sexta-feira, 10 de julho de 2026

Max e os 'pets'

Conheci Max há apenas dois dias, mas já somos velhos amigos. Quando acordo, ele está deitado na soleira da porta. Gosto de cachorros e tenho antipatia por pets. Cães domésticos e pets são dois fenômenos sociológicos, um antigo, outro recente. 

É fácil imaginar como a relação entre homens e cães se formou. Nossos ancestrais domesticaram ancestrais dos cachorros oferecendo-lhes comida. Os cachorros antigos viram vantagens nessa relação, se habituaram ao ambiente doméstico, a uma vida preguiçosa, não precisavam caçar para comer, só o que precisavam fazer era seguir os humanos. 

Para nossos ancestrais, e até hoje, as vantagens da relação também são claras. Não precisamos nos confrontar com outros animais hostis, inclusive humanos, os cães fazem isso por nós. Sua simples presença nos protege. Basta andar na cidade, quem ainda anda na cidade, e observar: todo mendigo, hoje conhecido como morador de rua, tem pelo menos um cachorro, às vezes vários. Me intriga pensar que o mendigo tem que alimentar, além de si próprio, um animal de estimação. Já me aconteceu de um morador de rua pedir dinheiro para comprar ração para seu cachorro. Me pareceu um luxo, mas já aprendi que, igual a tudo na vida, se é assim é porque tem motivo. E o primeiro motivo é o mesmo dos nossos ancestrais: o cachorro protege o mendigo na vida violenta da rua. 

A simples presença de um cachorro afasta outros bichos que consideram um humano um animal frágil. Um cachorro pode ser mais ameaçador que um homem. Às vezes é só aparência e basta ameaçá-lo, para o cachorro sair correndo, mas a presença, o latido, o arreganhar os dentes, avançar e até morder, assustam qualquer um, e a capacidade de ser violento é uma característica animal selvagem, ou melhor dizendo, natural que o cachorro comum preservou muito mais do que o Homo sapiens. Na verdade, o Homo sapiens é muito mais violento, é disparadamente o animal mais violento da Terra, o único de fato violento, mas essa é outra questão, trata-se da violência do Estado. Na vida cotidiana, entre indivíduos comuns, entre trabalhadores, a possibilidade de ser atacado, arranhado ou mordido por outro humano é muito menor. O cachorro é fiel ao "dono", isto é, àquele que lhe dá comida, que ele acompanha. E sendo assim afasta outros humanos hostis, a não ser que o "dono" demonstre amizade pelo estranho. Amigo do "dono" não é estranho mais, é amigo do cachorro também. 

Há cachorros que saem correndo e abandonam o dono, se o estranho os enfrenta. A bem da verdade, os cachorros atuais são mais ameaçadores do que capazes de causar danos a humanos, exceto a crianças e adultos medrosos. Por isso, tornou-se uma prática de segurança do patrimônio da ideologia capitalista treinar cachorros para serem violentos. Mais que isso: esses humanos que prezam acima de tudo os bens materiais e a riqueza, mais que a vida de outros humanos, escolhem e fazem "melhoramentos" genéticos em cachorros que têm características para causarem grandes danos e até a morte naqueles que atacarem, tais como tamanho da boca e dos dentes, força da mordida, força das patas e garras etc. Enfim, esses humanos intelectualmente violentos treinam cachorros para serem agressivos como eram antes de se tornarem animais domésticos. Não se trata mais de afastar ameaças à integridade do humano "dono" de um cachorro, mas de afastar ameaças ao patrimônio escandaloso dos capitalistas. O capitalismo é capaz de realizar coisas espantosas. 

A relação que se estabelece entre o homem e o cachorro domesticados é uma das relações mais bonitas do mundo. A gente chama até de amizade e diz que o cão é o melhor amigo do homem, transpondo para o animal de outra espécie o que é normal para outro Homo sapiens. Há quem diga que é possível conversar com os cachorros. A ciência ainda sabe muito pouco sobre como pensam e sentem os outros animais, mas é certo que o cão doméstico nos compreende: agora mesmo acabei de dizer ao Max, que tinha entrado na sala, para ficar na lá fora e ele saiu. Por essa convivência antiga com o Homo sapiens, o Canis familiaris adquiriu muitas características humanas e parece de fato compreender o que lhe falamos. Um cachorro protege seu "dono" em troca de casa e comida, ainda que, conforme disse, essa proteção seja mais aparente do que ativa. No entanto, alguns cães são de fato capazes de morrer para defender seus "donos", de permanecer do seu lado nas piores dificuldades e até de ir buscar ajuda ou empreender um longo caminho de volta solitário para casa. Há belas histórias sobre casos assim. 

Minha antipatia com os pets vem do fato de representarem uma perversão dessa relação entre o Homo sapiens e o Canis familiaris. Na relação entre humanos e pets a amizade foi corrompida. Com os pets, os homens demonstram todos os seus defeitos e aqueles correspondem demonstrando os seus. Pets são incapazes de dar proteção aos humanos, ao contrário, precisam ser protegidos. Os humanos, por sua vez, não buscam proteção física nos pets e sim uma espécie de proteção mental: tratam seus pets como se fossem gente, crianças, eternas crianças, e dão a eles o que muitas vezes não dão às crianças, demonstram impressionante tolerância com eles que não demonstram com crianças. 

Pets são crianças mimadas. Crianças mimadas que não crescem. Há uma coisa de síndrome de Peter Pan na relação entre humanos e pets. Não há nada mais ridículo do que ver um jovem bombado passeando com seu pet minúsculo, ornamentado e perfumado, que late estridentemente quando vê outro pet. Esses humanos saem para passear com seus pets como se fossem bebês e alguns vão mesmo em carrinhos de bebês. Bebês sem fraldas, porém: fazem xixi e cocô nos passeios públicos, nas portas dos vizinhos. Humanos (salvo alguns mendigos) não fazem cocô nas ruas, nunca vi um dono de pet fazendo cocô no passeio, mas todos eles acham normal e aguardam pacientemente que seus pets façam. Os mais "civilizados" em seguida se abaixam e recolhem o cocô num saquinho plástico e jogam numa lixeira de rua. Qual de nós joga seu próprio cocô num saquinho plástico em lixeiras públicas? Imagina todos nós fazendo isso -- meu critério inato de justiça é esse: é justo o que todos podem fazer. Os donos de pets fazem isso regularmente e acham normal. 

Passear nas ruas com pets (e fazer xixi e cocô, eventualmente assustar transeuntes quando os pets são cães grande treinados para ser bravos) não é propriamente passear, mas cumprir uma recomendação veterinária, pois eles passam os dias confinados em apartamentos, quietos, dormindo e comendo e sendo acariciados e precisam fazer exercício físico. Vivem rotinas inadequadas, em resumo, e adquirem as mesmas doenças dos humanos que vivem rotinas inadequadas. Andar nas ruas da cidade é a academia dos pets. Pets precisam de babás. Cães domésticos, embora sejam preguiçosos e ganham seu alimento do homem, vivem soltos, andam para todo lado, correm, se exercitam, enfim. Homens das cidades grandes que moram em apartamentos viraram babás de pets. É comum vermos jovens casais passeando nas ruas com um bebê e um pet. Este, porém é um bebê que jamais cresce. Quando envelhece, exige cuidados de idosos, e seus donos estão a postos e dispostos para realizá-los. Cuidados que inúmeras crianças e inúmeros idosos não recebem; nunca vi o dono ou a dona de um pet colocando-o na rua porque ficou velho ou doente.  

Os homens cuidam mais e melhor dos pets do que dos seus semelhantes. Gastam com eles o que não gastam para cuidar de crianças, idosos e doentes humanos. Não é culpa dos humanos, indivíduos mental e emocionalmente frágeis, fragilizados pela ideologia e pelas condições de vida do capitalismo. Muito menos é culpa dos pets, animais domesticados pelos humanos e escravizados pelas mesmas forças que escravizam os homens. A relação de mútua dependência afetiva entre humanos e pets é só um exemplo entre tantos da corrupção que a civilização capitalista provoca na vida do Homo sapiens e das espécies que ele afeta. 

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