segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Democratizar a comunicação

O jornalaico original foi uma experiência com este novo veículo de comunicação, o blog. Experiência de jornalista autônomo, curioso e interessado no novo.

Primeiro, vi que podia produzir o meu próprio jornal, sem custos, sem precisar gastar com impressão e distribuição, sem sequer pagar diagramador. Passado tanto tempo, é preciso refletir sobre isso e tirar consequências, porque o que era fantasia hoje é realidade e porque se isso é factível para um jornalista, ou um indivíduo qualquer, muito mais é para as empresas jornalísticas. O que são ou se tornaram na prática os blogs? O que aconteceu com o jornalismo nesse período? Como a internet e suas novas tecnologias podem democratizar a comunicação?

Não se pode negar o caráter democratizador da internet. No entanto, 2016 provou o que já estava se evidenciando pelo poder crescente do que ficou conhecido como Pig -- partido da imprensa golpista, a velha mídia controlada por alguns barões atuando de forma partidária, influenciando decisivamente a política, manipulando a opinião pública. O Pig continua poderoso, capaz de depor -- pelo golpe -- e eleger -- ainda que indiretamente -- presidentes.

Em oposição a isso, a construção de uma imprensa alternativa no Brasil é uma questão em aberto, que está praticamente no zero. Se ela não se formou durante os governos do PT, num ambiente progressista, quando podia receber publicidade governamental, o que dizer da situação atual? A imprensa alternativa, progressista, de esquerda ou simplesmente nova terá agora de contar com suas próprias forças. O governo golpista cortou a publicidade dos blogs e interveio na comunicação pública.

Neste sentido, a internet continua sendo uma vantagem, já que reduz os custos de produção, não exige concessão pública e permanece livre.

Neste assunto, como em outros, o benefício que o golpe trouxe foi deixar as coisas claras.

O programa democrático precisa prever regras constitucionais para uma comunicação democrática e independente.

Isto significa que a distribuição de recursos públicos para veículos de comunicação, seja pelos governos, pelos legislativos, pelos judiciários, por empresas públicas etc., precisa obedecer a regras claras, aprovadas pela população, visando à democratização do acesso e da expressão pelos diversos públicos, classes, segmentos e grupos sociais.

Da mesma forma, sua a aplicação deve ficar submetida à fiscalização pela população e à prestação de contas públicas.

Instituições com poder de orientar a política pública de comunicação devem funcionar permanentemente e realizar discussões periódicas. Seus integrantes devem ser escolhidos diretamente pela população, as discussões devem ser públicas e suas ações informadas a todos.

Enfim, o conceito de comunicação democrática deve ser incorporado aos conceitos de liberdade de expressão, de opinião e de imprensa. Deve ser bandeira da oposição democrática e proposta de governo para ser executada no próximo governo eleito diretamente.

Blogs e portais atuais são iniciativas independentes de jornalistas. Herdam parte do que resta de jornalismo no Brasil, pois são feitos por jornalistas, enquanto os velhos veículos controlados pelos barões da mídia atuam como partido político.

No entanto, outra parte do que resta de jornalismo no Brasil continua na velha imprensa. Por quê? Porque são essas empresas que ainda têm recursos para bancar a reportagem, que é a essência do jornalismo.

Vivemos assim diante de um dilema: quem produz reportagem deturpa a informação e quem faz jornalismo não tem recursos para produzir reportagens.

Há mais um problema: os veículos dos barões da mídia atingem toda a população, enquanto os veículos alternativos têm alcance restrito.

Jornalistas, esquerda, sociedade, instituições e todos que se preocupam com a boa informação, tradicionalmente produzida pelo jornalismo, não podem ficar nem vão ficar esperando um novo governo de esquerda para fazer jornalismo. A bandeira de uma comunicação democrática precisa portanto ser levantada paralelamente ao esforço de produção do jornalismo nas difíceis condições atuais.

É preciso praticar e construir uma comunicação democrática para transformá-la em instituição num governo democrático.

Como?
Comunicação democrática

Neste campo, como em outros, a esquerda democrática precisa combinar a construção de um programa a ser implantado num governo democrático com a própria prática da comunicação democrática, que não pode esperar por ele.

É preciso tornar popular e apoiado pela maioria da população um programa detalhado de democratização da comunicação. É preciso levar esse programa ao povo, de todas as formas possíveis e é preciso apresentá-lo nas eleições, se e quando houver.

Não é difícil definir esse programa, ele precisa combinar princípios e mecanismos de execução. Princípios: nenhuma rede de comunicação pode ter mais do que 30% da audiência, como acontece nos EUA; a comunicação precisa ser mista, isto é, privada, pública e estatal, sendo que o Estado deve bancar a comunicação pública; a publicidade pública deve ser difundida gratuitamente em todos os veículos igualmente etc. Mecanismos de execução: conselhos de comunicação eleitos diretamente com poder executivo; lei aprovada em referendo popular etc.

O programa deve se sustentar em exemplos concretos do que existe hoje e formular igualmente propostas concretas de mudanças. Por exemplo: quantas pessoas sabem e principalmente quantas já pararam para pensar que a Globo tem 26 canais só de TV por assinatura, fora os pay-per-view? A proposta é reduzir esse número para diversificar o controle e a produção de conteúdos.

Produção alternativa

Quando comecei este jornalaico, a internet e as novas tecnologias possibilitavam que eu tivesse meu próprio jornal, que poderia ser acessado por todos um em qualquer parte do mundo, com fotos e vídeos que eu mesmo produzisse em câmaras digitais. Tudo isso sem custo, a não ser o de um provedor de internet. O celular tornou tudo ainda mais fácil. As redes sociais se tornaram um novo espaço, multiplicador da difusão de conteúdos.

Quais as limitações disso? 

A primeira e mais importante, que define a imprensa alternativa, é que blogueiros não têm dinheiro para montar uma redação, com repórteres, para cobrir os fatos, as instituições e produzir informações exclusivas. A consequência disso é que os blogueiros se tornaram mais editores do repórteres. Produzem análises, reproduzem notícias, fazem comentários e vez por outra produzem uma reportagem exclusiva. O lado bom é que fazem um contraponto ao Pig, o lado ruim é que dependem das notícias que continuam sendo produzidas pelo Pig.

Em vez aumentar a produção de notícias, a internet reduziu-a, na medida em que as redações em geral encolhem, com a decadência dos veículos impressos e com fraqueza dos veículos digitais.

As próprias empresas jornalísticas não encontraram até hoje uma fórmula de sucesso que substitua a velha mídia como veículos da publicidade -- e portanto de renda -- que jornais, revistas e televisões detinham antes do surgimento da internet. A publicidade é pulverizada e beneficia não empresas jornalísticas, mas Google, Facebook e Youtube. A produção paga reduz o número de leitores, que preferem ler as notícias gratuitas e as reproduzidas.

Manter uma redação é caro e as receitas de assinatura e publicidade não são suficientes para bancá-la.

Para construir uma imprensa democrática, não basta publicar artigos e comentar as notícias da velha imprensa, é preciso produzir uma estrutura de produção própria de notícias, com cobertura dos órgãos governamentais e todas as editorias que interessam os leitores.

Um caminho, que eu já apontei há algum tempo, é firmar parcerias com instituições, pessoas e até governos que veiculam publicidade e que têm interesse na democratização da comunicação. Uma parceria política, portanto, que valem do simples valor do anúncio.

Do ponto de vista dos anunciantes, esta parceria poderia contemplar tanto a publicidade tradicional como a publicidade institucional. Governos, pessoas, empresas, instituições diversas poderiam divulgar suas realizações etc. e poderiam se afirmar como defensores da comunicação democrática, divulgando peças nas quais informam que anunciam no veículo porque querem a democratização da imprensa.

Esse caminho pode se combinar com outras soluções vistas em blogs diversos: assinantes para acesso livre a todos os conteúdos e restrição aos demais; financiamento coletivo de projetos; anúncios de sindicatos; anúncios de governos de esquerda; anúncios tradicionais de empresas diversificadas.

Por fim, é preciso formar uma rede de comunicação democrática, pela qual blogs, portais etc. colaborem entre si, trocando informações e conteúdos, multiplicando a difusão da informação produzida por cada veículo.

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