sábado, 21 de abril de 2018

Um testemunho a favor do jornalista Márcio Fagundes

E uma reflexão sobre o estado de exceção que os jornalistas estão ajudando a criar 

O jornalista Carlos Barroso ofereceu ao advogado do jornalista Márcio Fagundes um testemunho a favor do seu cliente. Barroso, assim como muitos jornalistas, está aflito com a situação do amigo, e tem um testemunho valioso para a defesa do ex-coordenador de Comunicação da Câmara Municipal de Belo Horizonte.

A amizade entre Barroso e Fagundes pode ser vista nas fotografias da festa de aniversário de 60 anos do segundo, numa bela casa no luxuoso condomínio Retiro das Pedras, publicadas no Facebook pelo jornalista João Carlos Amaral. O testemunho de Barroso é simples, mas elucidador.

Ele tem um programa de entrevistas no canal de televisão por assinatura BH News, do qual participam, como convidados e entrevistados, outros jornalistas. Há alguns anos convidou Márcio Fagundes para participar de um programa e depois de outros. Um dia, Fagundes, que viveu seu auge profissional como assessor de imprensa do governador Hélio Garcia, agradeceu a Barroso ter sido lembrado por ele, pois a participação no programa o colocou em evidência outra vez, depois de algum tempo meio sumido da imprensa – fato comum no jornalismo e na nossa sociedade.

Pensando nisso, quando Fagundes assumiu a coordenação de Comunicação na Câmara, na gestão Wellington Magalhães, e precisando de patrocínio para seu programa, Barroso procurou o amigo, pleiteando publicidade do legislativo da capital. A resposta de Fagundes, segundo Barroso: “Barroso, eu te devo um favor e gostaria de te ajudar, mas não decido sobre publicidade, esse assunto fica nas mãos do presidente Wellington Magalhães. Se você quiser falar com ele...”

Barroso não quis falar com o presidente da Câmara e o assunto terminou ali; o programa nunca teve publicidade da Câmara Municipal de Belo Horizonte.

O testemunho corrobora a versão de Fagundes, que assinava as ordens de publicidade da Câmara, atribuição do cargo que exercia, acrescentando a observação: “ordem do presidente”.

O trabalho dos jornalistas e o da polícia têm semelhanças, na investigação dos fatos, mas a responsabilidade desta não é menor do que a daqueles. Uma rápida apuração indica que a bela casa no Retiro das Pedras na qual comemorou seu aniversário, cercado de jornalistas e políticos, não pertence a Márcio Fagundes. Ele não ostenta sinais de enriquecimento ilícito – e foi preso num apartamento modesto no qual mora, na zona sul de Belo Horizonte.

Se fosse desonesto, Fagundes teria ficado rico quando era assessor do governador Hélio Garcia, não teria voltado a trabalhar como jornalista em redação e assessorias. Elementar.

Qual a participação de Fagundes no “esquema de corrupção” na Câmara da capital? Por que prendê-lo, enquanto o “chefe da quadrilha” continua solto? Que provas a polícia e o ministério público têm contra o jornalista? São perguntas que imediatamente vêm à cabeça de qualquer repórter.

A pompa do nome da operação Sordidum Publicae já é parte do modus operandi policial dos tempos atuais. Dá aparência de seriedade e erudição ao espetáculo. Fico pensando em quantos juízes, procuradores e delegados conhecem latim de fato para bolarem essas preciosidades.

Uma rápida busca no Google sobre o assunto já dá motivo à reflexão dos jornalistas sobre o non sense da prática policial atual e, consequentemente, da imprensa sensacionalista. Toda aquela ação espetacular rendeu a seguinte manchete no portal da Globo: “Wellington Magalhães, ex-presidente da Câmara de BH, e mais sete são alvos de mandado de prisão”.

Notemos: a manchete não pode afirmar que o ex-presidente da Câmara foi preso, mas apenas que é “alvo de mandado de prisão”! As imagens, no entanto, são de prisões! A imprensa sensacionalista precisa de imagens de prisão! Mas o “cabeça” da “quadrilha” não foi preso! Há portanto um choque entre o nome que torna a operação grandiosa (o ex-presidente da Câmara) e o fato (prisões, mas não a dele)! Basta isso para que o espetáculo perca a importância jornalística que lhe foi dada.

O que o noticiário mostra de fato, apesar de todo o aparato midiático? O fracasso da operação, uma vez que o “cabeça” não foi preso – Wellington Magalhães está “foragido”. E sua mulher também já foi solta.

Enquanto escrevo, Márcio Fagundes continua preso no Ceresp da Gameleira. Passsei por lá ontem a caminho do Cemitério Parque da Colina e a imagem externa é assustadora – o consolo é que de lá as pessoas um dia saem, e do Colina, não.

Criminosos devem temer o Ceresp – e os inocentes? Como serão compensados pelos dias inesquecíveis que permaneceram naquele lugar?, fiquei pensando. Em que condições psicológicas sairão de lá? E a humilhação? E a reputação? E os danos aos filhos, aos parentes? No caso específico de Márcio Fagundes, ele recebeu mais uma condenação: foi exonerado do seu emprego no Tribunal de Contas do Estado. E no entanto, leiam-se as notícias: ele é suspeito! Não foi condenado, não foi julgado, não foi sequer acusado. Trata-se por enquanto apenas de um inquérito policial.

No centro da operação está a “prisão preventiva”. É ela que possibilita as ações espetaculares da polícia e as imagens sensacionais para a imprensa.


Como bem observaram os parlamentares da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa que visitaram Fagundes na prisão, além do seu advogado, não existiam as condições exigidas para a prisão preventiva do jornalista: ameaças a testemunhas, risco de fuga, destruição de provas etc. No entanto, ele foi preso com estardalhaço. 

Notícia do dia seguinte à prisão informa que Márcio Fagundes teria dito aos parlamentares: “Vou provar minha inocência”. Ora, o próprio jornalista se confunde diante da situação terrível em que foi jogado: ele não tem de provar nada, a polícia é que tem de provar sua culpa!

A prisão preventiva virou ao avesso a justiça brasileira: agora é o acusado que tem que provar ser inocente, não é mais o Estado – representado pela polícia e pela promotoria – que tem de apresentar provas! Depois que um procurador da República afirmou em coletiva de imprensa – sempre para a imprensa! – que ele não tinha provas contra o ex-presidente Lula, mas tinha convicção, tudo se tornou possível.

A ditadura militar, com seu aparato de torturas, certamente foi pior do que o estado de exceção atual, mas foi mais cruel? Ser preso político tem uma auréola heroica, já ser preso por corrupção desmoraliza irremediavelmente o sujeito. Lembremos que Juscelino Kubitschek – o mais popular candidato à presidência depois do golpe de 64, tido como praticamente eleito na eleição que deveria acontecer em 1965, graças à memória do grande governo que realizou no quinquênio 1956-1960 – foi cassado, preso e processado por corrupção.

O método da direita de desmoralizar adversários políticos não é novo. JK não podia ser acusado de “comunista”, o jeito foi afastá-lo sob acusação de corrupto. Tampouco a maldade da direita pode ser subestimada: ela é capaz de golpear de morte aqueles que a ajudaram a prosperar. JK garantiu os votos no Congresso que deram aparência de legalidade à presidência do primeiro ditador general, Castelo Branco. Lula e Dilma, enquanto presidentes, deram do bom e do melhor aos empresários patéticos da Fiesp, à Globo, aos banqueiros, aos ruralistas, ao PMDB.

Os jornalistas que correram para registrar a prisão espetacular do colega, graças não à qualidade da sua apuração, mas a informações privilegiadas da polícia, devem refletir sobre o episódio. Que trabalho é esse? A imprensa tornou-se instrumento auxiliar da polícia, do ministério público e dos juízes que não querem só exercer suas funções de apurar crimes e punir criminosos, querem transmitir à “opinião pública” a imagem de um combate implacável à corrupção, a imagem de que são eles e mais ninguém os paladinos da moralidade pública. No polo oposto estão os políticos e a política.

Os jornalistas precisam refletir sobre suas responsabilidades, sobre o valor da liberdade, sobre o direito, a lei, sobre a democracia, enfim. Que sociedade é essa que está se formando à nossa volta e para a qual a imprensa vem colaborando? Uma sociedade em que os políticos são vilões e policiais são os mocinhos... Juízes, promotores e policiais truculentos, que não foram eleitos, movidos por suas convicções, e não pela lei, protegem a sociedade daqueles que a sociedade elegeu pelo voto direto, de acordo com a lei!? Tem alguma coisa errada nisso.

Os jornalistas precisam refletir sobre a cumplicidade – para ficar num termo policial – da imprensa, e consequentemente dos jornalistas, com o ambiente de exceção no qual vivemos hoje, parte fundamental do que os mais lúcidos chamam de golpe, que começou com a campanha do impeachment, se efetivou com o afastamento da presidenta eleita pela maioria, culminou com a prisão do melhor presidente do Brasil em mais de meio século e vai parar sabe Deus quando.

Tudo que escrevi acima foi com base em notícias que li e vi na internet e no testemunho do jornalista Carlos Barroso. Não é o ideal, gostaria de escrever como na época em que estava na ativa e presenciava fatos, entrava em repartições, entrevistava fontes, apurava com mais precisão. É disso que sinto falta ao ler o noticiário. Parte do jornalismo morreu com o golpe; a imprensa atual funciona, por um lado, como assessoria de imprensa oficial, focando no que a polícia, o ministério público e juízes querem que seja mostrado e afirmado; por outro lado, como máquina publicitária de um produto que ninguém sabe ao certo qual é, mas que precisa ser vendido com estardalhaço.

Jornalista não é publicitário nem assessor de imprensa, seus compromissos são outros: com a verdade, com a informação correta, com o público, com a sociedade. Precisa refletir sobre as notícias que vem produzindo há anos, dia após dia, escândalo após escândalo, e que, em vez de tornar o Brasil melhor , só ajudam a piorá-lo.

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