sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
O xou do jornalismo e o que urge fazer
Por que "show", uma palavra usada há um século no idioma português, não foi aportuguesada ainda?
Gosto de escrever xou, assim como gosto de escrever xópim. O jornalismo definitivamente virou espetáculo. Sempre foi assim, o jornalismo sempre gostou e preferiu a notícia sensacional, o lado sensacional da notícia, os donos do negócio querem conquistar público, vender e ganhar dinheiro, porque no capitalismo jornalismo é um negócio como qualquer outro, embora não devesse ser, devesse ser serviço público, mas até onde isso acontece de forma mais marcante e há mais tempo, na Inglaterra, a BBC segue orientação política, um exemplo disso é que os jornalistas foram recomendados a se referirem ao sequestro do presidente Maduro, da Venezuela, pelo presidente dos EUA como "captura". O fato é que o jornalismo negócio sempre foi xou e sempre houve também o jornalismo com pretensão de ser sério, confiável, honesto e independente, e é este o caso do Jamil Chade e da CartaCapital, por isso faço este comentário. Não posso deixar de observar que a excelente e oportuna matéria do vídeo abaixo é também um xou. O objetivo do melhor jornalismo que se faz hoje, e nunca se fez tanto jornalismo bom como se faz hoje, com as novas tecnologias, é antes de tudo possibilitar que os jornalistas e seu entorno ganhem dinheiro para sobreviver. O assunto desse vídeo é ótimo embora seja terrível: o jornalismo xou quer assuntos terríveis, precisa de assuntos terríveis, vive de assuntos terríveis. Eu sei o que é isso por dentro, sei como o ambiente molda o jornalista. A discussão não tem fim e gira em torno do argumento incontestável que o jornalista não produz o fato, ele apenas informa. Ok. A minha questão é outra. O jornalismo depende tanto de notícias terríveis quanto a medicina depende das doenças. A indústria da doença não quer acabar com as doenças, por isso não cuida de prevenção, que deveria começar por uma campanha contra os agrotóxicos, mas os médicos, os hospitais, os laboratórios, a indústria de equipamentos médicos etc. não estão interessados em diminuir as doenças, que é sua fonte de renda, de enriquecimento, de lucro. Isso é óbvio, nem é preciso demonstrar, enriquecer com exemplos, quem não vê é porque está cego pela ideologia. Tudo de ruim que prospera é porque dá lucro: doenças, guerras, tráfico de drogas, acidentes de trânsito, poluição etc. O jornalismo faz parte dessa lógica, notícias escabrosas são parte fundamental do xou que vende e dá lucro. Simples assim. O jornalismo faz parte da maior indústria do capitalismo, maior que a indústria da guerra, maior que a indústria das comidas envenenadas: a indústria do entretenimento. No fim das contas, o jornalismo é parte do xou, é parte dessa indústria que distrai as pessoas comuns, os trabalhadores desorganizados que pensam que são empreendedores e por isso aderem à ideologia do capitalismo e sustentam a existência moribunda do capitalismo. O mundo está tão ruim, esse despencar da civilização rumo à autodestruição está tão doloroso que as pessoas precisam de muito entretenimento, de muita alienação, que chega para todos o tempo todo nas telinhas dos celulares dos quais ninguém mais tira os olhos. O que importa, porém, parafraseando um célebre filósofo, não é informar -- já temos informações bastantes; o que urge é transformar o mundo.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.