sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Por que o Brasil não se dividiu como aconteceu com a América espanhola

A razão fundamental é que a independência brasileira foi liderada pelo príncipe regente de Portugal e, ao manter a monarquina, ele manteve também a integridade do território da ex-colônia, à custa do massacre dos brasileiros das várias regiões que organizaram levantes republicanos. Detalhaes contados nesse vídeo enriquecem o contexto e de quebra nos ensinam sobre a história do restante da América Latina, que nossa educação formal e nossa cultura eurocêntrica ignoram. Mais uma aula da BBC. Quando o lobby estadunidense e sionista não interfere nele vergonhosamente, o jornalismo da estatal britânica costuma ser muito bom. 

Por que brasileiros e portugueses falam tão diferente

A internet, em especial o YouTube, ao se transformar nessa rede infinita de canais de vídeo, possibilita que aprendemamos em alguns minutos coisas que não aprendemos na escola. É um salto no conhecimento. A BBC se destaca nisso.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A melhor cobertura (ou costura) sobre a queda do ministro Toffoli no caso Vorcaro

Mais uma vez as notícias ficam melhores num programa de humor.

Inteligência artificial está em tudo e nós nem percebemos

O lema dessa especialista brasileira em IA (inteligência artificial, que, segundo o neurocientista Miguel Nicolelis, não é nem inteligência nem artificial) é transformar alarmismo em conhecimento, mas ela alerta: é assustador o que está acontecendo com o uso da IA e a gente não se dá conta, usando-a sem parar pra pensar. As empresas que nos usam como funcionários gratuitos e capturam nossos dados pessoais não nos avisam que isso está acontecendo. Tudo leva ao mesmo lugar: isso é capitalismo. O capitalismo é um moto contínuo, uma máquina que funciona no automático sem controle. Todos nós, inclusive os capitalistas, somos escravos do capital, todos trabalhamos para ele e o servimos, a diferença é que os capitalistas se apropriam do produto desse trabalho maquinal coletivo e nós, os 99,999% restantes, pegamos as migalhas que caem da mesa, mas os capitalistas não estão no controle, são mais tontos do que nós, basta olhar para o presidente da maior potência mundial, um modelo dos dirigentes nacionais de hoje, um completo idiota. Para onde o capitalismo nos leva? Isso também sabemos: para a autodestruição, nas formas de guerras e mudanças climáticas, e numa alienação total da realidade, agora que já nem distinguimos mais o que é real e o que é produzido por IA.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Enfim, mandantes do assassinato de Marielle Franco são condenados

Oito anos para mandar os mandantes do assassinato da Marielle Franco para a prisão é muito tempo, principalmente considerando a gravidade do crime, cujo objetivo foi eliminar uma representante do povo brasileiro, uma das mais brilhantes, jovem, com futuro promissor e imprescindível num ambiente político tão apodrecido. Como disse a ministra Cármen Lúcia, o assassinato da Marielle atingiu todo o povo brasileiro. A lentidão é uma das características da justiça capitalista, outra é a impunidade dos ricos e poderosos. Um Estado realmente democrático precisa fazer justiça com celeridade.

Música da noite: Menina, amanhã de manhã, com Mônica Salmaso

A música é uma delícia, a gente imediatamente começa a dançar. E que arranjo!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

No JB, há quarenta anos

Há quarenta anos exatamente comecei a trabalhar na sucursal belo-horizontina do Jornal do Brasil, que ocupava um confortável espaço no sétimo andar do prédio imponente da Avenida Afonso Pena 1500, bem em frente ao Palácio das Artes. Lembro da data porque era uma segunda-feira e na sexta-feira seguinte, último dia do mês, o presidente Sarney decretou o Plano Cruzado, a primeira de uma série de tentativas dos governos civis neoliberais de conter a inflação galopante que tinha ajudado a derrubar a ditadura militar (1964-1985). Foi meu batismo de fogo profissional. O congelamento de preços virou o país de pernas pro ar, mexeu com a vida de todo mundo, acionou órgãos fiscalizadores dos quais hoje a gente nem ouve falar ou não existem mais, tipo Sunab, Delegacia de Ordem Econômica e outros, mudou comportamentos, mobilizou a população, criou a figura informal do "fiscal do Sarney" e provocou uma tempestade de notícias, da qual sairiam as manchetes dos dias, semanas e meses seguintes. Repórter de geral, incluindo polícia, eu estava na linha de frente daquela cobertura bastante animada. Formado em jornalismo pela UFMG havia três anos, o JB foi minha primeira experiência num jornal diário, e comecei logo pelo topo, no melhor jornal do país na época, na melhor sucursal da cidade. Era o que todos diziam e o que eu mesmo achava, pois o JB era o jornal que eu lia. Meus colegas de redação eram Jadir Barroso, Nairo Alméri, Lúcia Helena Gazzola, José Guilherme Araújo e Fernando Lacerda, além do repórter fotográfico Waldemar Sabino, o Mazico. No telex, Sílvio Lourenço, e no comando, editor regional, o célebre José de Souza Castro, o Zé de Castro. O diretor da sucursal era o Acílio Lara Resende. Era uma equipe grande, contando as outras áreas: Valdir, nosso motorista e companheiro de coberturas e viagens, Patrícia, recepcionista, dona Alice, faxineira, Zé Milton, Zé Luís e sua mulher, dona Ilza, na administração, Fátima, uma portuguesa, secretária, Noronha e Valtencir, no comercial, e o Burana, cobrador. Isso, quando entrei; enquanto trabalhei lá, saíram alguns e entraram outros. Em pouco tempo aprendi o que se faz num jornal diário, conhecia e era conhecido por colegas e autoridades cujo trabalho acompanhava. Foram quatro anos intensos, marcados, no começo, pela cobertura do Plano Cruzado e, no fim, pela cobertura da eleição presidencial de 1989, a primeira eleição direta depois da ditadura, na qual o JB se sobressaiu. E então o Collor venceu e o jornal entrou em decadência. Trabalhei em outros lugares, fiz outros tipos de jornalismo, alguns muito bons, tive experiências interessantes e épocas até mais felizes, especialmente na Lead Comunicação, mas a minha experiência de jornalismo pra valer foram esses quatro anos no JB. (Na matéria reproduzida na foto acima tem um depoimento colhido na rua por mim e uma foto do Mazico. O João do título é o ex-presidente Figueiredo, o último general que, ao deixar o cargo sem passar a faixa, declarou que queria ser esquecido; o JB não esqueceu e um ano depois tripudiou: conferiu nas ruas que o povo tinha atendido seu desejo. A minha entrevistada mesmo não soube dizer quem era o tal do João Batista Figueiredo.) 

Quem quiser conhecer o que foi o jornalismo mineiro e brasileiro das décadas de 1970 a 1990, antes da revolução provocada pela internet, recomendo ler o primoroso livro Sucursal das Incertezas, do Zé de Castro, sobre o qual escrevi em outra postagem, que pode ser acessada clicando aqui

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

As ligações entre o Banco Master e o governo bozo

Até que enfim um parlamentar fazendo perguntas cujas respostas os brasileiros querem ouvir.

Somos em relações de afetos, de linguagem e de trabalho

Essa palestra do filósofo Vladimir Safatle poderia ser um editorial deste blog. Igualdade e soberania popular. Acrescento: e em relações de respeito com as outras espécies e com a Terra. Um comentário: é incrível que um sujeito de esquerda e tão bem informado quanto o Safatle só tenha conhecido a Flaskô na sua campanha eleitoral de 2022. Isso diz muito sobre o descolamento da chamada esquerda brasileira do mundo real dos trabalhadores durante a Era Lula. 

A realidade supera a ficção a todo momento

Sobre que deve escrever um(a) ficcionista? Fico pensando que sobre coisas banais, porque as histórias extraordinárias estão hoje por conta do jornalismo, que fala do que acontece no mundo real e não na imaginação dos escritores. Frankenstein, por exemplo, parece cada vez mais banal. Tudo bem, a encantadora Sofia Nestrovski faz sua interpretação do livro da Mary Shelley, da qual gosto muito, mas isso não mudou minha decepção com a história. O fato é que neste segundo quarto do século XXI, os acontecimentos e suas personagens superam qualquer imaginação ficcionista. O que dizer do que aconteceu no governo do bozo? Se fosse um xou de horrores, do qual não gosto e não veria, não seria "melhor". E do que vemos agora no governo trump2? O capitalismo perdeu qualquer compostura. E não se trata só do capital e seus donos, propriamente, mas também de toda a sociedade que ainda acredita nele. O surrealismo, que foi um movimento artístico de reação aos horrores capitalistas do começo do século passado, tornou-se banal hoje, porque a repetição dos horrores é a banalização, que o anestesiamento da comunicação, iniciada por roliúdi, universalizada pela televisão e incorporada a todos os momentos das nossas vidas pelas redes sociais, naturalizou. Hoje a gente anda nas ruas desviando de mendigos e sem-casa e mal os nota, enquanto as cópias dos ricos passeiam com seus pets. Mais surreal ainda é ver o proletariado contemporâneo, os entregadores de moto, se considerarem empreendedores e agradecerem a Deus por terem trabalho 16 horas por dia, sete dias por semana, enquanto não se acidentam, porque acidente com moto é a maior causa de acidente no trabalho hoje. O surrealismo está escancarado nas ruas, como é que pode ser arte? Sabemos de todos os horrores, temos consciência de tudo, e no entanto não mudamos o mundo, este é o fato mais notável da nossa época. O vídeo abaixo está na versão original, mas há outros em português, só não é possível reproduzir aqui.

O que aconteceu na Venezuela no dia 3 de janeiro e depois

Breno Altman fez o que a imprensa empresarial brasileira, ex-grande imprensa, deveria fazer e não faz: foi à Venezuela apurar. Entre outras coisas nos conta como foi a negociação com o governo americano nos primeiros minutos do sequestro do presidente Nicolás Maduro. Foi uma negociação que se tem com sequestradores, com terroristas. Delcy Rodríguez recebeu a informação de que Maduro estava morto. Respondeu que nesses termos não havia negociação. Ouviu então que ele estava vivo. Pediu prova de vida e recebeu aquela primeira foto que circulou mundo afora. É uma negociação que se faz com sequestradores e terroristas. Terrorismo é o que os EUA dizem combater, mas é o método de ação do governo americano. O comportamento da presidente e do governo venezuelano é admirável, a revolução bolivariana é o que qualquer nação latino-americana que afirmasse sua independência real em relação aos EUA teria de fazer. E como acontece com a Venezuela enfrentaria o terrorismo estadunidense e a desinformação da imprensa capitalista mundial. Não há por que se espantar com isso. É assim que funciona, a imprensa é capitalista, defende o capitalismo, as empresas, o imperialismo americano e seus aliados. A desonestidade está em não dizer ao leitor que defende interesses, que tem um lado. A desonestidade está em fingir que é imparcial. Isso é ideologia. Socialistas é que têm de construir uma imprensa diferente e projetos nacionais nos seus países. O Brasil está na idade da pedra ainda, porque, apesar de Breno Altaman e outras exceções, não tem veículos socialistas expressivos, e principalmente porque à derrubada da ditadura militar (1964-1985) seguiu-se uma adesão vergonhosa ao neoliberalismo que fez o país retroceder à condição anterior à Revolução de 1930, de colônia exportadora de produtos primários, iniciada por Sarney, impulsionada por Collor, formatada por FHC e continuada com afinco por Lula, que, ao voltar, não foi capaz sequer de reverter, ou pelo menos tentar reverter a destruição dos desgovernos temer, o minúsculo, e bozo. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Música do dia (2): Quase fui lhe procurar, com Roberto Carlos

Essa música não é do Roberto, é uma daquelas que ele gravou com sucesso e a gente pensa que é dele, parece dele, mas não é. É do Getúlio Cortes, um compositor prolífico de 87 anos. Ele impressiona pela facilidade das suas melodias e letras, em  geral clichês. Quando o compositor de clichês não é pretensioso, às vezes acerta o ponto e produz pérolas de clichês, como esta. GC é autor de uma série de canções similares gravadas pelo RC nos anos 1960: O gênio, O feio, Pega ladrão e O sósia, todas ridículas, exceto a última, é divertida, uma musiquinha típica da Jovem Guarda. 

Música do dia: Ela desatinou, com Chico Buarque

Os primeiros discos do Chico, assim como os dos Beatles, estão repletos de pérolas. Esta é uma delas. A ideia, o desenvolvimento da ideia em versos, a construção dos versos, o jogo de palavras, as rimas são admiráveis. Bastava o refrão, mas tem mais, muito mais.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A China é o pós-capitalismo

O que é a China? Há muitas respostas. A China é o que a URSS poderia ter sido, não fosse o stalinismo. A China é o que é porque aprendeu com a experiência da URSS. A China é um Estado socialista ou capitalista? O que existe na China é socialismo ou capitalismo de Estado? Refletindo um pouco, eu cheguei à conclusão óbvia: a China não é uma nação capitalista porque o poder político lá é exercido pelo Partido Comunista. Os capitalistas não estão no poder na China, como estão nas nações capitalistas, como o Brasil. Lá, eles se submetem ao Estado governado por um partido comunista que fez uma revolução dos trabalhadores. Isso é diferente de um Estado capitalista onde os capitalistas governam por meio dos seus prepostos políticos. No Brasil, o capital faz o que quer, o Estado está a seu serviço. Na China, o capital está a serviço do Estado. Na China, a revolução pretendeu primeiro distribuir a pobreza, depois decidiu desenvolver o capital e o resultado é o que se vê. O capital a serviço do Estado, de um Estado controlado pelos trabalhadores, pelo partido comunista. A China, portanto, não é uma nação capitalista, é uma nação comunista, porque o poder é exercido pelo Partido Comunista. Para ser rigoroso, em termos de doutrina marxista, a China é socialista, porque o comunismo seria uma etapa posterior, quando as classes sociais tiverem sido eliminadas e isso evidentemente não aconteceu ainda, porque há capitalistas e empresas privadas na China. A China é socialista, mas também é capitalista, porque é o capital que move a economia. O que significa tudo isso? Que a China é o futuro da humanidade, se ainda houver futuro para a espécie humana, se o capitalismo não destruir a Terra antes. Isso porque a China vem demonstrando o que a superação do capitalismo estúpido é capaz de fazer. Isso estava previsto na teoria marxista, na verdade é uma pedra angular dela: o capitalismo impede o desenvolvimento das forças produtivas, o socialismo é imprescindível para a continuação do progresso. A China parece ser a comprovação disso, o salto impressionante que ela deu em cinco décadas não aconteceu em nenhuma outra nação, e fez isso não graças ao capitalismo, mas ao socialismo, isto é, ao controle do capital pelo Estado. O socialismo é isso: o controle do capital pelo Estado, não importa se persistem ou não empresas privadas e capitalistas. A história não termina aí, porém. Primeiro porque, como disse, ainda há classes sociais e desigualdades na China, e isso preciso ser superado, mas também porque é evidente que a Terra não suporta a continuação do desenvolvimento chinês e que ele não pode ser universalizado, pois não há recursos materiais para tanta riqueza, e o socialismo pressupõe internacionalismo. Ou seja, se o socialismo é o que a China é, e se todas as nações se desenvolverem como ela, o que acontecerá com o planeta? Ao ver as imagens desse vídeo, eu entendi o que é a China: é o futuro, é o pós-capitalismo.  

No Brasil, trabalhadores são coisas, não são humanos

Não à toa, o fim da escala 6x1 provoca reações violentas dos ricos e a chamada esquerda é incapaz de mobilizar os trabalhadores para defender essa pequena mudança humanizadora na legislação trabalhista. O que dizer de um filósofo que em apenas vinte minutos explica a estrutura do Estado brasileiro e em seguida a guinada dos trabalhadores para a direita? Safatle brilha nesse vídeo. 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

É possível preservar a Amazônia, mas os latifundiários não querem

Todos os caminhos levam ao mesmo destino: a substituição do capitalismo por outro sistema em que os humanos vivam em igualdade e harmonia com o ambiente e as demais espécies sobre a Terra. Conhecimento para preservar a Amazônia e até produzir mais carne (embora devêssemos compreender que o mais saudável é comer menos carne) existe, mas os fazendeiros não estão a fim, é mais fácil desmatar e ganhar dinheiro rápido, foda-se para o ambiente, para o Brasil, para os outros brasileiros, para as futuras gerações. O sistema capitalista e a "democracia" liberal controlada por políticos corruptos a serviço dos empresários não estão preocupados com essas bobagens como preservação ambiental e mudanças climáticas. Basta ver o que o autocrata americano acaba de fazer em relação às mudanças climáticas e olhar também para o desenvolvimento vertiginoso da China: o capital sobre controle faz maravilhas, o capital descontrolado é um louco disparando para todos os lados.  

O Brasil é uma nação de castas

Os assuntos desse A Hora são todos relevantes e reveladores, mas nada é mais revelador do que o último: como o judiciário brasileiro é ocupado desde sempre pelas mesmas famílias. O Brasil é um país de castas, como tenho escrito há muito tempo. Não há pregação mais ridícula nestas plagas do que a da meritocracia, da qual as castas privilegiadas gostam tanto. Isso acontece sem prejuízo para a dominação do capital, ao contrário, a dominação deste e a das castas se misturam, mas tentar compreender o Brasil sem olhar para suas castas, aplicando aqui teorias europeias, é uma bobagem. O escândalo do banco Máster, o escândalo da vez nesse país cujos escândalos parecem uma competição e o atual é sempre o maior, imagina-se que insuperável, até que vem o seguinte, num processo que, em vez de aprimorar a "democracia", o que parece acontecer é o anestesiamento da população, o escândalo do banco Máster é uma síntese de como um espertalhão trança uma rede de influências para sustentar sua pirâmide financeira e acaba preso nela, graças à ação da Polícia Federal, que está simplesmente cumprindo sua função. Pelo menos ela. No Brasil, parece não haver instituição que trabalhe mais do que a PF, embora em tempos recentes tenha se prestado ao papel de ajudar o golpe de 16. O espertalhão mineiro do banco Máster buscou nas castas os elos da sua rede, imaginando talvez que seu castelo não desabaria, pois, se seu caísse, cairiam todos com ele. A conferir. As castas são mais que espertas, são os crupiês, não são donas da banca, mas dão as cartas: já derrubaram Dilma, prenderam Lula, empossaram temer e inflaram o bozo, depois soltaram Lula para derrotar o bozo e prenderam o bozo. Toffoli caiu, enfim, graças à PF e ao presidente do STF, Fachin, mas até onde irá o processo? A quem atingirá? O próprio Toffoli sairá só chamuscado, mas manterá seus privilégios e daqui a algum tempo, quando todos se esquecerem do caso, estará de novo desfrutando dos requintes da festa dos ricos, da qual os brasileiros comuns não participam? É tão evidente que tudo isso faz parte da podridão capitalista, mas a esquerda não é capaz de apresentar o socialismo como solução para nossos problemas, pelo menos para os mais graves, porque está comprometida até o pescoço com a ordem burguesa, a tal "democracia", na qual só ela acredita, pois os ricos só se aproveitam dela e os pobres sabem que estão sendo enganados, por isso aderem a quem lhes apresenta uma falsa solução, a extrema direita.  

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Música do dia (bis): Cantar, com Beto Guedes e Tavinho Moura

Com a segunda parte, cantada pelo Tavinho Moura e pelo Beto Guedes, filho do autor.

Música do dia: Cantar, com Paula Toller

A melhor gravação dessa pérola do Godofredo Guedes, pai do "Clube da Esquina" Beto Guedes, é a do Tavinho Moura. Só ele canta a segunda parte. Sim, Cantar tem uma segunda parte, bem interessante e que ninguém canta. A melhor interpretação, porém, a mais gostosa de ouvir, como tudo que ela canta, é da Paulinha Toller, minha musa do rock-pop brasileiro dos anos 80. Ei-la.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O boicote criminoso dos EUA e a resistência do povo cubano

A resistência heroica da revolução cubana, que já dura mais de 60 anos, é tão persistente quanto a crueldade do imperialismo estadunidense para asfixiá-la com o bloqueio comercial, financeiro e até turístico. Para se ter ideia, o governo trump proíbe que turista que foi a Cuba entre nos EUA. Nessa entrevista, Frei Beto, provavelmente o brasileiro que melhor conhece Cuba, onde atua como religioso desde os anos 1980, conta detalhes dessa tragédia humana que atravessa décadas, acompanhando as mudanças na política e na economia mundial. O bloqueio explica muita coisa e nos dá ideia do que acontece na Venezuela atualmente e o que ainda a espera. Me pergunto, mas Breno Altman não perguntou ao Frei Beto, como foi que os EUA conseguiram sequestrar Maduro e nunca conseguiram fazer o mesmo com Fidel. Outra coisa que eu não compreendo, e essa é mais importante, porque se refere à viabilidade de uma revolução socialista em qualquer parte do mundo, é por que Cuba não produz alimentos, tendo terra agricultável. Frei Beto diz que falta tecnologia e mão-de-obra, o que é contraditório: por que os cubanos não se dedicam à agricultura? Poderiam ser inovadores, praticando uma agricultura ecológica, inclusive substituindo o trigo pelo milho e pela mandioca. Se falta mão-de-obra, o MST poderia ajudar, e isso não é ironia, o MST ajuda Cuba enviando medicamentos, também afetados pelo bloqueio. A essa altura da minha vida, as pessoas que eu mais admiro são aquelas cuja coerência eu acompanho desde sempre, e Frei Betto é uma delas. Só não entendo por que Betto com dois tês, talvez tenha também alguma coerência. Opera Mundi é o melhor canal de informação do Brasil e sobrevive de forma similar a Cuba: de contribuições generosas do público que o admira.  

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O agente secreto (trailer)

A obra-prima do cinema brasileiro

Já pensei que O som ao redor era o melhor filme brasileiro que eu tinha visto, depois pensei isso de Bacurau. Pensei o mesmo de Que horas ela volta?, da Ana Muylaert, e Central do Brasil, do Walter Salles, de O auto da compadecida e de filmes mais singelos do Jorge Furtado, pequenas obras de arte artesanais. Agora formo convicção ao ver pela segunda vez O agente secreto, do Kléber Mendonça Filho, diretor também dos dois primeiros filmes citados. O cinema, quando é arte, é a maior de todas. Durante uma hora ou duas nos envolve numa realidade inventada. Penso que essa é a característica da obra de arte. Acontece isso comigo também quando leio Os irmãos Karamázov ou um álbum do Calvin, quando escuto Imagine ou Saudade do Brasil, para ficar em poucos exemplos de artes diversas. A diferença do cinema é o envolvimento total que ele proporciona. Isso é possível porque o cinema é uma indústria. Foi preciso muito tempo para se chegar aos recursos tecnológicos de que essa indústria dispõe hoje e foi preciso acumular muita experiência profissional. Como indústria, o cinema exige muito capital para comprar os recursos necessários à realização do filme. O agente secreto é o que é porque tem esses recursos, haja vista o périplo que KMF e Wagner Moura empreendem para promover o filme. Uma indústria que funciona bem produz artigos excelentes, mas não produz obras de arte. A obra de arte transcende o produto industrial, por isso muitos discordam que cinema seja arte, salvo exceções, como em filmes quase artesanais. Minha opinião é um pouco diferente, mas o argumento faz sentido. Afinal, como manter a característica de arte num produto industrial cuja elaboração depende de tantas pessoas, além de tantos equipamentos? Pois é. Hollywood é uma indústria, assim como a roliúde brasileira, a Globo, também o é, para ficar nas maiores. Todas as nações que criaram sua indústria cinematográfica seguiram o mesmo modelo, no qual o realizador de fato é o produtor, que capta o investimento dos capitalistas e produz um artigo que deve dar lucro, um investimento alto, que precisa vender muito para ser recuperado e quando o filme faz sucesso o lucro é também astronômico e transforma suas estrela em milionários. Capitalismo. Na indústria cinematográfica do tipo roliudiana, o diretor é um empregado, assim como todos os outros, atrizes e atores são os indivíduos mais visíveis, os "artistas". O diretor é o funcionário mais importante, mas não é o dono do produto, está cercado de auxiliares dos quais depende profundamente e muitas vezes as estrelas se impõem a ele. O filme obra de arte também é isso, qual é a diferença então? Na minha opinião, as diferenças são duas: a primeira é que o filme é um "projeto" pessoal do cineasta e a segunda é que ele mantém o controle da produção. Ou seja, quando o diretor é um artista e mantém tal controle da máquina industrial do cinema e dispõe dos recursos necessários para realizar seu projeto, o resultado é uma obra de arte. Vê-se logo que é uma coisa muito difícil e que exige experiência, além de talento. Quantos diretores brasileiros demonstraram talento manipulando poucos recursos e não conseguiram produzir obras de arte? Talvez Gláuber Rocha, hoje, realizasse filmes melhores do que Terra em transe. Talvez. Os grandes diretores americanos se impuseram sobre a máquina industrial, mas produziram obras de arte graças à experiência que acumularam nela. O mesmo se pode dizer dos cineastas italianos, franceses, ingleses e outros. Ainda não vi Retratos fantasmas, mas vi também no computador Enjaulado, um dos primeiros curtas do KMF, de década de 1990, e já tem a identidade do autor, assim como Aquarius. Os filmes do KMF têm personalidade, são meio estranhos e ao mesmo tempo muito seguros, segurança que se expressa no controle dos detalhes, que são muitos. O agente secreto é, entre outras coisas, uma obra-prima de detalhes. É difícil imaginar que o cineasta possa fazer um filme melhor. Saí do cinema com uma sensação que não tinha desde minha juventude, ao ver os melhores filmes da minha vida. Abaixo uma boa entrevista do diretor. 

Uma metrópole viva

Quanto tempo leva um império para desmoronar? Na era da bomba atômica, um império desmorona sem levar com ele toda a civilização? Outra civilização está em ascensão vertiginosa: como será o império chinês? Os EUA são uma nação diversa, talvez a mais incrível já existente, não vai desaparecer de uma hora para outra, nem sem intensa luta intestina. Nova York é uma nação dentro da nação e tem agora um prefeito de esquerda. Oxalá tome iniciativas de esquerda e não capitule ao neoliberalismo como fez a esquerda das nações centrais e de outras, como o Brasil. 

Música do dia (3): If a fell, The Beatles

A minha preferida.  

Música do dia (2): You've got to hide your love away, The Beatles

Ainda 1965. Essa é especial.  

Música do dia: Youre gonna lose that girl, The Beatles

1965 foi o ano dos Beatles. Eles ainda fariam muito mais e iriam ao auge, mas em 1965 afirmaram seu talento de forma admirável, com frescor e leveza.

A esquerda não tem uma política para as cidades brasileiras

Sim, é assim que um bairro morre, que uma cidade perde a alma, que seus moradores se tornam coisas, mercadorias. Essa é uma experiência que todos nós conhecemos. O que acontece em Sampa, aconteceu e acontece em Beagá. Qual é a política da esquerda para as cidades brasileiras? Não tem. A política em vigor é a política neoliberal, nas cidades como em tudo mais: manda o dinheiro que compra autoridades e muda leis para favorecê-lo, de forma que a população perde sempre. Quando eu digo que Lula e o PT são políticos burgueses e que se submeteram ao neoliberalismo dominante no mundo capitalista nas últimas cinco décadas, que nunca tiveram um programa próprio para o Brasil, é a isso que estou me referindo. O povo quer mudança, quer melhorar sua vida, quer uma alternativa às violências que sofre diariamente. Se não as encontra na chamada esquerda, que há muito tempo se tornou centro e até direita, vai procurá-la na extrema direita, que faz propostas neofascistas de transformação social. É fazendo propostas concretas de transformar as cidades, as relações de trabalho, a educação, a saúde, a aposentadoria, os transportes, a moradia e acima de tudo, porque tudo depende disso, a recuperação do meio ambiente, que a esquerda vai se tornar uma alternativa popular.

DW crítica x BBC sumbissa

Nestes tempos estranhos, a DW, emissora alemã, está assumindo o lugar que a BBC tinha, pelo menos aqui. A BBC se curvou ao tirano ianque e evita reportagens que possam contrariar o imperialismo americano. Chegou ao ponto de proibir o uso da palavra sequestro para informar sobre o sequestro do presidente da Venezuela Nicolás Maduro pelo governo americano. A DW mantém posição mais crítica. Não há jornalismo quando não se mostra a realidade sem censura. 

O assunto é ponto de partida para uma série de reportagens sobre os valadarenses e outros mineiros que estão voltando à força para o Brasil depois de décadas. Não sei se estão sendo feitas, pois não acompanho mais os jornais impressos, ou melhor, o que restou deles. Quando eu era repórter, fizemos muitas matérias sobre o fenômeno da migração de mineiros para os EUA, especialmente jovens de Governador Valadares, número estimado em um décimo da população local. Toda família de GV (e depois de outras cidades da região) tinha pelo menos um parente vivendo nos EUA, mandando dinheiro para os pais ou para a mulher, comprando imóveis, movimentando a economia local. Agora estão voltando à força, como o homem da reportagem, que tem 48 anos e morava nos EUA há 21, já se considerava americano. A deportação virou notícia sensacional agora, em consequência da ação do ICE, a gestapo do trump, mas dizem que Obama deportou mais. O pano de fundo de tudo é o capitalismo, com suas contradições que a imprensa evita, pois só vão acabar quando os trabalhadores controlarem o capital, coisa que os capitalistas não fazem, pois querem sempre mais dinheiro e poder. A nação que foi construída por imigrantes agora os persegue, mata, prende, deporta. E o mundo burguês, a democracia liberal, não se pronuncia, não se levanta, não se opõe. Os capitalistas são incapazes de controlar o capital e a democracia burguesa é incapaz de proteger os trabalhadores. Como se a Terra tivesse donos, como se territórios nacionais fossem dados da Natureza e não invenções arbitrárias dos homens, como se alguns homens tivessem direito aos ambientes e todos os outros não. Abolir as fronteiras nacionais e abolir a posse da Terra pelos homens, convivência pacífica, harmoniosa e igualitária dos indivíduos da espécie humana entre si e com as outras espécies é o que a vida exige de nós hoje. O mundo será isso ou deixará de existir em breve, com seus tiranos enclausurados em casamatas tentando escapar das mudanças climáticas e da guerra nuclear.

Também me pergunto se o governo Lula está aproveitando a oportunidade das deportações para lançar uma política de recepção e acolhimento dos deportados, tipo: "Bem-vindos de volta ao Brasil". É uma excelente oportunidade para afirmar Brasil como uma nação que pode ser diferente e melhor, que pode oferecer outro exemplo para as outras nações, para toda a humanidade. O Brasil é uma rara nação neste planeta que pode viver de forma autossuficiente no cenário das mudanças climáticas, mas tem que colocar seu povo e a recuperação ambiental como prioridades de um programa nacional de desenvolvimento, coisa que inexiste entre nós desde que os governos ditos democráticos aderiram ao neoliberalismo, após a derrubada da ditadura militar (1964-1985). Deter a destruição da Amazônia, recuperar o Pantanal e o Cerrado, reflorestar a Mata Atlântica, cuidar de todos os biomas, desenvolver uma economia de características locais, ajustadas a cada bioma, promover a biodiversidade, ocupar grande parte da população nessas atividades, que são atividades econômicas, promover a agroecologia, que já está mais do que testada e aprovada, depende só de o Estado trocar o modelo agrodevastador, tóxico, latifundiário e exportador pela produção familiar agroecológica. Trocar o transporte rodoviário pelo transporte ferroviário, realizar reformas urbanas a favor dos moradores, em vez das construtoras rentistas. Distribuir o poder político para a população, para que ela possa decidir sobre sua vida.   

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Será Aldo Rebelo a novidade na eleição de 2026?

Mais "preparado" do que qualquer candidato que se lançou até agora ele é. Será que decola? Nessa entrevista, ele põe o culto e inteligente Breno Altman no bolso. Só um fenômeno eleitoral o fará competitivo, porém. Todos os presidentes desde FHC foram reeleitos, exceto o bozo, cuja eleição já foi uma aberração, seu governo ainda mais e seu comportamento na pandemia, um crime. Ainda assim quase derrotou Lula. A fraqueza do Lula em 2022 foi o primeiro sinal de que será difícil sua reeleição e seu governo não o tornou mais popular do que era há quatro anos. Só os lulólatras pensam que Lula é invencível. Analistas se perguntam se essa será uma eleição de continuísmo ou de mudança. Penso que, se os candidatos forem Lula e um bozo, não há possibilidade de ser eleição de mudança, será uma eleição de continuação, não se sabe de que, do lulismo ou do bozoísmo. Eleger um candidato estando preso, nem Lula conseguiu. Considerando tudo isso, a mudança pode estar num candidato imprevisto, e Aldo Rebelo é um candidato assim. Seu partido é inexpressivo e não sei se ele tem uma organização de propaganda eficaz -- hoje se diz que eleição é decidida nas redes sociais. A esquerda imediatamente diz que ele é de direita, embora tenha sido ministro de Lula e Dilma. Já vi esse filme. Acontece que o sarrafo que mede a esquerdice anda muito baixo no Brasil, certamente qualquer candidato que não vem da direita está à esquerda do Lula. Só os lulólatras ainda acreditam que Lula é de esquerda. Nunca foi. Aldo Rebelo está à esquerda do Lula por uma simples razão: ele é sensível à desgraçada situação do povo brasileiro e faz uma proposta para superá-la, enquanto Lula é parte, há 23 anos, dessa situação. Para não deixar dúvida, digo que tenho com Aldo Rebelo uma divergência capital: ele não considera a questão ambiental prioritária, é mais um desenvolvimentista cego -- "preparado", mas cego.  

Uma década de decadência da democracia burguesa

Calma urgente faz um balanço da década marcada pelo ano de 2016, quando começaram grandes mudanças no Brasil e no mundo. Bem, eu não tenho instagrã e essa rede social é uma das marcas da década. Também não tenho feicibuque; tive, achei terrível e saí antes que começasse a reviravolta na internet. Qual é a reviravolta (que pode ser constatada em publicações deste jornalaico, no ar desde 2009)? É que a internet era um espaço de democratização da comunicação, consequentemente ocupada pela esquerda, pelas novas ideias, pela diversidade, pela crítica, pela criatividade, pela interatividade, pela liberdade, em resumo: por uma democracia de iguais. Isso aconteceu enquanto a internet não era um negócio rentável. Quando as empresas de tecnologia descobriram como ganhar dinheiro aqui, aquela alegre anarquia democrática acabou e a esquerda foi jogada para escanteio. Mais do que ganhar dinheiro, ou junto com isso, porque também na "vida real" funciona assim, essas empresas aprenderam como manipular o público e dominar o poder político, de uma forma nova e ampla como nunca tinha acontecido. E a internet se tornou o espaço da extrema direita. Simples assim. Bem, além de não ter instagrã e feici, e talvez também por isso, eu olhava para o mundo real e via outras coisas, tipo: quem colocou temer, o anão, lá foi Lula, quem escolheu Dilma foi Lula, quem disputou e venceu a reeleição (depois de ser contra ela, quando FHC a inventou para se beneficiar) foi Lula, quem quis continuar no poder impondo uma candidata sua, em vez de se afastar e deixar o PT seguir seu rumo e se renovar, foi Lula, quem transformou o partido dos trabalhadores num partido de um candidato só foi Lula, quem nunca teve um programa de esquerda para o Brasil e continuou a política neoliberal do FHC foi Lula. Enfim, Lula, que este ano vai disputar mais uma eleição, aos 80 anos, e continua sendo a única opção da esquerda brasileira, não é o herói da pátria. Poderia ter sido um grande presidente, apesar da sua política neoliberal, e nos poupado de muitos sofrimentos, e a ele também, se tivesse tido grandeza para sair de campo ao final do seu segundo mandato. Lula não é nenhum santo e nós, que nos curvamos à sua desastrosa liderança, também não somos. Nessa década em que tudo piorou nas nossas vidas, precisamos aprender pelo menos que o Brasil precisa de um partido e de lideranças de esquerda verdadeiras, que conquistem o poder para nos livrar da autoextinção que está cada vez mais próxima e começar a construção de uma sociedade em que os humanos vivam como iguais e em harmonia com a Natureza. 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Reflexões sobre esquerda, marxistas, comunistas e PT - 2

Diz o Manifesto do Partido Comunista, no seu capítulo II: 

“Os comunistas diferenciam-se dos demais partidos proletários apenas pelo facto de que, por um lado, nas diversas lutas nacionais dos proletários eles acentuam e fazem valer os interesses comuns, independentes da nacionalidade, do proletariado todo, e pelo facto de que, por outro lado, nos diversos estádios de desenvolvimento por que a luta entre o proletariado e a burguesia passa, representam sempre o interesse do movimento total”. 

Eu pergunto: considerando isso, o PT é um partido comunista? Obviamente, não. Não o sendo, por que os marxistas (isto é, comunistas) brasileiros não formaram ou formam uma facção dentro do PT, a facção comunista, que representa os interesses internacionais e totais dos operários, segundo esses pontos elementares seguidos pelos marxistas (comunistas)? 

Diz também o mesmo capítulo: 

“os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: abolição da propriedade privada”. 

Eu pergunto: qual foi a última vez que algum político brasileiro de esquerda falou em abolição da propriedade privada? 

E afirma ainda o Manifesto: “O poder político propriamente dito é o poder organizado de uma classe para opressão de outra”. 

Se isso é verdade, Lula e o PT são instrumentos de opressão dos trabalhadores em nome dos capitalistas desde que chegaram ao poder em 2003. 

Voltando ao começo: o Manifesto Comunista afirma o internacionalismo da luta operária. E faz isso com ênfase, num trecho crucial em que distingue o partido comunista de outros partidos operários em apenas dois aspectos, dos quais um é o internacionalismo. 

Na minha singela opinião, isso é um argumento decisivo a favor do Trotski e contra o "socialismo num só país" stalinista (e talvez também agora do Partido Comunista Chinês). Simpatizei com Trotski antes mesmo de ler livros seus e sua biografia escrita por Isaac Deutscher, nos quais se vê um intelectual gigante e um revolucionário autêntico. Ao mesmo tempo, não se pode ignorar que Trotski foi derrotado, o que não quer dizer muito. Quer dizer muito, porém, e merece reflexão profunda, o fato de mais de oitenta anos depois do seu assassinato a mando de Stalin o trotskismo não tenha revigorado e se tornado importante em nenhuma nação. Sempre lembro do brilhantismo da Libelu no movimento estudantil dos anos 70 e fico pensando como foi que aquele grupo tão lúcido degenerou, fornecendo quadros grotescos para o PT, o governo Lula e a imprensa burguesa, salvo exceções honrosas. 

Seja como for, o internacionalismo é uma característica essencial dos comunistas. E no entanto não existe hoje uma organização comunista internacional! O Manifesto é uma proclamação escrita por Marx e Engels para comunistas de várias nações europeias e não só europeias, é o manifesto de uma organização internacional, a "Primeira Internacional". Não à toa termina com a conclamação famosa: "Proletários de todos os países, uni-vos!". Houve depois uma Segunda Internacional, uma Terceira Internacional e uma Quarta Internacional, esta trotskista. Não há mais, o que significa que os comunistas abandonaram uma das suas duas características básicas. 

A mesma reflexão cabe sobre a segunda característica dos comunistas: além de internacionalistas, os comunistas "sempre representam os interesses do movimento em sua totalidade". E quais são esses interesses? Diz o manifesto mais adiante: "constituição do proletariado em classe, derrubada da dominação da burguesia, conquista do poder político pelo proletariado". 

Sendo assim, por que os comunistas, isto é, os marxistas, abandonaram qualquer pretensão revolucionária, qualquer trabalho de organização do proletariado como classe, qualquer intenção de derrubada da dominação burguesa, qualquer objetivo de conquista de poder político pelo proletariado? Por que trocaram, enfim, o projeto político revolucionário pela administração do Estado burguês? 

Considerando que hoje os interesses dos operários de todo o mundo são, em primeiro lugar e urgentemente, tomar o poder e salvar a espécie humana da extinção pelo capitalismo, por que os comunistas não assumem a liderança desse movimento internacional?  

Por que o trotskismo não foi capaz de evoluir, se organizar e conquistar as massas trabalhadoras num mundo cada vez mais caótico e necessitado de um projeto claro de revolução? 

Não sei, mas sei que não se pode chamar de comunista o stalinismo, assim como não se pode chamar de esquerda o PT. E que não há marxistas à altura das necessidades do movimento operário internacional neste segundo quarto do século XXI. 

Reflexões sobre esquerda, marxistas, comunistas e PT - 1

Hoje me parece mais evidente do que nunca que eu estava certo ao considerar um equívoco a criação de um partido de esquerda, que veio a ser o partido dos trabalhadores, com o objetivo de disputar as eleições burguesas. Eu pensava então que a esquerda devia se dedicar a organizar os trabalhadores em sindicatos e movimentos independentes, preservando sua força, que era então crescente, em greves e manifestações etc., e marginal à sociedade burguesa da ditadura militar, antes da Constituição de 1988. Organizar e liderar movimentos dos trabalhadores seria preparar a estrutura política de uma sociedade pós-capitalista. Enquanto isso, essa vasta organização operária deveria negociar com todos os partidos burgueses e seus candidatos, trocando eventualmente votos por conquistas e benefícios. Organizar um partido e entrar na disputa burguesa significava aderir ao Estado burguês, acreditar na democracia liberal e até administrar o capitalismo para a burguesia, o que acabou acontecendo, de forma que o PT e Lula tornaram-se não só o partido e o político burgueses brasileiros por excelência no século XXI, como também alvos da extrema direita que ataca a democracia burguesa. Não é curioso, além de absurdo, que a extrema direita entranhada no capitalismo até o pescoço mobilize massas para uma revolução contra o Estado burguês, identificado com um partido e um líder de esquerda? Não é evidente a origem disso?

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Música do dia: Pois é, Chico Buarque

Muitas canções me tocam por um verso, uma ideia, uma palavra até. Algumas expressam o que eu sinto do começo ao fim. Chico falou por mim. Gênio. 

The day John Lennon died

No dia em que John Lennon morreu eu perdi a esperança na espécie humana. Eu já tinha descoberto, aos dezessete anos, que o mundo é absurdo, que a ideologia na qual acreditamos não corresponde à verdade. Aos vinte anos tive a confirmação do absurdo ao levar uma pedrada no olho, dentro de um trem, voltando de um acampamento no qual passei dias deliciosos, entre o Natal e o ano novo; sofri muito, passei por cirurgias, perdi a vista. Quando John Lennon foi assassinado, eu compreendi o poder do mal, não o mal dos governos, dos proprietários, dos militares, que eu já conhecia, não o mal que se contrapõe ao bem, religioso, ideológico, mas o mal individual, estúpido, leviano, banal, o mal que cega e mata.