sábado, 28 de dezembro de 2019

Os números mágicos da economia

Estatísticas, como as divulgadas pelo IBGE sobre emprego (matéria abaixo, do El País), existem para tentar precisar a realidade. Sem elas, ficaríamos discursando em torno de achismos, cada um com o seu.
O jornalismo brasileiro, porém, nunca teve capacidade de criticar estatísticas, sempre fez delas pretextos para manchetes, para o bem e para o mal. O jornalismo é assim, ao contrário do que diz Paulo Giraldeli sobre a Globo, no seu ótimo livro "A filosofia explica o bolsonarismo". Giraldeli (seu sobrenome tem mais alguma letra, mas estou sem paciência para o excesso de letras dobradas, agás, zês e falta de acentos que tomaram conta dos nomes brasileiros estrangeirizados, desmodernizados e afrescalhados) não conhece o jornalismo por dentro, ignora as minúcias pelas quais as informações são manipuladas -- sim, a Globo, como toda a imprensa, manipula informações.
O jornalismo sempre deixou a explicação das estatísticas para especialistas que poucos leem, separando as duas coisas. Explicar -- ou interpretar, no jargão jornalístico -- é uma coisa complicada, porque envolve opinião, ponto de vista, posicionamento político etc., então é melhor ficar nos fatos puros -- nos números puros, neste caso.
Mas o que é que os números dizem? Eles já vêm acompanhados das explicações dos especialistas que os divulgam, como os do IBGE. Mas os próprios números são sujeitos a críticas: por que esses e não outros? Como foram elaborados? Para quem? O que se pretende com essa metodologia? O que ela expressa? Há quanto tempo foi criada? Com que frequência é atualizada? Que parte da realidade ela mostra? Com que precisão?
Os repórteres, em geral jovens, mal compreendem o que recebem, estão preocupados em reproduzir fielmente as fontes e em encontrar as novidades, o que é notícia, em fazer seu trabalho, enfim, cumprir sua tarefa diária, com a qual garantem seu emprego. Pesar a novidade é um trabalho para veteranos, e veteranos críticos.
Para divulgar e dar destaque a números que terão tanta e tão duradoura repercussão é preciso confiar na sua lisura e na sua veracidade.
Essa é uma fraqueza que a formação acadêmica dos jornalistas brasileiros nunca conseguiu superar. E agora, que não é preciso mais ter formação acadêmica e nem mesmo registro profissional para exercer o jornalismo, o que esperar de quem reporta? As empresas definem o que querem, e em se tratando de empresa brasileira, em se tratando de empresa capitalista, definirão pelo custo: quem aceita ganhar salário mínimo para ser jornalista, trabalhar quantas horas for preciso, 24 horas com o celular nas mãos, qualquer dia da semana, para privar o ambiente glamuroso das notícias. Jovens, é claro, jovens tecnológicos, espertos, que não sabem escrever, têm conhecimento raso, mas ágeis e produtivos.
Tudo isso para dizer que a notícia abaixo diz muito pouco do que está acontecendo, mesmo produzida por uma repórter superexperiente. Peguei no fim da notícia esse trecho que reproduzo abaixo. Me parece o mais importante, mas mesmo assim diz muito pouco.
Notícias com estatísticas econômicas precisam servir para informar o leitor sobre o que está sendo feito pelo governo e pelas empresas, o que está acontecendo na economia, enfim, e essa faz muito pouco para isso, fica só no nível rasteiro de manchete, na notícia rasa que os repórteres buscam para cumprir a pauta e não perder seu dia de trabalho, para conquistar espaço no jornal e na primeira página, e na empresa e no meio. O que a gente precisa saber, e a notícia não diz, é o que o neoliberalismo está fazendo com o emprego, a renda, o trabalho, os direitos, a vida, enfim, dos brasileiros; o que a reforma trabalhista do governo golpista está fazendo, o que a nova reforma trabalhista da "carteira verde e amarelo" está fazendo. Como dizia a apresentação de uma revista criada durante a ditadura e que teve vida breve, "contra fato, há argumento".
O que eu quero dizer, enfim, é que, neste momento em que a internet destruiu os impérios jornalísticos, e com eles o jornalismo impresso; em que o jornalismo busca formas de sobreviver e está sendo reinventado; em que depende fundamentalmente dos jornalistas para existir, porque os empresários querem lucro e não vão investir numa atividade que dá prejuízo; neste momento de reinvenção, os veículos jornalísticos precisam ser empreendimentos com projetos bem detalhados de como vão produzir e divulgar informações, que informações, para quem, com quais objetivos. Não basta simplesmente cobrir o dia a dia, produzir notícias, reportar fatos, frequentar ambientes oficiais e comparecer a coletivas. O jornalismo agora, mais do que nunca e definitivamente, precisa ser feito a partir de ideias claras, a partir do conhecimento de quem o produz.
Quando a notícia era o produto vendido por jornais, responsável pelo lucro dos donos dos impérios jornalísticos, sua exploração sensacionalista fazia sentido. Agora que o jornalismo, isto é, a produção de notícias para venda, está deixando de ser um negócio lucrativo, o processo pode, deve e tem de merecer uma nova metodologia, uma metodologia comprometida com a importância social do que é divulgado.
Num ambiente em que acontece justamente o oposto, em que os cursos de jornalismo estão falindo e fechando, em que os jornalistas estão ficando sem emprego e ganhando salário mínimo, não é fácil fazer isso. E quem vai fazê-lo? Acho que precisa haver -- e haverá e já está havendo -- um movimento para que os próprios jornalistas assumam o jornalismo e sua formação, sua qualificação cada vez mais exigente, não só em tecnologias e línguas, mas principalmente em conhecimentos aprofundados e críticos dos assuntos.
O jornalismo é sempre uma forma de manipulação de informações, o que importa é como as informações são manipuladas, quão próximas da verdade e dos interesses da democracia elas se encontram.

Emprego tem leve melhora e mais vagas com carteira assinada, mas informais superam e desafiam recuperação
Carla Jiménez, El País, 27/12/19
(...)
O grande desafio é reduzir a informalidade do mercado de trabalho, que hoje está na faixa dos 41%. Dos 94,4 milhões de brasileiros consideradas ocupados, ou seja, que trabalharam ao menos uma hora em trabalho remunerado (com dinheiro, ou com benefícios como moradia e alimentação) no período da pesquisa, 33,4 milhões têm carteira assinada, ou 378.000 pessoas a mais no mercado formal em comparação com o trimestre anterior. A maioria das vagas veio do comércio, de olho nas vendas de final de ano, explica Adriana Beringuy.
Outros 24,6 milhões trabalham por conta própria, o que inclui tanto empregadores sem registro e sem funcionários, como atividades como faxina, motorista de aplicativo ou entregadores. Foram 303.000 pessoas a mais nesse status no período. O IBGE considera que 38,8 milhões de brasileiros estão dentro da categoria informal, incluindo os que trabalham por conta própria.
“O movimento da carteira (assinada) é positivo, mas não é suficiente para um mudança na estrutura do mercado de trabalho”, diz Beringuy. “A despeito dessa reação, durante o ano todo houve um crescimento nas categoria relacionadas à informalidade, que são conta própria e empregados sem carteira”, completa. A analista reconhece, contudo, que a criação das vagas informais pode ser um passo que anteceda uma reação. “Mas não dá para antecipar nada. É preciso esperar os primeiros meses de 2020 para ver como o mercado se comporta”, diz.
Já o rendimento médio real ficou em 2.332 reais, com pouca variação sobre o trimestre anterior ou ao ano passado. Mas a massa de rendimento teve uma leve melhora, chegando a 215 bilhões de reais, uma alta de 2,1% sobre o trimestre anterior, e 3% sobre o mesmo período de 2018. Essa expansão se explica pelo maior número de pessoas trabalhando: o total de 94,4 milhões representa um recorde na série histórica da PNAD Contínua.

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