Patrus Ananias foi o prefeito mais importante de Belo Horizonte desde Juscelino Kubitschek. Implantou o Orçamento Participativo, instrumento revolucionário de políticas públicas, copiado pela esquerda dos EUA. Sua trajetória normal, como tantos prefeitos da capital, entre eles o próprio JK, seria tornar-se governador logo em seguida, mas alguma coisa aconteceu no caminho e a ascensão do Patrus foi interrompida.
O que aconteceu foi a eleição de Itamar Franco governador em 1998, um fenômeno pouco estudado e que teve consequências decisivas para a política mineira, uma delas, percebo agora, o golpe na ascensão do Patrus. Outra consequência nefasta eu já tinha notado há muito tempo: em 2002, Itamar abriu mão da reeleição, não sei por que, e ungiu Aécio Naves, um governador eleito e reeleito que deixou péssima herança estadual, no seu estilo de governar, e nacional, ao dar sinal para o golpe, depois de perder a presidência para a Dilma, em 2014. Itamar está na origem de todos esses males.
Sempre que faço retrospectos como este, constato que nossa ciência política é superficial, pois não analisa as consequências do jogo político, das decisões, dos atores, e assim perdemos o sentido da história. História. Não só a eleição de 1998, mas a própria trajetória do esquecido e desvalorizado Itamar é um fenômeno que merece estudo. Um político em particular e um indivíduo em geral não são importantes só por suas obras, mas também pelos acontecimentos que influenciam. Itamar tomou decisões arriscadas e foi premiado pela sorte, desde que se elegeu senador em 1974, quando ninguém mais quis disputar, porque era derrota certa. E depois tornando-se vice do Collor, o que o levou à presidência, com o impeachment de 1992, e ao patrocínio do decisivo e definitivo Plano Real, sob sua presidência.
Como julgar Itamar Franco? Ele foi o senador destemido eleito pelo MDB em 1974, estrela mineira numa eleição memorável que começou a mudar o jogo contra uma ditadura militar que já durava uma década. Foi também o vice do Collor. Foi o presidente que implantou o Plano Real, acabou com a inflação e deu ao Brasil os melhores anos da sua história recente, quando um real valia um dólar. Ungiu FHC como seu sucessor, mas quatro anos depois, como oposicionista, decidiu concorrer ao governo de Minas e foi eleito. E em 2002 abriu mão da reeleição e ungiu Aécio.
A eleição de 1998 foi singular, opôs Itamar a FHC no cenário nacional e no cenário estadual. FHC ganhou a eleição nacional, foi reeleito, mas Itamar ganhou a eleição estadual, derrotou o candidato tucano, apoiado por FHC, que também tentava a reeleição. A disputa normal naquela eleição seria entre Eduardo Azeredo, o governador tucano, e Patrus, do PT, ex-prefeito da capital, político com grande prestígio em ascensão, que tinha feito seu sucessor na prefeitura, em 1996, Célio de Castro. Azeredo deveria ter sido reeleito, como foi FHC, Patrus iria para o segundo turno e formaria cacife para vencer em 2002, juntamente com Lula. A história de Minas e do Brasil seria outra, mas Itamar embaralhou o jogo, com seu prestígio de ex-presidente, tirou Patrus do segundo turno e venceu Azeredo.
A política, como a própria vida, é um jogo de xadrez: cada peça mexida muda o jogo. Itamar mudou o jogo em Minas e consequentemente no Brasil, ao interromper a ascensão do íntegro Patrus e catapultar o indigno Aécio. Itamar é uma figura singular na política brasileira (nunca foi só um político mineiro, porque, desde o mandato de senador, teve sempre projeção nacional), ao mesmo tempo coerente e imprevisível, emedebista histórico que saiu do partido duas vezes (e voltou), fez seus sucessores na presidência e no governo estadual, abriu mão de ser candidato à reeleição, foi governador depois de ser presidente, nacionalista e entreguista, baiano e mineiro, nascido num navio, mulherengo afeito a ridículos (quem, a não ser os mais jovens, não se lembra do episódio da atriz fotografada sem calcinha do seu lado no camarote presidencial durante desfile de escolas de samba no carnaval carioca?), enfim, um político contraditório, errante e bem-sucedido, que nunca gozou da simpatia da mídia e foi mesmo espezinhado pela imprensa paulistana.
No fim das contas, pelas consequências dos seus atos, Itamar Franco (1929-2011) foi um político nefasto para o Brasil: nos legou o Real, que, de plano para controlar a inflação, tornou-se política econômica que fez o país retroceder a colônia agroexportadora; nos legou FHC, que, além de transformar o Real em política econômica, inventou a reeleição corrompida; nos legou Aécio Neves, um desastre para Minas Gerais e para o Brasil; e de quebra impediu a ascensão do Patrus, que certamente teria tornado muito melhor a história de Minas e provavelmente a do Brasil.
A última vez que entrevistei Itamar Franco foi em janeiro de 2010, numa breve passagem pelo diário Hoje em Dia. Eu o procurei, não encontrei, deixei recado e ele retornou, pessoalmente. Lembro que alguém gritou na redação: "O presidente Itamar quer falar com você". Não era uma deferência especial, acho que ele era assim com todos os jornalistas, pois eu mal o conhecia. Ademais, em 2010, sem mandato, no auge da Era Lula e do reinado Aécio, quem ligava para Itamar? Só mesmo um jornalista na seca de notícias de janeiro, buscando repercussão de um assunto no qual ele tinha tido papel importante e que não lembro mais qual era. Ex-presidente sempre rende notícia de primeira página, mesmo que não diga nada importante. Minha primeira chamada de capa no JB foi com matéria sobre o ex-presidente Figueiredo, um ano depois que deixou o cargo, pedindo para ser esquecido: o povo tinha atendido seu pedido. Lembro da conversa com o ex-presidente Itamar: atencioso e simpático, falou sem pressa sobre tudo que eu perguntei e, ao se despedir, ainda disse que poderia lhe telefonar sempre que precisasse.
A eleição de Patrus governador em 2026 seria um recomeço da história de Minas com atraso de quase três décadas. Parece impossível. Ele não conseguiu nem se eleger novamente prefeito, em 2012. E nessa história entram outras peças do xadrez político: a esdrúxula e fratricida divisão do PT mineiro, que tinha do outro lado o ex-governador Fernando Pimentel, de triste memória, herdeiro bem-sucedido e mal-agradecido do Patrus. Foi em 2012 que o mundo acabou, conforme a profecia. Eram outros tempos, animadores ainda, mas já sob a deletéria administração Lacerda, o prefeito de rima fácil. A derrota do Patrus foi um sinal de que estava por vir. Todavia, tantas coisas inacreditáveis aconteceram depois para o mal, por que não pode acontecer uma para o bem, agora?
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