quarta-feira, 20 de maio de 2026
Música do dia: Virgínia, com Os Mutantes
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Música do dia: Com açúcar, com afeto (Chico Buarque), com Jane Morais
sábado, 9 de maio de 2026
Música do dia: I'm so tired, The Beatles
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Música do dia: Bashi achuki, com Trio Mandili
quarta-feira, 6 de maio de 2026
Xingamentos e ameaças na Câmara dos Deputados
terça-feira, 5 de maio de 2026
José Dirceu ou a ideologia do PT
sexta-feira, 1 de maio de 2026
Música do dia: E agora, José?, com Paulo Diniz
O poema do Carlos Drummond de Andrade serve de tema para o quadro político brasileiro, diante da derrota histórica do governo Lula, com a rejeição pelo Senado do seu indicado a ministro do Supremo Tribunal Federal, coisa que só tinha acontecido no governo Floriano Peixoto, nos primórdios da República, ainda no século XIX. Me lembrou aquele momento assustador há dez anos, quando a Câmara aceitou o pedido de impeachment da presidenta Dilma: muita coisa aconteceu e muita esperança havia ainda, mas o governo já tinha acabado. É a pergunta que faz o analista Frederico Krepe no vídeo que também reproduzo abaixo, juntamente com a do Jones Manoel, duas análises lúcidas. Para completar seu serviço o Congresso, ontem, derrubou o veto presidencial e manteve a revisão das penas dos golpistas de 8 de janeiro. Da minha parte, digo o que sinto desde que a volta do Lula se anunciou, ao ser solto em 2019: o Brasil continua afundando enquanto marca passo, sem encontrar seu caminho, seguindo políticos corrompidos, prestes a voltar às trevas de um novo governo bozo, dessa vez do jr. Já escrevi muitas vezes ao longo das quase duas décadas deste blog o que penso do Lula e do fracasso da minha geração. Quando o bozo pai foi eleito, naquela farsa da facada, parecia que os brasileiros viviam um pesadelo, ao qual a pandemia deu cores dantescas; uma repetição do pesadelo parece a descida definitiva ao inferno. Todos sabemos que bozo jr. é um bandido cercado de bandidos, que o Congresso está dominado pelo crime organizado e por interesses particulares, antinacionais e antipopulares. A imprensa empresarial não é muito melhor e já não tem a força que tinha, o STF dá mostras de que o julgamento dos golpistas de 8 de janeiro foi um ato político, não uma demonstração de idoneidade; foi por assim dizer o último ato de um longo processo que começou com a farsa do mensalão, que pode ser nomeado como a tragédia do povo brasileiro. A política brasileira está toda podre. E é isso, a podridão, que vai se institucionalizar a partir de 2027, ao que tudo indica. Depois, só uma revolução popular poderá consertar, mas como imaginar uma revolução, se até o povo se tornou reacionário, aderiu à ideologia dominante e vota na extrema direita? E agora, José? José, para onde?
quarta-feira, 29 de abril de 2026
A viagem de Paulo Diniz e Juarez Correia pelo sertão de Pernambuco
domingo, 26 de abril de 2026
Lula e o PT deram o exemplo para a juventude "antissistema"
Estou procurando no blog e ainda não achei quando foi a primeira vez que eu falei isso que o Breno Altaman está falando hoje: o PT se transformou no partido da ordem. Quer dizer, ele diz que ainda não aconteceu, mas há uma pressão forte para acontecer, eu digo que já aconteceu há muito tempo, desde que Lula assumiu a presidência pela primeira vez. Altman adota uma política gradualista de aceitar a ideia, assim como aceita hoje ideias que não aceitava há algum tempo. A questão é que a situação política do Brasil ficou evidente e que a pergunta que eu mesmo me faço é: por que nos deixamos enganar durante tanto tempo? Quando digo "nós" me refiro às pessoas de esquerda, anticapitalistas, que leram Marx, que idealizam uma sociedade igualitária e tudo mais. Hoje me parece evidente que Lula e o PT foram o melhor partido e o melhor presidente que o capital poderia desejar, porque conteve os trabalhadores enquanto fazia o que os capitalistas queriam. Qualquer governo enfrentaria a oposição dos trabalhadores, como de fato outros enfrentaram antes. Não mais agora, porque a organização dos trabalhadores foi ampla e fortemente destruída e os jovens não querem carteira assinada nem sindicatos nem nada parecido, pois se consideram "empreendedores", isto é, foram ganhos pela ideologia neoliberal capitalista. Como disse um banqueiro, tanto faz que a eleição de outubro seja vencida por Lula ou bozo jr., porque Lula já se mostrou confiável -- e os trabalhadores, acrescento eu, defendem o sistema, achando que estão atacando o sistema. Lula, o ex-líder sindical, e o PT, o partido dos trabalhadores, deram o exemplo e agora os jovens trabalhadores também defendem o capitalismo. Altman está dizendo coisas que só marxistas revolucionários diziam. E faz uma observação interessante: o discurso do Lula na Espanha parece um pedido de socorro.
PS: Em 2011, escrevi sobre isso, talvez tenha sido a primeira vez, e lá se vão 15 anos.
sábado, 25 de abril de 2026
Para banqueiro, tanto faz que o eleito em outubro seja Lula ou bozo jr.
O elo perdido da revolução brasileira
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Em 2018, Lula queria um candidato para perder a eleição
Música do dia (2): Valsa nº 2, de Dmitri Shostakovich
Música do dia: I Will Follow Him
Mais uma entrevista do Lula
domingo, 19 de abril de 2026
Mais uma ótima análise do Jones Manoel
O comunista pernambucano faz o que eu sempre esperei da esquerda brasileira, desde os anos 1970, quando comecei a ouvir os discursos ditos marxistas-leninistas: propostas factíveis para governar o Brasil capitalista e transformá-lo numa grande nação razoável, econômica, social e politicamente democrática. A esquerda nunca entendeu o Brasil concreto, sempre falou de um Brasil teórico, baseado nas experiências revolucionárias estrangeiras e nas análises sociais europeias. A Polop tentou pensar a revolução brasileira no começo dos anos 1960, mas os resultados práticos do seu esforço foram pífios ou desastrosos. Quando chegou ao poder, com FHC primeiro e depois com Lula, a dita esquerda adotou o neoliberalismo como modelo, se submeteu confortavelmente ao capital e esqueceu os compromissos com os trabalhadores. Jones Manoel me parece o primeiro intelectual marxista brasileiro que une as ideias socialistas à realidade nacional concreta. Pouco a pouco ele vem elaborando uma alternativa de esquerda com possibilidades de ser bem-sucedida, de fazer um governo mil vezes melhor do que os medíocres governos lulopetistas e milhões de vezes melhor do que os governos da extrema direita. Acrescento que ele não é o único político brasileiro a fazer isso; sem o mesmo compromisso com a revolução socialista e a ideologia marxista-leninista, Ciro Gomes apresenta sem sucesso aos brasileiros desde 1998 um projeto que em muito se assemelha ao do JM.
Finalmente um discurso de esquerda no Brasil
Para Lula, de Maquiavel

Quem sou eu para dar conselhos ao maior político brasileiro do nosso tempo, mas o gênio fundador da Ciência Política merece ser ouvido, por seu conhecimento amplo e universal, ainda que não abarque os seis últimos séculos da História, que transformaram a trajetória do Homo sapiens da Renascença na barbárie quase consumada. Troquemos nomes e veremos o Brasil contemporâneo. Lula tinha fama de não ler, ganhou fama de devorador de livros na prisão, segundo seu biógrafo autorizado, não se sabe se leu o Florentino, mas um dos seus inúmeros acólitos poderia ler ou reler para ele. O texto abaixo é o 26º e último capítulo do livro O Príncipe, obra máxima de Nicolau Maquiavel; a tradução é de Mário e Celestino da Silva, no volume 248 das Edições do Senado Federal.
Exortação a libertar a Itália dos bárbaros
DEPOIS DE HAVER REFLETIDO em tudo o que se disse nos anteriores capítulos; após ter perguntado a mim mesmo se os tempos atuais da Itália são de molde a permitir que um novo príncipe adquira nela celebridade e se homem sábio e virtuoso poderá encontrar aqui matéria suscetível de tomar nova forma que constitua motivo de glória para ele e um benefício para a totalidade dos italianos, conclui que talvez nunca tenha existido outra época tão propícia a vinda de um novo príncipe como a de hoje. Se, conforme eu disse, para se conhecer a virtude de Moisés, a grandeza de ânimo de Ciro e a excelência de Teseu era necessário, respectivamente, que o povo de Israel fosse escravo no Egito, que os persas estivessem oprimidos pelos medas e que entre os atenienses lavrasse a desunião, assim, no presente, para se conhecer o valor [virtú] de um espírito italiano era preciso que a Itália descesse ao extremo de hoje, que fosse mais escrava do que os hebreus, mais oprimida que os persas, mais desunida que os atenienses, sem chefe, sem ordem, vencida, despojada, dilacerada, invadida, e que tivesse vencida, e que tivesse suportado toda a espécie de vexames.
Embora um ou outro de seus homens haja revelado indícios de gênio, deixando supor que Deus o destinará à missão de o redimir, viu-se depois que no ponto culminante das suas ações sofreu o repúdio da fortuna. Destarte, tendo ficado como que sem vida, ela espera quem venha curar-lhe as feridas e pôr um paradeiro à pilhagem dos lombardos, às espoliações e tributos do reino de Nápoles e da Toscana e a sare de todas as chagas já de muito gangrenadas. Veja-se como roga ao Senhor que lhe mande alguém capaz de a salvar dessas crueldades e insolências bárbaras; como está ainda inteiramente pronta a seguir uma bandeira, desde que alguém a desfralde! E a quem poderia ela no momento presente confiar melhor a realização das suas esperanças, do que a vossa ilustre Casa, com os seus méritos [virtù] e fortuna, com as graças de Deus e da Igreja, a qual deu um príncipe [o papa Leão X, da casa dos Médicis]? Quem, mais do que ela, indicado para se colocar à frente dessa obra de redenção? Isso não será difícil se os lembrardes da vida e das ações dos príncipes que mencionei. Posto esses homens fossem extraordinários, nem por isso deixaram de ser homens, e nenhum deles teve oportunidades tão boas como a que agora se apresenta, pois, as suas empresas não foram mais justas nem mais fáceis do que esta, nem Deus foi para eles mais benevolente do que o é para convosco. De grande justiça reveste-se o caso atual: justum enim est bellum quibus necessarium, et pia arma ubi nulla nisi in armis spes est. [É sempre justa a guerra quando necessária, e piedosas as armas quando não há esperança a não ser nas armas.] Favorabilíssimo é o ânimo existente, e quando esse existe e se inspira nos exemplos que para isso vos propus, não pode haver grandes dificuldades. Outrossim, veem-se, no caso, ocorrer fatos extraordinários, sem precedentes, filhos da vontade de Deus: as águas do mar separaram-se, uma nuvem indicou o caminho, da pedra jorrou água, choveu maná; e tudo concorre para a vossa grandeza. O resto pertence a vós fazê-lo. O Todo-Poderoso não quer fazer tudo para não nos tirar o livre-arbítrio e a parte de glória que nos cabe.
Não vos admireis que nenhum dos italianos por mim referidos tenha sido capaz de fazer o que da vossa ilustre Casa se pode esperar, nem que, depois de tantas revoluções e de tantos manejos bélicos, pareça ter-se extinguido na Itália a virtude militar. A razão deste fato está em que as antigas instituições [militares] do país não eram boas e ninguém soube fundar novas. Nada contribui tanto para a glória de um homem que surja no horizonte quanto as novas leis e instituições que ele venha a criar. Quando elas são grandiosas e sólidas, tornam-no digno do mais alto respeito e admiração. Ora, não falta na Itália matéria adaptável às mais variadas formas que um artífice lhe queira dar. A virtude que escassear nos chefes, supri-la-ão os subalternos. Observai os duelos e as lutas de grupos, e vereis até que ponto chega a força, a destreza e o talento dos italianos. E, todavia, quando a luta é de exércitos, esses dotes desaparecem. Tudo isso tem por causa a fraqueza dos chefes: os capazes não se sujeitam a obedecer; todos se julgam capazes, e até hoje nenhum houve cujo valor [virtù] e fortuna fossem bastantes para compelir os demais a dobrarem a cerviz. Daí provém que de tão longo decurso de tempo, em tantas guerras feitas nos últimos vinte anos, todas as vezes que o exército se compunha inteiramente de italianos, só fracassos se tenham verificado. Disso dão testemunho, primeiro, o Taro, e depois Alexandria, Cápua, Gênova, Vailate, Bolonha e Mestre.
Se vossa ilustre Casa quiser, portanto, seguir o exemplo dos homens insignes que redimiram as suas províncias, cumpre-lhe antes de mais nada ter, como verdadeiro alicerce de qualquer empresa, exércitos seus; porque não se encontram soldados mais fiéis, mais sinceros e eficientes do que os italianos. E se individualmente são bons, melhores ainda serão quando, todos juntos se virem comandados, distinguidos e sustentados pelo seu príncipe. É necessário, por conseguinte, apresentar essas armas para poder, com valor [virtù] italiano, defender-se dos estrangeiros. Posto que as infantarias suíça e espanhola tenham fama de temíveis, ambas possuem falhas, motivo pelo qual uma terceira espécie de tropas poderia, não apenas resistir-lhes, mas também vencê-las. Com efeito, os espanhóis fraquejam diante da cavalaria e os suíços têm medo dos infantes quando estes os acometem com ímpeto igual ao seu. Daí se origina o fato, que a experiência já demonstrou e ainda demonstrará, de não poderem os espanhóis arrostar a cavalaria francesa e de serem os suíços esmagados pela infantaria espanhola. É verdade que deste último caso não houve até agora prova cabal. Contudo, tivemos um parcial na batalha de Ravena, quando a infantaria espanhola lutou com as tropas alemãs, que empregam um método de combate igual ao das suíças. Os espanhóis, valendo-se da sua agilidade e dos seus broquéis, insinuaram-se por entre os piques dos alemães e atacaram-nos livremente, sem que os seus adversários pudessem defender-se; e tê-los-iam matado todos se a cavalaria não houvesse investido contra eles. Conhecidas, pois, as falhas de uma e de outra dessas infantarias, pode-se organizar uma de novo tipo, apta a resistir à cavalaria e não receosa dos infantes. Bastará para tanto criar novas espécies de armas e novas maneiras de combater. É isto que dá prestígio e grandeza a um príncipe novo.
É, portanto, essencial aproveitar esta ocasião, para que a
Itália veja, após tanto tempo, aparecer o seu redentor. Nem sei exprimir
com quanto amor, com quanta sede de vingança e fé obstinada, com quanta
ternlura e quantas lágrimas ele seria acolhido em todas as províncias
que tanto padeceram com aquelas inundações estrangeiras. Que portas se
fechariam diante dele? Que povos lhe recusariam obediência? Que inveja
ousaria opor-se-lhe? Qual o italiano capaz de negar a sua homenagem? A
todos repugna este bárbaro domínio. Abrace, pois, a vossa ilustre Casa
esta causa, com aquele espírito e aquela esperança com que se abraçam as
empresas justas, para que debaixo das suas insígnias se nobilite esta
pátria e sob os seus auspícios se cumpra o dito de Petrarca:
Virtú contro furore
Prendera l’arme; e fia il combatter corto,
Chè l’ antico valore
Negl’italici cuor non è ancor morto.
[A virtude empunhará as armas contra a fúria; e a luta será breve, porque o antigo valor ainda não se extinguiu nos corações italianos. Petrarca, Cancioneiro, parte I, CXXVIII (canção XVI), versos 93 a 96.]
Música do dia: Please, please me, The Beatles
sábado, 11 de abril de 2026
Música do dia (2): Mind games, com John Lennon
Jones Manoel é o cara
quinta-feira, 9 de abril de 2026
Humanos
sexta-feira, 3 de abril de 2026
Postagem publicada em 2014 antecipava o Brasil descendo a ladeira
RPJ: a nova marcha da família?
Primeiro pensei que se tratava daqueles jogos, RPG. A estética da cartilha lembra a TFP e outros movimentos de direita. Siglas. O globo da bandeira do Brasil com o mapa invertido e o lema positivista também alterado: "Desordem no Congresso". Jogo de palavras. As cores verde, amarelo, azul. E a palavra mágica, presente em todos os discursos da direita, desde que o Brasil inaugurou uma democracia mais participativa, depois da II Guerra Mundial: corrupção. Outras palavras fortes: "indignação", "covardia". E o advérbio que remete à maior campanha política de massas que o Brasil já teve, pelas eleições diretas, em 1984: "já". A cartilha de 12 páginas, grampeada, com boa qualidade de impressão, está sendo distribuída nas ruas. Não é apócrifa. Logo no começo, na página 2 há uma lista de nomes de "fundadores" do "movimento". Não conheço nenhum, além do nome não há outra identificação. RPJ são as iniciais de "Reforma Política Já", o movimento. A "instituição" se chama Pró-Cidadania -- Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Cidadania. Seu presidente é Marcílio A. Moreira. Tem página na internet (www.rpj.org.br), telefone (31-9122-4330) e email: m2augusto@hotmail.com.
Há poucos dias, um grande movimento de sindicatos, associações, organizações diversas e partidos políticos inclusive, todos identificados, promoveram um grande plebiscito a favor da reforma política. O mesmo objetivo que, aparentemente, o RPJ busca. O plebiscito pede a eleição de uma Constituinte exclusiva para a reforma política. O resultado do plebiscito saiu ontem: foram 7,4 milhões de votos favoráveis à Constituinte (97,2% -- 2,7%, contrários), número bastante expressivo para um movimento organizado pela sociedade, sem participação governamental nem estatal. O RPJ não participou. Por quê?
Música do dia: Charles Anjo 45 (Jorge Ben), com Caetano Veloso
quinta-feira, 2 de abril de 2026
O fenômeno Lula
Brizola era de esquerda; Lula e FHC são?
O 'lobby' sionista "de esquerda" no Brasil: Tábata Amaral, Clara Ant, Jacques Wagner
terça-feira, 31 de março de 2026
Tribunal americano equipara rede social a droga e condena Meta a pagar indenização
Indenização a jovem que foi lesada pelo vício das redes sociais é de 6 milhões de dólares. Documentos da defesa mostram que dirigentes e funcionários da Meta tratam seu produto como droga viciante há muito tempo. "Agora vamos atrás de crianças de 13 anos", diz uma das provas. A estratégia dos advogados foi a mesma usada no século passado contra a indústria do tabaco, que também durante décadas fez propaganda de cigarros e induziu o público a se viciar, tendo conhecimento dos males que provocava. Então e agora, em nome do lucro, movidos sempre pelo capital. A previsão é que uma enxurrada de ações e sentenças virá em seguida, levando ao controle dessas empresas criminosas, finalmente. Um Calma Urgente! de vez em quando é bom. É interessante constatar como Alessandra Orofino e Gregório Duvivier são liberais, acreditam na democracia burguesa, o que significa acreditar no capitalismo e no neoliberalismo. Bruno Torturra compreende a extensão do assunto, a profundidade da questão.
segunda-feira, 30 de março de 2026
A escravidão ao capital é o entrave ao bem-estar humano
"Na China, uma pessoa entra numa cabine e em quinze minutos faz um checape completo", narra Elias Jabbour, para exemplificar como a inteligência artificial pode ser usada para o bem-estar coletivo, numa nação socialista, em vez de ser usada para empresas venderem porcarias e bilionários ficarem ainda mais ricos, como acontece na civilização capitalista.
O fato é que o mundo pode ser muito melhor, se os humanos assumirem o controle do capital, em vez de serem escravos dele e dos seus proprietários. A China fez isso e está mostrando o caminho para o restante da humanidade. Esse é o ponto. As discussões sobre se a China é capitalista ou socialista, se é uma ditadura ou democracia, só mostram o elevado grau ideológico a que o capital nos submeteu no Brasil. Que autoridade temos nós para falar em democracia, numa nação de tanta miséria, tanta violência, tanta exploração do trabalho, tanta opressão, tanta corrupção dos políticos e autoridades capitalistas? Como me disse uma diarista no ônibus, hoje: de quatro em quatro anos, aparece um candidato lá em casa pedindo meu voto, depois some, não quer saber se eu estou precisando de remédio, de comida nem nada. É essa a democracia que a esquerda brasileira defende há mais de quarenta anos. O único obstáculo entre a riqueza extraordinária que os seres humanos produzem e o seu bem-estar é a dominação do capital. Inverta-se isso, assumam os trabalhadores o controle sobre o capital e a vida será incomparavelmente melhor.
domingo, 29 de março de 2026
O melhor aluno da turma*
Em memória do Paulo Gualberto Murta (30/9/1953 - 25/3/2026).
Olhei para os dois lados da Avenida Antônio Carlos, não vi nenhum carro e atravessei correndo. Súbito, ouvi um grito e senti um baque que me estirou no asfalto. Só então vi a bicicleta. Tinha sido atropelado e o ciclista assustado perguntava se eu estava machucado. Respondi que não, olhando as mãos, os joelhos e cotovelos esfolados. Apressei-me a levantar, limpei a camisa branca, apanhei minha pasta de couro preta e retomei o caminho, correndo novamente. Estava atrasado para a aula: tinha consumido os primeiros minutos da manhã terminando o para casa e agora precisava encontrar o portão aberto ou todo meu esforço teria sido em vão.
O grupo escolar era um lugar penoso. Para ir à “casinha”, como se chamava o banheiro, precisava de permissão da professora, quando tinha coragem de pedir. Era uma situação traumática: no jardim de infância, uma vez, não consegui controlar, me sujei e permaneci sentado até que chegassem para me buscar, no começo da noite. O jardim, um conjunto de salinhas interligadas no segundo andar de um sobrado, com piso de taco e paredes cheias de cartazes e desenhos, me dava tristeza. A tarde passava devagar enquanto eu e outros meninos e meninas que nunca se tornaram meus amigos permanecíamos sentados em volta de mesinhas com quatro cadeirinhas cada uma, aprendíamos a escrever nosso nome, ouvíamos histórias tenebrosas de lobos maus e bruxas cruéis e brincávamos de toquinhos e massinhas. Só uma vez me alegrei, com um acontecimento extraordinário: descemos à avenida para saudar a bela Staël Abelha, mineira eleita Miss Brasil, desfilando em carro aberto. No grupo, também ficávamos sentados, mas era em carteiras enfileiradas. A sala de aula era uma prisão, eu ficava sentado na carteira, não podia levantar, não podia conversar, não podia sair. Tinha que permanecer em silêncio, prestar atenção na professora, copiar no caderno o que ela escrevia com giz branco no quadro verde. Como curumins ingênuos, a gente se divertia com as novidades, sem saber que estava sendo treinada pela ideologia do sistema para assimilar sua visão do mundo e obedecer suas leis. Algum gaiato soltava um comentário ou fazia alguma coisa engraçada e arrancava gargalhadas e olhares cúmplices na rebeldia à disciplina que a professora tentava impor. Colegas puxavam conversa, as meninas bonitas atraíam minha atenção, a luz do sol e os ruídos externos me distraíam. Eu olhava para as janelas laterais e minha mente voava, pensando nas brincadeiras que me aguardavam em casa, mas devia corresponder à expectativa da professora e ser bom aluno, para ser recompensado com carinho e admiração. Sem fazer esforço, era aprovado ano após ano com média final máxima. O segundo ano foi especial. Dona Maria Luísa era carinhosa e me incentivava com anotações na caderneta, ao lado das notas das provas bimestrais. No final do ano, escreveu palavras exclamativas: Promovido com 10! 1º lugar! Parabéns! Ela estava grávida e no começo do ano seguinte saiu de licença. Uma manhã recebemos a notícia fúnebre: minha professora querida tinha morrido ao dar à luz. Minha turma visitar sua casa, na Rua Turvo, a dois quarteirões do grupo. Minha mãe, que acabara de ganhar minha irmã caçula, comentou, consternada, que era inadmissível em pleno século XX ainda se morrer de parto no Brasil. No terceiro ano, eu fazia desenhos para ilustrar meus trabalhos e os de colegas e vizinhos que vinham pedir minha ajuda. Dona Marlene, que falava alto e tinha sotaque nortista, se entusiasmava com as minhas composições na séria intitulada “Se eu fosse…” e não se cansava de elogiar minha imaginação para os meus pais. Foi perturbador perder o posto de melhor aluno no quarto e último ano do grupo. Conceituada e temida, Dona Dagmar inspecionava nossos cadernos, um por um, na fila, antes de entrarmos em sala, e aquele ritual me apavorava. Ela desconsiderava meu passado escolar e o fato de ser filho de uma colega e, quando eu levava um bilhete que justificava com a asma um dever de casa não feito, perguntava para a classe: “Tem mais algum doentinho que não fez o para-casa?” Querendo me proteger da megera, minha mãe tentou me trocar de turma, mas não teve sucesso e o episódio selou minha queda. Eu me sentia culpado, pois era relapso. Mal saía da escola, aliviado pelo fim de mais um suplício, abraçava meu amigo e xará, moreninho, tímido e gentil, que morava num bairro distante e sempre tinha dinheiro no bolso, e íamos os dois comprar picolés de groselha na sorveteria da esquina. Eu sabia que aquele gelado proibido e irresistível poderia resultar numa crise de asma, assim como passar a tarde jogando bola na poeira, mas fazia assim mesmo, e adiava o dever de casa para a noite. À noite, distraído pela televisão e vencido pelo cansaço, calculava que poderia cumprir a obrigação no dia seguinte, antes de ir para a aula, se acordasse bem cedinho… Ao acordar, porém o que tinha parecido uma boa solução mostrava-se inexequível diante do sono matinal, e eu preferia dormir mais um pouquinho: levantava em cima da hora, vestia o uniforme correndo, arrumava a pasta, engolia o café com leite e saía mastigando o pão com manteiga, esforçando-me para chegar a tempo, rezando para não ter fila de revista e escapar das chamadas da dona Dagmar.
Naquela manhã, depois de ser atropelado pela bicicleta, encontrei o portão do grupo ainda aberto e me acalmei ao alcançar a sala de aula, pois estava preparado: o para casa tinha sido fácil, uma composição sobre o tema “Meu melhor amigo”. Sem titubear, escrevi sobre José, com quem brincava desde que me lembrava, depois que Gérson foi embora para sempre. Nomeei-o, narrei nossas brincadeiras, proclamei os sentimentos que nos uniam e concluí: “Por tudo isso, José é o meu melhor amigo”. Quando dona Dagmar me chamou, levantei-me e li com segurança minha redação, voltei a sentar satisfeito e esperei pelas outras leituras. A menina que leu depois de mim teceu loas ao seu melhor amigo e fez suspense sobre seu nome. Estranhei que seu melhor amigo fosse homem e não mulher, e compreendi no final, quando ela revelou que falava do seu pai, mas achei aquilo falso e piegas. Outros colegas leram suas composições em seguida e todos falaram do pai. A cada nova leitura eu me encolhia na carteira, envergonhado por também não ter falado do meu pai: no domingo seguinte comemorava-se o Dia dos Pais e com certeza, apesar do título, a instrução da dona Dagmar era homenagear nossos pais, mas eu comi mosca e dera um vexame. Na votação feita pela turma, a minha composição ficou em último lugar; todos deviam pensar que eu não gostava do meu pai. Para mim, no entanto, pai era pai e amigo era amigo.
*Capítulo do livro Ainda me Lembro (17).
sábado, 28 de março de 2026
Por que os governos do PT não aumentaram a consciência popular
terça-feira, 24 de março de 2026
A melhor análise da comunicação do governo Lula
segunda-feira, 23 de março de 2026
Voto nulo ou voto útil?
Parece uma pergunta de difícil resposta, desde os anos 1970. Nildo Ouriques faz parte de uma tradição política da qual participei na juventude, originária da Polop, a única tentativa de formular um caminho brasileiro para a revolução socialista e cujo maior expoente foi o cientista social mineiro Ruy Mauro Marini.
Em 1970, a ditadura militar estava no auge. O Brasil ganhou a Copa do Mundo do México, o "milagre econômico" deslanchava, o país crescia em índices chineses, o movimento estudantil de 1968 tinha sido derrotado, a esquerda revolucionária foi esfacelada, a oposição do fascismo estava morta, presa, clandestina ou exilada. Teve eleição parlamentar naquele ano, a ditadura sempre fingiu que era uma democracia burguesa, e grande parte do povo, que não é bobo, votou nulo. O partido do governo, a Arena, saiu amplamente vitorioso, e o partido da "oposição", oposição consentida e castrada, o MDB, convenceu poucos eleitores. A ditadura deitava e rolava na propaganda do "país que vai pra frente", "ame-o ou deixe-o", um slogan precursor do "Vai pra Cuba!", que os neofascistas recuperaram. Eles se repetem sempre, sem qualquer criatividade, porque são, acima de tudo, indigentes mentais e débeis morais.
Quatro anos depois veio outra eleição e a surpresa: em apenas quatro anos, o humor popular tinha mudado e seu voto migrou, em grande parte, para o MDB. Em Minas, elegeu para o Senado Itamar Franco, que viria depois a ser presidente. A esquerda sobrevivente se dividiu: pregar o voto nulo, reforçando a tendência popular em 1970, ou apoiar "candidatos autênticos" da "oposição" MDB. A maior parte fez essa opção, a minoria, praticamente apenas os remanescentes da Polop, pregaram o voto nulo. A ditadura levou um susto e o MDB passou a ser um novo espaço de atuação institucional da esquerda, que foi aos poucos estreitando seu laços com o que havia de descontentamento na burguesia e na pequena burguesia. A divisão da esquerda nunca se refez, os "democratistas" prevaleceram e a Polop se autodissolveu.
A eleição de 1974 foi o primeiro sinal de que a ditadura ia acabar algum dia. Isso porque a situação econômica mundial que sustentava o "milagre brasileiro" tinha mudado, com a crise do petróleo, que disparou a dívida brasileira. Pouco antes, o novo presidente ditador, Geisel, então presidente da Petrobrás, tinha decidido não investir em tecnologia e pesquisa, considerando que não valia a pena, pois o preço do petróleo era muito baixo. Foi um erro crucial. E olha que a ditadura tinha um plano de desenvolvimento econômico, um projeto de industrialização, baseado em empresas estatais; o Brasil nunca teve tantas "brás" quanto nesse época. Os militares chegaram até a começar um programa nuclear, o que levou a atritos com os EUA e perda de apoio, outro motivo para enfraquecimento do regime.
O fato é que a ditadura foi incompetente em relação ao petróleo e nunca mais se recuperou, foi só descendo a ladeira, vendo a inflação crescer e a oposição também, se dividindo entre "aberturistas", favoráveis a uma abertura política lenta, gradual e segura, e a linha dura, favorável ao fechamento total. O processo foi uma agonia longa e os militares da linha Geisel se impuseram e levaram tudo, no fim, voltando para os quartéis sem qualquer punição, cheios de privilégios, impondo sucessivas derrotas à oposição, que acabou engolindo, como primeiro presidente civil, um político da ditadura, e, como primeiro presidente eleito pelo voto direto, outro político de direita apoiado pela Globo. Depois vieram o governo Itamar Franco e a estabilização da economia, com o Plano Real, a eleição de FHC e sua adesão ao Consenso de Washington, que implantou o neoliberalismo na América Latina, e a promessa do Lula de que, se fosse eleito na quarta tentativa, seguiria na mesma toada, o que cumpriu.
Agora o voto nulo ressurge, diante de uma interpretação da realidade em que parte da esquerda, aquela mesma herdeira do voto nulo de 1974, diz que, seja com Lula, seja com o bozo, ou seu filho, pouco muda no país e que é preciso buscar outro caminho, o da revolução. É um dilema: não há dúvida de que é melhor viver num governo minimamente civilizado, como o do Lula, do que num desgoverno que liberou todos os crimes, como foi o do bozo. Também é certo, por outro lado, que enquanto a alternativa ao fascismo for Lula, o Brasil e a vida dos brasileiros dificilmente vão melhorar.
Pistas de Marina Lima e Antônio Cícero
Outro pernambucano se destaca na política, desta vez de esquerda
Imprensa e ideologia (2)
domingo, 22 de março de 2026
Imprensa e ideologia
Eu ia publicar um vídeo da Globonews para exemplificar, mas decidi não perder tempo com isso. É sobre o Irã, mas podia ser sobre a Palestina, Cuba, Venezuela, até sobre o Brasil. A Globo é um instrumento da política neoliberal, o que significa do capital internacional, o que significa do imperialismo estadunidense, o que significa da civilização eurocêntrica. Está no Brasil, mas copia, com qualidade inferior, como tudo que o capital internacional produz no país, a imprensa capitalista hegemônica. O que fez nas manifestações populares de 2013 e na campanha do impeachment da presidenta Dilma foi asqueroso. Faz o mesmo na política internacional, sempre subserviente aos EUA.
Não foi a Globo, porém quem subjugou minha geração. Todos sabíamos de que lado ela estava, pois apoiou o golpe de 1964, foi porta-voz oficiosa da ditadura, boicotou os movimentos populares, tentou impedir a eleição do Brizola e lhe fez oposição, ajudou a derrubar a emenda das diretas e a eleger o Collor. A ideologia é insidiosa. O neoliberalismo contaminou minha geração, a geração estudantil que se levantou contra a ditadura e começou a derrubá-la, transmitido pela própria esquerda, nos governos dos seus principais expoentes, FHC, Lula e Dilma. O tucano inaugurou a adesão ao Consenso de Washington e o ex-operário, fazendo-lhe oposição, seguiu o mesmo caminho, porém, uma vez no poder, e da mesma forma a ex-guerrilheira.
A ideologia funciona assim, primeiro confiamos nas pessoas, depois acreditamos nelas, e continuamos obedecendo-as mesmo quando elas não fazem o que esperamos, quando suas ações não correspondem mais ao discurso. A imagem da Dilma, que pegou em armas contra a ditadura, era mais forte do que os atos do seu governo a favor do capital. A imagem do Lula, um líder operário, sindicalista, retirante nordestino, homem autêntico do povo, sempre superou seu governo subserviente aos banqueiros e ao agrotoxiconegócio, abraçado ao magnata da indústria, seu vice. A imagem do intelectual marxista FHC sempre dourou as medidas antinacionais e antitrabalhistas que ele tomou. Já lhe tive desprezo, a partir do momento em que inventou a reeleição em seu próprio benefício, mas hoje penso que, dos três, talvez o sociólogo seja o mais honesto, uma vez que nunca se arvorou em líder dos trabalhadores.
O fato é que atravessamos décadas de confusão ideológica, influenciados pelo fim da URSS e do bloco soviético, sem compreender a civilização chinesa e colonizados pelo eurocentrismo, sem compreender que, aderindo ao neoliberalismo dos tucanos e petistas, ajudávamos a abrir caminho para o fascismo militar, que fez um governo de horrores, no qual morreram mais de 700 mil brasileiros na pandemia. Não obstante, e embora seu líder máximo se encontre preso por tramar um golpe de Estado, o fascismo está pronto para voltar ao poder, novamente com apoio da Globo, do UOL etc. e por meio do voto popular. Quantas décadas levaremos para construir uma alternativa política enfim popular e nacional?
O que explica o fracasso do governo de esquerda no Chile
sábado, 21 de março de 2026
Música do dia: Desculpe, Babe, com Os Mutantes
quarta-feira, 18 de março de 2026
Palestina baiana
Parece absurdo, mas é verdade. De férias do genocídio palestino, soldados israelenses trazem violência para o Brasil. Como prêmio pelo serviço militar na Palestina, onde mataram milhares de civis desarmados, crianças e mulheres inclusive, soldados israelenses passam férias no sul da Bahia de tempos em tempos. A gente pode imaginar como está a cabeça e o comportamento desses homens acostumados a praticar barbaridades que vemos relatadas no genocídio do povo palestino. Aqui, não são bem vistos pela população, pois manifestam racismo, arrogância e agressividade, mas os dólares que gastam agradam os comerciantes. Dessa vez eles intervieram numa manifestação de brasileiros e alguns foram presos. Eles não precisam de visto para entrar no Brasil, informa uma das reportagens, o que é absurdo, porque Israel não permite que estrangeiros entrem na Palestina, ataca e afunda navios que se aproximam, prende seus ocupantes, mas os soldados israelenses entram e circulam livremente no Brasil e ainda hostilizam e agridem brasileiros. A notícia do G1 omite a nacionalidade dos "turistas" que agrediram brasileiros, numa clara demonstração de como o lobby sionista controla a Globo. Como diz a comentarista baiana de outra reportagem, não precisamos e não podemos tolerar que os israelenses venham praticar violência também no Brasil, contra brasileiros. Sua entrada deve ser controlada pelo governo brasileiro.
Uma aula sobre a história dos EUA no século XX até hoje
segunda-feira, 16 de março de 2026
As contradições de Haddad: marxista na oposição, liberal no governo
domingo, 15 de março de 2026
Entrevista com Jair Fonseca (Jair Gatto), da banda Último Número e outras
No blog 2112.
2112 - Antes de criar o Divergência Socialista e o Último Número você fazia performances coletivas/individuais de poesias com livros impressos em mimeógrafo ao lado de Marcelo Dolabela e Rubinho Mendonça. Como surgiu esse projeto?
Jair - Surgiu de um grupo de estudantes universitários liderados por Marcelo Dolabela, bem como de alguns secundaristas como Rubinho, em torno de uma revista chamada Cemflores, inicialmente patrocinada pelo DCE Cultural da UFMG.
Leia a íntegra no blog 2112 clicando aqui.
A reportagem mais interessante sobre judeus nos últimos tempos
O tempo e as mortes
A primeira morte que me perturbou e consternou profundamente foi a da minha professora do segundo ano primário, dona Maria José. Eu tinha nove anos, ela tinha sido minha professora no ano anterior, uma professora competente e carinhosa, como posso constatar ainda hoje na caderneta escolar, que conservei, a mais querida das minhas professoras. Morreu jovem, no parto de uma filha, o que provocou o comentário da minha mãe, que tinha aproximadamente a mesma idade e a mesma profissão que ela, que era inadmissível naquela altura do século XX ainda morrerem mulheres no parto no Brasil. Minha turma saiu da aula, de manhã, e fomos todos à sua casa, numa rua paralela à rua do grupo escolar, bem perto. Era o simbólico ano de 1964, em que também o Brasil morreu mais uma vez. No ano anterior, aconteceu outra morte memorável, mas esta foi um acontecimento de alcance geral, acompanhado com imagens e notícias durante muitos e muitos dias no mundo inteiro, um “fato histórico”: o assassinato do presidente americano John Kennedy. Ele tinha a mesma idade do meu pai, que fazia exames para diagnosticar dores no peito e me lembro da minha mãe telefonando para o médico e pedindo que, se tivesse notícia ruim, falasse primeiro com ela, pois meu pai estava muito impressionado. Com imaginação fértil e raciocínio prático, eu pensei que, se meu pai morresse, eu ajudaria a sustentar a casa desenhando histórias em quadrinhos e minha irmã mais velha, que era boa aluna, poderia escrevê-las. (Seria uma manifestação dissimulada do Complexo de Édipo?) A morte rondou aqueles dias, lembro também de visitar com mamãe uma colega de trabalho dela que sofria de câncer e morreria logo, lembro do seu quarto confortável e bem iluminado numa casa elegante. Meu pai viveria mais quarenta anos, com saúde para dar e vender, morreria em idade provecta. A segunda morte de um conhecido que me impressionou foi quando eu tinha onze anos, no breve curso de “admissão ao ginásio”, de um colega de aula, um menino forte, bronco e atirado. Ele morreu afogado, num domingo, e na segunda fomos visitar sua família. Foi a primeira vez que fui a uma favela, lembro da dificuldade de chegar ao endereço, subindo vielas escuras, assim como o casebre miserável em que tinha morado, e de encontrar seus pais, abatidos e surpresos com nossa presença. A morte seguinte da qual me lembro foi a primeira de alguém com quem convivia, um parente, o meu avô paterno, o único que conheci. Ele tinha mais de oitenta anos, há controvérsias sobre o ano em que nasceu, mas oficialmente teria 82 anos incompletos. Há uma curiosa coincidência entre meus dois avôs: ambos nasceram no mesmo dia do mesmo ano: 20 de agosto de 1886, mas meu avô materno morreu novo, aos 60 anos, e não o conheci. Meu avô paterno, vovô Dimas, era um homem austero, rigoroso, bravo, diligente e bom, que ajudava minha mãe a cuidar dos filhos, nas faltas das empregadas, e passávamos muitas horas e dias com ele, acompanhando-o nas suas atividades domésticas e voltas pelo bairro. Sua morte foi cercada de circunstâncias especiais, pois no mesmo dia eu estava internado num hospital para tratamento de uma crise de asma, a mais forte que tive, e vendo as visitas chorosas, pensava que era por minha causa, me comovia e achava desnecessário, pois estava me recuperando e me sentia bem. Quando voltei para casa, minha mãe me deu a notícia com cuidados novelescos, fechados a sós no meu quarto; me diverti com a cena e me esforcei para desempenhar meu papel, mas não sofri o impacto, pois, por algum motivo, eu já sabia o que ela ia me contar e considerava natural que meu avô morresse – ele era velhinho e iria para o céu, estava tudo dentro da ordem. O que era a morte para mim, nessa época infantil? Não era uma coisa terrível, embora fosse triste, lamentável, dolorosa. Horrível era morrer em pecado e ser condenado ao fogo eterno dos infernos, mas morrer não, porque existia Deus e as pessoas boas iam viver em Sua companhia, os sobreviventes podiam se consolar com isso. A morte precoce e inesperada nos fazia sofrer, mas nos conformávamos aceitando os desígnios divinos, incompreensíveis, mas sábios. Nenhuma morte de alguém com quem eu convivia iria me abalar nos anos seguintes, até que eu entrasse na universidade. Nessa época, quando eu tinha já meus vinte anos, muitas coisas tinham acontecido e mudado minha consciência, eu mesmo tinha sido vítima de uma desgraça absurda, que poderia ter me matado talvez, não matou, mas me custou uma vista e me deixou em estado de choque diante das mortes ao meu redor. A desgraça confirmou o que eu tinha descoberto: a morte absurda como fim da vida absurda, a gratuidade da vida, a inexistência de Deus, a ideologia humana que tinham me ensinado e me fazia funcionar, mas eu perdera e não funcionava mais no modo automático. Passaria então a me angustiar com a minha própria morte, com o fim da minha consciência, com a minha saída de cena do teatro da vida, desejando adiá-la permanentemente, pois nunca estava pronto, e sentindo, junto com a dor e a revolta de uma morte precoce e injusta e a impotência para impedir a morte de uma pessoa querida, o alívio inconfessável de que não tinha sido eu ainda, que continuava vivo, que tinha escapado, que podia continuar vivendo e tentando esquecer que também eu morreria um dia, pois a vida é isso, esse tempo, longo ou curto, se contado em anos, mas sempre breve para a consciência do indivíduo que passa os dias na Terra acompanhando o teatro humano e tentando desempenhar o papel que lhe cabe.
sábado, 14 de março de 2026
Música do dia: Terra, Caetano Veloso
segunda-feira, 9 de março de 2026
Pré-candidato a deputado, Jones Manoel faz campanha para presidente
domingo, 8 de março de 2026
De Lula para Lula, desde 1989
Trocando mensagens com um ex-colega do JB nas décadas de 1980 e 1990, tentei lembrar quem votou em quem (isto é, os votos de cada um na redação da sucursal) na eleição da 1989, a primeira eleição presidencial direta depois da ditadura militar (1964-1985). E então me dei conta de que o segundo turno daquela eleição inaugurou uma situação que os brasileiros começaram a viver, em cada eleição presidencial, e que persiste até hoje, 37 anos e dez eleições depois: escolher entre Lula e outro candidato. Na eleição deste ano, Lula, que já governou graças à maioria dos trabalhadores, de cuja classe veio, visa a outra maioria, a das mulheres, como se vê no vídeo abaixo.
É um exercício muito interessante pensar na eleição de 1989, porque nos dá perspectiva histórica. Muita coisa pode ser inferida dessa simples observação, na verdade tudo, ou quase tudo da política brasileira nessas quatro décadas, e, como a política é o sistema nervoso de tudo, do próprio Brasil. A primeira coisa, óbvia, é que Lula é a maior personagem da história do Brasil, pois nenhum outro governante esteve no topo durante tanto tempo, nem mesmo Getúlio Vargas, que, do ponto de vista da construção da nacionalidade brasileira, é infinitamente maior. De fato, ao contrário de Getúlio, Lula não deixará herança palpável, institucional, e se deixar não será boa; sua obra me parece difusa, a simples administração do país, e mais alguma coisa subjetiva, na imaginação popular. Esta última, porém ainda não está muito clara para mim. Se ele tivesse saído em 2010, estaria: Lula deixaria o poder como um mito, no auge do sucesso, com aprovação quase unânime. Seria um Pelé da política, digamos assim, quanto mais o tempo passasse e a situação do país piorasse, como piorou, ele seria lembrado como o presidente de uma época dourada, como ainda hoje lembramos do JK. Muitas coisas aconteceram depois e Lula voltou a realizar façanhas, conseguiu superar o inferno da prisão e deu a volta por cima, elegeu-se presidente outra vez, mas é maior hoje do que foi no passado? Me parece que não, penso que os últimos 16 anos não o engrandeceram, embora tenham contribuído para consolidar sua condição de ídolo para uma parcela da população que já o idolatrava. De fato, prevejo um final melancólico para ele e pior para os brasileiros: deixar o poder derrotado na eleição deste ano. Se isso não ocorrer, será sua última façanha. Os ventos sopram mudança e, conforme sugere o começo deste texto, não há mudança mais simbólica e marcante no Brasil do que Lula perder o protagonismo político. Pesquisas e análises indicam isso, embora com cautela, talvez por medo da volta da extrema direita apocalíptica ao governo, talvez em respeito ao provecto líder, talvez por crença no seu poder mágico, talvez por simples perplexidade.
O Lula de 1989 era um brasileiro muito diferente. Aquela eleição, aliás, foi completamente diferente das eleições que temos tido nas últimas décadas. A eleição foi diferente porque o Brasil era muito diferente. A ditadura cumpriu seu papel de decepar a oposição de esquerda, primeiro os trabalhistas e os comunistas, que governavam com Jango, em 1964, e depois os grupos revolucionários que dirigiram o movimento estudantil de massas, em 1968. Quando os militares começaram a passar o poder para os civis, no governo do general Figueiredo, o que havia na oposição eram os sobreviventes da esquerda, no movimento estudantil e nos sindicatos pelegos. Fraca, traumatizada e confusa, a esquerda aceitou o papel de coadjuvante na oposição liderada por setores burgueses e pequeno-burgueses que queriam trocar os militares por um governo próprio. A esquerda, mesmo enfraquecida, foi fundamental para mobilizar as massas que voltaram à luta a partir de 1977. Incapazes de controlar a insatisfação popular num cenário de crise econômica, os sindicatos pelegos viram surgir um "novo sindicalismo". Lula é expoente desse sindicalismo pelego renovado. É um sindicalismo que não reivindica o trabalhismo e o getulismo, não quer colar o passado trabalhista que o golpe de 1964 e a ditadura rasgaram, ao contrário os rejeita, nas figuras do PTB e do Brizola, e quer fundar uma nova era, com o PT e Lula.
Me parece fundamental prestar atenção nesse momento para entender o que veio depois e existe hoje. A ditadura militar, até a crise econômica que começou na década de 1970 e que se aprofundou na década de 1980, mantinha um projeto nacional de desenvolvimento, tinha inclusive entrado em choque com o governo americano por desenvolver um projeto nuclear. Hoje, uma das coisas de que mais se fala, diante do cerco do imperialismo ianque à Venezuela, Cuba, Colômbia e toda a América Latina e das guerras para mudança de regime no Oriente Médio promovidas pelo mesmo imperialismo e seu braço sionista, é que não há possibilidade de independência sem posse de bomba atômica. Pois bem, o Brasil estava nesse caminho na década de 1970, quando a crise econômica abalou o regime militar. O programa nuclear brasileiro fazia parte do projeto nacional de desenvolvimento, formalizado nos diversos planos nacionais de desenvolvimento (PND) dos militares. Esse projeto, por sua vez, não era uma novidade da ditadura, era uma continuação do que começou na Revolução de 1930 e foi tomando forma nas décadas seguintes em sucessivos planos, dos quais o Plano de Metas do JK, com o slogan "50 anos em 5", é o mais famoso. Em resumo: até a crise econômica dos anos 1980, o Brasil seguia um rumo próprio, o chamado "desenvolvimentismo". A crise que acabou por derrubar a ditadura militar liquidou também o projeto de desenvolvimento nacional.
As forças políticas que emergem dos movimentos de massa oposicionistas a partir do movimento estudantil de 1977, passando pelas greves no ABC paulista e pela onda grevista em todo o país na sequência, pela campanha Diretas Já, derrotada, pela eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral, e culminando na eleição presidencial direta de 1989, essas forças políticas vão sepultar não só a ditadura militar de 21 anos, mas também o trabalhismo getulista e o desenvolvimentismo. O que virá depois será completamente diferente, não terá mais laços com o ciclo histórico inaugurado pela Revolução de 1930 e que chega até a ditadura militar, atravessando a ditadura Vargas (1930-1945) e a República Populista (1946-1964). Curiosamente, ao contrário do que eu imaginava, a eleição presidencial direta de 1989 inaugurou uma nova fase brasileira, mas o seu momento decisivo não foi a eleição do Collor, no segundo turno, foi a derrota do Brizola, no primeiro. Ao tirar Brizola e o PDT do protagonismo político, as forças de oposição (burguesa, pequeno-burguesa, novo sindicalismo e esquerda sobrevivente) que emergiram da luta contra a ditadura militar completam sua obra e deflagram um novo ciclo político que já dura 37 anos.
Exatamente em 1989, o cenário mundial começa a mudar bruscamente com a queda do Muro de Berlim, seguida nos anos próximos do fim da URSS e do bloco soviético. Na crise dos anos 1980, o neoliberalismo começou a proliferar, depois do ser testado no Chile da ditadura militar que derrubou o presidente Allende. Esses ventos estrangeiros dão o tom da música que tocará também no Brasil "democrático". As diferenças entre Brizola e Lula, entre PDT (PTB) e PT são muito maiores do que as diferenças entre Collor e Lula, FHC e Lula, PSDB e PT, como hoje se vê facilmente. Tanto Collor, quanto FHC, quanto Lula são presidentes que aderem ao neoliberalismo e abandonam um projeto nacional de desenvolvimento. FHC inclusive assinou o tratado de não proliferação de armas nucleares com o qual os EUA controlam a emergência de rivais e mantêm o neocolonialismo contemporâneo. Lula não reverteu nenhuma das políticas neoliberais dos seus antecessores, tampouco o desmonte dos direitos trabalhistas promovido pelos governos temer, o minúsculo, e bozo, o boçal. A esquerda brasileira nunca mais falou em socialismo e nacionalismo, como falava antes de 1964 e durante a ditadura, período em que estava na clandestinidade, se dizia marxista, seguia a cartilha leninista e pregava a revolução.
Com o fim da "Era Lula", já neste ano ou no emblemático ano de 2030, quando se comemorará o centenário da Revolução de 1930, o Brasil se vê diante da exigência de começar um novo ciclo, que pode ser o aprofundamento da condição de colônia neoliberal, sob um governo de extrema direita, ou um novo projeto de desenvolvimento nacional. Seja como for, aquelas forças políticas que lideraram a derrubada da ditadura militar e o sepultamento do desenvolvimentismo e implantaram o neoliberalismo no Brasil estão encerrando seu ciclo. Lula é e será sempre o seu expoente máximo.