domingo, 15 de março de 2026

O tempo e as mortes

A primeira morte que me perturbou e consternou profundamente foi a da minha professora do segundo ano primário, dona Maria José. Eu tinha nove anos, ela tinha sido minha professora no ano anterior, uma professora competente e carinhosa, como posso constatar ainda hoje na caderneta escolar, que conservei, a mais querida das minhas professoras. Morreu jovem, no parto de uma filha, o que provocou o comentário da minha mãe, que tinha aproximadamente a mesma idade e a mesma profissão que ela, que era inadmissível naquela altura do século XX ainda morrerem mulheres no parto no Brasil. Minha turma saiu da aula, de manhã, e fomos todos à sua casa, numa rua paralela à rua do grupo escolar, bem perto. Era o simbólico ano de 1964, em que também o Brasil morreu mais uma vez. No ano anterior, aconteceu outra morte memorável, mas esta foi um acontecimento de alcance geral, acompanhado com imagens e notícias durante muitos e muitos dias no mundo inteiro, um “fato histórico”: o assassinato do presidente americano John Kennedy. Ele tinha a mesma idade do meu pai, que fazia exames para diagnosticar dores no peito e me lembro da minha mãe telefonando para o médico e pedindo que, se tivesse notícia ruim, falasse primeiro com ela, pois meu pai estava muito impressionado. Com imaginação fértil e raciocínio prático, eu pensei que, se meu pai morresse, eu ajudaria a sustentar a casa desenhando histórias em quadrinhos e minha irmã mais velha, que era boa aluna, poderia escrevê-las. (Seria uma manifestação dissimulada do Complexo de Édipo?) A morte rondou aqueles dias, lembro também de visitar com mamãe uma colega de trabalho dela que sofria de câncer e morreria logo, lembro do seu quarto confortável e bem iluminado numa casa elegante. Meu pai viveria mais quarenta anos, com saúde para dar e vender, morreria em idade provecta. A segunda morte de um conhecido que me impressionou foi quando eu tinha onze anos, no breve curso de “admissão ao ginásio”, de um colega de aula, um menino forte, bronco e atirado. Ele morreu afogado, num domingo, e na segunda fomos visitar sua família. Foi a primeira vez que fui a uma favela, lembro da dificuldade de chegar ao endereço, subindo vielas escuras, assim como o casebre miserável em que tinha morado, e de encontrar seus pais, abatidos e surpresos com nossa presença. A morte seguinte da qual me lembro foi a primeira de alguém com quem convivia, um parente, o meu avô paterno, o único que conheci. Ele tinha mais de oitenta anos, há controvérsias sobre o ano em que nasceu, mas oficialmente teria 82 anos incompletos. Há uma curiosa coincidência entre meus dois avôs: ambos nasceram no mesmo dia do mesmo ano: 20 de agosto de 1886, mas meu avô materno morreu novo, aos 60 anos, e não o conheci. Meu avô paterno, vovô Dimas, era um homem austero, rigoroso, bravo, diligente e bom, que ajudava minha mãe a cuidar dos filhos, nas faltas das empregadas, e passávamos muitas horas e dias com ele, acompanhando-o nas suas atividades domésticas e voltas pelo bairro. Sua morte foi cercada de circunstâncias especiais, pois no mesmo dia eu estava internado num hospital para tratamento de uma crise de asma, a mais forte que tive, e vendo as visitas chorosas, pensava que era por minha causa, me comovia e achava desnecessário, pois estava me recuperando e me sentia bem. Quando voltei para casa, minha mãe me deu a notícia com cuidados novelescos, fechados a sós no meu quarto; me diverti com a cena e me esforcei para desempenhar meu papel, mas não sofri o impacto, pois, por algum motivo, eu já sabia o que ela ia me contar e considerava natural que meu avô morresse – ele era velhinho e iria para o céu, estava tudo dentro da ordem. O que era a morte para mim, nessa época infantil? Não era uma coisa terrível, embora fosse triste, lamentável, dolorosa. Horrível era morrer em pecado e ser condenado ao fogo eterno dos infernos, mas morrer não, porque existia Deus e as pessoas boas iam viver em Sua companhia, os sobreviventes podiam se consolar com isso. A morte precoce e inesperada nos fazia sofrer, mas nos conformávamos aceitando os desígnios divinos, incompreensíveis, mas sábios. Nenhuma morte de alguém com quem eu convivia iria me abalar nos anos seguintes, até que eu entrasse na universidade. Nessa época, quando eu tinha já meus vinte anos, muitas coisas tinham acontecido e mudado minha consciência, eu mesmo tinha sido vítima de uma desgraça absurda, que poderia ter me matado talvez, não matou, mas me custou uma vista e me deixou em estado de choque diante das mortes ao meu redor. A desgraça confirmou o que eu tinha descoberto: a morte absurda como fim da vida absurda, a gratuidade da vida, a inexistência de Deus, a ideologia humana que tinham me ensinado e me fazia funcionar, mas eu perdera e não funcionava mais no modo automático. Passaria então a me angustiar com a minha própria morte, com o fim da minha consciência, com a minha saída de cena do teatro da vida, desejando adiá-la permanentemente, pois nunca estava pronto, e sentindo, junto com a dor e a revolta de uma morte precoce e injusta e a impotência para impedir a morte de uma pessoa querida, o alívio inconfessável de que não tinha sido eu ainda, que continuava vivo, que tinha escapado, que podia continuar vivendo e tentando esquecer que também eu morreria um dia, pois a vida é isso, esse tempo, longo ou curto, se contado em anos, mas sempre breve para a consciência do indivíduo que passa os dias na Terra acompanhando o teatro humano e tentando desempenhar o papel que lhe cabe. 

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