segunda-feira, 2 de março de 2026

Democracia liberal e fascismo sempre conviveram, segundo Vladimir Safatle

O fascismo não desapareceu depois da sua derrota na Segunda Guerra Mundial, continuou presente, assim como já existia antes para todos os povos colonizados. No Brasil, sempre convivemos com ele, tivemos o maior partido fascista (integralista) fora da Europa, com 1 milhão e 200 mil filiados, e ele nunca se afastou do poder (a ditadura militar teve generais integralistas), por isso não devemos nos espantar com o seu ressurgimento explícito na última década. Quando o fascismo assustou os europeus ao ser praticado contra eles, já tinha sido experimentado na África, nas Américas e em todas as regiões colonizadas pela democracia liberal europeia. O fascismo sempre conviveu com a democracia liberal: democracia para uns poucos e fascismo para os outros. O fascismo é a violência contra as populações que, na sociedade capitalista, não têm status de gente, são coisas: os palestinos, os favelados, os africanos escravizados, os indígenas, em resumo: os trabalhadores. As mortes destes não são lamentadas pela democracia liberal e pelo fascismo, eles sequer são identificados, não têm nome nem rosto nem direito à memória. 

Essas ideias e outras mais, brilhantemente costuradas e fundamentadas, foram expostas na manhã desta segunda-feira 2/3/26 pelo filósofo Vladimir Safatle na aula magna "Fascismo como nome correto", que abriu o primeiro semestre letivo na UFMG (foto). A realidade que elas expressam está à nossa vista hoje o tempo todo, mas é preciso ter lucidez para apreendê-la e nomeá-la, como o faz Safatle. Foi uma das melhores palestras que eu já ouvi. Uma visão clara do nosso tempo sintetizada em cerca de uma hora. Espero que a UFMG a tenha gravado e publique no seu canal no YouTube e demais veículos de divulgação.