sábado, 25 de janeiro de 2014

BH "custa" meio trilhão de reais?

Há alguns dias calculei, com base em informações divulgadas pela Prefeitura, a propósito da cobrança do IPTU, que Belo Horizonte "custaria" R$ 143 bilhões. O cálculo considerou o número de imóveis que pagaram IPTU em 2013 (724 mil), o total do imposto arrecadado (R$ 1,2 bilhão) e o índice médio do imposto (0,7%).
A minha motivação para essas contas é a perplexidade diante da especulação imobiliária expressa nos preços exorbitantes de imóveis nos anúncios nos jornais.
Pelo cálculo da PBH, o valor médio de um imóvel na cidade é de R$ 197 mil. O valor me pareceu muito abaixo daqueles que constam dos anúncios das imobiliárias. Escrevi que, de acordo com o "mercado", o valor seria pelo menos o dobro. Não estava enganado.
Folheando um jornal local, hoje, deparei com duas páginas de anúncios de imóveis contendo preços. Somei e dividi: os 76 imóveis totalizaram R$ 73,5 milhões, o preço médio ficou em R$ 967 mil -- quase um milhão de reais!
São principalmente imóveis localizados na zona sul, mas não só: há também em bairros como Palmares, Bela Vista, Jardim América, Itapoã, Fernão Dias, Dona Clara, enfim, várias regiões da cidade; alguns são novos, outros não.
Resolvi conferir com os anúncios de outra imobiliária e o resultado foi até mais alto: 17 imóveis somaram R$ 16,7 milhões e o preço médio ficou em R$ 982 mil.
Um terceiro anúncio, com 19 imóveis, dá a soma de R$ 15,4 milhões e o preço médio de R$ 813.
Sejam R$ 967 mil, sejam R$ 982 mil ou R$ 813 mil, haja especulação imobiliária!
O salário mínimo deste ano é de R$ 724 e a elevação do seu valor -- acima da inflação -- vem sendo celebrada como uma das razões do aumento do poder de compra do brasileiro e do crescimento da classe média.
No entanto o brasileiro que ganha salário mínimo precisa destinar toda sua renda durante mais de mil meses (83 anos) para pagar um apartamento em BH.
Para o trabalhador médio brasileiro, a tarefa não é mais fácil.
Segundo o IBGE, o salário médio do trabalhador brasileiro era de R$ 1.792,61 em maio de 2013.
Esse trabalhador levaria 453 meses (quase 38 anos) para pagar o tal apartamento -- mais uma vez destinando toda sua renda para isso.
A R$ 813 mil, os 724 mil imóveis existentes na cidade somam -- de acordo com o "mercado imobiliário" -- mais de meio trilhão de reais (R$ 588 bilhões, cerca de um oitavo do PIB brasileiro)!
São números de uma economia de ficção, irreal.
A indústria da construção civil já há um bom tempo vem dando ênfase à produtividade e ela deve ter aumentado de forma expressiva: temos visto edifícios de mais de dez andares sendo concluídos em dois anos.
Um número da economia real que seria interessante conhecer é quanto custa à construtora um desses apartamentos vendidos por quase R$ 1 milhão.
Outro aspecto interessante de tudo isso é que está em andamento o maior programa de construção e financiamento de moradias populares da história do Brasil, o Minha Casa Minha Vida.
Este programa, segundo balanço divulgado no dia 27 de janeiro pela Caixa Econômica Federal, já contratou 3 milhões 240 mil unidades habitacionais.
Em 2013 foram 1,9 milhão de contratos somando R$ 134 bilhões 900 milhões, números que dão um valor muitas vezes inferior aos do mercado: R$ 71 mil em média por moradia.

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