sábado, 18 de abril de 2026

De Maquiavel para Lula

foto-maquiavel

Quem sou eu para dar conselhos ao maior político brasileiro do nosso tempo, mas o gênio fundador da Ciência Política merece ser ouvido, por seu conhecimento amplo e universal, ainda que não abarque os seis últimos séculos da História, que transformaram a trajetória do Homo sapiens da Renascença na barbárie quase consumada. Lula tinha fama de não ler, ganhou fama de devorador de livros na prisão, segundo seu biógrafo autorizado, não se sabe se leu o Florentino, mas um dos seus inúmeros acólitos poderia ler ou reler para ele. O texto abaixo é o 26º e último capítulo do livro O Príncipe, obra máxima de Nicolau Maquiavel; a tradução é de Mário e Celestino da Silva, no volume 248 das Edições do Senado Federal

Exortação a libertar a Itália dos bárbaros 

DEPOIS DE HAVER REFLETIDO em tudo o que se disse nos anteriores capítulos; após ter perguntado a mim mesmo se os tempos atuais da Itália são de molde a permitir que um novo príncipe adquira nela celebridade e se homem sábio e virtuoso poderá encontrar aqui matéria suscetível de tomar nova forma que constitua motivo de glória para ele e um benefício para a totalidade dos italianos, conclui que talvez nunca tenha existido outra época tão propícia a vinda de um novo príncipe como a de hoje. Se, conforme eu disse, para se conhecer a virtude de Moisés, a grandeza de ânimo de Ciro e a excelência de Teseu era necessário, respectivamente, que o povo de Israel fosse escravo no Egito, que os persas estivessem oprimidos pelos medas e que entre os atenienses lavrasse a desunião, assim, no presente, para se conhecer o valor [virtú] de um espírito italiano era preciso que a Itália descesse ao extremo de hoje, que fosse mais escrava do que os hebreus, mais oprimida que os persas, mais desunida que os atenienses, sem chefe, sem ordem, vencida, despojada, dilacerada, invadida, e que tivesse vencida, e que tivesse suportado toda a espécie de vexames. 

Embora um ou outro de seus homens haja revelado indícios de gênio, deixando supor que Deus o destinará à missão de o redimir, viu-se depois que no ponto culminante das suas ações sofreu o repúdio da fortuna. Destarte, tendo ficado como que sem vida, ela espera quem venha curar-lhe as feridas e pôr um paradeiro à pilhagem dos lombardos, às espoliações e tributos do reino de Nápoles e da Toscana e a sare de todas as chagas já de muito gangrenadas. Veja-se como roga ao Senhor que lhe mande alguém capaz de a salvar dessas crueldades e insolências bárbaras; como está ainda inteiramente pronta a seguir uma bandeira, desde que alguém a desfralde! E a quem poderia ela no momento presente confiar melhor a realização das suas esperanças, do que a vossa ilustre Casa, com os seus méritos [virtù] e fortuna, com as graças de Deus e da Igreja, a qual deu um príncipe [o papa Leão X, da casa dos Médicis]? Quem, mais do que ela, indicado para se colocar à frente dessa obra de redenção? Isso não será difícil se os lembrardes da vida e das ações dos príncipes que mencionei. Posto esses homens fossem extraordinários, nem por isso deixaram de ser homens, e nenhum deles teve oportunidades tão boas como a que agora se apresenta, pois, as suas empresas não foram mais justas nem mais fáceis do que
esta, nem Deus foi para eles mais benevolente do que o é para convosco. De grande justiça reveste-se o caso atual: justum enim est bellum quibus necessarium, et pia arma ubi nulla nisi in armis spes est. [É sempre justa a guerra quando necessária, e piedosas as armas quando não há esperança a não ser nas armas.] Favorabilíssimo é o ânimo existente, e quando esse existe e se inspira nos exemplos que para isso vos propus, não pode haver grandes dificuldades. Outrossim, veem-se, no caso, ocorrer fatos extraordinários, sem precedentes, filhos da vontade de Deus: as águas do mar separaram-se, uma nuvem indicou o caminho, da pedra jorrou água, choveu maná; e tudo concorre para a vossa grandeza. O resto pertence a vós fazê-lo. O Todo-Poderoso não quer fazer tudo para não nos tirar o livre-arbítrio e a parte de glória que nos cabe. 

Não vos admirei que nenhum dos italianos por mim referidos tenha sido capaz de fazer o que da vossa ilustre Casa se pode esperar, nem que, depois de tantas revoluções e de tantos manejos bélicos, pareça ter-se extinguido na Itália a virtude militar. A razão deste fato está em que as antigas instituições [militares] do país não eram boas e ninguém soube fundar novas. Nada contribui tanto para a glória de
um homem que surja no horizonte quanto as novas leis e instituições que ele venha a criar. Quando elas são grandiosas e sólidas, tornam-no digno do mais alto respeito e admiração. Ora, não falta na Itália
matéria adaptável às mais variadas formas que um artífice lhe queira dar. A virtude que escassear nos chefes, supri-la-ão os subalternos. Observai os duelos e as lutas de grupos, e vereis até que ponto chega a força, a destreza e o talento dos italianos. E, todavia, quando a luta é de exércitos, esses dotes desaparecem. Tudo isso tem por causa a fraqueza dos chefes: os capazes não se sujeitam a obedecer; todos se julgam capazes, e até hoje nenhum houve cujo valor [virtù] e fortuna fossem bastantes para compelir os demais a dobrarem a cerviz. Daí provém que de tão longo decurso de tempo, em tantas guerras feitas nos últimos vinte anos, todas as vezes que o exército se compunha inteiramente de italianos, só fracassos se tenham verificado. Disso dão testemunho, primeiro, o Taro, e depois Alexandria, Cápua, Gênova, Vailate, Bolonha e Mestre. 

Se vossa ilustre Casa quiser, portanto, seguir o exemplo dos homens insignes que redimiram as suas províncias, cumpre-lhe antes de mais nada ter, como verdadeiro alicerce de qualquer empresa, exércitos seus; porque não se encontram soldados mais fiéis, mais sinceros e eficientes do que os italianos. E se individualmente são bons, melhores ainda serão quando, todos juntos se virem comandados, distinguidos e sustentados pelo seu príncipe. É necessário, por conseguinte, apresentar essas armas para poder, com valor [virtù] italiano, defender-se dos estrangeiros. Posto que as infantarias suíça e espanhola tenham fama de temíveis, ambas possuem falhas, motivo pelo qual uma terceira espécie de tropas poderia, não apenas resistir-lhes, mas também vencê-las. Com efeito, os espanhóis fraquejam diante da cavalaria e os suíços têm medo dos infantes quando estes os acometem com ímpeto igual ao seu. Daí se origina o fato, que a experiência já demonstrou e ainda demonstrará, de não poderem os espanhóis arrostar a cavalaria francesa e de serem os suíços esmagados pela infantaria espanhola. É verdade que deste último caso não houve até agora prova cabal. Contudo, tivemos um parcial na batalha de Ravena, quando a infantaria espanhola lutou com as tropas alemãs, que empregam um método de combate igual ao das suíças. Os espanhóis, valendo-se da sua agilidade e dos seus broquéis, insinuaram-se por entre os piques dos alemães e atacaram-nos livremente, sem que os seus adversários pudessem defender-se; e tê-los-iam matado todos se a cavalaria não houvesse investido contra eles. Conhecidas, pois, as falhas de uma e de outra dessas infantarias, pode-se organizar uma de novo tipo, apta a resistir à cavalaria e não receosa dos infantes. Bastará para tanto criar novas espécies de armas e novas maneiras de combater. É isto que dá prestígio e grandeza a um príncipe novo. 

É, portanto, essencial aproveitar esta ocasião, para que a Itália veja, após tanto tempo, aparecer o seu redentor. Nem sei exprimir com quanto amor, com quanta sede de vingança e fé obstinada, com quanta ternura e quantas lágrimas ele seria acolhido em todas as províncias que tanto padeceram com aquelas inundações estrangeiras. Que portas se fechariam diante dele? Que povos lhe recusariam obediência? Que inveja ousaria opor-se-lhe? Qual o italiano capaz de negar a sua homenagem? A todos repugna este bárbaro domínio. Abrace, pois, a vossa ilustre Casa esta causa, com aquele espírito e aquela esperança com que se abraçam as empresas justas, para que debaixo das suas insígnias se nobilite esta pátria e sob os seus auspícios se cumpra o dito de Petrarca: 

Virtú contro furore
Prendera l’arme; e fia il combatter corto,
Chè l’ antico valore
Negl’italici cuor non è ancor morto.
 

[A virtude empunhará as armas contra a fúria; e a luta será breve, porque o antigo valor ainda não se extinguiu nos corações italianos. Petrarca, Cancioneiro, parte I, CXXVIII (canção XVI), versos 93 a 96.]

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