terça-feira, 12 de novembro de 2019

Os milhões de dólares do Bolsa Capital

Publico a matéria abaixo por três motivos. O primeiro é que sou amigo do Nairo; o segundo é para chamar atenção para o blog Além do Fato; o terceiro é chamar atenção para a notícia.

Nairo é um amigo extraordinário e talvez o melhor repórter de economia de Minas, há décadas. Tem um defeito: escrever para seus iguais, isto é, quem conhece como ele. Não escreve para o público leigo, e por isso sempre precisou de um editor puxando sua orelha, lhe dizendo isso, pedindo que explique ao leitor comum conhecimentos básicos que ele menospreza porque domina. Nesta matéria, por exemplo, o que é semicondutor, para que serve, a importância econômica e tecnológica da fábrica para o país.

Além do Fato é um blog relativamente recente ancorado no portal Uai, liderado pelo experiente Orion Teixeira, com notícias produzidas também pelos não menos experientes Nairo e Ricardo Campos. Oxalá prospere; o jornalismo depende para sobreviver de iniciativas dos jornalistas. Os colegas de Alagoas estão dando o exemplo. A gente nota logo que as páginas estão cheias de anúncios, mas, na internet, isso não significa que os autores estejam faturando, como nos impressos. O dinheiro da publicidade na internet não vai para o veículo e o portal que o ancora também não paga os autores como um jornal paga um jornalista. Trata-se de um mercado muito lucrativo para gigantes multinacionais (Gg e Fb, em especial), baseado num tipo de trabalho parente do trabalho escravo, no qual todos nós estamos produzindo conteúdos de graça, e aqueles que descobrem como faturar, os que se tornam fenômenos de público, tornam-se também milionários. Não é o caso dos jornalistas, mas quem sabe será ainda?

Quanto à notícia, em resumo ela expressa o que não se fala: o Estado brasileiro distribui dinheiro à vontade para empresários, "investidores", capitalistas, enfim. E a imprensa se cala, os indignados se calam, a direita se cala. Estes só atacam o dinheiro gasto com a previdência, Bolsa Família, SUS, universidades públicas, educação básica, enfim, com o dinheiro cujos destinatários são o povo, os pobres, os trabalhadores. O Bolsa Capital ninguém ataca. E é ele que destrói o Brasil, que quebra o Brasil.

O Bolsa Capital come metade do orçamento brasileiro. Todo mundo sabe disso, toda a imprensa, todos os especialistas, todos os políticos. No entanto, não existe nenhuma campanha e nenhum programa de governo pretendendo reformar os bancos. Ao contrário, todo o esforço do governo, com apoio da imprensa e especialistas dizendo que "é necessário", é feito no sentido oposto: economizar nos gastos com o povo para sobrar mais dinheiro para pagar os bancos.

Todas as reformas "necessárias" são feitas para isso, para que o governo tenha dinheiro para pagar suas dívidas com os bancos.

Um absurdo do qual poucos falam e quando falam são ignorados ou duramente atacados -- pela imprensa, pelos especialistas, pelos governos. Por quê? Porque a opção da imprensa, dos especialistas, dos governos é pelo capital. Governos, especialistas e imprensa são representantes do capital. Simples assim.

E quando se fala em Bolsa Capital não se fala em 89 reais por família, fala-se em milhões de dólares por empresa.

Essa notícia é mais uma sobre um assunto que fica escondido do leitor, dos cidadãos, dos pobres, dos trabalhadores, do povo, dos brasileiros: as montanhas de dinheiro que o Estado gasta com empresários, enriquecendo "investidores", transferindo riqueza de pobres para ricos, destinando a uns poucos o dinheiro arrecadado com impostos cobrados de todos nós. Simples assim.


BNDES abandona Unitec e faz cobrança extrajudicial

por Nairo Alméri | publicado: 12/11/2019

BNDES bancou 33% dos quase R$ 1 bilhão investidos Unitec Semicondutores (foto). Agora recorre à Justiça para receber o financiamento vencido e não liquidado. Foto: Facebook/Unitec Tecnologia

O BNDES não quer perder mais tempo com a Unitec Semicondutores, de Ribeirão das Neves. O banco é acionista-investidor, tendo aportado 33,02% do cerca de R$ 1 bilhão aplicados na sociedade. A empresa, porém, não superou os estágios da construção civil, montagem de equipamentos (muitos deles usados) e comissionamentos etc. Nem todos os equipamentos foram instalados. 

Em agosto, precisava de mais US$ 80 milhões, para montar a parte fundamental da fabrica de chips. Mas, por falta de garantias, há três anos nem os acionistas-investidores estatais (o outro é o BDMG) nem a Finep colocam dinheiro.

A última tentativa de uma tábua de salvação para a Unitec foi em 29 de agosto, em reunião no BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais). Teve participação de representante da Finep (Financiadora de Pesquisa e Inovação/Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação).

Aquela rodada ocorreu após duas convocações frustradas de AGEs dos acionistas (12 e 28 de agosto). Em ambas, a ordem do dia previa a desde a venda dos equipamentos à extinção da fábrica. O extremo seria na hipótese de os acionistas não aprovarem aportes de capital nem identificado outro investidor. Todas as partes silenciaram sobre a tal AGE e a reunião no BDMG.
BNDES tornou reunião inútil

Mas, fato é que, em 22/8 (bem antes da reunião no BDMG), já estava publicado despacho da juíza Andrea de Araújo Peixoto, da 26ª Vara Federal, do TRF-RJ, autorizando o BNDES a executar extrajudicial a dívida Unitec. Contudo, deixava brecha para, em até 15 dias, independentemente de penhora, para executada impetrar ação de embargo.

Clique aqui para ler a íntegra no blog Além do Fato.

O gráfico abaixo foi reproduzido do saite Auditoria Cidadã da Dívida.

https://auditoriacidada.org.br/wp-content/uploads/2019/02/grafico.jpg

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