domingo, 19 de julho de 2026
Música do dia: Aqui, oh!, com Milton Nascimento e Toninho Horta
A letra é do Fernando Brant (não sei quanto TH, autor da melodia, participou dela). Sempre identifiquei essa música com a peça Oh! Oh! Oh! Minas Gerais, de J. D'Ângelo e Jonas Bloch, mas parece que não têm relação, embora contemporâneas, o fim da década de 1960. F.B. é o grande poeta da sua geração mineira, escreveu sobre os sentimentos mineiros, especialmente dos jovens. Sair de Minas sempre foi uma obsessão dos mineiros. Minas é muitas e Belo Horizonte é uma cidade artificial e fascinante para os do interior, porque moderna, mas limitada, e por isso só local de passagem para grandes artistas, feito Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, autor da definição supracitada, Fernando Sabino e outros. Além de políticos, como Juscelino Kubitschek. A fixação com o mar, o Rio de Janeiro, então capital e sempre a cidade maravilhosa, símbolo do país. Foram e não voltaram, assim como o Clube da Esquina, mas então começou uma coisa diferente, naquela geração: alguns ficaram, alguns voltaram. Na minha geração nasceu uma espécie de movimento de afirmar a permanência em Belo Horizonte, em Minas: não era preciso sair para fazer sucesso. Galpão, Corpo, Ponto de Partida, Skank, Pato Fu etc., reorçados pelos do Clube da Esquina que ficaram ou voltaram. "Quem sai da terra natal em outros cantos não para", cantou Fagner, do Pessoal do Ceará, outro bando de migrantes, do Nordeste para a metrópole. O que significa isso? Jornalista, conheço muitos que foram para São Paulo e para o exterior e nunca voltaram. Independentemente da profissão, sair da terra natal é um empreendimento aventureiro e doloroso ao mesmo tempo. Estranho num lugar, o que resta ao migrante? O trabalho, as relações profissionais, as amizades. É preciso encontrar um amor, casar, ter filhos, formar família, criar raízes no lugar. Nós, brasileiros, temos experiências de migração, todas elas forçadas, aforas as citadas aventureiras: os indígenas, obrigados a fugir dos europeus colonizadores para o interior, para a floresta; os africanos, trazidos à força para trabalhar como escravos na agricultura exportadora; os operários europeus em busca de trabalho no Novo Continente; os nordestinos fugitivos da seca. Os mineiros do norte também fazem essa migração forçada. Samba de Orly: o Rio de Janeiro é o oposto: os cariocas querem voltar. Quem conhece o Rio de Janeiro sabe que é um lugar grandiosamente encantador. O mundo certamente tem outras cidades assim, que não conheço. No entanto, no que transformamos o Rio? O mesmo posso dizer de Belo Horizonte, que, artificial, poderia ser uma cidade maravilhosa também, sem seu crescimento fosse planejado como a construção. O que fizeram dela?
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