segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Um dos dias mais tristes da História

Interessantes as coincidências do relato e o sentimento comum que uniu os bitoumaníacos do mundo inteiro. Em BH saímos para as ruas em busca de sei lá o quê. Era um tempo em que os amigos se encontravam nas ruas
Achava que o assassino devia ser condenado a ter seu nome e sua imagem apagados.
John Lennon foi muito mais do que um beatle -- foi o único dos quatro que teve própria depois, e com isso quero dizer que ele foi o único que foi ainda maior sem os beatles.
Foi muito mais do que um pop star, muito mais que um rolling stone, por exemplo, vivo ou morto.
Ele foi o grande artista da sua geração, que foi a última geração de grandes artistas, em todo o mundo. Compara-se a Chico Buarque, no Brasil.
Que tenha morrido tão precocemente foi uma perda gigantesca para os sobreviventes, que tenha morrido como morreu, um atestado do quanto vale a espécie humana e uma antecipação do que este mundo se tornaria nas décadas seguintes. 

Do Diário do Centro do Mundo. 
O dia em que a música morreu
Por Paulo Nogueira

Long, long time ago, but I still can remember.
O verso inicial de American Pie, de Don McLean, sempre me ocorre quando penso em John Lennon.

Muito tempo atrás, mas ainda lembro o dia em que ele morreu.

Eu morava ainda na casa de meus pais, no Previdência, em São Paulo. Tinha 24 anos. Era manhã. Papai saíra com meu irmão temporão Kiko, de 12 anos. Eles ouviram a notícia no rádio, como era comum naqueles dias. Kiko me contou.

Os beatlemaníacos criaram instantaneamente uma corrente de solidariedade. Ligávamos uns para os outros, em busca de conforto. Tocava John no rádio o tempo todo. Pouco depois, começaram a aparecer as homenagens musicais a ele, em várias línguas. “Naquele dia em que ficamos tristes com Yoko” foi a música mais bonita que fizeram para ele no Brasil. Simone gravou.

George primeiro, depois Paul também compuseram para John. “Here Today”, de Paul, é dos tributos o mais bonito, compreensivelmente. Paul canta “Here Today” na atual turnê.

Ouço John com frequência, sobretudo o John dos Beatles, jovem, sardônico, revoltado, a voz anasalada que é para mim a maior da história do rock, e talvez não só do rock. Entre todas as músicas que já ouvi na vida, “In My Life” é minha favorita. Gosto não apenas de ouvi-la mas de cantá-la, desajeitadamente, ao violão.

Fui várias vezes a Liverpool, desde que vim para a Europa, e em todas elas passei pela casa em que John viveu mais que em qualquer outra na vida, a da Tia Mimi, e por Strawberry Fields. Sempre que estive em Strawberry Fields havia um grupo de turistas.

Dois meses atrás, em minha mais recente ida a Luverpool, o guia me contou que o Dakota, o prédio em que John viveu e morreu em Nova York, tinha uma forte semelhança arquitetônica com o prédio que fica em Strawberry Fields, um orfanato que o pequeno John gostava de frequentar por se sentir entre iguais.

Meus três filhos, em diferentes ocasiões, acompanharam o pai na peregrinação a Liverpool. O quarto, a caminho, conhecerá Liverpool tão logo possa.

Na casa de John está a placa redonda azul que distingue alguém notável, e que os ingleses só colocam 20 anos depois da morte, para que o morto enfrente a última prova, a do tempo.

Sempre bato os olhos no lugar, ali pertinho, em que Julia, a mãe de John, morreu atropelada. Eles tinham se reaproximado, depois que John foi entregue à tia para que o criasse porque o pai era um aventureiro e a mãe irresponsável. Julia ainda teve tempo de ensinar banjo a John antes de ser atropelada.

O sentimento de rejeição tornou John infeliz e atormentado, mas ao mesmo tempo fez dele o gênio que foi. John é um daqueles casos que comprovam amplamente a vinculação entre a grande arte e a dor. Tivesse sido criado convencionalmente e tido uma vida normal entre pais de classe média, talvez estivesse agora aposentado jogando baralho em Liverpool.

Paul foi o moderador dos Beatles, George foi o menino prodígio que deu suporte musical a seus companheiros antes que estes virassem os bons músicos que seriam. Mas foi o tormento pessoal, intransferível, cruel de John que fez os Beatles romperem barreiras e destruírem limites até a última faixa do último disco.

Tenho vivo o 8 de dezembro de 1980 em minha memória. Eu era um jovem reporter que começava a carreira na Veja, e acreditava em muitas coisas. Lembro a capa das revistas americanas. Guardei uma delas durante anos, e talvez ainda a encontre se mexer em minhas velharias. O título era tirado de American Pie. O dia em que a música morreu.

De alguma forma, para todos nós que amávamos tanto Lennon, a música morreu mesmo naquela noite em Nova York, sob os tiros de Mark Chapman.

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