segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A imprensa brasileira contemporânea

Deprimente, pobre, idiota, reacionária, inútil. E uma rara reportagem. Ivete Sangalo é aquela cantora que ganhou R$ 650 mil para inaugurar hospital público no Ceará.

Do Observatório da Imprensa.
A realidade rasga a fantasia
Por Luciano Martins Costa
As edições dos jornais da segunda-feira (11/2/13) de carnaval são o retrato congelado da nova realidade da mídia: nenhum lampejo de criatividade, nenhum brilho, nenhuma tentativa de diferenciar a cobertura. A descrição dos desfiles é fria, padronizada como uma planilha de jurado, as páginas repetem os registros da sucessão de carros alegóricos e explicações sobre enredos de desfiles. As imagens de mulheres seminuas poderiam ter sido feitas cinco anos atrás. Eventuais tentativas de reproduzir o humor da festa soam deslocadas nas páginas estáticas.
Como rescaldo da tragédia que ceifou a vida de 239 jovens em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, no dia 27 de janeiro, algumas reportagens citam medidas de segurança tomadas nos grandes bailes do Rio e São Paulo. Ainda assim, ganha espaço a falta de planejamento dos destiles de blocos no Rio, com excesso de público e muita confusão.
No mais, os batalhões de repórteres e colunistas destacados para cobrir os eventos mais badalados se concentram em registrar os sorrisos, acenos e eventuais bocejos de celebridades estrangeiras convidadas sob patrocínio das fábricas de cerveja. Nada muito diferente das crônicas das cortes europeias do século 18.
Em meio à festa, porém, uma página inteira da Folha de S. Paulo chama atenção: traz uma longa entrevista com o presidente do tradicional bloco baiano Olodum, João Jorge Rodrigues, no qual ele denuncia a desigualdade na distribuição dos recursos para o carnaval de Salvador e a tentativa de deslocar os artistas negros para uma área restrita chamada de "afródromo". O desabafo do dirigente desnuda o segregacionismo que impera na Bahia e que, mal ou bem, era dissimulado durante o carnaval.
Apenas pelo fato de se deslocar da cobertura festiva e alienada e abrir espaço para a realidade em meio à fantasia carnavalesca, a entrevista merece um olhar cuidadoso. Estão ali expostas, de maneira clara, as mazelas da política cultural, que repete na principal festa oficial do país o sistema excludente que ainda persiste na sociedade brasileira.
A frase mais emblemática do entrevistado representa bem o que o turista e o leitor pode não perceber em meio à empolgação da cobertura jornalística: "A Bahia se tornou a terra de uma artista só – Ivete Sangalo".
A íntegra.

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