quinta-feira, 5 de julho de 2012

Inhotim e a remoção de palmeiras em APP em Goiás

O Instituto Inhotim, famoso internacionalmente, removeu três carretas de palmeiras buritiranas de uma Área de Preservação Permanente na Chapada dos Veadeiros, no município de Cavalcante, em Goiás, "para pesquisas". A extração teria sido autorizada pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio). Diante da documentação apresentada pela equipe do Instituto, autoridades ambientais e policiais locais liberaram o transporte das plantas para Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde está situado o Inhotim. O fato, no entanto, gerou revolta da comunidade, que pediu explicações ao Instituto na rede social Facebook. O Inhotim enviou representantes a Cavalcante, que reconheceram seu erro e prometeram reparação. Talvez ficasse assim, se o professor Eduardo Gomes Gonçalves, do ICB UFMG, que figura como curador botânico no saite do Inhotim, não se manifestasse. Ele contradiz as afirmações do Instituto, afirma que lá não existe área de pesquisa para tanto, sugere que a extração foi feita com fins de paisagismo e desafia o Inhotim a apresentar a documentação que autoriza a extração das três carretas. Por e-mail enviado a amigos, o pesquisador da UFMG vai mais longe e relata sua experiência como criador do Jardim Botânico do Inhotim. Seu testemunho dá pistas de como o Inhotim se tornou o que é. No blog A favor de Cavalcante, além dos textos completos, estão fotos da operação promovida pelo Inhotim na APP de Goiás. Aparentemente, até agora a "grande" imprensa, que trata tão bem o milionário Inhotim, não se interessou pelo assunto. Não é a primeira nem a segunda denúncia contra o Instituto na web.

Do blog A favor de Cavalcante.
Inhotim vem se explicar pela remoção de palmeiras
Uma comitiva do Instituto Cultural Inhotim, de Brumadinho, Minas Gerais, deve vir a Cavalcante nos próximos dias para explicar à cidade o controvertido caso da "expedição" (foi assim que eles denominaram) que fizeram recentemente até aqui para a extração de touceiras da palmeira buritirana na nascente do rio Matias. O episódio gerou polêmica que ganhou espaço principalmente na rede social Facebook, depois de ter envolvido até a Polícia Militar e o Ministério Público, além de órgãos ambientais goianos, quando a equipe foi flagrada enchendo uma carreta com as plantas.
O secretário municipal interino de Meio Ambiente de Cavalcante, Luís Roberto do Nascimento Santos, o Beto, conta que, alertado para o que estava ocorrendo, requisitou escolta policial e dirigiu-se imediatamente ao local, onde um caminhão com braço mecânico era usado para encher com touceiras da planta a carroceria de uma carreta. Quando o secretário quis saber o que se passava, o biólogo Pablo Hendrigo Alves de Melo, que coordenava a coleta, apresentou-lhe uma autorização expedida pelo Sisbio – Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade, órgão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente.
Além da autorização, o biólogo apresentou uma cópia do projeto no qual estava trabalhando e que consistia na coleta de amostras das diferentes espécies de palmeiras existentes em todo o território nacional para preservá-las no grande jardim botânico que a instituição mantém em Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte.
Segundo o projeto, o objetivo é promover lá a multiplicação das palmeiras para depois disponibilizá-las para reflorestamento em locais onde foram extintas. (...)
Não convenceram
As explicações oficiais, no entanto, não convenceram cavalcantenses preocupados com a preservação ambiental e que, indignados, submeteram a assessoria de Comunicação do Instituto Inhotim a um autêntico bombardeio de questionamentos pela rede social Facebook. Em sua resposta, em momento algum a Inhotim contestou as afirmativas de que foram levadas três carretas com exemplares da palmeira. Abaixo, algumas das manifestações registradas no Facebook e, ao final, a resposta da Inhotim.

Richard Avolio A população de Cavalcante Chapada Dos Veadeiros pede esclarecimentos e um posicionamento do Instituto Inhotim quanto a retirada de diversos exemplares de palmeiras com destino ao projeto "Conservação de Palmeiras Ameaçadas do Brasil". A retirada esta sendo feita de forma danosa, são 3 carretas cheias de palmeiras, retiradas em um mesmo local! Há um documento de autorização emitido pelo ICMBio no qual o instituto aparece como a instituição responsável (emitido em 7/3/2012 sob o número 95646529. Já foi enviado e-mail ao Instituto mas o mesmo não foi respondido! Queremos entender por que vir tão longe buscar estas palmeiras, porque a retirada esta sendo feita de forma tão agressiva, praticamente dizimando a vegetação de uma área úmida nas proximidades da cidade!!!!!
Carol Ângela Rodrigues Bom dia! Gostaria de saber mais informações sobre a retirada de 3 carretas de buritirana de Cavalcante… a licença que nos foi apresentada tratava de pesquisa mas eu, particularmente, fiquei questionando que tipo de pesquisa precisa de 3 carretas de material? Aguardo retorno. Obrigada
Thiago Roots Sou morador de Cavalcante, Chapada dos Veadeiros – GO. Admirador do trabalho desenvolvido pelo instituto, trabalho com paisagismo integrado e entendo a necessidade do contato e conhecimento da flora brasileira para sua preservação. No entanto, nós moradores, não entendemos como se deu a licença para retirada das mudas de Buritirana em nossa cidade, visto que a área é considerada uma APP, e importante manancial hídrico da cidade. Pedimos uma explicação do caso para a população. Que venham expor os conceitos do Instituto Inhotim, e compensem a comunidade pelo mal já feito. O fato da retirada das mudas ter sido feita em propriedade particular não justifica a ação. A Buritirana é uma palmeira defendida por lei e de suma importância na manutenção do equilíbrio no Bioma Cerrado. Sabemos da relevância do projeto e não é isso que refutamos, mas sim, amaneira que foi feita a retirada das mudas, sem noção do impacto causado pela concentração da área explorada. Tínhamos a vereda do Matias com potencial turístico, local de parada com turistas parta visualização e conscientização ambiental. Entendam que esta ação pode abrir precedentes para outras do tipo.
A íntegra.

Inhotim reconhece erro e oferece compensação 
Depois de ouvir em silêncio uma longa, inflamada e contundente série de cobranças e acusações, os dirigentes do Instituto Inhotim que vieram a Cavalcante se explicar pela polêmica coleta de buritiranas surpreenderam a todos na noite de ontem reconhecendo explicitamente que erraram naquele episódio, pedindo desculpas e prontificando-se a oferecer à comunidade alguma contrapartida.
Em lugar do anunciado diretor de Meio Ambiente e Jardim Botânico, Joaquim de Araújo Silva, quem acabou vindo foi a chefe dele, a diretora executiva da instituição, Roseni Sena, acompanhada do diretor de Comunicação, Ronald Sclavi e o biólogo Pablo Hendrigo Alves de Melo, o chefe da controvertida "expedição" para a coleta das palmeiras. Eles ouviram indignadas manifestações de suspeita de que o material coletado se destinaria a projetos de paisagismo e não a pesquisas e até dúvidas de que o proprietário do terreno tivesse de fato apenas feito a doação e não venda das plantas lá coletadas.
Sem respostas
Quando se esgotaram as manifestações, Roseni Sena reconheceu como "autêntica" a indignação da comunidade, admitiu que o Inhotim não tinha como responder aos questionamentos, mas contestou algumas das suspeitas levantadas: convidou quem se interessasse a ir até o Jardim Botânico Inhotim para ver como aquelas buritiranas encontram-se efetivamente na área de pesquisas e assegurou que elas se destinavam exclusivamente a pesquisas sobre a multiplicação e intercâmbio com outros jardins botânicos, jamais para comercialização ou projetos de paisagismo. (...)

9 respostas para Inhotim reconhece erro e oferece compensação 
Eduardo Gonçalves
13 de junho de 2012 at 11:45 am
É inadmissível. Não existe "área de pesquisa" no Inhotim para três carretas de buritiranas. Eu sei porque eu estruturei a área de pesquisa botânica, de 2009 a 2011. Se fossem coletas para conservação, plantas seriam retiradas de locais diferentes, para garantir alta diversidade genética. Além disso, a retirada em APP, especialmente em nascente (principalmente com equipamento de alto impacto como munck e o grande número de pessoas) necessitaria uma autorização especial do órgão local, não uma autorização de coleta do sisbio. Aliás, o secretário de Meio Ambiente deve saber disso. Peçam uma consulta ao Ministério do Meio Ambiente via Ministério Público e a verdade deve ir à tona. A desculpa é muito frágil e qualquer técnico do MMA ou do Ibama ou do ICMBio em Brasilia pode reconhecer as irregularidades.
Bom, se a comunidade de Cavalcante vai engolir isso e se contentar com os "espelhinhos" como se fossem índios dos tempos de Cabral, aí é outra coisa. Como frequentador de Cavalcante, sei que existe aí uma sociedade suficientemente organizada para não aceitar sem exigir muito mais que essa "visitinha". Exijam uma comunicação formal, no próprio saite do Inhotim, com anuência do ICMBio (se a coleta foi autorizada). Vocês verão a casa cair…
A íntegra.

O e-mail do professor Eduardo
Caros amigos.
Na quarta-feira desta semana, vários amigos entraram em contato para saber sobre a história que se segue e se eu tinha algo a ver com isso. O saite diz tudo por conta própria, sigam o link:
http://afavordecavalcante.wordpress.com/2012/05/10/inhotins-vem-a-cavalcante-se-explicar-pela-remocao-de-palmeiras/
Em 2009, fui convidado para trabalhar no Instituto Inhotim. Até então, era um lugar belíssimo, com um museu de arte contemporânea e o interesse em gastar para estruturar uma coleção de plantas. Percebi que era o momento perfeito de tentar criar um novo jardim botânico, com dinheiro e força política para alavancar os outros Jardins Botânicos no cenário brasileiro. Eu acredito em Jardins Botânicos! Envolvi-me profundamente na empreitada e conseguimos (eu, minha esposa e vários parceiros idealistas) estabelecer um jardim botânico com uma estrutura incomum, mesmo para padrões internacionais.
Quando escrevi pessoalmente cada palavra da missão que consta no saite oficial, cristalizei aquilo que pensei ser a missão do jardim botânico perfeito. Instituímos uma área de pesquisa, contatamos outros jardins, intercambiamos plantas e trabalhamos em importantes projetos de resgate em áreas sujeitas a supressão de vegetação. Em 2010, lançamos o Jardim Botânico Inhotim, com uma bela cerimônia e presença da Rede Brasileira de Jardins Botânicos (e muitos de vocês...). Em 2011, sediamos a própria reunião da RBJB. Era um sonho concretizado.
Mas nem tudo são flores... Quando cheguei para trabalhar no Inhotim, o Sr. Bernardo Paz (o proprietário) costumava comprar plantas retiradas da natureza sem autorização, em grandes quantidades. Por mais que tentássemos convencê-lo a mudar esta prática (pois sabemos que existem alternativas sustentáveis) não consegui mudar esta cultura. Achei que a criação do Jardim Botânico simplesmente traria outras possibilidades para a obtenção legítima de material botânico.
Nós da área de meio-ambiente esclarecemos aos diretores (executivo, financeiro e jurídico) que a simples conversão do Instituto a Jardim Botânico obrigaria a suspensão destas práticas. A proposta foi prontamente apoiada por estas instâncias, por dois motivos. Sair da ilegalidade e redução de gastos (cada carreta de palmeiras custava R$ 50.000,00 e isso abalava as contas do instituto). Sugerimos um termo de ajuste de conduta, para "zerar" o passivo. Mas não adiantou...
Então expliquei que, era possível retirar plantas da natureza, desde que em pequena quantidade (de preferência na forma de sementes) e e com autorização. Falei sobre resgate de flora, como forma de obter exemplares adultos. Mostrei que existia o SisBio e todo o protocolo. Nós, os curadores, chegamos a escrever cartas tanto de alerta quanto de repúdio (envio a quem quiser ver) em relação a estas práticas. Mas foi em vão.
Hoje, vejo o jardim botânico que visceralmente ajudei a criar, usando autorizações "oficiais" para retirar três carretas de palmeiras, ainda mais em uma área de vereda, que são protegidas por lei por serem APP. Sei que ninguém do ICMBio (em sã consciência) daria autorização para tal empreitada. Para multiplicar esse material, bastava apenas três a cinco plantas adultas e bem cuidadas, desde fossem escolhidas plantas geneticamente distantes.
Sempre achei que jardins botânicos deveriam ter autorização absoluta de coleta, pois ninguém mais que nós sabe como podemos retirar plantas para conservação ex situ sem destruir uma população. Hoje vejo uma instituição usando os recursos legais (que eu e outros mostramos) para extrair plantas da natureza para fins pouco nobres, como completar o paisagismo. Para isso, existem viveiros comerciais, que multiplicam legalmente seus plantéis. Hoje biólogos e outros profissionais são usados de "laranjas" e o ICMBio usado como "parceiro". É o mais autêntico caso de Greenwashing que eu conheço.
Devo explicar-me. Até então, calei-me por questões contratuais, mas descobri recentemente com advogados que não preciso me calar sobre questões de ilegalidade. Não sou mais curador do Inhotim e nunca compactuei com estas ações. Mas devo satisfações a vocês, que me ajudaram quando eu tinha um sonho na cabeça. Eu ajudei a criar um monstro e posto aqui o meu mea culpa.
Atenciosamente,
Eduardo.
Prof. Dr. Eduardo Gomes Goncalves
Depto. de Botânica, ICB, UFMG
Av. Antonio Carlos, 6627, Pampulha
31.270-901, Belo Horizonte, MG, Brasil
Fone: (31) 3409-2689
Fax: (31) 3409-2684
eduardog@ufmg.br

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