terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Amor

Na cena-chave de Amor o casal recebe um jovem pianista, que faz sucesso e se apresenta em sucessivas excursões. É com sua apresentação em Paris, aliás, que o filme começa. A protagonista foi sua professora e está feliz com sua visita, mas está já na cadeira de rodas, visivelmente abatida pela invalidez. O rapaz fica chocado com seu estado e quer saber como aconteceu; ela pede que ele fale do seu trabalho e que toque para ela. Ele concorda, mas não aprende: mais tarde envia-lhe um cartão dizendo da sua alegria e da sua tristeza naquele encontro e a velha mestra reage da mesma forma.
Amor (em cartaz no Belas Artes Liberdade) é um dos mais belos filmes dos últimos anos. Michael Haneke nos conduz com delicadeza, precisão, segurança e ainda assim de forma surpreendente por um caminho que não queremos percorrer. Nos faz ver o que não queremos ver, nos leva a pensar no que evitamos pensar. Emmanuelle Riva está soberba, Jean-Louis Trintignant está magnífico -- haverá adjetivos mais apropriados?
Amor é um filme sobre o amor -- do marido idoso pela mulher idosa --, mas poderia ter outro nome -- insensibilidade ou estupidez, talvez --, caso quisesse realçar o comportamento da filha ou do discípulo, que expressam, ambos, o comportamento predominante na sociedade.
A estupidez da civilização capitalista é incapaz de lidar serenamente com essa questão que todas as outras civilizações "atrasadas" enfrentaram. Anna é uma octogenária, que teve uma vida feliz, inclusive no casamento, esse feito raro, e adoece. Seu presente é a doença e seu futuro é a morte, ela quer alegria e alívio. Por que tem de viver seus últimos dias sofrendo cada vez mais? Por que prolongar sua vida artificialmente num hospital? Por que encerrá-la numa casa de saúde aos cuidados de "profissionais" (como a enfermeira que o marido dispensa, demonstrando lucidez)? Estas são as soluções convencionais que o marido recusa, obedecendo a mulher, por amor.
Não se trata da vontade ou do conforto do doente, mas da conveniência de uma sociedade sem amor: conveniência de filhos que não têm tempo para os pais; conveniência de jovens que estão mergulhados na sua vida de sucesso, como se a juventude fosse eterna e as desgraças só acontecessem aos outros; conveniência de profissionais que ganham fortunas para "prestar serviços" que detestam para doentes que desprezam; conveniência de uma vasta indústria da doença, que inclui hospitais, laboratórios, clínicas, fabricantes de medicamentos e aparelhos etc.
A civilização capitalista liberal, que vende o "amor" em cada filme, como uma mercadoria muito lucrativa, deixa a cada indivíduo o ônus de enfrentar um problema -- o da velhice, da doença, das crescentes incapacidades, da invalidez e da morte -- que civilizações antigas resolveram de forma coletiva e digna. Envelhecer e morrer com amor é tão importante quanto viver com amor.

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