terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Como as 'big techs' colonizaram o mundo contemporâneo

Essa é a melhor análise que eu já ouvi sobre como as grandes empresas de tecnologia estadunidenses dominaram o mundo nas últimas décadas a partir da internet, transformando todos em seus empregados, sem remuneração e ficando com todo o lucro, além de capturarem também graciosa e voluntariamente todos os nossos dados pessoais. Nem o Império Romano foi capaz disso, tampouco autores de ficção científica foram capazes de imaginar e nem mesmo as teorias da conspiração, no entanto, é o que está acontecendo, evidentemente, basta ligar os pontos e enxergar o desenho. O idioma que o autor fala é uma questão à parte, sobre a qual levanto suspeitas, mas ainda não ouvi explicação. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Revolução, socialismo ou capitalismo, China, Vietnã, Brasil etc.

A discussão continua. Até certo ponto, continua sendo uma discussão acadêmica, como é há muito tempo no Brasil, o marxismo de academia, desligada dos trabalhadores e das massas populares, mas noto duas diferenças, dois avanços, digamos assim: o primeiro é que ela é muito mais aberta do que era na minha juventude e os divergentes conversam civilizadamente; o segundo é que a internet possibilita a qualquer um acompanhá-la, não fica restrita a um gueto, um movimento ou sindicato ou entidade. Tem uma coisa que eu não consigo entender: Trótski foi o marxista mais brilhante desde o próprio, no entanto, os trotskistas, exceto os da Libelu de meados da década de 1970, são muito chatos, dogmáticos, sectários. Irônicos também e com a ironia tentam se manter agradáveis e superiores, mas só conseguem ser arrogantes e inconsequentes. Elias Jabbour e Jones Manoel, dois stalinistas, são muito mais interessantes do que o trotskista e conterrâneo Gustavo Machado. A questão principal, na minha opinião, é como transformar o marxismo em política dos trabalhadores, o que ainda está longe de acontecer. 

Banco Master: o escândalo que pega o sistema financeiro e os políticos corruptos

Um escândalo do sistema financeiro que envolve todo o sistema político brasileiro, inclusive o xerife Alexandre de Moraes (quem discorda que o STF virou parte do jogo político?), aparentemente, tem tudo para escancarar a corrupção intrínseca da direita que se projetou na última década atacando a corrupção da esquerda. Como todos sabemos, capitalismo é sinônimo de corrupção e a direita capitalista é quem mais a pratica e se beneficia dela. Palmas para Heloísa Helena, que já diz a que veio e passa do discurso (na posse, há duas semanas) à ação, e para o Elias Jabbour, que tem suas contradições ideológicas, mas é um político coerente na ação, além do Jones Manoel, que demonstra nesse vídeo capacidade de análise política. A perspectiva desse escândalo ganhar as luzes que merece, apesar do silêncio da chamada "grande mídia", globoetc., o que indica que também os barões da comunicação estão envolvidos, é uma esperança de que o Brasil caminhe na direção certa. A esquerda brasileira renasce. Até o governo e o PT (Zé Dirceu) estão sendo forçados a manifestar simpatia pela causa. 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Governo entrega cultura brasileira para a indústria internacional de 'streaming'

Lulopetismo não tem projeto nacional nem na cultura. Caráter neoliberal dos governos do Lula vai ficando cada vez mais evidente.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Música do dia: A força do vento, Lô Borges

Depois daquelas do ano ímpar de 1972, do álbum Clube da Esquina e do "disco do tênis", essa é a canção do Lô Borges de que eu mais gosto, mas não é dele, é de um desconhecido juiz-forano Rogério Ribeiro de Freitas. A letra é uma bela ideia casada com uma melodia muito gostosa, embora merecesse ser mais trabalhada; a interpretação do Lô é digna dos seus melhores momentos, arranjo e instrumentos são ótimos e o resultado é uma canção que a gente gosta de ouvir e de cantar.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Um debate rico e oportuno sobre neoliberalismo, governo Lula e muito mais

O neoliberalismo foi um golpe do capitalismo no Estado de Bem-Estar Social que vigorou a partir do fim da II Guerra Mundial, numa época em que o socialismo avançava. Quando a URSS desmoronou, o capitalismo deitou e rolou, conquistou o mundo com o discurso das privatizações, do Estado mínimo, do empreendedorismo, da prosperidade individual etc. No Brasil, aconteceu uma coisa que pouca gente entendeu, mas agora está cada vez mais evidente e o debate desse vídeo é especialmente esclarecedor e oportuno. O avanço do neoliberalismo veio junto com a redemocratização e foi conduzido por governos de partidos e políticos de esquerda, FHC e Lula, depois de deflagrado pelo governo Collor. Sob esses governos, o Brasil abandonou o projeto desenvolvimentista, que vinha desde a Revolução de 1930, e adotou o projeto do Consenso de Washington, abandonou a industrialização e o progresso tecnológico e voltou a ser uma nação exportadora de produtos primários. A obra desses presidentes foi tão eficiente que, quando a extrema direita chegou ao poder, com temer, o minúsculo, e bozo, o boçal, só precisou radicalizar a destruição do Estado, que já estava bem avançada. O novo governo Lula sequer cuidou de reverter o que a extrema direita fez, ao contrário, continua sua obra, em grande medida. Agora a esquerda, pelo menos seus setores críticos e pensantes, começa a refletir e entender o que aconteceu. O trauma do governo bozo colaborou para isso, mas há também outro fator, o fim do ciclo Lula, que já tem data marcada, no máximo 2030, talvez o ano que vem. Só agora começa a cair a ficha de que, a despeito de ter sido um operário, um sindicalista e um líder popular, Lula foi um político burguês, que governou para o capital, para os banqueiros e para o agrotoxiconegócio. Nunca teve um projeto de desenvolvimento nacional, ao contrário do Ciro Gomes, e fez o que o capitalismo internacional hegemônico queria. A consciência que aparece nesse debate, que não é de hoje, foi feito em agosto passado, e de muitos outros que estão acontecendo, bem como a crítica sem temor, o temor que prevaleceu na esquerda durante tanto tempo, quando qualquer discordância do Lula e do PT era considerada de direita, essa crítica e essa consciência mostram que a esquerda se mexe e se renova. O passo seguinte é formular um projeto socialista de desenvolvimento nacional, com um discurso claro e sem medo de ser "radical", com bandeiras e lutas objetivas dos trabalhadores e um programa de governo alternativo ao projeto radical da extrema direita, que é a destruição do Estado e de todos os direitos sociais, bem como ao projeto neoliberal moderado, que o lulopetismo põe em prática desde 2003.  

Governo desvia dinheiro da reforma agrária para banqueiros

Quem denuncia é o João Pedro Stedile, um amigo fiel do Lula, tão amigo que optou por "não judicializar" o assunto para não prejudicar seu governo. "Taxa Incra" foi criada na ditadura militar e é recolhida por empresas rurais, chega a R$ 2 bilhões por ano, mas cai nos cofres do tesouro e é usada para pagar juros da dívida interna. Dinheiro para a reforma agrária não tem, para a agricultura familiar, que alimenta os brasileiros, também não, mas o financiamento do agrotoxiconegócio exportador não para de crescer. Esse é um governo de esquerda? É um governo dos banqueiros e dos latifundiários.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

O marxismo de Trótski, por Ruy Braga

Uma boa exposição sobre o pensamento do Trótski, uma das personalidades mais brilhantes da história, haja vista ter sido o teórico do caráter socialista da revolução na Rússia, antes mesmo do Lênin assumir tal posição, além de ter liderado o soviete mais importante e ter organizado e comandado o Exército Vermelho, que derrotou os inimigos externos e internos da revolução, tudo isso sendo ainda um grande escritor e historiador. Não há personagem similar na história. O mais admirável na leitura do Trótski é exatamente esse aspecto para o qual o professor da USP chama atenção: ele é um pensador marxista, ao contrário de tantos que se dizem assim sem o ser, a maior parte submissa ao stalinismo. O que significa ser marxista? Significa aplicar a teoria marxista à realidade, usando-a para resolver os problemas políticos concretos, o que implica inovar, como ele inovou na tese da revolução permanente, que Lênin veio a adotar nas famosas teses de abril. Segundo o palestrante, Trótski fez isso durante toda as sua prática política, isto é, da conversão ao marxismo até ser assassinado a mando de Stálin em 1940, aos 60 anos. 

O exemplo chinês para o Brasil e o projeto de desenvolvimento do Ciro

Obviamente, a resposta à pergunta título do programa é não. Elias Jabbour desponta como o segundo pensador político mais fecundo sobre o Brasil, o primeiro é o Ciro Gomes, há muito tempo. Não sei qual a diferença entre o projeto de desenvolvimento nacional dele e o do Ciro e Breno Altman não lhe pergunta, não sei por quê. É interessante também ver um stalinista, tal qual o entrevistador, lá pelas tantas (aos 38 minutos) defender a revolução permanente do Trótski. Porque não é outra coisa dizer que o que falta ao Brasil não é uma burguesia nacional, é uma esquerda com pensamento estratégico. A esquerda, na sua visão, deve ocupar o papel que a burguesia brasileira nunca ocupou, de desenvolver o país. Nem ele nem B.A., defensores dos governos lulopetistas, parecem se dar conta da sua contradição política, uma vez que esse peso, de a esquerda brasileira não ter um projeto próprio, recai sobre o PT e sobre Lula, uma vez que a esquerda brasileira há quarenta anos é o PT, que por sua vez tem como único projeto político eleger Lula. O resultado disso é que há mais de duas décadas a esquerda brasileira se dedica a administrar o Estado para a burguesia, adotando o programa neoliberal inaugurado por Collor e seguido por FHC. Essa consciência, porém está a caminho. Pode se dar em condições melhores, isto é, caso Lula seja reeleito no ano que vem, ou em condições piores, na oposição já em 2027, sem ele, caso a extrema direita volte ao governo. De fato, a considerar a teoria marxista como científica, e observando também as nações onde a revolução socialista orientada pelo marxismo foi vitoriosa, como a China, o Vietnã, Cuba e a própria URSS, o que os marxistas de cada nação devem fazer é interpretar o desenvolvimento histórico da sua nação para entender como se dará a revolução socialista nela. Muitos marxistas acadêmicos brasileiros tentaram fazer isso, alguns deles colocando a mão na massa, como os fundadores da Polop, no começo da década de 1961, antes do golpe militar de 1964, portanto. Depois do golpe houve uma nova onda nesse sentido, que resultou na luta armada, derrotada, e em seguida a esquerda adotou a defesa das "liberdades democráticas" (exceto remanescentes da Polop), que resultou no PT. Hoje, mais uma vez se faz a discussão sobre a revolução brasileira, depois de longo tempo em que o marxismo ficou restrito à academia; aqueles que se meteram na política, abandonaram o marxismo, tipo FHC, ou nunca foram marxistas, tipo Lula. Há partidos que se dizem revolucionários, como o PCBR, do Jones Manoel, e até um grupo que se chama Revolução Brasileira, cujo expoente é Nildo Ouriques. A política que esses grupos fazem, entretanto, é de proselitismo, usando a internet, sem ligação com os trabalhadoras. Será que a revolução no século XXI não precisa de ligação, digamos, "orgânica" com as massas? 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Renan Calheiros denuncia acordo secreto de Jaques Wagner

Quinta-feira de discursos quentes no Congresso. Agora no Senado. Outro alagoano. Quem diria, Renan Calheiros ficou à esquerda do Jaques Wagner, MDB à esquerda do PT. Não me espanta, mas pode espantar quem não sabe como funcionam o governo, o presidente e seu partido. 

Ela voltou. Heloísa Helena assume vaga do deputado Glauber Braga

E fala o que precisa ser dito. Vale a pena ouvi-la. Palmas para ela. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

O fim está próximo

Não é mensagem religiosa, ao contrário, os mensageiros da Bíblia contribuem decisivamaente, com a ideologia da prosperidade, para a aproximação acelerada do fim do mundo. É uma mensagem ecológica, transmitida pela Natureza aos humanos que sabem compreendê-la, como a cientista Luciana Gatti, renomada mundialmente. E inúmeros outros, inclusive quem não é cientista, feito eu, e as pessoas mais simples, mais "atrasadas", mais "ignorantes" e mais "pobres" deste mundo em que o critério de "progresso" é riqueza material. 

"Tenho uma frustração gigantesca de ser cientista e não fazer a menor diferença na sociedade", diz Luciana nesta entrevista. 

O chamado "agro", o agrotoxiconegócio, que nada mais é do que o velho latifúndio exportador, agora industrializado e tecnologizado, produz muita "riqueza" na Amazônia, ao mesmo tempo em que derruba a floresta e enche o solo, as águas e o ar de venenos. "Progresso", que o governo do bozo liberou, ao "abrir a porteira", e que os governos democráticos não contiveram, porque o modelo político brasileiro é expressão do domínio econômico do "agro", junto com a mineração e os banqueiros. Esse "progresso" é a destruição da Natureza e da espécie humana, que é parte dela mas finge ignorar, porque o que interessa a todo mundo é ganhar dinheiro. É o fim do mundo. A consciência disso já me angustiou muito, hoje penso que se livrar da espécie humana é o melhor que a Terra pode fazer para se recuperar e novamente, em milhares ou milhões de anos, voltar a ter a biodiversidade que nós extinguimos e a Natureza maravilhosa que nós destruímos. 

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Revolução ou reforma, o velho dilema dos socialistas

Sempre achei que, em vez de fundar um partido para disputar eleições burguesas, os revolucionários deviam fortalecer e unir os movimentos populares e sindicatos de forma independente do Estado burguês. Organizá-los para exigir o atendimento das suas reivindicações pelo Estado burguês. Nesse processo, os trabalhadores não apenas arrancariam conquistas com a luta, mas também se organizariam de forma independente e formariam a consciência da necessidade de substituir o Estado burguês capitalista por um Estado popular socialista, ou seja, construiriam sua consciência e as instituições do futuro Estado socialista. Formar um partido, disputar eleições burguesas, conquistar assentos nas Câmaras de Vereadores e Assembleias estaduais e no Congresso Nacional, eleger prefeitos, governadores e até presidente, governar municípios, estados e até o país na ordem burguesa, tudo isso é fazer a política burguesa e participar da sua lógica, fortalecer o sistema capitalista e o Estado burguês, explorador, opressor, injusto, desigual. Se a esquerda marxista quer fazer uma revolução, destruir o capitalismo e construir o socialismo, não deve fortalecer o Estado burguês, suas instituições e ideologia, entre as quais se incluem partidos, eleições, parlamentos, governos etc. Para fazer a revolução, o caminho é fortalecer a organização popular e a ideologia socialista, tratar sempre o Estado burguês e seus representantes como inimigos. Foi isso que o partido bolchevique fez na Rússia, foi esse o significado da palavra de ordem "Todo poder aos sovietes!" lançada por Lênin e Trotski em 1917, que deflagrou a revolução, transferiu o poder para o povo e começou a construção do Estado socialista. 

Coisa diferente é se os marxistas não pretendem fazer uma revolução, mas sim reformar o Estado burguês, transformá-lo gradualmente num Estado socialista e transferir também gradualmente o poder das mãos da burguesia para os trabalhadores, substituir o capitalismo pelo socialismo sem fazer revolução, de forma civilizada, consensual, pacífica, ainda que em conflitos, mas acreditando que a ordem burguesa é capaz de resolvê-los. Neste caso, formar um partido para disputar eleições burguesas e legitimar a política burguesa faz sentido. Trata-se de participar das instituições do Estado burguês, conquistar a maioria do eleitorado, chegar ao governo pelo voto e reformar o Estado burguês internamente, transformando-o num Estado socialista. O PT, liderado por Lula, evidentemente, não escolheu o caminho da revolução. Tampouco, porém escolheu o caminho da reforma. Na falta de definições claras e na confusão provocada pelo fim da URSS e pela ofensiva neoliberal, tornou-se um partido burguês comum, cujo governo é determinado pelos interesses dos setores burgueses mais fortes e mais influentes. 

Carlos Marighella, por Breno Altamn

Mais uma aula de história do Breno Altman. Desta vez, a aula inclui o PCB, o Partido Comunista Brasileiro, o partidão, sua trajetória sinuosa e contraditória e suas inúmeras defecções e dissidências, das quais Carlos Marighella é das mais famosas (antes de ser petista, B.A. foi do PCB; trocou o partidão pelo PT e Stalin por Lula). Estamos vivendo uma época rica em debates na esquerda. Podcasts, transmissões de programas, noticiários, debates, palestras etc. via YT. Espero que tudo isso seja também fértil em novas forças políticas de esquerda. É um fenômeno intelectual, reúne e atrai classe média, acadêmicos, estudantes, militantes diversos. As grandes forças sociais estão no trabalho, nos locais de trabalho, nos ambientes sociais, não nos virtuais, são os trabalhadores, e estes estão desorganizados, desmobilizados, e quando se mobilizam o fazem em torno de movimentos sociais conservadores, reacionários, de direita e extrema direita, isto é, das igrejas evangélicas e do bozoísmo. Isso acontece porque a esquerda, o PT e Lula se afastaram das suas bases sociais nas últimas décadas e se dedicaram a administrar o Estado capitalista, deixando o povo para a militância e as ideias da direita e da extrema direta. Esse fenômeno de discussões na esquerda expressa o fim de um ciclo, o ciclo protagonizado pela liderança do Lula e do PT, sendo que este foi sempre um instrumento daquele. Breno Altman é uma das principais estrelas do fenômeno e um dos principais expoentes do lulopetismo. Destaca-se por sua cultura ampla e por suas posições marxistas. É um marxista stalinista, o que é muito interessante, porque o stalinismo é o marxismo vitorioso, por assim dizer, e Altman mostra como funciona o pensamento de um stalinista, isto é, de um marxista vitorioso. É diferente do pensamento dos trotskistas, que são muito mais brilhantes, a exemplo do seu ídolo, Leon Trotski, o político revolucionário mais importante do século XX, porém foram e continuam sendo sempre derrotados, minoritários, oposição etc. (Trotski liderou a derrota dos inimigos externos da revolução russa, mas foi derrotado pelo inimigo interno, Stalin). O stalinista Altman é um marxista vitorioso mais uma vez, porque pode-se negar todas as qualidades ao PT, mas não se pode negar que, seguindo devotadamente o Lula (assim como os marxistas vitoriosos se curvaram ao Stalin), o PT é um partido vitorioso, mais do que foi o PTB e ao contrário dos demais partidos que pretenderam representar os trabalhadores brasileiros até hoje. É a vitória do Lula que legitima o discurso do Altman. A ponderada, culta, ilustrada e convincente retórica do Breno Altman é cheia de falácias, justificadas pelo cerne do pensamento stalinista, isto é, marxista vitorioso: se deu certo é porque é certo, é marxista, é materialista. Quem pensa diferente, como o Nildo Ouriques (com quem Altman debateu em alto nível, porque Ouriques é, como diz o Altman, "muito preparado", um dos marxistas mais qualificados do país, e de fato demonstra isso), é "idealista", porque não vê a realidade vitoriosa dos fatos que se resumem ao Lula, ao governo petista "de frente ampla", às vitórias eleitorais. Fora do Lula e do PT, não há salvação, diz a cartilha do Breno Altman, em resumo, assim como fora do Stalin e do Estado soviético não havia salvação para os comunistas, para os marxistas vitoriosos. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Nildo Ouriques x Breno Altman debatem os dilemas da esquerda brasileira

O melhor debate sobre os descaminhos da esquerda brasileira nos últimos cinquenta anos. São dois militantes da minha geração. Fico pensando que nosso legado para o país foi zero, porque nossa geração ficou agarrada no Lula, que é uma grande personagem da história e um político digno de figurar no Príncipe, do Maquiavel, mas muito pouco fez pelos brasileiros. Para ser exato: na chamada Era Lula o Brasil piorou muito, com o avanço destruidor do latifúndio exportador (também conhecido como agro, o agrotoxiconegócio) sobre o Cerrado, o Pantanal e a Amazônia e a desindustrialização. Nas últimas décadas, o Brasil andou aceleradamente para trás no desenvolvimento econômico, com a diferença que o atraso veio junto com o uso intensivo de capital e novas tecnologias, o que se traduz numa destruição ambiental também acelerada. Uma nova geração de esquerda vai ter de construir tudo, pois perdemos meio século seguindo o neoliberalismo. Isso na versão otimista, isto é, se o mundo não acabar em consequência das mudanças climáticas. 

Stedile também quer plano nacional de desenvolvimento

É curioso ver toda a esquerda, um expoente após outro, pregar agora a necessidade de um plano ou projeto nacional de desenvolvimento. Eu fico pensando onde eles estavam nos últimos trinta anos. Ciro Gomes fala isso pelo menos desde 1996, escreveu livros, elaborou seu projeto, pregou-o nas duas últimas eleições presidenciais, e todos o ignoraram, fingiram não escutar, continuaram dizendo que Lula era a salvação. Breno Altman, um desses expoentes mais brilhantes, ainda acusa Ciro de ter ido para a direita, ao se afastar do petismo, como se o petismo não tivesse ele próprio ido para a direita. Agora, todos concordam também, em graus diferentes, que o governo Lula é um governo neoliberal, liberal, social-liberal etc., que sua política econômica é a mesma do governo bozo, mas ainda assim é melhor Lula do que bozo, e vamos de Lula novamente em 26, bla-bla-bla. Eu não discordo: Lula é melhor que bozo, já votei nele no segundo turno várias vezes e votarei novamente, contra candidato mais à direita, embora tenha dúvidas se ele será reeleito. No entanto, Lula já deixou de ser um líder operário há muitos e muitos anos, hoje é um político burguês, assim como o PT deixou de ser o partido dos trabalhadores brasileiros para se tornar mais um partido que representa interesses do capital. O lulopetismo não faz autocrítica dos seus erros, o principal deles se tornar lulólatra e ter jogado fora o grande fato histórico para o Brasil que foi a construção de um partido dos trabalhadores, deixando que ele se transformasse no partido do Lula. O PT é o partido mais importante do Brasil porque foi o único na nossa história que nasceu do povo, mas vem perdendo importância porque trocou as bases pelo lulismo e vai se tornar igual aos outros quando não tiver mais o Lula para guiá-lo. No ano que vem ou quatro anos depois, o ciclo Lula terminará finalmente e a esquerda brasileira não terá nada para pôr no lugar do lulismo, nem mesmo o tal projeto nacional, tendo perdido meio século para isso. Construir um novo partido popular é a tarefa da esquerda, mas será muito mais difícil do que foi criar o PT. Na onda de discussões atual eu não vejo as estrelas da esquerda nem de longe pensando nisso, ou seja, em como construir um novo partido a partir das bases e plural, como foi o PT, sem sucumbir a um dono, a um messias, mantendo-se democrático, plural e intimamente ligado ao povo, aos trabalhadores, às massas trabalhadoras e populares. Nos idos de 1970 e 1980, quando se começou a discutir a fundação de um novo partido de esquerda (na ditadura militar havia apenas dois partidos, a Arena, do governo, e o MDB, pretensamente de oposição) e quando esse movimento resultou no PT, eu tinha uma visão particular do assunto, mas fiquei nela completamente solitário, "idealista", como poderia definir Breno Altman. Eu era contra a fundação de um partido, pensava que os movimentos populares que estavam surgindo e crescendo deviam manter sua independência, se manter reivindicatórios, de massa e unidos entre si, em oposição ao Estado burguês. Hoje penso que estava imaginando a formação dos futuros sovietes brasileiros, uma base de organizações populares sobre as quais se assentariam a revolução e o Estado socialista. Em vez de formar um partido próprio, o que os trabalhadores deviam fazer, portanto, era organizar seus instrumentos de luta, independentes do Estado, para atuar sempre em conflito com o Estado e negociar com os partidos burgueses, todos eles, também de forma independente, sem compromisso. Com independência, qualquer político burguês e qualquer partido burguês serviam igualmente para atuar a favor dos trabalhadores nos governos do capital. Continuo considerando esse pensamento razoável: se os trabalhadores querem construir outro Estado, seu, com sua ideologia, devem fazê-lo gradativamente, organizando-se na oposição ao Estado burguês e preparando a nova ordem com a sua experiência de organização e com a ideologia que vai formando nesse processo. A trajetória do PT e do Lula é inegavelmente uma trajetória de um operário e um partido que vieram do povo e se transformaram em defensores da ordem burguesa.