Participei, ainda que tímida e marginalmente, da fase final de atuação da célebre Polop, a Organização Revolucionária Marxista-Leninista Política Operária. Organizar jovens universitários como se fossem revolucionários não tinha nada a ver, nos tirar do curso superior e da nossa vida individual para nos enfiar numa militância com dedicação religiosa foi uma irresponsabilidade sem tamanho. E um erro político tão grande quanto era equivocada a linha política da O., que era como a denominávamos. A origem daquilo, porém era pertinente: pensar o caminho da revolução brasileira a partir do marxismo.
Os teóricos e militantes revolucionários da Polop fizeram um trabalho intelectual importante, mas lhes faltava uma peça fundamental na política: ligarem-se aos trabalhadores, especialmente ao proletariado industrial, a principal classe revolucionária, que crescia no Brasil a partir da industrialização, da Revolução de 1930 e da implantação da indústria automobilística em São Paulo, no governo JK. A industrialização colocou o Brasil no ambiente da revolução operária socialista preconizada pelo marxismo. Antes disso, no Brasil rural pré-Revolução de 30, a revolução de inspiração marxista teria de ser feita pelo campesinato, como aconteceu na China. Basta lembrar que até 1950 dois terços da população brasileira estavam no campo. A situação começou a mudar com a política econômica desenvolvimentista, a “modernização” do país, a industrialização, e em apenas três décadas a relação se inverteu, na mais rápida urbanização nacional ocorrida no mundo até então; segundo o último censo, de 2021, mais de 87% dos brasileiros moram em cidades.
Os fatos são que, sem ter um partido comunista forte (o PCB foi fundado oito anos antes, em 1922, e, numa sociedade rural, era muito pequeno e, na representação trabalhista, tinha de concorrer com a expressiva força anarquista), a revolução que aconteceu no Brasil em 1930 foi uma revolução burguesa, uma revolução liderada por setores das classes dominantes, em aliança com setores das classes médias, especialmente os militares, que expressavam uma ideologia nacionalista e queriam modernizar o país. Foi, em síntese, uma revolução contra os cafeicultores paulistas que mandavam no Brasil desde a Proclamação da República, uma revolução de caráter nacionalista. Naquele período histórico, entre duas guerras mundiais, em meio à Crise de 1929, à ascensão do fascinazismo e à consolidação da Revolução Russa de 1917, o nacionalismo era uma ideologia forte mundo afora. Lembremos que Luiz Carlos Prestes, líder da Coluna Prestes, movimento rebelde de grande repercussão na década de 1920, foi convidado a integrar o comando da Revolução de 30, mas recusou, porque já tinha ingressado no Partido Comunista Brasileiro e considerava que a revolução em curso era burguesa. Militares e políticos simpatizantes do fascinazismo, porém participaram a revolução, que acabou se organizando em torno da liderança máxima do fazendeiro gaúcho Getúlio Vargas e mais tarde perseguiu comunistas e integralistas, versão brasileira do fascinazismo.
A revolução estava em curso no mundo inteiro e continuaria assim ao longo do século XX, seja na vertente comunista, seja na vertente anticomunista. É importante ressaltar que todas as revoluções socialistas vitoriosas ocorridas no mundo até hoje passaram pela adaptação da teoria marxista às condições nacionais da época. A Polop tentou fazer isso, mas não se tornou hegemônica na esquerda brasileira e ainda hoje as formulações sobre a revolução brasileira giram em torno de concepções estrangeiras: o leninismo, o maoísmo, o titoísmo, o castrismo etc. A Polop não fazia parte do Partido Comunista, como aconteceu na Rússia, na China, na Iugoslávia, em Cuba, no Vietnã etc., onde foi a direção do partido comunista que fez a adaptação. No Brasil, o PC era intelectualmente indigente e submisso ao stalinismo. Só mais tarde, com o fracasso do projeto reformista do governo trabalhista de Jango, ao qual o PCB aderiu, abatido pelo golpe de 1964, uma dissidência, o PCdoB, e depois defecções que optam pela luta armada, sob inspiração da Revolução Cubana, tentam essa adaptação. A Polop, diferentemente, tem origem no antigo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Talvez por isso nunca foi bem digerida pelos comunistas brasileiros. O principal defeito da Polop, penso eu, talvez por não ter origem no PCB, foi não se ligar aos trabalhadores, não passar de uma organização de intelectuais com inserção nas classes médias estudantis.
O fato é que, em meados dos anos 1970, quando fui militante, a Polop tentava organizar universitários como se fossem operários revolucionários. Penso que seria razoável organizar cursos de formação política e difundir suas ideias, de forma aprofundada, inclusive usando obras de Marx, Lênin, Trotski e outros líderes comunistas, procurando dessa forma se constituir como contraponto às formulações capitulacionistas do restante da esquerda. No entanto, pretender formar revolucionários na universidade, em substituição ao trabalho que não conseguia executar na classe operária, foi um equívoco óbvio e prejudicial para muitos jovens militantes. Penso também que, com o fim da Polop, perdeu-se uma importante linha de pensamento marxista sobre a revolução brasileira. O caminho da revolução brasileira precisa ser pensado, o marxismo precisa ser adaptado às condições brasileiras do século XXI, como fizeram todos os partidos comunistas vitoriosos no século XX, com a diferença que não existem mais partidos comunistas como existiram antes.
No Brasil ainda existem três partidos comunistas: o PCdoB, um racha errante do PCB ocorrido em 1963 e hoje o maior amigo do PT; o PCBR, outro racha do PCB cuja história desconheço, e o PCB, que é a tentativa de reconstrução do PCB por ex-militantes que não acompanharam a direção quando ela transformou o PCB em PPS, após o fim da URSS. E existem correntes marxistas dentro do PT e do PSOL. Não seria o caso de juntarem-se todos na formação de um único partido? Acho sempre curioso, desde os idos de 1970, as certezas dos comunistas brasileiros, que nunca os levaram a lugar algum, mas os levam a se dividirem porque cada grupo pensa que é dono da verdade e todos os outros traidores. Hoje, diante do iminente fim do lulismo, do evidente engodo do PT, da retomada tardia da discussão da atualidade do marxismo e da necessidade de uma revolução brasileira, não seria o caso de juntarem-se todos os que se consideram marxistas e revolucionários na organização de uma única força política com esse objetivo explícito, ou seja, organizar e liderar os trabalhadores numa revolução rumo ao socialismo? Poderiam começar atualizando o Programa Socialista para o Brasil, da Polop, cotejando-o com as proposições das demais linhas políticas e formulando uma síntese que indique, enfim, o caminho que os marxistas brasileiros buscam há um século para organizar as massas populares, fazer a revolução e começar a transformar o Brasil na nação próspera que ela pode ser, no ambiente do século XXI, em que a questão ambiental é mais urgente do que qualquer outra e salvar a espécie humana da auto-extinção tornou-se a missão histórica dos trabalhadores. Será que ainda não temos maturidade para isso?
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