segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Stedile também quer plano nacional de desenvolvimento

É curioso ver toda a esquerda, um expoente após outro, pregar agora a necessidade de um plano ou projeto nacional de desenvolvimento. Eu fico pensando onde eles estavam nos últimos trinta anos. Ciro Gomes fala isso pelo menos desde 1996, escreveu livros, elaborou seu projeto, pregou-o nas duas últimas eleições presidenciais, e todos o ignoraram, fingiram não escutar, continuaram dizendo que Lula era a salvação. Breno Altman, um desses expoentes mais brilhantes, ainda acusa Ciro de ter ido para a direita, ao se afastar do petismo, como se o petismo não tivesse ele próprio ido para a direita. Agora, todos concordam também, em graus diferentes, que o governo Lula é um governo neoliberal, liberal, social-liberal etc., que sua política econômica é a mesma do governo bozo, mas ainda assim é melhor Lula do que bozo, e vamos de Lula novamente em 26, bla-bla-bla. Eu não discordo: Lula é melhor que bozo, já votei nele no segundo turno várias vezes e votarei novamente, contra candidato mais à direita, embora tenha dúvidas se ele será reeleito. No entanto, Lula já deixou de ser um líder operário há muitos e muitos anos, hoje é um político burguês, assim como o PT deixou de ser o partido dos trabalhadores brasileiros para se tornar mais um partido que representa interesses do capital. O lulopetismo não faz autocrítica dos seus erros, o principal deles se tornar lulólatra e ter jogado fora o grande fato histórico para o Brasil que foi a construção de um partido dos trabalhadores, deixando que ele se transformasse no partido do Lula. O PT é o partido mais importante do Brasil porque foi o único na nossa história que nasceu do povo, mas vem perdendo importância porque trocou as bases pelo lulismo e vai se tornar igual aos outros quando não tiver mais o Lula para guiá-lo. No ano que vem ou quatro anos depois, o ciclo Lula terminará finalmente e a esquerda brasileira não terá nada para pôr no lugar do lulismo, nem mesmo o tal projeto nacional, tendo perdido meio século para isso. Construir um novo partido popular é a tarefa da esquerda, mas será muito mais difícil do que foi criar o PT. Na onda de discussões atual eu não vejo as estrelas da esquerda nem de longe pensando nisso, ou seja, em como construir um novo partido a partir das bases e plural, como foi o PT, sem sucumbir a um dono, a um messias, mantendo-se democrático, plural e intimamente ligado ao povo, aos trabalhadores, às massas trabalhadoras e populares. Nos idos de 1970 e 1980, quando se começou a discutir a fundação de um novo partido de esquerda (na ditadura militar havia apenas dois partidos, a Arena, do governo, e o MDB, pretensamente de oposição) e quando esse movimento resultou no PT, eu tinha uma visão particular do assunto, mas fiquei nela completamente solitário, "idealista", como poderia definir Breno Altman. Eu era contra a fundação de um partido, pensava que os movimentos populares que estavam surgindo e crescendo deviam manter sua independência, se manter reivindicatórios, de massa e unidos entre si, em oposição ao Estado burguês. Hoje penso que estava imaginando a formação dos futuros sovietes brasileiros, uma base de organizações populares sobre as quais se assentariam a revolução e o Estado socialista. Em vez de formar um partido próprio, o que os trabalhadores deviam fazer, portanto, era organizar seus instrumentos de luta, independentes do Estado, para atuar sempre em conflito com o Estado e negociar com os partidos burgueses, todos eles, também de forma independente, sem compromisso. Com independência, qualquer político burguês e qualquer partido burguês serviam igualmente para atuar a favor dos trabalhadores nos governos do capital. Continuo considerando esse pensamento razoável: se os trabalhadores querem construir outro Estado, seu, com sua ideologia, devem fazê-lo gradativamente, organizando-se na oposição ao Estado burguês e preparando a nova ordem com a sua experiência de organização e com a ideologia que vai formando nesse processo. A trajetória do PT e do Lula é inegavelmente uma trajetória de um operário e um partido que vieram do povo e se transformaram em defensores da ordem burguesa. 

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