quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Música do dia (2): Chega de saudade (João Gilberto)
Em memória do Paulo
Hoje seria aniversário do meu mais antigo amigo. Em sua homenagem, republico o que publiquei na data do seu falecimento, há pouco mais de seis meses.
Em memória do Paulo Gualberto Murta (30/9/1953 - 25/3/2026).
Olhei para os dois lados da Avenida Antônio Carlos, não vi nenhum carro e atravessei correndo. Súbito, ouvi um grito e senti um baque que me estirou no asfalto. Só então vi a bicicleta. Tinha sido atropelado e o ciclista assustado perguntava se eu estava machucado. Respondi que não, olhando as mãos, os joelhos e cotovelos esfolados. Apressei-me a levantar, limpei a camisa branca, apanhei minha pasta de couro preta e retomei o caminho, correndo novamente. Estava atrasado para a aula: tinha consumido os primeiros minutos da manhã terminando o para casa e agora precisava encontrar o portão aberto ou todo meu esforço teria sido em vão.
O grupo escolar era um lugar penoso. Para ir à “casinha”, como se chamava o banheiro, precisava de permissão da professora, quando tinha coragem de pedir. Era uma situação traumática: no jardim de infância, uma vez, não consegui controlar, me sujei e permaneci sentado até que chegassem para me buscar, no começo da noite. O jardim, um conjunto de salinhas interligadas no segundo andar de um sobrado, com piso de taco e paredes cheias de cartazes e desenhos, me dava tristeza. A tarde passava devagar enquanto eu e outros meninos e meninas que nunca se tornaram meus amigos permanecíamos sentados em volta de mesinhas com quatro cadeirinhas cada uma, aprendíamos a escrever nosso nome, ouvíamos histórias tenebrosas de lobos maus e bruxas cruéis e brincávamos de toquinhos e massinhas. Só uma vez me alegrei, com um acontecimento extraordinário: descemos à avenida para saudar a bela Staël Abelha, mineira eleita Miss Brasil, desfilando em carro aberto. No grupo, também ficávamos sentados, mas era em carteiras enfileiradas. A sala de aula era uma prisão, eu ficava sentado na carteira, não podia levantar, não podia conversar, não podia sair. Tinha que permanecer em silêncio, prestar atenção na professora, copiar no caderno o que ela escrevia com giz branco no quadro verde. Como curumins ingênuos, a gente se divertia com as novidades, sem saber que estava sendo treinada pela ideologia do sistema para assimilar sua visão do mundo e obedecer suas leis. Algum gaiato soltava um comentário ou fazia alguma coisa engraçada e arrancava gargalhadas e olhares cúmplices na rebeldia à disciplina que a professora tentava impor. Colegas puxavam conversa, as meninas bonitas atraíam minha atenção, a luz do sol e os ruídos externos me distraíam. Eu olhava para as janelas laterais e minha mente voava, pensando nas brincadeiras que me aguardavam em casa, mas devia corresponder à expectativa da professora e ser bom aluno, para ser recompensado com carinho e admiração. Sem fazer esforço, era aprovado ano após ano com média final máxima. O segundo ano foi especial. Dona Maria Luísa era carinhosa e me incentivava com anotações na caderneta, ao lado das notas das provas bimestrais. No final do ano, escreveu palavras exclamativas: Promovido com 10! 1º lugar! Parabéns! Ela estava grávida e no começo do ano seguinte saiu de licença. Uma manhã recebemos a notícia fúnebre: minha professora querida tinha morrido ao dar à luz. Minha turma visitar sua casa, na Rua Turvo, a dois quarteirões do grupo. Minha mãe, que acabara de ganhar minha irmã caçula, comentou, consternada, que era inadmissível em pleno século XX ainda se morrer de parto no Brasil. No terceiro ano, eu fazia desenhos para ilustrar meus trabalhos e os de colegas e vizinhos que vinham pedir minha ajuda. Dona Marlene, que falava alto e tinha sotaque nortista, se entusiasmava com as minhas composições na séria intitulada “Se eu fosse…” e não se cansava de elogiar minha imaginação para os meus pais. Foi perturbador perder o posto de melhor aluno no quarto e último ano do grupo. Conceituada e temida, Dona Dagmar inspecionava nossos cadernos, um por um, na fila, antes de entrarmos em sala, e aquele ritual me apavorava. Ela desconsiderava meu passado escolar e o fato de ser filho de uma colega e, quando eu levava um bilhete que justificava com a asma um dever de casa não feito, perguntava para a classe: “Tem mais algum doentinho que não fez o para-casa?” Querendo me proteger da megera, minha mãe tentou me trocar de turma, mas não teve sucesso e o episódio selou minha queda. Eu me sentia culpado, pois era relapso. Mal saía da escola, aliviado pelo fim de mais um suplício, abraçava meu amigo e xará, moreninho, tímido e gentil, que morava num bairro distante e sempre tinha dinheiro no bolso, e íamos os dois comprar picolés de groselha na sorveteria da esquina. Eu sabia que aquele gelado proibido e irresistível poderia resultar numa crise de asma, assim como passar a tarde jogando bola na poeira, mas fazia assim mesmo, e adiava o dever de casa para a noite. À noite, distraído pela televisão e vencido pelo cansaço, calculava que poderia cumprir a obrigação no dia seguinte, antes de ir para a aula, se acordasse bem cedinho… Ao acordar, porém o que tinha parecido uma boa solução mostrava-se inexequível diante do sono matinal, e eu preferia dormir mais um pouquinho: levantava em cima da hora, vestia o uniforme correndo, arrumava a pasta, engolia o café com leite e saía mastigando o pão com manteiga, esforçando-me para chegar a tempo, rezando para não ter fila de revista e escapar das chamadas da dona Dagmar.
Naquela manhã, depois de ser atropelado pela bicicleta, encontrei o portão do grupo ainda aberto e me acalmei ao alcançar a sala de aula, pois estava preparado: o para casa tinha sido fácil, uma composição sobre o tema “Meu melhor amigo”. Sem titubear, escrevi sobre José, com quem brincava desde que me lembrava, depois que Gérson foi embora para sempre. Nomeei-o, narrei nossas brincadeiras, proclamei os sentimentos que nos uniam e concluí: “Por tudo isso, José é o meu melhor amigo”. Quando dona Dagmar me chamou, levantei-me e li com segurança minha redação, voltei a sentar satisfeito e esperei pelas outras leituras. A menina que leu depois de mim teceu loas ao seu melhor amigo e fez suspense sobre seu nome. Estranhei que seu melhor amigo fosse homem e não mulher, e compreendi no final, quando ela revelou que falava do seu pai, mas achei aquilo falso e piegas. Outros colegas leram suas composições em seguida e todos falaram do pai. A cada nova leitura eu me encolhia na carteira, envergonhado por também não ter falado do meu pai: no domingo seguinte comemorava-se o Dia dos Pais e com certeza, apesar do título, a instrução da dona Dagmar era homenagear nossos pais, mas eu comi mosca e dera um vexame. Na votação feita pela turma, a minha composição ficou em último lugar; todos deviam pensar que eu não gostava do meu pai. Para mim, no entanto, pai era pai e amigo era amigo.
*Capítulo do livro Ainda me Lembro (17).
Mais de um milhão de visualizações
Há alguns dias, este jornalaico superou um milhão de visualizações de página. Não é nada nas redes sociais de hoje, mas é interessante.
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segunda-feira, 28 de setembro de 2026
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domingo, 20 de setembro de 2026
Música do dia seguinte: Something (George Harrison, The Beatles)
Alguma coisa no jeito como ela se move me atrai como nenhuma outra mulher, alguma coisa no jeito como ela me seduz...
É um belo clipe. Como quase todas as canções dos Beatles, tem histórias. Todos os quatro foram filmados com suas mulheres, cada um num lugar: eles já tinham se separado então. E as mulheres são muito diferentes, embora a grande diferença seja entre Yoko e as outras. E é ela a mulher mais importante, embora Linda tenha seu lugar de destaque ao entrar na nova banda do Paul, o que Yoko fez também, mas Yoko teve uma influência criativa decisiva sobre John, o que não sei se Linda teve sobre Paul. Maureen foi a mulher do Ringo durante todo o período dos Beatles, mas a personagem principal da música é Pattie Boyd, a mulher do George e musa inspiradora da canção. Dizem que John considerava Something a música mais bonita do álbum que é a obra-prima da banda. E o Paul também fez grandes elogios. É uma gravação primorosa, uma música que não se cansa de ouvir e os primeiros versos e outros são daqueles que lembram imediatamente a mulher amada.
sábado, 19 de setembro de 2026
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Música do dia: Gente, Caetano Veloso
Ontem vivi uma experiência e tanto. Deveria ser normal e aqui é normal, mas eu não sabia, descobrir isso melhorou minha opinião sobre a espécie humana e minha esperança no futuro. Perdi meu cartão de banco (não é de aproximação) em Milho Verde, ele foi encontrado e entregue em um restaurante, a funcionária divulgou em rede social, um morador de MV que eu conheci ontem contatou o motorista do ônibus para São Gonçalo para que esperasse, a funcionária levou o cartão para ele e ele o trouxe para mim, deixou-o na padaria, onde o peguei no começo da noite. Pelo menos cinco pessoas boas e sem nenhum interesse colaboraram para fazer o bem a um desconhecido e muitas outras procuraram ajudar também. Se aqui é assim, por que o mundo não pode ser? Pode, eu sempre acreditei nisso, a vida inteira ouvi o sistema dizendo para não acreditar, e hoje mais do que nunca, e esse fato que aconteceu comigo, não me contaram, confirma que tenho razão. É o que eu faria, é o que outros fazem, muitos, a maioria certamente, quase todos talvez, aqui é normal, já foi assim em outras partes, era assim no bairro em que cresci na cidade grande. É o capitalismo que corrompe as relações humanas quando transforma tudo em mercadoria e o lucro no objetivo da vida. Gente não é mercadoria, afetos não são mercadorias e a vida não é para enriquecer, é para viver. A gente vive bem quando faz o bem aos outros e recebe em troca. "And in the end the love you take is equal to the love you make."
Sou o oposto zodiacal exato do Caetano e tenho ideias diferentes. Me interessa a gente anônima, a que brilha na intimidade, nas relações com outras gentes anônimas. Morrer de fome como oposição a brilhar não é uma ideia que me agrada, mas gosto das outras imagens, especialmente de gente lavado roupa e amassando pão. Sobre isso "Um índio" é melhor, mas Gente é um retrato amoroso da espécie.
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Música do dia: Golden slumbers, Carry that weight, The End (The Beatles)
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Um telejornal matutino imprescindível
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Música do dia: O dia em que o morro descer e não for carnaval
Há alguns anos escrevi uns versinhos que têm ideia semelhante:
no dia que o morro descer
não vai ter
casa-grande nem casamata
pra canalha se esconder.
A letra do Paulo César Pinheiro, porém é muito mais elaborada e acrescenta uma ideia genial: "e não for carnaval". Estou desenvolvendo um ideia sobre o soviete brasileiro: o samba. O sambista é o brasileiro, o malandro é o brasileiro, o trabalhador obviamente é o colonizado com mentalidade europeia. A chamada esquerda, que na verdade é direita hoje, a chamada "direita democrática", porque só não vê que Lula e o PT são de direita quem é cego, cegueira que tomou conta dos brasileiros gradativamente nas últimas cinco décadas, no Brasil a disputa é entre extrema direita e direita, nem centro existe mais. A chamada esquerda, que na verdade é direita, é colonizada, tem a mentalidade dos colonizadores europeus, acredita no trabalho e serve ao capital. Brasileiro é o indígena, brasileiro é descendente do africano, o malandro, sambista, favelado, brasileiro é Macunaíma. Tem mais de cem anos que a gente sabe disso, mas a mentalidade colonial é dominante. E vai fazer cem anos que o Brasil começou a ser inventado como nação, mas há cinquenta começou a ser desinventado. Por quem? Pela "esquerda democrática", que não é esquerda nem democrática, é a direita burguesa que capitulou ao neoliberalismo e transformou o Brasil na terra dos irmãos Batistas. Quem quiser conhecer, ouça O berro do boi, uma série de programas excelente da jornalista Consuelo Dieguez, da revista piauí do banco Itaú e da Trovão Mídia, que não sei de quem é. Voltando à música do dia, a questão é que a esquerda não entendeu que o samba é o soviete brasileiro e agora o povo brasileiro está trocando o samba pela música gospel, a igreja católica pelas evangélicas e a esquerda que é direita pela extrema direita. Nosso futuro é cada vez mais tenebroso, o melhor Brasil ficou para trás e foi entre os anos 1930 e 1968. Só uma revolução dos malandros, indígenas e macunaímas pode mudar isso, mas é mais fácil imaginar uma revolução (ou será contrarrevolução?) dos evangélicos.