sexta-feira, 16 de junho de 2023

Galpão: o Brasil é um cabaré

Aplausos para o Grupo Galpão, que mais uma vez estreia nova temporada em BH até este domingo, 18/6. É Cabaré Coragem, um espetáculo maravilhoso nesses tempos repetidamente, interminavelmente sombrios, secos, enfumaçados. Em 2023 não é possível falar do Brasil a não ser como um cabaré. Talvez nem o Galpão nem ninguém, nem cientistas políticos, muito menos jornalistas políticos, ou sociólogos, psicanalistas, cientistas de todas as modalidades saibam direito do que estamos falando quando tentamos interpretar esse país sob nova administração desde 1º de janeiro deste ano que continua governado por bozoístas, centrãozistas e todo tipo de gente que não foi eleita para governar, mas faz isso desde 1500 e apesar da Constituição de 1988, democrática e cidadã, respeitada pelos poderosos apenas quando lhes convém, ignorada pelos comuns. O Brasil é um cabaré, não o cabaré charmoso dos musicais de Brecht e Weill, mas um cabaré Bye Bye Brasil de beira de estrada na Amazônia dominada pelo crime, onde sonhamos um dia descerá um índio de uma estrela colorida brilhante, no Bloomsday ou em outro dia, no Cerrado eterno de Guimarães Rosa que o grande JK começou a destruir, no Pantanal sem igual, mundo de água que se transforma em deserto, na Mata Atlântica que virou madeira para europeus, nesta Serra do Curral e outras que viraram buracos de minério exportado, apesar das elegias eternas do nosso Carlos, há cinquenta anos. Quando se trata de destruir riquezas e cantar nossas misérias num cabaré, nós, mineiros, mineradores, poetas, conspiradores, sabemos como fazer. Sem utopias nem ilusões, em 2023 nos reunimos para cantar e beber e rir e chorar no cabaré em que transformamos o país do futuro.  

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sábado, 13 de maio de 2023

1977, 1968 e um mundo sapiens

Frei Beto (vai assim mesmo, com um tê só, porque não gosto dessa coisa de letra dobrada e acho que não combina com ele) escreveu num artigo publicado no Diplô (Le Monde Diplomatique Brasil) neste começo de maio ideias boas, lúcidas e ingênuas. “Políticas sociais mudam a cabeça do povo?”, pergunta no título, que pode ser lido exclusivamente por assinantes clicando aqui. Admiro o frei e sua rica história do lado do bem, mas tenho dificuldade de entender suas ideias, que expressam uma espécie de ingenuidade dos melhores bem-intencionados da nossa geração.

Esse negócio de geração é engraçado. Não faço parte da geração de frei Beto, sou um tanto mais novo que ele, pertenço à geração de 1977, não vivi 1968, ano que mudou radicalmente o século XX. Só nove anos separam os acontecimentos que nos marcaram, mas foi um novênio suficiente para nos colocar em gerações diferentes. Ao mesmo tempo, a diferença de idades é insuficiente para que meu xará fosse, digamos, meu pai. Minha geração é muito diferente da geração do meu pai e foi a “geração” de frei Beto, que não podia ser meu pai, mas é um pouco velho para ser filho do meu pai, que criou a ruptura entre as gerações, de forma que rompemos com nossos pais, ainda que continuássemos vivendo como eles (segundo Belchior, ele próprio da geração do Beto), nos espelhando na geração de 1968.

A relação da geração de 1977 com a geração de 1968 – e aqui me refiro especialmente à geração universitária, porque foi no movimento estudantil principalmente que a geração do meu xará e a minha se expressaram – foi muito forte, inspiradora e castradora ao mesmo tempo. Nossos “irmãos mais velhos”, digamos assim, foram à guerra, lutaram, voltaram ou morreram como heróis e nós os vimos lutar e ouvimos contar suas histórias. Crescemos admirando-os, antes do desfecho inglório da sua luta, e venerando-os em seguida. Frei Beto é só um daquela época que teve heróis guerrilheiros como Fernando Gabeira, Guilherme Palmeira e José Dirceu, entre tantos outros, para citar os vivos, que preparavam a revolução iminente e cuja influência mais profunda veio pela música popular, cujos heróis eram Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes e muitos, muitos mais, isso sem falar nos estrangeiros.

Enquanto nossos heróis iam à guerra, nós ainda brincávamos e os admirávamos pela televisão. De repente, sumiram, mudaram de país ou de estilo musical. Outro Brasil nos era apresentado nos meios de comunicação, escolas e instituições, mas a gente sabia que nossos heróis continuavam ativos – no exílio ou na clandestinidade. Naquele novênio vivemos na mais completa ignorância e obscurantismo, tudo de bom com que tínhamos contato era dito ou mostrado de forma cifrada, sub-reptícia, camuflada, num armazém alternativo de Secos & Molhados montado por Novos Baianos num Clube da Esquina… E quem é que nos instruía, em discos, shows, peças, filmes ou organizações clandestinas? Nossos irmãos mais velhos sobreviventes de 1968.

Escrevo tudo isso para esclarecer como foi importante a relação da minha geração com a geração de 1968. Nós, que em 1977 lideramos a retomada da contestação à ditadura militar, com valentes movimentos estudantis, fomos terrivelmente submissos aos nossos veneráveis irmãos mais velhos. Nós estávamos na linha de frente, mas éramos profundamente ignorantes, e não podia ser diferente, depois de treze anos de ditadura, de nove anos de censura e repressão cruel, e quem pensava por nós eram eles, os sobreviventes de 1968. 

Só um pouco depois de 1977, os mais jovens de nós – que também fazem parte da nossa geração, mas eram nossos irmãos caçulas, digamos assim (eles sim talvez pudessem ser filhos da geração de 68) – se diferenciaram e afirmaram a personalidade própria da nossa geração, que se traduziu no chamado rock Brasil dos anos 1980, cuja estrela maior é Cazuza. É verdade que Asdrúbal Trouxe o Trombone é uma das mais excelentes expressões da minha geração e antecede 1977, mas em BH a personalidade da geração de 1977 explodiu quando o movimento estudantil refluía e já tinha cumprido seu papel. Politicamente, a expressão da minha geração é a chapa Roseta, lançada para o D.A. Fafich por Edwaldo Zampier, quem melhor compreendeu aquele momento, e na sequência a chapa Onda, vitoriosa no DCE UFMG – sucessos efêmeros. Na arte, o Grupo Galpão foi quem expressou melhor as inquietações nem um pouco stalinistas da nossa geração – sucesso duradouro.  

Ouso dizer que nossos irmãos mais velhos, com toda sua rebeldia e seu heroísmo, formaram, porém, a última geração stalinista. Sim, porque o stalinismo estava definhando, o próprio tinha falecido em 1953, mas sua influência no pensamento marxista foi e era ainda capital; a geração de 1968, crítica do stalinismo, desgraçadamente seguiu sendo stalinista e em parte o é até hoje. Nossos irmãos mais velhos, que tinham vivido experiências de uma época gloriosa – os anos 60 – que nós não vivemos nos transmitiram essa herança nefasta.

Em 2023 as marcas do stalinismo permanecem nas lúcidas e bem-intencionadas reflexões de frei Beto. Afinal, o que se pode dizer de um homem do nosso tempo que se cala sobre as mazelas da revolução cubana, conhecendo a ilha e seu regime de perto e por dentro, num convívio de mais de meio século? Eu, que nunca estive lá, mas, de cá, leio o que posso e acima de tudo a brilhante literatura de Leonardo Padura, sei que também em Cuba o socialismo fracassou. O primeiro passo da atividade intelectual é aceitar a realidade, é não se negar a ver a verdade. Vamos em frente, podemos até continuar defendendo Cuba, o socialismo, a revolução, o marxismo, mas comecemos reconhecendo o óbvio. Qualquer outra postura é ideológica, é religião, não é conhecimento.

Está certo, meu xará é religioso, cristão, católico, soldado da igreja católica, posição que concilia com o marxismo e o socialismo. Não vejo problema nisso também, compreendo o ambiente que contempla valores cristãos num “comunismo primitivo” e aproxima as duas ideologias. A questão fundamental para mim é que já passou da hora da geração de 1968 amadurecer intelectualmente.

A realidade é dura, o mundo caminha entre catástrofes para o abismo e não dá para ficar brincando de revolução nem para continuar militando em seitas maniqueístas. Precisamos urgentemente enxergar a realidade para agir nos limites do possível e do razoável e tentar salvar o planeta para as futuras gerações. Construir, enfim, um mundo sapiens no sentido exato do nome: um mundo sábio.


terça-feira, 2 de maio de 2023

Procure uma estrela

Look for a Star (Remastered), de Tony Hatch. 

Quando essa música se tonou sucesso mundial, inclusive no Brasil, tocando em rádios e programas de televisão, eu tinha cinco anos. É uma das canções mais antigas de que me lembro e me provocava uma melancolia profunda, não a versão original, cantada por Garry Mills, mas essa outra, orquestrada por Billy Vaughn, que tem instrumentos estranhos, teclados, acho, que penetram o peito como espadas pontiagudas. A música parece alegre, mas é melancólica. Até hoje tenho a lembrança da tristeza que me assaltava quando a ouvia. Uma curiosidade: no seu primeiro álbum, quando cantava de tudo e ainda não tinha entrado no ié-ié-ié, Roberto Carlos gravou uma versão dessa música.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Mônica de Bolle, olhando o Brasil de fora: industrialização e reindustrialização

Há muito tempo penso com a minha cabeça, não sigo ninguém, não sou filiado a partido ou corrente política, filosófica, econômica etc., mas várias vezes na minha vida me identifiquei com algum intelectual ou artista que diziam o que eu pensava. Atualmente, quem fala mais coisas que me interessam e com as quais concordo é Mônica de Bolle, que há nove anos mora nos EUA e trabalha numa importante instituição econômica em Washington. Esse vídeo é interessante pelo conteúdo específico, mas também pelos comentários iniciais que assino embaixo. Ouvir Mônica de Bolle é um alento.

 

domingo, 19 de fevereiro de 2023

A classe dominante brasileira repensa a Amazônia

No programa Entrelinhas, de 17/2/2023, da TV Cultura de São Paulo, o banqueiro e intelectual João Moreira Sales mostra que a classe dominante brasileira finalmente começa a ver a Amazônia com outros olhos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

'Grande' imprensa servil ao mercado e que se diz liberal pratica censura

A consagração da censura 

Jânio de Freitas, Poder 360, 17/2/2023 

No século 21, ainda há dirigentes de “mídia” – jornalistas profissionais ou não – que se ocupam de sonegar ou enfraquecer certas notícias, possuídos de uma visão patológica. É um vezo paranóico associado à falta de ética. A decisão repressiva parte de quem se imagina, e à sua publicação, com um poder gigantesco de influência sobre o leitor/ouvinte, visto, portanto, como inferior, incapaz de discernimento. A ética profissional e a pessoal, sempre indissociáveis, não convivem com os vezos paranoicos. 

Servilismo político e interesses financeiros tanto se alternam como se confundem na prática desse autoritarismo, vá lá, midiático. Dele vieram, nos últimos dias, 2 casos, exemplares. 

 A sociedade inteira recebe os reflexos dos juros oficiais, que o Banco Central estabelece com a autonomia de que desfruta há exatos 2 anos. A altitude dos atuais 13,75% contrapõe-se aos programas do governo, sobretudo aos sociais que são a sua prioridade. Um impasse complexo. Com mais 2 anos de mandato, Roberto Campos Neto preside o banco na condição de adepto íntimo do bolsonarismo e indemissível. 

O alcance dessa situação irracional, as formas da autonomia e ela mesma suscitaram reações do governo encabeçadas pelo próprio presidente Lula. A indisfarçável oposição majoritária da “mídia” abriu fartos espaços a economistas, políticos e empresários em ataques ao presidente e em defesa do Banco Central tal como está e faz. E daí se iniciou algo tão necessário quanto raro aqui: um debate público. Público em todos os sentidos. 

Clique aqui para ler a íntegra no Poder 360. 

Aqui link para a newsletter da economista Mônica de Bolle sobre o assunto: https://bolle.substack.com/p/episodio-9-a-solucao-para-a-censura?utm_source=podcast-email%2Csubstack&publication_id=904670&post_id=103493280&utm_medium=email#details  

E abaixo, matéria sobre a entrevista do economista André Lara Resende ao Canal Livre que a "grande" imprensa econômica dominada pelo mercado ignorou. 

 


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Pobre tem direito a morar com a mesma dignidade do rico

Pode surpreender muita gente, mas grande parte do governo Lula foi dar continuidade ao plano de obras da ditadura militar, como as hidrelétricas na Amazônia e o Minha Casa Minha Vida. É um programa que nasceu na Revolução de 1930, continuou na democracia populista, ganhou forma e pujança nos anos JK e foi mantido pela ditadura até a crise que derrubou o “milagre brasileiro” e mais tarde o próprio governo militar. Chama-se “desenvolvimentismo”. É o ideal de todos os governos brasileiros e o governo Lula foi o que lhe deu maior impulso. A questão é que desenvolvimento no século XXI precisa considerar sempre como ponto de partida o meio ambiente, coisa que os governos petistas ignoraram, assim como habitação não pode ser atender a demanda da construção civil, mas antes de tudo atender a demanda da população pobre: morar com dignidade em local que ofereça todos os serviços públicos que os ricos que moram em bons bairros centrais têm, isto é, acesso a saúde, educação, transporte, lazer, cultura e segurança. Isso se chama democracia.


A volta do Minha Casa Minha Vida e a política habitacional no Brasil

Aline Pellegrini e Letícia Arcoverde, Nexo Jornal, 14 de fevereiro de 2023 (atualizado 14/2/2023 às 19h48)

Governo Lula relança programa que incentiva produção e aquisição de residências. Iniciativa tem como foco construções subsidiadas para famílias de baixa renda

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva relançou nesta terça-feira (14) o Minha Casa Minha Vida. O programa, que foi substituído pelo Casa Verde e Amarela de Jair Bolsonaro em 2020, volta agora com um novo formato e vai retomar a construção de residências subsidiadas pelo governo. O Durma com Essa resgata a trajetória dos mais recentes programas habitacionais do país, as críticas à primeira versão do Minha Casa Minha Vida e as mudanças na iniciativa.

Clique aqui para ouvir a íntegra no Nexo.

O que nos espera

A iniciativa das Nações Unidas mostra a gravidade das mudanças climáticas.

O projeto da ONU para disseminar sistemas de alerta do clima

Lucas Zacari, Nexo Jornal, 14 de fevereiro de 2023 (atualizado 14/2/2023 às 14h18)

Iniciativa quer que até 2027 todos os países consigam proteger população de eventos climáticos extremos com antecedência. Caribe foi primeira região a receber programa

A ONU (Organização das Nações Unidas) lançou em 6 de fevereiro em Barbados, pequeno país insular do Caribe, a Iniciativa de Alerta Prévio para Todos, um projeto que pretende criar sistemas de alerta precoce contra perigos climáticos em todo o mundo até 2027.

O Caribe é a segunda região mais propensa a desastres climáticos do planeta. Apesar disso, apenas 30% dos países filiados à Agência Caribenha de Gerenciamento de Emergências em Desastres possuem sistemas de alerta precoce contra desastres naturais.

Neste texto, o Nexo mostra os principais pontos da iniciativa mundial e como funcionam os alertas no Brasil. 

Clique aqui para ler a íntegra no Nexo Jornal.