quinta-feira, 2 de julho de 2026

Ipês do campus

Julho, mês dos ipês. BH tem muitos, esses são do campus da UFMG.

 

Música do dia: Ternura, com Roberto Carlos

Sempre gostei dessa música, mas nos últimos anos ela ganhou um significado especial. Eu expresso ideias e sentimentos simples pela música, às vezes compondo melodias rudimentares para acompanhar versos, mas principalmente cantarolando alguma canção que contém uma frase afim. A MPB é definitivamente a melhor coisa que os brasileiros produziram, apesar do deprimente horror dominante atual. Até em versões o talento musical brasileiro se revela, como nas pérolas do Haroldo Barbosa; Rossini Pinto, o autor dessa, também foi craque. A gravação original é da Wanderléa, mas é Roberto Carlos quem a canta lindamente. Compositor medíocre, uma vez ou outra bom, ele mostra que é, acima de tudo, cantor, formado sob a influência do João Gilberto. Não exagera e não inventa, como gostam de fazer em geral os cantores e as cantoras que possuem belas vozes, derrapa só uma vez, levemente; quase declama, de forma que a gente até pensa que ele está sentindo o que canta. 

sábado, 27 de junho de 2026

Salvar o SUS e torná-lo excelente

A esquerda brasileira realizou essa grande obra que é o SUS, mas isso já tem quatro décadas. A Constituição de 1988 foi o ápice da democratização do Brasil. Desde então, aqueles que deveriam conduzir o país para o desenvolvimento econômico e a justiça social, isto é, o PSDB e o PT, aderiram ao neoliberalismo e os avanços democráticos foram só retrocedendo. Não basta salvar o SUS, que está sendo engolido pela iniciativa privada, é preciso torná-lo tão bom quanto o melhor plano de saúde privado. Da mesma forma a educação pública, o transporte coletivo, a moradia etc. Quando os neoliberais começaram a privatizar tudo, disseram que ia sobrar dinheiro para o Estado investir nos serviços essenciais. Estavam mentindo deliberadamente, para enganar o povo. Só sobrou dinheiro para pagar os juros dos banqueiros, dar subsídios para o agrotoxiconegócio, incentivar mineradoras, enfim, dinheiro público para o capital. Os canalhas dizem que o Estado é ineficiente e que o capital é eficiente, mas o capital só consegue ser eficiente recebendo dinheiro público. A mais recente roubalheira do capital é o teto de gastos, o arcabouço fiscal, a limitação, enfim, dos gastos sociais, inclusive aumento do salário mínimo, das aposentadorias e tudo mais. Sucatear o SUS e entregar a saúde, isto é, os gastos com doenças, para a iniciativa privada, é o que eles querem. O PT faz isso, gosta disso, defende isso. Até a eleição de 2022, o único candidato a denunciar esse modelo e propor outro foi o Ciro Gomes. Este ano apareceu o Jones Manoel, que deveria ser candidato a presidente, infelizmente não é, é candidato a deputado federal por Pernambuco, mas faz uma campanha de características nacionais, porque sabe que os problemas que ataca e as propostas que defende têm âmbito nacional. O Brasil precisa de um projeto político de esquerda, que tire os recursos públicos dos ricos e privilegia o SUS, a educação pública universal em tempo integral e de qualidade, transporte coletivo de qualidade e gratuito, moradia popular na região central, salário mínimo reajustado muito acima da inflação e da mesma forma aposentadorias e benefícios, além da ação mais importante de todas, uma política ambiental que impeça a autodestruição humana. Uma única realização dessas, o SUS excelente, por exemplo, já seria uma revolução na vida dos brasileiros.   

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Roger Waters e Mona Miari cantam a dor palestina e a insensibilidade mundial

O que um cantor pode fazer diante da dor dos palestinos? Pegar em armas contra Israel? Disparar bombas contra Telavive? Realizar atos terroristas contra instituições sionistas e estadunidenses? Convocar uma manifestação? Emitir um comunicado de protesto? Dar uma entrevista coletiva? Todas essas reações indignadas e minoritárias que vejo acontecerem desde que me entendo por gente são atos de militantes, políticos, governantes, militares, que precisam ter autoridade e devem estar preparados para as consequências. O que um cantor ou uma cantora pode fazer é cantar, da forma mais bonita que for capaz, para despertar um mundo confortavelmente entorpecido. Feito Roger Waters e Mona Miari. Aplausos. E dor.

É sempre bom ouvir de novo o que disseram os políticos

No título original desta publicação, em 2018, escrevi: "Todo mundo deve ver essa entrevista do Guilherme Boulos". E ainda mais hoje. Para comparar com o que ele diz e faz, oito anos depois, e conferir sua coerência. Afinal, é o que precisamos exigir dos políticos: coerência. Foi o que fiz com Ciro Gomes, antes de decidir votar nele em 1998, 2002, 2018 e 2022, e ele sempre passou no teste. Lula me fez mudar de opinião sucessivamente. FHC também. Quanto a Brizola, mudei para melhor, várias vezes. Na essência, porém minha impressão inicial prevaleceu, sobre os os quatro.

Música do dia: Oh! Darling, The Beatles

Uma das minhas prediletas, uma das canções geniais do Paul, bem menos numerosas do que as do John, para meu gosto. Posso cantar essa canção agora que passou. "É preciso ter morrido para ser um completo criador", escreveu Thomas Mann. 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Estado policial brasileiro: PM entra em escola para intimidar educadoras

O bozo já não é presidente e está preso por tentativa de golpe, mas seus seguidores e seu projeto policial de governo permanece em ação, com a contribuição de igrejas evangélicas e de governos municipais e estaduais, inclusive do PT, que, na Bahia, entrega escolas para serem administradas pela PM. O Brasil é um país em que a polícia é mais importante que a escola, e que futuro pode ter um país assim? Essa história é estarrecedora, mas quem ainda se estarrece com a corrupção e os desmandos dos poderosos no Brasil? Mais estarrecedor ainda é que a primeira comentarista do programa dá razão à polícia! Não tem a menor noção do que seja educação, não tem capacidade para comentar o assunto, e no entanto está na televisão fazendo isso. Felizmente, outros comentaristas sensatos põem os pingos nos is.  

domingo, 21 de junho de 2026

Músicas do dia: I'll get you e Don't let me down, The Beatles

Quase todas as músicas dos Beatles deveriam figuar na minha lita de canções preferidas, porque sempre as repito. Vão aqui duas queridas, como diz a moçada de hoje, opostas tem tudo, no tempo e no estilo, exceto na genialidade do John Lennon: Don't let me down e I'll get you.

domingo, 14 de junho de 2026

Música do dia: Paralelas, do Belchior. E a fraude da IA

A melhor gravação de Paralelas que eu já escutei, melhor que a original, da Vanusa, melhor do que a do autor, Belchior. Infelizmente, como é comum nesses canais não oficiais (e por isso resisto a publicar vídeos deles, exceto quando, como neste caso, não encontro o oficial) não consta o crédito de voz e instrumentos. Me fez pensar no João Gilberto. Quando ouvi JG pela primeira vez foi como se estivesse aprendendo o que é cantar: não é preciso gritar. Gal Costa grita em Fa-tal e é lindo. Os tropicalistas gritavam e era muito bom. Quando João Gilberto canta, porém a gente sente a letra junto com a melodia, uma coisa só, e aprende o que é música. Me faz pensar que toda canção tem seu arranjo, vocal inclusive e em primeiro lugar, adequado, que é função dos intérpretes encontrá-lo. Os compositores eruditos se dedicavam (dedicam) a isso, não é?, mas os populares cada vez menos. Até os anos 1950, meados dos 60, fazia parte da gravação de uma canção passar pelo arranjo de um maestro. Tom Jobim fez muito isso para outros. Canções do Noel Rosa e outros sambistas da era de ouro eram muito diferentes na versão orquestrada. A revolução pop dos anos 1960 de certa forma dissolveu isso (embora as gravações dos Beatles tenham se tornado cada vez mais sofisticadas), as interpretações passaram a ser mais informais e hoje os arranjos acompanham a mediocridade dos "sertanejos", "pagodes" etc. Por isso também eu gosto daquela série acústica da MTV, que tem discos memoráveis, como o da Cássia Eller. Eu lembrei de Paralelas esta manhã, não sei por que, talvez pelo "oitavo andar", e comecei a assobiar lentamente, em seguida procurei uma gravação, ouvi a da Vanusa, depois ouvir a do Belchior e por fim essa, no ritmo do meu assobio e que é, de fato, pela voz e pelo arranjo de cordas, pelo cello, a melhor que eu já ouvi e que, enfim, achou a interpretação certa, como João Gilberto fazia. Infelizmente, com boxes de informações dispensáveis e sem créditos necessários, informa só que é "cover intimista".  Será a própria Vanusa? A voz lembra a dela, digamos, "mais educada", mas nesse caso, por que negligenciar o crédito? Se não é, por que esconder voz tão bela? 

PS: Eu também não tinha percebido até hoje que Vanusa e Paula Toller eram a mesma pessoa. 

PS2: Ao rolar a lista de comentários do canal do YT, encontrei a resposta copiada abaixo. 

"Olá, Renato, tudo bem? Como descrito no vídeo, é uma versão cover, que recriamos com auxílio de IA. Eu fiz uma versão intimista ao violão, cantei como achei que ficaria mais legal, num tom um pouco mais grave, e usei a IA para, a partir dessa matriz inicial, adicionar arranjos e substituir a minha voz por uma vez feminina com timbre que lembra o timbre da Vanusa." 

Ou seja: a cantora não existe, a voz não existe, nem as cordas vocais nem o ar que as movimenta nem os pulmões nem a boca, nada. Tampouco os músicos. É tudo falso, artificial. Nos comentários, fãs da falecida Vanusa a exaltam sem se darem conta de que é uma imitação educada da voz da cantora, uma fraude. Depois de escrever os elogios acima e ouvir repetidamente a gravação, me sinto ludibriado. Gostaria de ouvir a cantora cantando um disco inteiro, mas ela não existe. Essa linda voz é um Frankenstein.  

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O discurso final de O Grande Ditador, sempre atual. Salve, Chaplin!

De tempos em tempos é preciso rever e reouvir esse discurso, sempre atual com interpretações diferentes. No Natal do ano que vem faz 50 anos que Charles Chaplin morreu, aos 88 anos. Naquela altura da minha vida era como se Chaplin tivesse feito parte dela sempre, e no entanto já se vai meio século. O tempo não passa igual a vida inteira, passa devagar e parece longo quando se é jovem, passa depressa e sempre igual quando se envelhece. É a variedade de acontecimentos que torna o tempo longo ou breve. Thomas Mann discorreu sobre isso em A Montanha Mágica. A espécie humana tem muitas coisas interessantes para conhecer, para todos os indivíduos de uma sociedade conhecerem, não só os cientistas, não só os intelectuais, não só os ricos. É isso que eu admiro em Cuba, uma pequena nação em que qualquer um conversa sobre literatura, segundo inúmeros relatos (nunca fui lá, nem nos EUA nem na Europa nem em qualquer outro país). Cubanos são pobres e cruelmente perseguidos pelos governos da nação mais rica do planeta. Fico imaginando como seria Cuba rica, como seria um mundo rico em que todos ouvissem ópera, conhecessem ciências, lessem literatura, discutissem filosofia. A espécie humana prefere a miséria e as bombas, a violência e o celular, a ignorância e o luxo. É uma escolha incompreensível para mim.   

domingo, 7 de junho de 2026

Mais um alerta sobre a tragédia das mudanças climáticas catastróficas

Se o Homo sapiens fizesse jus ao nome que o botânico sueco Carl Linnaeus lhe deu e pegou, viveria em harmonia com a Natureza, além de igualdade social, mas não é, na verdade o Homo sapiens é estúpido, a ponto de destruir as condições que lhe possibilitaram existir, e condena-se assim à autoextinção, depois de extinguir número infinito de outras espécies. A onda de frio em Belo Horizonte é suficiente para percebermos quão sensíveis somos às mudanças climáticas: alguns graus a mais ou a menos na temperatura ambiente já afetam radicalmente nosso cotidiano, provocam adoecimentos e mudanças de comportamento. Fingimos que não vemos, fingimos que as mudanças climáticas não estão acontecendo e continuamos caminhando rumo ao abismo, seguindo o Flautista de Hamelin, isto é, os donos do capital, e sua música ideológica, isto é, ganhar dinheiro, enriquecer, "progredir". Os gregos já sabiam que somos seres trágicos: conhecemos os males que nos esperam, mas mesmo assim fazemos o que nos conduz a eles. O capital, com sua ideologia liberal, nos trouxe à catástrofe. A esquerda, com sua ideologia reformista, mostrou-se mais sensível a ela. Os fascistas negacionistas se insurgiram contra reformas, para impor o pensamento liberal e a destruição sem peias do capital, e aceleraram a destruição da Terra. Ser de esquerda, revolucionário, anticapitalista e tudo mais, numa palavra: marxista, hoje, como há duzentos anos, é assumir o controle do capital e lhe impor todas as medidas radicais que o combate às mudanças climáticas exigem, que a preservação da espécie humana exige, inclusive o decrescimento econômico. A economia não precisa crescer mais, mesmo porque não existem recursos na Terra para manter o luxo dos ricos e das nações capitalistas avançadas, como os EUA, as europeias e até a China. O que é preciso fazer é distribuir igualmente as riquezas produzidas e conter o crescimento para salvar o ambiente e a espécie humana, criando uma nova civilização, baseada em outros valores que não os do capital.   

sexta-feira, 5 de junho de 2026

A melhor política de Minas Gerais

Duda Salabert. Já votei nela e votarei novamente. Gostaria que fosse prefeita de Belo Horizonte ou governadora de Minas Gerais. 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Brasil: de pai para filho desde o Império

Essa jovem que eu não conhecia sabe mais sobre a história do Brasil do que nós. Vale a pena ver. É de espantar. As redes sociais fazem um mal enorme, mas também fazem bem, se a gente souber escolher. Um programa assim a gente nunca viu nem vai ver na Globo. Ao compreender esse Brasil dos clãs, cujo último e peculiar é o dos bozos, a gene entende também a importância que têm acontecimentos como a Revolução de 1930 e a chegada do PT ao poder, em 2002, como oportunidades de ruptura. A comparação entre Getúlio e Lula são frequentes, sempre em favor do primeiro. O PT e Lula perderam a oportunidade de fazer uma revolução pacífica no país, tendo a Revolução de 1930 e Getúlio como exemplos, e o Brasil não avançou, ao contrário regrediu, do clã Sarney para o clã bozo. 

domingo, 31 de maio de 2026

Colômbia: extrema direita assassinou 5 mil e extinguiu um partido

Isso aconteceu há três décadas, é mencionado por um analista neste programa. A eleição na Colômbia acontece hoje e a disputa é entre o filho de um dos assassinados, que na época era senador da República, e um candidato da extrema direita exterminadora. Quanto os brasileiros conhecem da história e do que acontece nos países vizinhos? Quase nada, só o que a imprensa capitalista nacional e internacional quer. O ICL presta mais um serviço à informação ao cobrir a eleição colombiana. Lá não há reeleição. O presidente Gustavo Petro é o primeiro presidente de esquerda da história do país, historicamente dominado por oligarquias, crime organizado e pelo imperialismo estadunidense. Petro fez um governo de dar inveja a Lula e ao PT, implantando reformas sociais e democráticas. Apoia o candidato Iván Cepeda, o filho do senador morto, Manuel Cepeda. A história mostra que o caminho para a justiça social é longo e doloroso, é preciso persistir e aprender com a experiência.  

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Os crimes da ditadura militar contra as elites que apoiaram o golpe

Quando a gente pensa que já sabe de tudo, aparecem coisas novas, como essas gravações inéditas das sessões de julgamento do Supremo Tribunal Militar. Material histórico de ouro nas mãos do historiador Carlos Fico. Aplausos. Vale muito a pena ouvir o podcast

A língua é a coisa mais interessante do Homo sapiens, porque funciona, ou expressa, estreitamente em sintonia com o cérebro, o pensamento, que é o que nos distingue. "Caiu a ficha" é uma expressão admirável da capacidade do brasileiro traduzir em linguagem simples e clara uma ideia complexa. A ficha da compreensão cai de uma vez, ainda que demore. Talvez os gregos dissessem "epifania" -- de fato, "caiu a ficha" é a epifania em brasileiro. Esse podcast faz parte do mesmo quebra-cabeça de "Ainda estou aqui". Poderia aumentar a lista, chegando a "O que é isso, companheiro?", o livro, numa linha que nos conduziria à luta contra a ditadura nos anos 1970, culminando com a campanha Diretas Já!, resultando na Constituinte de 1988 e no governo FHC, muito mais marcante da nossa época do que os governos Lula (/Dilma/Temer), ao contrário do que se supunha e eu mesmo afirmei muitas vezes: o intelectual tucano, com o Plano Real e sua "modernização", isto é, desmonte do desenvolvimentismo e adesão ao neoliberalismo, estruturou o Brasil contemporâneo, que Lula e Dilma seguiram e Temer e bozo aprofundaram, ou seja, um Brasil cujo papel no mundo é de coadjuvante das potências, fornecendo-lhes matérias-primas abundantes e mão-de-obra barata. O que a ficha revela ao cair é que essas mesmas "elites" que entregam o Brasil para os estrangeiros na "democracia" são aquelas que em 1964 apoiaram o golpe militar, mas depois viram a estupidez que era o governo dos milicos e passaram à oposição. Elas se mobilizaram de diversas formas entre 1964 e 1968, até o AI-5, e contra elas recaiu a repressão brutal dos "anos de chumbo". Os trabalhadores, suas lideranças e representações políticas já tinham sido exterminados da cena política no 1º de abril. Voltariam sim, a partir de 1978, e atingiriam o ponto máximo na cena política nacional com o PT e Lula, mas sempre usados pela elites citadas, submetidas a elas, sem vontade própria, sem expressão política própria até hoje, mera massa de manobra, mero exército para derrotar os fascistas que nunca foram embora, como explica Safatle. Exatamente porque tinham apoiado o golpe e eram parte da elite no poder, embora dissidente dela, como se vê claramente em "Ainda estou aqui", os oposicionistas de 1964-1968 não tinham medo, esse medo que acompanhou minha geração, crescida sob a ditadura, e os trabalhadores, brutalmente massacrados pelo golpe e pelo "milagre brasileiro".   

domingo, 24 de maio de 2026

Para jornalistas que não sabem que existe tortura em Israel

Veículos não capitalistas e não sionistas sabem. Por que não vemos notícias assim no Brasil?

A Venezuela vista por uma repórter do O Globo

Essa entrevista é mais interessante pelas perguntas do que pelas respostas, muitas vezes, e pelo constrangimento da entrevistada. Ou seja, pelo que revela da chamada "grande imprensa" e dos seus jornalistas. Por exemplo, ela diz que havia (há ainda?) torturas a presos políticos na Venezuela, mas só ouviu um lado, o dos opositores. Parece que não checou, pelo menos não citou fontes governamentais ou uma investigação, como se exige para denunciar torturas da ditadura militar no Brasil (1964-1985). Chama a Venezuela de ditadura, por reprimir manifestações populares, mas considera normal que repressões do tipo aconteçam em nações europeias. Espantosamente, uma correspondente internacional que já visitou Israel diz que não sabe que em Israel existem presos políticos, prisioneiros sem julgamento e torturas. Não há jornalista independente ou crítico trabalhando no O Globo ou nas televisões Globo ou em outros veículos empresariais. Jornalistas se moldam aos interesses da empresa em que trabalham ou são demitidos, isso é o básico do jornalismo, isto é, da chamada "grande imprensa".  

Governo de conciliação não faz o que prometeu em campanha

Jones Manoel faz ótimas análises políticas. Suas posições são aquelas que a gente esperava que o PT defendesse quando foi criado, antes de se tornar o partido da ordem e do capital. O que ele defende é o básico, como ele mesmo diz, não tem nada de radical. 

Música do dia: A day in the life, The Beatles

O gêio do John e o talento musical do Paul juntos.

Homo sapiens: rumo à autoextinção

Já passamos do ponto de retorno, o fim está cada vez mais próximo, e não é um fim apocalíptico, religioso, bíblico, ao contrário: acreditar nisso só ajuda a tornar inevitável o fim verdadeiro, que virá das mudanças climáticas provocadas pelo capitalismo. Os sinais são evidentes, só não vê quem não quer, e os políticos e os bilionários que mandam nos governos mentem, escondem e não fazem o que precisa ser feito. O que precisa ser feito? Conter o capital, distribuir as riquezas, tornar o mundo um só e igual para todos.   

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Outra imprensa é possível

E como uma coisa leva a outra, a entrevista com Evo Morales leva a essa com a jornalista Michele de Mello, diretora da emissora russa da RT News no Brasil. 

Venezuela, Cuba, Bolívia... Brasil. O avanço dos EUA sobre a América Latina

Um dos crimes da adesão da esquerda brasileira à democracia burguesa e ao neoliberalismo foi a submissão à imprensa capitalista. Antes da "redemocratização", havia uma imprensa alternativa, "nanica", "independente", de esquerda, que se extinguiu, na crença de que esta era dispensável, que a imprensa empresarial atenderia a necessidade de informação de toda a sociedade, assim como a democracia burguesa seria também uma democracia para todos. Como se viu na eleição do Collor e no golpe de 2016, entre outros momentos, a imprensa capitalista tem lado, o do capital, assim como a democracia burguesa é o governo do capital, corrupto e violento contra os trabalhadores. Outro resultado desse caminho é que continuamos não sabendo o que se passa nas nações vizinhas e o que sabemos vem deturpado pela versão do imperialismo estadunidense. Poderíamos ter no Brasil uma imprensa múltipla, com veículos fortes públicos, cooperativistas e estatais, além de privados. No entanto, como quase tudo que estava previsto na Constituição de 1988, auge da redemocratização, isso nunca foi regulamentado e o que foi feito foi desfeito depois pela extrema direita. A esquerda precisa aprender, nisso e em tudo mais, para implantar um programa verdadeiramente democrático na sua próxima ascensão política.  

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Música do dia: Virgínia, com Os Mutantes

A banda mais genial do Brasil, que continua atual mais de cinquenta anos depois. Nossos Beatles. Pra quem quiser em inglês, tem também.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Música do dia: Com açúcar, com afeto (Chico Buarque), com Jane Morais

A gravação original no segundo ou terceiro disco do Chico. Bastava essa música para o Chico entrar para a história da MPB, assim como tantas outras que já tinha feito, mas ele continuou compondo canções geniais. Numa entrevista, ele diz que em cada nova canção quer fazer uma coisa que não fez ainda. Gênio é isso. A preciosidade das palavras, o jogo de palavras, a sutileza das palavras, a sequência dos verbos, a aparente simplicidade, as cenas que somos capazes de ver, a obra. Na gravação, o detalhe da gaita.  

sábado, 9 de maio de 2026

Música do dia (2): Revolution 9, The Beatles

A mais estranha (e longa?) gravação dos Beatles.

Música do dia: I'm so tired, The Beatles

Uma das mais marcantes músicas do eclético Álbum Branco dos Beatles, claramente uma canção do John, que mostra mais uma vez seu talento acima dos demais.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Música do dia: Bashi achuki, com Trio Mandili

Quem alegra esses meus dias angustiados. Daria tudo para entender o que elas estão cantando. 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Xingamentos e ameaças na Câmara dos Deputados

O baixo nível dos bandidos e fascistas na Câmara não surpreende, mas também não para de assustar os eleitores.

terça-feira, 5 de maio de 2026

José Dirceu ou a ideologia do PT

José Dirceu fez oitenta anos e tem muita vitalidade, Lula tem mais ainda. Os dois são as figuras mais importantes do poder petista, ou lulopetista, nos últimas décadas, e ambos são pouco compreendidos. Nem a biografia escrita pelo jornalista Fernando Morais me fez entender Lula, de forma que fico com o que depreendo: um homem inteligente que usou sua capacidade de negociação e seu carisma para ascender na política e se tornar o mais longevo dirigente do Estado capitalista brasileiro. Usou sua origem para conquistar a simpatia popular e sua popularidade para se impor às classes dominantes, de forma que, por conter a insatisfação dos trabalhadores, tornou-se o melhor presidente para os capitalistas. José Dirceu eu começo a entender agora: o que ele fala é o que ouvimos de todos os lulopetistas, porque é ele o autor, José Dirceu é a personificação da ideologia lulopetista. Ele tem uma impressionante simbiose com Lula, os dois se completam e dependem um do outro. Dirceu elabora a ideologia lulista que move o PT, isto é, a força ideológica que move esse enorme, envelhecido, decadente e minguante exército de militantes e simpatizantes que lideraram o culto ao Lula e a realização do projeto petista -- bem-sucedido em termos políticos e um desastre para os brasileiros e a nação. 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Música do Dia do Trabalho, com Trio Mandili

Para alegrar todos os sentidos e mais um pouco.

Música do dia: E agora, José?, com Paulo Diniz

O poema do Carlos Drummond de Andrade serve de tema para o quadro político brasileiro, diante da derrota histórica do governo Lula, com a rejeição pelo Senado do seu indicado a ministro do Supremo Tribunal Federal, coisa que só tinha acontecido no governo Floriano Peixoto, nos primórdios da República, ainda no século XIX. Me lembrou aquele momento assustador há dez anos, quando a Câmara aceitou o pedido de impeachment da presidenta Dilma: muita coisa aconteceu e muita esperança havia ainda, mas o governo já tinha acabado. É a pergunta que faz o analista Frederico Krepe no vídeo que também reproduzo abaixo, juntamente com a do Jones Manoel, duas análises lúcidas. Para completar seu serviço o Congresso, ontem, derrubou o veto presidencial e manteve a revisão das penas dos golpistas de 8 de janeiro. Da minha parte, digo o que sinto desde que a volta do Lula se anunciou, ao ser solto em 2019: o Brasil continua afundando enquanto marca passo, sem encontrar seu caminho, seguindo políticos corrompidos, prestes a voltar às trevas de um novo governo bozo, dessa vez do jr. Já escrevi muitas vezes ao longo das quase duas décadas deste blog o que penso do Lula e do fracasso da minha geração. Quando o bozo pai foi eleito, naquela farsa da facada, parecia que os brasileiros viviam um pesadelo, ao qual a pandemia deu cores dantescas; uma repetição do pesadelo parece a descida definitiva ao inferno. Todos sabemos que bozo jr. é um bandido cercado de bandidos, que o Congresso está dominado pelo crime organizado e por interesses particulares, antinacionais e antipopulares. A imprensa empresarial não é muito melhor e já não tem a força que tinha, o STF dá mostras de que o julgamento dos golpistas de 8 de janeiro foi um ato político, não uma demonstração de idoneidade; foi por assim dizer o último ato de um longo processo que começou com a farsa do mensalão, que pode ser nomeado como a tragédia do povo brasileiro. A política brasileira está toda podre. E é isso, a podridão, que vai se institucionalizar a partir de 2027, ao que tudo indica. Depois, só uma revolução popular poderá consertar, mas como imaginar uma revolução, se até o povo se tornou reacionário, aderiu à ideologia dominante e vota na extrema direita? E agora, José? José, para onde?   

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A viagem de Paulo Diniz e Juarez Correia pelo sertão de Pernambuco

O Brasil não é propriamente um país e talvez por isso seja tão rico culturalmente. Aliás, o Brasil tem duas riquezas, a Natureza e o povo, mas ambos foram sempre e continuam sendo muito maltratados pelos europeus e seus descendentes que se apropriaram da terra e escravizaram os "brasileiros". O povo brasileiro é surpreendente e música é o que fizemos de melhor, ainda fazemos um pouco, mas também isso os donos do poder estão destruindo, valorizando pseudomúsicos que tocam sem parar em todos os canais capitalistas. Do Paulo Diniz eu só conhecia a gostosa Quero voltar pra Bahia, sucesso nos anos 1970 e agora ouvi o José, do CDA, que ele musicou, mas eu não registrei. Agora descubro que tem obra interessante e histórias, feito essa que a Rádio Novelo conta, a partir do relato do poeta Juarez Correia. Ouvindo seu disco, vou percebendo que algumas canções não me são estranhas. Qualquer faixa é melhor do que o que toca no rádio hoje. Além das belas letras simples (modernas!), me impressionam instrumentos, vozes e arranjos de um disco tão antigo, que se destacam diante da padronização informatizada das gravações de hoje. E o Juarez também é um poeta de primeira. Do sertão pernambucano diretamente para o mundo. Aplausos à dupla. E não podia deixar de comentar a voz deliciosa da autora da história, a jornalista Mariana, filha do Juarez.  

domingo, 26 de abril de 2026

Lula e o PT deram o exemplo para a juventude "antissistema"

Estou procurando no blog e ainda não achei quando foi a primeira vez que eu falei isso que o Breno Altaman está falando hoje: o PT se transformou no partido da ordem. Quer dizer, ele diz que ainda não aconteceu, mas há uma pressão forte para acontecer, eu digo que já aconteceu há muito tempo, desde que Lula assumiu a presidência pela primeira vez. Altman adota uma política gradualista de aceitar a ideia, assim como aceita hoje ideias que não aceitava há algum tempo. A questão é que a situação política do Brasil ficou evidente e que a pergunta que eu mesmo me faço é: por que nos deixamos enganar durante tanto tempo? Quando digo "nós" me refiro às pessoas de esquerda, anticapitalistas, que leram Marx, que idealizam uma sociedade igualitária e tudo mais. Hoje me parece evidente que Lula e o PT foram o melhor partido e o melhor presidente que o capital poderia desejar, porque conteve os trabalhadores enquanto fazia o que os capitalistas queriam. Qualquer governo enfrentaria a oposição dos trabalhadores, como de fato outros enfrentaram antes. Não mais agora, porque a organização dos trabalhadores foi ampla e fortemente destruída e os jovens não querem carteira assinada nem sindicatos nem nada parecido, pois se consideram "empreendedores", isto é, foram ganhos pela ideologia neoliberal capitalista. Como disse um banqueiro, tanto faz que a eleição de outubro seja vencida por Lula ou bozo jr., porque Lula já se mostrou confiável -- e os trabalhadores, acrescento eu, defendem o sistema, achando que estão atacando o sistema. Lula, o ex-líder sindical, e o PT, o partido dos trabalhadores, deram o exemplo e agora os jovens trabalhadores também defendem o capitalismo. Altman está dizendo coisas que só marxistas revolucionários diziam. E faz uma observação interessante: o discurso do Lula na Espanha parece um pedido de socorro. 

PS: Em 2011, escrevi sobre isso, talvez tenha sido a primeira vez, e lá se vão 15 anos.  

sábado, 25 de abril de 2026

Para banqueiro, tanto faz que o eleito em outubro seja Lula ou bozo jr.

Segundo matéria do jornal Valor (grupo Globo) comentada por Jones Manoel, dono de um banco disse que Lula já demonstrou ser confiável e o filho do bozo é "razoável e experiente", logo, qualquer um que ganhe a eleição de outubro está de bom tamanho. O mercado financeiro está tranquilo, porque nem um nem outro vai mexer na política econômica -- que vem desde FHC e consiste basicamente em remunerar os banqueiros com juros altíssimos, privatizar tudo, retirar direitos dos trabalhadores e cortar gastos públicos com os pobres. Em suma, o que Haddad fez foi, na essência, o que os ministros da Fazenda anteriores também fizeram, desde FHC. Fico até constrangido em publicar mais um vídeo do Jones Manoel, mas ele vem abordando todas as questões importantes para o Brasil com uma lucidez e uma clareza que nenhum outro, nem mesmo o Ciro Gomes, abordou antes. É lamentável que não venha a ser candidato a presidente, em vez de deputado. Mudaria o nível do debate eleitoral. Vale a pena ouvi-lo mais uma vez. 

O elo perdido da revolução brasileira

Jones Manoel retoma o que se perdeu há meio século, quando o que restava de um pensamento revolucionário brasileiro, inaugurado com a fundação da Polop, em 1961, capitulou diante da onda "democratista", isto é, a derrubada da ditadura militar (1964-1985) sob liderança da burguesia e da pequena burguesia "progressistas", que acabou se tornando hegemônica e mais tarde, na sua forma mais bem acabada e civilizada, gerou FHC e Lula. Jones Manoel, que nem nascido era naquela época, é esse elo perdido. Até que enfim vemos, nesse vídeo, uma exposição simples e clara (é assim que deve ser o conhecimento, a complicação acadêmica é só uma forma de colonialismo) sobre isso que chamamos de Brasil, uma invenção europeia, da colonização em 1500 até o entreguismo das terras raras, dos data centers e tudo mais, que os bozos fazem às claras e os petistas fazem às escondidas. Jones Manoel vai se destacando como principal expoente de esquerda verdadeira, dizendo o que Lula e FHC deveriam ter dito e não disseram, muito menos fizeram, com atraso de meio século. 

Música do dia: Toccata e Fuga em Ré Menor, de Bach

Na harpa de Ashkhen Gevorkian. Belezas do dia.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Em 2018, Lula queria um candidato para perder a eleição

Minha opinião sobre 2018 é a mesma expressa nesse vídeo. Não foi a primeira vez que Lula fez isso. Assim como FHC inventou a reeleição para se beneficiar, imoralmente, em 1998, Lula inventou Dilma em 2010 para guardar sua vaga e voltar em 2014, mas ela quis continuar. Lula poderia ter tido grandeza e escolhido o melhor para o país, em 2010 e 2018, mas ele se considera insubstituível. Se alguém melhor do que ele, feito Ciro, chegasse à presidência, ele passaria a segundo plano, por isso escolheu postes. Isso não me surpreende, o que me espanta é a quantidade de intelectuais, artistas e políticos que se submetem a ele e ao seu discurso tão pobre. Hoje, tem muita gente acordando, a chamada "esquerda radical", comunista, nacionalista faz críticas abertas ao lulopetismo, mas já é tão tarde, tantos males teriam sido evitados se Lula se retirasse em 2010, no auge da glória. Até para ele mesmo, para sua biografia e sua pretensão de entrar para a história brasileira, teria sido melhor.  

Música do dia (2): Valsa nº 2, de Dmitri Shostakovich

E como uma coisa puxa outra, esta belíssima Valsa nº 2, de Shostakovich, mais uma apresentação grandiosa no estilo do André Rieu e bem característica de espetáculos europeus ao ar livre antes da pandemia.  

Música do dia: I Will Follow Him

A canção é ótima, desde a primeira gravação, por Peggy March (aos 14 anos!), passando pela que eu conhecia, do Rick Nelson, alterada para "I Will Follow You", mas ficou mesmo sensacional no filme Mudança de Hábito, uma coisa em que os americanos, digo estadunidenses, não têm rivais, e ainda mais emocionante nessa versão num espetáculo ao ar livre com orquestra e coral sob regência de André Rieu.

Mais uma entrevista do Lula

Mais ou menos metade desse vídeo é uma entrevista com o presidente Lula. Muito ruim, por sinal. Me parece que Lula vive em outro mundo. Dá pra gente pensar em muitas coisas enquanto ouve, a primeira, óbvia, é quem ainda aguenta essa ladainha, mas me ocorre logo a comparação com o Ciro Gomes, que os lulopetistas acusam de ser autoritário etc. e tal. Lula não deixa ninguém falar e, no entanto, não é chamado de autoritário. Falar sem parar é um instrumento que ele usa para se impor. Quase tudo que diz que precisa ser feito, a gente pode perguntar: e por que ele, Dilma e o PT não fizeram em 20 anos? Em relação a todas as dificuldades que tem para governar, a gente pode perguntar: por que então quer mais um mandato? Acho que Lula perdeu sua grande qualidade, o conhecimento da situação do povo, que talvez nenhum outro presidente tenha tido tão bem. Ouvindo a entrevista, o que mais me ocorreu foi a previsão de que dessa vez ele não vai ganhar. Se ganhar, será realmente um milagre, que os lulólatras acreditam que ele é capaz de fazer. Cada vez compreendo mais o raciocínio que parece ser majoritário entre os brasileiros hoje segundo o qual, seja com Lula seja com bozo, sênior ou júnior, pouco muda na vida do povo. Outra convicção é que um precisa do outro. E mais uma: enquanto Lula estiver no topo, nenhuma liderança de esquerda ganhará força. 

domingo, 19 de abril de 2026

Mais uma ótima análise do Jones Manoel

O comunista pernambucano faz o que eu sempre esperei da esquerda brasileira, desde os anos 1970, quando comecei a ouvir os discursos ditos marxistas-leninistas: propostas factíveis para governar o Brasil capitalista e transformá-lo numa grande nação razoável, econômica, social e politicamente democrática. A esquerda nunca entendeu o Brasil concreto, sempre falou de um Brasil teórico, baseado nas experiências revolucionárias estrangeiras e nas análises sociais europeias. A Polop tentou pensar a revolução brasileira no começo dos anos 1960, mas os resultados práticos do seu esforço foram pífios ou desastrosos. Quando chegou ao poder, com FHC primeiro e depois com Lula, a dita esquerda adotou o neoliberalismo como modelo, se submeteu confortavelmente ao capital e esqueceu os compromissos com os trabalhadores. Jones Manoel me parece o primeiro intelectual marxista brasileiro que une as ideias socialistas à realidade nacional concreta. Pouco a pouco ele vem elaborando uma alternativa de esquerda com possibilidades de ser bem-sucedida, de fazer um governo mil vezes melhor do que os medíocres governos lulopetistas e milhões de vezes melhor do que os governos da extrema direita. Acrescento que ele não é o único político brasileiro a fazer isso; sem o mesmo compromisso com a revolução socialista e a ideologia marxista-leninista, Ciro Gomes apresenta sem sucesso aos brasileiros desde 1998 um projeto que em muito se assemelha ao do JM.

Música do dia (2): Prelúdio Nº. 1 em C maior, BWV 846, de J. S. Bach

Bonitinho o vídeo.

Finalmente um discurso de esquerda no Brasil

Eu não ouvia nada parecido desde 1977, quando os estudantes universitários brasileiros voltaram às ruas. Aos poucos, no próprio Movimento Estudantil, esse discurso foi abafado e finalmente calado em toda a esquerda em nome da defesa das liberdades democráticas, as quais, viu-se depois, nada mais eram do que o neoliberalismo, o velho Estado burguês. A maior vergonha é que nas últimas décadas essa ordem tenha sido implantada e mantida pelo governo de um partido dos trabalhadores (sic).

Para Lula, de Maquiavel

foto-maquiavel

Quem sou eu para dar conselhos ao maior político brasileiro do nosso tempo, mas o gênio fundador da Ciência Política merece ser ouvido, por seu conhecimento amplo e universal, ainda que não abarque os seis últimos séculos da História, que transformaram a trajetória do Homo sapiens da Renascença na barbárie quase consumada. Troquemos nomes e veremos o Brasil contemporâneo. Lula tinha fama de não ler, ganhou fama de devorador de livros na prisão, segundo seu biógrafo autorizado, não se sabe se leu o Florentino, mas um dos seus inúmeros acólitos poderia ler ou reler para ele. O texto abaixo é o 26º e último capítulo do livro O Príncipe, obra máxima de Nicolau Maquiavel; a tradução é de Mário e Celestino da Silva, no volume 248 das Edições do Senado Federal

Exortação a libertar a Itália dos bárbaros 

DEPOIS DE HAVER REFLETIDO em tudo o que se disse nos anteriores capítulos; após ter perguntado a mim mesmo se os tempos atuais da Itália são de molde a permitir que um novo príncipe adquira nela celebridade e se homem sábio e virtuoso poderá encontrar aqui matéria suscetível de tomar nova forma que constitua motivo de glória para ele e um benefício para a totalidade dos italianos, conclui que talvez nunca tenha existido outra época tão propícia a vinda de um novo príncipe como a de hoje. Se, conforme eu disse, para se conhecer a virtude de Moisés, a grandeza de ânimo de Ciro e a excelência de Teseu era necessário, respectivamente, que o povo de Israel fosse escravo no Egito, que os persas estivessem oprimidos pelos medas e que entre os atenienses lavrasse a desunião, assim, no presente, para se conhecer o valor [virtú] de um espírito italiano era preciso que a Itália descesse ao extremo de hoje, que fosse mais escrava do que os hebreus, mais oprimida que os persas, mais desunida que os atenienses, sem chefe, sem ordem, vencida, despojada, dilacerada, invadida, e que tivesse vencida, e que tivesse suportado toda a espécie de vexames. 

Embora um ou outro de seus homens haja revelado indícios de gênio, deixando supor que Deus o destinará à missão de o redimir, viu-se depois que no ponto culminante das suas ações sofreu o repúdio da fortuna. Destarte, tendo ficado como que sem vida, ela espera quem venha curar-lhe as feridas e pôr um paradeiro à pilhagem dos lombardos, às espoliações e tributos do reino de Nápoles e da Toscana e a sare de todas as chagas já de muito gangrenadas. Veja-se como roga ao Senhor que lhe mande alguém capaz de a salvar dessas crueldades e insolências bárbaras; como está ainda inteiramente pronta a seguir uma bandeira, desde que alguém a desfralde! E a quem poderia ela no momento presente confiar melhor a realização das suas esperanças, do que a vossa ilustre Casa, com os seus méritos [virtù] e fortuna, com as graças de Deus e da Igreja, a qual deu um príncipe [o papa Leão X, da casa dos Médicis]? Quem, mais do que ela, indicado para se colocar à frente dessa obra de redenção? Isso não será difícil se os lembrardes da vida e das ações dos príncipes que mencionei. Posto esses homens fossem extraordinários, nem por isso deixaram de ser homens, e nenhum deles teve oportunidades tão boas como a que agora se apresenta, pois, as suas empresas não foram mais justas nem mais fáceis do que esta, nem Deus foi para eles mais benevolente do que o é para convosco. De grande justiça reveste-se o caso atual: justum enim est bellum quibus necessarium, et pia arma ubi nulla nisi in armis spes est. [É sempre justa a guerra quando necessária, e piedosas as armas quando não há esperança a não ser nas armas.] Favorabilíssimo é o ânimo existente, e quando esse existe e se inspira nos exemplos que para isso vos propus, não pode haver grandes dificuldades. Outrossim, veem-se, no caso, ocorrer fatos extraordinários, sem precedentes, filhos da vontade de Deus: as águas do mar separaram-se, uma nuvem indicou o caminho, da pedra jorrou água, choveu maná; e tudo concorre para a vossa grandeza. O resto pertence a vós fazê-lo. O Todo-Poderoso não quer fazer tudo para não nos tirar o livre-arbítrio e a parte de glória que nos cabe. 

Não vos admireis que nenhum dos italianos por mim referidos tenha sido capaz de fazer o que da vossa ilustre Casa se pode esperar, nem que, depois de tantas revoluções e de tantos manejos bélicos, pareça ter-se extinguido na Itália a virtude militar. A razão deste fato está em que as antigas instituições [militares] do país não eram boas e ninguém soube fundar novas. Nada contribui tanto para a glória de um homem que surja no horizonte quanto as novas leis e instituições que ele venha a criar. Quando elas são grandiosas e sólidas, tornam-no digno do mais alto respeito e admiração. Ora, não falta na Itália matéria adaptável às mais variadas formas que um artífice lhe queira dar. A virtude que escassear nos chefes, supri-la-ão os subalternos. Observai os duelos e as lutas de grupos, e vereis até que ponto chega a força, a destreza e o talento dos italianos. E, todavia, quando a luta é de exércitos, esses dotes desaparecem. Tudo isso tem por causa a fraqueza dos chefes: os capazes não se sujeitam a obedecer; todos se julgam capazes, e até hoje nenhum houve cujo valor [virtù] e fortuna fossem bastantes para compelir os demais a dobrarem a cerviz. Daí provém que de tão longo decurso de tempo, em tantas guerras feitas nos últimos vinte anos, todas as vezes que o exército se compunha inteiramente de italianos, só fracassos se tenham verificado. Disso dão testemunho, primeiro, o Taro, e depois Alexandria, Cápua, Gênova, Vailate, Bolonha e Mestre. 

Se vossa ilustre Casa quiser, portanto, seguir o exemplo dos homens insignes que redimiram as suas províncias, cumpre-lhe antes de mais nada ter, como verdadeiro alicerce de qualquer empresa, exércitos seus; porque não se encontram soldados mais fiéis, mais sinceros e eficientes do que os italianos. E se individualmente são bons, melhores ainda serão quando, todos juntos se virem comandados, distinguidos e sustentados pelo seu príncipe. É necessário, por conseguinte, apresentar essas armas para poder, com valor [virtù] italiano, defender-se dos estrangeiros. Posto que as infantarias suíça e espanhola tenham fama de temíveis, ambas possuem falhas, motivo pelo qual uma terceira espécie de tropas poderia, não apenas resistir-lhes, mas também vencê-las. Com efeito, os espanhóis fraquejam diante da cavalaria e os suíços têm medo dos infantes quando estes os acometem com ímpeto igual ao seu. Daí se origina o fato, que a experiência já demonstrou e ainda demonstrará, de não poderem os espanhóis arrostar a cavalaria francesa e de serem os suíços esmagados pela infantaria espanhola. É verdade que deste último caso não houve até agora prova cabal. Contudo, tivemos um parcial na batalha de Ravena, quando a infantaria espanhola lutou com as tropas alemãs, que empregam um método de combate igual ao das suíças. Os espanhóis, valendo-se da sua agilidade e dos seus broquéis, insinuaram-se por entre os piques dos alemães e atacaram-nos livremente, sem que os seus adversários pudessem defender-se; e tê-los-iam matado todos se a cavalaria não houvesse investido contra eles. Conhecidas, pois, as falhas de uma e de outra dessas infantarias, pode-se organizar uma de novo tipo, apta a resistir à cavalaria e não receosa dos infantes. Bastará para tanto criar novas espécies de armas e novas maneiras de combater. É isto que dá prestígio e grandeza a um príncipe novo. 

É, portanto, essencial aproveitar esta ocasião, para que a Itália veja, após tanto tempo, aparecer o seu redentor. Nem sei exprimir com quanto amor, com quanta sede de vingança e fé obstinada, com quanta ternlura e quantas lágrimas ele seria acolhido em todas as províncias que tanto padeceram com aquelas inundações estrangeiras. Que portas se fechariam diante dele? Que povos lhe recusariam obediência? Que inveja ousaria opor-se-lhe? Qual o italiano capaz de negar a sua homenagem? A todos repugna este bárbaro domínio. Abrace, pois, a vossa ilustre Casa esta causa, com aquele espírito e aquela esperança com que se abraçam as empresas justas, para que debaixo das suas insígnias se nobilite esta pátria e sob os seus auspícios se cumpra o dito de Petrarca: 

Virtú contro furore
Prendera l’arme; e fia il combatter corto,
Chè l’ antico valore
Negl’italici cuor non è ancor morto.
 

[A virtude empunhará as armas contra a fúria; e a luta será breve, porque o antigo valor ainda não se extinguiu nos corações italianos. Petrarca, Cancioneiro, parte I, CXXVIII (canção XVI), versos 93 a 96.]

Música do dia: Please, please me, The Beatles

A genialidade do John Lennon e da banda, incluindo o quinto Beatle. Eu não entendia inglês quando ouvi essa canção, aos dez anos ou menos, mas entendi tudo, porque arte é isso, uma música tão boa, com vozes e instrumentos tão bons, só pode dizer coisas boas. Todos os compositores sabem que música é música, a letra acompanha e não pode atrapalhar, quando está à altura da música, com ideias e jogos de palavras tipo please, please me, vira uma canção genial, embora música não precise de letra, a imaginação entende a melodia. 

sábado, 11 de abril de 2026

Música do dia (2): Mind games, com John Lennon

Ouvindo esta música a gente percebe a superioridade do John em relação aos outros Beatles (principalmente se na sequência vier Uncle Albert, uma das minhas preferidas do Paul, na qual ele se esforça e brilha) e entende a veneração que George demonstra na letra de All those years ago. E também não compreende como um sujeito que só pregou o amor foi fuzilado no auge da sua vida, conclui que o Homo sapiens não tem salvação, seu destino trágico nessa era está traçado, poderá ser diferente caso sobrevivam alguns exemplares e aprendam com o que fomos e fizemos.

Jones Manoel é o cara

Falta subir no palanque, falar para multidões e se tornar um líder de massas. O fato é que, desde Ciro, a quem ele precisa fazer justiça, não aparece uma liderança política no Brasil com tanta lucidez. Jones Manoel, já disse, tem mais ou menos a idade que tinha o Lula quando surgiu, em contexto histórico e social muito diferente. Oxalá viva tanto e faça o que o outro devia ter feito e não fez. Jones é um fenômeno de massas nesse novo modelo que temos hoje, "massas virtuais", mas não é isso que me entusiasma ao ouvi-lo, é sua lucidez, aliada ao seu conhecimento. Com exceções, tal essa injustiça contra Ciro, na qual não está sozinho, mas não deve se equiparar ao lulólatras, Jones Manoel tem posições sobre o Brasil e o mundo com as quais concordo plenamente. O autoproclamado comunista e revolucionário, o que por si só já é enorme passo, pois no último meio século os comunistas deixaram ou se envergonharam de o ser. Procure um único comunista no PT; o principal herdeiro do Lula, Haddad, é um intelectual brilhante que abraçou o social-liberalismo. O social-liberalismo é a ideologia dos desiludidos com a Revolução Russa, que acreditam que o capitalismo não será superado, que a China inclusive é capitalista, que se trata só de tornar melhor o sistema, diminuindo suas desigualdades etc., mas eles foram atropelados pela nova ascensão fascista, se confundiram quanto ao que fazer quando o muro de Berlim ruiu e não sabem o que fazer agora, insistem no mesmo caminho, que a democracia liberal -- que nunca existiu para os trabalhadores, mas na qual eles são lideranças políticas privilegiadas -- é o valor supremo, de forma que se tornaram os solitários defensores do Estado burguês, contra a extrema direita, mas também contra a esquerda. JM se mostra também um intelectual brilhante de naipe diferente do Haddad, pois está sempre olhando para as pessoas comuns e como um igual a elas, coisa que Lula foi um dia e seu epígono parece não ter capacidade de ser. Me parece que a sucessão política do Lula será disputada entre os dois, mas é claro também que Jones Manoel precisa fazer o teste das ruas e dos palanques. Não basta ser um intelectual brilhante, não basta ter uma argumentação clara e convincente, é preciso ser um intelectual convencedor das massas. Para isso é preciso ter carisma. Lula tem carisma, basta ver a entrevista ridícula que ele deu para o ICL, na qual um jornalista experiente e um empresário esclarecido ficaram babando diante dele, submissos, sem cumprir sua função de entrevistar. O mesmo pode-se dizer de quase todos os jornalistas, intelectuais e políticos brasileiros (e não só brasileiros, basta lembrar daquele estadunidense a que o título faz referência) relevantes seduzidos pelo "encantador de serpentes" . Ciro foi o único com coragem para separar o joio do trigo que existe no Lula. Outro críticos, em geral, e especialmente jornalistas, não podem ser levados a sério, pois estão simplesmente preservando seus empregos e lambendo as botas dos seus patrões. A entrevista ao ICL é mais uma oportunidade para que os que não são cegos vejam a mediocridade do pensamento do Lula, que não tem a menor noção do que deve fazer para tirar o Brasil do buraco em que se encontra, buraco que durante seus governos e afins se transformou numa cratera que ameaça nos engolir a todos. O outro lado da moeda do Lula não é alguém melhor do que ele, é sempre alguém muito pior, o que torna a condição dos brasileiros desesperadora. Não estamos sós, porém, os estadunidenses e toda a espécie humana, em consequência do poder bélico ianque, sofrem do mesmo desespero. O Brasil pode ser uma China tropical, coisa que nem Cuba nem Venezuela nem Argentina nem Uruguai nem Bolívia ou outro país do continente pode ser. O Brasil poderia ser uma China muito melhor do que a China, porque o gigante pela própria Natureza deitando eternamente em berço esplêndido tem tudo para ser o melhor país do mundo, falta-lhe apenas uma classe dominante que decente. Que ela seja, enfim, a classe dos trabalhadores, como pretende Jones Manoel, é que espero para minhas filhas e netos, enquanto olho para o fracasso da minha geração. A tarefa dos jovens é muito mais difícil do que era a nossa, mas Jones Manoel mostra ter lucidez infinitamente maior do que a que teve Lula. Que a conserve, aumentando sempre, e viva também 80 anos ou mais. 

Música do dia: All those years ago, George Harrison

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Os neandertais e os humanos modernos são parentes?

Humanos

A parede introdutória da galeria exibe a diversidade da árvore genealógica humana por meio de réplicas de crânios pertencentes a nossos ancestrais hominídeos. (Fonte: Natural History Museum.)   Hominin family tree graphic showing early hominins, australopithecines and humans

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Postagem publicada em 2014 antecipava o Brasil descendo a ladeira

RPJ: a nova marcha da família? 

Primeiro pensei que se tratava daqueles jogos, RPG. A estética da cartilha lembra a TFP e outros movimentos de direita. Siglas. O globo da bandeira do Brasil com o mapa invertido e o lema positivista também alterado: "Desordem no Congresso". Jogo de palavras. As cores verde, amarelo, azul. E a palavra mágica, presente em todos os discursos da direita, desde que o Brasil inaugurou uma democracia mais participativa, depois da II Guerra Mundial: corrupção. Outras palavras fortes: "indignação", "covardia". E o advérbio que remete à maior campanha política de massas que o Brasil já teve, pelas eleições diretas, em 1984: "já". A cartilha de 12 páginas, grampeada, com boa qualidade de impressão, está sendo distribuída nas ruas. Não é apócrifa. Logo no começo, na página 2 há uma lista de nomes de "fundadores" do "movimento". Não conheço nenhum, além do nome não há outra identificação. RPJ são as iniciais de "Reforma Política Já", o movimento. A "instituição" se chama Pró-Cidadania -- Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Cidadania. Seu presidente é Marcílio A. Moreira. Tem página na internet (www.rpj.org.br), telefone (31-9122-4330) e email: m2augusto@hotmail.com. 

Há poucos dias, um grande movimento de sindicatos, associações, organizações diversas e partidos políticos inclusive, todos identificados, promoveram um grande plebiscito a favor da reforma política. O mesmo objetivo que, aparentemente, o RPJ busca. O plebiscito pede a eleição de uma Constituinte exclusiva para a reforma política. O resultado do plebiscito saiu ontem: foram 7,4 milhões de votos favoráveis à Constituinte (97,2% -- 2,7%, contrários), número bastante expressivo para um movimento organizado pela sociedade, sem participação governamental nem estatal. O RPJ não participou. Por quê?

Clique aqui para ler a íntegra.

Música do dia: Charles Anjo 45 (Jorge Ben), com Caetano Veloso

Não lembrava dessa bela gravação, com participação do autor. A gravação célebre é da Gal Costa no disco ao vivo Fa-tal. A canção é um retrato antigo da presença de protetores nas favelas. Há coisas que são óbvias: se o Estado não está presente, indivíduos, organizações informais e instituições privadas se instalams. Oferecem serviços, impõem sua ordem e exigem obediência: silêncio, colaboração, adesão, votos. Só Brizola e Darcy Ribeiro entenderam isso, a esquerda social-liberal tucana e petista privatizou serviços estatais. Veja como as coisas se encaixam: enquanto o Estado brasileiro era destruído pelo neoliberalismo democratista, o crime organizado crescia. O crime organizado é um tipo de iniciativa privada, está instalado na Faria Lima, como se sabe hoje. Seu melhor ambiente não poderia ser outro senão o governo da extrema direita, que prega a extinção do Estado para os pobres, o monopólio do Estado para os capitalistas. Nele prolifera o "empreendedorismo": igrejas, serviços por aplicativos, milícias etc. Assim, concluímos mais uma vez que o único caminho para a esquerda é do desenvolvimento nacional, com presença central do Estado e poder popular. Tudo se encaixa, basta ouvir com atenção uma canção dos anos 1960.  

quinta-feira, 2 de abril de 2026

O fenômeno Lula

Tudo (ou quase tudo) que o Lula diz nessa entrevista sem perguntas é verdade, mas se sustenta em mentiras, porque não corresponde à realidade. Lula nunca mudou de partido porque o PT é dele, sempre fez o que ele quis, se transformou no Partido do Lula, deixou de ser o Partido dos Trabalhadores. Ciro às vezes fala bobagens, mas Lula também fala, não é por isso que Lula o preteriu como candidato óbvio à sua sucessão, foi porque Ciro brilharia mais do que ele e o jogaria nas sombras, pois tinha (e tem) um projeto para o país, diferente do projeto neoliberal com o qual Lula se comprometeu. Se Lula se preocupa tanto com o partido, por que não deixou que o PT escolhesse seu sucessor, em vez de impor a candidatura desastrosa da Dilma? Depois que o levou ao poder, o PT perdeu sua função, isto é, a função que deveria ter, a de representar os trabalhadores e implantar um programa de governo próprio, coisa que o PT nunca teve. A função do PT sempre foi a de sustentar a candidatura do Lula, de torná-lo um candidato com apoio popular. Tanto isso é verdade que, ao ver que não governaria só com o PT, Lula buscou apoio em outros partidos, que se tornaram privilegiados em relação ao seu próprio partido. O lema do governo Lula passou a ser "um governo de todos", lema dúbio, que poderia ser uma crítica aos governos anteriores, que não incluíam os trabalhadores, mas de fato significava que não seria um governo "só" dos trabalhadores, mas também das classes dominantes. E na prática, ao adotar o projeto neoliberal do FHC, compromisso assumido na famigerada "carta aos brasileiros (banqueiros)", tornou-se o governo dos capitalistas. Tudo isso são fatos, hoje óbvios. O PT tornou-se dependente do Lula, não sobrevive sem ele, definhou e tende a sumir, depois dele, se não se transformar de fato num partido, com programa etc. Lula diz que é preciso ter partidos sérios e acabar com a promiscuidade na política, mas seus governos foram e é mais ainda o atual sustentados na promiscuidade com o chamado centrão, em nome da "governabilidade". O PT nunca suportou dissidências que desafiassem Lula, prova disso são os inúmeros militantes e tendências expulsos. Se Lula se preocupasse com o seu partido, não aceitaria que seus auxiliares, como Jacques Wagner e Clara Ant, promovessem o sionismo e protegessem Israel da reprovação geral ao genocídio palestino. Tampouco se alinharia com os EUA contra a Venezuela, no não reconhecimento da eleição e no veto à entrada no Brics. Enfim, é contradição após contradição, e não só isso, Lula se passa por um semideus, acima do bem e do mal, mas destila veneno, ao dizer que "Camilo achava que o mau era eu e agora está vendo" e que "Ciro foi um bom ministro". É claro que foi. Ciro é certamente o político mais brilhante da nossa época e não apoiar sua candidatura é um dos maiores prejuízos que Lula deu ao Brasil, só comparável ao fato de impedir que Brizola fosse ao segundo turno em 1989. Ao contrário do que diz Lula, Ciro foi vitorioso em todas as eleições que disputou, exceto as de presidente, mas o mais importante é que, uma vez eleito, não traiu seu projeto político e realizou obras concretas. Por isso mesmo era o mais qualificado para suceder Lula, mas este quis Dilma, dependente dele, inexperiente, inábil. É evidente que Dilma foi escolhida para guardar a vaga durante quatro anos, mas aconteceram imprevistos. Isso é pensar no país ou pensar em si mesmo? É essa a questão. Lula não pensou no Brasil, talvez nunca tenha pensado, pensou em si mesmo, talvez só pense em si mesmo. Isso na melhor hipótese, a pior seria seu compromisso com o neoliberalismo. Simples assim. No entanto, não estou condenando Lula, ele só é o que é porque nos deixamos enganar, porque a esquerda se iludiu com o "líder operário", esse ser esperado como um messias pelos marxistas. O messias mostrou ser o mais hábil político da história brasileira, rivalizando com Getúlio. Seu único problema é que não tinha um projeto nacional e popular para o Brasil e para os brasileiros, e converteu-se no líder burguês capitalista. Imagina Lula com o projeto do Brizola, seria muito bom, mas nesse caso, penso, não seria Lula, porque Lula sempre teve uma ideologia capitalista liberal. Não à toa, seu mais dileto afilhado é o social-liberal Fernando Haddad. Lula engabela os entrevistadores, porque é um mestre da retórica, um encantador de serpentes, como o define Ciro. A única vez em que o vi ser apertado por um repórter foi naquela entrevista histórica para o Glenn Greenwald. Afora tudo isso, é o de sempre, a imprensa capitalista busca o que não é importante para os brasileiros, segue a pauta dos patrões, joga Lula contra Ciro e Ciro contra Lula, para favorecer a volta do neofascismo, que será terrível no segundo governo, assim como trump 2 é pior do que trump 1.    

Brizola era de esquerda; Lula e FHC são?

Cada vez com mais frequência me pergunto por que a minha geração foi incapaz de enxergar o que hoje é óbvio. Brizola estava muito à esquerda do que vieram a ser os governos do PSDB e do PT. Dia desses, num programa no YT, uma intelectual de esquerda, instada a escolher o político mais importante para a história do Brasil, ou Lula ou Getúlio, escolheu o primeiro. E eu pensei: que escolha absurda, completamente sem cabimento, só pode ser feita por quem continua vítima da cegueira da qual falei. A obra de Getúlio existe ainda no Brasil, quase cem anos depois, apesar do desmonte a que foi submetida desde a ditadura militar, mas principalmente pelos governos civis "democráticos" e "de esquerda", sem falar no do temer, o minúsculo, e no do bozo, o boçal. E Lula? Gostaria que me apontassem qual a grande realização dos, digamos, 16 anos de governos petistas, excluindo o segundo da Dilma, que não houve. O que é durável nos cinco governos Lula (porque Dilma só existiu porque Lula a escolheu e fez campanha pra ela e, afinal, foi ele também quem escolheu temer, o minúsculo, para vice)? Afora os erros gigantescos que cometeu, do ponto de vista dos interesses nacionais e até mesmo dos seus, como a escolha do vice diminuto e traidor, a coisa mais duradoura que Lula fez foi continuar a política econômica do FHC, de adesão à cartilha do neoliberalismo e submissão aos EUA. Imagina se, no mesmo tempo, a gente tivesse a implantação do programa de educação em tempo integral do Brizola. Aí sim teríamos uma mudança radical no Brasil. Os governos Lula aumentaram muito as vagas na universidade, em 2025 foram quase 10 milhões de alunos, mas 80% delas são em faculdades particulares. Além disso, nas universidades públicas a evasão chegou a 25%. São dois números absurdos e não podem ser usados como propaganda senão por cegos, porque eles mostram, primeiro, que 4 em 5 universitários brasileiros estão fazendo dívida para estudar em faculdades de má qualidade, como confirmou o escândalo recente sobre os cursos de medicina. Mais grave ainda é fazer curso superior e depois ser um trabalhador informal, motorista de uber, entregador de aplicativo. É isso que acontece numa nação que não oferece oportunidades, porque se desindustrializou e todo o dinheiro do Estado sob governos neoliberais de teto de gastos e arcabouços fiscais vai para os banqueiros e para o agrotoxiconegócio, não sobra nada para saúde, educação, transporte, moradia, ciência e tecnologia, enfim, as áreas que beneficiam o povo e oferecerem oportunidades para os jovens. A universidade pública brasileira está sucateada e se socorre com ensino à distância no mínimo deficiente. Não é à toa que Lula perdeu popularidade entre os jovens. Entre aqueles influenciados pelas igrejas neopentecostais, deduz-se quem captura essa impopularidade; entre os outros a simpatia vai para correntes políticas que se definem como socialistas, como a UP. O fato é que, afora o controle da inflação obtida com o Plano Real, e exigência do neoliberalismo para implantação do seu programa de "modernização", nada temos a comemorar em 41 anos de governos civis, 36 de governos eleitos por voto direto, na "democracia". Com um retrospecto tão ruim de realizações, não surpreende que a tão idolatrada "democracia brasileira" venha mais uma vez a cair nas mãos da extrema direita antipovo pela via da escolha popular. As razões são óbvias. Só o que me espanta cada vez mais é por que nos deixamos enganar durante a vida inteira.    

O 'lobby' sionista "de esquerda" no Brasil: Tábata Amaral, Clara Ant, Jacques Wagner

Por meio de um projeto de lei, a deputada do PSB Tábata Amaral serve ao lobby sionista e pretende censurar qualquer crítica a Israel no Brasil. A assessora do presidente Lula Clara Ant, do PT, também a serviço do lobby sionista, organiza um seminário para promover o sionismo no Brasil. E na Bahia do líder do governo Jacques Wagner, uma espécie de ACM "de esquerda", os soldados israelenses criminosos de guerra no genocídio dos palestinos passam férias sem precisar de visto de entrada e têm liberdade para agredir a população local e expressar racismo, entre outros crimes relatados por moradores e comerciantes. Mais uma ótima análise do corajoso do judeu antissionista Breno Altman. 

terça-feira, 31 de março de 2026

Tribunal americano equipara rede social a droga e condena Meta a pagar indenização

Indenização a jovem que foi lesada pelo vício das redes sociais é de 6 milhões de dólares. Documentos da defesa mostram que dirigentes e funcionários da Meta tratam seu produto como droga viciante há muito tempo. "Agora vamos atrás de crianças de 13 anos", diz uma das provas. A estratégia dos advogados foi a mesma usada no século passado contra a indústria do tabaco, que também durante décadas fez propaganda de cigarros e induziu o público a se viciar, tendo conhecimento dos males que provocava. Então e agora, em nome do lucro, movidos sempre pelo capital. A previsão é que uma enxurrada de ações e sentenças virá em seguida, levando ao controle dessas empresas criminosas, finalmente. Um Calma Urgente! de vez em quando é bom. É interessante constatar como Alessandra Orofino e Gregório Duvivier são liberais, acreditam na democracia burguesa, o que significa acreditar no capitalismo e no neoliberalismo. Bruno Torturra compreende a extensão do assunto, a profundidade da questão. 

segunda-feira, 30 de março de 2026

A escravidão ao capital é o entrave ao bem-estar humano

"Na China, uma pessoa entra numa cabine e em quinze minutos faz um checape completo", narra Elias Jabbour, para exemplificar como a inteligência artificial pode ser usada para o bem-estar coletivo, numa nação socialista, em vez de ser usada para empresas venderem porcarias e bilionários ficarem ainda mais ricos, como acontece na civilização capitalista. 

O fato é que o mundo pode ser muito melhor, se os humanos assumirem o controle do capital, em vez de serem escravos dele e dos seus proprietários. A China fez isso e está mostrando o caminho para o restante da humanidade. Esse é o ponto. As discussões sobre se a China é capitalista ou socialista, se é uma ditadura ou democracia, só mostram o elevado grau ideológico a que o capital nos submeteu no Brasil. Que autoridade temos nós para falar em democracia, numa nação de tanta miséria, tanta violência, tanta exploração do trabalho, tanta opressão, tanta corrupção dos políticos e autoridades capitalistas? Como me disse uma diarista no ônibus, hoje: de quatro em quatro anos, aparece um candidato lá em casa pedindo meu voto, depois some, não quer saber se eu estou precisando de remédio, de comida nem nada. É essa a democracia que a esquerda brasileira defende há mais de quarenta anos. O único obstáculo entre a riqueza extraordinária que os seres humanos produzem e o seu bem-estar é a dominação do capital. Inverta-se isso, assumam os trabalhadores o controle sobre o capital e a vida será incomparavelmente melhor.  

domingo, 29 de março de 2026

O melhor aluno da turma*

Em memória do Paulo Gualberto Murta (30/9/1953 - 25/3/2026). 

Olhei para os dois lados da Avenida Antônio Carlos, não vi nenhum carro e atravessei correndo. Súbito, ouvi um grito e senti um baque que me estirou no asfalto. Só então vi a bicicleta. Tinha sido atropelado e o ciclista assustado perguntava se eu estava machucado. Respondi que não, olhando as mãos, os joelhos e cotovelos esfolados. Apressei-me a levantar, limpei a camisa branca, apanhei minha pasta de couro preta e retomei o caminho, correndo novamente. Estava atrasado para a aula: tinha consumido os primeiros minutos da manhã terminando o para casa e agora precisava encontrar o portão aberto ou todo meu esforço teria sido em vão. 

O grupo escolar era um lugar penoso. Para ir à “casinha”, como se chamava o banheiro, precisava de permissão da professora, quando tinha coragem de pedir. Era uma situação traumática: no jardim de infância, uma vez, não consegui controlar, me sujei e permaneci sentado até que chegassem para me buscar, no começo da noite. O jardim, um conjunto de salinhas interligadas no segundo andar de um sobrado, com piso de taco e paredes cheias de cartazes e desenhos, me dava tristeza. A tarde passava devagar enquanto eu e outros meninos e meninas que nunca se tornaram meus amigos permanecíamos sentados em volta de mesinhas com quatro cadeirinhas cada uma, aprendíamos a escrever nosso nome, ouvíamos histórias tenebrosas de lobos maus e bruxas cruéis e brincávamos de toquinhos e massinhas. Só uma vez me alegrei, com um acontecimento extraordinário: descemos à avenida para saudar a bela Staël Abelha, mineira eleita Miss Brasil, desfilando em carro aberto. No grupo, também ficávamos sentados, mas era em carteiras enfileiradas. A sala de aula era uma prisão, eu ficava sentado na carteira, não podia levantar, não podia conversar, não podia sair. Tinha que permanecer em silêncio, prestar atenção na professora, copiar no caderno o que ela escrevia com giz branco no quadro verde. Como curumins ingênuos, a gente se divertia com as novidades, sem saber que estava sendo treinada pela ideologia do sistema para assimilar sua visão do mundo e obedecer suas leis. Algum gaiato soltava um comentário ou fazia alguma coisa engraçada e arrancava gargalhadas e olhares cúmplices na rebeldia à disciplina que a professora tentava impor. Colegas puxavam conversa, as meninas bonitas atraíam minha atenção, a luz do sol e os ruídos externos me distraíam. Eu olhava para as janelas laterais e minha mente voava, pensando nas brincadeiras que me aguardavam em casa, mas devia corresponder à expectativa da professora e ser bom aluno, para ser recompensado com carinho e admiração. Sem fazer esforço, era aprovado ano após ano com média final máxima. O segundo ano foi especial. Dona Maria Luísa era carinhosa e me incentivava com anotações na caderneta, ao lado das notas das provas bimestrais. No final do ano, escreveu palavras exclamativas: Promovido com 10! 1º lugar! Parabéns! Ela estava grávida e no começo do ano seguinte saiu de licença. Uma manhã recebemos a notícia fúnebre: minha professora querida tinha morrido ao dar à luz. Minha turma visitar sua casa, na Rua Turvo, a dois quarteirões do grupo. Minha mãe, que acabara de ganhar minha irmã caçula, comentou, consternada, que era inadmissível em pleno século XX ainda se morrer de parto no Brasil. No terceiro ano, eu fazia desenhos para ilustrar meus trabalhos e os de colegas e vizinhos que vinham pedir minha ajuda. Dona Marlene, que falava alto e tinha sotaque nortista, se entusiasmava com as minhas composições na séria intitulada “Se eu fosse…” e não se cansava de elogiar minha imaginação para os meus pais. Foi perturbador perder o posto de melhor aluno no quarto e último ano do grupo. Conceituada e temida, Dona Dagmar inspecionava nossos cadernos, um por um, na fila, antes de entrarmos em sala, e aquele ritual me apavorava. Ela desconsiderava meu passado escolar e o fato de ser filho de uma colega e, quando eu levava um bilhete que justificava com a asma um dever de casa não feito, perguntava para a classe: “Tem mais algum doentinho que não fez o para-casa?” Querendo me proteger da megera, minha mãe tentou me trocar de turma, mas não teve sucesso e o episódio selou minha queda. Eu me sentia culpado, pois era relapso. Mal saía da escola, aliviado pelo fim de mais um suplício, abraçava meu amigo e xará, moreninho, tímido e gentil, que morava num bairro distante e sempre tinha dinheiro no bolso, e íamos os dois comprar picolés de groselha na sorveteria da esquina. Eu sabia que aquele gelado proibido e irresistível poderia resultar numa crise de asma, assim como passar a tarde jogando bola na poeira, mas fazia assim mesmo, e adiava o dever de casa para a noite. À noite, distraído pela televisão e vencido pelo cansaço, calculava que poderia cumprir a obrigação no dia seguinte, antes de ir para a aula, se acordasse bem cedinho… Ao acordar, porém o que tinha parecido uma boa solução mostrava-se inexequível diante do sono matinal, e eu preferia dormir mais um pouquinho: levantava em cima da hora, vestia o uniforme correndo, arrumava a pasta, engolia o café com leite e saía mastigando o pão com manteiga, esforçando-me para chegar a tempo, rezando para não ter fila de revista e escapar das chamadas da dona Dagmar. 

Naquela manhã, depois de ser atropelado pela bicicleta, encontrei o portão do grupo ainda aberto e me acalmei ao alcançar a sala de aula, pois estava preparado: o para casa tinha sido fácil, uma composição sobre o tema “Meu melhor amigo”. Sem titubear, escrevi sobre José, com quem brincava desde que me lembrava, depois que Gérson foi embora para sempre. Nomeei-o, narrei nossas brincadeiras, proclamei os sentimentos que nos uniam e concluí: “Por tudo isso, José é o meu melhor amigo”. Quando dona Dagmar me chamou, levantei-me e li com segurança minha redação, voltei a sentar satisfeito e esperei pelas outras leituras. A menina que leu depois de mim teceu loas ao seu melhor amigo e fez suspense sobre seu nome. Estranhei que seu melhor amigo fosse homem e não mulher, e compreendi no final, quando ela revelou que falava do seu pai, mas achei aquilo falso e piegas. Outros colegas leram suas composições em seguida e todos falaram do pai. A cada nova leitura eu me encolhia na carteira, envergonhado por também não ter falado do meu pai: no domingo seguinte comemorava-se o Dia dos Pais e com certeza, apesar do título, a instrução da dona Dagmar era homenagear nossos pais, mas eu comi mosca e dera um vexame. Na votação feita pela turma, a minha composição ficou em último lugar; todos deviam pensar que eu não gostava do meu pai. Para mim, no entanto, pai era pai e amigo era amigo. 

*Capítulo do livro Ainda me Lembro (17).

sábado, 28 de março de 2026

Por que os governos do PT não aumentaram a consciência popular

Alguma coisa está acontecendo na esquerda, quando até Breno Altman faz críticas contundentes ao PT. Enfim. Ele faz constatações fundamentais ("Em quase vinte anos de governos petistas, a consciência política popular não aumentou nada, como isso é possível?"), mas não tira as conclusões necessárias. Ora, isso aconteceu porque o PT, sob a liderança do Lula, virou um partido burguês, deixou de ser um partido dos trabalhadores e se tornou um partido dos capitalistas, administrando o Estado para a classe dominante, que não consegue eleger candidatos próprios, ora vai com a esquerda (FHC, Lula, Dilma), ora vai com a direita (Collor) ou com extrema direita (bozo pai e bozo filho), porque é uma fração insignificante da população, e usa todo o seu poder para domar o presidente que ajuda a eleger, usando os instrumentos que controla: Congresso, STF, veículos de comunicação, além da ameaça permanente do Exército. Nada melhor para o capital do que o governo de um partido popular, porque mantém os trabalhadores paralisados e assume todos os ônus de governar, como está acontecendo agora. Por isso, um partido de esquerda quando chega ao poder tem que governar para os trabalhadores e enfrentar o capital, porque, de qualquer forma vai levar chumbo do capital, e precisa pelo menos manter o apoio da sua base. O PT fez o contrário, buscou (e busca ainda, exceto nas eleições) o apoio do capital e abandonou os trabalhadores. Conclusão: a extrema direita capturou os trabalhadores com ideias absurdas e o capital abandonou Lula. Quando precisou, para derrotar o bozo descontrolado, foi buscá-lo de volta. Agora, com se deduz do noticiário da globo, uol, estadão etc., já negociou com o bozo filho e vai com ele. Enquanto isso, os trabalhadores que ainda acreditam no Lula, que já foram quase 90%, mas agora são menos da metade disso, perderam as referências do que significa ser de esquerda, acham que políticos são todos iguais, todos corruptos e interessados só no seu. Por quê? Porque o PT não tem um projeto próprio para o país que o distinga dos partidos burgueses. Não defende a nação nem os trabalhadores: não revogou a abolição dos direitos trabalhistas feita pelos governos temer e bozo e não implanta um programa de desenvolvimento que privilegie os interesses nacionais em detrimento dos interesses do capital internacional. Ou Lula acorda e apresenta um programa radical para o Brasil e para os trabalhadores, ou o bozo jr. ganha a eleição e os próximos anos serão ainda piores do que os anos 2019-2022, do governo pandêmico, como está sendo pior o segundo governo trump.