quarta-feira, 25 de abril de 2018

Ana Júlia, ou a esperança, dois anos depois

Não, Ana Júlia não foi ouvida pelos senadores, o movimento estudantil não foi ouvido. Ana Júlia representa o futuro, democrático, melhor. Os senadores são o passado tentando continuar presente, e o golpe foi feito para manter e fazer voltar atrás. E sujaram as mãos por vinte anos -- eles não se importam em ter as mãos sujas. A violência policial também continua e aumentou, porque só assim o velho consegue se perpetuar. O novo precisa reafirmar, dois anos depois, o que Ana Júlia e os estudantes de escolas públicas disseram. Só que agora precisa também entender que não basta denunciar, não basta resistir, é preciso derrotar os de mãos sujas e construir o novo com as suas mãos, com as mãos dos que têm mãos limpas.

Ana Júlia, das ocupações de escolas à vigília Lula Livre, o sonho de justiça 

Dois anos depois de despontar no movimento secundarista, Ana Júlia Ribeiro segue ativa por uma “democracia de verdade”. Ela compara as lutas da geração 68 às de sua geração.

Por Cláudia Motta, para a RBA. Publicado em 25/4/18, 9h57

Curitiba – Aos 16 anos, ela se encheu de coragem e subiu ao plenário da Assembleia Legislativa do Paraná para um contundente discurso em defesa da Educação, durante o movimento secundarista que promoveu mais de 800 ocupações em escolas estaduais. Era outubro de 2016.

Hoje, prestes a completar 18 anos em junho, Ana Júlia Ribeiro cursa Filosofia na Universidade Federal do Paraná (UFPR), Direito na PUC-PR e trabalha no Instituto de Defesa da Classe Trabalhadora (Declatra). Quase dois anos depois de ver sua vida transformada, a jovem estudante segue sua trajetória de ativismo por justiça social.

Em visita o acampamento Lula Livre, no último fim de semana, Ana Júlia conversou com a reportagem da Rede Brasil Atual. Divertiu-se ao lembrar a repercussão de uma outra fala da então ainda secundarista a parlamentares, dessa vez na Comissão de Direitos Humanos do Senado, em outubro do ano passado: “Quando cheguei à escola, a galera gritava, Katniss, Katniss”.

A brincadeira dos colegas era uma referência à guerreira Katniss Everdeen, personagem de Jeniffer Lawrence no filme Jogos Vorazes, que usa o cabelo preso numa trança. “Ela tem todo um rolê de lutar, levar esperança para as pessoas. Daí quando fui falar no Senado, a galera queria que eu fosse falar de trança e eu fui. Daí me apelidaram de Katniss.”

No Senado, Ana Júlia integrava um grupo de professores e estudantes em missão contra a aprovação da PEC 241, determinando corte de gastos sociais por até 20 anos. A emenda constitucional acabou aprovada.

Não foi só o apelido que Ana Júlia ganhou após as ocupações, mas o reconhecimento nacional. “Depois das ocupas e depois que eu fiz o pronunciamento na Assembleia, o horizonte da minha vida se ampliou”, conta.

“Consegui ter uma visão melhor do que eu gostaria de fazer e por que eu queria fazer. Tudo que eu faço e vou atrás é sempre almejando justiça social, educação pública de qualidade, diminuição da desigualdade, erradicar a desigualdade”, define. “Acredito que todo esse processo depois das ocupas – de uma imersão política muito grande, participei de muita mesa, muito debate –, tudo isso traz um conhecimento, uma visão do mundo que aprofunda o que eu já tinha antes.”
Democracia mais que no papel

O ano passado foi então intenso. “Esse ano que passou me ajudou a perceber que o que eu quero é um país soberano, de justiça, democrático. Não só numa linha de papel que está escrita lá República Federativa do Brasil, regime democrático. Não quero só isso. Quero uma democracia de verdade em que esteja inserida a negritude, a comunidade LGBT, as mulheres. Uma democracia onde as pessoas não vão ser presas antes do trânsito em julgado. Esse processo político ajuda, não só no sentido teórico, mas muito mais no sentido de vivência, de prática, de afeto. Isso, junto com a teoria, é o que consegue nos mover pela construção dessa sociedade.”

A estudante chega ao acampamento Lula Livre sempre acompanhada de sua mãe, Maria Ribeiro, a Nina. A relação é afetuosa como o sentimento que move o acampamento, coordenado majoritariamente por mulheres. Ana Julia atribui a essa presença feminina à força da vigília que já dura mais 18 dias.

“A presidenta da CUT do Paraná é uma mulher, a Regina (Cruz), que está na ponta disso. A presidenta do partido é a Gleisi (Hoffmann), que está na frente. Na questão de cultura está ali a Anaterra Viana. Acho que é inclusive isso que faz esse espaço ser tão aconchegante e também tão diverso. Faz o acampamento estar crescendo, se mantendo”, afirma.

Para Ana Júlia, o protagonismo feminino dá ritmo e consegue dar uma pauta identitária ao movimento. “São ela que conseguem fazer os debates LGBT, do feminismo, os debates da negritude que a esquerda tá tão carente. Essa coordenação ser feita por mulheres está muito bonito. E a cada dia se acentua como isso é importante e como o papel que elas estão desempenhando vai entrar para a história, com certeza, como o papel de quem lutou pela democracia.”

Secundas no mundo do trabalho

Ana Júlia considera difícil falar sobre o que restou do movimento secundarista de dois anos atrás. “Eu vejo muitas coisas boas, e às vezes tenho medo de elas estarem se perdendo. E ao mesmo tempo acho que elas não estão se perdendo, mas amadurecendo. Acho que foram o pontapé de algo muito melhor que tem por vir”, acredita.

Por exemplo, compara ela, a juventude que presenciou e conduziu os movimentos de 1968 foi “a galera” que fez esses últimos anos de governo. “Essa geração influenciou nas Diretas Já. Então, talvez a gente que fez o movimento de 2016 vá ser a galera que em 2025 vai fazer muita coisa, em 2030 vai fazer mais coisa ainda”, almeja. “Ao mesmo tempo dá às vezes um pouquinho de dor por não estar vendo isso agora, queria que fosse mais imediato.”

A estudante mantém o olhar crítico que, aos 16 anos, a permitiu sustentar o tom firme diante dos parlamentares da Assembleia do Paraná, do Senado e em todos os debates dos quais participou em defesa da educação pública e de qualidade.

“O sistema para entrar na universidade é muito injusto, e muito seletivo, então não posso dizer que a maioria dos secundas esteja numa universidade. Mas uma grande parte sim, está ocupando vagas nas públicas. Estamos lá batalhando, estamos por bolsa de ProUni, ralando numa federal, querendo ocupar esse espaço, se formar e se preparar para o que virá depois. Fazer uma outra construção de país”, diz.

“Mas no geral, muitos estão trabalhando, fazendo cursos. Não posso falar que todo mundo está numa universidade. O acesso é pouco, o incentivo que se tem ainda é pouco e a forma como a educação é passada não faz com que a maioria da população que tem menos oportunidade queira continuar estudando. A educação é muito mais maravilhosa do que o que a gente tem na escola”, acredita.

Ela tem uma visão crítica à ideia de que a gente precisa de uma formação para atender ao “mercado”. “A gente precisa de formação em todos os sentidos.”

A líder dos ocupas enxerga com preocupação o papel do discurso de “empreendedorismo”, como eufemismo para a desregulamentação das relações de trabalho, um “massacre pelas engrenagens da sociedade” pós-golpe.

Não por acaso, Ana Júlia fala com orgulho de seu trabalho de assessoria da advogada Mirian Gonçalves, no Instituto Declatra, ex-vice-prefeita de Curitiba. “É um trabalho muito importante. Ele visa a um objetivo muito legal: entender o que é a classe trabalhadora, entender o que passa, o que sofre e como está sendo afetada nesse processo que a gente está tendo de retirada de direitos.”

A organização do livro Enciclopédia do Golpe – O papel da mídia está entre as atividades do Declatra. “A gente explica, conversa com o leitor sobre o papel da mídia brasileira durante o processo de impeachment, qual está sendo agora, durante o momento político que a gente está vivendo.”

O Declatra articula a presença de juristas nos atos do acampamento Lula Livre. “Para conseguir falar o que é esse processo para mais do que a gente já sabe politicamente, mas também juridicamente.”

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