Do alto do palanque improvisado na estância hidromineral, o
presidente da República discursava para a pequena multidão que se
aglomerou em torno, na tarde daquela sexta-feira. Em certo momento,
vociferou contra seus opositores políticos, ameaçando-os com
palavras duras. Eu prestei atenção nelas e anotei-as com minha
caneta bic no maço de laudas do jornal que carregava. Após cinco
anos trabalhando na sucursal belo-horizontina do melhor jornal do
Brasil, batizado na cobertura do Plano Cruzado, já experiente em
todo tipo de matéria e aprovado com louvor na intensa e trepidante
campanha para a eleição presidencial de 1989, a primeira depois de
mais de duas décadas de ditadura militar, eu tinha ouvidos bem
treinados para notícias e sabia muito bem distinguir o que era
importante do que não era. Olhei meus colegas dos três jornais
concorrentes, os quais cumprimentara gentilmente, mas sem intimidade
nem cumplicidade, e me mantive à distância, pois eles eram de
Brasília, repórteres acostumados a cobrir o presidente diariamente,
amigos entre si, e eu só os conhecia pelos nomes impressos nas
matérias assinadas. Na minha soberba característica, não me sentia
inferior a eles, ao contrário, pois tinha uma trajetória
bem-sucedida e relações de respeito mútuo com colegas e chefes, de
forma que me sentia seguro no meu trabalho. Exatamente um ano antes,
tinha publicado minha única manchete no jornal, cobrindo uma
inspeção do ministro da Saúde em hospitais públicos da capital
mineira; atento, anotei o diálogo do ministro com o diretor da
unidade e o transmiti por telefone diretamente ao editor no Rio, que
o reproduziu literalmente com destaque. A matéria, mostrando como os
pontos dos médicos ausentes tinham sido cortados pessoalmente pela
maior autoridade em Saúde do país, repercutiu, meus colegas não
tinham sido tão detalhistas nos seus relatos, e recebi elogios.
Fiquei satisfeito, mas não me gabei, eu sabia que jornalismo é uma
empreitada diária, a manchete de hoje já está velha, o repórter
tem que matar um leão todos os dias, como se diz.
De forma diferente, isso se repetiu naquele fim de semana fatídico
em que cobri o presidente da República em Araxá. No momento em que,
à parte, olhava meus três colegas de Brasília, percebi que eles
“trocavam figurinhas”, expressão que a gente usava para se
referir às impressões de cada um sobre o que todos tinham presenciado, o que considerava importante, o que era novo e o que não
era e como pretendia escrever seu lide. Para nós, do JB, essa
prática não era importante. Não que não fizéssemos isso, mas
estávamos acostumados a confiar no nosso taco e não temer levar
furo, pois éramos quase sempre nós que dávamos o furo, uma vez que
nos sentíamos seguros para fazer avaliações próprias, cavar
fontes, buscar informações exclusivas. Não havia na sucursal
aquela paranoia que tinham os colegas do principal jornal
concorrente, instruídos a colar em nós, os do JB, para não serem
furados. O sentimento que me tomava era muito diferente: um profundo
desprezo por aquele presidente ególatra, falaz, sequestrador da poupança dos brasileiros
e superficial como um pires. E bravateiro. Seu discurso agressivo não
passava de bazófia, ele procurava animar seus admiradores, bastante desanimados e reduzidos, depois do plano econômico
aterrador que implantara um ano antes e já fracassara. Ele dissera
que só tinha uma bala para matar a fera da inflação – e errara o
tiro. Continuava, porém insistindo no seu estilo de se apresentar
como uma espécie de estrela de Hollywood, criando fatos, dando
declarações bombásticas, produzindo imagens que os jornais e
revistas estampavam e as televisões exibiam, explorando seu
dinamismo, jovialidade e coragem, como, por exemplo, ao pilotar um
avião supersônico. Ali mesmo, tinha se exibido numa corrida matinal
por um parque, em trajes esportes, seguido por uma multidão de
repórteres e abordado por eleitores fanáticos. Seu governo, a
primeira experiência de um presidente eleito pelo voto direto, era
assim, uma espécie de espetáculo diário estrelado pelo presidente,
e os jornalistas estavam sempre correndo atrás dele, fotógrafos e
cinegrafistas, para registrar a melhor imagem, repórteres para
produzir manchetes. Nesse show, a imprensa se transformava numa
espécie de máquina de propaganda do governo cujo funcionamento eu
tinha oportunidade de acompanhar de perto naquele fim de semana. A
docilidade dos meus coleguinhas chamara minha atenção, em especial
a intimidade da repórter do principal concorrente com o presidente:
ele a chamava pelo nome, lhe sorria, confidenciava palavras no
ouvido. No dia seguinte, essa camaradagem ficaria descarada, quando
um emissário do presidente a procurou entre nós, disse que ele
queria falar com ela e ela o acompanhou à suíte presidencial; eu
nunca soube o que conversaram, mas achei aquilo também desprezível.
O fato é que, enquanto observava meus coleguinhas de Brasília –
a repórter predileta do presidente e os repórteres dos outros dois
jornais de circulação nacional – conversarem naquele fim de
tarde, depois do discurso presidencial, eu tomei uma decisão: não
mandaria uma nova matéria. Aquele ataque não passava de retórica,
seu objetivo, além de animar a plateia, era produzir manchetes na
imprensa e criar um fato político. Nós, jornalistas, estávamos
sendo usados pelo presidente, que queria se promover e enviar um
recado à oposição. Eu não me prestaria a esse papel.
Se eu fosse um sujeito importante, se o episódio tivesse tido
relevância, o título do alto seria: “A verdade sobre a cobertura
do presidente em Araxá”, mas o episódio não teve importância na
política brasileira, muito menos eu fui um repórter de destaque. A
única importância que o fato teve foi para a minha vida
profissional e a minha vida pessoal, porque, percebo agora, as duas
sempre andaram juntas, nos momentos decisivos. Eu nunca soube
distingui-las, sempre tomei decisões subjetivas em relação à
minha profissão.
Naquela tarde em Araxá, eu tomei minha equivocada decisão com
soberba tranquilidade. Como disse, nós, repórteres da sucursal do
JB em BH, sempre gozamos de uma exemplar segurança, proporcionada
pela excelência do nosso trabalho, e eu, pessoalmente, nunca tinha
sofrido sequer uma admoestação por levar um furo. Eu sabia – e
não me enganei – que aquelas palavras bombásticas pronunciadas
pelo presidente no palanque estariam
esquecidas no dia seguinte, sequer teriam consequência, caso a
imprensa não as reproduzisse, atuando como máquina de propaganda do
governo. Se o editor me questionasse, eu as tinha anotado para o
jornal publicar, mas não o faria por minha conta. Obviamente,
essa decisão era equivocada, porque, fosse como fosse, eu não tinha
direito de privar os leitores do JB daquela demagogia presidencial.
Pelo menos não deveria fazer isso sozinho, no mínimo tinha
obrigação de telefonar para meu subchefe e lhe narrar o que tinha
ouvido, transferir para ele a responsabilidade de publicar ou não
aquele destempero. Se eu estivesse preocupado com meu emprego, era o
que deveria, prudentemente, fazer. Mas não fiz. Já tinha mandado uma matéria com bastidores da viagem presidencial, cheia de fontes, exclusiva, saborosa, como se dizia, tão
boa que no dia seguinte mereceu elogios eloquentes do editor regional,
e decidi não enviar outra; sequer liguei para a redação, assumi a
responsabilidade sozinho.
Ajuda a explicar minha atitude temerária o fato de que, naqueles
dias, a sucursal andava tumultuada, nossa equipe estava insatisfeita
e eu mesmo queria sair do jornal, embora não tivesse coragem para
pedir demissão. O ambiente no JB mudara radicalmente depois da
eleição do presidente. A cobertura da eleição presidencial de
1989 foi o canto do cisne de um jornal que era então o melhor do
país e deu um banho nos concorrentes naquela campanha histórica. A
equipe foi reforçada, especialmente a sucursal de Belo Horizonte,
pois os candidatos privilegiavam Minas Gerais, considerado estado
decisivo, como realmente foi naquela e em todas as eleições
presidenciais desde então. Minas é uma espécie de síntese do
Brasil e o candidato que vence no estado vence também no país,
geralmente com percentuais de votos bem próximos. Aquela eleição
teve mais de duas dezenas de candidatos e frequentemente vários
percorriam o estado ao mesmo tempo em busca de votos. Por ser uma
novidade para a maioria dos brasileiros, eleitores e jornalistas,
além dos candidatos, havia muito tempo aguardada, a eleição de
1989 foi uma verdadeira festa cívica, repleta de imprevistos. Com
empenho dedicado do editor regional, nós, da sucursal do JB em BH,
acompanhávamos tudo e nos esmerávamos em produzir notícias
exclusivas, abordando os mais diversos aspectos do pleito, presentes
nos locais mais improváveis, interferindo, com nossas matérias, até
mesmo no rumo da campanha. Foi, por exemplo, a matéria exclusiva de
uma colega atenta que derrubou definitivamente as pretensões de um
candidato famoso e metido a engraçado, que, num debate noturno numa
faculdade, soltou o famoso comentário: “Tá com vontade sexual,
estupra, mas não mata”. Ele não imaginou que tinha jornalista na
plateia, mas tinha, porque, na eleição presidencial de 1989, em
Minas, onde tinha um candidato, tinha um repórter do JB. Foi uma
cobertura inesquecível e eu me lembro bem como terminou. No segundo
turno, fui escalado para cobrir um lugarejo onde Lula tinha eleitores
tão pobres quanto fiéis. Quando liguei para a sucursal para passar
a matéria, o editor regional, o mesmo, me disse: “Esquece, não
precisa mandar a matéria, pode voltar, Lula perdeu”.
O editor era petista. A equipe, no todo, estava dividida; embora o número de petistas fosse maior, havia também eleitores do Covas, do Brizola e
do Freire, mas, no segundo turno, que eu me lembre, Collor recebeu só
um voto. Nossas simpatias, porém não prejudicavam nosso trabalho,
ao contrário, possibilitavam que não fôssemos cegos para a estrutura crescente do candidato eleito e ajudavam a equilibrar a cobertura. No
começo, a preferência do eleitorado brasileiro foi se alternando e
a cada semana aparecia um azarão para fazer frente aos
consistentemente preferidos: Collor, Brizola e Lula. A eleição
seria em dois turnos, o que alimentava duas dúvidas: algum candidato
conseguiria maioria no primeiro turno? Se não, quais seriam os dois
adversários no segundo turno? Desde o começo, ficou evidente que
Collor era o preferido, mas obter a maioria dos votos era outra
coisa. Seus concorrentes se alternavam, de repente algum disparava e
ameaçava superá-lo. Além disso, pesquisas indicavam chances de
candidatos mais fracos o derrotarem no segundo turno. Eu não tinha
candidato, escolhi o meu na cobertura, observando-o, ouvindo-o,
entrevistando-o, ponderando, comparando. Votei no Covas, mas
reconheço hoje que Brizola teria sido o melhor presidente, pois era
o mais experiente e tinha um bom programa de governo. O empresariado
que apoiara a ditadura militar não o aceitava, porém.
Reconheço também que, além de contar com a simpatia de muitos
jornalistas, Lula, então um ex-operário metalúrgico, exercia
fascínio sobre os eleitores, especialmente os mais simples. Ele era
o candidato mais parecido com as pessoas comuns, dava atenção a
todos, conversava com muitos, ia coletando informações sobre a vida
do povo da localidade que visitava e, quando subia no palanque,
juntava tudo num discurso coloquial que encantava a plateia. Foi a
ele que eu pedi o primeiro autógrafo da minha vida, para minhas
filhas pequenas – e ele escreveu, numa lauda do JB: “Para Flora e
Marina, um abraço do Lula”. Naquela eleição, participei
indiretamente de outro episódio importante. Foi quando Collor
apresentou na sua propaganda eleitoral uma ex-namorada do Lula que o
acusava de ter lhe pedido para fazer um aborto. O candidato petista
estava num comício em BH no mesmo horário e o editor regional me
mandou lá para ouvi-lo a respeito. Como ninguém no palanque tivesse
visto o programa, precisei narrá-lo. Nas suas memórias, ao lembrar a
história, o assessor de imprensa Ricardo Kotscho afirma que aquele
foi o ponto de inflexão da campanha do Lula, “que até então
só pegava sinal verde”.
Embora quase todos os candidatos fizessem questão de ser
simpáticos com os jornalistas, entre os quais os do JB não recebiam
as menores atenções, alguns transpareciam integridade, honestidade,
sinceridade, enquanto outros eram evidentemente espertalhões e
inconfiáveis. O líder nas pesquisas tornou-se o pior candidato para
se cobrir, não só pelas multidões que arrastava, mas também pelo
aparato de segurança mobilizado ao seu redor, responsável por
violências contra opositores, maus tratos a eleitores e até
desrespeito ao trabalho dos jornalistas. Salvo exceções,
oportunistas ou sinceras, a animosidade mútua entre repórteres e o
futuro presidente, incluindo sua entourage, ficou logo
escancarada. Todos os seus defeitos de ordem pessoal já eram então
conhecidos e comentados e apareciam em matérias.
As graves acusações que mais tarde seriam abordadas pela imprensa e
levariam ao seu impeachment também já eram conhecidas.
Enfim, na imprensa, todo mundo sabia, já na campanha eleitoral, quem
era aquele que viria a ser o futuro presidente, mas, diante do risco
da eleição dos esquerdistas Brizola ou Lula, os empresários da
imprensa escolheram ignorar seus defeitos.
A cobertura do JB destoava dessa escolha e por isso era tachada de
“petista”. Quando a eleição se consumou, o jornal viu-se em
situação difícil, mudou sua chefia de redação e sua linha
editorial, cada vez mais governista, o que afetou o ambiente de
trabalho. Somava-se a isso o comportamento pessoal do editor
regional, infrequente no trabalho, às vezes ausente durante dias.
Foi numa situação assim e por força de uma série de coincidências
que eu, que não era repórter de política, cobri a visita
presidencial em Araxá: enquanto o presidente passava um fim de
semana em Minas Gerais, o editor regional tinha sumido, a primeira
repórter de política se demitira, o segundo teve um súbito
problema pessoal e o subchefe me escalou de última hora para viajar.
Nenhum de nós poderia supor, porém, muito menos eu, considerando
nosso brilhante currículo coletivo e meu confiável currículo
individual, o que estava para acontecer: que eu faria o que fiz e que
me tornaria um bode expiatório. Depois de ouvir os elogios do chefe,
no sábado de manhã, eu baixei sua bola, perguntando-lhe se tinha visto os outros jornais, ele respondeu que não, e eu lhe disse
para ver. Ele não disse mais nada. Fiz e enviei a minha matéria do
dia; apesar da discrepância entre a manchete do JB e as dos outros
jornais, o assunto não repercutiu, porque havia rumor forte de uma
bomba, que monopolizou as atenções dos jornalistas no fim de
semana: a possível demissão da ministra da Economia, que eu tratei
de apurar e, dessa vez, não destoei dos meus colegas.
Quando, na segunda-feira, o presidente voltou para Brasília e eu
cheguei em Belo Horizonte, o editor regional me chamou à sua sala e
foi curto e grosso: “Você está demitido. Sinto muito, mas não
posso fazer nada. É a sua cabeça ou a minha”, me disse. Eu me
resignei, como me resignava sempre, e na verdade senti alívio por me
ver livre daquele suplício em que vivia desde 1990, querendo sair do
jornal e sem poder pedir demissão. Apesar do trauma que me
amargurou, pela situação em que a demissão se dava, eu tinha a
desculpa de ela ter sido drástica e injusta. Mais difícil foi, nos
dias seguintes, recusar as propostas de emprego que me foram feitas:
eu não queria mais ser jornalista e considerava incogitável
trabalhar em outros jornais depois de trabalhar no JB: todos me
pareciam menores, quase insignificantes.
(Capítulo do livro inédito Nada é o que parece ser.)