Trocando mensagens com um ex-colega do JB nas décadas de 1980 e 1990, tentei lembrar quem votou em quem (isto é, os votos de cada um na redação da sucursal) na eleição da 1989, a primeira eleição presidencial direta depois da ditadura militar (1964-1985). E então me dei conta de que o segundo turno daquela eleição inaugurou uma situação que os brasileiros começaram a viver, em cada eleição presidencial, e que persiste até hoje, 37 anos e dez eleições depois: escolher entre Lula e outro candidato. Na eleição deste ano, Lula, que já governou graças à maioria dos trabalhadores, de cuja classe veio, visa a outra maioria, a das mulheres, como se vê no vídeo abaixo.
É um exercício muito interessante pensar na eleição de 1989, porque nos dá perspectiva histórica. Muita coisa pode ser inferida dessa simples observação, na verdade tudo, ou quase tudo da política brasileira nessas quatro décadas, e, como a política é o sistema nervoso de tudo, do próprio Brasil. A primeira coisa, óbvia, é que Lula é a maior personagem da história do Brasil, pois nenhum outro governante esteve no topo durante tanto tempo, nem mesmo Getúlio Vargas, que, do ponto de vista da construção da nacionalidade brasileira, é infinitamente maior. De fato, ao contrário de Getúlio, Lula não deixará herança palpável, institucional, e se deixar não será boa; sua obra me parece difusa, a simples administração do país, e mais alguma coisa subjetiva, na imaginação popular. Esta última, porém ainda não está muito clara para mim. Se ele tivesse saído em 2010, estaria: Lula deixaria o poder como um mito, no auge do sucesso, com aprovação quase unânime. Seria um Pelé da política, digamos assim, quanto mais o tempo passasse e a situação do país piorasse, como piorou, ele seria lembrado como o presidente de uma época dourada, como ainda hoje lembramos do JK. Muitas coisas aconteceram depois e Lula voltou a realizar façanhas, conseguiu superar o inferno da prisão e deu a volta por cima, elegeu-se presidente outra vez, mas é maior hoje do que foi no passado? Me parece que não, penso que os últimos 16 anos não o engrandeceram, embora tenham contribuído para consolidar sua condição de ídolo para uma parcela da população que já o idolatrava. De fato, prevejo um final melancólico para ele e pior para os brasileiros: deixar o poder derrotado na eleição deste ano. Se isso não ocorrer, será sua última façanha. Os ventos sopram mudança e, conforme sugere o começo deste texto, não há mudança mais simbólica e marcante no Brasil do que Lula perder o protagonismo político. Pesquisas e análises indicam isso, embora com cautela, talvez por medo da volta da extrema direita apocalíptica ao governo, talvez em respeito ao provecto líder, talvez por crença no seu poder mágico, talvez por simples perplexidade.
O Lula de 1989 era um brasileiro muito diferente. Aquela eleição, aliás, foi completamente diferente das eleições que temos tido nas últimas décadas. A eleição foi diferente porque o Brasil era muito diferente. A ditadura cumpriu seu papel de decepar a oposição de esquerda, primeiro os trabalhistas e os comunistas, que governavam com Jango, em 1964, e depois os grupos revolucionários que dirigiram o movimento estudantil de massas, em 1968. Quando os militares começaram a passar o poder para os civis, no governo do general Figueiredo, o que havia na oposição eram os sobreviventes da esquerda, no movimento estudantil e nos sindicatos pelegos. Fraca, traumatizada e confusa, a esquerda aceitou o papel de coadjuvante na oposição liderada por setores burgueses e pequeno-burgueses que queriam trocar os militares por um governo próprio. A esquerda, mesmo enfraquecida, foi fundamental para mobilizar as massas que voltaram à luta a partir de 1977. Incapazes de controlar a insatisfação popular num cenário de crise econômica, os sindicatos pelegos viram surgir um "novo sindicalismo". Lula é expoente desse sindicalismo pelego renovado. É um sindicalismo que não reivindica o trabalhismo e o getulismo, não quer colar o passado trabalhista que o golpe de 1964 e a ditadura rasgaram, ao contrário os rejeita, nas figuras do PTB e do Brizola, e quer fundar uma nova era, com o PT e Lula.
Me parece fundamental prestar atenção nesse momento para entender o que veio depois e existe hoje. A ditadura militar, até a crise econômica que começou na década de 1970 e que se aprofundou na década de 1980, mantinha um projeto nacional de desenvolvimento, tinha inclusive entrado em choque com o governo americano por desenvolver um projeto nuclear. Hoje, uma das coisas de que mais se fala, diante do cerco do imperialismo ianque à Venezuela, Cuba, Colômbia e toda a América Latina e das guerras para mudança de regime no Oriente Médio promovidas pelo mesmo imperialismo e seu braço sionista, é que não há possibilidade de independência sem posse de bomba atômica. Pois bem, o Brasil estava nesse caminho na década de 1970, quando a crise econômica abalou o regime militar. O programa nuclear brasileiro fazia parte do projeto nacional de desenvolvimento, formalizado nos diversos planos nacionais de desenvolvimento (PND) dos militares. Esse projeto, por sua vez, não era uma novidade da ditadura, era uma continuação do que começou na Revolução de 1930 e foi tomando forma nas décadas seguintes em sucessivos planos, dos quais o Plano de Metas do JK, com o slogan "50 anos em 5", é o mais famoso. Em resumo: até a crise econômica dos anos 1980, o Brasil seguia um rumo próprio, o chamado "desenvolvimentismo". A crise que acabou por derrubar a ditadura militar liquidou também o projeto de desenvolvimento nacional.
As forças políticas que emergem dos movimentos de massa oposicionistas a partir do movimento estudantil de 1977, passando pelas greves no ABC paulista e pela onda grevista em todo o país na sequência, pela campanha Diretas Já, derrotada, pela eleição de Tancredo Neves pelo colégio eleitoral, e culminando na eleição presidencial direta de 1989, essas forças políticas vão sepultar não só a ditadura militar de 21 anos, mas também o trabalhismo getulista e o desenvolvimentismo. O que virá depois será completamente diferente, não terá mais laços com o ciclo histórico inaugurado pela Revolução de 1930 e que chega até a ditadura militar, atravessando a ditadura Vargas (1930-1945) e a República Populista (1946-1964). Curiosamente, ao contrário do que eu imaginava, a eleição presidencial direta de 1989 inaugurou uma nova era brasileira, mas o seu momento decisivo não foi a eleição do Collor, no segundo turno, foi a derrota do Brizola, no primeiro. Ao tirar Brizola e o PDT do protagonismo político, as forças de oposição (burguesa, pequeno-burguesa, novo sindicalismo e esquerda sobrevivente) que emergiram da luta contra a ditadura militar completam sua obra e deflagram um novo ciclo político brasileiro que já dura 37 anos.
Exatamente em 1989, o cenário mundial começa a mudar bruscamente com a queda do Muro de Berlim, seguida nos anos próximos do fim da URSS e do bloco soviético. Na crise dos anos 1980, o neoliberalismo começou a proliferar, depois do ser testado no Chile da ditadura militar que derrubou o presidente Allende. Esses ventos estrangeiros dão o tom da música que tocará também no Brasil "democrático". As diferenças entre Brizola e Lula, entre PDT (PTB) e PT são muito maiores do que as diferenças entre Collor e Lula, FHC e Lula, PSDB e PT, como hoje se vê facilmente. Tanto Collor, quanto FHC, quanto Lula são presidentes que aderem ao neoliberalismo e abandonam um projeto nacional de desenvolvimento. FHC inclusive assinou o tratado de não proliferação de armas nucleares com o qual os EUA controlam a emergência de rivais e mantêm o neocolonialismo contemporâneo. Lula não reverteu nenhuma das políticas neoliberais dos seus antecessores, tampouco o desmonte dos direitos trabalhistas promovido pelos governos temer, o minúsculo, e bozo, o boçal. A esquerda brasileira nunca mais falou em socialismo e nacionalismo, como falava antes de 1964 e durante a ditadura, período em que estava na clandestinidade, se dizia marxista, seguia a cartilha leninista e pregava a revolução.
Com o fim da "Era Lula", já neste ano ou no emblemático ano de 2030, quando se comemorará o centenário da Revolução de 1930, o Brasil se vê diante da exigência de começar um novo ciclo, que pode ser o aprofundamento da condição de colônia neoliberal, sob um governo de extrema direita, ou um novo projeto de desenvolvimento nacional. Seja como for, aquelas forças políticas que lideraram a derrubada da ditadura militar e o sepultamento do desenvolvimentismo e implantaram o neoliberalismo no Brasil estão encerrando seu ciclo. Lula é e será sempre o seu expoente máximo.
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