quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Não começou agora

Ontem, enquanto o Flamengo comemorava os títulos brasileiro e da Libertadores, a Câmara aprovou a transformação dos clubes em empresas.O brasileiro é basicamente um povo que abdica, como talvez nenhum outro, de construir a sua nação.

A Cemig e o Cruzeiro

“O povo que abdica do seu direito não pode queixar-se dos seus opressores.” (Luís Felipe de Saldanha da Gama, 7 de dezembro de 1893.)

Nesta quarta-feira 27/9/17 dois acontecimentos importantes aconteceram para Minas Gerais. O primeiro foi o leilão de quatro usinas hidrelétricas da Cemig – Companhia Energética de Minas Gerais pelo governo federal; o segundo, a conquista da Copa do Brasil pelo Cruzeiro sobre o Flamengo, nos pênaltis. A vitória do clube belo-horizontino, tarde da noite, mobilizou e foi festejada com foguetes por uma quantidade tão numerosa de torcedores que, se quisessem, sozinhos, eles teriam derrubado o presidente golpista Temer. Ainda agora, no dia seguinte, espocam foguetes e ecoam gritos de torcedores. Já a venda das usinas da Cemig foi ignorada.
Os mineiros assistiram impassíveis à entrega a investidores chineses de hidrelétricas construídas com recursos, tecnologia e mão de obra nacionais, ao longo de seis décadas, para gerar energia para o estado e para o país. Sem as usinas, a Cemig, uma estatal gigante do setor, criada nos anos 50 do século passado para promover o desenvolvimento de Minas e do Brasil, torna-se uma empresa menor, quase anã. O preço da hidreletricidade fornecida aos mineiros e brasileiros tende a aumentar e a participação do negócio energia no desenvolvimento tende a diminuir. O governo federal vendeu as usinas para fazer caixa e pagar suas contas do ano, como quem vende o apartamento em que mora para pagar a taxa de condomínio e as contas em atraso.
Um terceiro fato importante aconteceu no mesmo dia: o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou por 6 votos a 5, com o voto de minerva da presidenta Cármen Lúcia, mineira, o ensino religioso nas escolas públicas.
Vale lembrar que na Monarquia brasileira o Estado e a religião católica estavam unidas, o catolicismo era religião oficial e o imperador era o chefe da igreja. A República, implantada a partir de 1889, separou Estado e religião, estabeleceu o Estado laico. Estamos voltando, portanto, 128 anos depois, ao século XIX. O golpe em curso no Brasil, desde 2016, faz a nação retroceder aceleradamente a etapas superadas do seu desenvolvimento. Neste caso, ao século XIX; no caso das riquezas nacionais, o retrocesso é ainda maior: voltamos ao período colonial, aos tempos anteriores à chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808.
Observo também alguns detalhes significativos que expressam a extensão do golpe. O golpe não é só do presidente ilegítimo Temer, nele estão envolvidas todas as instituições republicanas: os governos estaduais, o judiciário, o legislativo, o empresariado, a imprensa.
O governador, Fernando Pimentel, do PT, fez pronunciamento divulgado em vídeo lamentando a venda das usinas e afirmando que o tempo dirá se foi boa para o Brasil, que com certeza não foi para Minas. Ponto final. Em outros tempos, quando o então presidente FHC quis vender Furnas, o governador Itamar Franco respondeu que reagiria com armas.
Quem não reage ao golpe também participa dele.
O golpe contra o caráter laico do Estado foi dado pelo STF. O golpe primeiro, da destituição da presidente Dilma, foi dado pelo Congresso. O golpe antes do golpe, a não aceitação do resultado da eleição, foi dado pelo candidato derrotado, pelo então principal partido de oposição. O golpe da “legitimação popular” foi dado nas ruas pela minoria derrotada nas urnas. A mobilização popular para apoio ao golpe foi estimulada pela imprensa. O golpe de destruição do principal partido político nacional e do maior líder da história brasileira foi feita pelo Judiciário, pela Procuradoria Geral da República, pelo Ministério Público, pela Polícia Federal e pela imprensa.
É da cultura dos brasileiros se mobilizarem no futebol e no carnaval e ignorarem a política. Faz parte da cultura dos brasileiros agirem apaixonadamente na vida privada e com apatia na vida pública. É claro que o espaço que os brasileiros do povo não ocupam na política é ocupado por outros brasileiros, das elites econômicas e sociais.


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