Paramilitares colombianos já foram identificados em Honduras pela ONU. A indústria da guerra é um negócio, em benefício da qual se fazem golpes de Estado. E foi terceirizada pelos EUA. Não é a política externa americana que leva a guerras, é a guerra que orienta a política externa, como mostra esta matéria publicada pela Agência Carta Maior.
A Guerra no Século XXI ou a terceirização da guerra
Em entrevista ao jornal argentino Página 12, Dario Azzelini, pesquisador italiano das novas guerras, defende que "a guerra não é mais para instalar outro modelo econômico; ela é o modelo". "O sentido da guerra mudou. Tradicionalmente era para trocar as elites e o controle das economias, ou introduzir outro modelo de domínio econômico ou político. Agora, em muitos casos as guerras são permanentes. Não se faz a guerra para implementar outro modelo econômico, mas a guerra mesmo é o mecanismo de lucros", afirma o historiador.
Natália Aruguete e Walter Isaía - Página 12
A idéia do conflito permanente cria condições para o surgimento de um modelo econômico que seria impossível de instalar em condições de paz. Ao mesmo tempo, é cada vez mais importante a intervenção de Companhias Militares Privadas (CMPs) em todo o mundo, do Iraque até a Colômbia.
Que significa a denominação de novas guerras que o senhor usa no livro O Negócio da Guerra?
Azzelini: No debate acadêmico e − em parte − o político, a expressão novas guerras foi introduzida para denominar o fato que mais e mais guerras não se dão entre países mas no interior dos países ou, pelo menos, entre um exército regular e um irregular. A expressão, porém poderia se ampliada porque com as modificações de estratégias de sua condução, vemos que até os países com exércitos regulares estão transferindo a violência para empresas privadas ou estruturas paramilitares: atores que não são os tradicionais nas guerras comuns.
Acabaram as guerras entre Estados?
Azzelini: Não é que tenham acabado. Pelo contrário, na última década também houve um aumento das guerras entre países, mas se apresentaram de outra maneira. Os ataques ao Afeganistão ou Iraque foram guerras entre países, mas a porcentagem das guerras irregulares em comparação com as regulares está aumentando.
Isso obedece à lógica neoliberal?
Azzelini: Dizemos que obedece a certas lógicas do neoliberalismo no sentido de aumentar lucros. O sentido da guerra mudou. Tradicionalmente era para trocar as elites e o controle das economias, ou introduzir outro modelo de domínio econômico ou político. Agora, em muitos casos as guerras são permanentes. Não se faz a guerra para implementar outro modelo econômico, mas a guerra mesmo é o mecanismo de lucros.
Por exemplo?
Azzelini: Por exemplo, Colômbia. Muito dos lucros nesse país são porque − praticamente − é um país em guerra. Durante os últimos 20 anos, a passagem da pequena e média agricultura para a agroindústria se fez com uma guerra. Se não fosse assim, não teria sido possível expropriar as terras de milhões de camponeses e fazer uma reforma agrária ao contrário, na qual os latifundiários e paramilitares se apropriaram de 6 milhões de hectares de terra.
A íntegra:
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16184&boletim_id=600&componente_id=10086
domingo, 11 de outubro de 2009
sábado, 10 de outubro de 2009
Por que (também) a 'grande' imprensa não gosta do Lula
Do blog do Rodrigo Viana
http://www.rodrigovianna.com.br/radar-da-midia/doi-no-bolso-bateu-o-desespero-na-turma-da-ditabranda
Depois de anunciar em editorial que a discussão sobre terceiro mandato é "assunto encerrado" (e, ao mesmo tempo, manchetar em primeira página a discussão sobre o terceiro mandato - numa demonstração de clara esquizofrenia), o jornal da ditabranda passou recibo sobre suas reais preocupações: é no bolso (dos Frias) que o avanço de Lula (e de Dilma) dói mais.
A "tese" está em artigo de Fernando Barros e Silva, na página 2 do jornal, intitulado "O Bolsa-Mídia de Lula". Fernando não é só um articulista. Ele é o editor de Brasil. Por ele, passam as decisões editoriais mais importantes do jornal.
No artigo, Fernando analisa "reportagem" da própria "Folha", que mostra como Lula pulverizou a verba publicitária do governo: em 2003, 179 jornais receberam verbas federais; em 2008, foram 1.273. Lula fez o mesmo com rádios e com a internet.
Isso, ao que parece, não agradou o Fernando...
Vejam o que ele escreve: "a língua oficial chama [a tal pulverização de verbas] de regionalização da publicidade estatal e vende como sinal de ´democratização´. Na prática, significa que o governo promove um arrastão e vai comprando a mídia de segundo e terceiro escalões como nunca antes nesse país"
O argumento é tão rasteiro que dá até dó. Quer dizer que quando a verba ia só para o "primeiro escalão" (onde, suponho, Fernando inclui a "Folha") os governos anteriores também estavam "comprando a mídia"? É esse o jogo?
O "primeiro escalão" quer ser comprado sozinho? Sem concorrência? A tal pulverização dói no bolso, é isso Fernando? Se dói, melhor você arrumar argumentos melhores pra fazer o dinheirinho voltar pro bolso do chefe.
Fico a aguardar algum comentário sobre a decisão de José Serra, que mandou as escolas públicas de São Paulo assinarem "Folha" e "Estadão"- http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/04/20/as-bondades-para-2010/. Aí pode? Nesse caso, Serra estaria também "comprando" apoio? Ou nem precisa?
Mais adiante, outra pérola do articulista "ditabrandista": "Essa mídia de cabresto que se consolidou no segundo mandato ajuda a entender e a difundir a popularidade do presidente. E talvez explique, no novo mundo virtual, o governismo subalterno de certos blogs que o lulismo pariu por aí".
O Fernando tá chateado com os blogs porque eles fazem a crítica da "grande mídia", reduzem o poder dos jornais, tiram de veículos como a "Folha" a aura de "isentos formadores de opinião"
Mas não precisa ficar tão nervoso, Fernando. Não julgue os outros com seus parâmetros.
Por último, adorei saber que a popularidade de Lula não se deve aos programas sociais, nem ao suceso da economia, nem à formação de um amplo, e internacionalmente reconhecido, mecado interno de novos consumidores. Não, nada disso. É pura propaganda do Lula!
Agora, eu entendi. Ainda bem que - apesar de ter cancelado a assinatura - sigo recebendo o jornal que a família Frias insiste em mandar de graça pra minha casa. É divertido (mas é também um pouco triste, confesso) ver como o desespero está tirando do sério até gente que eu respeitava, como o Fernando.
Como no caso da GM, é "o fim de uma era".
Por isso, bate mesmo o desespero. Eu entendo.
http://www.rodrigovianna.com.br/radar-da-midia/doi-no-bolso-bateu-o-desespero-na-turma-da-ditabranda
Depois de anunciar em editorial que a discussão sobre terceiro mandato é "assunto encerrado" (e, ao mesmo tempo, manchetar em primeira página a discussão sobre o terceiro mandato - numa demonstração de clara esquizofrenia), o jornal da ditabranda passou recibo sobre suas reais preocupações: é no bolso (dos Frias) que o avanço de Lula (e de Dilma) dói mais.
A "tese" está em artigo de Fernando Barros e Silva, na página 2 do jornal, intitulado "O Bolsa-Mídia de Lula". Fernando não é só um articulista. Ele é o editor de Brasil. Por ele, passam as decisões editoriais mais importantes do jornal.
No artigo, Fernando analisa "reportagem" da própria "Folha", que mostra como Lula pulverizou a verba publicitária do governo: em 2003, 179 jornais receberam verbas federais; em 2008, foram 1.273. Lula fez o mesmo com rádios e com a internet.
Isso, ao que parece, não agradou o Fernando...
Vejam o que ele escreve: "a língua oficial chama [a tal pulverização de verbas] de regionalização da publicidade estatal e vende como sinal de ´democratização´. Na prática, significa que o governo promove um arrastão e vai comprando a mídia de segundo e terceiro escalões como nunca antes nesse país"
O argumento é tão rasteiro que dá até dó. Quer dizer que quando a verba ia só para o "primeiro escalão" (onde, suponho, Fernando inclui a "Folha") os governos anteriores também estavam "comprando a mídia"? É esse o jogo?
O "primeiro escalão" quer ser comprado sozinho? Sem concorrência? A tal pulverização dói no bolso, é isso Fernando? Se dói, melhor você arrumar argumentos melhores pra fazer o dinheirinho voltar pro bolso do chefe.
Fico a aguardar algum comentário sobre a decisão de José Serra, que mandou as escolas públicas de São Paulo assinarem "Folha" e "Estadão"- http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/04/20/as-bondades-para-2010/. Aí pode? Nesse caso, Serra estaria também "comprando" apoio? Ou nem precisa?
Mais adiante, outra pérola do articulista "ditabrandista": "Essa mídia de cabresto que se consolidou no segundo mandato ajuda a entender e a difundir a popularidade do presidente. E talvez explique, no novo mundo virtual, o governismo subalterno de certos blogs que o lulismo pariu por aí".
O Fernando tá chateado com os blogs porque eles fazem a crítica da "grande mídia", reduzem o poder dos jornais, tiram de veículos como a "Folha" a aura de "isentos formadores de opinião"
Mas não precisa ficar tão nervoso, Fernando. Não julgue os outros com seus parâmetros.
Por último, adorei saber que a popularidade de Lula não se deve aos programas sociais, nem ao suceso da economia, nem à formação de um amplo, e internacionalmente reconhecido, mecado interno de novos consumidores. Não, nada disso. É pura propaganda do Lula!
Agora, eu entendi. Ainda bem que - apesar de ter cancelado a assinatura - sigo recebendo o jornal que a família Frias insiste em mandar de graça pra minha casa. É divertido (mas é também um pouco triste, confesso) ver como o desespero está tirando do sério até gente que eu respeitava, como o Fernando.
Como no caso da GM, é "o fim de uma era".
Por isso, bate mesmo o desespero. Eu entendo.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
De chuvas, árvores e mudanças climáticas

Chuva. Mais que chuva, tempestade. Árvores caídas, inundações, trânsito engarrafado além do normal. As mudanças climáticas cada vez mais fortes. O que fazemos para contê-las? A cidade impermeabilizada. O que fazemos para mudar isso? Durante a administração petista BH fez a prevenção de desabamentos, removendo moradores de áreas de risco. Será que isso vai continuar? Passada a tempestade tudo volta ao normal. O prefeito anterior se gabava das quedas de árvores: "É o preço que pagamos por ter muita área verde". Discordo. As árvores dos passeios, que caem nas chuvas, são inadequadas, pela localização (obstruindo a passagem do pedestre), pelo porte (imensas) e pelo cimento e asfalto em cima delas (que evidentemente lhes faz mal e as mata precocemnte). Na verdade, Belo Horizonte tem pouquissima área verde. Me refiro à área verde útil: parques, praças, jardins, onde as pessoas possam se encontrar e se refrescar do calor, caminhar, praticar esportes, respirar ar puro. Áreas verdes que, além disso, drenem a água das chuvas e diminuir os rios que se formam no asfalto.
Bastidores da notícia
Uma vez, quando trabalhava no JB, acompanhei as filmagens de "O grande mentecapto", em Barbacena. Na volta à redação, escrevi uma matéria diferente. Como era para o Caderno B, ousei. Esqueci o lide, a pirâmide invertida e outros cânones. Falei dos bastidores da filmagem, que eu via pela primeira vez e que foi o que me impressionou. Não foi uma reportagem brilhante, mas acho que foi criativa. Para minha surpresa, Zé de Castro mandou-a para o Rio do jeitinho que eu escrevi. A matéria nunca foi publicada. Foi talvez minha maior decepção no jornal. Desde então me dediquei aos clichês – matérias corretas, mas clichês.
Lembrei disso lendo o blog da Ana Paula (http://escritosaovento.blogspot.com/). Sempre achei que o mais interessante do jornalismo não sai nos jornais. Se teve um jornal que me motivou a ser jornalista foi o Ex-, publicado nos idos de 1970, e que deixou de circular depois de uma edição em que o principal conteúdo era uma reportagem sobre o assassinato do jornalista Vladmir Herzog nos porões do Doi-Codi, em São Paulo. Foi o único jornal a tratar do assunto, como um camicase. A imprensa estava então sob censura. Não deu outra: o grande jornaleco foi recolhido e proibido. A irreverente e corajosa equipe lançou outro, idêntico, mas com outro nome: Mais Um, letras imitando a marca Coca Cola. Também foi recolhido. Ambas as edições, porém, chegaram a ser vendidas, e eu, um atento leitor, um rato de banca de revista, pude comprá-las. Ainda as guardo comigo, surradas, amareladas, rasgadas. Eu venerava o Ex- porque seu jornalismo nunca escondeu os bastidores da notícia. Nele, o repórter sempre foi mais importante que o editor e as notícias nunca foram impessoais. É muito difícil fazer jornalismo assim, só gente experiente e talentosa consegue. Ele não deve se confundir com jornalismo de opinião irrelevante, no qual o jornalista em vez de informar emite suas opiniões absolutamente desinteressantes.
A internet possibilita hoje uma complementariedade ao trabalho do repórter. Paralelamente ao seu trabalho tradicional, de cumprimento da pauta, ele pode escrever um diário de bastidores, uma espécie de making of da notícia, no qual conta o que não sairá no jornal, inclusive suas impressões e opiniões. Pode fazer isso escrevendo textos e fragmentos num blog e indicando tais posts no twitter. Digo que o repórter pode fazer isso, acho que ainda não faz, ou poucos fazem, de forma incipiente e sem entender o caráter revolucionário de um trabalho assim. Imagino um blog de repórteres compartilhando a cobertura diária feita para os grandes veículos...
Lembrei disso lendo o blog da Ana Paula (http://escritosaovento.blogspot.com/). Sempre achei que o mais interessante do jornalismo não sai nos jornais. Se teve um jornal que me motivou a ser jornalista foi o Ex-, publicado nos idos de 1970, e que deixou de circular depois de uma edição em que o principal conteúdo era uma reportagem sobre o assassinato do jornalista Vladmir Herzog nos porões do Doi-Codi, em São Paulo. Foi o único jornal a tratar do assunto, como um camicase. A imprensa estava então sob censura. Não deu outra: o grande jornaleco foi recolhido e proibido. A irreverente e corajosa equipe lançou outro, idêntico, mas com outro nome: Mais Um, letras imitando a marca Coca Cola. Também foi recolhido. Ambas as edições, porém, chegaram a ser vendidas, e eu, um atento leitor, um rato de banca de revista, pude comprá-las. Ainda as guardo comigo, surradas, amareladas, rasgadas. Eu venerava o Ex- porque seu jornalismo nunca escondeu os bastidores da notícia. Nele, o repórter sempre foi mais importante que o editor e as notícias nunca foram impessoais. É muito difícil fazer jornalismo assim, só gente experiente e talentosa consegue. Ele não deve se confundir com jornalismo de opinião irrelevante, no qual o jornalista em vez de informar emite suas opiniões absolutamente desinteressantes.
A internet possibilita hoje uma complementariedade ao trabalho do repórter. Paralelamente ao seu trabalho tradicional, de cumprimento da pauta, ele pode escrever um diário de bastidores, uma espécie de making of da notícia, no qual conta o que não sairá no jornal, inclusive suas impressões e opiniões. Pode fazer isso escrevendo textos e fragmentos num blog e indicando tais posts no twitter. Digo que o repórter pode fazer isso, acho que ainda não faz, ou poucos fazem, de forma incipiente e sem entender o caráter revolucionário de um trabalho assim. Imagino um blog de repórteres compartilhando a cobertura diária feita para os grandes veículos...
sábado, 3 de outubro de 2009
E agora, José?
Copa do Mundo 2014, Marolinha, G-20, Honduras, Rio 2016... O Cara coleciona sucessos, faz o Brasil melhor do que jamais foi, é o melhor presidente que a burguesia brasileira já teve e ainda distribui para os pobres, tem a maior popularidade do planeta, é reverenciado no mundo inteiro... Ficou difícil até continuar latindo, pois a caravana não só passa, mas passa ovacionada. Sem a artilharia da mídia, que só tem balas de festim, aposto que a nova alternativa da direita será a experimentada em Belo Horizonte no ano passado: a união com a direita do PT, que prefere as elites ao povo.
A revolução na América Latina e o legado de Lula
O Brasil tem tradição histórica autoritária, desde a independência proclamada pelo príncipe regente e em seguida estabelecida na constituição outorgada. O governo Lula tem enorme valor simbólico, ao demonstrar que o trabalhador é capaz – as elites conservadoras sabem disso e procuram a todo custo destruir essa ideia. Vejamos, por exemplo, um fato capital da nossa história, a abolição da escravatura.
A libertação dos escravos foi feita por lei assinada pela princesa imperial, a figura feminina mais importante do imaginário popular brasileiro. Seguiu a tradição autoritária inaugurada por seu avô: foi concedida, não foi arrancada pelos escravos. Na verdade, ela legalizou uma situação que vinha se afirmando de fato, mas ao fazê-lo tirou do povo e dos escravos o mérito de conquistá-la.
O modelo vai se repetir com Getúlio Vargas, ao “doar” a estrutura de proteção ao trabalho e criar a CLT. Mais recentemente, volta a acontecer com a redemocratização de 1985, quando as elites primeiro derrotam a emenda das diretas já para em seguida transferir o poder dos militares aos civis conservadores, indiretamente. É um fato recorrente na história brasileira, inaugurado, como disse, na independência, por Dom Pedro I. Um fato que faz diferença na formação de uma nação – os americanos, que conquistaram com armas sua independência, assumem como seus os valores que fundamentam sua sociedade, coisa que nós brasileiros nunca fizemos; o “jeitinho brasileiro” é a forma de o povo demonstrar o tempo todo que finge obedecer, mas não obedece, que finge reconhecer a autoridade, mas não a reconhece, que finge acreditar que este é o seu país, mas sabe que na verdade é o país dos “bacanas”.
Nesse sentido, o governo Lula contém avanços simbólicos importantes, ao demonstrar pela primeira vez na nossa história do que é capaz um simples operário. Mas o governo Lula também tem limitações claras, se olharmos para o que acontece, por exemplo, na Bolívia e mesmo na Venezuela, dois casos distintos na atual onda libertária da América Latina (que, já notou alguém, não deveria se chamar “Latina” e muito menos “América”, pois as civilizações já existiam aqui antes de Colombo, Cabral e Américo quem? Vespúcio. Na verdade, o termo América Latina é politicamente incorreto e ainda será substituído por outro, como “negro” foi substituído por “afrodescendente”, à medida que as populações indígenas assumirem o poder; a palavra é também um instrumento de libertação e de construção da história). O Brasil está mais para Chile, do que para Bolívia e Venezuela. Cada caso, porém, é um caso.
A Venezuela de Chávez está mais para Cuba de Fidel, com uma figura carismática, corajosa, que anda de uniforme militar e fala em socialismo, do que para Bolívia, que também tem uma figura carismática, mas que é a cara dos povos indígenas, cuja ascensão é a essência da revolução. O Brasil, com sua transição conservadora negociada, está mais para Chile, mas Lula tem a cara do povo brasileiro, como Evo tem a cara do povo boliviano. O militar Chávez veio das elites para libertar o povo venezuelano, como Fidel; a doutrina é fundamental para sua legitimação. Entre esses modelos, variáveis e símbolos se move a revolução na “América Latina” – uma mais popular, outra mais institucional; uma mais simbólica, outra mais ideológica; uma mais negociada, outra com rupturas.
Quais as limitações das mudanças no Brasil? O governo Lula promoveu transformações usando estritamente os limites da democracia burguesa representativa tradicional autoritária negociada pelas elites em 1985. Lula não promoveu nenhuma ruptura institucional, seu sucesso é um sucesso político individual somado à competência técnica da sua equipe, contraposto à incompetência e ao autoritarismo milenar das elites conservadoras brasileiras. É um sucesso fundamentalmente simbólico, principalmente quando confrontado com os avanços democráticos de outros povos vizinhos, especialmente o boliviano.
O que se vê na América Latina é um grande exercício para definir qual modelo, entre os dois ou três existentes, obterá mais sucesso num mesmo objetivo: promover a distribuição de renda e de poder, duas faces da mesma moeda que poderíamos chamar de democracia política e econômica. O Brasil parte de vantagens naturais e históricas, que o colocam na condição de potência mundial emergente. Por isso também tudo que se faz aqui é mais relevante, os olhos se concentram aqui e as ações políticas também.
A importância do sucesso brasileiro está no simbolismo de mostrar que um operário é mais capaz para dirigir o país do que os membros das elites jamais foram. O que os bolchevistas precisaram demonstrar depois da revolução russa de 1917, Lula demonstrou no Brasil sem revolução. Os limites das transformações no Brasil são: o presidencialismo com mandato de quatro anos (a reeleição foi uma arbitrariedade criada para beneficiar as elites, mas acabou por beneficiar também as mudanças promovidas por Lula); a concentração simbólica na figura do Lula; a desmobilização popular; a ausência de mudanças democratizantes no modelo instituído em 85 e reformado pelos governos neoliberais.
Essas ameaças à continuidade das mudanças são ameaças que vêm de fora, por assim dizer, mas há ainda um perigo adicional, que nasce nas entranhas do próprio poder reformador. Um perigo que já foi experimentado em Belo Horizonte. O governo Lula é um governo tenso também internamente e umas das razões do seu sucesso é a competência do presidente para administrar tensões. Lula foi sempre o fiel da balança no PT e continuou sendo no governo. No próximo governo petista esse fiel deixará de existir e a luta entre uma ala mais popular e outra mais elitista ficará aberta.
Uma das tentações da ala elitista é fazer alianças com a direita, sendo capaz mesmo de negociar – e na prática entregar – o poder a ela, como aconteceu na capital mineira. Não a direita tradicional, que governou na ditadura, mas a direita “moderna”, que governou com FHC. Especialmente a sua ala pretensamente não ideológica, pragmática. É nesse modelo ideológico “pragmático” que petistas e tucanos se encontram e esboçam um novo modelo conservador de Estado, referenciado muito mais nos Estados Unidos do que na autonomia dos povos indígenas, e que ocuparia a direita no espectro de transformação da “América Latina”. Um modelo capaz de conquistar a adesão das classes médias moralistas, “udenistas”, importantes não só como contingente eleitoral, mas também por sua capacidade de mobilização e convencimento (como ficou demonstrado na eleição para a Prefeitura de Belo Horizonte em 2008).
Como modelo brasileiro, ele teria enorme repercussão em toda a região. A questão é saber se ele ainda é possível, diante da velocidade das transformações em curso, e se tem competência para se impor. Nesse processo são fundamentais as alianças que se formarão na candidatura Dilma; é especialmente importante perceber que lugar ocuparão nela os “pragmáticos” e os “ideológicos”, não apenas do PT, mas também do PSDB.
A libertação dos escravos foi feita por lei assinada pela princesa imperial, a figura feminina mais importante do imaginário popular brasileiro. Seguiu a tradição autoritária inaugurada por seu avô: foi concedida, não foi arrancada pelos escravos. Na verdade, ela legalizou uma situação que vinha se afirmando de fato, mas ao fazê-lo tirou do povo e dos escravos o mérito de conquistá-la.
O modelo vai se repetir com Getúlio Vargas, ao “doar” a estrutura de proteção ao trabalho e criar a CLT. Mais recentemente, volta a acontecer com a redemocratização de 1985, quando as elites primeiro derrotam a emenda das diretas já para em seguida transferir o poder dos militares aos civis conservadores, indiretamente. É um fato recorrente na história brasileira, inaugurado, como disse, na independência, por Dom Pedro I. Um fato que faz diferença na formação de uma nação – os americanos, que conquistaram com armas sua independência, assumem como seus os valores que fundamentam sua sociedade, coisa que nós brasileiros nunca fizemos; o “jeitinho brasileiro” é a forma de o povo demonstrar o tempo todo que finge obedecer, mas não obedece, que finge reconhecer a autoridade, mas não a reconhece, que finge acreditar que este é o seu país, mas sabe que na verdade é o país dos “bacanas”.
Nesse sentido, o governo Lula contém avanços simbólicos importantes, ao demonstrar pela primeira vez na nossa história do que é capaz um simples operário. Mas o governo Lula também tem limitações claras, se olharmos para o que acontece, por exemplo, na Bolívia e mesmo na Venezuela, dois casos distintos na atual onda libertária da América Latina (que, já notou alguém, não deveria se chamar “Latina” e muito menos “América”, pois as civilizações já existiam aqui antes de Colombo, Cabral e Américo quem? Vespúcio. Na verdade, o termo América Latina é politicamente incorreto e ainda será substituído por outro, como “negro” foi substituído por “afrodescendente”, à medida que as populações indígenas assumirem o poder; a palavra é também um instrumento de libertação e de construção da história). O Brasil está mais para Chile, do que para Bolívia e Venezuela. Cada caso, porém, é um caso.
A Venezuela de Chávez está mais para Cuba de Fidel, com uma figura carismática, corajosa, que anda de uniforme militar e fala em socialismo, do que para Bolívia, que também tem uma figura carismática, mas que é a cara dos povos indígenas, cuja ascensão é a essência da revolução. O Brasil, com sua transição conservadora negociada, está mais para Chile, mas Lula tem a cara do povo brasileiro, como Evo tem a cara do povo boliviano. O militar Chávez veio das elites para libertar o povo venezuelano, como Fidel; a doutrina é fundamental para sua legitimação. Entre esses modelos, variáveis e símbolos se move a revolução na “América Latina” – uma mais popular, outra mais institucional; uma mais simbólica, outra mais ideológica; uma mais negociada, outra com rupturas.
Quais as limitações das mudanças no Brasil? O governo Lula promoveu transformações usando estritamente os limites da democracia burguesa representativa tradicional autoritária negociada pelas elites em 1985. Lula não promoveu nenhuma ruptura institucional, seu sucesso é um sucesso político individual somado à competência técnica da sua equipe, contraposto à incompetência e ao autoritarismo milenar das elites conservadoras brasileiras. É um sucesso fundamentalmente simbólico, principalmente quando confrontado com os avanços democráticos de outros povos vizinhos, especialmente o boliviano.
O que se vê na América Latina é um grande exercício para definir qual modelo, entre os dois ou três existentes, obterá mais sucesso num mesmo objetivo: promover a distribuição de renda e de poder, duas faces da mesma moeda que poderíamos chamar de democracia política e econômica. O Brasil parte de vantagens naturais e históricas, que o colocam na condição de potência mundial emergente. Por isso também tudo que se faz aqui é mais relevante, os olhos se concentram aqui e as ações políticas também.
A importância do sucesso brasileiro está no simbolismo de mostrar que um operário é mais capaz para dirigir o país do que os membros das elites jamais foram. O que os bolchevistas precisaram demonstrar depois da revolução russa de 1917, Lula demonstrou no Brasil sem revolução. Os limites das transformações no Brasil são: o presidencialismo com mandato de quatro anos (a reeleição foi uma arbitrariedade criada para beneficiar as elites, mas acabou por beneficiar também as mudanças promovidas por Lula); a concentração simbólica na figura do Lula; a desmobilização popular; a ausência de mudanças democratizantes no modelo instituído em 85 e reformado pelos governos neoliberais.
Essas ameaças à continuidade das mudanças são ameaças que vêm de fora, por assim dizer, mas há ainda um perigo adicional, que nasce nas entranhas do próprio poder reformador. Um perigo que já foi experimentado em Belo Horizonte. O governo Lula é um governo tenso também internamente e umas das razões do seu sucesso é a competência do presidente para administrar tensões. Lula foi sempre o fiel da balança no PT e continuou sendo no governo. No próximo governo petista esse fiel deixará de existir e a luta entre uma ala mais popular e outra mais elitista ficará aberta.
Uma das tentações da ala elitista é fazer alianças com a direita, sendo capaz mesmo de negociar – e na prática entregar – o poder a ela, como aconteceu na capital mineira. Não a direita tradicional, que governou na ditadura, mas a direita “moderna”, que governou com FHC. Especialmente a sua ala pretensamente não ideológica, pragmática. É nesse modelo ideológico “pragmático” que petistas e tucanos se encontram e esboçam um novo modelo conservador de Estado, referenciado muito mais nos Estados Unidos do que na autonomia dos povos indígenas, e que ocuparia a direita no espectro de transformação da “América Latina”. Um modelo capaz de conquistar a adesão das classes médias moralistas, “udenistas”, importantes não só como contingente eleitoral, mas também por sua capacidade de mobilização e convencimento (como ficou demonstrado na eleição para a Prefeitura de Belo Horizonte em 2008).
Como modelo brasileiro, ele teria enorme repercussão em toda a região. A questão é saber se ele ainda é possível, diante da velocidade das transformações em curso, e se tem competência para se impor. Nesse processo são fundamentais as alianças que se formarão na candidatura Dilma; é especialmente importante perceber que lugar ocuparão nela os “pragmáticos” e os “ideológicos”, não apenas do PT, mas também do PSDB.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Imagem de um lance emocionante

A imagem ao lado publicada no Uol é impressionante. Uma grande foto, de um momento preciso, surpreendente pelo que se vê depois e que a fotógrafa não viu na hora. Como em Blow Up, alguém lembra? Grande foto. Impressionante a posição do pé do Ronaldo. Futebol é um esporte único, não à toa é o mais popular. Quem viu o lance se lembra da sequência de emoções rápidas, de desfecho imprevisível, que só o futebol proporciona. Richarlyson perdeu a bola, Ronaldo correu para marcar o gol, Richarlyson se lançou aos seus pés, desesperado, quando Ronaldo se preparava para chutar, dentro da área. Richarlyson tomou a bola, salvou o gol certo, que mudaria a partida. Ronaldo não caiu. Este o detalhe que faz Ronaldo ser o que é: ele não caiu. Qualquer jogador hoje em dia se joga no chão, quando recebe um carrinho. Grande lance, grande recuperação do Richarlyson, grande Ronaldo! Só o desfecho deveria ser outro. Carrinho por trás é falta, não precisa derrubar o adversário, não precisa acertá-lo. Se Ronaldo tivesse caído, provavelmente o juiz apitaria o pênalti. Embora apitar contra o São Paulo seja coisa rara para qualquer juiz.
PS: Também impressionante é o crédito da foto: Nike Futebol.
Rio 1960
Um cantinho, um violão
Este amor, uma canção
Pra fazer feliz a quem se ama
Muita calma pra pensar
E ter tempo pra sonhar
Da janela vê-se o Corcovado
O Redentor, que lindo!
Minha aversão ao capitalismo é inata e se manifesta em tudo que vejo. Poderia cantar com os Novos Baianos:
Por que não viver
Não viver nesse mundo?
Por que não viver
Se não há outro mundo?
Mas viver nesse mundo só dá pé mudando-o. O diabo é que o tempo passa e o mundo muda pra pior! Tudo bem, temos aí o governo Lula, uma época melhor do que qualquer outra da qual me lembre, exceto os anos JK, quando nasci, e o governo Jango, mas estamos longe de ver superados os estragos que o capitalismo faz.
Digo isso a propósito da canção do Tom, um hino de amor ao Rio, quando a cidade postula ser sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Seria estupendo, apesar das considerações do Juca Kfouri, com as quais concordo, mas minha ponderação é outra. Essa Cidade Maravilhosa que Tom cantou não existe mais. A especulação imobiliária e o crescimento desordenado a destruíram há décadas. O Rio deveria ter sido sede das Olimpíadas de 1960!
Este amor, uma canção
Pra fazer feliz a quem se ama
Muita calma pra pensar
E ter tempo pra sonhar
Da janela vê-se o Corcovado
O Redentor, que lindo!
Minha aversão ao capitalismo é inata e se manifesta em tudo que vejo. Poderia cantar com os Novos Baianos:
Por que não viver
Não viver nesse mundo?
Por que não viver
Se não há outro mundo?
Mas viver nesse mundo só dá pé mudando-o. O diabo é que o tempo passa e o mundo muda pra pior! Tudo bem, temos aí o governo Lula, uma época melhor do que qualquer outra da qual me lembre, exceto os anos JK, quando nasci, e o governo Jango, mas estamos longe de ver superados os estragos que o capitalismo faz.
Digo isso a propósito da canção do Tom, um hino de amor ao Rio, quando a cidade postula ser sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Seria estupendo, apesar das considerações do Juca Kfouri, com as quais concordo, mas minha ponderação é outra. Essa Cidade Maravilhosa que Tom cantou não existe mais. A especulação imobiliária e o crescimento desordenado a destruíram há décadas. O Rio deveria ter sido sede das Olimpíadas de 1960!
Espírito de campeão
A briga pelo título brasileiro de 2009 vai ficar mesmo entre Palmeiras e São Paulo, os dois times que apresentam espírito de campeão. A disputa tem um componente psicológico importante: se o São Paulo passar o Palmeiras, sua mística de vencedor pode abalar o adversário. Já o time de Muricy aposta em se manter na frente e ver o outro desistir de persegui-lo. Quando uma coisa ou outra acontecer, o campeonato acabará. Se eu tivesse de apostar, ainda apostaria nos verdes - mesmo de camisa azul.
Vexame no Aflitos
O Náutico mostrou ontem que vai lutar até o fim do campeonato para ser rebaixado. O São Paulo, inversamente, mostrou que não desiste do título. Contou para isso com o adversário e o lugar certos. O Náutico é mestre em oferecer ao inimigo em condições adversas apresentações históricas, basta lembrar do Grêmio, em 2005(?). O calmo treinador Ricardo Gomes vibrou como nunca e saiu com essa, de que foi uma apresentação de campeão. Menos. Mais deméritos náuticos do que méritos sãopaulinos. Poucas vezes vi um time tão incompetente para ganhar um jogo. Afinal, não foi como na Batalha dos Aflitos, que teve um lance mortal. Ontem, o time recifense tinha o placar a favor, dois jogadores a mais e todo o tempo do mundo para vencer. Parecia, no entanto, que era o São Paulo que jogava com dois a mais no seu estádio. Assim fica mais fácil. Mas era preciso vontade de ganhar e algum talento, qualidades que os tricolores demonstraram.
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