segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Lula e o caos

O "mensalão" -- sobre o qual escrevi aqui uma década atrás -- foi o ensaio da larva jato. No vídeo abaixo (trecho de uma entrevista), Lula resume o que foi o processo, uma trama política para prendê-lo, tirar o PT do poder e levar ao governo o neoliberalismo e seus políticos de extrema direita.
Simples assim.
Não é tudo, porém.
O PT no poder foi um governo capitalista, de esquerda, de conciliação de classes, que governou para os ricos e distribuiu as migalhas para os pobres.
Não fez nada a favor dos pobres que fosse duradouro, definitivo: não fez mudanças radicais nem envolveu os trabalhadores na defesa das instituições democráticas.
Quando falo em mudanças radicais me refiro a: a defesa do ambiente como centro de todas as políticas públicas; educação fundamental pública gratuita de qualidade para todos; saúde pública gratuita de qualidade para todos; aposentadoria igual para todos, inclusive políticos, juízes, militares, todo o funcionalismo público, com regras claras e bancada pelo Estado, com o dinheiro dos ricos; transporte coletivo público de qualidade; polícias da democracia, para defender direitos, não para reprimir trabalhadores e matar pobres; espaços de lazer na cidade, parques, praças, áreas verdes; acesso e financiamento da cultura; distribuição de terras e incentivo para a agricultura familiar ecológica que produz para alimentar os brasileiros etc. Enfim, uma sociedade civilizada, igualitária, democrática.
É difícil entender isso? No entanto, não foi em torno disso, não foi em torno dos interesses do povo e do Brasil que giraram os governos do PT, foi em torno de se manter no poder, fazendo alianças com políticos e partidos corruptos, se corrompendo também. A política tradicional do capital, enfim.
A democracia moderna depende de certo equilíbrio entre as forças políticas divergentes, antagônicas até; depende de alternância no poder. O PT e Lula, em especial, desequilibraram esse jogo, porque venceram quatro eleições sucessivas. Quando terminou seu segundo mandato, Lula não saiu de cena, como fazem os presidentes americanos; ele elegeu um poste e voltou para reelegê-lo, indicando que depois voltaria para mais dois mandatos, perpetuando-se no poder. Gerou o desespero da oposição moderada, que abriu caminho para a oposição extremada, a extrema direita neoliberal reacionária, corrupta, militarizada. 
Vivemos nesse inferno do antagonismo extremado PT x antiPT, Lula x antiLula há meia década.
O governo da extrema direita neoliberal nos levou ao caos no qual afundamos cada vez mais e do qual não há saída, porque sua proposta é o caos mesmo.
E Lula e o PT insistem em se apresentar como a solução.
No começo dessa tragédia brasileira eu pensei, como Franklin Martins, que o povo se revoltaria ao compreender a injustiça de que Lula é vítima, como aconteceu com Getúlio, mas hoje vejo que a situação ficou muito mais complexa, que o desgaste do Lula foi muito grande, que o fenômeno evangélico é muito forte, que a corrupção da política pelo crime organizado que chegou ao poder não se resolverá facilmente. Acho que Lula não voltará a ser o que já foi, não dará a volta por cima.
E o pior: até hoje não temos um caminho alternativo ao caos da direita.

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