Parece uma pergunta de difícil resposta, desde os anos 1970. Nildo Ouriques faz parte de uma tradição política da qual participei na juventude, originária da Polop, a única tentativa de formular um caminho brasileiro para a revolução socialista e cujo maior expoente foi o cientista social mineiro Ruy Mauro Marini.
Em 1970, a ditadura militar estava no auge. O Brasil ganhou a Copa do Mundo do México, o "milagre econômico" deslanchava, o país crescia em índices chineses, o movimento estudantil de 1968 tinha sido derrotado, a esquerda revolucionária foi esfacelada, a oposição do fascismo estava morta, presa, clandestina ou exilada. Teve eleição parlamentar naquele ano, a ditadura sempre fingiu que era uma democracia burguesa, e grande parte do povo, que não é bobo, votou nulo. O partido do governo, a Arena, saiu amplamente vitorioso, e o partido da "oposição", oposição consentida e castrada, o MDB, convenceu poucos eleitores. A ditadura deitava e rolava na propaganda do "país que vai pra frente", "ame-o ou deixe-o", um slogan precursor do "Vai pra Cuba!", que os neofascistas recuperaram. Eles se repetem sempre, sem qualquer criatividade, porque são, acima de tudo, indigentes mentais e débeis morais.
Quatro anos depois veio outra eleição e a surpresa: em apenas quatro anos, o humor popular tinha mudado e seu voto migrou, em grande parte, para o MDB. Em Minas, elegeu para o Senado Itamar Franco, que viria depois a ser presidente. A esquerda sobrevivente se dividiu: pregar o voto nulo, reforçando a tendência popular em 1970, ou apoiar "candidatos autênticos" da "oposição" MDB. A maior parte fez essa opção, a minoria, praticamente apenas os remanescentes da Polop, pregaram o voto nulo. A ditadura levou um susto e o MDB passou a ser um novo espaço de atuação institucional da esquerda, que foi aos poucos estreitando seu laços com o que havia de descontentamento na burguesia e na pequena burguesia. A divisão da esquerda nunca se refez, os "democratistas" prevaleceram e a Polop se autodissolveu.
A eleição de 1974 foi o primeiro sinal de que a ditadura ia acabar algum dia. Isso porque a situação econômica mundial que sustentava o "milagre brasileiro" tinha mudado, com a crise do petróleo, que disparou a dívida brasileira. Pouco antes, o novo presidente ditador, Geisel, então presidente da Petrobrás, tinha decidido não investir em tecnologia e pesquisa, considerando que não valia a pena, pois o preço do petróleo era muito baixo. Foi um erro crucial. E olha que a ditadura tinha um plano de desenvolvimento econômico, um projeto de industrialização, baseado em empresas estatais; o Brasil nunca teve tantas "brás" quanto nesse época. Os militares chegaram até a começar um programa nuclear, o que levou a atritos com os EUA e perda de apoio, outro motivo para enfraquecimento do regime.
O fato é que a ditadura foi incompetente em relação ao petróleo e nunca mais se recuperou, foi só descendo a ladeira, vendo a inflação crescer e a oposição também, se dividindo entre "aberturistas", favoráveis a uma abertura política lenta, gradual e segura, e a linha dura, favorável ao fechamento total. O processo foi uma agonia longa e os militares da linha Geisel se impuseram e levaram tudo, no fim, voltando para os quartéis sem qualquer punição, cheios de privilégios, impondo sucessivas derrotas à oposição, que acabou engolindo, como primeiro presidente civil, um político da ditadura, e, como primeiro presidente eleito pelo voto direto, outro político de direita apoiado pela Globo. Depois vieram o governo Itamar Franco e a estabilização da economia, com o Plano Real, a eleição de FHC e sua adesão ao Consenso de Washington, que implantou o neoliberalismo na América Latina, e a promessa do Lula de que, se fosse eleito na quarta tentativa, seguiria na mesma toada, o que cumpriu.
Agora o voto nulo ressurge, diante de uma interpretação da realidade em que parte da esquerda, aquela mesma herdeira do voto nulo de 1974, diz que, seja com Lula, seja com o bozo, ou seu filho, pouco muda no país e que é preciso buscar outro caminho, o da revolução. É um dilema: não há dúvida de que é melhor viver num governo minimamente civilizado, como o do Lula, do que num desgoverno que liberou todos os crimes, como foi o do bozo. Também é certo, por outro lado, que enquanto a alternativa ao fascismo for Lula, o Brasil e a vida dos brasileiros dificilmente vão melhorar.
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