domingo, 19 de julho de 2026

Melhor do que a final da Copa

A disputa do terceiro lugar, Inglaterra 6 x 4 França, foi sensacional, mas, no momento em que escrevo, intervalo do primeiro para o segundo tempo (tem que explicar, porque agora futebol tem um punhado de intervalos...), essa aula do Breno Altman sobre o futebol é muito melhor do que a final da Copa entre Espanha e Argentina. 

É interessante ouvir uma análise muito diferente daquela que eu publiquei aqui no dia 11. Altman, que acompanha futebol muito mais de perto do que eu, tem um olhar e informações que eu não tenho e faz comentários e propostas interessantes. O que eu disse oito dias atrás é o óbvio para mim: a fase de ouro do futebol brasileiro, de 1950 a 1970, que se estendeu ate a Copa de 1982 e àquela geração de jogadores, que jogou ainda, em nível inferior, em 1986, se deveu a condições sociais específicas, o futebol moleque jogado por todos os meninos brasileiros nos inúmeros espaços públicos e privados existentes nas cidades brasileiras em crescimento a partir da Revolução de 1930. Ou seja, era parte do projeto desenvolvimentista nacional. Em certo momento, essas condições acabaram. Hoje, os meninos moram em apartamentos, não existem quintais, lotes vagos e campos de várzea, as famílias têm poucos filhos, não há aquelas turmas de rua, a meninada não sabe o que é jogar bola o dia inteiro, não há quantidade nem qualidade para formação de craques, jogar bola não é uma brincadeira de moleques. Meninos (e meninas, cada vez mais) que quiserem jogar bola terão que jogar em clubes ou escolinhas, futebol de salão, soçaite ou de campo. O jeito brasileiro de jogar bola se curvou ao jeito europeu, o esporte foi dominado por empresários que formam jogadores para exportação, jogador brasileiro virou commodity: empresários os vendem ainda crianças para clubes europeus que tratam de industrializá-los e revendê-los a peso de ouro para o mundo inteiro, nós inclusive, em campeonatos vistos pela televisão e internet. Há muito mais coisas em torno disso, mas o essencial na minha opinião é que as condições sociais mudaram. Para completar, o governo petista elitizou os estádios para cumprir as exigências da Fifa para a Copa de 2014, de forma que o povo também perdeu a paixão que tinha pelo esporte. E não tem vínculos com a seleção, porque os convocados não jogam nos clubes brasileiros, jogam em clubes europeus. De forma que o futebol somente conserva um enganoso prestígio porque há enormes interesses comerciais envolvendo-o, mas a "pátria de chuteiras" já não existe mais. 

No novo contexto do esporte, para que a Seleção e os clubes voltem a fazer parte da vida do povo e para que os brasileiros voltem a praticá-lo com paixão, será preciso uma revolução, como em tudo mais nessa decadente nação. O futebol brasileiro precisa renascer praticamente do zero. Em primeiro lugar, o Estado precisa implantar uma política pública de futebol nas escolas infantis e de ensino fundamental, médio e universitário, bem como precisa criar campos e espaços em parques em todos os bairros para a prática do futebol, não só campos oficiais, mas também de terra e gramados para se jogar pelada, jogos com qualquer número de jogadores, informais, brincadeiras. Os estádios precisam ser repensados e reformados para que conforto não signifique ingresso caro e afastamento do povo dos estádios. Os campeonatos em todos os níveis devem ser organizados com seriedade, amadores, profissionais, municipais, estaduais, nacional, e neste, obviamente, para que mereça o nome, é preciso que joguem clubes de todos os estados, não só os do Leste, Sul e mais uns poucos. Como é que uma nação que tem 26 estados e um distrito federal pode ter um campeonato com 20 clubes? É só para copiar, em mais uma coisa, os campeonatos europeus. Enfim, para que o futebol brasileiro volte a empolgar torcedores e brilhar no campo, terá de começar uma nova fase, organizada, planejada, voltada para a coletividade. A fase de ouro do futebol moleque espontâneo passou e a fase da bagunça e da corrupção precisa ser superada. 

PS: A final da Copa de 2026, uma copa que teve jogos sensacionais e seleções brilhantes (torci pela Inglaterra, pela qualidade do seu time) e ao mesmo tempo foi marcada mais que nunca pela interferência de interesses políticos e comerciais (onde já se viu um presidente de país sede cancelar um cartão vermelho para um jogador da sua seleção? Que vergonha), terminou e a Espanha se tornou bicampeã vencendo por 1 a 0. Foi um jogo horroroso, mas pelo menos a Argentina, que quase não pegou na bola e não deu um chute a gol, não foi campeã. Se fosse, eu não ia mais querer ver jogos de copa do mundo. 

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