Primeiro pensei que se tratava daqueles jogos, RPG. A estética da cartilha lembra a TFP e outros movimentos de direita. Siglas. O globo da bandeira do Brasil com o mapa invertido e o lema positivista também alterado: "Desordem no Congresso". Jogo de palavras. As cores verde, amarelo, azul. E a palavra mágica, presente em todos os discursos da direita, desde que o Brasil inaugurou uma democracia mais participativa, depois da II Guerra Mundial: corrupção. Outras palavras fortes: "indignação", "covardia". E o advérbio que remete à maior campanha política de massas que o Brasil já teve, pelas eleições diretas, em 1984: "já". A cartilha de 12 páginas, grampeada, com boa qualidade de impressão, está sendo distribuída nas ruas. Não é apócrifa. Logo no começo, na página 2 há uma lista de nomes de "fundadores" do "movimento". Não conheço nenhum, além do nome não há outra identificação.
RPJ são as iniciais de "Reforma Política Já", o movimento. A "instituição" se chama Pró-Cidadania -- Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Cidadania. Seu presidente é Marcílio A. Moreira.
Tem página na internet (www.rpj.org.br), telefone (31-9122-4330) e email: m2augusto@hotmail.com.
Há poucos dias, um grande movimento de sindicatos, associações, organizações diversas e partidos políticos inclusive, todos identificados, promoveram um grande plebiscito a favor da reforma política. O mesmo objetivo que, aparentemente, o RPJ busca. O plebiscito pede a eleição de uma Constituinte exclusiva para a reforma política. O resultado do plebiscito saiu ontem: foram 7,4 milhões de votos favoráveis à Constituinte (97,2% -- 2,7%, contrários), número bastante expressivo para um movimento organizado pela sociedade, sem participação governamental nem estatal. O RPJ não participou. Por quê?
Não lembrava dessa bela gravação, com participação do autor. A gravação célebre é da Gal Costa no disco ao vivo Fa-tal. A canção é um retrato antigo da presença de protetores nas favelas. Há coisas que são óbvias: se o Estado não está presente, indivíduos, organizações informais e instituições privadas se instalams. Oferecem serviços, impõem sua ordem e exigem obediência: silêncio, colaboração, adesão, votos. Só Brizola e Darcy Ribeiro entenderam isso, a esquerda social-liberal tucana e petista privatizou serviços estatais. Veja como as coisas se encaixam: enquanto o Estado brasileiro era destruído pelo neoliberalismo democratista, o crime organizado crescia. O crime organizado é um tipo de iniciativa privada, está instalado na Faria Lima, como se sabe hoje. Seu melhor ambiente não poderia ser outro senão o governo da extrema direita, que prega a extinção do Estado para os pobres, o monopólio do Estado para os capitalistas. Nele prolifera o "empreendedorismo": igrejas, serviços por aplicativos, milícias etc. Assim, concluímos mais uma vez que o único caminho para a esquerda é do desenvolvimento nacional, com presença central do Estado e poder popular. Tudo se encaixa, basta ouvir com atenção uma canção dos anos 1960.
Tudo (ou quase tudo) que o Lula diz nessa entrevista sem perguntas é verdade, mas se sustenta em mentiras, porque não corresponde à realidade. Lula nunca mudou de partido porque o PT é dele, sempre fez o que ele quis, se transformou no Partido do Lula, deixou de ser o Partido dos Trabalhadores. Ciro às vezes fala bobagens, mas Lula também fala, não é por isso que Lula o preteriu como candidato óbvio à sua sucessão, foi porque Ciro brilharia mais do que ele e o jogaria nas sombras, pois tinha (e tem) um projeto para o país, diferente do projeto neoliberal com o qual Lula se comprometeu. Se Lula se preocupa tanto com o partido, por que não deixou que o PT escolhesse seu sucessor, em vez de impor a candidatura desastrosa da Dilma? Depois que o levou ao poder, o PT perdeu sua função, isto é, a função que deveria ter, a de representar os trabalhadores e implantar um programa de governo próprio, coisa que o PT nunca teve. A função do PT sempre foi a de sustentar a candidatura do Lula, de torná-lo um candidato com apoio popular. Tanto isso é verdade que, ao ver que não governaria só com o PT, Lula buscou apoio em outros partidos, que se tornaram privilegiados em relação ao seu próprio partido. O lema do governo Lula passou a ser "um governo de todos", lema dúbio, que poderia ser uma crítica aos governos anteriores, que não incluíam os trabalhadores, mas de fato significava que não seria um governo "só" dos trabalhadores, mas também das classes dominantes. E na prática, ao adotar o projeto neoliberal do FHC, compromisso assumido na famigerada "carta aos brasileiros (banqueiros)", tornou-se o governo dos capitalistas. Tudo isso são fatos, hoje óbvios. O PT tornou-se dependente do Lula, não sobrevive sem ele, definhou e tende a sumir, depois dele, se não se transformar de fato num partido, com programa etc. Lula diz que é preciso ter partidos sérios e acabar com a promiscuidade na política, mas seus governos foram e é mais ainda o atual sustentados na promiscuidade com o chamado centrão, em nome da "governabilidade". O PT nunca suportou dissidências que desafiassem Lula, prova disso são os inúmeros militantes e tendências expulsos. Se Lula se preocupasse com o seu partido, não aceitaria que seus auxiliares, como Jacques Wagner e Clara Ant, promovessem o sionismo e protegessem Israel da reprovação geral ao genocídio palestino. Tampouco se alinharia com os EUA contra a Venezuela, no não reconhecimento da eleição e no veto à entrada no Brics. Enfim, é contradição após contradição, e não só isso, Lula se passa por um semideus, acima do bem e do mal, mas destila veneno, ao dizer que "Camilo achava que o mau era eu e agora está vendo" e que "Ciro foi um bom ministro". É claro que foi. Ciro é certamente o político mais brilhante da nossa época e não apoiar sua candidatura é um dos maiores prejuízos que Lula deu ao Brasil, só comparável ao fato de impedir que Brizola fosse ao segundo turno em 1989. Ao contrário do que diz Lula, Ciro foi vitorioso em todas as eleições que disputou, exceto as de presidente, mas o mais importante é que, uma vez eleito, não traiu seu projeto político e realizou obras concretas. Por isso mesmo era o mais qualificado para suceder Lula, mas este quis Dilma, dependente dele, inexperiente, inábil. É evidente que Dilma foi escolhida para guardar a vaga durante quatro anos, mas aconteceram imprevistos. Isso é pensar no país ou pensar em si mesmo? É essa a questão. Lula não pensou no Brasil, talvez nunca tenha pensado, pensou em si mesmo, talvez só pense em si mesmo. Isso na melhor hipótese, a pior seria seu compromisso com o neoliberalismo. Simples assim. No entanto, não estou condenando Lula, ele só é o que é porque nos deixamos enganar, porque a esquerda se iludiu com o "líder operário", esse ser esperado como um messias pelos marxistas. O messias mostrou ser o mais hábil político da história brasileira, rivalizando com Getúlio. Seu único problema é que não tinha um projeto nacional e popular para o Brasil e para os brasileiros, e converteu-se no líder burguês capitalista. Imagina Lula com o projeto do Brizola, seria muito bom, mas nesse caso, penso, não seria Lula, porque Lula sempre teve uma ideologia capitalista liberal. Não à toa, seu mais dileto afilhado é o social-liberal Fernando Haddad. Lula engabela os entrevistadores, porque é um mestre da retórica, um encantador de serpentes, como o define Ciro. A única vez em que o vi ser apertado por um repórter foi naquela entrevista histórica para o Glenn Greenwald. Afora tudo isso, é o de sempre, a imprensa capitalista busca o que não é importante para os brasileiros, segue a pauta dos patrões, joga Lula contra Ciro e Ciro contra Lula, para favorecer a volta do neofascismo, que será terrível no segundo governo, assim como trump 2 é pior do que trump 1.
Cada vez com mais frequência me pergunto por que a minha geração foi incapaz de enxergar o que hoje é óbvio. Brizola estava muito à esquerda do que vieram a ser os governos do PSDB e do PT. Dia desses, num programa no YT, uma intelectual de esquerda, instada a escolher o político mais importante para a história do Brasil, ou Lula ou Getúlio, escolheu o primeiro. E eu pensei: que escolha absurda, completamente sem cabimento, só pode ser feita por quem continua vítima da cegueira da qual falei. A obra de Getúlio existe ainda no Brasil, quase cem anos depois, apesar do desmonte a que foi submetida desde a ditadura militar, mas principalmente pelos governos civis "democráticos" e "de esquerda", sem falar no do temer, o minúsculo, e no do bozo, o boçal. E Lula? Gostaria que me apontassem qual a grande realização dos, digamos, 16 anos de governos petistas, excluindo o segundo da Dilma, que não houve. O que é durável nos cinco governos Lula (porque Dilma só existiu porque Lula a escolheu e fez campanha pra ela e, afinal, foi ele também quem escolheu temer, o minúsculo, para vice)? Afora os erros gigantescos que cometeu, do ponto de vista dos interesses nacionais e até mesmo dos seus, como a escolha do vice diminuto e traidor, a coisa mais duradoura que Lula fez foi continuar a política econômica do FHC, de adesão à cartilha do neoliberalismo e submissão aos EUA. Imagina se, no mesmo tempo, a gente tivesse a implantação do programa de educação em tempo integral do Brizola. Aí sim teríamos uma mudança radical no Brasil. Os governos Lula aumentaram muito as vagas na universidade, em 2025 foram quase 10 milhões de alunos, mas 80% delas são em faculdades particulares. Além disso, nas universidades públicas a evasão chegou a 25%. São dois números absurdos e não podem ser usados como propaganda senão por cegos, porque eles mostram, primeiro, que 4 em 5 universitários brasileiros estão fazendo dívida para estudar em faculdades de má qualidade, como confirmou o escândalo recente sobre os cursos de medicina. Mais grave ainda é fazer curso superior e depois ser um trabalhador informal, motorista de uber, entregador de aplicativo. É isso que acontece numa nação que não oferece oportunidades, porque se desindustrializou e todo o dinheiro do Estado sob governos neoliberais de teto de gastos e arcabouços fiscais vai para os banqueiros e para o agrotoxiconegócio, não sobra nada para saúde, educação, transporte, moradia, ciência e tecnologia, enfim, as áreas que beneficiam o povo e oferecerem oportunidades para os jovens. A universidade pública brasileira está sucateada e se socorre com ensino à distância no mínimo deficiente. Não é à toa que Lula perdeu popularidade entre os jovens. Entre aqueles influenciados pelas igrejas neopentecostais, deduz-se quem captura essa impopularidade; entre os outros a simpatia vai para correntes políticas que se definem como socialistas, como a UP. O fato é que, afora o controle da inflação obtida com o Plano Real, e exigência do neoliberalismo para implantação do seu programa de "modernização", nada temos a comemorar em 41 anos de governos civis, 36 de governos eleitos por voto direto, na "democracia". Com um retrospecto tão ruim de realizações, não surpreende que a tão idolatrada "democracia brasileira" venha mais uma vez a cair nas mãos da extrema direita antipovo pela via da escolha popular. As razões são óbvias. Só o que me espanta cada vez mais é por que nos deixamos enganar durante a vida inteira.
Por meio de um projeto de lei, a deputada do PSB Tábata Amaral serve ao lobby sionista e pretende censurar qualquer crítica a Israel no Brasil. A assessora do presidente Lula Clara Ant, do PT, também a serviço do lobby sionista, organiza um seminário para promover o sionismo no Brasil. E na Bahia do líder do governo Jacques Wagner, uma espécie de ACM "de esquerda", os soldados israelenses criminosos de guerra no genocídio dos palestinos passam férias sem precisar de visto de entrada e têm liberdade para agredir a população local e expressar racismo, entre outros crimes relatados por moradores e comerciantes. Mais uma ótima análise do corajoso do judeu antissionista Breno Altman.
Indenização a jovem que foi lesada pelo vício das redes sociais é de 6 milhões de dólares. Documentos da defesa mostram que dirigentes e funcionários da Meta tratam seu produto como droga viciante há muito tempo. "Agora vamos atrás de crianças de 13 anos", diz uma das provas. A estratégia dos advogados foi a mesma usada no século passado contra a indústria do tabaco, que também durante décadas fez propaganda de cigarros e induziu o público a se viciar, tendo conhecimento dos males que provocava. Então e agora, em nome do lucro, movidos sempre pelo capital. A previsão é que uma enxurrada de ações e sentenças virá em seguida, levando ao controle dessas empresas criminosas, finalmente. Um Calma Urgente! de vez em quando é bom. É interessante constatar como Alessandra Orofino e Gregório Duvivier são liberais, acreditam na democracia burguesa, o que significa acreditar no capitalismo e no neoliberalismo. Bruno Torturra compreende a extensão do assunto, a profundidade da questão.
"Na China, uma pessoa entra numa cabine e em quinze minutos faz um checape completo", narra Elias Jabbour, para exemplificar como a inteligência artificial pode ser usada para o bem-estar coletivo, numa nação socialista, em vez de ser usada para empresas venderem porcarias e bilionários ficarem ainda mais ricos, como acontece na civilização capitalista.
O fato é que o mundo pode ser muito melhor, se os humanos assumirem o controle do capital, em vez de serem escravos dele e dos seus proprietários. A China fez isso e está mostrando o caminho para o restante da humanidade. Esse é o ponto. As discussões sobre se a China é capitalista ou socialista, se é uma ditadura ou democracia, só mostram o elevado grau ideológico a que o capital nos submeteu no Brasil. Que autoridade temos nós para falar em democracia, numa nação de tanta miséria, tanta violência, tanta exploração do trabalho, tanta opressão, tanta corrupção dos políticos e autoridades capitalistas? Como me disse uma diarista no ônibus, hoje: de quatro em quatro anos, aparece um candidato lá em casa pedindo meu voto, depois some, não quer saber se eu estou precisando de remédio, de comida nem nada. É essa a democracia que a esquerda brasileira defende há mais de quarenta anos. O único obstáculo entre a riqueza extraordinária que os seres humanos produzem e o seu bem-estar é a dominação do capital. Inverta-se isso, assumam os trabalhadores o controle sobre o capital e a vida será incomparavelmente melhor.
Em memória do Paulo Gualberto Murta (30/9/1953 - 25/3/2026).
Olhei para os dois lados da Avenida Antônio Carlos, não vi nenhum carro e atravessei correndo. Súbito, ouvi um grito e senti um baque que me estirou no asfalto. Só então vi a bicicleta. Tinha sido atropelado e o ciclista assustado perguntava se eu estava machucado. Respondi que não, olhando as mãos, os joelhos e cotovelos esfolados. Apressei-me a levantar, limpei a camisa branca, apanhei minha pasta de couro preta e retomei o caminho, correndo novamente. Estava atrasado para a aula: tinha consumido os primeiros minutos da manhã terminando o para casa e agora precisava encontrar o portão aberto ou todo meu esforço teria sido em vão.
O grupo escolar era um lugar penoso. Para ir à “casinha”, como se chamava o banheiro, precisava de permissão da professora, quando tinha coragem de pedir. Era uma situação traumática: no jardim de infância, uma vez, não consegui controlar, me sujei e permaneci sentado até que chegassem para me buscar, no começo da noite. O jardim, um conjunto de salinhas interligadas no segundo andar de um sobrado, com piso de taco e paredes cheias de cartazes e desenhos, me dava tristeza. A tarde passava devagar enquanto eu e outros meninos e meninas que nunca se tornaram meus amigos permanecíamos sentados em volta de mesinhas com quatro cadeirinhas cada uma, aprendíamos a escrever nosso nome, ouvíamos histórias tenebrosas de lobos maus e bruxas cruéis e brincávamos de toquinhos e massinhas. Só uma vez me alegrei, com um acontecimento extraordinário: descemos à avenida para saudar a bela Staël Abelha, mineira eleita Miss Brasil, desfilando em carro aberto. No grupo, também ficávamos sentados, mas era em carteiras enfileiradas. A sala de aula era uma prisão, eu ficava sentado na carteira, não podia levantar, não podia conversar, não podia sair. Tinha que permanecer em silêncio, prestar atenção na professora, copiar no caderno o que ela escrevia com giz branco no quadro verde. Como curumins ingênuos, a gente se divertia com as novidades, sem saber que estava sendo treinada pela ideologia do sistema para assimilar sua visão do mundo e obedecer suas leis. Algum gaiato soltava um comentário ou fazia alguma coisa engraçada e arrancava gargalhadas e olhares cúmplices na rebeldia à disciplina que a professora tentava impor. Colegas puxavam conversa, as meninas bonitas atraíam minha atenção, a luz do sol e os ruídos externos me distraíam. Eu olhava para as janelas laterais e minha mente voava, pensando nas brincadeiras que me aguardavam em casa, mas devia corresponder à expectativa da professora e ser bom aluno, para ser recompensado com carinho e admiração. Sem fazer esforço, era aprovado ano após ano com média final máxima. O segundo ano foi especial. Dona Maria Luísa era carinhosa e me incentivava com anotações na caderneta, ao lado das notas das provas bimestrais. No final do ano, escreveu palavras exclamativas: Promovido com 10! 1º lugar! Parabéns! Ela estava grávida e no começo do ano seguinte saiu de licença. Uma manhã recebemos a notícia fúnebre: minha professora querida tinha morrido ao dar à luz. Minha turma visitar sua casa, na Rua Turvo, a dois quarteirões do grupo. Minha mãe, que acabara de ganhar minha irmã caçula, comentou, consternada, que era inadmissível em pleno século XX ainda se morrer de parto no Brasil. No terceiro ano, eu fazia desenhos para ilustrar meus trabalhos e os de colegas e vizinhos que vinham pedir minha ajuda. Dona Marlene, que falava alto e tinha sotaque nortista, se entusiasmava com as minhas composições na séria intitulada “Se eu fosse…” e não se cansava de elogiar minha imaginação para os meus pais. Foi perturbador perder o posto de melhor aluno no quarto e último ano do grupo. Conceituada e temida, Dona Dagmar inspecionava nossos cadernos, um por um, na fila, antes de entrarmos em sala, e aquele ritual me apavorava. Ela desconsiderava meu passado escolar e o fato de ser filho de uma colega e, quando eu levava um bilhete que justificava com a asma um dever de casa não feito, perguntava para a classe: “Tem mais algum doentinho que não fez o para-casa?” Querendo me proteger da megera, minha mãe tentou me trocar de turma, mas não teve sucesso e o episódio selou minha queda. Eu me sentia culpado, pois era relapso. Mal saía da escola, aliviado pelo fim de mais um suplício, abraçava meu amigo e xará, moreninho, tímido e gentil, que morava num bairro distante e sempre tinha dinheiro no bolso, e íamos os dois comprar picolés de groselha na sorveteria da esquina. Eu sabia que aquele gelado proibido e irresistível poderia resultar numa crise de asma, assim como passar a tarde jogando bola na poeira, mas fazia assim mesmo, e adiava o dever de casa para a noite. À noite, distraído pela televisão e vencido pelo cansaço, calculava que poderia cumprir a obrigação no dia seguinte, antes de ir para a aula, se acordasse bem cedinho… Ao acordar, porém o que tinha parecido uma boa solução mostrava-se inexequível diante do sono matinal, e eu preferia dormir mais um pouquinho: levantava em cima da hora, vestia o uniforme correndo, arrumava a pasta, engolia o café com leite e saía mastigando o pão com manteiga, esforçando-me para chegar a tempo, rezando para não ter fila de revista e escapar das chamadas da dona Dagmar.
Naquela manhã, depois de ser atropelado pela bicicleta, encontrei o portão do grupo ainda aberto e me acalmei ao alcançar a sala de aula, pois estava preparado: o para casa tinha sido fácil, uma composição sobre o tema “Meu melhor amigo”. Sem titubear, escrevi sobre José, com quem brincava desde que me lembrava, depois que Gérson foi embora para sempre. Nomeei-o, narrei nossas brincadeiras, proclamei os sentimentos que nos uniam e concluí: “Por tudo isso, José é o meu melhor amigo”. Quando dona Dagmar me chamou, levantei-me e li com segurança minha redação, voltei a sentar satisfeito e esperei pelas outras leituras. A menina que leu depois de mim teceu loas ao seu melhor amigo e fez suspense sobre seu nome. Estranhei que seu melhor amigo fosse homem e não mulher, e compreendi no final, quando ela revelou que falava do seu pai, mas achei aquilo falso e piegas. Outros colegas leram suas composições em seguida e todos falaram do pai. A cada nova leitura eu me encolhia na carteira, envergonhado por também não ter falado do meu pai: no domingo seguinte comemorava-se o Dia dos Pais e com certeza, apesar do título, a instrução da dona Dagmar era homenagear nossos pais, mas eu comi mosca e dera um vexame. Na votação feita pela turma, a minha composição ficou em último lugar; todos deviam pensar que eu não gostava do meu pai. Para mim, no entanto, pai era pai e amigo era amigo.
Alguma coisa está acontecendo na esquerda, quando até Breno Altman faz críticas contundentes ao PT. Enfim. Ele faz constatações fundamentais ("Em quase vinte anos de governos petistas, a consciência política popular não aumentou nada, como isso é possível?"), mas não tira as conclusões necessárias. Ora, isso aconteceu porque o PT, sob a liderança do Lula, virou um partido burguês, deixou de ser um partido dos trabalhadores e se tornou um partido dos capitalistas, administrando o Estado para a classe dominante, que não consegue eleger candidatos próprios, ora vai com a esquerda (FHC, Lula, Dilma), ora vai com a direita (Collor) ou com extrema direita (bozo pai e bozo filho), porque é uma fração insignificante da população, e usa todo o seu poder para domar o presidente que ajuda a eleger, usando os instrumentos que controla: Congresso, STF, veículos de comunicação, além da ameaça permanente do Exército. Nada melhor para o capital do que o governo de um partido popular, porque mantém os trabalhadores paralisados e assume todos os ônus de governar, como está acontecendo agora. Por isso, um partido de esquerda quando chega ao poder tem que governar para os trabalhadores e enfrentar o capital, porque, de qualquer forma vai levar chumbo do capital, e precisa pelo menos manter o apoio da sua base. O PT fez o contrário, buscou (e busca ainda, exceto nas eleições) o apoio do capital e abandonou os trabalhadores. Conclusão: a extrema direita capturou os trabalhadores com ideias absurdas e o capital abandonou Lula. Quando precisou, para derrotar o bozo descontrolado, foi buscá-lo de volta. Agora, com se deduz do noticiário da globo, uol, estadão etc., já negociou com o bozo filho e vai com ele. Enquanto isso, os trabalhadores que ainda acreditam no Lula, que já foram quase 90%, mas agora são menos da metade disso, perderam as referências do que significa ser de esquerda, acham que políticos são todos iguais, todos corruptos e interessados só no seu. Por quê? Porque o PT não tem um projeto próprio para o país que o distinga dos partidos burgueses. Não defende a nação nem os trabalhadores: não revogou a abolição dos direitos trabalhistas feita pelos governos temer e bozo e não implanta um programa de desenvolvimento que privilegie os interesses nacionais em detrimento dos interesses do capital internacional. Ou Lula acorda e apresenta um programa radical para o Brasil e para os trabalhadores, ou o bozo jr. ganha a eleição e os próximos anos serão ainda piores do que os anos 2019-2022, do governo pandêmico, como está sendo pior o segundo governo trump.
Não é falta de aviso. Entra num ouvido e sai pelo outro. Há muito tempo. Entre outras coisas, esse comunicador que eu não conhecia, mas é convincente, mostra que a extrema direita emprega ferramentas usadas por Lênin há mais de cem anos e que a esquerda abandonou. Ele pede um choque na comunicação do governo e avisa que se o bozo filho for eleito será muito pior do que o pai.
Parece uma pergunta de difícil resposta, desde os anos 1970. Nildo Ouriques faz parte de uma tradição política da qual participei na juventude, originária da Polop, a única tentativa de formular um caminho brasileiro para a revolução socialista e cujo maior expoente foi o cientista social mineiro Ruy Mauro Marini.
Em 1970, a ditadura militar estava no auge. O Brasil ganhou a Copa do Mundo do México, o "milagre econômico" deslanchava, o país crescia em índices chineses, o movimento estudantil de 1968 tinha sido derrotado, a esquerda revolucionária foi esfacelada, a oposição do fascismo estava morta, presa, clandestina ou exilada. Teve eleição parlamentar naquele ano, a ditadura sempre fingiu que era uma democracia burguesa, e grande parte do povo, que não é bobo, votou nulo. O partido do governo, a Arena, saiu amplamente vitorioso, e o partido da "oposição", oposição consentida e castrada, o MDB, convenceu poucos eleitores. A ditadura deitava e rolava na propaganda do "país que vai pra frente", "ame-o ou deixe-o", um slogan precursor do "Vai pra Cuba!", que os neofascistas recuperaram. Eles se repetem sempre, sem qualquer criatividade, porque são, acima de tudo, indigentes mentais e débeis morais.
Quatro anos depois veio outra eleição e a surpresa: em apenas quatro anos, o humor popular tinha mudado e seu voto migrou, em grande parte, para o MDB. Em Minas, elegeu para o Senado Itamar Franco, que viria depois a ser presidente. A esquerda sobrevivente se dividiu: pregar o voto nulo, reforçando a
tendência popular em 1970, ou apoiar "candidatos autênticos" da
"oposição" MDB. A maior parte fez essa opção, a minoria, praticamente
apenas os remanescentes da Polop, pregaram o voto nulo. A ditadura levou um susto e o MDB passou a ser um novo espaço de atuação institucional da esquerda, que foi aos poucos estreitando seu laços com o que havia de descontentamento na burguesia e na pequena burguesia. A divisão da esquerda nunca se refez, os "democratistas" prevaleceram e a Polop se autodissolveu.
A eleição de 1974 foi o primeiro sinal de que a ditadura ia acabar algum dia. Isso porque a situação econômica mundial que sustentava o "milagre brasileiro" tinha mudado, com a crise do petróleo, que disparou a dívida brasileira. Pouco antes, o novo presidente ditador, Geisel, então presidente da Petrobrás, tinha decidido não investir em tecnologia e pesquisa, considerando que não valia a pena, pois o preço do petróleo era muito baixo. Foi um erro crucial. E olha que a ditadura tinha um plano de desenvolvimento econômico, um projeto de industrialização, baseado em empresas estatais; o Brasil nunca teve tantas "brás" quanto nesse época. Os militares chegaram até a começar um programa nuclear, o que levou a atritos com os EUA e perda de apoio, outro motivo para enfraquecimento do regime.
O fato é que a ditadura foi incompetente em relação ao petróleo e nunca mais se recuperou, foi só descendo a ladeira, vendo a inflação crescer e a oposição também, se dividindo entre "aberturistas", favoráveis a uma abertura política lenta, gradual e segura, e a linha dura, favorável ao fechamento total. O processo foi uma agonia longa e os militares da linha Geisel se impuseram e levaram tudo, no fim, voltando para os quartéis sem qualquer punição, cheios de privilégios, impondo sucessivas derrotas à oposição, que acabou engolindo, como primeiro presidente civil, um político da ditadura, e, como primeiro presidente eleito pelo voto direto, outro político de direita apoiado pela Globo. Depois vieram o governo Itamar Franco e a estabilização da economia, com o Plano Real, a eleição de FHC e sua adesão ao Consenso de Washington, que implantou o neoliberalismo na América Latina, e a promessa do Lula de que, se fosse eleito na quarta tentativa, seguiria na mesma toada, o que cumpriu.
Agora o voto nulo ressurge, diante de uma interpretação da realidade em que parte da esquerda, aquela mesma herdeira do voto nulo de 1974, diz que, seja com Lula, seja com o bozo, ou seu filho, pouco muda no país e que é preciso buscar outro caminho, o da revolução. É um dilema: não há dúvida de que é melhor viver num governo minimamente civilizado, como o do Lula, do que num desgoverno que liberou todos os crimes, como foi o do bozo. Também é certo, por outro lado, que enquanto a alternativa ao fascismo for Lula, o Brasil e a vida dos brasileiros dificilmente vão melhorar.
Boa entrevista da Marina Lima para a Folha de S. Paulo. Não sabia que a Folha fazia entrevistas em vídeo, vi essa por acaso. Tenho uma, digamos, relação com a Marina. Temos a mesma idade, dei a uma filha esse belo nome e um dos motivos foi a simpatia pela cantora. Ela me impressionou muito quando apareceu, no final dos anos 1970, começo dos 80. Achei que era diferente e tinha talento, gostei muito de algumas canções, Fullgás em especial, comprei seus primeiros discos, tinham uma sonoridade própria. Depois me desinteressei dela, não acompanhei sua carreira. Também admirei o Antônio Cícero letrista, com versos elaborados e modernos. Quando fazia músicas com minha irmã Rita, lembrava da parceria desses dois irmãos. A decisão do Antônio Cícero pela eutanásia, há dois anos, é uma dessas coisas marcantes pela sua raridade, que nos faz pensar e admirar. A Marina fala dessas coisas nessa entrevista, na modernidades dos dois,
diferente do ambiente musical brasileiro da época, dos diversos
ambientes, melhor dizendo. Ao contrário do que eu imaginava e apesar da voz, ela está firme.
Jones Manoel é o primeiro militante político de esquerda brasileiro que vem do povo e ganha projeção popular nacional, desde Lula. Ele também é pernambucano e tem mais ou menos a idade que Lula tinha quando se projetou nacionalmente, liderando e controlando as greves dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP) e logo influenciando o movimento sindicato de todo o país, até formar o PT e dar um salto para a política, na mais impressionante trajetória de um político brasileiro desde Getúlio Vargas. As comparações param por aí. Tenho há muito tempo minha opinião sobre o Lula, com o qual nunca concordei, mas já fui mais ou menos condescendente, conforme a situação. Lula nunca foi de esquerda e nunca pretendeu fazer política fora dos limites da dominação burguesa, o que na prática o coloca como representante do capital; as dúvidas ficam quanto à origem do seu compromisso com o imperialismo estadunidense, mas isso não importa de fato, porque, na prática, assim como FHC, ele seguiu a cartilha neoliberal e nunca se indispôs com Washington. Jones Manoel não é líder sindical, sua projeção se deu nas redes sociais, embora seja militante do PCBR e participe ativamente de movimentos populares. A principal diferença entre ele e o presidente está na consciência política, baseada em amplo conhecimento, que o tornam uma personalidade da qual se podem esperar ações e posicionamentos raros no Brasil. Em conhecimento, se assemelha ao Ciro Gomes, em coragem, ao Brizola. Que faça um boa campanha para deputado e continue lúcido, num trajeto até a candidatura a presidente em 1930, são os meus votos.
Depois de publicar o post anterior ("Imprensa e ideologia") vi este vídeo esclarecedor. Parece feito sob medida para parte do que escrevi. Mostra que, além de instrumento, a Globo está metida até o pescoço nos interesses que defende. Palmas para o ICL. A propósito: a Globo colocou o símbolo do PT e poupou Jacques Wagner, petista da Bahia envolvido com o Master e que faz parte do lobby sionista.
Eu ia publicar um vídeo da Globonews para exemplificar, mas decidi não perder tempo com isso. É sobre o Irã, mas podia ser sobre a Palestina, Cuba, Venezuela, até sobre o Brasil. A Globo é um instrumento da política neoliberal, o que significa do capital internacional, o que significa do imperialismo estadunidense, o que significa da civilização eurocêntrica. Está no Brasil, mas copia, com qualidade inferior, como tudo que o capital internacional produz no país, a imprensa capitalista hegemônica. O que fez nas manifestações populares de 2013 e na campanha do impeachment da presidenta Dilma foi asqueroso. Faz o mesmo na política internacional, sempre subserviente aos EUA.
Não foi a Globo, porém quem subjugou minha geração. Todos sabíamos de que lado ela estava, pois apoiou o golpe de 1964, foi porta-voz oficiosa da ditadura, boicotou os movimentos populares, tentou impedir a eleição do Brizola e lhe fez oposição, ajudou a derrubar a emenda das diretas e a eleger o Collor. A ideologia é insidiosa. O neoliberalismo contaminou minha geração, a geração estudantil que se levantou contra a ditadura e começou a derrubá-la, transmitido pela própria esquerda, nos governos dos seus principais expoentes, FHC, Lula e Dilma. O tucano inaugurou a adesão ao Consenso de Washington e o ex-operário, fazendo-lhe oposição, seguiu o mesmo caminho, porém, uma vez no poder, e da mesma forma a ex-guerrilheira.
A ideologia funciona assim, primeiro confiamos nas pessoas, depois acreditamos nelas, e continuamos obedecendo-as mesmo quando elas não fazem o que esperamos, quando suas ações não correspondem mais ao discurso. A imagem da Dilma, que pegou em armas contra a ditadura, era mais forte do que os atos do seu governo a favor do capital. A imagem do Lula, um líder operário, sindicalista, retirante nordestino, homem autêntico do povo, sempre superou seu governo subserviente aos banqueiros e ao agrotoxiconegócio, abraçado ao magnata da indústria, seu vice. A imagem do intelectual marxista FHC sempre dourou as medidas antinacionais e antitrabalhistas que ele tomou. Já lhe tive desprezo, a partir do momento em que inventou a reeleição em seu próprio benefício, mas hoje penso que, dos três, talvez o sociólogo seja o mais honesto, uma vez que nunca se arvorou em líder dos trabalhadores.
O fato é que atravessamos décadas de confusão ideológica, influenciados pelo fim da URSS e do bloco soviético, sem compreender a civilização chinesa e colonizados pelo eurocentrismo, sem compreender que, aderindo ao neoliberalismo dos tucanos e petistas, ajudávamos a abrir caminho para o fascismo militar, que fez um governo de horrores, no qual morreram mais de 700 mil brasileiros na pandemia. Não obstante, e embora seu líder máximo se
encontre preso por tramar um golpe de Estado, o fascismo está pronto para voltar ao poder, novamente com apoio da Globo, do UOL etc. e por meio do voto popular. Quantas décadas levaremos para construir uma alternativa política enfim popular e nacional?
Jones Manoel analisa o fiasco do presidente cuja candidatura nasceu da uma grande rebelião popular e foi a grande esperança de esquerda. Em resumo: não cumpriu as promessas de campanha e fez um governo neoliberal, alinhado com os EUA. Os eleitores escolheram um candidato que prometeu mudanças, na sua eleição e na sua sucessão. Lembra o Brasil. O fato é que, ao chegar ao governo, no Estado burguês capitalista, a esquerda latino-americana precisa escolher entre executar um programa popular e mobilizar e organizar os trabalhadores ou se curvar aos interesses do capital e do imperialismo e fazer o que estes querem, como todos os governos de direita, dar ao povo algumas migalhas do banquete dos ricos, justificando que não dá pra fazer mais. O capital tem estratégias e muito dinheiro para realizá-las, impondo seus interesses. Quanto à esquerda, perdeu o rumo e ficou órfã, depois do fim da URSS e do seu bloco; poucos são os políticos e partidos que compreendem que ser de esquerda é formular e executar um projeto nacionalista, porque o capital não tem pátria e as burguesias nacionais não se distinguem do capital internacional, não têm o menor interesse no desenvolvimento nacional, muito menos se preocupam com os trabalhadores.
Parece absurdo, mas é verdade. Como prêmio pelo serviço militar na Palestina, onde mataram milhares de civis desarmados, crianças e mulheres inclusive, soldados israelenses passam férias no Sul da Bahia de tempos em tempos. A gente pode imaginar como está a cabeça e o comportamento desses homens acostumados a praticar barbaridades que vemos relatadas no genocídio do povo palestino. Aqui, não são bem vistos pela população, pois manifestam racismo, arrogância e agressividade, mas os dólares que gastam agradam os comerciantes. Dessa vez eles intervieram numa manifestação de brasileiros e alguns foram presos. Eles não precisam de visto para entrar no Brasil, informa uma das reportagens, o que é absurdo, porque Israel não permite que estrangeiros entrem na Palestina, ataca e afunda navios que se aproximam, prende seus ocupantes, mas os soldados israelenses entram e circulam livremente no Brasil e ainda hostilizam e agridem brasileiros. A notícia do G1 omite a nacionalidade dos "turistas" que agrediram brasileiros, numa clara demonstração de como o lobby sionista controla a Globo. Como diz a comentarista baiana de outra reportagem, não precisamos e não podemos tolerar que os israelenses venham praticar violência também no Brasil, contra brasileiros. Sua entrada deve ser controlada pelo governo brasileiro.
Suzana Botár, que eu não conhecia, faz uma exposição brilhante sobre a política americana contemporânea, desde a virada democrata com Roosevelt, em 1933, até a ascensão republicana do trump, passando pela derrocada do Estado de Bem-Estar Social e a reinvenção do liberalismo, uma realidade complexa que resume a história mundial. Ela fala tão fácil e com tanta clareza e bom humor, que parece simples esse jogo de xadrez da política internacional. E é tão bonita. O que eu acho mais impressionante é como a imprensa capitalista difunde uma ideologia ignorante e o melhor é ver que essa ideologia está desmoronando nesse terremoto trumpista-bozoísta. "Somos contaminados pelo neoliberalismo progressista." É isso, essa frase resume o diagnóstico da esquerda brasileira e mundial atual.
Na teoria, ele tem uma posição, no governo, assume outra, e justifica com a
correlação de forças. É uma forma de ver as coisas, outra é pensar que o discurso visa a ganhar votos dos trabalhadores, enquanto a prática demonstra a quem ele serve: o capital. Haddad é autor da lei do arcabouço fiscal que limita o aumento do salário mínimo a 2,5% acima da inflação. Não há melhor governo para o capital do que aquele que contém os protestos dos trabalhadores. O PT no poder diz aos trabalhadores brasileiros: vocês não precisam protestar, não precisam se mobilizar, não precisam reivindicar, porque nós já estamos no poder e fazemos tudo que é possível para vocês, o que não fazemos é porque não é possível. Mas os trabalhadores não entendem assim e com o tempo foram concluindo que um governo que age contra eles não é o seu governo. E ouviram outros discursos, da extrema direita. Abaixo, um vídeo com a entrevista do ilustre marxista liberal (!) e outro com comentários de um marxista de oposição, Jones Manoel.
2112 - Antes de criar o Divergência Socialista e o Último Número você fazia performances coletivas/individuais de poesias com livros impressos em mimeógrafo ao lado de Marcelo Dolabela e Rubinho Mendonça. Como surgiu esse projeto?
Jair - Surgiu de um grupo de estudantes universitários liderados por Marcelo Dolabela, bem como de alguns secundaristas como Rubinho, em torno de uma revista chamada Cemflores, inicialmente patrocinada pelo DCE Cultural da UFMG.
Judeus alemães que migraram para os EUA fugindo do nazismo agora estão fugindo dos EUA e voltando para a Alemanha com medo de também serem perseguidos pelo governo trump, como outros grupos raciais. O desafio da nossa época é entender a razão por trás da loucura na política atual.
A primeira morte que me perturbou e consternou profundamente foi a
da minha professora do segundo ano primário, dona Maria José. Eu
tinha nove anos, ela tinha sido minha professora no ano anterior, uma
professora competente e carinhosa, como posso constatar ainda hoje na
caderneta escolar, que conservei, a mais querida das minhas
professoras. Morreu jovem, no parto de uma filha, o que provocou o
comentário da minha mãe, que tinha aproximadamente a mesma idade e
a mesma profissão que ela, que era inadmissível naquela
altura do século XX ainda morrerem mulheres no parto no Brasil. Minha turma
saiu da aula, de manhã, e fomos todos à sua casa, numa rua paralela
à rua do grupo escolar, bem perto. Era o simbólico ano de 1964, em
que também o Brasil morreu mais uma vez. No ano anterior, aconteceu
outra morte memorável, mas esta foi um acontecimento de alcance
geral, acompanhado com imagens e notícias durante muitos e muitos
dias no mundo inteiro, um “fato histórico”: o assassinato do
presidente americano John Kennedy. Ele tinha a mesma idade do meu
pai, que fazia exames para diagnosticar dores no
peito e me lembro da minha mãe telefonando para o médico e pedindo que,
se tivesse notícia ruim, falasse primeiro com ela, pois meu pai
estava muito impressionado. Com imaginação fértil e raciocínio prático, eu pensei que, se meu pai morresse, eu ajudaria a sustentar a casa desenhando histórias em quadrinhos e minha irmã mais velha, que era boa aluna, poderia escrevê-las. (Seria uma manifestação dissimulada do Complexo de Édipo?) A morte rondou aqueles dias, lembro também de visitar
com mamãe uma colega de trabalho dela que sofria de câncer e morreria
logo, lembro do seu quarto confortável e bem iluminado numa casa
elegante. Meu pai viveria mais quarenta anos, com saúde para dar e
vender, morreria em idade provecta. A segunda morte de um conhecido
que me impressionou foi quando eu tinha onze anos, no breve curso de “admissão
ao ginásio”, de um colega de
aula, um menino forte, bronco e atirado. Ele morreu afogado, num domingo, e na segunda fomos
visitar sua família. Foi a primeira vez que fui a uma favela, lembro da dificuldade de chegar ao endereço, subindo vielas escuras, assim como o casebre miserável
em que tinha morado, e de encontrar seus pais, abatidos e surpresos
com nossa presença. A morte seguinte da qual me lembro foi a
primeira de alguém com quem convivia, um parente, o meu avô
paterno, o único que conheci. Ele tinha mais de oitenta anos, há
controvérsias sobre o ano em que nasceu, mas oficialmente teria
82 anos incompletos. Há uma curiosa coincidência entre meus dois
avôs: ambos nasceram no mesmo dia do mesmo ano: 20 de agosto de
1886, mas meu avô materno morreu novo, aos 60 anos, e não o
conheci. Meu avô paterno, vovô Dimas, era um homem austero,
rigoroso, bravo, diligente e bom, que ajudava minha mãe a cuidar dos
filhos, nas faltas das empregadas, e passávamos muitas horas e dias
com ele, acompanhando-o nas suas atividades domésticas e voltas pelo
bairro. Sua morte foi cercada de circunstâncias especiais, pois no
mesmo dia eu estava internado num hospital para tratamento de uma
crise de asma, a mais forte que tive, e vendo as visitas chorosas,
pensava que era por minha causa, me comovia e achava desnecessário,
pois estava me recuperando e me sentia bem. Quando voltei para casa,
minha mãe me deu a notícia com cuidados novelescos, fechados a sós
no meu quarto; me diverti com a cena e me esforcei para desempenhar
meu papel, mas não sofri o impacto, pois, por algum motivo, eu já
sabia o que ela ia me contar e considerava natural que meu avô
morresse – ele era velhinho e iria para o céu, estava tudo dentro
da ordem. O que era a morte para mim, nessa época infantil? Não era
uma coisa terrível, embora fosse triste, lamentável, dolorosa.
Horrível era morrer em pecado e ser condenado ao fogo eterno dos
infernos, mas morrer não, porque existia Deus e as pessoas boas iam
viver em Sua companhia, os sobreviventes podiam se consolar com isso.
A morte precoce e inesperada nos fazia sofrer, mas nos conformávamos
aceitando os desígnios divinos, incompreensíveis, mas sábios.
Nenhuma morte de alguém com quem eu convivia iria me abalar nos anos
seguintes, até que eu entrasse na universidade. Nessa época, quando
eu tinha já meus vinte anos, muitas coisas tinham acontecido e
mudado minha consciência, eu mesmo tinha sido vítima de uma
desgraça absurda, que poderia ter me matado talvez, não matou, mas
me custou uma vista e me deixou em estado de choque diante das mortes
ao meu redor. A desgraça confirmou o que eu tinha descoberto: a
morte absurda como fim da vida absurda, a gratuidade
da vida, a inexistência de Deus, a
ideologia humana que tinham me ensinado e me fazia funcionar, mas eu perdera e não funcionava mais no modo automático. Passaria então a me angustiar com a minha própria morte, com o fim da minha consciência, com a minha saída de cena do teatro da vida, desejando adiá-la permanentemente, pois nunca estava pronto, e sentindo, junto com a dor e a revolta de uma morte precoce e injusta e a impotência para impedir a morte de uma pessoa querida, o alívio inconfessável de que não tinha sido eu ainda, que continuava vivo, que tinha escapado, que podia continuar vivendo e tentando esquecer que também eu morreria um dia, pois a vida é isso, esse tempo, longo ou curto, se contado em anos, mas sempre breve para a consciência do indivíduo que passa os dias na Terra acompanhando o teatro humano e tentando desempenhar o papel que lhe cabe.
O partido do historiador pernambucano é o PCBR, Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, que não tem registro eleitoral, por isso ele será candidato a deputado federal pelo PSOL. Tenho dúvidas sobre a eficácia da política em redes sociais como ação transformadora de esquerda. Reconheço, e nem poderia ser diferente, a eficiência das redes sociais na difusão de informações falsas pela extrema direita, mas continuo achando que a luta de classes é presencial, que não se muda a realidade sem mobilizações reais de massas. Internet, nos seus inúmeros veículos, é um instrumento, não é a própria ação política. Dito isso, é inegável que Jones Manoel se destaca como agitador que renova o debate sobre ideias de esquerda hoje. Ele faz o que a esquerda brasileira, desde que a conheço, há uns cinquenta anos, nunca fez: desenvolver um programa de governo concreto para o Brasil sem perder de vista o objetivo final, isto é, o socialismo. É uma característica da esquerda brasileira pregar o socialismo e, no governo, praticar o capitalismo, sem ousar sequer reformar o Estado. O Brasil se tornou um paraíso dos privilegiados e corruptos, de violências contra os trabalhadores e impunidade, uma terra sem lei, em que o crime organizado está presente em todas as esferas do poder, como mostram as investigações da Polícia Federal sobre o sistema financeiro. O Brasil se tornou isso porque o neoliberalismo desregulou tudo, fez o país retroceder à condição pré-industrial, de colônia agroexportadora. O Brasil se tornou essa terra de desesperança em que a extrema direita avança pregando contra o crime e a corrupção sendo ela própria o sindicato do crime e da corrupção. O Brasil é assim hoje porque a esquerda abdicou de defender e implantar um projeto socialista e se conformou em administrar o Estado burguês, a "democracia". Jones Manoel está ocupando o espaço vazio que o PT deixou. Conforme ele próprio reconhece, é um caminho longo e difícil, mas é preciso começar. Oxalá consiga liderar uma nova esquerda.
Trocando mensagens com um ex-colega do JB nas décadas de 1980 e 1990, tentei lembrar quem votou em quem (isto é, os votos de cada um na redação da sucursal) na eleição da 1989, a primeira eleição presidencial direta depois da ditadura militar (1964-1985). E então me dei conta de que o segundo turno daquela eleição inaugurou uma situação que os brasileiros começaram a viver, em cada eleição presidencial, e que persiste até hoje, 37 anos e dez eleições depois: escolher entre Lula e outro candidato. Na eleição deste ano, Lula, que já governou graças à maioria dos trabalhadores, de cuja classe veio, visa a outra maioria, a das mulheres, como se vê no vídeo abaixo.
É um exercício muito interessante pensar na eleição de 1989, porque nos dá perspectiva histórica. Muita coisa pode ser inferida dessa simples observação, na verdade tudo, ou quase tudo da política brasileira nessas quatro décadas, e, como a política é o sistema nervoso de tudo, do próprio Brasil. A primeira coisa, óbvia, é que Lula é a maior personagem da história do Brasil, pois nenhum outro governante esteve no topo durante tanto tempo, nem mesmo Getúlio Vargas, que, do ponto de vista da construção da nacionalidade brasileira, é infinitamente maior. De fato, ao contrário de Getúlio, Lula não deixará herança palpável, institucional, e se deixar não será boa; sua obra me parece difusa, a simples administração do país, e mais alguma coisa subjetiva, na imaginação popular. Esta última, porém ainda não está muito clara para mim. Se ele tivesse saído em 2010, estaria: Lula deixaria o poder como um mito, no auge do sucesso, com aprovação quase unânime. Seria um Pelé da política, digamos assim, quanto mais o tempo passasse e a situação do país piorasse, como piorou, ele seria lembrado como o presidente de uma época dourada, como ainda hoje lembramos do JK. Muitas coisas aconteceram depois e Lula voltou a realizar façanhas, conseguiu superar o inferno da prisão e deu a volta por cima, elegeu-se presidente outra vez, mas é maior hoje do que foi no passado? Me parece que não, penso que os últimos 16 anos não o engrandeceram, embora tenham contribuído para consolidar sua condição de ídolo para uma parcela da população que já o idolatrava. De fato, prevejo um final melancólico para ele e pior para os brasileiros: deixar o poder derrotado na eleição deste ano. Se isso não ocorrer, será sua última façanha. Os ventos sopram mudança e, conforme sugere o começo deste texto, não há mudança mais simbólica e marcante no Brasil do que Lula perder o protagonismo político. Pesquisas e análises indicam isso, embora com cautela, talvez por medo da volta da extrema direita apocalíptica ao governo, talvez em respeito ao provecto líder, talvez por crença no seu poder mágico, talvez por simples perplexidade.
O Lula de 1989 era um brasileiro muito diferente. Aquela eleição, aliás, foi completamente diferente das eleições que temos tido nas últimas décadas. A eleição foi diferente porque o Brasil era muito diferente. A ditadura cumpriu seu papel de decepar a oposição de esquerda, primeiro os trabalhistas e os comunistas, que governavam com Jango, em 1964, e depois os grupos revolucionários que dirigiram o movimento estudantil de massas, em 1968. Quando os militares começaram a passar o poder para os civis, no governo do general Figueiredo, o que havia na oposição eram os sobreviventes da esquerda, no movimento estudantil e nos sindicatos pelegos. Fraca, traumatizada e confusa, a esquerda aceitou o papel de coadjuvante na oposição liderada por setores burgueses e pequeno-burgueses que queriam trocar os militares por um governo próprio. A esquerda, mesmo enfraquecida, foi fundamental para mobilizar as massas que voltaram à luta a partir de 1977. Incapazes de controlar a insatisfação popular num cenário de crise econômica, os sindicatos pelegos viram surgir um "novo sindicalismo". Lula é expoente desse sindicalismo pelego renovado. É um sindicalismo que não reivindica o trabalhismo e o getulismo, não quer colar o passado trabalhista que o golpe de 1964 e a ditadura rasgaram, ao contrário os rejeita, nas figuras do PTB e do Brizola, e quer fundar uma nova era, com o PT e Lula.
Me parece fundamental prestar atenção nesse momento para entender o que veio depois e existe hoje. A ditadura militar, até a crise econômica que começou na década de 1970 e que se aprofundou na década de 1980, mantinha um projeto nacional de desenvolvimento, tinha inclusive entrado em choque com o governo americano por desenvolver um projeto nuclear. Hoje, uma das coisas de que mais se fala, diante do cerco do imperialismo ianque à Venezuela, Cuba, Colômbia e toda a América Latina e das guerras para mudança de regime no Oriente Médio promovidas pelo mesmo imperialismo e seu braço sionista, é que não há possibilidade de independência sem posse de bomba atômica. Pois bem, o Brasil estava nesse caminho na década de 1970, quando a crise econômica abalou o regime militar. O programa nuclear brasileiro fazia parte do projeto nacional de desenvolvimento, formalizado nos diversos planos nacionais de desenvolvimento (PND) dos militares. Esse projeto, por sua vez, não era uma novidade da ditadura, era uma continuação do que começou na Revolução de 1930 e foi tomando forma nas décadas seguintes em sucessivos planos, dos quais o Plano de Metas do JK, com o slogan "50 anos em 5", é o mais famoso. Em resumo: até a crise econômica dos anos 1980, o Brasil seguia um rumo próprio, o chamado "desenvolvimentismo". A crise que acabou por derrubar a ditadura militar liquidou também o projeto de desenvolvimento nacional.
As forças políticas que emergem dos movimentos de massa oposicionistas a partir do movimento estudantil de 1977, passando pelas greves no ABC paulista e pela onda grevista em todo o país na sequência, pela campanha Diretas Já, derrotada, pela eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral, e culminando na eleição presidencial direta de 1989, essas forças políticas vão sepultar não só a ditadura militar de 21 anos, mas também o trabalhismo getulista e o desenvolvimentismo. O que virá depois será completamente diferente, não terá mais laços com o ciclo histórico inaugurado pela Revolução de 1930 e que chega até a ditadura militar, atravessando a ditadura Vargas (1930-1945) e a República Populista (1946-1964). Curiosamente, ao contrário do que eu imaginava, a eleição presidencial direta de 1989 inaugurou uma nova fase brasileira, mas o seu momento decisivo não foi a eleição do Collor, no segundo turno, foi a derrota do Brizola, no primeiro. Ao tirar Brizola e o PDT do protagonismo político, as forças de oposição (burguesa, pequeno-burguesa, novo sindicalismo e esquerda sobrevivente) que emergiram da luta contra a ditadura militar completam sua obra e deflagram um novo ciclo político que já dura 37 anos.
Exatamente em 1989, o cenário mundial começa a mudar bruscamente com a queda do Muro de Berlim, seguida nos anos próximos do fim da URSS e do bloco soviético. Na crise dos anos 1980, o neoliberalismo começou a proliferar, depois do ser testado no Chile da ditadura militar que derrubou o presidente Allende. Esses ventos estrangeiros dão o tom da música que tocará também no Brasil "democrático". As diferenças entre Brizola e Lula, entre PDT (PTB) e PT são muito maiores do que as diferenças entre Collor e Lula, FHC e Lula, PSDB e PT, como hoje se vê facilmente. Tanto Collor, quanto FHC, quanto Lula são presidentes que aderem ao neoliberalismo e abandonam um projeto nacional de desenvolvimento. FHC inclusive assinou o tratado de não proliferação de armas nucleares com o qual os EUA controlam a emergência de rivais e mantêm o neocolonialismo contemporâneo. Lula não reverteu nenhuma das políticas neoliberais dos seus antecessores, tampouco o desmonte dos direitos trabalhistas promovido pelos governos temer, o minúsculo, e bozo, o boçal. A esquerda brasileira nunca mais falou em socialismo e nacionalismo, como falava antes de 1964 e durante a ditadura, período em que estava na clandestinidade, se dizia marxista, seguia a cartilha leninista e pregava a revolução.
Com o fim da "Era Lula", já neste ano ou no emblemático ano de 2030, quando se comemorará o centenário da Revolução de 1930, o Brasil se vê diante da exigência de começar um novo ciclo, que pode ser o aprofundamento da condição de colônia neoliberal, sob um governo de extrema direita, ou um novo projeto de desenvolvimento nacional. Seja como for, aquelas forças políticas que lideraram a derrubada da ditadura militar e o sepultamento do desenvolvimentismo e implantaram o neoliberalismo no Brasil estão encerrando seu ciclo. Lula é e será sempre o seu expoente máximo.
Neste momento horroroso da história, protagonizado pelos crimes dos governos estadunidense e israelense, lembrei dessa canção. É uma das minhas preferidas. Paulo Francis escreveu uma vez que Simon and Garfunkel eram os melhores intérpretes dos EUA. America expressa o sonho americano, numa época em que o imperialismo ianque já intervinha no mundo inteiro, mas internamente estava dividido e parecia que seus erros podiam ser corrigidos. Os jovens protestavam contra a Guerra do Vietnã, se tornavam hippies e viajavam para descobrir a America. Nunca tive problema com o fato de os americanos chamarem seu país de America, porque pra mim o continente não deve ser chamado de América e sim pelo nome que os indígenas lhes davam. O fato é que alguma coisa, que essa música expressa bem, me unia aos "americanos" que não une mais. A America de S&G ainda tinha salvação. A canção é uma pérola desse grande artista que é Paul Simon, autor de muitas canções belíssimas.
Vista 36 anos depois, essa entrevista do revolucionário cubano Fidel Castro pode ser apreciada com o distanciamento que o tempo proporciona. Por um lado, Fidel fala e responde com lucidez impressionante e moderação, enquanto os jornalistas, como de costume, esgrimem ignorância e agressividade. Há um mito no jornalismo segundo o qual o bom repórter é o que incomoda. Sempre concordei com isso discordando, ao mesmo tempo. Sempre me pareceu mais importante que o jornalista seja razoável e bem informado. A questão é que a pergunta que incomoda o entrevistado gera notícia e o jornalista está sempre em busca da notícia: sem lide, não há notícia, e o lide é a novidade, o inesperado, o surpreendente. Isso provoca um círculo vicioso em que o jornalismo produz sempre superficialidades e a novidade de hoje já não tem importância amanhã, mesmo que tenha, como se busca sempre, provocado comoção. Aí se busca a "suíte", isto é, uma matéria que dê continuidade ao assunto, mas ela precisa ser igualmente sensacional. No caso em questão, um dos jornalistas está preocupado com o fato de que em Cuba não tem eleição direta para presidente, como tinha acabado de acontecer no Brasil, depois de 29 anos, dos quais 21 de ditadura militar. Não importam para o tal jornalista os resultados sociais impressionantes da Revolução Cubana, resultados que o capitalismo não atingiu no Brasil na ditadura militar nem atingiria na "democracia" que estava começando. Para os jornalistas que entrevistam Castro, importante é a "democracia", e democracia é esse modelo representativo em que o povo tem o poder em um dia de quatro em quatro anos e nos outros dias sofre e trabalha como escravo do capital, enquanto os capitalistas e seus políticos se locupletam e se aprimoram na corrupção. Não é esse o retrato em arte final do Brasil de março de 2026? O herói do julgamento da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 tem revelada sua face oculta de beneficiário de favores de um banqueiro falido e corruptor. Essa é a democracia brasileira, a democracia que a esquerda quer salvar e sustenta, enquanto a própria burguesia quer destruir e as castas poderosas querem manter como está, para preservar seus privilégios. Em resumo, o que a entrevista mostra é como o jornalismo já cumpria naquele começo de "democracia"e "Nova República" o papel de vender a ideologia do neoliberalismo que dominaria o Brasil, como de resto grande parte do mundo, e domina ainda. Em 2026, porém, quando o capitalismo destrói o planeta e a "democracia" estadunidense pratica o fascismo não só contra outros povos, mas também contra sua própria população, as argumentações a favor da excelência do capitalismo, a simpatia com o imperialismo americano e o menosprezo às revoluções socialistas, quando não o horror a elas, parecem o que são: ideologia reacionária.
Os trabalhadores, por sua vez, nunca estiveram tão mal, tão
desorganizados e tão confusos. Sob a ideologia do individualismo
empreendedorista, perderam todos os direitos e são incapazes de
reagir, pois não têm mais a sua principal arma, a força do número,
da massa popular, da ação coletiva. Na esquerda, muitos parecem
estar acordando, reconhecendo esses erros, reassumindo a defesa da
revolução. A maior parte, porém continua presa às cartilhas
marxistas de um século ou mais atrás. Parecem não perceber
que toda revolução bem-sucedida foi diferente das outras. Os
revolucionários vitoriosos o foram porque compreenderam as
peculiaridades da sua nação. O Brasil continua miseravelmente
atrasado nisso. Até o golpe militar de 1964, as posições de
esquerda se limitavam a seguir as ordens do stalinismo ou seguir as
ideias do Trotski ou buscar inspiração em Mao Tse-Tung e Fidel
Castro. A única tentativa de pensar a revolução brasileira
partindo das condições brasileiras foi feita pela Polop, mas não
chegou a bom termo. A ditadura desarticulou todas as posições
reformistas e lançou a esquerda desiludida na aventura armada,
igualmente trucidada pelos governos militares fascistas. Depois, o
que veio foi a predominância da luta por liberdades democráticas,
sob hegemonia da oposição burguesa e pequeno-burguesa. A excelente
oportunidade de construção de um partido dos trabalhadores
independente da ideologia burguesa, revolucionário e socialista, foi
jogada fora quando o PT optou por ser um partido eleitoral, cujo
objetivo maior era levar à presidência o seu principal líder, o
ex-operário Lula. Desde então, ocorreu o que descrevi acima. No
Brasil, o PT cumpriu o papel de ser o partido da ordem capitalista
neoliberal e Lula, o líder maior da burguesa. São décadas e
décadas perdidas, quase meio século de atraso na construção de
uma alternativa revolucionária e socialista para os trabalhadores
brasileiros.
Essa é
uma diferença entre a ascensão do fascismo no século XX e a
ascensão do fascismo no século XXI. Há cem anos, o fascismo
mobilizou forças populares contra o proletariado socialista
revolucionário, hoje ele mobiliza o próprio proletariado, que,
abandonado pela esquerda, perdeu o rumo e aderiu à ideologia da
extrema direita. Social-democracia ou trabalhismo ou até socialismo
e muitos outros nomes, sejam quais forem, a esquerda que abandonou a
revolução acomodou-se na ordem burguesa, submeteu-se às regras da
democracia liberal, conquistou o poder em inúmeras nações,
inclusive no Brasil, e tornou-se o partido encarregado de administrar
o capitalismo para a burguesia, o partido da ordem capitalista. Suas
principais atribuições são agora possibilitar o aumento dos lucros
para os capitalistas e reprimir as lutas dos trabalhadores. A
esquerda abandonou os trabalhadores e era natural que outra força
política ocupasse seu espaço: a extrema direita, os fascistas. Não
há mundo melhor para os capitalistas: a esquerda no poder governando
para ela, reprimindo os trabalhadores e assumindo o ônus disso,
enquanto o fascismo ataca o governo, lidera os trabalhadores, ou
partes expressivas deles, e obriga a esquerda a retirar mais e mais
direitos. Quando as posições se invertem, os benefícios dados
pelos fascistas ao capital são ainda maiores e acelerados. Se a
ordem fica instável, os capitalistas podem lançar mão novamente da
esquerda agora democrática e liberal e cada vez mais domesticada,
mais dócil, mais capitalista, mais burguesa.
Essa é
uma característica da nossa época maluca: a falência da democracia
burguesa. E com ela chegamos a outro ponto importante: se os
capitalistas novamente já não defendem a democracia liberal, tal
como aconteceu na primeira onda fascista, há um século, em várias
nações da Europa, mas não só da Europa, em todas as partes do
mundo, inclusive no Brasil; se sequer os EUA, que há um século
foram a ponta de lança da democracia liberal na guerra contra as
nações fascistas do Eixo, se sequer os estadunidenses praticam mais
a democracia liberal, quem é que a defende? A democracia liberal
burguesa é defendida hoje pela esquerda. Essa é a ironia trágica
do nosso tempo. A esquerda que no passado quis destruí-la para
implantar o socialismo, liderando o proletariado, assumiu o comando
do Estado burguês e passou a carregar o estandarte da democracia
burguesa. A esquerda, nitidamente no Brasil, mas igualmente em grande
parte do mundo, com exceções honrosas, tornou-se o partido da
ordem, não da ordem socialista, mas da ordem capitalista. A esquerda
passou a defender a democracia liberal capitalista dos ataques
fascistas dos próprios capitalistas. É irônico, mas é também
trágico, porque ao fazer isso, a esquerda se afastou não só dos
seus ideais revolucionários socialistas, mas também da sua base
social, os trabalhadores, e estes foram conquistados pela extrema
direita, pelos fascistas.
A
China realizou o que Marx imaginava de forma diferente, pois a
revolução chinesa foi liderada pelos comunistas (marxistas), mas
foi feita pelos camponeses e não pelo proletariado industrial, como
deveria acontecer na concepção marxista, pois o país era muito
atrasado economicamente, não tinha ainda desenvolvido sua indústria,
era uma nação periférica no capitalismo e tinha sido dominada pelo
colonialismo imperialista. Os comunistas chineses tomaram o poder,
fizeram reformas sociais e mudanças econômicas, depois promoveram a
industrialização com participação do capital internacional, mas
sob seu controle político, econômico e social, chegando em meio
século a rivalizar com a maior potência capitalista,
ultrapassando-a em diversos aspectos. Se a China fosse uma potência
capitalista, teria se tornado imperialista e disputaria mercados por
meio de guerras, como fizeram as nações capitalistas nos últimos
séculos, situação que provocou duas guerras mundiais e inúmeras
outras, ainda hoje. O fato de não fazer isso é mais uma prova de
que não é capitalista. No entanto, a China de fato disputa mercados
com as nações capitalistas e é isso que provoca a reação da
maior potência imperialista. A China disputa mercados de forma
diferente: atraindo capitais para produzirem na China, exportando
produtos mais baratos e oferecendo cooperação com nações
periféricas. O sucesso chinês é resultado inegável do seu modelo
de desenvolvimento, cuja característica fundamental é o controle do
capital pelo Estado, cujo poder político está sob controle do
partido comunista chinês. Nesse sentido, a China é uma sociedade
caracterizada pelo capitalismo de Estado, isso é verdade, mas também
podemos dizer que o capitalismo de Estado, sob controle do partido
comunista, é uma ordem social de transição para o comunismo. A
China se tornará comunista quando for capaz de realizar a igualdade
social total, ou seja, igualdade econômica e política, além de
social. É preciso reconhecer que a China está muito avançada nesse
processo, pois fez a revolução, levou os trabalhadores ao poder,
desenvolveu as forças produtivas e distribuiu riquezas de forma
muito mais equilibrada do que os fazem as nações capitalistas
liberais. Da mesma forma, é preciso dizer que a Terra não comporta
um mundo inteiro crescendo e destruindo o ambiente como o fazem as
nações capitalistas e também a China. O desafio da China é
combinar desenvolvimento com conservação ambiental, caso contrário
o próprio modelo chinês entrará em colapso. Do ponto de vista
político, pode-se afirmar que a revolução chinesa estabeleceu um
novo modelo de democracia, diferente da democracia liberal. Pode-se
argumentar que as liberdades burguesas não existem na China
revolucionária, mas também pode-se argumentar que os trabalhadores
não desfrutam das liberdades burguesas nas democracias liberais.
Ademais, o novo avanço do fascismo tornou essa discussão
ultrapassada, pois a democracia liberal já não é praticada sequer
nas nações que a defendiam.
Desde que Marx concebeu sua ideologia, a esquerda de todo o mundo
concorda que existem duas classes sociais antagônicas na sociedade
capitalista: os capitalistas e os trabalhadores, os proprietários e
os assalariados, uma minoria cada vez menor e todos os outros
indivíduos, uma maioria cada vez maior. A proposta marxista era
muito simples: os trabalhadores devem se organizar, tomar o poder dos
capitalistas, destruir o capitalismo e construir o socialismo. Na
verdade, essa ideia já existia, o que ele fez foi desenvolvê-la
melhor. Marx fez uma análise pormenorizada de como os capitalistas
exploravam os trabalhadores, como o capital desenvolvia as forças
produtivas e não conseguia controlá-las, gerando crises cada vez
maiores, que só poderiam ser superadas com a mudança do modo de
produção capitalista para um modo de produção socialista. Ele
sustentou sua proposta com uma teoria da história segundo a qual o
desenvolvimento das forças produtivas se dá pela luta de
classes e pela tomada do poder pela classe que representava o avanço
das forças produtivas. Hoje isso parece óbvio, diante da destruição
que o capitalismo produz no mundo, com desigualdades, miséria,
violências de todos os tipos, guerras, mudanças climáticas. Ao
mesmo tempo, a China (governada pelo partido) comunista é o melhor
exemplo de como o controle do capital pelo Estado é capaz de
acelerar o desenvolvimento das forças produtivas. Ela nos faz pensar
no que teria acontecido se as nações centrais do capitalismo
tivessem feito revoluções socialistas.
O mundo parece maluco, mas não é o mundo, é o capitalismo. O
capitalismo é o capital, com a sua força, e as ideologias que ele
gera nos capitalistas, isto é, os empresários e seus serviçais, em
primeiro lugar os intelectuais. O mundo está maluco, com o
crescimento do fascismo, liderado pelos estados unidos e por israel,
nos governos trump e netanyahu. E eles jogam bombas em crianças
palestinas, jogam bombas em crianças iranianas. Os governos de
outras nações nada fazem, alguns protestam verbalmente. No Brasil,
políticos, lideranças e personalidades de esquerda também
protestam verbalmente e convocam manifestações. Quem critica os
governos de esquerda que nada fazem não tira as consequências
necessárias. Nós, indivíduos comuns razoáveis, sensíveis,
humanos, de esquerda, protestamos também, verbalmente, em redes
sociais e participamos de manifestações. O que adianta? Pouco. A
pressão internacional é fundamental e as manifestações funcionam
pressionando governos, obrigados a responder, e imprensa, obrigada a
cobrir. Particularmente no Brasil, sequer nos levantamos quando a polícia assassina crianças faveladas ou crianças indígenas, por que haveria de ser diferente quando fascistas estrangeiros assassinam crianças de outras nações? Somos fracos, poucos e desorganizados.
Se fôssemos organizados, seríamos muitos. Se fôssemos muitos,
seríamos fortes. Por que somos desorganizados? Essa é a tragédia
da esquerda, do marxismo, dos trabalhadores e da espécie humana.
O fascismo não desapareceu depois da sua derrota na Segunda Guerra
Mundial, continuou presente, assim como já existia antes para todos os
povos colonizados. No Brasil, sempre convivemos com ele, tivemos o maior
partido fascista (integralista) fora da Europa, com 1 milhão e 200 mil
filiados, e ele nunca se afastou do poder (a ditadura militar teve
generais integralistas), por isso não devemos nos espantar com o seu
ressurgimento explícito na última década. Quando o fascismo assustou os europeus ao ser praticado contra eles, já tinha sido experimentado na África, nas Américas e em todas as regiões colonizadas pela democracia liberal europeia. O fascismo sempre conviveu com a democracia liberal: democracia para uns poucos e fascismo para os outros, democracia nos ambientes dos ricos, fascismo nos ambientes do povo. O fascismo é a violência contra as populações que, na sociedade capitalista, não têm status de gente, são coisas: os palestinos, os favelados, os africanos escravizados, os indígenas, em resumo: os trabalhadores. As mortes destes não são lamentadas pela democracia liberal e pelo fascismo, eles sequer são identificados, não têm nome nem rosto nem direito à memória.
Essas ideias e outras mais, brilhantemente costuradas e fundamentadas, foram expostas na manhã desta segunda-feira 2/3/26 pelo filósofo Vladimir Safatle na aula magna "Fascismo como nome correto", que abriu o primeiro semestre letivo na UFMG (foto). A realidade que elas expressam está à nossa vista hoje o tempo todo, mas é preciso ter lucidez para apreendê-la e nomeá-la, como o faz Safatle. Foi uma das melhores palestras que eu já ouvi. Uma visão clara do nosso tempo sintetizada em cerca de uma hora. Espero que a UFMG a tenha gravado e publique no seu canal no YouTube e demais veículos de divulgação.
A razão fundamental é que a independência brasileira foi liderada pelo príncipe regente de Portugal e, ao manter a monarquina, ele manteve também a integridade do território da ex-colônia, à custa do massacre dos brasileiros das várias regiões que organizaram levantes republicanos. Detalhaes contados nesse vídeo enriquecem o contexto e de quebra nos ensinam sobre a história do restante da América Latina, que nossa educação formal e nossa cultura eurocêntrica ignoram. Mais uma aula da BBC. Quando o lobby estadunidense e sionista não interfere nele vergonhosamente, o jornalismo da estatal britânica costuma ser muito bom.
A internet, em especial o YouTube, ao se transformar nessa rede infinita de canais de vídeo, possibilita que aprendemamos em alguns minutos coisas que não aprendemos na escola. É um salto no conhecimento. A BBC se destaca nisso.
O lema dessa especialista brasileira em IA (inteligência artificial, que, segundo o neurocientista Miguel Nicolelis, não é nem inteligência nem artificial) é transformar alarmismo em conhecimento, mas ela alerta: é assustador o que está acontecendo com o uso da IA e a gente não se dá conta, usando-a sem parar pra pensar. As empresas que nos usam como funcionários gratuitos e capturam nossos dados pessoais não nos avisam que isso está acontecendo.
Tudo leva ao mesmo lugar: isso é capitalismo. O capitalismo é um moto contínuo, uma máquina que funciona no automático sem controle. Todos nós, inclusive os capitalistas, somos escravos do capital, todos trabalhamos para ele e o servimos, a diferença é que os capitalistas se apropriam do produto desse trabalho maquinal coletivo e nós, os 99,999% restantes, pegamos as migalhas que caem da mesa, mas os capitalistas não estão no controle, são mais tontos do que nós, basta olhar para o presidente da maior potência mundial, um modelo dos dirigentes nacionais de hoje, um completo idiota. Para onde o capitalismo nos leva? Isso também sabemos: para a autodestruição, nas formas de guerras e mudanças climáticas, e numa alienação total da realidade, agora que já nem distinguimos mais o que é real e o que é produzido por IA.
Oito anos para mandar os mandantes do assassinato da Marielle Franco para a prisão é muito tempo, principalmente considerando a gravidade do crime, cujo objetivo foi eliminar uma representante do povo brasileiro, uma das mais brilhantes, jovem, com futuro promissor e imprescindível num ambiente político tão apodrecido. Como disse a ministra Cármen Lúcia, o assassinato da Marielle atingiu todo o povo brasileiro. A lentidão é uma das características da justiça capitalista, outra é a impunidade dos ricos e poderosos. Um Estado realmente democrático precisa fazer justiça com celeridade.
Há quarenta anos exatamente comecei a trabalhar na sucursal belo-horizontina do Jornal do Brasil, que ocupava um confortável espaço no sétimo andar do prédio imponente da Avenida Afonso Pena 1500, bem em frente ao Palácio das Artes. Lembro da data porque era uma segunda-feira e na sexta-feira seguinte, último dia do mês, o presidente Sarney decretou o Plano Cruzado, a primeira de uma série de tentativas dos governos civis neoliberais de conter a inflação galopante que tinha ajudado a derrubar a ditadura militar (1964-1985). Foi meu batismo de fogo profissional. O congelamento de preços virou o país de pernas pro ar, mexeu com a vida de todo mundo, acionou órgãos fiscalizadores dos quais hoje a gente nem ouve falar ou não existem mais, tipo Sunab, Delegacia de Ordem Econômica e outros, mudou comportamentos, mobilizou a população, criou a figura informal do "fiscal do Sarney" e provocou uma tempestade de notícias, da qual sairiam as manchetes dos dias, semanas e meses seguintes. Repórter de geral, incluindo polícia, eu estava na linha de frente daquela cobertura bastante animada. Formado em jornalismo pela UFMG havia três anos, o JB foi minha primeira experiência num jornal diário, e comecei logo pelo topo, no melhor jornal do país na época, na melhor sucursal da cidade. Era o que todos diziam e o que eu mesmo achava, pois o JB era o jornal que eu lia. Meus colegas de redação eram Jadir Barroso, Nairo Alméri, Lúcia Helena Gazzola, José Guilherme Araújo e Fernando Lacerda, além do repórter fotográfico Waldemar Sabino, o Mazico. No telex, Sílvio Lourenço, e no comando, editor regional, o célebre José de Souza Castro, o Zé de Castro. O diretor da sucursal era o Acílio Lara Resende. Era uma equipe grande, contando as outras áreas: Valdir, nosso motorista e companheiro de coberturas e viagens, Patrícia, recepcionista, dona Alice, faxineira, Zé Milton, Zé Luís e sua mulher, dona Ilza, na administração, Fátima, uma portuguesa, secretária, Noronha e Valtencir, no comercial, e o Burana, cobrador. Isso, quando entrei; enquanto trabalhei lá, saíram alguns e entraram outros. Em pouco tempo aprendi o que se faz num jornal diário, conhecia e era conhecido por colegas e autoridades cujo trabalho acompanhava. Foram quatro anos intensos, marcados, no começo, pela cobertura do Plano Cruzado e, no fim, pela cobertura da eleição presidencial de 1989, a primeira eleição direta depois da ditadura, na qual o JB se sobressaiu. E então o Collor venceu e o jornal entrou em decadência. Trabalhei em outros lugares, fiz outros tipos de jornalismo, alguns muito bons, tive experiências interessantes e épocas até mais felizes, especialmente na Lead Comunicação, mas a minha experiência de jornalismo pra valer foram esses quatro anos no JB. (Na matéria reproduzida na foto acima tem um depoimento colhido na rua por mim e uma foto do Mazico. O João do título é o ex-presidente Figueiredo, o último general que, ao deixar o cargo sem passar a faixa, declarou que queria ser esquecido; o JB não esqueceu e um ano depois tripudiou: conferiu nas ruas que o povo tinha atendido seu desejo. A minha entrevistada mesmo não soube dizer quem era o tal do João Batista Figueiredo.)
Quem quiser conhecer o que foi o jornalismo mineiro e brasileiro das décadas de 1970 a 1990, antes da revolução provocada pela internet, recomendo ler o primoroso livro Sucursal das Incertezas, do Zé de Castro, sobre o qual escrevi em outra postagem, que pode ser acessada clicando aqui.
Essa palestra do filósofo Vladimir Safatle poderia ser um editorial deste blog. Igualdade e soberania popular. Acrescento: e em relações de respeito com as outras espécies e com a Terra. Um comentário: é incrível que um sujeito de esquerda e tão bem informado quanto o Safatle só tenha conhecido a Flaskô na sua campanha eleitoral de 2022. Isso diz muito sobre o descolamento da chamada esquerda brasileira do mundo real dos trabalhadores durante a Era Lula.
Sobre que deve escrever um(a) ficcionista? Fico pensando que sobre coisas banais, porque as histórias extraordinárias estão hoje por conta do jornalismo, que fala do que acontece no mundo real e não na imaginação dos escritores. Frankenstein, por exemplo, parece cada vez mais banal. Tudo bem, a encantadora Sofia Nestrovski faz sua interpretação do livro da Mary Shelley, da qual gosto muito, mas isso não mudou minha decepção com a história. O fato é que neste segundo quarto do século XXI, os acontecimentos e suas personagens superam qualquer imaginação ficcionista. O que dizer do que aconteceu no governo do bozo? Se fosse um xou de horrores, do qual não gosto e não veria, não seria "melhor". E do que vemos agora no governo trump2? O capitalismo perdeu qualquer compostura. E não se trata só do capital e seus donos, propriamente, mas também de toda a sociedade que ainda acredita nele. O surrealismo, que foi um movimento artístico de reação aos horrores capitalistas do começo do século passado, tornou-se banal hoje, porque a repetição dos horrores é a banalização, que o anestesiamento da comunicação, iniciada por roliúdi, universalizada pela televisão e incorporada a todos os momentos das nossas vidas pelas redes sociais, naturalizou. Hoje a gente anda nas ruas desviando de mendigos e sem-casa e mal os nota, enquanto as cópias dos ricos passeiam com seus pets. Mais surreal ainda é ver o proletariado contemporâneo, os entregadores de moto, se considerarem empreendedores e agradecerem a Deus por terem trabalho 16 horas por dia, sete dias por semana, enquanto não se acidentam, porque acidente com moto é a maior causa de acidente no trabalho hoje. O surrealismo está escancarado nas ruas, como é que pode ser arte? Sabemos de todos os horrores, temos consciência de tudo, e no entanto não mudamos o mundo, este é o fato mais notável da nossa época. O vídeo abaixo está na versão original, mas há outros em português, só não é possível reproduzir aqui.
Breno Altman fez o que a imprensa empresarial brasileira, ex-grande imprensa, deveria fazer e não faz: foi à Venezuela apurar. Entre outras coisas nos conta como foi a negociação com o governo americano nos primeiros minutos do sequestro do presidente Nicolás Maduro. Foi uma negociação que se tem com sequestradores, com terroristas. Delcy Rodríguez recebeu a informação de que Maduro estava morto. Respondeu que nesses termos não havia negociação. Ouviu então que ele estava vivo. Pediu prova de vida e recebeu aquela primeira foto que circulou mundo afora. É uma negociação que se faz com sequestradores e terroristas. Terrorismo é o que os EUA dizem combater, mas é o método de ação do governo americano. O comportamento da presidente e do governo venezuelano é admirável, a revolução bolivariana é o que qualquer nação latino-americana que afirmasse sua independência real em relação aos EUA teria de fazer. E como acontece com a Venezuela enfrentaria o terrorismo estadunidense e a desinformação da imprensa capitalista mundial. Não há por que se espantar com isso. É assim que funciona, a imprensa é capitalista, defende o capitalismo, as empresas, o imperialismo americano e seus aliados. A desonestidade está em não dizer ao leitor que defende interesses, que tem um lado. A desonestidade está em fingir que é imparcial. Isso é ideologia. Socialistas é que têm de construir uma imprensa diferente e projetos nacionais nos seus países. O Brasil está na idade da pedra ainda, porque, apesar de Breno Altaman e outras exceções, não tem veículos socialistas expressivos, e principalmente porque à derrubada da ditadura militar (1964-1985) seguiu-se uma adesão vergonhosa ao neoliberalismo que fez o país retroceder à condição anterior à Revolução de 1930, de colônia exportadora de produtos primários, iniciada por Sarney, impulsionada por Collor, formatada por FHC e continuada com afinco por Lula, que, ao voltar, não foi capaz sequer de reverter, ou pelo menos tentar reverter a destruição dos desgovernos temer, o minúsculo, e bozo.
Essa música não é do Roberto, é uma daquelas que ele gravou com sucesso e a gente pensa que é dele, parece dele, mas não é. É do Getúlio Cortes, um compositor prolífico de 87 anos. Ele impressiona pela facilidade das suas melodias e letras, em geral clichês. Quando o compositor de clichês não é pretensioso, às vezes acerta o ponto e produz pérolas de clichês, como esta. GC é autor de uma série de canções similares gravadas pelo RC nos anos 1960: O gênio, O feio, Pega ladrão e O sósia, todas ridículas, exceto a última, é divertida, uma musiquinha típica da Jovem Guarda.