim de mais um suplício, abraçava meu amigo e xará, moreninho, tímido e gentil, que morava num bairro distante e sempre tinha dinheiro no bolso, e íamos os dois comprar picolés de groselha na sorveteria da esquina. Eu sabia que aquele gelado proibido e irresistível poderia resultar numa crise de asma, assim como passar a tarde jogando bola na poeira, mas fazia assim mesmo, e adiava o dever de casa para a noite. À noite, distraído pela televisão e vencido pelo cansaço, calculava que poderia cumprir a obrigação no dia seguinte, antes de ir para a aula, se acordasse bem cedinho… Ao acordar, porém o que tinha parecido uma boa solução mostrava-se inexequível diante do sono matinal, e eu preferia dormir mais um pouquinho: levantava em cima da hora, vestia o uniforme correndo, arrumava a pasta, engolia o café com leite e saía mastigando o pão com manteiga, esforçando-me para chegar a tempo, rezando para não ter fila de revista e escapar das chamadas da dona Dagmar.
Naquela manhã, depois de ser atropelado pela bicicleta, encontrei o portão do grupo ainda aberto e me acalmei ao alcançar a sala de aula, pois estava preparado: o para casa tinha sido fácil, uma composição sobre o tema “Meu melhor amigo”. Sem titubear, escrevi sobre José, com quem brincava desde que me lembrava, depois que Gérson foi embora para sempre. Nomeei-o, narrei nossas brincadeiras, proclamei os sentimentos que nos uniam e concluí: “Por tudo isso, José é o meu melhor amigo”. Quando dona Dagmar me chamou, levantei-me e li com segurança minha redação, voltei a sentar satisfeito e esperei pelas outras leituras. A menina que leu depois de mim teceu loas ao seu melhor amigo e fez suspense sobre seu nome. Estranhei que seu melhor amigo fosse homem e não mulher, e compreendi no final, quando ela revelou que falava do seu pai, mas achei aquilo falso e piegas. Outros colegas leram suas composições em seguida e todos falaram do pai. A cada nova leitura eu me encolhia na carteira, envergonhado por também não ter falado do meu pai: no domingo seguinte comemorava-se o Dia dos Pais e com certeza, apesar do título, a instrução da dona Dagmar era homenagear nossos pais, mas eu comi mosca e dera um vexame. Na votação feita pela turma, a minha composição ficou em último lugar; todos deviam pensar que eu não gostava do meu pai. Para mim, no entanto, pai era pai e amigo era amigo.
*Capítulo do livro Ainda me Lembro (17).
